Afonso é lançado à prateleira repleta de remédios, que se espalham pelo chão. Charlie segura-o pela gola da jaqueta e o prensa contra a madeira de forma arrogante. O americano tenta se soltar, mas o rosto vermelho e olhos raivosos do monegasco o calam de comentários ácidos ou maiores reações.
O corredor está vazio e nem mesmo as câmeras flagram aquele momento de descontrole, contudo ainda se o lugar tivesse repleto de pessoas Charlie não conseguiria se conter por tamanha repulsa e raiva que assumiram o seu corpo.
— Foi você! – Charlie esbraveja.
— Eu o quê, Lacroix? Tá louco? – o rapaz pergunta alarmado. – Me solta, cara.
— Causou o acidente. – o monegasco diz entredentes. – Você fechou o Robert de propósito. Ela poderia ter se machucado feio, Pessoa!
— Me larga, Lacroix. – Afonso diz, tentando se soltar. Ele vê alguém passar longe no corredor e grita: – Alguém, ajuda aqui!
— Diz! – Charlie o pressiona ainda mais. – Foi de propósito?
Afonso encara o monegasco nos olhos e seus lábios se erguem involuntariamente, não era algo que ele conseguisse controlar. Era explícita sua tamanha satisfação por ter menos dois competidores na corrida.
— Desgraçado. – Charlie diz e acerta um soco no rosto do rapaz.
Afonso cai no chão e cospe sangue da boca, também tosse algumas vezes, antes de se erguer lentamente. Ele limpa o sangue da bochecha com as costas da mão e volta a encarar Charlie.
— Admita em bom e alto tom, eu quero ouvir você dizer. – o piloto o puxa pela gola da camisa novamente, agora respingada pelo líquido vermelho. No entanto antes que Afonso respondesse duas mãos afastaram Charlie de forma brusca do americano.
— Admite, seu merda! – Charlie grita, sendo contido por dois seguranças. – Não seria a primeira vez.
Um enfermeiro vai até Afonso e pergunta se ele está bem, conferindo o sangue que escorria do corte que abriu em sua bochecha e lábio.
— Eu sinceramente não sei do que você está falando, Lacroix. – Afonso diz tranquilo, com a face sínica. – Acidentes acontecem, você mais do que ninguém deveria saber disso. Claro que eu não colocaria a vida dos meus colegas em risco.
— Se você planejou isso, eu juro...
— Charlie? – a voz de Cris surge no final do corredor o interrompendo. – O que está acontecendo aqui?
A loira se aproxima rapidamente, alarmada.
— Não foi nada demais. – Afonso se adianta em dizer. – Só um pequeno desentendimento entre ex-colegas.
Charlie respira fundo e surpreendentemente consegue se controlar. Os seguranças conferem o estado do monegasco antes de soltar o aperto.
— Meu Deus, você bateu nele? – a empresária questiona ao notar o americano com sangue no rosto e roupas, e entra no campo de visão de Charlie. – O que deu em você?
Por um relance Charlie consegue ver Afonso sorrir novamente.
— Eu vou te matar, Pessoa! – o monegasco esbraveja ao rapaz e os seguranças se reaproximam, segurando-o pelos braços.
— Sem violência, Lacroix. – Afonso ri erguendo as mãos em forma de rendição. E diz ao enfermeiro: — Eu já estava de saída, obrigado. Estou bem. – ele passa pelo piloto – Você precisa de tratamento, Charlie. Tem uns parafusos à menos aí.
Eles observam o americano caminhar tranquilamente até o elevador e ir embora.
Os seguranças olham Charlie ainda receosos e ele diz: — Estou bem, podem ir. Obrigado. E... Me desculpem por isso. – ele aponta para os medicamentos caídos ao chão, frascos quebrados e embalagens destruídas.
— Limpeza no corredor 5. – o enfermeiro diz à alguém por seu pager.
Assim que os demais se vão e ficam somente o piloto e a empresária no corredor, Cris chama a atenção dele ao cruzar os braços à frente do peito e encara-lo com olhos sérios.
— Vai me falar o que está acontecendo aqui?
Charlie respira fundo e passa as mãos pelo rosto vermelho antes de dizer: — Vamos, eu te pago um café.
(...)
— O que aconteceu com a sua mão? – Liza pergunta à Charlie ao notar a base da mão avermelhada e adquirindo uma coloração roxa.
Ele olha para a própria mão e franze a testa.
— Trombei na mesa de transmissão na correria do acidente, eu acho. – ele diz dando de ombros – Fico roxo com facilidade.
— O próprio pêssego. – ela ri e o abraça de lado, pegando o tablete das mãos dele para rever as configurações do carro que era reconstituído em sua frente. Charlie a aperta em seus braços e apoia o queixo no topo da cabeça da pilota.
Há exatos quarenta minutos Eliza havia recebido a liberação do médico para ir para o seu quarto de hotel e ter uma noite tranquila de repouso, no entanto, ao invés disso ela correu com o engenheiro chefe e os mecânicos para a garagem da Pruma para ajudar na reconstrução.
O relógio marcava três e trinta da madrugada e os rapazes trabalham com agilidade e destreza, vez ou outra tomando goles e goles do café que Fábio trazia da lanchonete em viagens frequentes.
— Toc toc — a voz de Mike soa na entrada da garagem – Uau, estamos a todo vapor por aqui.
— Mike. – Liza sorri se soltando de Charlie. – O que está fazendo aqui?
— Eu fui te visitar no hospital, mas não me deixaram entrar porque aparentemente o quarto já tinha ultrapassado o limite de visitantes. – ele diz se aproximando da mesa de central da engenharia mecânica, onde Liza e Charlie estavam. – Cris me avisou que tinha sido liberada e eu imaginei que estaria por aqui. Você está bem?
— Sem nem um arranhão. – ela sorri para o parceiro ao dar uma volta girando os pés em 360º.
— Isso me deixa muito feliz, você deu um baita susto na gente. – ele declara. – Parabéns pela sua pole, e sinto muito que tenha que sair em último lugar pelo descuido de um moleque idiota.
— Robert estava terminando a volta rápida, a culpa não foi dele. – Liza diz tranquilamente.
— Não estou falando dele, — Mike diz e Charlie fica em alerta. – o Pessoa foi quem deu uma fechada sem sentido nele. Ele estava no teste de pneus, não tinha que entrar para os boxes naquela hora.
Liza franze a testa e diz: — Você tem o vídeo do acidente aí? Eu ainda não vi.
Mike tira o celular do bolso do short que usava e a entrega depois de clicar algumas vezes na tela.
A pilota assiste o vídeo com atenção, voltando algumas vezes para o momento da fechada.
— Isso não tem sentido nenhum. – ela concorda, devolvendo o celular ao parceiro. – O Afonso tem feito muita burrada ultimamente nas pistas, o pior é que sempre acaba envolvendo outros pilotos. É perigoso.
— Não é atoa que ele não pontuou no campeonato inteiro. – Mike dá de ombros.
— A superlicença dele vai ser suspensa. – Charlie diz sério. – É muita irresponsabilidade para alguém que pilota uma máquina com tantos cavalos de potência.
— É, — Liza entorta o nariz, não notando tamanha seriedade em que o monegasco abordara o assunto – é uma pena. Ele é gente boa, só deve estar passando por uma fase ruim.
Charlie se afasta de forma discreta, fingindo prestar atenção em um detalhe da colocação da asa dianteira.
— De qualquer forma. – Eliza sorri ao parceiro – Obrigada pela preocupação, mas não precisava vir até aqui no meio na noite para ver se eu estava bem. Vai descansar, precisa estar totalmente disposto daqui algumas horas.
— Você também. – ele rebate.
Ela suspira.
— Eu tenho que ficar para ajudar, vez ou outra René precisa de algumas medidas e eu não quero que algo dê errado porque eu me dei ao luxo de ir dormir. – Eliza ri anasalada – Se eles vão ficar acordados, eu também vou.
— Eu sei, é típico de você. – Mike ele diz e ela ri – Eu também vim para ajudar.
— O que? – ela indaga confusa.
— Têm algumas peças no meu porta-malas que foram tiradas do meu carro por pouco desgaste, estão quase novas. Convenci meu engenheiro ceder neste caso, ele queria guarda-las por precaução, mas o campeonato está próximo ao fim e acho que não vamos precisar delas. – ele revela. – Achei que poderiam servir aqui.
— Isso é maravilhoso, Mike. – ela sorri e abraça o parceiro. – Obrigada.
— Não por isso.
— René, — Liza chama a atenção do engenheiro, que sai de baixo do carro suspenso. – Mike trouxe mais brinquedinhos para você.
(...)
— Não acredito que conseguimos. – Greg diz acertando os cintos do carro em Eliza, já no cockpit.— Foi exaustivo, mas vai valer a pena.
— Vou fazer valer a pena por essas trinta horas acordados, Greg. – Liza diz abrindo a viseira do capacete para olhar para ele e os demais da equipe técnica ao redor do carro, que terminavam de conferir as adequações já na pista. – Obrigada à todos vocês, fizeram um trabalho maravilhoso. Vocês são incríveis!
A equipe salda, mas o som é abafado devido às demais pessoas que também estão na pista. Vinte e um carros, vinte e um pilotos e mais de duzentos técnicos e funcionários correndo de um lado ao outro para conferir se estava tudo conforme o planejado.
Greg conecta o tubo da água ao capacete de Liza e o fone da roupa ao rádio no volante.
— Você está bem? – Greg checa.
— Estou ótima. – ela confirma com veemência.
— Eu tinha que perguntar. – ele diz sorrindo de excitação – Boa sorte, garota! – Greg deseja ao apertar seu ombro antes de se afastar.
— Chegando rádio. – ela diz apertando o botão no volante e fechando a viseira do capacete.
— “Rádio está O.K. Lizzie” — ela escuta a voz de René confirmar. – “30 segundos para a volta de apresentação”
No mesmo instante todas as pessoas que estavam ao redor dos carros se retiram do meio da pista e ocupam as laterais. Ficam somente os carros com os seus respectivos pilotos.
Os motores são ligados.
O sinal no projetor indica que está aberta a volta de apresentação e o primeiro colocado sai, seguido pelos demais da fileira. Eliza sai por último, tentando ignorar a frustração pelo fato de que estaria pela primeira vez largando na frente no campeonato.
— René, me atualiza de quem está na minha frente. Por favor. – ela pede guiando com tranquilidade.
— “Do último ao primeiro temos você, Marin Pratt, Sean Gury, Afonso Pessoa, Roy Niklaus, Arty Muller, Giuliano Andreas, Juri Vitti, Nolo Matsu, Jack Aiken, Marcus Armand, Jeha Daru, Dan T-Vald, Luca Giatto, Felipe De Paula, Louis Dvan, Christian Lund, Guanyu Zou e os três primeiros Niki Marcus em terceiro, Yuki Tvald em segundo e Mike em primeiro”.
— Entendido. – ela diz.
— “Vamos de plano C, podemos usar o 35H...”
— Não. – ela o interrompe – Vamos de plano A.
— “Lizzie, chegar entre os dez primeiros já vai ser ótimo. Não extrapole.” — René pede.
— Não fizemos tudo isso para ficar entre os dez primeiros. Eu estou aqui para ganhar essa merda. – ela diz com convicção.
—“Tudo bem. Vamos com o plano A.” — René responde e ela sabe que o engenheiro sorri.
Os carros se reposicionam nas suas marcas do grid de largada. Liza é a última da fileira a chegar à sua marca.
O ronco dos motores obstruem o silêncio.
—“30 segundos” — René a alerta e Liza aperta os dedos em torno do volante com os olhos em contato direto com os faróis de largada.
Seu coração bate forte no peito, ela podia sentir cada batimento ecoar em sua cabeça.
O primeiro farol se acende, seguidos pelos demais 5 segundos condizentes a cada luz vermelha que se iluminava.
Os motores roncam de ansiedade.
Quando todas as luzes se apagam Liza pisa fundo no acelerador e seu pneu canta pouco antes de leva-la à frente.
Havia começado.
Liza joga o carro para o meio da pista e fica à frente da primeira fileira de carros, em seguida desvia de mais um à sua frente jogando para a lateral e entrando na fila de carros.
Antes da primeira volta ela consegue jogar o carro contra mais dois e assume mais posições.
—“Largada sensacional Liza. P15. Você passou para P15.”.
Eliza sorri e foca no carro da DAWS à sua frente
—“Pressiona o Muller, você tá com uma vantagem de oito segundos do Andreas.”.
Eliza acelera e investe pela lateral, mas o piloto segura a sua posição. Ela tenta pelo outro lado e novamente o carro da frente segue a sua movimentação.
Pelo retrovisor Liza vê o carro de Andreas aproximando e tomando a direita pouco antes da curva. Ela reduz a velocidade e o carro a ultrapassa, continuando pela direita na reta pós-curva.
Ela vê Andreas pressionar Muller pela direita e acelera pela esquerda, deixando os dois carros para trás em segundos.
—“Muito bom. P14. O próximo está á 9 segundos”.
Ela olha pelo retrovisor e vê que os carros atrás estão longe e ainda brigando pela posição, o que a deixa mais tranquila, portanto Liza aperta a configuração de preservar potência na próxima curva.
Ela corre três voltas até René a alertar: -“Armand está á 5 segundos. Pressione ele.”.
Eliza pisa no acelerador e passa para a oitava marcha. Ela fica lado a lado com o carro e força a potência, que está carregada. Assim ela faz a ultrapassagem no meio da curva da saída da reta.
—“Isso, garota!” — René comemora no rádio. – “P13.”.
Depois de quinze voltas percorridas, e tendo feito mais três ultrapassagens limpas, Liza ouve René pelo rádio: -“Estamos com uma vantagem de vinte e quatro segundos, sem trânsito na reta. Têm Safety car virtual nesta volta vamos aproveitar para uma parada. Box, box.”
Ela se direciona à pista interna e para o carro completamente para que rapidamente os seus mecânicos trocassem seus pneus já gastos.
Em menos de três segundos ela está liberada para voltar à pista.
— Me atualize, René. – Eliza pede.
—“P10, Lizzie. Felipe De Paula está na sua frente por 16 segundos.”.
— Vamos pressionar ele, então.
Faltando dez voltas para o final da corrida, Liza está em uma emocionante disputa com Yuki Tvald pela terceira colocação. Niki Marcus havia ultrapassado os dois e tomado o segundo lugar.
—“Área livre para a DRS, Lizzie”- René a alerta.
— Não. – ela nega. – Com ele vai ser na raça.
Ela escuta o engenheiro rir pelo rádio e abre a asa traseira alguns graus para o corte do ar. Em seguida aperta a configuração no volante e sua dianteira fica à poucos milímetros à frente do adversário.
Na terceira curva ela passa à frente e toma uma distância boa de diferença de Tvald.
—“P3 LIZZIE!” – René comemora aos gritos. – “P FUCKING 3!”
Liza ri.
— “You can’t touch this, bum bum bum bum” [MC HAMMER, 1990.] [1](Você não pode tocar nisso)— ela canta contente e consegue ouvir as risadas do engenheiro.
Cinco voltas para o final da corrida.
Liza está atrás de Mike, que tinha sido ultrapassado por Marcus.
— Pressiono? – ela pergunta ao engenheiro.
—“Positivo.” — René responde de forma curta.
Liza corta por dentro na curva que sabia que Mike fazia aberta e ultrapassa o parceiro de equipe. No entanto Mike ataca de volta e eles ficam lado a lado.
A próxima curva é a esquerda e beneficia Liza, que consegue sair na frente e acelerar para tomar distância de Mike. Ela sobe um pouco na zebra, mas logo retoma a direção para a pista.
Mike está na sua cola.
—“Como estão seus pneus?” — O engenheiro pergunta.
— Bons o bastante para tentar o primeiro lugar. – ela diz.
—“Você tem que segurar o Mike primeiro, ele está com 2 segundos de diferença de você.”.
— Eu consigo. – ela diz e grunhe. – EEEEEEERG!
René ri.
—“Você já é uma vitoriosa por estar aí, Lizzie.” — o engenheiro diz. – “Você largou na P20. P20!”.
— E seria histórico se eu ganhasse. – Ela sorri animada. – Só me fala quanto estou de diferença dele.
—“Ele está á 3 segundos de diferença, faltam três voltas. Vai com tudo.”.
Ela acelera e coloca na oitava marcha, o carro triplica a velocidade. Seu coração acelera conforme os números vão aumentando. Eliza olha rapidamente o velocímetro, 356 km/h.
Ela reduz ao chegar na curva. Na sua saída, Mike a ultrapassa.
— Merda!
Ela passa as marchas novamente e cola no seu parceiro, mas Mike não está disposto a deixa-la passar tão facilmente.
Ele cola em Marcus. Está uma fileira de três carros à toda velocidade.
—“Uma volta para o final”
Marcus reduz, em frente vinha um retardatário.
— Trânsito, René. – ela diz no rádio.
—“Vai com tudo no modo 5G.”.
Eles estavam próximos à curva antecedente à reta da faixa quadriculada. Ela teria que ser cuidadosa, além de veloz.
Ela joga á direita e depois rapidamente à esquerda, driblando Mike. Eles ficam lado a lado e ela acelera.
À frente vinha Marcus já reduzindo.
Os dois carros se aproximam dele.
Os olhos de Liza na pista e o dedo sob o botão de redução de marcha.
Eles estavam se testando, quem cederia por último.
Faltavam poucos metros até Marcus. Mike reduz seguido de Liza, que fica na frente.
O retardatário os dá passagem.
Na curva para a esquerda ela tenta ir por dentro e é fechada por Marcus, mas rapidamente joga para fora e consegue ultrapassar o adversário.
Ela chega na reta da faixa quadriculada.
No muro de divisória ela consegue ver de longe sua equipe pendurada, aguardando somente que ela ultrapassasse a linha com a placa indicando sua posição. P1.
Ela acelera, ativando a potência total do motor.
Os carros estão parcialmente pareados. Marcus está com a frente do carro rente ao capacete de Liza.
Ela segue firme com o pé no acelerador.
Faltavam poucos metros.
A frente de Marcus passa a ficar rente ao seu volante, tomando cada vez mais posição.
Ela desvia os olhos do carro ao lado e visualiza a faixa quadriculada à centímetros na sua frente.
Prende a respiração.
O silêncio precoce à tremenda gritaria.
—“VOCÊ CONSEGUIU!” — ela escuta René no rádio – “P1 LIZZIE!”.
— AAAAAAAAAAH! – ela grita.
Fogos de artifício são disparados e as luzes refletem na lataria do carro.
Ela consegue ouvir a multidão gritar seu nome.
Liza continua guiando pela pista na quinta marcha.
— É isso aí! – ela comemora – Conseguimos, meninos!
—“Lizzie, Angél falando. Parabéns! Muito bom trabalho!” — ela escuta seu chefe de equipe. –“Que corrida você fez, garota! O pódio hoje é seu! Absolutamente merecido! Não poderia ser de outra pessoa.”
— Obrigada, Angél! – ela esbraveja feliz – Muito obrigada a todos da equipe. Isso não seria possível sem vocês. Fizeram um trabalho maravilhoso! Maravilhoso, garotos! É isso aí!
Ela escuta alguns gritos de celebração pelo rádio.
“Lizzie, é o Greg aqui. Parabéns! Excelente trabalho! Eu sabia!”
Ela torna a gritar de felicidade.
Percorre o fim do trajeto automaticamente, suas mãos trabalhavam de forma automática.
— O Mike, que posição ele ficou? – ela pergunta.
—“P2. O garoto estava à sua esquerda. Foi bonito de se ver.” – René diz.
— Isso! – ela celebra. – Muito bom! O resultado foi ótimo para a equipe hoje. P1 e P2! Que dia, pessoal! Que dia! Parabéns à equipe, isso foi uma trabalho impressionante!
Terminado o trajeto ela entra na reta dos boxes e reduz a velocidade, parando pela primeira vez na placa com o número 1.
Ela desliga o motor e fica por um tempo absorvendo aquele momento.
Todas aquelas vozes gritando o seu nome e os flashes das câmeras disparando em sua direção. Ela sorri extasiada.
Liza desafivela o seu cinto e tira o volante do encaixe no painel para se levantar.
Coloca o volante na dianteira do carro antes de saltar para fora do cockpit. Já do lado de fora ela ergue os dois braços e é ovacionada pelo público.
Dezenas de pessoas à sua frente gritavam e aplaudiam.
Ela não poderia estar mais emocionada.
Sua equipe está na lateral, após uma grade que separava a chegada dos carros do público. Ela imediatamente corre para lá e se joga em cima deles, que a seguram ao mesmo tempo que gritavam de emoção.
René a segura pelo capacete, obrigando-a olhar diretamente para ele.
— Você é foda, garota!
— Nós fizemos isso, René! – ela diz sorridente.
— Não. – ele nega com a cabeça, a emoção transbordando pelos olhos – Você fez isso! – e bate no capacete.
Em seguida Mike se junta à eles e também é ovacionado.
— Mike! – ela grita e o abraça. – Parabéns!
— Parabéns, Lizzie! – ele grita de volta a apertando. – Estou tão orgulhoso!
Eles pulam ainda abraçados, aos risos.
A equipe começa uma cantoria de OLE OLE OLE OLE e Liza sente os olhos molharem automaticamente. Aquele era o mesmo canto que saldavam Sampaio quando ele ganhava uma corrida.
Ela e Mike se afastam.
Ela respira fundo, erguendo a cabeça ao alto. Não queria chorar.
Ela tira o capacete, puxa a toca da cabeça e olha para sua equipe orgulhosa.
Eles continuam a aplaudir.
Em seguida ela é parabenizada pelos pilotos que passam por ela e logo é conduzida para as entrevistas.
Inúmeros gravadores, microfones e câmeras são apontados em sua direção.
— Eliza, Eduardo Silva, Esportêve brasileira. – o repórter se apresenta.
— Finalmente um brasileiro! – ela celebra em português e ele sorri. Logo ela continua em inglês: — É um prazer te conhecer, Eduardo.
— Primeiramente quero te parabenizar pelo primeiro lugar, foi uma corrida com emoções à cada curva. – ele diz. – Posso dizer com certeza que foi a corrida preferida da maioria dos fãs do esporte de toda a temporada. Você fez história hoje.
— Muito obrigada. – ela diz sorrindo.
— Como está se sentindo ao saber que está somente a dois pontos de diferença da liderança do campeonato, que é do seu parceiro, Mike? – ele pergunta.
— Eu não tenho como me expressar em palavras. – ela respira fundo, contendo a excitação explicita no tremor de suas mãos. – Com certeza fico muito feliz com essa conquista, foi um grande feito para toda a equipe. Tanto em P1 e com o P2 do Mike, só tenho a agradecer todo o esforço de cada um. Eles fizeram um trabalho excepcional e eu estou feliz, com certeza.
— Sobre esse trabalho, que teve que ser dobrado devido ao acidente de ontem. Como que foi a experiência?
— Não foi a das melhores. – ela diz fazendo uma careta e ri junto com o jornalista. – Mas é o que acontece nesse esporte, acidentes são inevitáveis. Tivemos sorte que não foi tão grave quando aparentou. Graças à equipe bem treinada de segurança que fizeram os procedimentos corretos, estamos aqui hoje bem e saudáveis. Eu fico completamente grata a todos os envolvidos.
— Obrigado Eliza. – Eduardo agradece – Estou ansioso para ouvir o hino do Brasil como P1 hoje.
Saindo das entrevistas ela teria que passar pela pesagem antes de se preparar para subir ao pódio e é para lá que é direcionada.
O seu sorriso não poderia estar maior no rosto.
Ela estava tão feliz que chega doía em seus músculos.
Mas deveria desconfiar.
Muito já tinha ouvido da sabia avó que a vida era uma constante montanha russa de emoções. Sempre estaria nos extremos de felicidade e tristeza, especificamente nos altos e baixos da vida.
Ela com certeza tinha experimentado o momento mais alto de sua vida aquela noite.
Só não poderia imaginar que a queda seria tão rápida e fatal.
Seu peito gela ao ver três fiscais usando uniformes com a sigla FIA parados na entrada do setor de pesagem acompanhados de Angél, Cris e Fábio.
Ela engole em seco.
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