— Vocês só podem estar brincando comigo.
Reunidos na sala de reunião do autódromo do circuito de Barcelona-Catalunha estava o comitê de júri da FIA, sigla para Fédération Internationale de l'Automobile – em português Federação Internacional de Automóvel – que basicamente é a organizadora dos campeonatos de esporte automobilísticos, quem faz seus regulamentos técnico e esportivo, inspeciona circuitos, homologa carros e emite as credenciais para todos os eventos do calendário. Estavam também a diretoria da construtora Pruma Racing, Eliza Benedetti com empresária e agente.
Ao lado de fora Charlie, Patrícia, Mike, René e o restante da equipe de engenharia da Pruma aguardavam ansiosamente. Os fiscais haviam convocado uma reunião com urgência para falar sobre algum detalhe da corrida e nenhum deles sequer desconfiavam o porquê disso ter acontecido, sendo um acontecimento incomum.
— Dizem que eles fazem esse tipo de coisa quando vão punir severamente um piloto. – alguém diz à René.
— Será que é sobre o acidente de ontem? – Charlie indaga ao engenheiro, que está roendo as unhas de forma aflita. O monegasco estava tão ansioso quanto.
— Se fosse, Pessoa e Swan também estariam aqui. – o homem responde engolindo em seco.
— Talvez estejam comunicando sobre alguma medida tomada devido ao acidente. – o monegasco sugere.
Como queria que sua conversa com Cris tivesse resultado em algo finalmente decente naquele esporte.
Foi uma absoluta surpresa quando a empresária não duvidou de sua palavra por um segundo sequer, apresentando-lhe todos os meios que tinham para fazer justiça após o seu depoimento.
Charlie era um admirador de Cris desde quando criança, e a leve repulsa da empresária para com ele havia o deixado de certo modo incomodado. Ele não sabia que ela poderia ser tão possessiva quanto à Eliza, mas percebera que essa possessão era mais uma forma de proteger sua cliente. Mesmo que fosse dele e o que o envolvimento dos dois pudesse ocasionar.
No entanto, ele a compreendia completamente. E, agora que estavam trabalhando juntos para o bem de alguém que era importante para ambos, ele esperava que pudessem ter uma convivência mais agradável.
A reunião poderia ser um sinal de que a sua parceria estava dando muito certo, ou que havia acontecido algo muito errado.
— Porque eles convocariam essa reunião antes da entrega dos troféus? – René indaga retoricamente. – Não sei sobre o quê, mas tá na cara que vão puni-la. Droga!— ele resmunga de forma sentida, colocando as mãos na cabeça.
A porta se abre e todos os olhos são direcionados à ela.
Vagarosamente os membros da federação saem em silêncio.
Em seguida Fábio, com a expressão devastada, avisa que eles podiam entrar. Quando Charlie entra pela porta sua visão imediatamente capta Eliza sentada no último lugar da extensa mesa com a cabeça baixa e olhar perdido em algum ponto à sua frente.
Ela estava com a face neutra, sem emoção alguma. Mas devido aos demais semblantes das pessoas na mesa, o monegasco desconfiava que boa coisa não era.
Charlie se posiciona atrás da cadeira de Eliza, que sequer percebe que ele entrara na sala ou qualquer outra movimentação ao seu redor.
Angél se levanta de sua cadeira e atrai a atenção de todos.
— A FIA convocou essa reunião emergencial para uma punição em nossa equipe na corrida de hoje. – o homem limpa a garganta. – Eles estão desclassificando Eliza Benedetti e todos os seus pontos na corrida de hoje foram desconsiderados. Ela também está proibida de competir a próxima corrida.
Imediatamente uma luxada de choque toma a sala, para em seguida conduzir à negações.
Angél pede por silêncio.
— Por quê? – René se sobressair dos demais com a face raivosa. – Ela não cometeu nenhum delito grave!
— A FIA identificou que as peças usadas para a reconstrução do carro de Eliza eram seminovas e não usadas. – Angél explica.
— O que? – René esbraveja incrédulo.
Mike Schmidt arqueia as sobrancelhas num misto de surpresa e incredulidade.
— Peças seminovas e usadas são a mesma coisa. – Greg se pronuncia com a testa vincada. – Digo, não são a mesma coisa tecnicamente, mas eles não atestam a punição pelo estado da peça, só se elas não tivessem sido usadas nesta temporada. Todas as peças no carro de Eliza estavam usadas e são desta temporada, eu mesmo conferi uma por uma.
— Aparentemente, para a FIA, existe um nível de uso da peça em que a classifica entre seminova e usada. – Angél revela. – Certamente isso não está no manual de regras da Federação, porque eu o conheço de trás para frente há anos.
— E então? – René questiona com as ventas abertas – Não podemos fazer nada?
— Podemos entrar com um processo para averiguação das acusações, mas até que ele seja aberto a temporada já terminou e a classificação já terá sido dada como encerrada.
A sala entra em combustão de negação e palavrões.
— Pessoal, pessoal! – Angél vocifera. – Nós sabemos que isso não é justo, mas não podemos fazer nada além de acatar o veredito deles. Com certeza vamos entrar com o processo e ir à fundo nessa investigação porque eles estão errados, mas até que isso seja provado não há muito que possamos fazer.
— Por que eles estão fazendo isso? – René pergunta.
O silêncio corta a sala como uma faca afiada.
— Não é óbvio? – a foz rouca de Eliza se pronuncia pela primeira vez desde que eles haviam entrado na sala, com os olhos vidrados no mesmo lugar. – Eles não querem que uma mulher vença o campeonato.
— Isso é absurdo. – René esbraveja furioso.
— Mas é o que, infelizmente, aparenta com essa atitude por parte deles. – Angél diz com o semblante abatido.
— Não! – Greg diz. – Isso é inaceitável!
— É tão frustrante! – Eliza diz finalmente se debulhando em lágrimas, as mãos seguem diretamente ao seu rosto, tampando-o.
A sala fica em silêncio, apenas ouvindo os suspiros sofridos da pilota.
Charlie se aproxima e pousa as mãos em seus ombros, acariciando-os. Ele sente os próprios olhos marejarem.
— Eu sabia que esse mundo das corridas para mim iria ser injusto. – ela diz secando o rosto com as costas da mão, com o choro mais controlado – Mas nunca que eu estaria nadando constantemente contra uma corrente impenetrável, sem chance nenhuma de vencer.
— Eliza, eu não sei o que dizer, querida. – Angél diz engolindo em seco. – Sinto muito por não poder fazer nada.
— Não. – ela nega, mirando o chefe. – Vocês fizeram! – ela olha ao seu redor. – Todos vocês fizeram um ótimo trabalho e eu sinto muito que por minha causa nunca tivemos a chance de ganhar. Eu só... – ela funga – sinto muito.
Suspiros tristes soam. A maioria da equipe opta por ficar em silêncio.
— Vamos lá roubar aquele troféu. – René diz divertido, e todos riem descontraídos. Até mesmo Eliza. – Ele é nosso!
— Ele vai continuar sendo nosso. – Angél diz, surpreendendo aos ouvintes. – Uma vez que Eliza está desclassificada, Mike leva a corrida de hoje e já é considerado o campeão do campeonato.
Os olhos são direcionados ao alemão.
— Eu não vou. – ele diz com o maxilar travado e cabeça em pé.
Podem-se ouvir grunhidos surpresos.
— Mike, — Eliza se levanta – você merece! Fez uma corrida e temporada incrível, não deixe que a atitude escrota deles te impeça de ter o que você merece.
— Não quero ganhar desse jeito. – ele diz em negação e se volta à Liza com a face triste – Eu sinto muito, não deveria ter oferecido aquelas peças à vocês. Eu não sabia que tinha essa diferença.
— E não há, rapaz. Eles a inventaram. – Angél garante. – Não foi sua culpa.
— Mas eu me recuso, não aceito o prêmio de hoje. – Mike insiste.
— Infelizmente você vai ter que ir até lá. – Angél fala. – A FIA fará o comunicado antes da entrega dos troféus explicando o porquê das mudanças, comigo e Eliza ao lado deles, e você terá de estar no pódio.
— Porque vocês têm que estar lá? – René questiona.
— Para comprovar publicamente que estamos cientes das decisões da Federação. – Angél informa. – Eles exigiram isso.
Eliza tapa os olhos com a mão disfarçadamente e Charlie a puxa pelo braço para abraça-la. Ela esconde o rosto na curvatura do pescoço do monegasco e ele a ouve chorar baixinho enquanto acariciava suas costas.
— Isso é tão humilhante. – ela sussurra com a voz rouca para ele.
Charlie se sente impotente.
Da mesma forma que se sente impotente ao ver Liza ao lado de Angél no palco do pódio com as mãos nas costas, rosto pleno e sem expressão enquanto o comitê comunicava as mudanças.
O público vaia a decisão do comitê por logos minutos, e a única opção deles é continuar com a premiação.
Charlie nunca havia assistido à um pódio triste antes, em toda a sua vida. Mas aquele fora de partir o coração.
Ver Eliza assistir os demais competidores subindo os degraus tão sonhados devia ser avassalador, ainda assim ela manteve a postura e aplaudiu um à um.
Quando chegou a vez de Mike o piloto sobe o degrau, mas não tira o boné, não sorri e sequer canta o seu hino. Na hora da entrega do seu troféu ele não ergue as mãos para recebe-lo, obrigando o membro da FIA deixa-lo ao chão à sua frente.
O público aplaude sua atitude, assim como Liza que controla o choro ao assistir o parceiro do canto do palco.
No fim, quando é para se ter a famosa chuva de champanhe, cada piloto pega as suas garrafas, mas nenhum deles sequer cogita abri-las. Eles se cumprimentam em apertos de mãos, recolhem os troféus e se retiram do palco em silêncio.
As luzes são apagadas antes mesmo do público se esvair. Nenhuma entrevista pós-pódio é permitida.
(...)
Charlie estava deitado na cama do hotel com Liza repousando sobre o seu peito. Ela havia finalmente dormido e estava em um sono profundo há alguns minutos, rodeada pelos braços do monegasco enquanto ele acariciava as suas costas carinhosamente.
Ela já havia sido consolada por muitos, que a apoiaram na causa contra a atitude vergonhada da FIA. Inúmeras matérias, sites, blogs, tweets e posts nas mídias sociais em seu apoio já rodavam na internet, todo o mundo reconhecia a tamanha injustiça feita a uma jovem pilota sonhadora.
No entanto, desde o momento em que ela saiu daquele palco do pódio, não havia pronunciado mais que algumas poucas palavras, gritado ou sequer chorado. Estava com o olhar vago e perdido, somente sendo conduzida pelas pessoas. E o rapaz estava começando a ficar preocupado.
Charlie escuta batidas secas na porta. Ele se move delicadamente e com todo o cuidado para coloca-la numa posição em que não acordasse e sai da cama para atender ás batidas.
Ele abre a porta e se depara com Felipe De Paula do outro lado. Imediatamente fecha o semblante tranquilo.
— O que você quer aqui?
— Eu preciso falar com a Liza, cara. – Felipe diz com as mãos rendidas, erguidas na altura do rosto. – Vim em paz.
Charlie sai do quarto e fecha a porta atrás de si.
— Veio fazer o que? – o monegasco pergunta, cruzando os braços. – Uma média depois que o seu amiguinho arruinou o campeonato dela? – Felipe arqueia as sobrancelhas em surpresa. – Ou você achava que eu não descobriria que ele causou o acidente para tirá-la da corrida?
— O Afonso passou dos limites, Lacroix. Eu sei disso. – Felipe diz. – Mas o buraco desta vez é mais embaixo.
— O que está acontecendo? – Cris indaga em voz alta, atraindo a atenção dos dois ao fim do corredor. Ela se aproxima e questiona à Felipe: — Feliz, De Paula? Eu só espero que saiba que nem fazendo com que a Liza fique fora do campeonato você consegue ganhar.
— Eu não tive nada haver com isso desta vez. – o brasileiro se defende – O comitê propôs à mim, mas eu não queria fazer nada. A Liza é gente boa, nos tornamos amigos...
— Opa, espera aí. – Cris o interrompe com incredulidade. – O comitê fez o que?
— Eles escalaram um grupo de pessoas para interferir no desempenho da Liza a temporada toda. – Felipe diz. – Eles me fizeram assinar contratos e contratos para que eu não dissesse uma palavra, e eu não quero perder a minha vaga, gente. Mas também não queria fazer nada contra ela.
— Eles já sabem que vocês gostam de ferrar com outros competidores no campeonato, não é? – Charlie pergunta. – Eu devia saber que não tinham sido expulsos por um motivo.
— Não, isso não tem nada haver com antes. – Felipe diz e olha o corredor ao seu redor. – Será que podemos conversar em um lugar reservado? Isso é assunto à nível de máfia.
— Você tem muito há explicar, garoto. – Cris diz entre dentes.
A atenção dos três é voltada para a porta que abre em suas costas, revelando uma Liza com olhos furiosos direcionados à eles.
Um silêncio antecede a sua fala com voz rouca, de quem acabara de acordar: — Vocês têm muito que explicar.
Eliza indica o apartamento atrás dela com a cabeça e abre espaço para que os três entrassem. Ela fecha a porta com força depois que o último passa por ela e cruza os braços: — Podem começar.
— O que foi que você ouviu? – Cris pergunta.
Liza ri anasalada, em um tom de incredulidade.
— Bom, vejamos. – ela coça o queixo teatralmente – Que o meu acidente foi planejado, que tem toda uma equipe pronta para foder as minhas corridas. – ela revela com a sobrancelha esquerda arqueada. – Ah, claro, além de vocês dois terem virado amiguinhos e que aparentemente estavam sabendo disso e não me falaram nada.
— Você ouviu basicamente tudo. – Charlie morde o lábio inferior.
— Vocês acham que eu sou idiota? – ela pergunta aos três. – Já tem um tempo que eu venho percebendo algumas coisas e isso faz com que tudo faça sentido. E eu achei realmente que estava ficando paranóica.
— Como assim? – Felipe questiona á ela.
— Eu desconfiava que não era coincidência o Afonso vir me atacando constantemente nas corridas de um tempo para cá; Sei que o Charlie não gosta de vocês dois, alguma coisa além de rivalidade de competição porque ele não é rancoroso. E eu sabia que você – ela aponta Felipe – sabia que o acidente de ontem iria acontecer. Você disse para eu ter cuidado na pista, disse algo sobre ela ser perigosa. Mas você nunca falou isso antes, sempre fala para eu arrasar. Claro que eu iria estranhar.
Felipe abaixa os olhos, sentindo-se culpado.
— O que está acontecendo? – ela questiona por fim.
Cris suspira pesadamente.
— Felipe e Afonso sempre foram os brigões da Fórmula 2 nos bastidores. – a loira conta. – Os meninos sempre usaram de má fé em manobras ofensivas para intencionalmente prejudicar os demais competidores.
— Na nossa temporada de estreia eles fizeram de tudo para me afetar nas corridas. – Charlie revela – Desde colocar coisas na minha comida para eu passar mal à me prender no vestiário para eu me atrasar e perder as classificatórias.
— Por quê? – Eliza questiona á Felipe indignada.
— Na época era legal. – ele dá de ombros, respondendo em tom sentido. – Éramos crianças e achávamos isso engraçado no começo. – ele engole em seco – Até que começou a ficar mais sério.
— Quão sério?
— Perder aderência traseira de propósito para os carros de trás perderem o controle e bater, fazer fechadas “acidentais”, tocar a traseira ou dianteira... – Felipe admite. – Queríamos estar entre os melhores, por isso tínhamos que nos livrar de alguns deles.
— Acabar com a chance de outros não faz de vocês mais talentosos, faz de vocês estúpidos! – Liza grita.
— Eu sei e sinto muito. – Felipe diz arrependido. – Eu percebi isso no começo desse ano. Não queria mais subir na tabela decorrente do fracasso de outros. Isso não prova que sou bom.
Eliza suspira decepcionada.
— Afonso também não queria. – Felipe continua. – Ele tinha parado.
— E a FIA o fez mudar de ideia? – Eliza indaga engolindo em seco.
— Sim. – Felipe umedece os lábios. – Eles prometeram vagas da Fórmula 1. Afonso ficou deslumbrado com a chance de ser, nem que fosse, piloto reserva ou de testes de uma escuderia deles.
— Só para que ele me tirasse do campeonato? – Ela questiona com os olhos molhados e bolo na garganta.
Felipe assente.
— Não sei o porquê de tamanha recriminação, mas eles não queriam que você ganhasse de jeito nenhum.
Eliza respira fundo e passa as mãos pelo rosto, abismada.
— Desde quando você sabia? – Ela pergunta à Cris.
— Desde ontem. – a empresária fala. – Charlie me contou depois que saiu no soco com o Pessoa lá no hospital e eu vi.
— Você o que? – ela se vira ao monegasco. – Sua mão! – afirma pasma ao se recordar. – Você mentiu para mim.
— Não pensei que ele seria capaz de fazer alguma coisa com você, Lizzie. – Charlie diz. – Mas ontem o vi sorrindo quando saiu do quarto do Robert, e então tive certeza que tinha sido intencional. Era o mesmo sorriso que ele dava para mim quando fazia alguma coisa comigo. Me descontrolei.
— E pretendiam me esconder isso até quando?
— Eu entrei com uma investigação em cima do Afonso e, com o acontecimento de hoje, tenho mais argumentos para entrar com uma procuração em cima da FIA F2. – Cris diz. – Charlie vai ser testemunha e é um processo bem burocrático.
— Não te falamos porque você estava ocupada com a restauração do carro e não precisava de mais coisas na sua cabeça que te distraíssem. – Charlie fala.
Ela desvia os olhos para o chão e fica com o olhar preso lá por um tempo.
Os três somente aguardavam com ansiedade por qualquer reação.
Liza sobe os olhos marejados até Charlie e pronuncia com a voz rouca: — Você sabia quem eles realmente eram e me deixou pensar que eles eram meus amigos.
— Lizzie, não...
Foi o que foi preciso para que ela vociferasse ao interrompe-lo: — Teve todo esse tempo, todas as oportunidades e não disse nada!
— Eliza... – Cris tenta.
— Afonso causou um acidente. Você esperou que ele causasse um acidente no qual eu podia ter realmente me machucado! – ela a interrompe, seu rosto vermelho e as lágrimas caindo como correnteza pelo seu rosto. – Mas não, ao invés de falar alguma coisa você ainda me assistiu ir ao pódio e me humilhar daquele jeito. – ela engole em seco – Se eu soubesse que ele estava envolvido e desconfiasse que tudo isso tinha sido uma armação, eu não teria me submetido àquela situação! – Ela chora copiosamente. As mãos não conseguiam secar a quantidade de lágrimas que caíam de seu rosto.
— Mon amour, eu não tive a intenção. – Charlie diz com a voz falha, se aproximando receosamente dela.
Ela respira fundo e olha em seus olhos, Charlie sentia a decepção expressa neles estapeá-lo com força.
— Você podia ter dito qualquer coisa. – ela diz rouca – Qualquer coisa. Mas me deixou nas garras deles. – Liza engole em seco para perguntar quase sem voz: — Como pôde?
Charlie sente seu chão sumir, o estômago congela e sua visão fica turva.
Ninguém ousa dizer uma palavra sequer, fazer qualquer tipo de barulho naquele momento.
— Me deixem sozinha. – Liza pede depois de respirar fundo, tentando controlar o choro.
— Liza...
— Me deixem sozinha, por favor. – ela implora.
No entanto ninguém se move.
Charlie se aproxima de Eliza.
— Não. Eu não quero falar coisas que você não merece ouvir, Charlie. – ela diz. – Eu preciso estar longe de você agora. Preciso pensar.
Dito isso ela caminha em passadas pesadas até a cama, onde pega seu casaco, e sai porta afora pelo corredor feito um furacão.
Cris a segue.
— Eliza, aonde você vai? – ela questiona vendo a pilota andar determinada até o elevador. – Volte aqui!
— Eu preciso respirar ar puro. Longe de vocês. – ela diz vestindo as mangas de sua jaqueta. – Não se preocupe, não vou fazer nada de estúpido.
As portas do elevador se abrem e Eliza entra nele. Apertado o botão do térreo múltiplas vezes, para acelerar a sua partida. As portas se fecham.
Dentro do elevador ela limpa o rosto com a manga da jaqueta e encara o seu reflexo deplorável no espelho no fundo da caixa de ferro. Olhos e nariz vermelho, rosto amassado pelo cochilo rápido e cabelos desgrenhados. Não tem paciência para se enfeitar, então só passa a toca da jaqueta pela cabeça e sai quando chega em seu andar.
O saguão está tomado por jornalistas, provavelmente tentando uma exclusiva com algum membro da FIA ou a vítima daquela noite – vulgo ela mesma. Ela toma o caminho contrário.
Caminhando de cabeça baixa ela tromba com alguém e respira aliviada ao ver que era Mike quem a segurava pelos ombros.
— Por Deus, Lizzie. Você está bem? – ele pergunta ao mirar seu rosto.
— Me tira daqui, Mike. – ela pede fanha. – Por favor.
Ele a fita por um tempo, mas assente com um sorriso de compaixão no rosto.
— Vamos pelos fundos, meu carro está na garagem.
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