File #07

Corremos até a porta recém-cruzada pelo traidor, um cobrindo o outro, na iminência de possíveis novos tiros ou investidas de zumbis. No corredor seguinte ouvimos passos rápidos: Brendon se distanciava. Continuamos na mesma direção, passando pelas janelas fechadas com tábuas. Os policiais que antes haviam executado tal tarefa não mais ali se encontravam.

Escutamos a porta do próximo corredor sendo batida com força. O miserável fugia de nós o mais rápido que suas pernas permitiam, porém o ferimento o impedia de nos despistar. Íamos pegá-lo cedo ou tarde...

Phillips --- Filho da mãe...

Logo em seguida caímos num impasse: como a maçaneta da porta emperrara devido ao choque, nos atrasamos alguns segundos até conseguirmos destravá-la, e assim que a abrimos Brendon já havia sumido. Não sabíamos se ele subira a escada para o segundo andar, escondera-se na sala de revelação ou desaparecera por uma outra porta no extremo oposto do corredor, que levava de volta à direção do hall. Existiam, todavia, duas opções mais prováveis, já que seria burrice ele ir para um local onde pudesse ser cercado...

Phillips --- E agora?

Adams --- Eu vou pelas escadas, você pela porta no final da passagem! Nos encontraremos no heliporto dentro de meia hora, tenhamos detido Brendon ou não!

Phillips --- Agente Adams, aquele canalha não pode escapar, e...

Adams --- É mais importante sairmos desta vivos! Alguém precisará sobreviver para testemunhar sobre este incidente, principalmente se o maldito conseguir ir embora com aquele disquete! Meia hora, OK?

Phillips --- OK...

Nos separamos, eu voltando a vencer os velhos degraus de madeira...

No andar superior, descobri estar no caminho correto assim que percebi algumas gotas de sangue em cima do piso. Ia gritar para Phillips, porém ele já havia desaparecido pelo outro trajeto. Sabendo que o traidor abria vantagem a cada segundo, resolvi prosseguir sozinho em seu encalço. Re-visitei as três estátuas, atentando agora para o fato de uma delas segurar um belo rubi, e avancei. O corredor da sala dos S.T.A.R.S., com apenas o corpo do morto-vivo aniquilado antes no chão, mas a porta rumo à biblioteca acabando de ser fechada...

Era mesmo Brendon. Continuei perseguindo-o, atravessando a ante-sala da biblioteca e finalmente adentrando-a. Tive tempo de ver o vira-casaca correndo pela passarela superior na direção do terceiro andar do hall. Ele me percebeu e, grunhindo de raiva, ergueu a arma e começou a disparar. Rolei pelo chão, saindo rapidamente de seu campo de visão. Foram três tiros: por sorte nenhum me atingira.

Brendon --- Você não desiste!

Adams --- Vejo que você também não!

Ele efetuou mais um disparo – esse apenas como clara forma de intimidação – e saiu pela porta. Passaram-se alguns instantes e também subi pela escada, cruzando a passarela quase saltando ao invés de correr, na esperança de poder alcançar o patife. Passei pelo último nível do hall, olhando para o primeiro na possibilidade de Phillips lá se encontrar; nada.

Voltei à sala do relógio. Brendon estava na parte de cima. Perguntei-me por onde ele fugiria, já que aparentemente aquele lugar não tinha saída. Eu me enganara. Depois de percorrer a última escada, tive tempo de observar o traidor pular para dentro de um duto de ventilação vertical antes oculto numa das paredes. É, aquela delegacia era mesmo repleta de segredos e surpresas. Não tive outra opção: como o caminho parecia ser seguro para o fugitivo tê-lo utilizado, também desci pelo buraco...

Deslizei pela estrutura brevemente, minha queda sendo atenuada pelo próprios contornos que possuía. Caí de pé sobre uma superfície de concreto e, segundo meu cálculo de altura, voltara para o subsolo do prédio. Brendon fora inteligente em utilizar aquele atalho, já que pretendia justamente se evadir pelos esgotos. Agora eu só precisava encontrar seu rastro novamente, pois mais uma vez ele conseguia tomar distância...

Examinando num piscar de olhos o corredor em que eu chegara, constatei que havia três portas, uma delas levando para o que parecia ser um bloco de celas. Um desses trajetos devia possuir uma saída para a rede de esgotos, porém eu não conhecia as plantas dali para deduzir qual. Logo, entretanto, algo me auxiliou...

Uma série de tiros, próximos. Depois algumas exclamações de terror, sinais de puro desespero. E pude identificar facilmente a voz do traidor:

Brendon --- Não, afaste-se! Vá embora, vá... ARGH! Afaste-se!

Tudo isso vinha da entrada no meio do corredor. Verifiquei a munição de minha pistola, com certeza eu precisaria usá-la... A questão era: seria suficiente?

Entrei.

Tratava-se do canil da delegacia. Ouvi fortes batidas contra metal: eram alguns cães dobermann mutantes, caindo aos pedaços como o que eu vira anteriormente, tentando soltar-se das jaulas em que estavam presos. E não seria bom ficar ali esperando eles conseguirem. Logo vi um bueiro aberto no chão, aproximando-me de sua escura abertura circular. Realmente não era possível ver praticamente nada lá embaixo, mas consegui perceber que ali havia água corrente e um odor bastante incômodo. Se havia um caminho para os esgotos, com certeza era por ali.

Desci.

Molhei meus pés e a parte inferior de minhas calças, caminhando por aquele líquido repleto de detritos. O mal-cheiro aumentava mais e mais, a luminosidade diminuía. A passagem possuía uma curva num determinado ponto, contornei-a...

Deparei-me com um facho de luz no chão, em meio à água turva... Era uma lanterna caída. Apanhei-a rapidamente, quando ouvi e senti movimentação logo à minha frente. Mirei a luz nessa direção, já temendo o pior. Primeiramente vi o cadáver de Brendon, sem um dos braços e numa posição retorcida como se fosse um boneco de pano. O famigerado disquete escapara de seu bolso e agora jazia ao seu lado, imerso naquela mistura fétida à qual se somava agora seu sangue. Ergui mais o foco, passando pela cara de pavor do falecido, agora fixada para sempre daquela maneira... E finalmente iluminei aquilo.

Sim, aquilo. É difícil descrever. Aparentemente um homem, loiro, vestindo jaleco todo rasgado e calça jeans... Todo o lado esquerdo de seu corpo, porém, transformara-se numa monstruosidade. Tinha início em seu peito sem pele um grande membro inumano do qual saía um enorme e bizarro olho vermelho, terminando em fortes e afiadas garras que ainda seguravam o braço decepado de Brendon.

Foi apenas quando aquela coisa soltou um berro altíssimo que concluí ser ela a fonte do som grotesco que eu ouvira quando estivera na sala do relógio pela primeira vez, junto com Phillips.

Apontei minha arma. Sim, eu teria de sobreviver a aquilo.

Continua...