File #08

A criatura atacou primeiro, num golpe com seu membro grande e rubro. Se houvesse me atingido, as garras sem dúvida teriam me cortado ao meio. Porém saltei a tempo para trás.

O monstro urrou, parecendo irritado. E eu cada vez mais me sentia enfrentando o estoque ambulante de um açougue.

Disparei com a pistola, as balas se dirigindo até aquela carne rígida e grotesca que parecia irrompível. Alguns projéteis conseguiram penetrar nela, espirrando gotas de sangue, mas não pareceram capazes de detê-lo. Nem em um milhão de anos.

Não havia como eu derrubar aquela coisa. Teria de apanhar o disquete de Brendon – eu torcia para que seu conteúdo ainda pudesse ser acessado depois do mergulho naquele esgoto – e sair rapidamente dali.

Apontei a lanterna para baixo, temendo que a falta momentânea de visibilidade impedisse que eu desviasse das investidas da aberração. Por um momento, achei-me capaz de identificar a própria respiração dela, pesada, agitada, totalmente disforme. E eu movia o rastro de luz pelo líquido pegajoso, em busca do objeto que poderia custar-me a vida...

Agachado, subitamente senti uma forte pancada no ombro esquerdo. A bizarrice me acertara com seu braço avantajado, por sorte não perfurando meus músculos. A dor, mesmo assim, foi intensa. Dei mais dois ou três tiros para manter o inimigo afastado, e ele soltou novo urro. Foi quando notei o disquete novamente em meio à mistura esverdeada. Apanhei-o de imediato, agitando-o para livrá-lo um pouco da gosma que o envolvia, e então o guardei em minha jaqueta.

A criatura voltou a atacar, mas eu já recuava pela estreita passagem o mais rápido que conseguia. Esse era um dos pontos fracos de meu adversário: era muito lento, o peso de seu corpo impedindo que se movesse com agilidade. Ele soltou um último urro, que parecia de frustração, enquanto eu subia pela escada de mão de volta ao canil. Consegui escapar vivo dessa...

Mas eu jamais esqueceria tal encontro. E demoraria muito para descobrir a verdade sobre aquele monstro: quem fora, como se transformara naquilo, quando encontrara um fim para seu terrível estado...

O ombro me incomodava, a pele estava roxa, mas isso não me impediu de continuar. Fechei firmemente a tampa do bueiro, para evitar que meu oponente me seguisse. Os dobermanns, por sorte, ainda não haviam conseguido sair de suas jaulas, apesar de continuarem tentando. Cruzei a porta, retornei ao corredor. E uma figura de azul voltou-se imediatamente na minha direção, pistola erguida a poucos centímetros de minha testa. Temi ser mais algum traidor, mas era apenas Phillips. O garoto estava assustado.

Adams --- Calma, rapaz, sou eu!

Phillips --- Desculpe por isso... Pensei que pudesse ser um zumbi, ou o Brendon!

Adams --- Brendon está morto.

Phillips --- Eu logo suspeitei, foi por isso que desci até aqui. Deu para ouvir o berro dele lá do primeiro andar! Você conseguiu pegar o disquete?

Adams --- Está comigo. Vamos subir?

Phillips --- Sim, vamos lá!

E iniciamos o trajeto até o heliporto no segundo andar. No caminho, pelas salas e corredores, vimos novos mortos-vivos surgirem pelas portas, janelas. O sítio da delegacia era consolidado pelos moradores infectados de Raccoon City. O único local que parecia ainda resistir ao ataque deles sucumbia. E com isso, a esperança também se desvanecia...

Poucos sobreviveriam.

Chegamos ao terraço, a morte ainda predominando ao ar livre. Um odor pútrido era emanado das ruas e becos. Os gemidos dos zumbis compunham uma sinfonia infernal e incessante. Próximos, distantes. A cidade inteira fora convertida pela praga da Umbrella num cemitério mortal.

Os minutos até a chegada do helicóptero da FEMA pareciam intermináveis. A angústia era gigantesca. Tínhamos medo de que o resgate nunca viesse, de que fôssemos abandonados ali, à mercê de todos aqueles monstros canibais. A noite era fria, aterrorizante. Andávamos em círculo pelo heliporto, olhando a todo instante para o céu, aguardando o barulho de hélices, a aparição da aeronave...

E ela surgiu, seu holofote nos iluminando. Conseguimos. Sairíamos daquele inferno na Terra. Logo que embarcamos, caímos quase mortos nos assentos, deixando que todo o peso daquele pesadelo nos deixasse. Foi uma das melhores sensações de minha vida, um alívio incomparável... O instinto de sobrevivência colhendo seus frutos.

Conforme sobrevoávamos aquele caos urbano, eu olhava para baixo... Via as ruas de Raccoon obstruídas de tantos zumbis, vagando como sonâmbulos que jamais encontrariam repouso. Avistei incontáveis incêndios se propagando por prédios e quadras, veículos totalmente destruídos, asfalto e concreto banhados em sangue humano...

E, numa viela próxima à delegacia, vi algo que podia representar salvação, uma esperança ínfima para uma cidade condenada... Uma bela jovem de cabelos castanhos, “top” azul, mini-saia preta com uma blusa branca amarrada ao redor e botas marrons, armada com um par de pistolas, conduzia alguns sobreviventes para um lugar seguro. Sua determinação parecia incrível, assim como sua coragem.

Com isso, tive certeza de que, enquanto houvesse pessoas como aquela moça em Raccoon, existia chance de mais cidadãos escaparem vivos, assim como eu e Phillips...

Em seguida fechei os olhos e dormi. Dormi o melhor sono desde o dia em que nasci.

Eu havia sobrevivido a Raccoon City.

Continua...