Raccoon Disaster: Adams Cut
8 File #06
File #06
Atravessamos mais uma vez o terceiro andar do hall, ainda sem nenhum vestígio de Brendon no primeiro piso. Por Deus, o que o haveria levado a deixar um dos poucos locais ainda seguros do prédio?
O ar era tão tenso que eu podia jurar ouvir uma música horripilante macerando meus ouvidos. Phillips, com seu laptop embaixo do braço, era a própria personificação do medo. O pobre rapaz tentava esconder que estava tremendo.
Adams --- Acalme-se, o caminho até o primeiro andar está limpo, acredito eu...
Phillips --- Com todos esses monstros cercando a delegacia, nenhuma sala ou corredor estará limpo por muito tempo, senhor... Aliás, eu ainda não perguntei seu nome!
Adams --- Ernest Adams, agente do FBI.
Phillips --- Oh, um federal! Você está sozinho?
Adams --- Infelizmente... Fui pego de surpresa em meio a esse inferno! E acredito que os S.T.A.R.S., que teriam muitas respostas para esses eventos, estão bem longe agora, não é?
Phillips --- É... Você está mesmo à par da situação...
Atravessamos de novo para a biblioteca. Ambiente terrivelmente quieto. Desejei que as estantes criassem vida e começassem a ranger, pois talvez assim não ficaríamos imersos em tão angustiante suspense. Descemos pela escada e Phillips logo indicou a porta-dupla que levaria diretamente ao segundo nível do hall. Prosseguimos.
De volta ao beiral em “U” que rodeava o local, nenhum zumbi ou aberração. Nossos passos ecoaram sobre o concreto até a escada de incêndio. Penduramo-nos pelos degraus até atingir o andar inferior, correndo imediatamente para o balcão. Aproveitei a oportunidade para examiná-lo melhor: nenhum sinal de sangue ou luta nele ou ao redor, tampouco algum mísero bilhete deixado por Brendon, já que havia papel disponível ali, explicando seu desaparecimento. Mais um mistério a ser desvendado...
Phillips já havia se sentado de frente para o computador e, consultando suas notas, inseriu a senha para a Rede Nacional de Emergência. Uma janela foi aberta na tela, exibindo um programa de chat em tempo real com um dos operadores do sistema. O policial suspirou de alívio. Havíamos conseguido.
Phillips --- Pronto! Agora é só informá-los do que está acontecendo!
Adams --- Será que eles vão acreditar?
Phillips --- Eu espero que ao menos alguém seja fã suficiente de filmes de mortos-vivos para vir averiguar!
Ri levemente. Ele, enquanto isso, digitava no teclado, da forma mais plausível possível, o que tinha palco nas ruas de Raccoon City. Trocou o termo “zumbis” por “pessoas descontroladas e violentas”. Talvez se dissesse ser um protesto contra o governo, o apoio viria mais rápido ainda... O operador do outro lado da conexão se assustou quando Phillips revelou que boa parte da força policial da cidade já estava fora de ação. A situação era mesmo grave, e o funcionário se prontificou a enviar um helicóptero da FEMA (Federal Emergency Management Agency – Agência Federal de Gerenciamento de Emergências) que estava estacionado na cidade vizinha de Stoneville, para examinar a situação. O ponto de encontro com a aeronave foi marcado: o telhado do R.P.D., dentro de aproximadamente quarenta minutos. Seria tempo o bastante? Nós dois esperávamos muito que sim. E poderíamos encontrar Brendon até lá.
Phillips --- Estamos a um passo de escapar!
Adams --- Sugiro efetuarmos uma última busca no prédio em busca de sobreviventes e então nos dirigirmos até o heliporto! Você tem algum rádio consigo, com o qual possamos contatar seus colegas?
Phillips --- Infelizmente não.
Adams --- Então teremos de fazer à maneira antiga...
Lembrei-me imediatamente dos dois policiais que bloqueavam as janelas num dos corredores do primeiro andar. Troquei o pente de minha arma e engatilhei-a, sob o olhar assustado de Phillips. Era hora de retornar até eles. Os zumbis estavam tomando conta de tudo e a dupla não podia ser deixada para trás.
Adams --- Vamos!
Rumei para a porta que levava à sala de recepção, o mesmo caminho tomado por mim anteriormente. Phillips acompanhou-me calado.
Cruzávamos o recinto em silêncio, pensando nas inúmeras nuances daquele pesadelo, quando um súbito som nos pegou de surpresa. Era uma forte batida sobre alguma superfície sólida. Contornamos a divisória de madeira e nos deparamos com a repugnante visão de um dos canibais, caindo aos pedaços, socando a janela ao lado da porta seguinte. Seu rosto em decomposição estava encostado no vidro e, conforme deslizava aos gemidos sobre a barreira transparente, deixava nela rastros de sangue e pedaços de pele e músculos que se despregavam de seu semblante deformado. Coisa horrível de se ver.
Não hesitei: ergui minha pistola e, num único tiro, encerrei a existência do outrora homem com uma bala no meio da testa, livrando-o de sua miséria. Porém, ouvindo outros gemidos, percebemos que mais zumbis se aproximavam lá fora e achamos melhor cruzar rapidamente a porta rumo ao corredor a seguir. Assim o fizemos, começando a percorrê-lo.
Não havia barulho algum. Os cadáveres dos mortos-vivos que eu aniquilara antes, o casal, jaziam em poças vermelhas sobre o chão, o da mulher ainda tendo espasmos. Avançamos despreocupados. Todavia, ao contornarmos a curva para a direita, um repentino tiro ressoou pelo ambiente, a bala por pouco não atingindo um de meus pés. Eu e Phillips rapidamente buscamos cobertura junto à parede, escapando da visão do atirador, que eu enxergara vagamente de pé na frente da porta no final da passagem, usando uniforme da polícia. Foi quando ele começou a falar que reconheci de imediato sua voz:
?? --- Fim da linha, Adams!
Adams --- Brendon? Mas que diabos... O que está havendo?
Brendon --- Escaparia sem problemas pelos esgotos se vocês não tivessem resolvido aparecer... Simplesmente pensariam que eu fora devorado pelos zumbis. Agora não tenho opção a não ser despachá-los de vez!
Adams --- Estou começando a entender...
Brendon --- Sim, eu estou com a Umbrella! Encontrei uma distração para livrar-me de você enquanto baixava alguns arquivos da empresa pelo computador do hall! Vídeos de segurança, relatórios comprometedores, qualquer coisa à qual eu tivesse acesso e que fosse capaz de incriminar aqueles malditos figurões. Gravei tudo num disquete e logo depois apaguei os arquivos do sistema. A única cópia deles agora está comigo!
Ele provavelmente era um amador para abrir o bico daquele jeito. Talvez tivesse certeza de que nós morreríamos ali. A partir daquele momento, passaria a empregar todas as minhas forças para que isso não ocorresse. Aquele calhorda não podia escapar.
Adams --- Então é isso? Você vai terminar o serviço de queima de arquivo de que lhe incumbiram e aí ganhar sua recompensa? Vai mesmo trair todos os seus colegas e cidadãos de Raccoon, pessoas que confiavam em você?
Brendon --- Eu não vou entregar este disquete à Umbrella. Eles me prometeram uma grande quantia em dinheiro, porém posso conseguir mais com o que tenho em mãos. Há gente disposta a pagar muito mais. A imprensa, o governo. Em breve qualquer ligação da Umbrella a este incidente será apagada, Adams, e farão de tudo em nome de alguma simples prova!
Ao meu lado, Phillips suava, arma em punho, costas na parede e ouvidos atentos a qualquer descuido do inimigo. A raiva que ele sentia de Brendon era perceptível em sua face.
Adams --- De qualquer modo, matar-nos não será seu único desafio, Brendon. Terá de conseguir sair desta cidade a salvo junto com esse seu precioso disquete!
Brendon --- Eu estou disposto a tentar. E vocês, estão dispostos a me impedir?
Ouvimos os passos do traidor seguindo em nossa direção. Segurei firme o cabo de minha arma, aguardando o momento certo para mover-me e atirar. A sorte seria de quem fosse mais rápido no gatilho. Porém Brendon não contava com o acaso...
Um morto-vivo jogou-se sorrateiramente por uma das janelas quebradas do corredor, praticamente sem causar qualquer ruído. Com o som de seus movimentos pútridos camuflado pelo coral de gemidos fora do prédio, arrastou-se rapidamente pelo chão em direção ao policial mercenário, agarrando-lhe uma das pernas com os braços em carne viva justo quando ele estava prestes a nos surpreender.
Nós nos voltamos a tempo de ver o zumbi morder com força o membro de Brendon, espirrando sangue ao redor. Num grito de dor e fúria, este destruiu a cabeça do agressor com um tiro para baixo e em seguida correu mancando rumo ao corredor seguinte, batendo violentamente a porta depois de cruzá-la. Ele não conseguiria ir muito longe ferido daquele jeito, ainda mais estando também infectado.
Adams --- Vamos pegar esse desgraçado!
Phillips acenou com a cabeça, concordando.
Continua...
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