R.E.N.O
1 Capítulo I - O Planeta Morto
O tempo sempre foi um conceito interessante. Para humanos, o tempo é uma formação linear de fatos e acontecimentos, onde o que acontece fica marcado e depois não é possível ser desfeito, fica gravado no marco temporal. Se você enche um copo de água, despeja-o e logo em seguida o enche novamente, ele ainda será um copo cheio, mas a ação de despejar aconteceu, ela não pode ser desfeita. RENO compreendia a forma humana de ver o tempo como linear, mas em seu processamento sabia que esse conceito de tempo era apenas uma forma limitada e humana de colocar ordem e compreender as coisas que não podiam explicar muito bem, mas para ele na verdade o tempo não podia ser colocado em uma métrica, para ele só existia o hoje, onde passado, presente e futuro eram apenas recortes da mesma totalidade, mas no fim das contas tudo existia simultaneamente. Mas, considerando a linearidade e a lógica humana, já havia dois anos que RENO vagava pelo espaço em sua nave, ou como ele poderia analisar, ainda era hoje. Estava calibrando os sensores quando percebeu um sonar no painel, a máquina calculou as coordenadas que davam em um planeta naquele sistema e um bipe suave alertava que o local havia sido encontrado, finalmente ele poderia depois de um longo dia de dois anos cumprir sua função.
O andróide calibrou a direção e ativou o piloto automático para o planeta encontrado, levaria cerca de seis meses até finalmente chegar até a superfície planetária, mas aquilo não significava nada em sua percepção. Caminhou em direção ao posto de carga e ativou o modo de repouso para que o sistema se iniciasse cinco dias antes de pousar. R.E.N.O é uma sigla para “Robô de Equilíbrio e Nucleação Orgânica”, sua função era encontrar planetas colapsados para restaurar — ou ao menos tentar — seu bioma de forma que voltassem a se sustentar por conta própria, para que a vida pudesse ser retomada de onde havia sido interrompida. Seu visor se ativou e ele iniciou seu sistema conforme havia sido programado, era um robô consideravelmente ultrapassado em seu modelo, mas era extremamente resiliente de forma que permanecia operacional havia mais de cento e vinte anos, suas funções permaneciam milagrosamente intactas, é verdade que ele fazia automanutenção constante, mas ainda assim era impressionante ver uma máquina tão antiga em funcionamento. Ele então começou a iniciar os sistemas de restauração para o pouso iminente, pois diferentemente dele levavam mais tempo para inicializar e estabilizar, precisava que tudo estivesse preparado até o momento que tocasse o solo daquele novo planeta.
Após atravessar a camada atmosférica, foi possível visualizar o que o aguardava lá embaixo com mais clareza. O solo estava majoritariamente ressecado, os sensores da nave indicavam nuvens tóxicas com uma quantidade perigosa de radiação, os rios próximos àquela região estavam cobertos de resíduos, muitos deles também tóxicos, a água era escura e mostrava que não abrigava vida já há um bom tempo. Uma tempestade de areia acontecia no momento que chegara, o que dificultou um pouco sua aterrissagem, mas em sua existência RENO já havia restaurado mais de trinta planetas, sua inteligência artificial era extremamente adaptativa e feita para aprender constantemente. Ele esperou algum tempo e assim que a tempestade diminuiu de intensidade ele conseguiu pousar, a nave fincou um arpão de aproximadamente cinco metros de profundidade no solo, para evitar acidentes devido ao tempo ou outros tipos de catástrofes naturais que pudessem vir decorrentes de um planeta destruído. Com todos os sistemas iniciados, ele começou a registrar os dados que podia, verificou que a radiação detectada pelos sensores ao pousar não era natural, mas sim artificial, havia sido produzida. Foi então que começou a analisar a possibilidade daquele planeta ter sido destruído pelos próprios habitantes, não seria a primeira vez que via isso, mas era preciso coletar mais dados para poder chegar a uma conclusão mais precisa. Sua nave quando plantada no solo se tornava um Nexus de restauração, as toxinas eram extraídas gradativamente pelo arpão, limpando aos poucos assim o solo e tudo ao redor, mas só aquilo não era suficiente.
RENO iniciou outra análise do ar e verificou que uma chuva era iminente, ao conferir a qualidade das nuvens e de seu conteúdo percebeu que a radiação contida na água não era o único problema, porque apesar de ser inoxidável, se tratava de chuva ácida, algo que poderia lhe trazer muitos problemas em termos de autopreservação, protocolo essencial em sua construção, não é atoa que ele estava há tanto tempo ainda em funcionamento. Ele iniciou o sistema de esporos da nave, os esporos são nada menos do que microrrobôs que absorvem as partículas de radiação no ar e na água para dentro de si e depositam em containers de chumbo onde podem ser controladas e isoladas, mas levaria um certo tempo até que aquela região realmente pudesse ser considerada livre de radiação. Depois de analisar meteorologicamente o ambiente estimou que aquela chuva duraria aproximadamente uma semana, por conta disso não poderia deixar o Nexus até que fosse seguro, precisou fazer as funções que conseguia de dentro da nave, mas ainda não podia interagir diretamente com o planeta e acelerar o processo, mas tempo definitivamente não era uma questão para RENO. O robô ficou em pé em frente ao painel do nexus imóvel, aproveitando para colher dados e planejar estratégias de recuperação mais eficientes. Passou dois dias de pé fazendo suas funções dentro do que podia, sua bateria ainda tinha uma duração muito longa e era adaptado para absorver energia solar, o que permitia um período longo de funcionamento sem intervalos, foi em meio ao seu trabalho de dois dias que verificou uma leitura estranha no painel, uma onda subiu e depois estabilizou, logo mais ela oscilou brevemente outra vez. Ele focou toda atenção na leitura, foi então que o sinal começou a oscilar sem parar, não fazia sentido algum, as circunstâncias do planeta eram extremamente precárias, era praticamente impossível receber uma leitura de vida, mas ainda assim, foi exatamente o que o radar detectou, aparentemente existia vida sim, mas não na superfície.
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