R.3
1 À Grande Fonte
Em 2056 foram proibidos o uso de animais para realização de pesquisa e testes de remédios e produtos. Havia sido um tremendo abalo na medicina e laboratórios. No meio de toda a confusão da novidade, o maior centro laboratorial do mundo estava quieto demais para quem recebia uma bomba desta proporção.
Me chamo Deelan McQueen. Moro sozinho em uma grande capital. Fui criado pelos meus avós, já falecidos.Tenho 19 anos e faço curso técnico laboratorial. Atualmente busco por um estágio, de preferência um local onde eu possa confirmar minhas suspeitas, a principal delas é sobre o grande mistério por trás das cobaias atuais da medicina.
Quinze anos se passaram desde a declaração da nova lei médica. Porém muitos remédios e grandes descobertas de cura continuaram a serem produzidas. Muitos se perguntavam o que realmente acontecia dentro daqueles imensos laboratórios, e comigo não era diferente. Jurei para mim descobrir o que realmente se passava por de baixo da criação de novos e cada vez mais poderosos medicamentos, e estava completamente empenhado nisso.
- Esta é a ala sul. Como podem ver, aqui ficam os computadores que processam todos os dados recolhidos.
- Uau, Deelan! Isso é realmente enorme!
- Eu sei, Jonny...
- É claro que você sabe... Olhou fotos deste local a vida inteira! – Mas nunca pude descobrir o que queria. Eu e minha turma de curso havíamos conseguido permissão para visitar o centro de pesquisa Russel. O maior e mais completo laboratório do mundo. Eu ali estava finalmente.
- Alguma pergunta? – Um dos acompanhantes que nos mostrara o local parecia, não sei explicar, mas estranhamente desconfortável.
- Eu tenho uma! – Falei erguendo uma de minhas mãos.
- Sim?
- Como vocês estão se virando depois da lei que proibiu o uso de cobaias vivas? – Eu o observei atentamente, ficara sem reação a minha pergunta.
- Bom... Nós construímos uma espécie de robô. Ele imita as capacidades e organismos humanos. Assim nós podemos testar os remédios com eficácia.
- Não pode nos mostrar? – Um de meus colegas perguntara.
- Eh... Bem, isto fica na parte inferior do laboratório, não tenho autorização para leva-los até lá. Minhas desculpas.
- Tudo bem... – Respondeu.
- Bom, agora por aqui... – Falara ele conduzindo os alunos para outra parte do laboratório. Era realmente enorme. Muitas divisões, salas e saletas. Corredores, inúmeras portas que levavam para o fundo. Tudo extremamente branco, o teto alto e bem iluminado. Quando dei por mim a turma já estava bem afastada. Quando me toquei e me movi para acompanhá-los, algo despertou minha atenção. Um choro. Ao longe pude escutar um gemido que se afastava cada vez mais. Lembrava um grito de dor, ou algo assim. Sem pensar comecei a seguir o som cautelosamente, notando que não havia ninguém por perto. Caminhei por um enorme corredor que levava para a parte inferior do laboratório. O grito se tornava mais nítido a cada passo que eu dava. Andei mais depressa, passando por muitas portas e mais corredores. Já não sabia dizer onde eu estava, mas não importava, não era normal uma pessoa estar gritando daquele jeito em um laboratório que dizia não utilizar cobaias vivas, ou os robôs estavam programados para chorar também? Era óbvio que não. Seguir adiante era o mínimo que eu podia fazer, não que eu conseguisse me frear. Uma grande porta branca finalizava aquele enorme corredor, talvez estivesse ali a fonte de todos os gritos.
- Onde pensa que está indo, garoto? – Talvez não fosse tão fácil assim, afinal... Um homem de jaleco, provavelmente trabalhava lá, bloqueava a porta. Por mais estranho que pareça, os gritos cessaram.
- Hum... Nada. Era só que eu pensei...
- Este local é proibido. É vedada a entrada de pessoas que não trabalhem aqui. Provavelmente deve ser um dos estudantes da universidade visitante. Volte para o meio de seus colegas, por favor. – O homem era alto, pele branca, cabelos negros curtos. Usava óculos de grau.
- Sim, me desculpe. – Virei às costas e me fui. Eu sabia que ele estava me observando, talvez esperando que eu pudesse tentar entrar em outra porta, ou coisa do tipo.
***
- Não acredito que fez isso, Deelan!
- O que esperava que eu fizesse? Eu escutei algo estranho, fui averiguar... Sabe que não sou de ficar parado.
- É... eu sei. – Eu conversava com Jonny na hora de nosso intervalo. Estávamos sentados na parte gramada do campus. – Você está estudando muito meu amigo... – Dizia ele.
- Tenho que conseguir esse estágio.
- Você está mesmo empenhado nesse caso das cobaias, hein?
- Tenho que abordar este assunto no meu trabalho de conclusão de curso. Não posso deixar pra lá um assunto que me interessa desde que eu tinha três anos de idade.
- Você está certo. Não vai cortar esse cabelo não?
- Se eu passar, eu prometo que corto. – Falei. Meu cabelo era castanho, estava pelos ombros. Não sei por que, mas quando me dei conta já estavam nesse comprimento. Eu passo muitas horas dos meus dias estudando e pesquisando. Meu curso me tirava muitas horas, e há essa altura já havia até me esquecido de mim. Quando parei para me olhar no espelho já estava com aquela aparência. Sim, eu sei. Parece deplorável. Mas eu estava mesmo empenhado com tudo aquilo. Os assuntos laboratoriais haviam me prendido a atenção desde que eu era uma criança. E desde sempre soube o que eu queria ser. Não ia abandonar o barco aquela altura.
O dia havia começado bem. Logo pela manhã fiz o teste que me classificaria para qual local eu faria o estágio. Eu estava satisfeito. Tinha fé de que conseguiria.
A prova não fora difícil, muito pelo contrário, eu havia estudado tanto, durante tanto tempo que para mim tudo aquilo era fichinha...
- Vamos, Deelan! As folhas já devem estar nos murais! – As páginas imprimidas que indicavam o local que cada aluno faria o estágio, havia sido colocada naquela manhã. — Vamos ver você primeiro, meu amigo. – Disse ele que caçava pela letra D nas linhas que indicavam os nomes. Talvez ele estivesse mais ansioso do que eu. – Não acredito! Cara, está brincando! Você...
- Me deixa ver... – Mirei os olhos para onde ele indicava pasmado. – Deelan McQueen Laures -> Laboratório Russel -> Ajudante de Pesquisa. – Eu estava certo de que iria conseguir, mas mesmo assim, não pude deixar de ficar feliz. Eu estava quase lá, vovó! Eu estava quase lá!
- Ei, Deelan? Você está bem, cara?
- Claro que estou. Só que é meio difícil de acreditar que consegui. – Falei, tomando o cuidado para não chorar, porque aí seria demais.
- Vai cumprir o prometido então, não é?
- Claro que sim.
Lá estava eu no último dia antes do estágio. Muitos me olhavam de esguelha quando entrei na sala, mas é claro, ninguém comentara nada. A não ser...
- DEELAN!!! É VOCÊ?!
- Cala a boca, Jonny!
- Sério cara, nem parece o Deelan mulambento que eu conheço! Agora que notei o quanto você é bonito! E olha! Seus olhos são verdes!
- Ah, Jonny! Que coisa! – Ele era mesmo um idiota. Certo, eu não era diferente... Como prometido, havia cortado meu cabelo: um pouco curto e repicado nas pontas, e feito a barba. Ele não havia exagerado, fazia tempo que não via como eu realmente era. Aquele seria meu último dia naquela universidade. Era certo, de agora em diante meu empenho só havia aumentado. Eu descobriria com toda a certeza tudo que estava por trás da atual medicina, pois eu estaria indo direto à grande fonte.
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