R.3
2 Meus dias de Trabalho
Notas iniciais
- Esteja sempre pronto para anotar tudo que lhe pedirem. Anote as sugestões, e tudo mais que estiver ao seu alcance. Não esqueça de passar os recados. Se necessário servirá de mensageiro entre as salas. A parte prática na execução dos medicamentos e afins dificilmente necessitaremos de ajuda.
- Mas senhor Fausty, sou um estagiário, estou aqui para aprender a parte “prática” também. Como me tornarei um laboratorista se não auxiliar nesta parte? – Perguntei. Ele me olhou torto.
- Veremos. – Aquela era minha primeira semana como estagiário. Não era tão ruim... O que me parecia é que eles tinham um pouco de receio sobre mim. Minha aparência estava bem diferente da qual haviam me visto quando vim à visita com meus colegas, há um mês atrás. O tal Fausty era o mesmo homem que me bloqueara na porta naquele dia, para minha infelicidade, porém era bem provável que não havia me reconhecido.
O trabalho era um pouco puxado. Eles me mantinham ocupado o tempo inteiro, nas correções e revisões de intermináveis fichas e papeladas de venda e distribuição de medicamentos. Se bem me lembro não fora para o cargo de “almoxarifado e arquivamentos” a que fui indicado. Mas estava tudo bem. Eu precisava daquilo, a pior e mais difícil parte eu já havia conquistado, que era estar ali dentro, o resto eu tiraria de letra.
- Sr. McQueen!
- Sim?
- Venha. Leve estes documentos em amarelo para a ala sul, e mais estes azuis para a ala oeste. Entregue estas fichas para o Dr. Sean. E os vermelhos leve para o andar de cima, na sala três. – Eu já estava entupido de documentos e papéis de novo, pra variar. Sorte que eu tinha uma boa memória...
Eu havia chegado ao andar de cima e entregado meu último pacote de documentos. Me sentei a uma cadeira que ficava perto dos corredores. Estava exausto de tanto trabalhar.
- Você deve ser o estagiário, certo? – Eu olhei para a fonte da voz. Uma garota de cabelos castanhos e jaleco estava com algumas amostras nas mãos.
- Sim. Deelan McQueen.
- Prazer, sou Cintia Vezmer. Trabalho na ala de testes dos medicamentos.
- Muito prazer, Cintia.
- Eles estão pegando pesado com você pelo que estou vendo. – Disse ela por alto.
- Não... Está tudo bem.
- Não se preocupe. Logo conquistará a confiança deles.
- É o que espero...
- Bom, eu já vou. Tenho que levar estas amostras. Te vejo por aí Sr. McQueen.
- Certo... – Acenei a ela quando se foi pelo corredor. Sim, eu estava quase morrendo de tanto andar pra lá e pra cá.
- Sr. McQueen. Chamando na ala norte. Por favor compareça imediatamente. – Lá ia eu de novo.
Desta vez era um outro doutor que me passava novas papeladas.
- Aqui. Estas vêm da sala de testes. Quero que as leve para a zona sete. Deixe na mesa do Dr. Raul. Ele tem que analisá-las.
- Certo. – Apanhei as fichas e me fui. Então aquelas vinham da sala de testes? Eu esperei entrar na zona sete para parar em uma saleta de materiais de limpeza. Estava escura e livre de câmeras de segurança. Acendi a luminária, me aproximei da mesa e folhei as fichas. Lá estavam. Talvez aqueles deveriam ser as análises das amostras que vi mais cedo nas mãos de Cintia. – Vamos ver... Lia rapidamente cada folha, até que... – “Teste aplicado em R.3 com sucesso. 0% de Perda. 99% de Eficácia. 1% Efeito colateral desgastante.” – Efeito colateral desgastante? O que aquilo significava? R.3 seria o tal robô? Não... Só um desavisado pra acreditar naquela história ridícula! Mas então haviam mesmos cobaias. Restava-me saber como elas eram.
- Pois é, foi o que ela me disse... – Eu escutei vozes do lado de fora. Juntei todos os documentos rapidamente. Se descobrissem que na minha primeira semana já estava reunindo informações, seria mandado embora na certa. Eles não podiam suspeitar de mim em hipótese alguma. Por sorte haviam passado direto. Esperei alguns minutos antes de deixar a saleta. Após isso, levei as papeladas na sala que me fora pedida.
- O Sr. demorou... – Falara o tal Dr. Raul.
- Desculpe. Me perdi. – Falei.
- É normal... Este laboratório é mesmo enorme! Eu me perco ainda nos dias de hoje! – Disse ele sorrindo alegremente.
- Sim... Eu imagino. – Falei sem dar muita atenção.
- Deve estar cansado. Pode se sentar se quiser. – Disse ele. Eram várias divisórias, em uma grande sala. Muitas pessoas averiguavam papeladas, outras davam telefonemas. Eu me sentei. Meus pés doíam muito.
- Semana que vem alguns de nós pegará férias. Graças aos céus! As coisas estão um pouco mais tranquilas agora... Aí tudo ficará mais calmo pra você, Sr. McQueen.
- Pode me chamar de Deelan. Obrigado por me deixar sentar, estou realmente exausto. – Disse. Ele me olhou e sorriu.
- Eu já tive sua idade e sei o que é dar duro por um sonho. Não se preocupe. Se trabalhar com a cabeça, as coisas sempre tendem a melhorar.
- Obrigado... – Respondi. Ele me ofereceu um pouco de água, que eu aceitei de bom grado. Aquele dia havia sido o mais cansativo de todos, mas eu havia descoberto algo, e era isso que me motivava.
- Me diga, qual é o seu objetivo, garoto?
- Quero trabalhar na busca pela cura de doenças.
- Então estão subestimando você o fazendo levar papéis de lá pra cá. Tem cara de que tem potencial...
- Bom, eu estudei muito para estar aqui.
- Estudar nunca é o suficiente. Não adianta saber as coisas na teoria se não tem talento na prática.
- Estou aqui justamente em busca de uma oportunidade de praticar o que aprendi. Só espero que eles me permitam tentar. – Respondi.
- Está certo. Não adianta de nada a força de vontade sem a oportunidade...
- Mas se você tem força de vontade você cria as oportunidades. – Falei.
- Nem sempre... – Respondeu ele. Fiquei pensando o que ele quis dizer com isso. Mas eu estava cansado demais para raciocinar.

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