R.3
3 A Verdadeira Cobaia
Notas iniciais
Duas semanas haviam se passado. Eu já estava me acostumando com o ritmo de trabalho, havia até adquirido mais músculos! De fato, como Raul havia me dito, muitos tinham saído de férias, para a nossa alegria!
As coisas estavam calmas naquela tarde. Eu estava organizando alguns documentos antigos nas fichas datadas, quando os autofalantes foram ligados quebrando toda a calmaria.
- Por favor, todos os funcionários, comparecer ao laboratório restrito! Repito! Rápido, favor comparecerem imediatamente! – Laboratório restrito? Aquilo era estranho, ninguém convocava funcionários para aquela área do laboratório. Como o próprio nome dizia, ele era totalmente restrito, somente os médicos tinham permissão para entrar lá. Além do que ficava na parte mais ao fundo de toda aquela extensão. Mas em todo o caso, estávamos sendo convocados, talvez essa fosse minha chance.
Muitos dos funcionários que restaram foram à ala restrita. Não eram muitos e lá estava eu no meio deles. Eles imediatamente autorizaram nossa entrada, verificando nossos crachás. Eu era o único que não usava jaleco. Esse distrito assim como os outros, era enorme. Um barulho estrondoso era ouvido por de trás das paredes que dividiam a enorme sala.
- Por ali! – Um dos funcionários corria em direção aquela parte. Havia algo errado. – O R.3 saiu de controle! O Dr. não consegue pará-lo! – Quando escutei a menção do nome “R.3” eu sabia, era a cobaia. Rapidamente acompanhei os outros funcionários até a ala indicada. A primeira visão que tive foi de muitas coisas voando pelos ares. Primeiro foi uma cadeira que quase acertou um colega de trabalho, segundo foi uma mesa de ferro. O máximo que podia fazer era tentar evitar que aquilo tudo viesse em minha direção. Parei em um canto me escondendo, ninguém tinha coragem de se aproximar da fonte da catástrofe. Corri os olhos pela sala, no meio de tudo aquilo, pra minha total surpresa, estava um garoto miúdo totalmente nu e extremamente branco jogando pra cima tudo que via pela frente. Eu não acreditei no que vi, ele devia ter no máximo uns treze anos, e parecia furioso... Então, ele seria a cobaia? Quando dei conta da minha dedução, me levantei e tentei me aproximar, vendo que ninguém se mexia ou tentava fazer algo.
- R.3! – Meu grito estrondou a sala. Todos pararam, inclusive o garoto. Ele arregalou os grandes e brilhantes olhos cor de mel pra mim. Seus cabelos extremamente ruivos, passavam um pouco seu ombro. Ele respirava rapidamente. Todos me olharam quando tentei me aproximar dele. – Porque está assim? Se continuar estragando tudo, vai me dar um trabalhão pra arrumar depois... Sim, porque certamente irão mandar eu fazer isso. – Disse mirando meus superiores. R.3 não se mexia. Me aproximei ainda mais. Lentamente levei as mãos ao bolso tirando de lá uma caixinha de balas. Eu notei seus olhos brilhando quando tirei um chiclete de lá e fingi levá-lo a minha boca mastigando. – Hum... Isso é bom. – Disse. – Quer? – Ele nada respondeu. Então fiz umas três bolinhas coloridas correrem até ele. O garoto observou-as rolar no chão e pararem próximas dele. Ele hesitou. Mas, cautelosamente, sem tirar os olhos de mim, se abaixou e as apanhou uma a uma. As mãos dele eram tão pálidas que pareciam não correr sangue. Seus dedos eram finos e longos. Ele levou uma das balas à boca e mastigou. Eu fingi engolir sabendo que ele estava me observando. Depois de alguns segundos mastigando ele a engoliu. Em seguida levou as duas de uma só vez a boca, mastigando e engolindo em seguida. Ele respirou fundo andando para trás, um pouco tonto. Estava dando certo, pensei. Eu fui até ele a tempo de apanhá-lo em meu colo. Ele me olhou dentro dos olhos antes de cair em um sono profundo.
Eu respirei fundo. Todos ali pareciam atônitos.
- O quê...? – Fausty tentara perguntar.
- Tem sonífero na bala. – Falei.
- Mas você comeu também! – Ele questionou.
- Não, eu não comi. Fingi fazer.
- Que tipo de pessoa anda com soníferos em forma de balas em seu bolso? – Perguntou.
- Tipos como eu. – Falei sorrindo. A verdade era que Jonny havia feito uma brincadeira com um colega e depois me dera o restante. Desde então ficara em meu bolso. Ele se aproximou tentando apanhar R.3. – Não. Pode deixar que eu o levo. – Falei me adiantando com o garoto em meus braços.
- Cintia. Acompanhe ele.
- Certo. – Agora que eu havia notado que a mesma garota daquela vez estava ali. Ela me mostrou uma ala, na verdade era um grande quarto, com cama e outras tantas parafernálias médicas. Eu o acomodei na cama, puxando um lençol o cobrindo.
- Você vai me explicar tudo. – Falei olhando-a. – O que significa esse garoto aqui? – Ela me olhou de esguelha, respirando fundo.
- Ele é o Reborn “renascido” número três. O primeiro Born “nascido”, não deu certo, então fizeram o Reborn dois, que também morrera. O número três foi a experiência de sucesso.
- Reborn? Mas...?
- Ele é um ser que imita todo o organismo humano. Foi totalmente criado de maneira artificial. A junção de DNA artificial a sêmens e óvulos artificiais. Desenvolvido em útero de laboratório, ele substitui cobaias animais e humanas. Inventaram essa ideia há dezesseis anos atrás. Quando previram que a lei contra cobaias vivas fosse vigorar, eles já estavam com todo o plano Born em mente. – Como eu não previ que algo do tipo podia estar acontecendo?
- Então é um humano, mas não é, ao mesmo tempo?
- Ele não é um humano. Foi criado para testes de remédios e medicamentos. Seu corpo é cem vezes mais resistente que o de um ser humano. Ele é capaz de eliminar todas as toxinas de um medicamento em quarenta e oito horas após a aplicação. Então o teste é feito neste intervalo. Quando um novo remédio é aplicado ao R.3 ele fica em observação, passa por uma bateria de exames para ver os resultados, que aparecem imediatamente. Por ser um ser geneticamente criado, seu corpo rapidamente mostra o que o medicamento pode fazer, quais são suas reações adversas e tudo que ele pode acarretar. É um verdadeiro computador. Criado para nos mostrar todos os resultados de análises clínicas e experimentais.
- Então a história do robô apresentado como resposta nas entrevistas era uma farsa para esconder o R.3?
- Sim. Entenda Deelan, se a verdade fosse revelada, todos iam ficar contra o Laboratório Russel.
- E não é pra menos! Isso é moralmente ilegal! Usar clones não me parece uma saída ética!
- Mas você não compreende? Graças ao R.3 que muitas vidas estão sendo salvas! Inclusive na pandemia que enfrentamos recentemente! Graças a ele que poucas pessoas hoje morrem de câncer, ou até mesmo de HIV! É graças a ele que descobrimos a cura de muitos males que perseguem os humanos.
- É... Graças ao sofrimento dele, você quer dizer...
- Se continuar pensando assim, então sinto muito em dizer, mas este não é o seu lugar. Agora que descobriu a verdade, tem que obedecer as regras que vigoram aqui. Se não aceita, então vá embora. – Eu a olhei, ela tinha razão, não em eu ter de aceitar as regras impostas por eles, mas sim de ficar quieto por enquanto. Eu não podia logo de cara expressar o que realmente pensava, se não eu seria mandado pra rua logo.
- Não é tão simples assim, Cintia. – Fausty entrara na sala. – Ele não sairá assim tão facilmente agora que sabe a verdade. Ele está sob a nossa vigilância, assim como todos que sabem sobre os Reborns.
- Sim, senhor. – Dissera ela abaixando a cabeça. Era impressão minha ou o tal do Fausty era o manda chuva ali que todos temiam? Todos menos eu. Não gostava do olhar dele, desde a primeira vez que eu o vi. Todos ficaram estranhamente quietos. Fausty se aproximara do garoto tocando sua testa.
- Parece que ele gostou do Deelan. – Comentou Cintia.
- Não é nada disso. – Falou secamente Fausty. – Ele só não o repeliu porque o Sr. McQueen não usa jalecos. O R.3 nos repele porque sabe que somos médicos, pois todos usamos branco. – Ele tinha razão, eu só me aproximei porque já havia percebido esse fato. Eu estava usando jeans e camisa azul marinho.
- Se havia notado isso antes devia ter trocado de roupa, doutor. – Falei. Ele me olhou de esguelha, parecia me analisar, eu sustentei o olhar.
- Devia mesmo ter pensado nisso. – Falou. – Vamos ver quando ele acordar. – Disse, tirando o jaleco. Fora impressão minha ou aquilo soou como um desafio? Em todo o caso, nem por um milhão eu arredaria o pé dali.

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