R E V I V A L
3 ATO 1. 03 - Blue
Notas iniciais
Quando chegou no apartamento tirou o uniforme e andou nu pela casa, ele estava extremamente feliz e nenhuma roupa iria atrapalhar sua felicidade! Ficar nú era libertador!
Estava tão feliz que resolver jogar Just Dance no Xbox, sim, totalmente pelado e torcendo pra que ninguém jamais visse as coisas que aquele Kinect viu.
Capítulo 03 — Blue
Logo após sair de casa ele passou na padaria e comprou só um croissant de frango pra viagem, chegou na escola lembrou que não tinha feito o dever de história, sentou-se no cantinho de sempre e se botou a fazê-lo, não reparou nas pessoas chegando e não se sentiu triste e nem deslocado, pela primeira vez em tempos, ele se sentia acolhido, não via mais as coisas por fora, agora via por dentro, ele fazia parte de algo.
As aulas passaram normalmente e Thomas se entristeceu ao perceber que nada tinha realmente mudado, era a quinta aula e Marcelo sequer tinha falado com ele! Estava pensando se o convite ainda estava de pé quando o sentiu um toque nas costas.
— Hey, já já a quinta aula acaba, você vai lá pra casa?
— Vou sim! — sorriu ao perceber que as dúvidas eram apenas invenções de sua cabeça.
— Ótimo então — E logo Marcelo voltou ao seu lugar, deixando Thomas com um sorriso no rosto.
O tempo parecia congelado e os minutos se arrastavam até finalmente o sinal tocar anunciando o intervalo, guardou suas coisas rapidamente e pensou em ir até Marcelo que estava rodeado de amigos, ponderou um pouco mais sobre a possibilidade de se aproximar e decidiu que iria esperar o número de pessoas diminuir e ficar menos ameaçador.
— Hey — chamou quando o número de pessoas havia diminuído.
— E aí, vamos?
— Vamos.
— Ah, oi Thomas, essas daqui são Érica e Camila — Marcelo apresentou as duas garotas, Érica era a mesma sala que eles, Camila não.
— Oi garotas, sou o Thomas — cumprimentou.
— Oi.
— Oi.
— Bem, agora que vocês se conhecem, vamos?
— Vamos.
E assim eles foram, Thomas estava com dificuldades em gravar o nome de Camila pois mentalmente gravou seu nome como Taylor Swift por causa do cabelo loiro cacheado. Depois de alguns minutos de uma caminhada divertida, e cheia de brincadeiras de Marcelo, eles chegaram. O quintal da casa de Marcelo era grande e nele moravam dois cachorros, um preto e grande e outro branco, pequeno e peludo, Thomas não sabia a raça deles mas amou brincar com eles por um tempo enquanto Marcelo tentava achar as chaves pra entrar na casa, quando ele finalmente conseguiu abrir a porta e entrar na casa eles foram até a cozinha prepar algo para comer e descobriram que ninguém ali sabia cozinhar, por fim decidiram fazer a boa e velha macarronada, simples e fácil.
Enquanto o macarrão cozinhava na água fervente escutaram a campainha tocar, seguida de algumas batidas no portão e Marcelo perguntou com uma voz preguiçosa:
— Thomas, você pode ir lá atender o portão?
— Claro.
A primeira coisa que viu ao abrir o portão foi o sorriso radiante de Lucas que pareceu surpreso por vê-lo ali.
— E aí Thomas?
— Ah, e aí... podem entram, o Marcelo tá lá dentro — disse abrindo mais o portão para Lucas e o colega atrás dele passar.
— Hm, Thomas, né? — perguntou o garoto, que Thomas só foi realmente notar quando ele tinha se pronunciado.
— Sim e você é o Henrique, senta lá atrás, não?
— Esse mesmo — disse enquanto já entravam na casa.
— Os mocinhos estão atrasados, queria saber como vai ser no nosso casamento gay poligamico, vocês vão se atrasar pra ele também? — brincou Marcelo.
— Ai ai Cello... — iniciou Henrique — de todo meu coração...- pausa dramática — Vai se ferrar.
— Vocês estão com fome? — Érica perguntou.
— Não, eu e o Henrique paramos no caminho e dividimos um salgadinho.
— Ótimo, ainda vai demorar um pouco pra ficar pronto, vocês podem subir e fazer alguma coisa, eu e a Camila cuidamos do macarrão.
— Não sei, acho isso de deixar as garotas cozinharem sozinhas uma coisa bem machista, sabe...
— Eu também acho, mas eu prefiro isso do que morrer de fome, agora para de encher o saco Cello e vai arrumar algo pra esses dois idiotas fazer antes que eles comecem a encher meu saco também — E com risos os quatro deixaram Érica e Camila cuidando de tudo.
Subiram até a sala onde Marcelo ligou o Xbox e colocou Halo 4 para eles jogarem, como tinha apenas dois controles eles se dividiram em turnos. Sentados no chão enquanto jogavam eles não conversaram muito, apenas riam e gritavam palavrões em momentos de tensão, uma vez quando o jogo parecia perdido pra Thomas, Lucas sentou-se atrás dele com as pernas abertas, envolveu ele com seu abraço e por alguns segundos ele pegou o controle da mão de Thomas e jogou em seu lugar, matando o soldado de Henrique que logo começou a gritar dizendo que aquilo não era justo mas então a fúria se dissipou e ele se jogou no chão rindo ao escutar Lucas bradando "VINGANÇA, VINGANÇA" e em meio aquela gritaria e risadas o coração de Thomas batia forte, seu sangue corria rápido, suas bochechas coravam e outras partes do corpo ganhavam vida. Foi a primeira vez que ele sentiu o calor do corpo de Lucas. Foi intenso.
Logo após isso, ouviram o chamado das garotas e desceram até a cozinha para ajuda-las a levar a mesa para sala.
A comida estava com uma aparência ótima, o clima estava leve, pelas grandes janelas da sala entravam a luz do sol e ar fresco, Thomas estava sendo aceito ali, ele tinha talheres e um prato a sua frente pronto pra ser enchido, a única coisa que faltava era o refrigerante que Lucas já iria levar. Lucas e Camila iriam levar.
Levantou-se da cadeira, foi pra perto da escada e gritou "CADÊ O REFRI?" e logo o clone da Taylor Swift country apareceu, seu rosto estava corado mas o seu batom vermelho continuava intacto. Bom sinal. Enquanto ela subia as escadas em direção a Thomas, Lucas apareceu no primeiro degrau da escada, por um momento parou ali e com um rosto sério, encarou Thomas. Mau sinal?
A expressão séria de Lucas logo foi substituída por um mini-sorriso, Thomas não saberia dizer se aquilo era, ou não, um sorriso verdadeiro e por isso não aguentou segurar aquele olhar, desviou e voltou pra mesa.
Enquanto se servia a dúvida remexeu sua mente "Lucas e Camila estavam juntos?" e ela voltou dezenas de vezes em questão de segundos e levou toda boa energia de Thomas, seu sorriso já tinha desaparecido e torcia pra ninguém perceber aquilo, mas também queria que Lucas percebesse, queria que Lucas visse aquilo e se compadecese com ele. Queria que Lucas soubesse que o motivo do sorriso no rosto dele ter morrido foi ele. Fazia algumas semanas que eles trocavam olhares e aquilo significou tanto pra Thomas, ele queria saber se a ligação que sentia era uma via dupla, Lucas também sentia Thomas da forma que Thomas o sentia?
"OLHE PRA MIM LUCAS, EU ESTOU TRISTE. EU ESTOU TRISTE E EU PRECISO DE VOCÊ, PORQUE VOCÊ É O MOTIVO DESSA TRISTEZA, SÓ VOCÊ PODE ARRUMAR ISSO!"
"Não."
"Não."
"Não."
"NÃO!" Ele dizia pra si mesmo repetidamente, como um sentimento dessa magnitude nasceu em apenas um toque?
Doentio.
Era um sentimento doentio. Não era algo saudável, Lucas claramente era hétero, todos aqueles olhares e aquele toque, tudo tinha sido inventado pela sua mente, nada tinha uma segunda intenção da parte de Lucas. Ele apenas tinha sido a primeira pessoa que lhe tinha dado a atenção que precisava. Aquilo não era amor, aquilo era solidão e carência, jamais amor.
Não podia continuar a se apegar tão fortemente a qualquer um que aparecesse e lhe desse um pouco de atenção, as coisas nunca deram certo quando isso acontecia. Normalmente Thomas terminava morto.
A batalha em sua mente continuava e bagunçava tudo, trazendo memórias de outras vidas e fazendo lágrimas quererem aparecer. Elas não podiam vir. Não.
A respiração começou a pesar e percebeu que perderia o controle ali e provavelmente espantaria todo mundo, estava perdendo a cabeça até que escutou a gargalhada de Lucas, então ivoluntariamente fixou sua mente em um ponto, em algo fixo, algo que ele sabia que era real. Lucas. Olhou com atenção redobrada todos os traços do rosto de Lucas e viu beleza em cada um deles, também viu neles a sua âncora.
Foi em Lucas que ele tinha se perdido e era em Lucas que ele se achava agora, aos poucos seu sorriso voltava e ele ria, bêbado em Lucas.
Quando terminaram de comer arrumaram as coisas e lavaram a louça suja e logo voltaram a sala.
— O vocês querem fazer agora? — perguntou Marcelo.
— Você disse que ia ver Skins faz um mês e até agora nada! Vamos ver e vamos ver agora! — exclamou Érica.
— O que é Skins? — Henrique perguntou.
— Uma série, só precisa calar a boca e ver.
E assim foi, conectaram o Netflix pelo Xbox e se arrumaram pra assistir. No sofá maior ficou Marcelo, Érica e Camila, no menor sentou Lucas e Thomas enquanto Henrique usava o banheiro.
— Primeira, Segunda ou Terceira Geração? — perguntou Érica.
— Quê isso? — A pergunta veio de Lucas.
— Responde.
— Segunda.
— Tudo bem.
As coisas estavam quietas até Henrique voltar e eles perceberem que não tinha lugar suficiente pra todos, no fim, Lucas e Thomas foram obrigados a se espremerem para ele caber no sofá. Thomas tentou ignorar o fato de que a coxa grande de Lucas estava sobre a sua, estava indo bem na missão de tentar ignorar o enorme calor corporal vindo de Lucas até Henrique começar a reclamar sobre estar muito apertado e começar a empurrar Lucas que depois de alguns empurrões caiu em cima de Thomas, rindo e logo então a série foi pausada e seguida por uma enxurradas de empurrões dos garotos e gritos de Érica pedindo pros dois se portarem como humanos e não como dois chimpanzés lutando por território. Thomas achava aquilo extremamente divertido e engraçado, porém os gritos e os risos cessaram após um tempo e eles voltaram a ver a série.
Ficava cada vez mais difícil ignorar o calor que emanava do corpo de Lucas, primeiro porque aquilo era extremamente excitante para Thomas, segundo que por estar quente o calor do corpo de Lucas começou a fazer os dois suarem e aquilo fazia Thomas ficar triplamente mais excitado.
"Se eu botar minha cabeça no ombro dele ele vai se importar?" pensou "Bem, não custa tentar" aos poucos sua cabeça se inclinou para o ombro de Lucas e quando finalmente estava com a cabeça deitada em Lucas a única reação dele foi passar a mão nos cabelos de Thomas "Isso é um bom sinal? Deve ser."
E foi em meio a uma maratona de Skins em plena terça-feira, rodeado de futuro novos amigos, deitado sobre Lucas e sentindo seu calor corporal que ele pensou "Agora, capture isso. Lembre-se disso. É uma boa memória."
— Sabe, eu acho que eu pareço o Cook — Lucas pensou em voz alta.
— Sim — respondeu Marcelo.
— Isso é uma boa coisa?
— Não — respoderam em um coro desarmonico, fazendo Lucas gargalhar.
"É uma ótima memória."
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