Réquiem
1 Contato
Notas iniciais
Nem tudo o que você vê é real ou pode ser tocado.
A manhã parecia se arrastar cada vez mais enfadonha. O silêncio quebrado apenas pela voz do sensei que continuava a explanação lhe dava a sensação de que estar presa em um tipo de castigo. A voz de Shino era grave, porém pontuada e lenta, parecendo se arrastar uma infinidade antes de finalmente escorregarem dos lábios que se movimentavam de maneira também monótona. Estava lhe dando sono aquele monólogo que parecia infinito, tão tedioso que até mesmo os ponteiros do relógio pareciam se arrastar em consonância.
Sarada se movimentou minimamente, com medo de atrapalhar a aula, apenas o necessário para poder aliviar os membros dormentes. Estavam na mesma posição há quanto tempo? Meia hora, uma talvez? Era um martírio, principalmente porque ao seu lado estava o garoto mais enjoado do mundo: Boruto. O cabeça de vento tinha o queixo apoiado em uma das mãos de maneira tão preguiçosa que dava a impressão de que sua pele ia escorregar pelos dedos a qualquer instante, tamanho o peso que exercia sobre o cotovelo. Como conseguia mirar o professor tão descaradamente sem nem ao menos disfarçar a cara de tédio? Era muita falta de etiqueta mesmo. Sarada beliscou as próprias bochechas se obrigando a se recompor, não podia deixar seu desinteresse transparecer, tinha um sonho e ele exigia que ela se esforçasse para ser reconhecida como uma aluna esforçada e bem quista. Amaldiçoava internamente o sono que sentia e o fato de estar próximo a alguém como Boruto. Ele agia quase como um catalisador de atenções o que tornava ainda mais desafiador o trabalho de se manter acordada. Se tivesse uma maneira de trocar de lugar com ele seria mais fácil, mas não havia um mísero lugar vago no recinto, então jeito era aturar.
Constatou ao analisar o relógio da sala pela enésima vez que faltava pouco para intervalo e resolveu se conformar, ansiando pelo momento em que poderia esticar as pernas entorpecidas. O céu coberto de nuvens pesadas capturou sua atenção. Mais um empecilho a sua torturante tarefa de manter os olhos abertos.
Algo nas árvores captou sua atenção.
Havia um menino sentado entre os galhos. Tinha cabelos cumpridos e uma expressão triste, quase mortificada. O coração da jovem retumbou mais forte. A criança possuía um aspecto tão tenro que podia jurar que ela não tinha mais que cinco anos. Precisava saber o que um menino tão jovem fazia ali, poderia estar perdido, sozinho... Com certeza não estava feliz por estar ali, visto que cobria o rosto com as mãos e soluçava de maneira espasmódica.
Com os sentidos alerta, a Uchiha estava prestes a pedir licença ao professor para poder ajudar a criança quando a perdeu de vista. Piscou os olhos confusa, afinal o pequeno tinha estado ali segundos antes, podia jurar! Como teria desaparecido em um piscar de olhos? Ou será que tinha sido a sua mente cansada a lhe pregar peças? Pegou-se duvidando de si mesma. “Ok Sarada, se não é capaz de convencer a si mesma, como espera imbuir os outros? ” recriminou-se em pensamento sentindo-se uma tola envergonhada.
O sinal tocou marcando o término daquela aula torturante e ela se dirigiu ao refeitório acompanhada pelas amigas. Em seu interior ainda se questionava sobre aquela criança. Teria sido ilusão ou realidade?
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Tinha sido ótimo esticar as pernas durante o horário de almoço e muito reconfortante conversar com as amigas, apesar de que a todo instante, Sarada se pegava olhando de relance para a árvore que ficava em frente a sua sala.
—Muito bem turma, agora vamos estudar história.— informou o sensei sob alguns resmungos de protesto que ele fez questão de repreender. Ela se regozijou em sua carteira animada com a disciplina que seria abordada pois era a sua preferida, mas sentiu um certo desalento ao ouvir o professor completar.- Hoje vamos prosseguir no estudo sobre a formação de alguns dos clãs da vila.
Mesmo não sendo possível vislumbrar os olhos do professor por estarem ocultos pelos óculos, Sarada sabia que ele a fitava. Por dentro era meio estranho saber que era a última de seu clã, assim como o pai, mas fazer o que? Aprumou-se ávida por saber um pouco mais sobre suas origens. Passearam pela fundação do clã Inuzuka, Hyuuga, Namikaze, Akimichi entre outros, mesmo que superficialmente, pois alguns segredos não eram revelados a terceiros.
A jovem percebeu que seu sensei estava meio hesitante e lhe dedicava mais atenção do que o normal, voltando o rosto para ela diversas vezes. Em verdade Shino sentia-se meio despreparado para falar dos Uchihas, temendo ofender a aluna, mesmo sabendo que teria que abordar o tema não se sentia corajoso o suficiente para isso.
Os minutos escovam. Até mesmo aclamados clãs de outras vilas tinham recebido sua porcentagem de atenção, o que estava começando a irritar a Uchiha. Seria seu clã tão pouco valorizado para não merecer destaque? Ao perceber que o professor ia encerrar a aula de história sem citar seu clã -deixando-a descontente e curiosa- ela resolveu reivindicar atenção.
—Sensei, o senhor ainda não falou do clã Uchiha. – protestou levantando a mão em um pedido de atenção. Ao seu lado Boruto tripudiou.
—Se ele não comentou é porque não é importante, baka— disse em uma falsa voz de deboche pois sabia bem que não era esse o motivo. Seu olhar se desviou a ponto de captar o que desejava com aquela implicância: o semblante irritado da jovem irritante Uchiha.
—Talvez o seu não seja importante.— devolveu irritada ajeitando os óculos- e ninguém pediu sua opinião.
—Acho que não prestou atenção na aula, Sarada. Eu sou um Uzumaki, meu clã ao contrário do seu foi citado. E muito bem, diga-se de passagem.
—E assim como o meu ele tem poucos sobreviventes. — levantou o punho fechado na direção dele, em um claro sinal de ameaça. — Quer que eu ajude a diminuir esse número? Aposto que não vai fazer diferença.
—Está com inveja porque eu tenho sangue de dois importantes clãs: Uzumaki e Hyuuga e ambos foram citados, ao contrário do seu.- o olhar de mofa dele e aquele sorrisinho cínico pediam para receber um soco. Mas a jovem Uchiha preferiu abaixar o braço. Não valia a pena gastar energia com alguém convencido e estúpido como Boruto.
—Boruto, menos. Não seja mal.— instou Sumire, a representante da classe, meio sem jeito. Tinha que ajudar a manter a ordem.
—Estou sendo apenas realista. Quem se importa com Uchihas?— observou olhando de esguelha para Sarada que estava divertidamente estressada.
—Você é realmente perverso.- Mitsuki analisou com seu habitual sorriso indecifrável. Não era possível dizer se aquilo o agradava, o irritava ou se simplesmente não o importava.
—Todos vocês parem com essa algazarra.— ordenou Shino com o semblante severo e as vozes se silenciaram. Sarada encarou o Uzumaki com uma expressão de puro mal humor, nervosa por ter sido repreendida por se deixar levar pelas provocações dele.- Sarada, você foi precipitada, eu ia sim falar do seu clã, não o deixaria de fora— o cenho da jovem kunoichi desanuviou e uma sombra envergonhada tomou a vez. Ao seu lado Boruto começou a retorcer o rosto em troça e foi repreendido de imediato.- Boruto, você tem que crescer, não pode continuar para sempre com essas birras com sua colega de turma.— o loiro desviou o olhar envergonhado e irritado pelas risadinhas abafadas que sucederam a fala do professor, voltando a deitar a queixo sobre a mão espalmada apoiada pelo cotovelo na mesa, enquanto resmungava de maneira ininteligível. Sarada ocultou um sorriso de satisfação ao ver que ele tinha sido repreendido como se fosse um pirralho, pois era de conhecimento geral que ele odiava ser comparado a uma criança, ou tratado como tal. Se bem que nesse quesito ambos concordavam.
Shino pigarreou limpando a garganta antes de prosseguir, e a jovem Uchiha se ajeitou melhor na certeira como se aquela ação a ajudasse a ouvir melhor.
—O clã Uchiha juntamente com o clã Senju foram os responsáveis pela fundação de Konohagakure no sato, mais precisamente Senju Hashirama e Uchiha Madara. A história desse clã está intimamente ligada com a história de nossa aldeia. Por esse motivo eu deixei por último.- disse em um tom repreensivo aos dois encrenqueiros. — Eles possuem uma kekei genkai única que se revela através de um doujutsu nomeado Sharingan, como vocês podem observar na página sessenta e cinco.— esperou que os alunos pudessem verificar o padrão e continuou.- Com esse doujutsu o usuário pode ver claramente os movimentos do adversário e em seu estágio mais avançado até mesmo copiar os jutsus do oponente. Infelizmente o clã Uchiha possui atualmente apenas dois membros, sendo assim muitos segredos inerentes a essa kekkei genkai permanecerão em segredo.
—Mas sensei, o que aconteceu com o clã Uchiha para que sobrassem apenas dois integrantes?- Mitsuki se adiantou ante olhares curiosos dos demais. Shino mexeu-se visivelmente incomodado em prosseguir, mas optou por fazê-lo.
—Infelizmente o clã Uchiha foi dizimado por um dos seus mais promissores integrantes: Uchiha Itachi. O motivo que o levou a realizar tal chacina até hoje é desconhecido, ninguém sabe ao certo. Após cometer o crime ele abandonou a vila e se tornou um nukenin.
Sarada não conseguiu prestar atenção em mais nada depois daquilo. Imaginar que alguém faria aquilo com a própria família era terrível, uma monstruosidade sem tamanho! Arrependeu-se de ter sido curiosa, compreendendo então porque a recusa da mãe e do pai em tocar no assunto. Sua curiosidade tinha rendido mais perguntas que respostas. Quem era Uchiha Itachi? Estaria vivo? Porque fez algo tão perverso.
Seguiu para casa assim que a aula terminou ainda com a cabeça perdida em meio as perguntas sem resposta. Em determinado trecho do caminho sentiu o ar esfriar e uma estranha sensação incomoda e apavorante tomou conta de seu coração.
Deteve seus passos ao pressentir que alguém a observara e o fato de já estar anoitecendo tornava seu palpite ainda mais sinistro. Era como se aquele olhar estivesse queimando suas costas. Munindo-se de coragem ela se virou ainda trêmula e fitou a rua deserta. Sua intuição gritava que algo estava errado apensar de não haver nenhum só indício de algo estranho na rua vazia.
O coração foi se acalmando aos poucos. “No que estou pensando? Com certeza foi apenas a minha imaginação”.
Crente de que estava imaginando coisas tornou a olhar para frente e sentiu o coração gelar ao vislumbrar uma figura no alto de um poste. Estava de cócoras e seus olhos brilhavam vermelhos pelas fendas da máscara que cobria seu rosto quase por inteiro. Tinha certeza absoluta – e macabra- de que a fitava intensamente, e uma onda de horror fez seus joelhos tiritarem, causando-lhe uma fraqueza que quase a levou ao chão.
Um grito desesperado formou-se em sua garganta, mas estacionou nas cordas vocais, impossível de ser proferido, como se estivesse congelado. A figura levantou-se devagar, leve, como se não possuísse peso ou massa corporal. Um ser etéreo, como a brisa. Em cada uma das mãos trazia uma espada curta cuja ponta estava maculada com um líquido espesso e rubro que gotejava, como se o sangue vertesse da própria lâmina.
Sarada sentia como se cada nervo do seu corpo estivesse dormente, apesar de uma grande quantidade de adrenalina, liberada pelo medo, estar correndo por suas veias e artérias. O coração retumbava tão forte que parecia que ia abandonar a caixa torácica a qualquer instante e suor frio porejava e escorria por sua face. Sentia-se a ponto de desmaiar quando uma mão tocou em seu ombro de maneira sutil fazendo-a gritar em resposta. O mesmo grito que estava estacionado, saiu de maneira enérgica, expelido violentamente pela surpresa.
A figura as suas costas pulou temerosa.
—Algum problema, Sarada? – a voz assustada de Sumire preencheu o ar meio hesitante. O corpo retesado da Uchiha relaxou ao constatar que era a amiga, não uma criatura sobrenatural como tinha imaginado em seus segundos de pânico desvairado. A representante tinha levado uma das mãos ao peito de maneira protetiva ao se assustar com a reação inesperada da amiga.- Você se sente bem, está pálida e suando!— tocou carinhosamente a fronte da jovem com um lenço que trazia no bolso, secando o suor que escorria em bicas.
—Você... eu... nós temos...- Sarada resfolegava confusa sem conseguir concluir os pensamentos. Precisavam sair dali logo! Sumire a olhava aturdida sem conseguir compreender- Ali...-interrompeu a fala ao voltar a fitar o poste e percebê-lo vazio. Os pensamentos voltavam a se reordenar a medida que os nervos se aquietavam, fazendo-a se sentir estúpida por temer uma alucinação. Balançou a cabeça e tornou a falar com a amiga, agora mais calma. – Eu estou bem, não precisa se preocupar.
A ninja analisou a face de Sarada antes de se dar por satisfeita com a resposta dela. Resolveram percorrer juntas o resto do caminho, e as conversas aleatórias foram capazes de aquietar a alma da jovem Uchiha que em certo momento se esqueceu completamente do incidente.
Se despediram e Sarada entrou em casa sendo recebida pelo aroma delicioso do jantar que sua mãe estava preparando. Seu olhar tornou-se exultante ao perceber que havia um par adicional de sandálias na entrada e coração pulou satisfeito ao constatar que seu pai estava de volta. Era uma ocasião rara e muito comemorada pela jovem que se adiantou em sentar ao seu lado, contendo a vontade urgente que estava sentindo de se atirar em seu colo e fazer festa em seus cabelos revoltos. Mas não podia se dar ao luxo de agir de maneira tola e descontrolada. Era uma Uchiha e como tal tinha que manter a postura serena e imperturbável como seu pai, acreditando que assim ele se orgulharia ainda mais dela, apesar de que seu sangue Haruno implorava para agir de maneira espontânea.
A conversa fluiu como esperado. Poucas palavras – quase nada, na verdade- pronunciadas pelo pai e uma enxurrada proferidas pela mãe que estava extasiada com a presença excepcional do marido. A euforia da mãe acabou contagiando a pequena que passou a expelir as palavras em uma velocidade assustadora, até se dar conta do fato e tentar se refrear, olhando de esguelha para o pai, com as bochechas coradas. Ele apenas maneava a cabeça e sorria, mas não tinha como ter certeza de que aquele sorriso era para ela. Estaria satisfeito como elas? O pai era uma incógnita.
Em determinado momento, Sarada discorreu sobre a aula de história. Estava animada em dividir com os pais o que aprendera.
—Hoje eu aprendi um pouco sobre o nosso clã, pai.— declarou enquanto a mãe a servia novamente. O olhar do Uchiha mais velho se fixou nela. Tomando isso como uma deixa para prosseguir ela continuou- Descobri o motivo de só existirmos nós dois. – o coração dançou triste ao lembrar do motivo e o desconforto retornou junto com as perguntas. Encarou os hashis em silêncio por alguns segundos antes de continuar. – Eu não entendo. Porque esse tal de Itachi fez aquilo? Não haviam motivos, certo?— de olhos baixos ela não percebeu o cenho do pai descer em desagrado e seus lábios se crisparem. – Aquele monstro sem coração. Foi capaz de matar a própria família a troco de nada.— os dedos de Sasuke se fecharam com tanta força que os nós tornaram-se brancos sem irrigação sanguínea. Sakura olhava boquiaberta temendo a reação dele, e implorando mentalmente para a filha se calar. – Espero que tenha tido uma morte dolorosa e solitária e esteja sofrendo no inferno que é o que ele merece. – proferiu com ódio genuíno.
Um estampido alto fê-la levantar os olhos sobressaltada. Seu pai tinha socado a mesa fazendo algumas louças caírem se estilhaçarem quando o móvel trepidou, tamanha sua fúria. Seus olhos estavam injetados e ele expelia o ar ruidosamente, o Sharingan tinha ativado e brilhava indômito. Pela primeira vez desde o reencontro de ambos Sarada se sentiu receosa com as atitudes dele, temendo que no furor do momento ele a machucasse.
No entanto não foi o que sucedeu.
Sem proferir uma única palavra ele se levantou e saiu a passos largos do cômodo. Sarada olhou inquisitiva para mãe esperando que ela lhe ajudasse a entender o que fizera de errado.
Sakura passou a mão pelos cabelos de maneira nervosa e a fitou com descrença como se dissesse “eu não acredito que você foi capaz de dizer isso”. Todavia sabia que não podia culpar a filha, afinal eles nunca tinham contado a verdade a ela. Aproximou-se da pequena que já tinha os olhos marejados por se sentir culpada por algo que nem compreendia e a abraçou.
— O que foi que eu fiz de errado?— interpelou a mãe com a voz lamuriosa. — Eu não queria deixar ele bravo, eu juro!— a mãe afastou-se para limpar carinhosamente as lágrimas que se formavam nos cantos dos olhos negros- E se ele nunca mais quiser olhar pra mim, ou falar comigo, ou mesmo nunca mais voltar pra casa por minha culpa, eu...- falava desenfreadamente até que a mãe colocou o dedo indicador sobre seus lábios indicando que parasse de falar.
—Porque não vai falar com o papai e pergunta isso pra ele?— instigou acariciando o rosto pueril com o olhar confidente.
—Mas e se ele não quiser falar comigo?— interpelou temerosa.
—Não pode saber se não tentar, não é?- Sakura conhecia bem a personalidade difícil de seu marido e não se arriscava a dizer se ele ia ou não aceitar, mas valia a pena tentar.
— Não sei se tenho coragem agora, ele deve estar com ódio de mim.- disse virando o rosto- Eu não entendo o motivo, ele devia ficar nervoso também com a história do tal do Itachi, não devia?- parafraseou confusa.
—Ele tem os motivos dele.— que ela sabia e preferiu deixar para o marido revelar, se ele quisesse um dia contar a filha a real história. — E só ele pode explicar esses motivos.
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Sarada se aproximou de maneira cautelosa do pai. Tinha sido necessário muitos minutos para que ela conseguisse reunir a coragem necessária para chegar perto dele e agora enquanto se aproximava a passos lentos não sabia se teria a bravura necessária para ir até o fim. As pernas travaram uma dezena de vezes e ela quase voltou correndo para dentro, mas se forçou valentemente a cumprir sua missão.
Ele estava recostado a um dos pilares de sustentação da varanda que dava ao jardim. Tinha a cabeça apoiada, voltada levemente para o teto. Os olhos estavam fechados, mas a pequena Uchiha sabia que ele não estava dormindo.
—Papai. – chamou com a voz fraca e incerta, mas que soou doce aos ouvidos do Uchiha. Ele não esboçou sinais de que a estava escutando, mesmo assim a menina prosseguiu. – Me desculpe, eu não tinha a intenção de irritá-lo.
Um momento de silêncio se instaurou entre os dois, tão pesado que Sarada sentiu o estômago revirar ansioso. O pai não demonstrava ter escutado, apesar dela ter certeza de que algo assim era impossível. A indiferença dele a fez ter certeza de que ele a odiava e uma onda de amargura se instalou em seu coração trazendo novamente as lágrimas que ela tentou conter a todo custo. Um bolo incomodo que se formava em sua garganta. Antes que pudesse sair viu os olhos do ex-nukenin se entreabrirem – negros novamente- e sua única mão se estender em sua direção em uma oferta que ela aceitou receosa.
Cuidadosamente Sasuke segurou as mãos pequenas dela entre a sua, encaixando-a com carinho, e a trouxe gentilmente para um abraço, desejando ter os dois braços para poder confortá-la melhor.
O toque amável do pai liberou a tristeza e o pesar que estavam embolados no coração da jovem, e as lágrimas desceram torrencialmente. O Uchiha mais velho nunca tinha sido bom em demonstrar seus sentimentos ou expressar-se, e quando a filha nasceu imaginou que era uma espécie de pegadinha divina para com ele, uma vez que as mulheres são infinitamente mais sentimentais e complexas, imaginando que não saberia lidar com situações daquela magnitude. Todavia se surpreendeu ao perceber que era quase uma habilidade inata, algo como um sexto sentido paterno que o fez agir por impulso e tomá-la em seu colo de maneira protetora. Sentia os espasmos do corpo juvenil e o colete umedecendo, mas permaneceu na mesma posição, apertando-a mais contra o peito e até mesmo arriscando-se a acariciar timidamente os curtos fios negros.
—Me desculpe, pai. Eu não queria te irritar.— a voz chegava abafada e embolada. Sasuke encostou o queixo na cabeça dela, aumentando o espaço para que ela o abraçasse.
—Shiii. Não se preocupe com isso.- garantiu com o tom de voz que lhe era natural.
A pequena anuiu e manteve-se agarrada a ele até que as lágrimas secassem. Surpresa e envergonhada por perceber que estava no colo do pai, molhando o colete dele com seu tolo pranto infantil. Deixando o constrangimento de lado, aproveitou o carinho raro que lhe era ofertado. Nunca tinha estado tão próxima a ele e resolveu aproveitar ao máximo. Ele tinha um cheiro singular, muito diferente do que ela já sentira na vida e era reconfortante.
—Melhor?— questionou em um tom de voz afável que fez as bochechas da jovem corarem. Nunca tinha ouvido a voz do pai soar de maneira tão preocupada e carinhosa. Assentiu com um leve balançar de cabeça, forçando-se a descer do colo dele ainda com as o rosto afogueado pelo momento vivenciado. Evitou olhar em seus olhos, temendo passar a impressão de ser uma tola criança molenga. — Me desculpe por chorar igual um bebê.— usava a ponta dos dedos para remover o resto de umidade dos cílios.
—Pare de se desculpar. Não há necessidade. — ele repreendeu incomodado. Era irritante vê-la agir na defensiva perto dele, não havia necessidade.
“É tão difícil entender você, pai. As vezes parece um sujeito frio, outras é sentimental. Quem é você de verdade?” pensou sem a mínima vontade de compartilhar tal pensamento. Sentou-se ao lado do pai comportadamente e ambos passaram um tempo considerável absortos no trabalho de observar a lua que resplandecia no firmamento.
— Porque ficou tão irritado quando eu falei do Itachi, pai?— resolveu perguntar de cara antes de que perdesse a coragem. Os olhos desiguais a fitaram e ela quase se arrependeu de tê-lo questionado. Talvez ele o odiasse tanto quanto ela e não gostasse de tocar no assunto. Todavia, para a sua surpresa ele respirou fundo e desviou o olhar para a lua novamente, como se desejasse evitar obcontato visual.
—Itachi não foi um maldito.- revelou surpreendendo-a. Havia um quê de tristeza em sua voz e não de revolta como ela havia suposto. – Era um homem integro, um gênio e um dos melhores ninjas que essa vila já viu nascer.
“Ele era um assassino, isso sim.” Julgou mentalmente. “Quase um demônio.”
Todavia a postura e a forma saudosa com a qual o pai se referia ao nukenin a deixaram curiosa.
— Não posso ir contra o que os livros de história dizem; afinal foi desejo dele que fosse assim.- prosseguiu e desviou o olhar para a filha que se assustou ao perceber o quanto aquele assunto parecia mexer com suas emoções, como se o magoasse pronfundamente. Ela mesma não estava entendo o motivo que levava o pai a falar sobre esse homem de maneira emocionada. De repente o cenho dele fechou como se ponderasse algo. Um tempo considerável transcorreu até que finalmente ele deu continuidade. — Vou te contar um segredo, mas é de vital importância de nunca conte a ninguém, ok?— ela anuiu interessada, prevendo que finalmente descobriria os motivos dele. O pai umedeceu os lábios com a língua e fechou os olhos por alguns segundos se preparando o que aumentou a ansiedade de Sarada. — Itachi era meu irmão mais velho.
A resposta pegou a pequena de surpresa e sua boca se abriu em espanto. Só podia ser brincadeira! Tinha que ser mentira! Mas os olhos do pai estavam sérios e compenetrados, comprovando que ele falava a verdade. Aquele assassino confesso era seu tio? O homem capaz de matar a própria família sem nenhum arrependimento era sangue de seu sangue? A realidade era assustadora e revoltante! Impossível de ser aceita.
— Ele realmente matou os familiares, pai? Os meus avós e o resto do clã?- questionou sentindo a garganta queimar. A cabeça do pai balançou tristemente em confirmação e ela sentiu uma fúria descrente começar a crescer dentro de si. Como o pai podia falar dele com carinho? Aquilo era inconcebível!- E o senhor não o odeia?— Sasuke negou com a cabeça com um leve balançar que deixou a filha revoltada. Seria o pai um tolo insensível? – Isso não faz sentido, ele matou os seus pais sem motivo, como pode não odiar esse homem?
— A verdadeira história não é a que contam nos livros, Sarada. Itachi teve um motivo muito forte para tomar a decisão e nossos pais... bom, eles o apoiaram apesar de não pensarem da mesma maneira.
— Então porque matar o próprio clã?— não entendia quais motivos levavam a essa decisão. Era muito confuso.
—Para proteger os civis.— anunciou sem preâmbulos. – O clã Uchiha planejava um golpe de estado e Itachi fui imbuído a escolher um dos lados. Ou ele ajudava o clã, indo contra seus princípios e participava da guerra civil que levaria muitos inocentes a morte, ou escolhia os inocentes e parava o clã.
—Mas isso não ia contra os princípios dele também, quer dizer.... matar a própria família?! Isso é errado não importa de que ângulo a gente olhe.
— Se ele não fizesse, outro o faria. Foram ordens do próprio Hokage. — a menina ficou em choque e levou uma das mãos a boca surpresa. Os olhos espantados pareciam que iam fugir das órbitas a qualquer instante. O hokage envolvido? Era inadmissível e perturbador demais. Percebendo a confusão dela, Sasuke prosseguiu. – O nosso clã... algumas pessoas eram muito corrompidas, sedentas de poder e não se deteriam por nada para alcançar o topo, mesmo que para isso precisassem exterminar a vida de muitas pessoas inocentes. Alguém tinha que deter o clã Uchiha, e Itachi o fez a custo de sua própria alma. Sacrificou seu nome, sua carreira, sua salvação por um bem maior.
A cabeça dela parecia que ia explodir a qualquer instante. Era muita informação, revelações cujo teor era impossível de catalogar. Sufocada pelo peso da realidade, Sarada passou a mão pelos cabelos sentindo vontade de arrancar os fios para ter certeza de que aquilo que estava ouvindo era real, e não um sonho louco e sádico. Seu tio era o assassino da própria família, o Hokage havia ordenado aquela chacina. Era muito para ela compreender ou sequer tentar . Permaneceu um bom tempo em silêncio sabendo que o pai a observava a espera de alguma pergunta, quando se deu conta de um detalhe.
—Porque ele o deixou vivo, pai?
— Foi a condição que ele impôs a missão: que eu sobrevivesse e continuasse a ser protegido pelo Hokage. Ele sempre me protegeu, até o fim.
Sarada estava sem folego. Era muita informação a assimilar. Já não percebia Itachi como aquele monstro que os livros de história faziam menção. Ele tinha agido em prol de um bem maior, apesar de precisar manchar as mãos com o sangue do próprio clã para garantir a paz. Seu tio não era um assassino, e sim um herói. Quantas pessoas ainda respiravam por causa de seu sacrifício? Quantas vidas haviam sido poupadas em troca da condenação dele? Era injusto que seu nome continuasse manchado.
—Isso não está certo, pai.— afirmou revoltada- Se ele fez tudo isso para salvar as pessoas inocentes, não deveria ser retratado como um monstro. Devemos restaurar a honra dele, é o mínimo que a vila pode fazer!
—Não, Sarada— Sasuke anunciou firme, seus olhos a fitando com obstinação. — Tudo deve permanecer do jeito que está.
—Mas pai, você acha justo eles tratarem o seu irmão como um traidor quando ele estava apenas seguindo ordens?
—Foi desejo do próprio Itachi. – disse por fim. – Assim o nome do nosso clã permanece limpo e o da vila também.
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Carregar nas costas a culpa de um traidor, quando na verdade tinha sido um dos ninjas mais obstinados e leais. Parecia algo realmente injusto.
O sono demorava a chegar uma vez que a mente se recusava a parar de trabalhar. Aquele definitivamente tinha sido um dia cheio de surpresas. De manhã ela pouco sabia sobre a história de seu clã e agora estava abarrotada de informações, das superficiais as mais secretas. Tinha descoberto que tinha um tio falecido que arriscou tudo para poder cumprir com o seu papel e era tido como um malfeitor, quando na verdade era o contrário. Desejou poder mudar todos os livros de história, mas o pai tinha sido taxativo ao fazê-la prometer guardar segredo.
Levantou a mão na escuridão do quarto vislumbrando os dedos. “Será que ele fez o mesmo quando completou a missão e viu sua mão maculada com o sangue dos seus? O que sentiu quando executou os pais? Deve ter sido uma tarefa difícil. E ele era apenas dois anos mais velho do que eu sou agora, quando tomou a decisão de carregar esse fardo.”
Sentiu-se meio inútil e burra ao lembrar do que o pai tinha lhe dito. Quem eram eles perto de Itachi? Ele tinha se formado com honra aos sete anos, liberou o Magekyou Sharingan aos oito, entrou para a ANBU aos doze e era capitão aos quatorze. Um gênio. Deve ter sido duro para ele passar por tudo aquilo. Sentiu-se desalentada. Como seria seu tio? Sabia o básico que seu pai lhe contara, mas não havia nenhuma fotografia, nada. Seu rosto seria esquecido, varrido das memórias com o tempo. Desbotando. Seu nome estava para sempre marcado. Eternamente atrelado ao pecado que havia cometido em nome da segurança dos mais fracos.
Fechou os olhos para invocar o sono que estava começando a invadir seu corpo. Os músculos relaxaram e os pensamentos começaram a se perder, flutuando em sua mente que logo entraria em repouso, hibernando. Em breve atravessaria a tênue linha que delimita o plano concreto do mundo dos sonhos. Um bocejo escapou por seus lábios entreabertos e a mente apresentou um leve torpor. Quando tornou a abrir os olhos o coração sobressaltou ao perceber a íris vermelha fitando-a de perto, tão brilhante que parecia queimar no negrume do quarto. A luz da lua banhava parte da face serena a sua frente, e ela viu uma linha que descia da base do olho até o meio da bochecha iluminada pela luz pálida do luar.
Não era seu pai; na verdade nunca tinha sequer visto aquele garoto em sua vida.
Por mais estranha que a situação parecesse não estava se sentindo amedrontada diante da figura infantil que aparentava ter entre nove e dez anos e estava sentada na beirada da sua cama, levemente reclinada sobre ela, usando um dos braços como suporte. Havia uma candura tão encantadora naquela face pueril que ela se arriscou a tocar-lhe a fronte, mas sua mão atravessou-a como se esta fosse feita de fumaça.
Parecia tão real, mas era etéreo.
Não havia forma física naquele garoto, ela constou admirando o fato de isso não assustar. Sentia-se entorpecida. Suas feições transmitiam carinho, mas também pareciam guardar arrependimento e ... dor. Muita dor. Lentamente ele se inclinou sobre ela, se aproximando de seu ouvido sussurrando-lhe com a voz fraca.
“Perdoe-me”.
Aquelas palavras foram proferidas com tanta dor que Sarada sentiu a tristeza dele ressoar em seu interior, como se fossem capazes de compartilhar os mesmos sentimentos. Lágrimas começaram a verter de seus olhos qualquer anúncio, correndo soltas por sua face, junto a elas a certeza de que afloravam em consonância as do rapaz que tinha os orbes marejados ao se afastar. Ela foi arrebatada uma súbita necessidade de consolá-lo, mas seus dedos sempre passavam direto pela figura sem nunca lhe tocar.
Os olhos carmesins possuíam um padrão diferente dos que estava habituada. Um formato belo e cativante. Subitamente teve a certeza de que existia uma forte ligação entre eles. Algo que ela não conseguia compreender, apenas sentir.
As íris dele giraram até se tornarem simples olhos negros. A certeza de que era Itachi agigantou-se em seu âmago, causando-lhe fascínio por não fazer ideia de onde vinha essa certeza ou como chegara a essa conclusão. Seu coração comfirmava batendo de maneira alucinada.
De repente ele levantou sobressaltado, os olhos assustados perscrutaram o ambiente como se temesse que algo terrível e perigoso fosse emergir das sombras que flanqueavam o cômodo a qualquer instante. Em resposta ela também ergueu-se, sentando na cama de forma apressada e protetiva, erguendo a coberta como um refúgio. Seu corpo começou a tremer, compartilhando a reação dele.
O garoto lhe dedicou um último olhar aterrorizado, em um pedido mudo de socorro antes de ser enlaçado e preso por várias correntes que se projetaram além da janela aberta, enlaçando seus membros de maneira rude, tragando-o a força para fora do quarto, rumo a escuridão da noite.
Em um súbito impulso corajoso, Sarada se desvencilhou da coberta e levantou apressada, mas seus dedos já não podiam alcançar o rapaz – e mesmo que pudessem não o tocariam, uma certeza que lhe ocorreu minutos mais tarde-.
Com o coração pulsando em frenesi ela se aproximou do parapeito da janela ainda buscando a chance de poder vislumbrar o jovem, mas a noite não parecia guardar nada de diferente. Como seco tivesse engolido.
Buscava estupefata algum indício de que aquilo tinha sido real. Tinha sido? Permaneceu estática no mesmo lugar por minutos incalculáveis, até se dar por vencida e voltar a deitar.
Naquela noite seus sonhos estavam recheados com a figura do rapaz. Ele estava em um lugar escuro e muitos rostos zangados se agigantavam acima dele, ferindo-lhe, acusando-o. Sarada podia sentir cada golpe, cada lágrima, cada corte, arranhão e cuspida.
Era como se o garoto estivesse no inferno e ela compartilhasse da experiência.
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