Notas iniciais
Ontem foi um dia bastante atribulado aqui em casa, e como tenho um pequeno de três anos inquieto e muito espoleta foi impossível fazer a revisão com tranquilidade, sendo assim, perdoem-me de coração, é que me recuso a entregar algo meia boca aos meus leitores que são criaturas muito estimadas por mim. O último capítulo está quase pronto - estou tão ansiosa para conseguir terminar que não vejo a hora do meu baby dormir para conseguir esse tempinho sagrado! Quero agradecer imensamente a Vany chan 734 pela recomendação linda que deixou. Prometo de coração trabalhar com o máximo que posso para poder dar a você e aos demais um bom desfecho para a fic.

Cuidado ao invocar os mortos, pode acabar ouvindo o que não deseja.

A maior parte do interior da tenda estava imersa em sombras e Sarada se pegou pensando o que seus pais – em especial o pai- diriam se soubessem o que ela estava prestes a fazer.

Inspirou fundo tomando coragem. Precisava saber o que estava acontecendo e o porquê de estar recebendo aquelas estranhas visitas dia sim, dia não, ora em casa, ora na escola... os lugares variavam, assim como os momentos do dia, os intervalos, e principalmente a idade do tio que parecia flutuar, como se o espírito estivesse se decidindo qual imagem deveria utilizar. Quando a visitava ostentando o aspecto de uma criança de cinco anos estava sempre chorando, entre oito e dez era doce e assustado, mas o pior era quando se apresentava mais velho; as vezes era tão assustador que ela desejava que fosse embora o mais rápido possível e normalmente era o que acontecia. Ele a mirava por alguns minutos e se esvaia no ar sem trocar uma só palavra ou iniciar qualquer movimento.

O cheiro de incenso era nauseante: doce e cítrico com toques de... fumo? Não conseguia definir direito, mas definitivamente aquele aroma incomodava seu olfato, quase a incitando a cobrir o nariz para evitar aspirá-lo. Apenas algumas velas espalhadas aqui e ali, repousando em candelabros adornados com pequenas pedras brilhantes, faziam a vez da iluminação que era parca e quase inexistente, mergulhando a maioria dos objetos dentro do local em sombras.

Muitos amuletos dos mais diferentes formatos balançavam levemente pendurados em cordas que ascendiam da cobertura da tenda retangular, e alguns jaziam em cima de mesas, aparos ou estavam afixados ao tecido grosso que formavam as paredes.

Era a segunda vez que estava ali, e ainda lhe causava muita estranheza. Aquela decoração excêntrica concediam ao ambiente um aspecto místico e apavorante.

A atenção de Sarada foi surrupiada por um dos enfeites: um apanhador de sonhos rústico, entremeado por uma linha grossa e acinzentada que a jovem não soube definir qual era. Algumas penas coloridas caiam em cascata no eixo final, como se escorregassem, todavia o mais intrigante era sem dúvida o que jazia no centro. Um globo envolto por algo que parecia ser couro. Se aproximou curiosa e percebeu estarrecida que era um olho, semicerrado. Era possível perceber a íris embora a escuridão do local tornasse difícil visualizar sua cor. Estava entretida em sua inspeção quando um som fê-la se ajeitar rapidamente, mantendo a postura correta.

Os passos lentos e constantes indicavam que a mulher finalmente retornava ao recinto. Seus largos brincos dourados e o vestido simples, porém detalhado com bordados em branco e carmesim a confundiriam com uma cigana, não fossem as cores sombrias que ostentava, bem como o cordão de caninos que trazia ao pescoço, e a cabeça envolta em capuz negro que deixava parte do seu rosto oculto em sombras. Aparentava ter entre trinta e cinco e quarenta anos, e ainda mantinha a forma, como se não se permitisse envelhecer, apesar das rugas de expressão deixarem clara a passagem inexorável do tempo.

Ela sentou-se e convidou Sarada a fazer o mesmo apontando-lhe a cadeira da frente. Uma mesa circular separava as duas, repleta de alguns talismãs. O coração da jovem trepidava inquieto no peito e ela se perguntou pela enésima vez sobre os motivos que a levaram aquele lugar? Será que realmente ajudaria? Estaria ficando louca o suficiente para crer que algo assim a levaria a obter êxito? Os olhos negros da mulher a fitavam incessante como se pudessem ler seus pensamentos e um frio percorreu a espinha de Sarada que apertou os lábios com os dentes para conter o sentimento de medo que a sublimou ao ser fitada de maneira tã intensa por aqueles olhos. Ela ansiava uma deixa para poder iniciar, finalmente entendeu e respirou fundo tentando manter a calma.

Ao ver a jovem shinobi retomar a postura determinada, a mulher prosseguiu.

—Trouxe o que lhe pedi?- inquiriu com a voz grave, porém bem feminina.

—Sim.— se apressou em passar a ela uma peça de roupa que furtara na antiga casa do pai. Tinha sido sinistro entrar no distrito Uchiha. O lugar parecia estar envolto em uma atmosfera de ódio, ressentimento e tristeza que a fizeram vomitar duas vezes antes de sair de tão carregado que estava. Não pode pedir a ajuda de ninguém para realizar a missão, pois queria fazer tudo em segredo. A sensação de estar sendo vigiada, o vento frio que a toda hora lhe congelava a espinha, as portas e janelas batendo fantasmagoricamente, bem como as bandeiras bordadas com o símbolo do clã tremulando seus panos puídos e desgastados foi aterrorizante. Uma incursão que esperava não tornar a fazer tão cedo.

—Excelente. – a mulher pegou o pano e fechou os olhos se concentrando. Sua mão livre se apossou do baralho de cartas que descansava sobre a mesa e revirou-o até que escolhesse duas das cartas colocando-as a frente da Uchiha que prendia a respiração atenta a cada movimento que a médium executava. Os olhos da mulher tremulavam inquietos por debaixo das pálpebras cerradas como se estivessem lutando contra algum incômodo. Subitamente a mulher soltou a peça de roupa com um grunhido de dor e acariciou os dedos abrindo os olhos. – Não imaginava tanta força. – resmungou para si mesma ainda alisando os dedos que Sarada percebeu assombrada estarem vermelhos como se tivessem sido queimados.

A médium solicitou que ela virasse as cartas de tarô que ela havia retirado do deck. Ainda incerta, a jovem kunoichi obedeceu, virando-as de face para cima, revelando as imagens impressas. A mulher desceu o olhar para as cartas e não pareceu surpresa ao perceber quais eram.

—Eis aqui o motivo. Morte— apontou uma das cartas, a que tinha a figura de uma criatura sinistra encapuzada e carregando uma foice ao ombro— Acorrentado— o dedo deslizou para a carta que trazia a imagem de duas criaturinhas com os braços amarrados as costas e grilhões no pescoço, sendo mantidas reféns por uma terceira que ficava ao centro. A mulher franziu o cenho e puxou um cigarro que acendeu sem cerimônia, ignorando a criança a sua frente. Era a maneira mais rápida de descarregar a energia espiritual maligna que veio acoplada aquela camisa infantil resgatada do falecido distrito Uchiha. Maneou a cabeça negativamente e respondeu antes que Sarada pudesse formar uma frase; sua boca permanecia levemente aberta pela surpresa. – Ele está preso e não há nada que se possa fazer por ele.

—Nada?- perguntou desanimada recusando-se a acreditar que tinha se esforçado tanto para não conseguir uma solução para o seu problema.- Tem certeza?

Os olhos negros da mulher esquadrinharam o rosto da jovem kunoichi, trazendo uma desagradável sensação incomoda que fez seu estômago embrulhar. Era como olhar um abismo. Definitivamente estava pisando em um terreno perigoso ao questionar a capacidade dela.

—Absoluta. – A mulher confirmou soltando uma longa baforada que subiu serpenteado pelo ar, misturando-se ao cheiro do incenso e impregnando o ambiente. Seus olhos escuros ainda a fitavam por debaixo do capuz negro, incansáveis.

—Mas ele está sofrendo, eu sei!- insistiu. –Eu tenho que ajudá-lo. Tem que haver um meio!

A médium se ajeitou na cadeira, tragando mais uma vez seu cigarro antes de prosseguir.

— Não há, infelizmente. Ele está pagando por seus pecados e para isso não tem remédio. No momento em que desencarnou sua alma foi arrastada ao clã que ele dizimou com as próprias mãos. – voltou a tragar e liberar a fumaça que subia em nuvens. Era uma energia muito forte mesmo. Nauseante e paralisadora. Felizmente a cada baforada que dava seu corpo tornavam-se mais leve.- Ele e aqueles que participaram da matança. Estão todos lá, pagando. E posso garantir que não são poucos.

Ela tinha visto não somente ele. Aqueles que ordenaram e o que participou da matança ao lado de Itachi também pereciam do mesmo destino. Estavam atados para sempre aquele lugar.

—Quer dizer que ele vai continuar sofrendo para sempre?- indagou triste sentindo a vontade urgente de chorar estacionar em sua garganta como um bolo incomodo. Era tão injusto! Perseguido na vida e acorrentado na morte. Será que o tio nunca encontraria a paz que tanto almejava?

—Por toda a eternidade.— concluiu a médium acendendo um novo cigarro— As pessoas cujas vidas foram ceifadas estão todas presas lá também, em uma espiral infinita de dor, angustia, morte e sofrimento. A cena se repete todas as noites, no mesmo horário, da mesma maneira, há anos. Isso enfurece os espíritos que não podem se libertar, minha criança. Não podemos culpa-los por se sentirem injustiçados.

“Todos os dias, no mesmo horário, da mesma maneira” as palavras ribombaram na mente da kunoichi que sentiu um frio na espinha ao recordar da primeira vez que tinha visto a figura sobre o poste. Agora ela sabia que era seu tio, obrigado a reproduzir a cena por toda a eternidade.

—Não posso conviver com isso!— declarou em meio as lágrimas- Ele está sofrendo e eu posso sentir a dor dele! Como posso levar a vida sabendo que ele vai reviver aquela dor para sempre? Como ignorar isso?

—Cada um com seus fardos, minha criança. Ele fez as escolhas dele, e essas são as consequências.

Era muito doloroso. Não podia fazer nada a não ser olhar aquele rosto sofrido e compartilhar de sua dor sem nem ao menos poder tocá-lo. Deixou que o sentimento de impotência e a tristeza empoçassem seus olhos e as lágrimas desceram pesadas.

A médium tragava o terceiro cigarro, fitando compadecia a pobre menina. Queria poder consolá-la, ou fazer algo para diminuir sua angústia, e pensava em uma maneira quando uma certeza assolou sua mente. Ela rebateu aquela ideia para longe, mas olhar a triste menina sem oferecer um consolo estava sendo muito incômodo. Ora, era uma sensitiva e isso implicava compartilhar os sentimentos alheios de maneira mais intensa que um ser humano normal – fato que a mantinha longe de hospitais, cemitérios e toda a sorte de lugar que podia estar imersa em uma cúpula de sentimentos negativos, pois aquilo a deixava literalmente de joelhos- sendo assim, sentia a mágoa da jovem fluir para dentro de seu próprio ser, em uma transmissão espiritual angustiante e intensa que ela absorvia contra a própria vontade.

A ideia que ela havia ignorado retornou mais forte e ela se rendeu derrotada. Sabia muito bem os perigos inerentes a uma incorporação, ainda mais de um espírito daquele porte, cujo corpo astral estava fragmentado e corrompido de diversas maneiras, entretanto o momento a imbuiu a tomar tal decisão.

—Quer conversar com ele?- perguntou mesmo sabendo que as consequências daquela ação a poriam de cama por horas, talvez dias, exaurindo seu poder espiritual. A jovem levantou os olhos assombrada e curiosa.

—É possível?- havia um tom de esperança e receio permeando sua fala. A mulher assentiu mostrando-lhe a camisa infantil que ela trouxera. Seria seu catalisador. Sarada ponderou por alguns minutos antes de afirmar decidida.- Eu quero sim, por favor.

A médium se ajeitou na cadeira após apagar o último cigarro, sentando de maneira ereta. Seria uma incorporação pesada, talvez a mais potente que já realizara. Acendeu mais alguns incensos e explicou o procedimento a Sarada que prestava atenção em cada detalhe. A conexão poderia ser perder, o espírito poderia ser recusar a contatá-la e também poderia estar muito estável e oscilar entre o calmo e insano. Se ele perdesse o controle de suas ações e tentasse contra a segurança dela, Sarada deveria jogar-lhe um preparado de ervas e ordenar que ele fosse embora, em um exorcismo.

A mulher se preparou. Era muito difícil e perigoso funcionar como canal entre os dois mundos. A alma dela dividiria espaço com a do falecido por alguns minutos e isso poderia fragmentá-la e/ou corrompê-la, e a recuperação de algo assim era laborioso e exigia muita paciência.

Mesmo assim não podia deixar de prestar ajuda aquela menina. Segurou com força a peça de roupa sentindo seu espírito vibrar com a presença do nukenin. Ele estava próximo a Sarada e ela pode ver o semblante intimidador que ele ostentava, assim como vislumbrou a bondade que residia em sua alma. Era um espírito muito atormentado e poderoso.

No momento em que ele se apossou de seu corpo a médium sentiu todo o peso de culpa que ele carregava invadirem-na com ferocidade. Era insuportável, sufocante... arfou em busca de ar, resfolegando como se estivesse se afogando. Seus membros se debatiam afoitos como se buscassem algo em que se segurar, seus olhos giraram nas órbitas em todas direções, desesperado como implorassem por ajuda, enquanto os dedos da mão se contorciam dando a impressão de serem garras grotescas.

Sarada sentiu um terror enorme ao presenciar aquela cena, tendo que se concentrar muito em seus objetivos para não obedecer seu instinto de sobrevivência que apitava afoito implorando para que fosse embora dali.

Ao fim, a cabeça da mulher caiu pesada sobre o próprio peito, pendendo debilmente como se não houvesse força suficiente naquele corpo para sustentar o seu peso.

Teria dado certo? A médium estava morta, ou não? O que deveria fazer.

Não foi necessário esperar muito. Minutos depois do corpo estremecer devido ao último espasmo muscular – que mais se assemelhava a um ataque epiléptico- a cabeça tornou a erguer, e o fez de maneira lenta e coordenada. Em nada lembrava o membro que pesava molemente sobre o peito, segundos atrás. Os olhos da mulher giraram nas orbitas, de modo que a íris ficou oculta por sobre as pálpebras, descendo segundos depois sob uma nova forma, ostentando um padrão e cor que já era familiar a Sarada devidoas constantes aparições.

O mangekyo Sharingan de Uchiha Itachi.

Não podia negar que aquele formato a intimidava. Era belo e definitivamente transmitia poder. Apesar de saber –graças as explicações da médium em sua última visita- que aquele sharingan era apenas um reflexo da alma do nukenin. Um doujutsu tão amaldiçoado e utilizado pelo usuário que ficou gravado em seu espírito, como uma impressão digital. Podia não possuir o mesmo poder de outrora, mas ainda era magnifico como nos dias de seu apogeu.

—Eu agradeço o seu esforço, mas devo pedir para que não se envolva mais.— os lábios da necromante se moviam, mas a voz grave e pesada que escapava por eles definitivamente era masculina.- Estou expiando meus pecados e não desejo que se envolva além disso.

Por um segundo a jovem permaneceu em silêncio, paralisada pela sensação que a envolveu por estar vivenciando tal momento. Os olhos de Itachi eram intimidadores, assim como sua voz que retumbou decidida e macabra, apesar de não possuir nenhum resquício de sentimento negativo. Imaginou quantas pessoas deviam ter sentido a mesma aura intimidadora que o cercava e agido tal qual ela agia naquele instante, petrificada, sem conseguir responder de imediato. Engoliu em seco. O torpor ainda estava presente, mas algo dentro dela agiu como um propulsor que a tirou do transe forçado ao qual tinha sido submetida pelo poder que emanava da figura a sua frente.

—­Mas foi o senhor mesmo que pediu que lhe ajudasse.— protestou, ainda fascinada e assustada pela experiência que estava vivendo, mal podendo crer que finalmente estava conversando com o tio que a visitava em muitas ocasiões, mesmo que fosse por intermédio de uma terceira pessoa.

—Culpa minha. Deixei-me levar por um momento de fraqueza. Um erro que pretendo reparar.

— Não precisa ser assim, tio!— sentiu-se estranhamente satisfeita ao chamá-lo pelo seu papel familiar, percebendo contente que ele também se agradou, apesar de ainda ostentar o olhar sério.- Você tem estado perdido e sozinho por tantos anos. Me deixe ajudá-lo!

—Não! -reiteirou firme.-Você não tem nada a ver com meus pecados, não tem que carregar esse fardo.- a voz dele reverberou pela sala. O timbre indicava que ele não desejava ouvir uma réplica.- Eu escrevi meu destino com minhas próprias mãos e devo pagar por isso.

Aquela resposta inflou na jovem kunoichi a coragem que retornava aos poucos.

—Por toda a eternidade?- replicou irritada, sem conseguir compreender a recusa insistente. As feições que ele ostentava usando o rosto da médium eram uma incógnita, indecifráveis.– Não acha que é muito tempo?

—O que eu fiz não possui perdão, Sarada. Eu vitimei meu próprio povo.

—Em defesa de pessoas fracas!— instou decidida a não perder o debate- Não o fez por crueldade, ganância ou qualquer outra motivo fútil.

— Houve sim um motivo egoísta em minhas ações, Sarada.- disse por fim sob o olhar atento dela. -Eu aceitei a oferta para proteger meu irmão, e aceitaria novamente se fosse necessário. Outro exterminador teria aniquilado a todos, inclusive a ele e a mim, e então você não estaria aqui hoje.

—Se eu existo é por um motivo, e creio que seja ajuda-lo.- afirmou convicta sustentando o olhar dele, ativando o próprio sharingan em resposta.- Vamos, deixe-me ajudar você, tio Itachi.

—Já lhe disse que não, por favor não continue a tentar me convencer. Está se colocando em risco fazendo isso, principalmente ao entrar no distrito Uchiha sozinha.

—Porque você e meu pai tem que ser tão teimosos?- inquiriu com a voz fatigada- Aceite logo! Até porque eu não vou deixar de tentar e...

A fala dela perdeu-se no esgar de assombro que seu rosto tomou ao perceber o corpo a sua frente tornar a trepidar, ganhando força gradualmente até que os tremores se tornassem sacudidelas violentas, e os músculos se chocassem espasmodicamente. Os orbes oculares giraram afoitos uma vez mais se esconderam na parte superior da cavidade até retornarem com a íris em seu tom original.

A necromante resfolegou novamente segurando a borda da mesa em uma tentativa vã de conter as contrações violentas de seus músculos, que sacudiam furiosos fazendo os amuletos e objetos que estavam sobre a mesa se chocarem uns contra os outros, alguns mergulhando e se espatifando no chão, espalhando seus fragmentos em diversas direções. Arfava dolorosamente, com o peito afundando-se como se os pulmões fossem incapazes de realizar a própria função. O corpo vergou violentamente para frente, e sua fronte quase chocou-se contra a madeira maciça. Finalmente um urro doloroso subiu rasgando as cordas vocais da mulher, até escaparem livres pelos lábios entreabertos, um tanto ressecados pela respiração frenética, indicando o fim da incorporação. Um espetáculo sinistro demais para alguém da idade de Sarada presenciar, mas a jovem fez questão de não recuar.

A médium ainda agarrada com força a barra da mesa parecia buscar nela apoio enquanto respirava fundo e rápido, sugando o ar com afinco, como que reaprendendo a respirar. Quando a kunoichi se levantou na intenção de ajudar, a mulher ergueu o dedo indicador em sua direção pedindo que não se aproximasse. Sua alma estava em conflito com o próprio corpo devido a alta carga espiritual residual e se ela lhe tocasse naquele estado não seria bom para sua sanidade mental.

—O que aconteceu? Porque ele foi embora?— inquiriu ao perceber que a médium já estava quase recomposta do episódio, arquejando de maneira mais compassada.

—Meu corpo não suportou o peso da alma dele. É muita dor, arrependimento, morte que ele carrega. Sentimentos negativos tornam a alma pesada e a conexão acaba sendo tênue e frágil.

—Tem como fazer de novo?- questionou meio sem jeito, visto que a médium parecia ter corrido uma maratona ou ter sido ressuscitada de uma parada cardiorrespiratória três vezes, tamanha a sua exaustão.

—Meu corpo não suportaria uma segunda vez. Tampouco minha alma. — as mãos dela, ainda um pouco trêmulas buscaram o maço de cigarros que havia caído no chão durante seu ataque, recolhendo-o de maneira ansiosa.

—Entendo. – Sarada disse baixando o olhar tristemente. Estava perto de convencer o tio a aceitar sua ajuda. Se bem que não importava, o ajudaria mesmo assim, porque apesar do Itachi adulto estar convicto de que uma eternidade não é suficiente para expiar sua culpa, o jovem Itachi -que surgia devido a instabilidade de alma e não compreendia os motivos de sua penitência — implorava que a ajudasse e assim ela o faria.

-Existe um meio de ajudar seu tio.— a médium revelou com sua voz ainda rouca enquanto levava um cigarro a boca e acendia. Em meio a incorporação tinha se dado conta daquela possibilidade, por mais laboriosa que fosse, era um meio.– Vai ser complicado, e talvez não dê certo, fora que não vai conseguir tirá-lo de lá, mas ao menos vai facilitar um pouco.

— O que seria?— Sarada perguntou com as esperanças renovadas.

—Vamos purificar as almas que estão lá e direcioná-las para onde precisam ir. A maioria já expiou seus pecados e poderá seguir a jornada.

Uma tarefa que exigiria muito sacrifício e lágrimas. Não seria fácil purificar um ambiente como aquele, mas valia a pena tentar. Ela mesma só poderia ajudar quando seu poder espiritual estivesse restaurado, uma vez que a incorporação tinha lhe exaurido de tal maneira que sentia o corpo todo ainda trepidar em choque.

Sarada saiu da tenda confiante de que conseguiria ajudar o tio a conseguir a paz que tanto almejava.

Todavia a médium preferiu não citar o fato de que nem todos os espíritos aceitam serem elevados. Na verdade, muitos sequer acreditam estarem mortos. O que obviamente não era o caso de Itachi, pois ele bem sabia que já tinha feito a passagem do plano terreno ao espiritual, exceto quando assumia a forma de uma criança pequena. O espirito dele estava tão mutilado que a idade dele flutuava, assim como seus desejos, fazendo-lhe clamar e negar ajuda.

Sentou-se no divã que havia na tenda com dificuldade e acendeu mais um cigarro para se livrar daquela energia espiritual pesada que oprimia cada músculo do seu corpo, fazendo-os protestarem dolorosamente. A primeira baforada foi libertadora. Tinha imaginado que incorporar um espírito como o do Nukenin seria pesado, só não estava preparada para uma experiência tão intensa.

—Sabe que ela tem razão.— proferiu sem fitá-lo. Como médium ela podia vislumbrar sua presença espiritual.- Não precisa carregar todo esse fardo para sempre. – liberou uma baforada virando o rosto para encarar o espectro a sua frente.

—É o meu fardo e devo carrega-lo como punição.

—Punição. – a necromante repetiu a palavra lentamente como se a saboreasse cada sílaba. Remoía o significado dela. — Uma palavra pesada, porém correta. Mesmo que não haja necessidade de sustenta-la pela eternidade.

—O que sugere que eu faça?- Seus olhos rubros brilhavam na tenda pouca iluminada.- Não há meio de me livrar dessa penitência.

—Disso eu discordo, meu caro.— pontuou acendendo outro cigarro, dessa vez demorando-se ao observar a chama. Seus olhos captaram a confusão do espírito a sua frente, resolveu completar — Comece perdoando a si mesmo e os demais lhe perdoarão.

Ele nada disse, apenas anuiu com a cabeça, mas ela percebeu que ele não acreditava que aquilo fosse uma opção, e esse seria mais um dos problemas que Sarada teria que enfrentar. O fato de Itachi não conseguir se perdoar o tornava um espírito ainda mais atrelado aquela sina maldita. Para conseguir se libertar ele precisava se libertar daquela dor, deixa-la fluir para longe de seu espírito, caso contrário nunca conseguiria de fato expiar seus pecados. A médium sentiu os olhos pesarem e os fechou para apaziguar um pouco o cansaço depois de apagar o cigarro que tinha em mãos. Definitivamente aquele era um espírito muito sobrecarregado de tristeza e culpa. Se era poderoso assim na morte, o quão poderoso devia ter sido em vida? O sono repentino arrastou para longe suas perguntas, lançando-a em um mar de inconsciência muito bem vindo.

Notas finais
Gente, eu me senti muito tensa escrevendo essa parte e espero ter conseguido fazer vocês sentirem o mesmo que eu rsrsrs Vou pedir um dia a mais para poder preparar o último capítulo, porque afinal agora mais do que nunca eu tenho que arrasar! Como eu não tenho certeza do que vocês esperam desse encerramento, eu gostaria que me contassem suas expectativas nos comentários, assim posso ter uma base do que esperar também, afinal nós escritores somos criaturas receosas. Se você gosta do Itachi e acha ele perfeito assim como eu, eu tenho uma one-shot que pode agradá-los intitulada "Encontro adiado" em que nosso querido Uchiha encontra com a morte. Eu mesma reli depois de alguns anos (eu nem lembrava de tê-la escrito pois passei por um período de depressão que me afastou do Nyah e de tudo o que eu amava por uns três anos) e não conseguia acreditar que a escrevi. Abraços Yue Chan