Quinze Semanas
3 Capítulo 3 - A carta
Capítulo 3
Hermione saiu correndo do quarto, sem saber se deveria ir embora ou se refugiar na sala do marido. Optou pela segunda opção, sentou-se à mesa e finalmente se permitiu chorar tudo o que havia reprimido nos últimos três dias. Ela encarava as fotos emolduradas com uma mistura de raiva, desespero e incredulidade.
Draco era o centro do seu mundo, não de forma literal, mas de uma maneira tão intrínseca ao seu ser que todas as suas fontes de felicidade passavam por ele. Ver o pôr do sol na beira de uma praia, fazer trilhas no outono, passar um sábado inteiro lendo numa biblioteca silenciosa, com os pés dos dois entrelaçados enquanto bebiam chá ou vinho.
Uma das fotos mostrava Hermione rodopiando na valsa do casamento, parecendo irreal e distante da atual conjuntura, mas ela conseguia sentir o cheiro do uísque de fogo e do perfume dele mesmo através do vidro da moldura. Céus, como aquele homem de pose aristocrática, nariz fino e cabelos platinados ficava lindo sorrindo. Em outra foto, Narcisa e Hermione estavam sentadas sob um guarda-sol com o gato albino no colo, o primeiro chá da tarde na Malfoy Manor. Hermione quase podia sentir a brisa fresca novamente e o pavor das mãos suadas diante da sogra. Agora, tudo isso parecia pertencer a outra vida.
Como poderiam ter se passado apenas alguns dias desde que Draco havia se machucado?
Draco ainda não havia se acalmado, e ela conseguia escutar os gritos, os debates e as palavras ásperas dirigidas às enfermeiras. Mesmo sabendo que a confusão era momentânea, o som da agressividade dele era profundamente doloroso.
Ela se permitiu chorar por mais alguns minutos. Quando a voz de Draco diminuiu, sendo possível apenas ouvir murmúrios levemente irritados e estressados, Hermione se recompôs. Precisava fazer algo; quando estava desesperada, agir era o único antídoto que conhecia. Sentada à mesa, decidiu escrever para os amigos, comunicando que Draco estava acordado. Mandou a mesma mensagem para Harry, Zabini e Astoria. Sabia que eles estariam extremamente preocupados e que acabariam passando a informação adiante, sugerindo que tudo finalmente ficaria bem. Não parecia eticamente correto informar por carta que o marido estava com uma "leve confusão"; afinal, quando os amigos chegassem, tudo já poderia estar resolvido. Draco, em sua residência médica, havia atendido vários casos assim. Ela sabia que aquelas coisas eram passageiras.
Depois de quase uma hora de paz, mentalizando que tudo ficaria bem, Hermione respirou fundo e resolveu voltar ao quarto. Draco estava deitado, de olhos fechados, enquanto duas enfermeiras tiravam seu sangue e lhe administravam poções. Ele não a tinha visto.
— Mãe, quando iremos embora? Não quero ficar aqui, preciso ver meu pai. Tenho certeza que isso pode ser revertido, podemos falar com os amigos do papai...
— Filho, acho que nós precisamos conversar com calma. São muitas novidades, e você está confuso por causa do acidente... — Narcisa comentou tranquilamente, enquanto acariciava o cabelo do filho.
A Poção Calmante parecia ter deixado o homem dopado e letárgico. Ele respondeu tardiamente:
— Tudo bem, então. — Draco virou-se para o lado para dormir, mas ouviu passos tímidos e ansiosos. — O que você quer aqui? — O homem fuzilou Hermione com o olhar, reparando que a mulher parecia muito magra naquelas roupas, e que as olheiras abaixo dos olhos cor de chocolate eram profundas e escuras. Seu cérebro tentou acessar suas lembranças antigas, mas elas pareciam nebulosas. A única coisa que ele conseguiu pensar era que ela estava muito diferente do que ele se lembrava.
Draco se lembrava de Hermione Granger mais adolescente. Mais nova, com menos curvas. Lembrava-se do final da adolescência, com o cabelo armado em uma juba incontrolável ou preso em um coque rígido, e do olhar seco e sério que ela lhe dava quando eram obrigados a trocar palavras. O corpo dela naquela época ainda era magro pela privação da guerra, mas a mulher à sua frente era muito diferente. Mais curvilínea, apesar do aspecto cansado; sua pele era bonita e suas mãos eram delicadas, com unhas longas. Ele pensou ter reconhecido um anel na mão oposta à aliança. Ela definitivamente estava diferente.
Diferente demais para que ele pensasse nisso sem sua cabeça latejar.
— Filho, não fale assim; Hermione ficou aqui o tempo todo com você... — Narcisa disse, segurando a mão do filho e olhando com aflição para a nora.
— ...Mas que porcaria é essa que ela fica entrando no meu quarto? — Draco falou com a mesma voz arrastada e arrogante de quando era adolescente, usando toda a prepotência que sua voz embriagada de medicação conseguia ter. — Não quero ela aqui.
Hermione abraçou o próprio corpo, pensando mais uma vez em quanto tempo o marido ficaria daquela forma. — Eu vim ver como você está...
— Eu quero que você saia daqui! — Ele exclamou uma oitava mais alta e fechou os olhos. Passou a mão pelos cabelos e rugiu: — AGORA!
As enfermeiras, que conheciam Draco há tanto tempo, se entreolharam e não comentaram nada. Ele estava agressivo, tentando levantar, rejeitando poções e dificultando as coisas. Mas elas se lembravam de que ele frequentemente mandava entregar flores e chocolates para a esposa. Aquele homem na cama era o mesmo médico gentil que trazia bolinhos para os funcionários aniversariantes, enfeitiçava flores para cantarem na ala infantil e sorria para os bruxos idosos e ranzinzas. Ele também foi o primeiro médico a se oferecer voluntariamente durante o surto de sarapintose, e não pensava duas vezes antes de intervir em um caso de varíola de dragão.
Como ele poderia ter se esquecido de todas as risadas que dividia com a esposa na cafeteria do hospital, durante os plantões? Ou de como ela dormia no sofá da sala dele de madrugada para poderem ficar mais tempo juntos? Um breve momento no Quadribol havia reduzido aquele médico bondoso e discreto a um homem que mal conseguia andar, que falava coisas sem sentido e ofendia as pessoas.
Hermione sentiu que estava sem forças. Saiu do quarto, voltou para a sala do marido e chorou amargamente.
O olhar acabou pousando nas malas no canto da sala — ainda fechadas, ainda esperando. Hermione sentiu a garganta apertar. Aquela viagem para a Austrália era muito mais do que parecia. Não eram apenas férias; eram o ponto de partida para o próximo capítulo.
Draco e Hermione queriam muito ter filhos. Poderia parecer até um pouco soberbo da parte dele, mas ele achava que os filhos seriam lindos. Haviam chegado naquele momento da carreira em que, por ora, estavam felizes. Hermione não queria ser uma mãe idosa e Draco mal podia esperar para apresentar o filho ao mundo. Ele era assim: gostava de viajar, fazer trilhas, andar de caiaque. Foi Hermione quem apresentou esse mundo ao marido; após um ano se escondendo no silêncio da mata após a guerra, ela passara a apreciar a natureza em toda sua glória e potência.
A maior concordância entre eles era de que queriam uma família grande. Como filhos únicos, sabiam como era a solidão e o fardo pesado de ter todas as expectativas jogadas sobre os próprios ombros.
A viagem para a Austrália representaria o início das tentativas de aumentar a família. Como poderia ter sido tão bom imaginar que tudo daria certo? Só de pensar nisso doía.
O relacionamento deles sempre fora de momentos de calmaria, intercalados com fúria apaixonada e loucura juvenil: dois viciados em trabalho que, ao trocarem olhares, viravam adolescentes. Hermione gostava de sossego, apesar de os momentos de paz e tranquilidade terem sido escassos em sua vida. Ela gostava das responsabilidades que tinha, mesmo que a levassem a dormir poucas horas. Draco também não ficava atrás; sua especialização em doenças de causas mágicas era solicitada em horários erráticos no St. Mungus. Isso contribuía grandemente para o estilo de vida pouco convencional do casal — casado um com o outro, mas também casado com a própria carreira. Ambos compreendiam que o trabalho era uma parte muito importante de suas vidas, e ter uma pessoa ao lado com os mesmos ideais sempre foi positivo. Afinal, do que adianta estar feliz e realizado se a pessoa que deveria estar feliz ao seu lado se encontra jogada de lado e insatisfeita?
A honestidade e a confiança haviam sido a base e o norte de todas as decisões até aquele momento. Muito provavelmente, se não tivesse casado com Draco, ela teria permanecido sozinha. O mundo ainda era um lugar muito machista, e Hermione sabia disso melhor do que qualquer pessoa; havia batido nessa parede o suficiente para reconhecer a textura dela. Uma vida com um marido errado seria mil vezes pior do que uma vida sem marido — mas isso era particularmente difícil de explicar para as pessoas que nunca haviam precisado fazer essa escolha. Onde mais conseguiria encontrar alguém que a permitisse colocar sua carreira e seus planos como prioridade?
Caso tivesse aceitado permanecer no relacionamento com Ronald, provavelmente já estaria no terceiro filho. Graças a Merlin que aquilo não foi para frente.
É muito complicado sobreviver no mundo pós-guerra. A guerra influencia as pessoas de formas que nem sempre são visíveis: a sensação de impotência, a necessidade urgente de pertencimento, o impulso de construir algo que seja irrefutavelmente seu. E nada melhor do que ter vários filhos para chamar de "meus" para curar essa insatisfação pessoal — ou assim pensavam alguns.
Hermione tinha ciência das suas limitações. Dolohov, mesmo depois de morto, ainda mandava lembranças: Hermione tinha apenas uma trompa e um ovário, herança cruel da Batalha do Departamento de Mistérios. Era uma cicatriz invisível que carregava há anos, que nenhum feitiço havia conseguido apagar por completo. O casal sabia que as tentativas naturais poderiam se estender por dois anos antes de começarem a usar poções e feitiços para ajudar. Hermione não via filhos como uma tábua de salvação para o casamento, mas como uma parte complementar de um relacionamento que já era forte em si mesmo. E se Draco se sentia pronto, Hermione também estava — porque ela sabia que teria um amigo e parceiro ao seu lado, não apenas um pai para seus filhos.
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No quarto do hospital, Draco se sentia confuso. Sua mãe lhe falava muitas coisas, e sua mente girava. Ele não entendia por que as enfermeiras insistiam em chamá-lo de Doutor, quando claramente ele mal sabia o que era e onde estava. Durante o que pareceu uma eternidade, sua mãe tentou explicar o que tinha acontecido, mas ele não compreendia. Cansado de ouvir, ele apenas olhou para o teto, e em algum momento sua mãe desistiu de falar. Ele não gostava dos feitiços feitos contra sua vontade, nem entendia o que elas faziam.
Depois do que pareceram muitas horas, o médico que ele lembrava se chamar Arthur apareceu. O homem mal teve tempo de abrir a boca. Draco pediu uma poção para dormir, sentindo que se ouvisse mais uma frase sua cabeça ia explodir. Logo uma enfermeira trouxe a poção, e ele afundou num sono pesado e sem sonhos.
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Gina e Harry foram os primeiros a chegar, batendo suavemente na porta do escritório do Medibruxo loiro.
Hermione fungou, sem forças para sair do sofá. Gina estava com as roupas de treino ainda, e Harry não parecia muito melhor, com a roupa de Auror toda amarrotada, como se tivesse passado o dia dentro de um armário — mas pelo menos trazia um copo de algo quente e fumegante.
— Draco está dormindo, então viemos ver como você está... — Gina disse baixinho, enquanto abraçava a amiga.
— Ele está bem confuso, não se lembra de mim... — Hermione aceitou o copo que Harry ofereceu, sorvendo um longo gole. Chá preto sem açúcar. Mesmo depois de tantos anos, Harry ainda se lembrava de como ela gostava do chá. — É algo temporário, li sobre. — Ela indicou com a cabeça a pilha de livros no pé do sofá. — E é normal em traumatismos como o dele. Mas não...
— ...Não deixa de ser horrível — Harry completou, sentando-se ao lado da amiga. Tentando brincar, acrescentou: — Se ele te magoar de novo, posso dar aquele soco que prometi há uns anos atrás.
Hermione deu algo entre uma risada e um gemido. Harry e Draco mantinham uma amizade tensa, cuidadosamente cultivada, sempre sob o olhar atento e vigilante de Hermione. Harry era sua alma gêmea de trabalho, o Chefe do Departamento de Aurors, o braço armado do Ministério — tão parte um do outro que se sentiam irmãos. Mas Draco era o amor de Hermione; ela não poderia ficar sem nenhum dos dois. O fato de ter sido Harry quem prendera Lucius tantos anos antes não facilitava as coisas. Hermione era grata por ainda contar com os amigos; apesar de Ronald ser bem distante após seu casamento com Padma, ele ainda era um bom contraponto quando Hermione precisava ouvir uma opinião bem diferente da sua.
Depois de algum tempo de conversa, Gina convenceu Hermione a pelo menos tentar ir para casa, para comer algo fresco e tomar um banho.
Quando estavam prestes a sair, o Dr. Arthur entrou.
— Fala, Potter, beleza? Gina... — O homem recém-chegado se sentou em frente à mesa e depositou um prontuário. — Solicitei a visita de um amigo, ele deve chegar pela manhã. Ele é especialista em mentes, mas tem alguma experiência com acidentes. Acho que pode ser útil de alguma forma.
Hermione assentiu timidamente, grata por todo esforço que o amigo do marido fazia. O homem de cabelos escuros era baixo, forte e, para Hermione, parecia um urso de pelúcia. Ele fora uma das gratas surpresas que Draco tivera na faculdade: alguém que não o rejeitava por ser um Malfoy, desde que Malfoy não o rejeitasse por ser gay.
— Mas por enquanto não vejo como você pode ajudar ficando aqui. — Arthur encarou Hermione com certa pena. — Se houver alguma mudança, eu ou Narcisa vamos te avisar na hora. Ela vai passar a noite aqui...
Hermione fechou os olhos e encostou a cabeça no sofá. Seu corpo estava exausto, seu cérebro atordoado de preocupação e de saudade do marido.
— Quais exames vocês fizeram? — Gina perguntou, e Arthur desatou a responder. Ela ouviu o Medibruxo tirar todas as dúvidas de Harry e Gina. Quando não havia mais nada a ser dito, Hermione se levantou. Em silêncio, todos seguiram até a recepção e a lareira.
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Ao chegar em casa, o gato de pelos brancos, Bolota de Neve, a encarava com um olhar de julgamento ao lado do pote vazio de comida.
— Desculpe sua mãe, Bolota, ela está com muita coisa na cabeça. — Harry se aproximou, pegou um pote de dentro do armário e colocou ração. O gato miou indignado.
Gina seguiu a amiga até o quarto, empurrou-a para o banheiro e ligou o chuveiro, deixando Hermione sozinha. Separou um pijama e o depositou na cama. Quando viu as malas no canto do quarto, seu coração ficou do tamanho de uma noz. Quase conseguia imaginar as lingeries e os biquínis que ela e Hermione tinham escolhido numa tarde de sexta-feira no mês anterior. Gina, que já era mãe de três filhos, já estudava sua aposentadoria dos campos de Quadribol e o início da carreira como jornalista esportiva e locutora. Sabia o quanto Hermione seria uma boa mãe e ficara absurdamente feliz por saber que a amiga começaria as tentativas. A ruiva imaginou o quão péssimo Draco Malfoy devia estar jogando Quadribol para que tudo isso acontecesse e riu tristemente consigo mesma.
Harry estava começando a fazer comida. Gina enfeitiçava a casa, dando ordem e ajeitando as coisas, pensando se sua mãe estaria com dificuldade de fazer seus filhos dormirem.
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Já passava das 22h quando Hermione apareceu na sala. Eles comeram o clássico macarrão do Pai-Potter — conhecido por ser a melhor, e única, comida que Harry sabia fazer — em silêncio. Hermione acabou dormindo no sofá, encostada em Gina, enquanto o casal conversava amenidades e tomava um vinho tinto roubado da adega pessoal de Draco Malfoy.
— Como você acha que ela está de verdade? Eu vejo que ela quer ser forte, mas ela não quer conversar — Gina falou baixinho. — Estou com medo de que ela quebre.
Harry olhava a amiga deitada no colo de Gina, parecendo menos uma profissional ministerial de carreira e mais uma criança buscando colo. Gina fazia carinho no cabelo molhado, secando-o e alisando-o delicadamente com feitiços não verbais, deixando-o do jeito que a amiga gostava. Harry respirou fundo, pensando em quando a vida de sua irmã voltaria ao normal.
— Ela é tão forte quanto você...
— Humf — Gina bufou. — Como se isso fosse de muita valia.
— Quando ela quiser falar, ela vai falar, meu anjo. — Ele suspirou. — E nós estaremos aqui para ajudá-la.
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