Quinze Semanas

4 Capítulo 4 - Van Meer


Capítulo 4

Internamente, Hermione agradeceu por Gina ter insistido para que ela fosse se deitar. Sentia como se seu corpo pesasse mil toneladas. Enquanto o sono não vinha, pensava nos afilhados pequenos dormindo na casa da avó e sentia falta de ter alguém com quem contar mais de perto.

Como Gina conseguia cuidar das crianças, do marido, da casa e ainda estar tão bonita? Merlin, isso era pedir demais de uma única pessoa. Pela primeira vez em muito tempo, Hermione sentiu falta do colo de uma mãe.

De manhã, ela arrumou uma mochila com itens básicos: escova de dente, sabonete e roupas confortáveis para passar o dia. Ao se olhar no espelho, suspirou aliviada. O cabelo estava lindo e impecável, do jeito que Gina a havia ensinado a arrumar anos atrás. Sentiu um calor no peito ao pensar nos amigos. De repente, percebeu que o jantar de ontem tinha sido sua primeira refeição decente em dias. Ela engoliu o choro ao sair de casa, determinada a se manter firme.

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Chegando ao hospital, ela entrou com muita timidez no quarto do marido. Draco Malfoy estava sentado, apoiado nos travesseiros, com uma bandeja de comida à sua frente. Parecia visivelmente mais calmo. Ele conversava com Arthur Rosier sobre Quadribol e sobre as Copas Mundiais que haviam acontecido nos anos anteriores. Ouvindo a voz rouca e arrastada do marido, Hermione sentiu-se completamente arrepiada, lembrando-se de como sentia falta daquele som. E deu graças por ele simplesmente estar vivo.

Ela entrou com passos pequenos e hesitantes, pigarreando para anunciar sua chegada. Arthur sorriu ao vê-la, mas Draco, como esperado, fechou a cara. Bom, ele não havia gritado; já era um bom começo.

— Bom dia, Hermione! Tudo bem com você? — Arthur perguntou, pegando a mochila do ombro da mulher, colocando-a em cima de uma mesa no canto e voltando para perto do amigo na cama.

Ela deu de ombros e abaixou o olhar, sem saber como reagir. Pela manhã, tudo parecia delicado e frágil, e ela temeu que o esposo gritasse com ela caso abrisse a boca.

— Garanto que a cama da sua casa é bem mais confortável do que essas poltronas aqui... — Arthur brincou, aproximando a xícara de chá e o suco de abóbora da bandeja de Draco, incentivando-o a comer.

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Minutos antes, Arthur havia chegado para ver como Draco estava. Era bem cedo, e apesar de estar exausto, ele ficaria até a chegada do Dr. Aiden Van Meer, seu amigo holandês. Ele torcia para que o homem mais experiente tivesse alguma solução mágica e milagrosa que restaurasse as lembranças e a integridade física do amigo — de preferência, mais rapidamente do que seus próprios talentos estavam permitindo. Dr. Van Meer era especialista em doenças mentais causadas por feitiços, mas também muito habilidoso com feitiços de memória. Conseguia até mesmo reverter um Obliviate, de modo que uma concussão de origem não mágica deveria ser algo mais simples. Ele já havia ajudado Arthur antes, e o Medibruxo torcia para que ajudasse agora.

Arthur Rosier estava preocupado com seu amigo. Draco era uma das poucas pessoas que realmente o apoiavam e o tratavam com respeito. Para sua surpresa, quando entrou, Draco Malfoy estava tentando se sentar na cama, segurando um Profeta Diário e lendo as notícias. Seu estado de confusão e preocupação era nítido, já que sua testa ficava cada vez mais vincada.

— Vejo que você acordou animado! — Arthur sorriu e levitou a bandeja do café da manhã até a mesa de apoio. Encostou na beirada da cama e guardou a varinha no jaleco. — Pena que removeram nossa assinatura de Fofoca e Feitiços, você ia amar ler as fofocas desse mês. Mas acho que posso arrumar um semanário das bruxas ali no posto de enfermagem...

Draco olhou o Medibruxo sem emoção alguma. Não entendia por que o Dr. Rosier se achava no direito de agir de forma tão amigável com ele. Ele ainda não tinha visto a Marca Negra em seu braço? Por isso era tão gentil? Depois que a poção havia perdido o efeito, Draco não conseguiu dormir mais, e enquanto o sol nascia, sua cabeça era povoada por mais e mais perguntas.

Fez um checklist do que havia entendido da conversa com sua mãe: ele tinha se machucado jogando Quadribol com seus amigos; era médico naquele hospital; estava no final dos vinte anos; por algum motivo, parecia um homem das cavernas, barbudo e tatuado; e, por fim, era casado. Não satisfeito em ser casado, era casado com ninguém menos que a mulher mais irritante do mundo, Hermione Granger — que, em sua nada humilde opinião, era a pessoa mais exibida, mal-educada e arrogante que conhecia. Como havia tido coragem de manchar sua linhagem daquela forma? Seu pai deveria estar furioso, e mais furioso ainda por estar preso e não poder dizer isso pessoalmente.

— Vocês realmente falaram sério quando disseram que estamos em 2009 — Draco disse, tomando um copo de água. — Parece que meu cérebro levou um Feitiço Confundus. Eu não lembro de nada...

— Do que você se lembra? — Arthur perguntou, encarando Draco com curiosidade.

— Nada recente... — Draco ainda não havia decidido se Arthur era confiável. Gente gentil demais levantava uma pulga, quase do tamanho de um Pufoso, em sua orelha.

— Então me diga a parte antiga — Arthur disse calmamente, olhando o relógio no pulso. — Como seu médico, preciso saber qual a extensão dos danos para passar ao especialista que virá hoje.

— Me lembro da guerra — Draco foi firme em sua resposta, colocando a mão em cima da Marca Negra tatuada em seu antebraço. — Me lembro das mortes, da batalha. Me lembro de que ficamos proibidos de sair de casa.

Draco olhou para a parede fixamente, tentando se lembrar dos detalhes. O pensamento chegava em pedaços, como névoa que a mão atravessa sem conseguir segurar.

— Lembro de estar em Hogwarts para meu sétimo ano. Eu era Monitor Chefe... acho que a última coisa que me lembro é da neve. Eu estava jogando Quadribol em dezembro ou janeiro e acho que caí da vassoura...

Arthur levantou as sobrancelhas. Aquilo havia acontecido há muito tempo. Estava no prontuário de Draco, mas fora uma queda quase irrelevante — ele foi para a enfermaria da escola e liberado na manhã seguinte.

— Entendo, Draco — Arthur assentiu, adotando um tom mais sério. — Bom, isso foi há quase dez anos. Nesse meio-tempo, você terminou os estudos, passou mais três anos estudando Medicina e Curas Mágicas. Você se especializou duas vezes, sabia? Emergencista em 2004 e especialista em Doenças Mágicas em 2006. Você se casou — inclusive, eu fui um dos seus padrinhos de casamento. Você é um marido apaixonado, posso garantir. Já flagrei você e Hermione aos beijos mais vezes do que eu gostaria. — Arthur terminou a frase com uma cara de nojo forçado.

— Eu ainda não entendi por que me casei com a Granger. E eu não tinha planos de ser Medibruxo. Eu queria trabalhar no Ministério, como meu pai — Draco respondeu numa voz comedida.

Pelo que se lembrava, sua vida deveria ser completamente outra. Seu casamento com Astoria havia sido arranjado desde a infância, e apesar de nunca ter levado isso muito a sério, ele não se importava de casar; seria uma aliança conveniente, uma escolha que ninguém ao redor precisaria questionar.

— É, eu sei que você não se lembra de muita coisa. Mas tente ser gentil com a Hermione, ela não merece sua hostilidade e está com você há uma década. Ela superou e enfrentou o inimaginável por você — Arthur respondeu e, quando Draco fez menção de abrir a boca, Arthur continuou: — Cara, pelas barbas de Merlin, deixe seu orgulho de lado. Sua mãe falou com você, não falou? Eu conheço essa cara de quem levou um puxão de orelha. Seja gentil com Hermione.

A resposta pegou Draco de surpresa. Ficou sem saber o que responder, em um misto de raiva, vergonha e orgulho ferido. Conhecendo bem o amigo, Arthur mudou o assunto:

— Anunciaram que a Copa de Quadribol do ano que vem vai ser na África do Sul. Já teve briga hoje cedo na sala de descanso dos curandeiros sobre quem vai pegar férias nessa época — Arthur comentou jocosamente, na esperança de que Draco ficaria mais animado; e deu certo.

— Sério? Isso é muito bom. Sempre quis viajar para lá, mas nunca tive um bom argumento... — Draco respondeu, mais interessado. — Acho que desde que nasci, não perdi nenhuma Copa Mundial.

— Não, não perdeu. Em 2002, nós fomos juntos para o Japão, nós e Theodore... Matamos um mês de aula. Quase perdemos o semestre por isso, e sua mãe ameaçou te deserdar caso você não voltasse — Arthur riu alto, lembrando da cara de pânico que Draco havia feito quando recebeu o Berrador da mãe. — Os japoneses não entendiam nada, e o Berrador gritou quase cinco minutos seguidos. Sua mãe listou praticamente toda a linhagem que você estava envergonhando... Só voltamos porque a Inglaterra foi eliminada pela Bulgária. E na final, a Bulgária perdeu e o Egito ganhou. No fim das contas, não foi um jogo incrível — apesar de Krum ser bom, os egípcios já tinham massacrado o goleiro búlgaro.

— E a Copa de 2006? — Draco perguntou. Não queria dar o braço a torcer, mas estava genuinamente curioso sobre se o título mundial havia finalmente voltado para a Inglaterra.

— Uma merda. Burkina Faso ganhou. Para variar, a Inglaterra não chegou nem às oitavas de final. O pessoal de Burkina Faso pegou o Pomo em menos de quinze minutos. Tenho dó de quem pagou para assistir àquele jogo. Nós fomos azarões; no único jogo que eu e você fomos juntos, a Inglaterra perdeu de lavada — Arthur falou e ouviu Hermione entrando. Foi cumprimentar a amiga, mas deu uma piscadela para Draco. — Não se preocupe, Draco, coloquei seu nome na lista de férias. Estamos entre os três primeiros. Nós vamos para a Copa, nem que tenhamos que trocar mil plantões para isso.

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Arthur até tentou fazer algumas piadas de quebra-gelo — seu senso de humor sempre foi duvidoso. Mas deu pouco resultado. Hermione estava receosa demais e Draco, arisco como um gato escaldado.

— Que horas você disse que seu amigo vem? — Hermione perguntou em voz baixa, enquanto apertava uma blusa de frio nas mãos. Sua aliança dourada pendia folgada do dedo anelar, como se ela tivesse perdido muito peso rapidamente. Havia outro anel pesado em sua mão, mas na distância em que estava, Draco não conseguia ver muita coisa.

— Ele vem daqui a pouco, via Chave de Portal. Eu acho que ele vai ajudar — com certeza matou menos aulas do que eu — Arthur riu, pegou o prontuário do amigo e o folheou. Ofereceu-o a Draco, sugestivamente. — Quer ver? Acho válido você voltar a se habituar com a linguagem.

Draco pegou a pasta e começou a folhear, tentando ignorar a conversa em voz baixa que Hermione e Arthur mantinham ao seu lado. Tinha 29 anos, pesava 91 quilos, 193 centímetros, estava em boa forma física, sem alergias, sem doenças conhecidas, sem poções de uso contínuo... saudável e no auge da juventude. Folhas e mais folhas de exames realizados, feitiços diagnósticos lançados, tudo inconclusivo, nada que justificasse a perda de memória. No verso do prontuário, havia a avaliação psicológica, parecida com a que recebia ao ser contratado para trabalhar em qualquer instituição.

'Avaliação Admissional: Draco Lucius Malfoy, 24 anos, ensino regular concluído em 1999, formação em Medibruxaria de Urgência concluída em janeiro de 2004, cursando especialização em Doenças Mágicas, conclusão prevista em 2006. Noivo, sem filhos, com disponibilidade de horário.'

Draco pausou. Noivo. Em 2004, ele estava noivo. Seus olhos correram rapidamente para a mão de Hermione — a aliança larga, dourada, folgada no dedo. O anel ao lado era diferente, mais pesado, com uma pedra que ele não conseguia distinguir daquela distância. Então havia sido ela. Ele estivera noivo dela. O peso daquilo assentou no peito como uma pedra no fundo de um lago, e Draco forçou os olhos de volta ao documento.

'Sr. Malfoy relata ter se especializado fora do país (França e País de Gales). Seu perfil é analítico e ágil, reagindo bem aos testes sob pressão e aos estudos de caso apresentados na entrevista. Apresenta dificuldade em socializar e, quando perguntado sobre assuntos pessoais, tem comportamento esquivo. Ainda assim, está dentro do limite padrão dos níveis de interação psicossocial, mas tende a resolver as questões sozinho. Fala com clareza e calma, e se expressa bem. Só fala quando questionado. Tem dificuldade em solicitar e receber ajuda. Avaliar a obrigatoriedade de atuar nas alas de internação; seria preferível que ele atuasse na emergência. Londres, 2004. Amélia Diggory, Analista de Recursos Mágicos.'

'Avaliação de Desempenho 2005: O Sr. Malfoy apresenta...'

— Arthur Rosier? — Uma batida forte soou na porta e uma cabeça enorme entrou no quarto. — Estou te procurando há um tempo, meu amigo. Ah, bom dia!

Dr. Aiden Van Meer era colossal — chegava com facilidade a 2,10 metros, maior do que Draco, com costeletas loiras que sugeriam décadas de inverno europeu no rosto. Devia estar chegando aos cinquenta anos, e carregava consigo a energia contida de quem passou a vida inteira estudando o que ninguém mais entendia. Novamente, Draco se sentiu nu, sem varinha e com a miserável camisola hospitalar. Bom, ele sabia que estaria pelo menos com a varinha se não tivesse tentado enfeitiçar duas enfermeiras no dia anterior — mas quem em sã consciência tenta enfiar uma poção na boca de uma pessoa que está dormindo? Malucos.

— Van Meer, que bom te ver! — Arthur se aproximou animado, estendendo a mão. O médico mais jovem parecia uma criança ao lado do estrangeiro. — Obrigado por ter vindo até aqui, é um caso muito importante para mim! Não sei se você se recorda de Draco Ma...

— Dr. Van Meer, do Redit Memorium? — Hermione arregalou os olhos. Draco sentiu uma reverência genuína no tom dela, o tipo que ela reservava para pessoas que realmente haviam feito algo extraordinário. — Muito prazer em conhecê-lo! Eu sou Hermione...

— Ah, Granger, se me recordo bem, certo? Rosier não me deu paz enquanto não respondi as cartas de vocês — O médico mais velho soltou uma risada trovejante, apoiando uma maleta pesada na mesa lateral. — Já fazem o quê? Oito anos? Pelas cartas posso concluir que seus pais estão bem?

— Sim! — Uma faísca de alegria passou no olhar dela, e Hermione abriu um sorriso que iluminou o quarto todo. Começou a gesticular animada. — A recuperação deles beirou os 90% na minha opinião. Eles lembram de quase tudo, exceto trivialidades — algumas datas, ou coisas que eu mesma não lembrava para suprir a ausência. Foi incrível, e sou muito grata por todo o apoio que o senhor deu. As cartas eram tão descritivas; parecia que me dava uma aula a cada envelope. Não sei como agradecer...

— Não precisa se preocupar com isso, Senhorita Granger, é sempre uma honra trocar cartas com belas e brilhantes bruxas — Ele se aproximou e beijou a mão da jovem mulher com uma formalidade antiquada que, claramente, a desconcertou levemente.

— Agora é Hermione Malfoy — ela disse, compondo-se. — Sou esposa de Draco Malfoy. — Ela se aproximou delicadamente da cama.

Foi a vez do médico ficar sem graça. Draco se ajeitou contra os travesseiros, reunindo o máximo de dignidade possível para alguém usando uma camisola hospitalar. Van Meer arregalou os olhos, as sobrancelhas fartas subindo quase até a raiz dos cabelos.

— Senhor Malfoy? — Van Meer olhou para Arthur como se esperasse uma confirmação. Arthur assentiu discretamente. — Peço desculpas pela minha demora. Eu não fazia ideia de que era o senhor...

— O que quer dizer com isso? — Hermione perguntou, confusa.

— Dr. Van Meer, gostaria que desse uma olhada no prontuário do paciente e nos exames que realizamos — Arthur praticamente colocou o prontuário nas mãos de Van Meer. — Venha, Doutor, vou te pagar um café e te passar o caso. O Bolo de Cenoura da cafeteria é excelente...

Antes mesmo que Van Meer pudesse dizer uma palavra, Arthur o conduziu para fora com o entusiasmo de quem temia que a conversa fosse em uma direção indesejada, falando sobre quedas, bolos e cafés fumegantes para viajantes de Chave de Portal.

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De repente, a sala ficou pequena demais para dois adultos.

Hermione foi até a mesa e começou a desempacotar as coisas lentamente. Acenando delicadamente com a varinha, revitalizou as flores na mesa de cabeceira e depois dobrou a coberta que Draco havia empurrado para os pés da cama. Mesmo enrolando o máximo que pôde, a atividade toda não durou cinco minutos.

Draco estava em silêncio.

Ela não sabia o que falar. Como quebrar o gelo?

'Bom dia, Draco, dormiu bem? Aliás, lembrou que somos casados?'

Ou melhor...

'Oi, Docinho, sei que não lembra de mim, mas somos casados e, ah, estávamos tentando ter um filho?'

Complicado falar uma coisa dessas para alguém que sequer sabe em que ano está.

Ela se sentou na cadeira ao lado da cama, fingindo ler o jornal enquanto Draco fingia tomar o café da manhã. Felizmente, depois de minutos de um silêncio constrangedor, Draco quebrou o gelo por ela.

— Por Merlin, esse chá é horrível — ele tossiu enquanto devolvia a xícara na bandeja.

Sem pestanejar, Hermione se aproximou, pegou a xícara, cheirou e tomou um gole. O líquido estava morno e insosso, com gosto de erva medicinal barata.

— Ah, está sem açúcar — ela deu um risinho. Ele a encarava como se ela tivesse duas cabeças. — Não está tão ruim.

— Está intragável, Granger — ele respondeu antes que pudesse controlar. — Todo chá de hospital é ruim.

Ela sorriu como se ele a tivesse desafiado.

— Vou pegar algo para você, já volto — ela deu um risinho nervoso e saiu do quarto com a xícara na mão, voltando momentos depois.

— Pronto — ela estendeu a xícara para Draco, que pegou desconfiado. Ela revirou os olhos. — Merlin, beba logo, é o chá que você gosta. Me dê algum crédito... Roubei da garrafa da Enfermeira Jude.

Draco provou a bebida com certa desconfiança, mas o chá era maravilhoso: doce, frutado, energizante, com um calor que descia pela garganta como um conforto que ele não sabia que precisava.

— Você roubou uma enfermeira? — ele finalmente deu um sorriso discreto. — Ouvi dizer que elas são bravas...

— Jude? Com certeza — dessa vez ela sorriu abertamente. — Mas ela tem um fraco por você. Ela vai me perdoar.

Sem saber por que havia sido tão gentil com ela, ele apenas deu de ombros e continuou tomando o chá aos poucos, sem olhar para ela. Havia tido uma interação normal com Granger. Isso foi um alívio; ele não estava com disposição de brigar. O silêncio, desta vez, pesava um pouco menos.

O silêncio se arrastou até a chegada de Narcisa.

— Que bom que está acordado, querido! — Ela se aproximou de Draco, dando beijinhos em seu cabelo. Draco sentiu-se com dez anos de novo. — Bom dia, querida!

Narcisa e Hermione se abraçaram, dando beijinhos em cada lado do rosto. Draco apenas observou. As duas mulheres pareciam muito diferentes e, ao mesmo tempo, iguais. Ambas mais altas do que a média, esguias. Draco observou que pareciam exalar uma confiança bruta, uma espécie de aura de poder que não precisava de anúncio. Mas enquanto Narcisa tinha os cabelos loiros com mechas grisalhas presos num elegante coque, pele de alabastro e estava vestida na mais pura seda em forma de vestido e capa; Hermione tinha pesados cabelos escuros e lisos que chegavam abaixo do meio das costas, e vestia um pragmático conjunto de moletom notavelmente trouxa. Água e óleo no mesmo frasco, coexistindo harmoniosamente no mesmo espaço.

— O especialista chegou e você não vai acreditar... — A mulher mais jovem começou a falar aos sussurros com a sogra, que passou a ignorar Draco enquanto sentavam lado a lado no sofá.

Draco ignorou as duas enquanto comia. Se elas se gostavam, que se bastassem. Sua cabeça ainda doía como se estivesse rachada, e deu graças a Merlin quando uma enfermeira idosa entrou com uma série de poções.

— Hora do remédio, querido — a enfermeira sorriu, cúmplice. — Agradeça que fui eu a trazer a poção. As outras enfermeiras estavam divididas entre ter medo de você ou tentar te seduzir agora que esqueceu que é casado.

Ela estendeu os frascos, e Draco engoliu as poções sem responder. A idosa tinha os cabelos grisalhos presos num coque severo, usava as tradicionais vestes verdes do hospital, e sua pele tinha um aspecto de quem conhecia cada canto daquele lugar há décadas. Por algum motivo, Draco achou o sorriso dela familiar, confortável.

— Senti sua falta no meu último plantão... — ela sorriu e recolheu todos os frascos, colocando-os em seus bolsos. Ele a encarou. — Ah, você não se lembra de mim, que cabeça a minha... Jude Bulstrode, Enfermeira Chefe do St. Mungus. Você era amigo da minha neta quando ainda estudava — Emília, lembra-se? Prazer em te conhecer novamente, Draco.

Draco assentiu. Trabalhavam juntos; fazia sentido que ele a reconhecesse vagamente.

— Prazer, Lady Bulstrode. Eu me lembro de Emília, apesar de não sermos próximos... Obrigado por não me chamar de Doutor.

A velha bruxa deu uma gargalhada que fez Narcisa e Hermione encararem por um momento.

— Fazem muitos anos que não me chamam de Lady, e eu nunca te chamei de Doutor, Draco... Para mim, você ainda é o menino que vomitou de volta quando uma menina vomitou em você no seu primeiro dia.

Draco sentiu seu rosto corar.

— Eu realmente fiz isso? — ele perguntou.

— Acredite, esse foi seu incidente menos ruim nesse hospital, Draco Malfoy. Agora, levante essa bunda branca da cama. Venha — ela puxou as cobertas e o ajudou a levantar com a firmeza de quem não aceita protesto. — Vamos andar, você precisa esticar as pernas antes da próxima rodada de exames.

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Os exames se estenderam pelo resto do dia.

Dr. Aiden Van Meer não era especialista por acaso. Draco se sentiu como uma boneca sendo manipulada por uma criança birrenta e hiperativa. Hermione e Narcisa acompanhavam tudo em silêncio, trocando cochichos ocasionais entre si.

Feitiços, testes físicos, testes de reflexos, questionários imensos que perguntavam sobre história, medicina e vida pessoal, testando até onde ia o dano. Longos feitiços diagnósticos que nasciam de fumaça colorida, com respostas em runas complexas. Fios de Magia ligavam o coração e o cérebro de Draco a uma pena enfeitiçada. Até o almoço, ninguém havia tocado efetivamente nele.

Mas Van Meer decidiu mudar de técnica quando olhou os resultados.

— Não estou gostando disso, Rosier — Van Meer murmurou. — Podemos tentar manualmente?

— Acha necessário? — o médico mais novo retrucou. — Não sei se ele está pronto.

— Podemos perguntar a ele... — Van Meer deu de ombros. — Sr. Malfoy, gostaria de tentar uma inserção manual nos seus pensamentos. Dessa forma eu posso entender o que está fora do lugar, ou se temos algo mal remendado.

Draco estalou o pescoço. O jeito que ele falava lembrava um pouco o que o Lord das Trevas fazia. Draco engoliu em seco. Reviver o momento traumático de Voldemort invadindo sua mente, ou perder os últimos anos da sua vida?

Que viesse a porra do trauma, então. Ele queria entender que diabos havia feito na última década.

Ele tentou parecer mais corajoso do que realmente era.

— Vamos em frente, Doutor.

Van Meer sorriu.

Draco se sentou em uma poltrona. Van Meer estalou as juntas dos dedos.

— Colocarei a mão na sua cabeça. A inserção manual é uma espécie de Legilimência, mas muito menos invasiva. Não busco memórias — busco algo físico. Não vou ficar vasculhando sua intimidade, mas você pode reviver algumas coisas enquanto forço suas conexões neurais. Se eu vir algo fora do lugar, vou tentar consertar. A sensação pode parecer como se uma minhoca estivesse por dentro do seu cérebro... Mas você estará consciente e, se em algum momento quiser parar, basta falar.

Draco assentiu, respirou fundo, tentou relaxar, e Van Meer começou.

No começo, parecia um mosquito zunindo, só que dentro da cabeça, e ficou assim por alguns minutos. E o zumbido foi aumentando. Aumentando. Seu coração parecia pulsar no cérebro.

Ele via flashes indistintos — vozes, risos, sangue, um cheiro caramelado — mas tudo estava incompleto. A sensação do vento batendo no rosto, o peso de algo deitado em seu peito. O barulho continuou ressoando, e ele agarrou os braços da poltrona. O coração em disparada. Sentiu o pescoço esquentar.

Era como se os nervos tentassem se conectar e não conseguissem.

Mais vozes, mais dor.

Olhos cor de chocolate, cheiro de queimado. A sensação de algo gelado e forte como uma cachoeira. O movimento treinado da mão colocando a varinha em um bolso. Cheiro de antisséptico. A cabeça de Draco estava explodindo, e seu pescoço queimando.

Algo macio roçando em sua perna. Um piano sendo tocado a quatro mãos. Cheiro de caramelo novamente. Um embrulho quente nos braços.

E depois, vazio.

O zumbido o deixava tonto. Seu pescoço queimava. Ele podia sentir o cérebro se retorcendo dentro do crânio como algo vivo tentando encontrar saída.

Até que se tornou insuportável.

— Parem! — A voz de Granger interrompeu o feitiço em desespero. — Pare, por favor! Ele não vai pedir para parar — ele está no limite.

Impressionante imaginar que alguém de quem ele lembrava tão pouco o conhecia tão bem. Bellatrix o havia treinado bem para tortura e Legilimência; ele jamais abriria a boca para reclamar. Draco levou a mão ao ouvido e, ao olhar os dedos, deparou-se com sangue.

Apagou em seguida.

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Quando Draco acordou, percebeu que ficara mais tempo inconsciente do que imaginara — todos estavam com roupas diferentes, e o sol entrava pelas janelas de um ângulo de manhã cedo. Piscou muitas vezes, a cabeça ainda latejando como um tambor abafado.

Era possível ouvir Van Meer falar em voz baixa.

— ...Houve exposição da massa encefálica, mas não afetou o núcleo mágico. Acho que foi remendado às pressas, por alguém sem o conhecimento necessário. A pessoa não teve atenção o bastante para refazer as conexões mais delicadas — refez apenas o grosso, o superficial. O traumatismo cranioencefálico pode trazer algumas mudanças, o que justifica a confusão, a agressividade e a perda de memória.

— Sim. Foi Nott que o remendou até chegar aqui. Se não fosse por ele, Draco não teria sobrevivido à Aparição. Acho que ele não tinha nenhuma experiência com feitiços de cura — alguém disse, mas Draco estava zonzo demais para distinguir a voz.

— Bom, nesse caso foi um golpe de sorte... — Van Meer suspirou. — Do ponto de vista mágico, não há nada a ser feito. Isso danificou parte das memórias dele. Acredito que ele separou a vida em duas — provavelmente depois de algum fato pessoal relevante. Isso é muito comum no TCE. O paciente separa a vida, às vezes por falecimento de alguém ou mudança de país, e apaga o que veio depois, numa tentativa de se proteger.

— E o que fazemos agora? — Hermione interveio, confusa.

— Tenho duas teorias. Primeiro: geralmente, doenças não mágicas se resolvem de forma não mágica. Como foi um acidente sem relação de magia, muito provavelmente ele vai se resolver ao longo dos dias de forma espontânea. Envolver magia nesse caso pode ser algo que vai mais atrapalhar do que ajudar.

— E a segunda teoria? — Narcisa perguntou, enquanto acariciava a mão do filho.

— Draco é um Oclumente, correto? — Van Meer perguntou, e todos concordaram. — Imaginei que fosse. Senti muita resistência durante a inserção, consegui apenas margear a consciência dele. Acredito que ele esteja ocluindo sem querer... Não acho que seja o caso mais provável, mas é possível que o cérebro dele tenha protegido os últimos dez anos de forma instintiva. Bons Oclumentes conseguem proteger as lembranças que querem sem parecer que estão ocluindo — fazem parecer tão natural que é impossível notar. Não acredito que ele tenha 'apagado' essas memórias; acho que as escondeu por conta da descarga de adrenalina do acidente. Em ambos os casos, a solução é a mesma: esperar a mente se curar sozinha.

— E quanto tempo isso pode levar? — Hermione perguntou, olhando o marido de esguelha com os olhos de quem estava tentando não demonstrar o quanto a resposta importava.

— No geral, volta aos poucos, em duas semanas. Porém, já vi casos mais longos.

— Longos quanto? — a mulher mais jovem questionou.

— Já vi pessoas que nunca voltaram. Ficaram com as lacunas para sempre.

Draco observava pelas pálpebras semicerradas. Se Hermione tivesse levado um tapa, não ficaria mais imóvel do que ficou naquele segundo. Ela não costumava ser surpreendida — e aquelas palavras a haviam surpreendido completamente.

— Não existe nada que adiante esse processo? Que facilite a cura? — Narcisa perguntou, sua voz mantendo a compostura com o esforço visível de alguém que aprendera a não desmoronar em público.

— Poderíamos tentar Legilimência Bruta ou coletar essas memórias à força, usando feitiços e uma Penseira... — Van Meer disse num tom pouco confiante, como se achasse a ideia ruim antes mesmo de terminar de propô-la. — Mas acho que isso traz mais prejuízos do que benefícios.

— E o que podemos fazer para ajudar? — Hermione se aproximou. Draco se retraiu levemente, e ela percebeu — afastou-se de novo, com a discrição de quem já aprendera quando avançar e quando recuar.

— Descanso, tranquilidade e vida normal. Fazer as atividades que normalmente faria. Expô-lo a coisas cotidianas vai ajudar mais do que qualquer feitiço.

Van Meer fechou a maleta com um clique firme, olhou para Draco com algo que era ao mesmo tempo avaliação profissional e respeito genuíno, e fez uma mesura breve.

— É uma honra conhecê-lo, Senhor Malfoy. E estimo sua breve recuperação — disse, e havia algo na voz dele que ia além da cortesia clínica. — Se eu soubesse que era o senhor, teria vindo antes. Senhoras, Rosier... — Com uma última mesura para as mulheres, Van Meer saiu e deixou mais perguntas do que respostas.

— Bom, acho que é isso — Arthur Rosier passou a mão pelos cabelos, tão frustrado que parecia que iria chutar uma parede. Disfarçou quando olhou o rosto de Draco. — O que quer fazer agora que está de alta? Você está ocupando o melhor leito do Hospital, meu amigo, já teve regalias o suficiente. Hora de voltar para o mundo lá fora.

Draco olhou para a mãe. Estava exausto, com o núcleo mágico perturbado pelo procedimento de Van Meer. Sentia-se exposto e violado. Não interessava se tinha quase trinta anos. Não interessava se era um homem feito, com barba, casamento e uma esposa que ficara três dias sem dormir ao seu lado. Ele mal a conhecia. Queria algo que conhecesse.

— Quero ir para casa.

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O problema era que a casa de Draco não era mais a Malfoy Manor.

Draco e Arthur Desapareceram e reapareceram em um apartamento. Ao olhar pelos janelões, Draco percebeu que estavam bem alto. O apartamento era imenso, numa sala ampla e clara. Era possível ver diversos cômodos e uma escada para um segundo andar. A sala tinha um enorme sofá branco e um tapete felpudo. Havia obras de arte espalhadas pelas paredes e um piano de cauda em um dos cantos. Em outro momento, ele até poderia chamar o ambiente de aconchegante, mas agora...

— Eu disse que queria ir para casa — Draco disse em voz baixa. A Aparição lhe dera náuseas.

— Essa é a sua casa — Arthur respondeu como se fosse óbvio. Apontou para um enorme retrato onde era possível ver Draco e Hermione, provavelmente no dia do casamento.

Na foto, Draco ainda mantinha os cabelos cortados, sem barba. Hermione exalava alegria, de vestido branco. Ao fundo, podia-se ver Narcisa, Theodore, Blaise Zabini e um casal que Draco concluiu ser Potter e Weasley.

Dois estalos secos indicaram que Narcisa e Hermione tinham acabado de chegar. Draco sentiu o coração acelerado.

— Não é — Draco respondeu com um nó na garganta. — Quero ir para a minha casa. Não quero ficar aqui. Me leve para casa.

— Draco... — Arthur franziu as sobrancelhas.

Hermione, ao ouvir aquilo, parecia que iria cair no choro a qualquer momento. E mais uma vez Draco Malfoy se sentiu perdido, sem saber de quem era a culpa. Aquela não era a sua casa. Arthur não pensou muito e Desapareceu com Draco novamente.

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— Por que não disse que eu era o paciente? — Draco perguntou quando entraram em um quarto na Malfoy Manor.

Ficaram bons minutos em silêncio antes de Draco falar de novo. Arthur pareceu pensar cuidadosamente antes de responder.

— Eu evitei citar nomes. Sabia que você não ia gostar de ter preferência no atendimento só por causa do seu nome.

— Não me lembro dos Malfoy terem muita influência na Holanda — Draco disse, confuso, enquanto se deitava com a ajuda de Arthur. As Aparições faziam a cabeça latejar.

— E não têm. O nome Malfoy é só mais um nome na Holanda.

— Então por que não falar que eu era o paciente? — Draco pressionou.

— Porque oito anos atrás você doou três milhões de galeões para a pesquisa dele.

A boca de Draco abriu em choque.

— E por que diabos eu fiz isso?

— Porque você cansou de ver Hermione chorar todas as noites antes de dormir. Mas outro dia nós falamos sobre isso — você precisa descansar e eu preciso falar com a sua mãe. — Arthur deu dois tapinhas nas costas do amigo antes de fechar a porta e sair.

O quarto da Manor mergulhou em silêncio.

Draco ficou encarando o teto de pedra fria, os olhos abertos no escuro. Três milhões de galeões. Por Hermione Granger. Para que o pai dela pudesse se lembrar de quem ela era.

Ele tentou encontrar raiva naquilo — e não encontrou. Só encontrou algo muito mais incômodo: a estranha e irrecusável sensação de que aquele homem que ele não conhecia, o homem barbudo com tatuagem e aliança dourada no dedo, não havia feito nada errado.

Notas finais
E agora, como é que a gente respira? 😭