Quimera
13 Vitória
Notas iniciais
— Enquanto puderes erguer os olhos para o céu, sem medo, saberás que tens o coração puro, e isto significa felicidade.
Hinata procurou – falhando miseravelmente – não trombar nas centenas de alunos que transitavam pelo primeiro piso. As vozes e o barulho atrapalhavam seus sentidos, e não conseguiu se guiar corretamente. Pelo menos sentia passos saindo de seu caminho, então supos que a bengala ajudava em alguma coisa. Andou em linha reta por cerca de trinta passos, até que as vozes começavam a se dispersar, tornando-se mais longínquas ou mais baixas. Concluiu estar em uma bifurcação, próxima a uma escadaria. Respirou fundo, pronta para pedir informação.
No entanto, por algum golpe de sorte do universo, sentiu mãos firmes em seus ombros, e demorou-se apenas dois milésimos até reconhecer a aura alarmada e sob stress (parecia loucura, mas era uma verdadeira bolha poderosa de constante nervosismo!).
— Hyuuga, graças a Kami! – a garota se virou para a voz, sorrindo verdadeiramente aliviada, e recolheu o bastão para encurtar a distância entre eles.
— Calma, capitão. Estou aqui. – Hinata quase sentiu-se pessoalmente culpada. Shikamaru estava a beira de um ataque de nervos.
— O que aconteceu? Quase entrei naquela escola para te procurar eu mesmo! – com um braço sobre a base de suas costas, a conduziu para frente e viraram, entrando em um corredor um tanto quanto mais silencioso, porém escurecido. Poucos passos adiante a luz invadiu-lhe novamente, e o som era abafado, como uma estufa.
— Uma longa história. – suspirou – Me enganaram, falando que você havia mudado o portão. Acabei no estacionamento, e perdi o horário. Por uma sorte o... uma pessoa me trouxe. – mordeu a língua no último instante. Não seria muito inteligente mencionar Menma naquele momento. As coisas ainda estavam confusas. Shikamaru, no entanto, não pareceu notar sua hesitação, e soltou o ar entre os dentes.
— Filhos da puta. – murmurou, com o braço firme atrás de si – Ok, depois eu cuido disso. Como você está? Consegue competir?
— Sim! – Hinata respondeu rápido demais, corando em seguida, mas manteve a cabeça alta e determinada. Ela esperava por aquela oportunidade há muito tempo, e seria necessário mais que aquilo para fazê-la desistir.
— Ótimo. – havia algo como satisfação no tom de voz do outro – Por sorte, precisaram usar a nossa piscina para a primeira competição, e ficamos com algumas horas de folga. O time está reunido no vestiário, estavam todos preocupados.
Hinata se aqueceu, sorrindo sem perceber. Sentir-se parte do grupo era, de certa forma, melhor que ganhar quaisquer medalhas. Assentiu devagar e deixou-se guiar pelo capitão, atravessando com cuidado o chão molhado, confiando – talvez, pela primeira vez – plenamente em ser conduzida por outra pessoa.
O barulho abafado foi diminuindo gradativamente conforme avançavam, até que o silêncio era predominante. A garota sentiu, sob seus pés, o assoalho mudar de concreto para escorregadio, cerâmica, talvez. O cheiro também era diferente, ligeiramente agradável, como produtos de limpeza, mas definitivamente sobreposto por suor e perfumes. Retraiu o nariz, incomodada, mas relaxou quando ouviu vozes conhecidas. Não tardou a ser rodeada por pares de mãos em seus ombros e costas, com palminhas e afagos polidos. Sorriu, tranquilizando a todos, e deixou que Shikamaru explicasse, rapidamente, o que acontecera. Internamente – e jamais admitiria se a perguntassem – sentiu-se feliz ao ouvir os xingamentos irritados dos colegas, que, assim como o capitão, queriam vingar-se do idiota que a enganara.
Entretanto, apesar de radiante, Hinata obrigou-se a focar nas estratégias repassadas por um Shikamaru um tanto inquieto demais. Apesar da pilha, a Hyuuga entendia o capitão – queria ganhar, mais que tudo, àquela altura. Estudar as equipes adversárias era o mais lógico. Haviam outros quatro times além da Academia, duas escolas públicas e duas particulares, todas provinciais. Com sorte, nenhuma delas dispunha da estrutura que o colégio interno continha, e eles eram os mais bem treinados. As piscinas de campeonato eram de tamanho olímpico júnior, e Hinata tinha um ótimo tempo de giro naquelas medidas. O time de revesamento discutia, em voz mais baixa, seus próprios artifícios, e teriam que terminar com um bom espaço para que os nadadores livres ganhassem vantagem. Hinata era a última, e decidiu nadar o tradicional crawl. Sabia que era mais rápida no borboleta, mas estava nervosa, e um movimento atrasado poria tudo a perder. Se garantiria na segurança e no fôlego.
Não sabia dizer quanto tempo se passou até que um dos avaliadores avisou que a prova começaria em meia hora. Hinata controlou o que seria um ataque de pânico e se obrigou a vestir o maiô sem tremer. Saiu do trocador e uma de suas colegas a ajudou a guardar sua roupa e prender o cabelo no alto – Hinata sentiu-se culpada por não lembrar o nome dela –. Pegou sua touca, uma vez que os óculos não seriam necessários. Buscou um dos roupões emprestados do time reserva e uniu-se ao grupo de maior barulho.
Quando se aproximou, foi rodeada por braços de ferro apertados, e ofegou assustada, até seu nariz pinicar com fios curtos e de cheiro doce. Sorriu, levando seus braços cuidadosamente até o pescoço da amiga, que as separou alguns segundos depois, sem soltar sua cintura.
— Você quase me matou de susto, Sakura. – Hinata sorriu, o rosto virado para o que supos ser em sua direção. A garota riu e, por seu tom de voz, a morena suspeitou que Sakura nada sabia sobre a confusão com o ônibus. Respirou aliviada – era melhor daquele jeito, pelo menos por hora.
— Desculpa! Quis vir desejar boa sorte antes de você ir. Passe livre de presidente. – gabou-se, e ambas compartilharam uma gargalhada – A Ino e a Tenten mandaram um beijo, elas não puderam entrar. Vamos estar na arquibancada torcendo por você! E, se der tempo, você pode ir ver elas no campeonato de líderes! – houve um momento de silêncio – Quero dizer... – Hinata percebeu a culpa e a vergonha no tom de voz da rosada, e riu, quebrando o clima.
— Está tudo bem. Claro, eu, com certeza, estarei lá. – tranquilizou a amiga, sabendo que ela não tinha más intenções. Sentiu seus dedos apertando sua cintura e retribuiu – Obrigada. Eu estou surtando. – aumentou duas oitavas na última palavra.
— Deixa disso. Você vai arrasar, tenho certeza. Disseram que você é ótima.
— Mas... outras pessoas vão estar assistindo? – sua afirmação se transformou em pergunta, e Sakura soube que ela falava dos outros estudantes, provavelmente das líderes e do time de luta. Bufou, pensando em alguém em particular.
— Eles que se fodam. Não precisa se preocupar com a opinião deles, você é muito melhor que qualquer um. – terminou com uma careta, e Hinata riu nervosamente. Abraçou a amiga novamente, ouvindo Shikamaru chamá-la para a última reunião com o time.
— Tudo bem. Eu confio em vocês. Eu treinei vocês, então vocês estão preparados. – risos coletivos, mas a voz de Shikamaru estava surpreendentemente calma, como sempre, muito diferente de minutos atrás – Vão lá e nos classifiquem para os nacionais, um passo de cada vez. Nós somos os canadenses, e eu não aceito menos que o melhor!
Houve uma onda de gritos de apoio, e apesar do peso exigente de suas palavras, todos sentiam-se renovadamente animados. Hinata gritou e sorriu também, sentindo algumas mãos em suas costas, a desejando boa sorte. Ela seguiu os passos, entre dois colegas, e havia uma nova bolha de camaradagem e ousadia entre eles.
Passaram pelo corredor escuro e chegaram à ala, sendo recepcionados por diversos gritos e vozes difusas. Hinata franziu a testa, um pouco confusa, mas foi guiada parcialmente até o banco. Conseguiu identificar apitos e ordens próximas a ela, das outras equipes. Havia um bom número nas arquibancadas, e ela não pode reconhecer ninguém em especial. Respirou fundo, arrumando a touca e o maiô debaixo do roupão. Desejou boa sorte para os companheiros que se organizavam para o revezamento, entre esses Shikamaru, ao seu lado puxando e repuxando algo elástico, que Hinata supos ser seus óculos.
O ambiente estava coberto por uma fina camada de excitação, uma atmosfera própria, úmida e abafada, com o som ecoando pelas grades de ferro e a abóbada. Aquela era a primeira competição realmente aguardada do dia. As demais modalidades – como o polo aquático e tênis de mesa – não contavam com os grandes times da província, e todos estavam ansiosos para ver os classificados para as regionais. Era a primeira etapa rumo à representação do Japão nos mundiais juvenis, a oportunidade que todo jovem atleta desejava. As arquibancadas se encheram dos torcedores de suas respectivas escolas, além de familiares e amigos.
Os estudantes da Academia Canadense se acomodaram nos bancos mais altos, e todo o time de luta estava ali, vestidos com suas faixas, a espera de sua própria vez, uma das últimas do dia. Com eles, apenas duas líderes de torcida, destacando-se pelos uniformes chamativos e os gritos exagerados. Sakura revirou os olhos, tentando se esconder de vergonha.
— Ino, por Kami, cale a boca! – sibilou a Haruno, cobrindo o rosto com um dos pompons. Tenten, a sua esquerda, riu.
— Eu estou tão animada! – a loira ignorou a amiga, acenando descontroladamente. Shikamaru, o único do círculo social compartilhado da Yamanaka, acenou de volta, revirando os olhos – Olha! Ela está no banco! – apontou, atraindo a atenção de alguns alunos das outras escolas.
Sakura bufou, desistindo. Segurou o crachá que lhe dava acesso aos bastidores como presidente, rodando entre os dedos. O time de luta se juntou a elas, fazendo barulho e algazarra. Sakura sorriu nervosa para Sasuke, que a cumprimentou com um aceno, e Gaara, que lhe deu um abraço de urso nela e em Ino – a rosada também fingiu ignorar o estranho corar da amiga –. Os demais se acomodaram atrás de si, mas seu rosto se fechou em uma cara séria quando fitou o último da fila, e dilatou as narinas com raiva. O garoto encolheu-se, implorando com os olhos, e a rosada o fuzilou antes de virar a cabeça, fungando. O loiro agradeceu silenciosamente e sentou-se, quieto.
Naruto não tinha muitas esperanças de que Sakura o deixasse ficar, então permaneceu calado, para não arriscar a pouca sorte que ainda tinha. Ela era a única que sabia da história, e, embora não simpatizasse muito com ele naquele momento, ainda não o havia delatado – o que lhe deu um pouco de ânimo, afinal –. O Namikaze não admitira que sentia falta da amiga, e ponderava seriamente em contar a Sasuke. Ambos eram seus amigos de infância e, se ele pretendia mesmo continuar com aquilo (e ele pretendia), precisaria de ajuda. Suspirou, apoiando a cabeça entre as mãos. As coisas não poderiam estar mais confusas naquele momento. Distraído, não percebeu Sakura o fitando, pensativa.
Houve uma pequena comoção e todos se viraram para frente. A competição ia começar, e Naruto sentiu-se revigorado. Quase levantou-se para torcer, mas tinha medo de alguém notar – embora Shikamaru estivesse no time e ele pudesse muito bem alegar que estava torcendo para o amigo. No entanto, todo cuidado era pouco, e ele permaneceu sentado, com sua melhor expressão indiferente. Queria ficar ali o quanto conseguisse, para fugir das líderes, em especial uma. Naruto simplesmente não conseguiria lidar com Shion naquele momento – não sem tentar alguma espécie de homicídio.
Seus olhos acharam Hinata no banco, e ele sorriu. Ela usava um maiô preto e o cabelo preso no alto, ressaltando seu pescoço curvilíneo e branco. Brincava com o que parecia ser uma touca de natação, mas a distância não lhe permitiu ter certeza. Com o roupão do time, grande demais, sobre seus ombros, ela balançava a perna ritmada, ansiosa, e Naruto lutou contra a necessidade de descer até lá e acalmá-la. Bufou internamente – ele sempre tinha instintos esquisitos quando se tratava da garota.
Do outro lado, Hinata respirava fundo, tentando controlar a si mesma, extravasando parte da tensão em forma de pequenos tiques, com a perna, e as mãos. Estava nervosa, e o apito já havia soado. Shikamaru lhe desejou boa sorte e saiu de seu lado, a deixando com os reservas e dois dos nadadores que competiriam com ela no nado solo. A essa altura, sabia que se posicionavam nas plataformas, organizando as filas para o revezamento. Era a modalidade mais difícil, porque não contava somente com o preparo pessoal, e sim de todo o time. Um bom arranque, uma boa virada, uma boa braçada, todos esses fatores permitiriam um melhor tempo para o próximo, além da própria experiência no nado. Hinata não podia ver, mas sabia que Shikamaru, ao menos, era o melhor do time em costas, e garantiria alguns segundos de vantagem, sendo o primeiro. A garota agradeceu internamente os narradores, embora fosse uma competição mirim.
Aprumou-se no banco quando o segundo apito soou e ouviu o splash barulhento, sendo atingida por alguns respingos. “É dada a largada! As cinco escolas da província de Rokko agora se enfrentam na natação, dividido em dois tempos: revezamento e nado solo. As equipes estão numeradas de um a cinco, e a favorita da competição, Academia Canadense, ocupa a raia 3”. Hinata sorriu, porque era um bom sinal. Os melhores classificados nas competições anteriores ficavam nas raias centrais, onde a água era mais calma. Lembrou-se de alguém comentar que eram a equipe cinco, e procurou prestar atenção. “A disputa está acirrada, e os nadadores se aproximam da borda para o primeiro giro. Na raia 3, a escola cinco consegue algumas braçadas de liderança. Dois e quatro empatadas, e a um atrasou por uma respiração. Próximos da virada agora... boa! Cinco finalizou a virada e dispara na frente com um bom impulso. Três a acompanha mas vai ser difícil chegar”. A morena respirou aliviada, torcendo a toalha nas mãos. Paralelamente, ouvia a torcida eufórica, e o nome do capitão era gritado algumas vezes. “Estamos perto agora... e chegou! Cinco é a primeira escola a largar o segundo nadador, que mergulha rapidamente no nado borboleta. As demais escolas chegam e também disparam, quatro é a última, com dois segundos ponto seis de atraso. Nara é retirado da piscina e cumprimentado. No segundo ano, é capitão do time e tem boas chances de uma bolsa por olheiros nas estaduais”.
— Boa, capitão. – Hinata cumprimentou quando sentiu a presença do mesmo ao seu lado.
— Obrigado. – havia um tom curioso de felicidade em sua sempre indiferente voz, e Hinata sorriu, porque Shikamaru não mudaria, mesmo sendo o nadador mais elogiado da competição – Estamos indo bem, o revezamento já está ganho. – não estava se gabando, e Hinata sabia. Já haviam tomado a dianteira por bons segundos, e um novo barulho denunciou que já haviam largado o terceiro bem antes das demais escolas.
“Quatro consegue alcançar e a disputa se acirra pelo segundo lugar. Cinco completa virada! Dispara e passa pelos outros nadadores do penúltimo nado. Se aproxima da borda, e três se atrapalha na vira. Teve que sair! Isso atrasa um pouco as coisas para eles. Um e quatro empatados, e cinco lança último nadador rapidamente. Pois é, parece que as coisas estão ganhas por aqui. Que time, senhoras e senhores!”. Hinata alarga o sorriso, sentindo o nervosismo se dissipar pouco a pouco. Ela era boa, e conseguiria ganhar.
O apito simbolizou a primeira chegada, e ela saltou junto do restante do time para comemorar a classificação na primeira modalidade. Cumprimentou a todos animadamente e se preparou para nadar. Ouviu alguns desejos de boa sorte e retribuiu, confiante. Na arquibancada, a torcida vibrava, e Ino e Tenten gritavam ensurdecidamente. Até mesmo Sakura se levantou, ansiosa. Mesmo que zoassem o Nara, o time de natação tinha tantas medalhas quanto o time de luta, e os amigos sentiam-se orgulhosos. Naruto vibrava sentado, discretamente, mas estava ansioso para a próxima. Viu Hinata ser guiada por um dos avaliadores até a raia do meio, e subiu hesitante na plataforma, agachando-se. Resmungou quando ouviu algumas piadas e olhares tortos, ansioso para que Hinata os fizesse comer poeira. Assustado com um palavrão, percebeu que Sakura estava tão inconformada quanto ele.
Hinata fechou os olhos – embora não precisasse fazê-lo. Respirou fundo, ignorando as chacotas e as palavras ofensivas. Estendeu os pés e franziu os dedos, sentindo a água morna que respingou. Alongou os braços sobre a cabeça, depois atrás das costas e relaxou os ombros. Focou apenas nos incentivos vindos da própria equipe. Alteraram a escala, e Shikamaru lhe disse que ela seria a primeira. Não sabia se era melhor ou pior. Seu estômago caiu, e ela agradeceu por não ter comido nada, embora não estivesse com fome. Estava relaxada. Sua mente estava lúcida, e ela procurou se lembrar do tamanho da piscina, do número de braçadas exatas para que não trombasse ou não atrasasse no giro. Se fizesse uma boa pontuação, além de garantir a classificação na primeira rodada, o recorde traria, de imediato, uma medalha. Ela abriu os olhos, contemplando a escuridão. Estalou os dedos e apertou a touca sobre seu rabo de cabelo, para que o cabelo não atrapalhasse. Arrumou as alças do maiô, e, na plataforma ao lado, ouviu um riso zombeteiro. Ignorou.
Encolheu-se e prostrou as mãos na frente do corpo, quase tocando a água. Aguardou pelo apito. Quando ele veio, segundos mais tarde, foi tão natural quanto respirar.
Hinata mergulhou, os braços primeiro e depois o restante do corpo, reto como uma espada, tomando uma boa distância. Comemorou em sua mente a boa largada, isso lhe daria vantagem. Não conseguia ouvir a narração, mas seu ouvido apurado podia perceber o farfalhar da água, suave, atrás de si. Com a respiração presa, começou a empurrar os braços sem subir para respirar, para ganhar tempo. Depois de três braços, virou, puxando o ar pelos dentes e voltando. Procurou contornar a água, fazer com que ela se ajeitasse em torno de seus membros, a empurrando para frente. Com a ponta dos dedos, sentiu a borda, e impulsionou as pernas para o giro, evitando perder o fôlego e ignorando a água incômoda no ouvido. Comprimida, empurrou-se, atirando-se como um míssil. Faltavam duas voltas, mas o impulso lhe deu uma boa distância.
Ela estava em casa. Na água, só dependia de si mesma. Sem barulho, sem xingamentos, sem julgamentos. Apenas ela e a piscina. Onde a visão não era a maior vantagem. Ela esticou os braços o máximo que pode, sentindo-os queimar entre os músculos. Alcançou a outra borda e jogou a cabeça para cima, puxando o máximo de ar que conseguiu, e deu mais uma volta. Lançou-se para frente, sentindo o farfalhar de água contra ela. Internamente, sorriu. Estava na frente de alguém. Seu corpo começou a gritar de cansaço na última volta, quando atingiu a borda inicial, mas ela ignorou os protestos, continuando a nadar impassivamente.
Naruto sabia que haviam muitas pessoas como ele naquele momento – embasbacadas. Hinata era um talento nato na piscina. Se movia com graciosidade, um borrão que se estendia em braçadas largas e confiantes. Virava poucas vezes para respirar, e o Namikaze se perguntou como ela conseguia. Não trombou uma vez sequer, acertando todos os momentos em que era para virar. Estava ansioso, com as mãos fechadas em punho, na expectativa. Ao seu lado, apenas Sakura parecia tão nervosa quanto ele. O restante dos amigos estava com o queixo caído, admirados por ver o que ele já sabia. Hinata nadando era como uma verdadeira obra de arte, um instante maravilhoso, único. As demais escolas lutavam para alcançá-la, mas ela estava confiante. Apenas um dos modelos de nado era rápido o suficiente para chegar perto, mas suas viradas certeiras aumentavam a vantagem. No banco, Shikamaru aguardava, com expectativas, orgulhoso por ter no time um talento tão nato. Os narradores gritavam, furiosos, sobre aquela nova nadadora, cega. As arquibancadas mal gritavam.
E então, ela se aproximou. Com uma braçada veloz, tocou a borda da plataforma, ofegante, subindo a cabeça a tempo de ouvir a sirene. Retirou a touca, respirando profundamente, ouvindo os gritos de comemoração. O alto-falante anunciou, então, o que ela esperava: a Academia Canadense havia se classificado na primeira rodada, com um novo recorde de tempo. Hinata, então, disfarçou as lágrimas de felicidade com a água da piscina, e dois colegas ajudaram-na a subir. Braços a cercaram, com abraços e gritos de vitória. Shikamaru se permitiu abraçá-la lateralmente, e Hinata, um tanto desnorteada, apenas sorria, eufórica. Aquela sensação era indescritível, e talvez somente dali algumas horas sua ficha cairia. Ela conseguiu.
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