Quimera

14 Remissão


Notas iniciais
Desculpa a demora, e obrigada por todos os comentários, eles me incentivam muito! Remissão significa perdão, desculpa, absolvição (além de ser uma palavra bem legal).

— Quando você tiver provado a sensação de voar, andará na terra com seus olhos voltados ao céu, pois lá você esteve e para lá desejará retornar.

Naruto não aguentou e saltou junto de todo o time, gritando pela vitória. Sorria, largamente, enquanto comemorava. Hinata fora esplêndida – não podia estar mais aliviado de ter decidido dar aquela maldita carona para ela. Precisava deixar de ser tão egoísta, e perceber que, as vezes, tinha d fazer sacrifícios em prol das outras pessoas, porque elas importavam. Para ele.

No meio da multidão, acabou abraçando Sakura, que também comemorava em plenos pulmões. Permaneceram alguns segundos juntos, pulando, até que se separaram, Naruto com as bochechas coradas e a garota envergonhada, com uma carranca. Mas nada disse, e se virou para cumprimentar outros integrantes do time. Depois, desceu as escadas correndo, com seu crachá visível. O loiro a invejou por poder ir até ela e cumprimentá-la como deveria, mas havia se arriscado demais. A próxima competição seria a dele, e tinha que reunir o time e concentrar-se. Virou-se, sem antes lançar uma última olhadela para o banco, avistando as duas garotas abraçadas, Hinata já com o roupão e o cabelo molhado solto, com alguns fios grudados em sua testa. O próximo nadador se posicionava, mas os avaliadores tentavam – sem sucesso – acalmar a bagunça. As demais escolas pareciam resignadas, lutando pelo segundo lugar e uma chance da repescagem para as municipais.

Naruto desceu até o hall principal e caminhou, com as mãos nos bolsos, até o lado oposto, passando pela guarita e saindo do prédio principal, até o ginásio secundário, com uma abóbada aberta e iluminada. Os tatames de competições ficavam ali, junto do campo aberto para as líderes. Embora o futebol também fosse bastante presente nas escolas, poucos eram os times que competiam nas províncias. O loiro caminhou, cumprimentando alguns conhecidos de lutas passadas, e chegou até seu próprio banco. Admirou o tatame central, coberto e acolchoado, e as arquibancadas, menores, já enchendo de gente.

Sentou-se, arrumando a faixa de capitão no braço e o kimono por baixo do casaco. Respirou fundo, concentrando-se em sua própria mente, alongando os músculos e recitando seus mantras habituais antes das lutas. Precisava ganhar – levar o time para as estaduais atrairia olheiros, e muitos deles contavam com bolsas para as universidades internacionais. Naruto estava em um impasse – seu pai contava que ele assumisse os negócios da família, mas ele era bom no que fazia. Uma oportunidade nos esportes era tudo que precisava para fazê-lo orgulhar seu sobrenome.

Os poucos segundos de paz se esvaíram com a chegada do time, que o acompanhou. Em seguida, Ino e Tenten trouxeram as demais líderes, que pareciam incapazes de conversar em um tom de voz aceitavelmente baixo. Os amigos se reuniram, descontraindo, enquanto o ginásio começava a lotar. Naruto suspirou e se levantou, cumprimentando os companheiros de time e instruindo-os. Lembrou de táticas e golpes, e proferiu palavras de incentivo. Era perceptível o nervosismo coletivo, mas ele conseguiu tranquilizá-los.

Caminhou, inevitavelmente, até o aglomerado de garotas, e respirou fundo mentalmente quando avistou a mais loira correndo até sua direção. Em outras circunstâncias, teria achado que era a garota mais bonita do lugar. Teria admirado seu corpo curvilíneo e magro, o cabelo esvoaçante e o sorriso cheio de gloss. Teria orgulhado-se de exibi-la como um troféu. Mas, naquele momento, se contentou apenas em cumprimentá-la desviando de um selinho, beijando sua bochecha. A garota o encarou, confusa, mas logo desfez a máscara enrugada e voltou a sorrir.

— Está nervoso, campeão? – eram poucas as vezes que ela o chamava assim. Incomodou-se com as mãos que percorriam seus bíceps.

— Um pouco, Shion. E você? – replicou educadamente, e ela riu. Algumas das outras amigas a seguiram, e logo uma pequena roda se formou ao redor do garoto, cheio de gritos e chicletes. Naruto resmungou.

— Eu? – ela gargalhou gostosamente – Já está no papo. – infelizmente Shion era boa com as líderes, criando coreografias originais e ousadas – Além do mais, nós fizemos uma pequena “brincadeira” quando viemos para cá. – ouviu as aspas imaginárias e grunhiu, já imaginando o que viria a seguir – Eu disse para aquela ceguinha que o ônibus ficava para o outro lado. Até parece que ela conseguiria competir em alguma coisa. – todos ao redor riram, menos Naruto, que sentiu algo ferver dentro de si. Desvencilhou-se dos braços da loira e sorriu debochadamente.

— Bom, sinto lhe dizer que ela veio e ganhou uma medalha. Ela bateu o recorde da competição. – tentou disfarçar o tom orgulhoso de sua voz, e todos riram, enquanto Shion fechava a cara, inconformada. Em um movimento brusco, empurrou Naruto para trás, raivosa, longe de ouvidos alheios, mas o garoto não se assustou com o ímpeto.

— Como você ousa? Na frente das minhas amigas! – chiou, a voz um tanto aguda, mas Naruto apenas rolou os olhos.

— Menos, Shion. Eu só disse a verdade. Além disso, o que você fez foi uma canalhice. – ergueu uma sobrancelha enquanto ela bufava, cruzando os braços e tentando falar o mais baixo que conseguisse.

— Não me venha com falso moralismo agora, Naruto. – replicou, os olhos brilhando perigosamente – Por que você está defendendo aquela cega? – acusou, aproximando-se, mas Naruto se afastou, engolindo em seco e a fitando na defensiva.

— Não seja ridícula. Só achei que você passou um pouco do limite.

— Olha quem fala sobre limites. – sorriu desdenhosa, a boca crispada. Alguns olhares se voltaram para eles, curiosos com a nova briga do casal. Naruto odiava plateia. Em um movimento ríspido, pegou em seu braço, a aproximando. Shion o encarou sem medo, desafiadora.

— Para de fazer cena. Espero que você se lembre de quem fica do seu lado, Shion. Lealdade é algo que eu prezo nas pessoas. – sibilou, a empurrando em seguida. Saiu andando em passos duros, deixando uma Shion muito insatisfeita e irritadiça para trás.

Reuniu o grupo afastado, e ninguém mencionou o clima estranho. Todos começaram a sentir o peso das lutas chegando, e não ousaram a fazer piada com nada. Nem mesmo Gaara, com seus habituais sorrisos divertidos, estava sério, pensativo. Em semicírculo, alongavam-se silenciosamente. Os avaliadores começaram a chegar, junto dos demais times. Naruto avistou Shikamaru, junto de uma loira alta, afagando sua cabeça. Sorriu torto. Sakura também se juntou a arquibancada, com Ino e Tenten, e os adversários ocuparam seus respectivos bancos.

As lutas seguiriam o padrão das competições juvenis. Cinco minutos, em duplas escaladas aleatoriamente. Haviam alguns tatames para lutas simultâneas, mas não haviam tantas equipes para que fosse necessário. Naruto desejava acabar a luta rapidamente, e, particularmente, era bom com os golpes certeiros – conseguir um ippon não seria difícil. No judô, havia um sistema de pontuações, e alguns golpes rendiam pontuações elevadas, suficientes para a finalização. Era elas koka, yuko, wazari e o ippon. Uma queda sentada equivalia a um koka, e sentado, a um yuko; o wazari remetia a uma derrubada efetiva, porém desprovida de velocidade ou força. O ippon era a maior pontuação, e a luta acabava quando um dos adversários o conseguia. Caso o tempo acabe e não tiver havido uma queda completa, os árbitros e avaliadores contavam a quantidade de pontos. Havia uma segunda maneira de vencer – dois wazaris importavam um ippon, ou a imobilização por vinte e cinco segundos. Nenhuma das duas opções era segura, e Naruto não treinava seu time para segundas alternativas.

O primeiro sinal tocou, sem assustá-los, embora estivessem distraídos. Respiraram fundo, reunindo-se com os avaliadores para o sorteio das duplas. Os reservas permaneceram nos bancos, com expectativa. Naruto analisou os adversários da Academia. Uma das escolas particulares, e, apesar de altos, não pareciam ter muita massa muscular ou apoio nos pés, o que definitivamente representava uma vantagem. O Namikaze estava de braços cruzados, com ar desafiador, procurando intimidá-los. Cumprimentou Sasuke quando este passou ao seu lado, com o ar satisfeito, e prostrou-se a frente do avaliador. Sobrara apenas um papel, e o adversário que lhe encarava parecia um ou dois anos mais velho. Apesar de capitão, apenas alguns alunos do primeiro ano eram mais novos que ele. Seus olhos eram determinados, e Naruto sorriu um sorriso arreganhado, cheio de dentes.

— Que o melhor vença. – o garoto estendeu a mão, e Naruto a apertou com firmeza.

— Sim. Que o melhor vença. – se encararam por alguns segundos, e então se deram as costas, seguindo até seus próprios companheiros. Haviam recebido as faixas de identificação vermelhas, e Naruto colocou a sua, ajeitando-a com a faixa no antebraço – Muito bem! – se esforçou para que sua voz sobressaísse ao barulho da arena – Todos conhecem seus adversários. Não os menosprezem! Procurem uma posição confortável e levem para o chão o mais rápido possível. Cuidado com as penalidades. – assentiam a cada recomendação – Acho que é só. Tragam uma medalha para a Academia e destruam eles. – sorriam afetado e vários gritos concluíram, com punhos no ar.

Se encaminharam para o grande tatame, cumprimentando-se. Depois saíram, e apenas um primeiranista permaneceu, se preparando para a primeira luta. Naruto não se sentou, ao contrário dos outros, permanecendo com os braços cruzados, concentrando-se.

Na arquibancada, Sakura sentia o coração bater um tanto mais forte, e as mãos suadas estavam sobrepostas em suas pernas, tentando disfarçar o nervosismo eminente. Nunca admitia — embora fosse de uma frequência realmente questionável –, mas todas as lutas lhe deixavam agoniada.

Não somente por Sasuke, que tinha uma considerável porém duvidosa queda por esportes perigosos desde os dez anos, mas também Naruto, que, apesar de tudo – apesar de tudo mesmo — ainda era seu melhor amigo e um grande cabeça de vento que não se importava com a própria segurança. Sakura sabia que era apenas uma luta e golpes baixos eram proibidos e punidos, mas eram raras as lutas em que o loiro não saía com um lábio rachado ou um hematoma nas costas. Respirando fundo, a rosada cruzou as mãos e começou com algumas preces silenciosas, tentando se distrair dos gritos de guerra nada originais proferidos pelas líderes, próximas ao tatame, balançando seus pompons.

Estava distraída quando seus olhos captaram, de relance, uma sombra conhecida, e correu degraus abaixo de encontro com Hinata. A garota estava devidamente vestida, com o cabelo molhado e penteado, e a bolsa semiaberta pendurada em seu ombro. Seu rosto tinha uma careta cautelosa, mas ela não se assustou quando a amiga a segurou pelo antebraço. Sorriu, desculpando-se.

— Não precisava. Eu ia sentar na frente. – Sakura balançou a cabeça, por hábito, e a guiou até o portão aberto, sentando-se com ela no primeiro nível, a poucos metros das cheerleaders.

— Deixa disso. Vou ficar com você. – se acomodaram, aguardando a campainha do início da luta.

— Não vou poder ver muita coisa, mas acho que as narrações vão me ajudar. – fez piada, rindo vagamente – Queria assistir. O time da nossa escola é bom, não é?

— Um dos melhores. – Sakura admitiu, sincera. Em sua mente, a preocupação com Hinata reconhecer Naruto durou apenas os segundos necessários para que ela se reprovasse por ser tão lerda. Em seguida, foi acometida com uma espécie de receio, porque não seria ela a desfazer aquela mentira.

— Quem vai lutar agora? – Hinata perguntou, acomodando a bolsa no colo. Gostava de assistir outros esportes, e, embora as escolas e ginásios habitualmente não realizassem narração, torneios oficiais contavam com este recurso, e ela achava tão emocionante quanto.

— O capitão. – Sakura parou por alguns segundos, ponderando – Naruto. Namikaze Naruto. – foi impossível não perceber a mudança de atitude da garota. Sua coluna se retesou e sua boca crispou um pouco. Suas mãos apertaram-se na bolsa e ela ficou na defensiva. Sakura sentiu alguns impulsos assassinos, e travou uma pequena batalha interna, gemendo internamente ao perceber que Hinata odiava Naruto e aparentemente gostava até demais de “Menma”. Suspirou, mas a Hyuuga não percebeu – Ele é um idiota, ok? Um grande babaca. Mas ele tem seus momentos. Você só precisa conhecer ele em um desses momentos.

Hinata não respondeu. Talvez porque não tivesse algo a dizer, ou talvez porque sua garganta se fechou em um bolo incômodo, enquanto seu rosto queimava, se lembrando de cenas não muito agradáveis. A garota não negava que ele poderia ser uma boa pessoa – o mundo não era preto no branco, pessoas inteiramente boas ou pessoas inteiramente más. Mas ela havia tido experiências demais para supor que o lado desagradável superava em peso o lado agradável, e ela não queria mais exemplos para comprovar.

Apesar do silêncio desconfortável, as garotas permaneceram caladas, e a luta se iniciou. Sakura se aprumou, tensa, enquanto Hinata focava sua atenção, tentando distinguir os sons. “E começa a luta! Os adversários se cumprimentam. Com um metro e oitenta, Namikaze é um dos favoritos na competição mirim e o maior lutador da divisão.”. Hinata assustou-se um pouco ao perceber que este tal de Naruto era realmente grande. “Com os braços entrelaçados, nenhum deles cedeu ou avançou. Estão se rodeando, movimento típico para reconhecimento.”.

Naruto estava impaciente. Ele nunca começava uma luta, esperava o adversário atacar para ter um bom ângulo. Apesar disso, seu oponente tampouco se movera, também o encarando. Frustrado, estava quase desistindo, quando seus reflexos capturaram um chute lateral direito, e, por pouco, ele se defendeu. Sorriu, avançando dois passos e chutando baixo, tentando atingir a canela. “Namikaze aposta em golpes baixos, e nenhum deles se aproxima o suficiente para um ippon.”. Se ele ao menos conseguisse desestabilizá-lo. Sentia a pressão exercida por seus braços, e mantinha os pés bem afastados para não correr o risco. Cansado, investiu todo seu peso, empurrando com os braços e aplicando força na vertical. Seu oponente vacilou, mas caiu sentado. Naruto se afastou, resmungando. “Namikaze conseguiu um wazari. Apesar de todas suas lutas acabarem depois do primeiro ippon, foi um bom golpe.”.

— Ele não venceu ainda? – Hinata perguntou para Sakura, que estava quase roendo as unhas.

— Não. O outro cara caiu sentado, e ele tinha que cair deitado. Mas é como se fosse meio ponto. Se ele caiu sentado de novo, também é uma vitória. – Hinata assentiu, sentindo-se ansiosa. Era emocionante assistir (ouvir).

Se posicionaram novamente, e Naruto observou o brilho perigoso no olhar do adversário. Respirou fundo e colocou seus braços acima dos dele. Abriu as pernas e fixou os pés, para não se mover. Acabaria com aquilo no próximo movimento. “Partimos para o segundo round. Apenas quarenta segundos se passaram, e é possível sentir a tensão no ar.”. O Namikaze pressionou as mãos contra os ombros do outro e levantou a perna direita. Em um movimento rápido e certeiro, empurrou o torso enquanto encaixava a coxa contra o apoio, forçando-o para baixo e aplicando uma rasteira. Sem conseguir se segurar, seu oponente caiu direto de costas, com um baque. Rapidamente, Naruto se ajoelhou em seu peito, para garantir, mas os técnicos já haviam levantado a bandeira. Ele se levantou, comemorando com um soco no ar, enquanto seus colegas gritavam palavras de incentivo. “E Namikaze vence a partida! Com o movimento que é sua especialidade, não tem como vencer essa rasteira, e o Namikaze não é alguém com que se dê para lutar na força. Com isso, a Academia Canadense sobe duas colocações, e, mesmo que não vença as duas outras lutas obrigatórias, já pode se classificar pelo número de pontos.”.

Hinata pulou da arquibancada, aplaudindo também. Sakura estava gritando, animada, e balançando os braços. A torcida da Academia fazia muito barulho, eclodindo em gritos pelo loiro. Digam o que disserem, Naruto honrava o título de campeão. O garoto cumprimentou o oponente e os técnicos e desceu do tatame, correndo para os amigos, que o cercaram com socos no braços e abraços. Eufórico, olhou para a arquibancada, procurando por Sakura – embora um tanto sem esperanças – e por Ino e Tenten, com as líderes. Mas seus olhos o traíram quando achou a conhecida cabeleira negra. Sorriu mais largamente, um sorriso que rasgava seu rosto, e, mesmo que ela não pudesse vê-lo, Naruto estava quase brilhando de alegria. Mesmo que ela não estivesse ali para torcer por Naruto.

— Foi uma ótima luta, cara! – Gaara o cumprimentou primeiro, o puxando para um high-five.

— Obrigado! – agradeceu. Sasuke, ao seu lado, bagunçou seu cabelo e tirou a faixa do lugar com um semiabraço.

— Boa luta, Dobe. Sabia que você ia conseguir. – Naruto revirou a brincadeira, se esquivando, enquanto ria.

— Isso é muito vindo de você, Teme. – provocou – Ok, ok, tudo bem. Obrigado pessoal. Agora, vão lá e arrasem nesse tatame, porque nós vamos para as nacionais! – urros e barulho, enquanto o sinal tocava novamente, chamando os próximos lutadores. Naruto foi para o banco, atrás de uma garrafa d'água, já mais controlado.

Sentado, observou Sasuke subir, e não se preocupou. Confiava nas habilidades do amigo, e estava tranquila quanto a vitória. Respirou fundo, tentando não encarar um ponto específico da arquibancada, embora seu olhar estivesse sendo atraído para ele, como magnetismo. Suspirou, não querendo admitir para si mesmo a presença dela ali era convenientemente tranquilizadora. Já era ruim demais sem as pessoas descobrirem.

Sakura, já mais aliviada, se levantou, e Hinata se voltou para ela confusa. Não era capaz de enxergar, no entanto, a careta confusa que a outra esboçava. Sakura esteve em um confronto pessoal interno a luta inteira, e, quando decidiu, no instante seguinte se convenceu de que cometeria a pior merda de toda sua vida – mas, inevitavelmente, precisava fazê-lo –. Estar brigada com Naruto era exaustivo e depressivo, ela queria seu melhor amigo babaca e inconsequente de volta. E, então, poderia perguntar quais eram suas motivações. Mas, naquele momento, enxergava aquilo como um tratado de paz, por hora.

— Vamos. Eu tenho passe livre para os bancos. Quero te apresentar uma pessoa. – Hinata estremeceu, inteligente o suficiente para saber quem era. Estava com medo, quem sabe um pouco ressentida, mas, admitiria, muito curiosa.

Acabou por concordar, e Sakura a ajudou a descer a pequena rampa e a passar pelos tatames sem trombar em ninguém. As demais equipes ou os juízes deram atenção para elas, e se aproximaram do fundo, em um ângulo em que ninguém veria a menos que estivesse realmente prestando atenção.

Naruto estava distraído e não percebeu a aproximação das duas garotas. Apenas quando ouviu a voz de Sakura próxima ao seu ouvido foi que saltou, assustado:

— Naruto? Quero te apresentar alguém.

Muita coisa aconteceu rápido demais. Naruto, em um pulo, colocou-se na frente delas, com a cara assustada, os olhos saltadas e a boca repentinamente seca. Suas mãos começaram a suar e ele tinha quase certeza que suas pernas faleceriam a qualquer momento. Hinata, por outro lado, estava nervosa, tentando diminuir de tamanho. A escuridão era incômoda, de certa forma, e ela não sabia o que esperar. Velhas cicatrizes coçavam, recentes demais, e ela tentou, com todas suas forças, não se lembrar.

O Namikaze encarou Sakura com desespero no olhar. “O que, em nome de Kami, você pensa que está fazendo?”. A Haruno, por outro lado, o fitava um tanto culpada, mas obstinada, com os ombros eretos e sem arrependimentos no olhar. Naruto sabia que era uma avaliação – e um tratado de paz. Embora todas as brigas, embora todas as ameaças e todas as feridas, ela estava disposta a tentar entendê-lo (mesmo que achasse que a melhor forma seria matá-lo do coração).

— Essa é Hinata. – ela estava interpretando um papel, a voz um tanto hesitante, a espera do que viria a seguir – Hina, este é... Naruto.

Houve um silêncio, um tanto desagradável, e dubiez por parte de ambos, que se recusaram a falar a primeira palavra. Naruto a conhecia, mas não como Naruto. Ele sabia, também, dos sentimentos que Hinata nutria por ele, e dos traumas. Por isso, sentia-se tão nervoso.

— Olá. – ela murmurou, por fim. Sua voz era quebrada e baixa, um sussurro, mas tanto Sakura quanto Naruto soltaram o ar que não sabiam que estavam prendendo.

— Oi. – Naruto retribuiu, a voz incerta, levando a mão atrás da cabeça, até perceber que era, de fato, inútil. Sakura intermediou, satisfeita. Era o máximo que poderia exigir de Hinata naquele momento, e estava orgulhosa da amiga, por mais motivos que ela tivesse para odiá-lo, ainda decidira dar uma chance.

— Bem, eu estava indo falar com os outros meninos. Até mais. – pegou Hinata pela mão, que, aliviada, a seguiu. Quando passou ao seu lado, Sakura transmitiu um olhar determinado ao loiro, que assentiu, também sentindo-se mais leve. Era hora deles, definitivamente, terem uma conversa.