Quimera
15 Partes
Notas iniciais
— Reside nos olhos o sorriso mais puro de cada um de nós.
Dizer que Naruto estava nervoso era um eufemismo. Na verdade, o garoto não estava realmente acostumado com tantas figuras de linguagem, mas ele sabia que, nas últimas semanas, as coisas eram apenas suavizadas demais. Sentado no último dos bancos do ônibus, Naruto percebeu que, pela primeira vez em dias, encontrava-se em uma cena quase normal. Permitiu-se sorrir um pouco, abraçando a familiaridade e aconchegando-se enquanto podia.
Depois da vitória irrefutavelmente óbvia do time da Academia, os lutadores comemoravam energéticos a caminho de volta para o instituto. Cantavam e gritavam, batendo-se e cumprimentando-se, porque todos tiveram uma ótima luta. Com exceção de Kiba, todos os outros conseguiram um ippon com poucos segundos decorridos, enquanto o outro garoto teve de dar dois wazaris. Naruto não o condenaria – talvez futuramente, quanto começassem a treinar para as tão sonhadas regionais. Naquele momento, deixou que os amigos regozijassem da merecida glória. Participou de alguns gritos de guerra, parabenizou os colegas e arriscou algumas piadas, mas tão logo acomodou-se no canto e recostou, pensativo.
Não eram raras as festas clandestinas depois dos jogos – Tsunade fazia vista grossa porque também se agraciava com a publicidade positiva que a escola recebia quando os times se classificavam –. Entretanto, Naruto sequer seguiria para seu dormitório quando chegassem. Os pés balançando irriquietos e as mãos suadas eram sinais suficientes. Ele precisava conversar com Sakura.
Parte de si estava infinitamente aliviada por ter voltado a conversar com a amiga. Não era como se tudo estivesse bem, porque Naruto fora realmente um grande babaca, mas aquele era o primeiro passo, e, – por Kami! – como ele sentia falta da Haruno! A garota era a única que o entendia. Sentia-se ligeiramente culpado por estar excluindo Sasuke de toda aquela situação. Naruto sabia que o amigo compreenderia e ficaria do seu lado, mas era diferente. Não sabia explicar. Não queria envolvê-lo naquele drama, por enquanto, não ainda. Era inevitável, afinal. O Namikaze sabia que estava afundando mais e mais em toda aquela rede de mentiras e no pérola daquelas orbes infinitas que insistiam em encará-lo.
Resmungou frustrado, mas ninguém o ouviu. O caminho para mais longo, e Naruto ficava impaciente a cada segundo que corria. Tentou distrair-se, prestando atenção em alguma provocação que Gaara fazia naquele momento, mas foi inútil, e desistiu em seguida. Pensou em dormir um pouco – embora sua mente estivesse ligada, seu corpo gritava, fatigado, por um bom descanso –, mas não confia o suficiente nos amigos para deixar-se ser tão inocente. No fim, apenas cruzou os braços, repousando no encosto do banco e respirando fundo, tentando controlar a si mesmo e sua ansiedade descontrolada.
Por outro lado, Hinata lutou bravamente para que suas pálpebras não se fechassem e ela caísse no sono no mesmo instante. O balançar do ônibus era reconfortante, e o peso quase insignificante da medalha ao redor de seu pescoço deixara-a leve. Fosse felicidade, fosse orgulho, Hinata sabia que não havia tido aquelas sensações antes, e estava perigosamente se apegando a elas. Tudo era brilhante, não importa para onde olhasse. Mãos passavam por seus ombros, lhe cumprimentando, e ela sentia os sorrisos em sua direção, acompanhados de palavras de otimismo e incentivo. Sentir-se parte de algo, sobretudo sentir-se especial, era indescritível.
Após o término das lutas, Sakura insistiu em deixá-la na porta do ônibus dos nadadores, sob a supervisão rígida de Shikamaru. Em seguida, a amiga dirigiu-se para seu próprio posto, segurando sua prancheta e gritando sob as multidões, cumprindo fielmente seu papel de Presidente. A garota permaneceu com o treinador, que a congratulou novamente pela vitória e pelo bom tempo. Os colegas de time chegaram pouco a pouco, acomodando-se no micro-ônibus resignado a eles. Embora não fosse propriamente um ônibus de atletas, Hinata sentiu que aquele era o melhor momento da vida dela – ela nunca havia feito uma viagem escolar junto de seus colegas, em meio à bolha de camaradagem. Estava tendo muitas novas experiências, e, apesar de sentir-se um pouco zonza, o sorriso que rasgava suas bochechas não iria se fechar tão cedo.
Não demorou a aprender os cantos de guerra, e arriscou algumas brincadeiras com os colegas. O dia já começara a cair no horizonte – a luz contra seus olhos diminuía pouco a pouco –, mas não se preocupou caso escurecesse demais. O trajeto pareceu curto demais, diferente de quando estava indo, mais cedo, naquele dia, com Menma.
Menma.
O garoto mal passara pela sua mente, mas Hinata ainda sentia sua garganta se fechar e o coração bater mais rápido de nervosismo. Embora ele estivesse muito longe, a simples lembrança de estar ao seu lado tirava-lhe o fôlego. Sentiu o rosto queimar de vergonha, e agradeceu pelos colegas estarem ocupados com suas gritarias. Hinata não gostava de se perder em pensamentos, mas o dia lhe rendera muita coisa para pensar. Além de Menma – que parecia ter estado com ela há anos, não horas –, ela ainda conhecera, oficialmente, o tão famoso Namizake Naruto. Admitia, ficou nervosa quando Sakura lhe apresentou. Era inevitável sentir a cabeça pesar quando se referia ao garoto. Apesar de tanto tempo, ainda era uma ferida aberta em seu peito. Hinata queria esquecer – queria perdoar – porque, somente dessa maneira, ela conseguiria superar, mas parecia impossível. Apesar dos pesares, conseguiu permanecer de pé, e, quem sabe, aquela não tenha sido uma brecha para uma aproximação amigável? Algo na garota lhe dizia que ele não era quem realmente aparentava ser.
Balançou a cabeça, dispensando as reflexões que se instalaram. Concentrou-se no momento, e, tão logo, sua mente voltou a ser preenchida com as vozes alegres e barulhentas. Sorriu, sem precisar de esforço, e embarcou em uma conversa sobre um assunto qualquer com Shikamaru e alguns outros colegas.
Não tardou para os ônibus retornarem à Academia, e, pouco a pouco, os alunos desembarcaram, seguindo para seus respectivos dormitórios. Em um todo, as classificações foram satisfatórias, e todos estavam se sentindo eufóricos. Os professores e monitores se dividiram para supervisionar a entrada de todos os alunos nos prédios, mas já corriam os boatos com o endereço da festa de comemoração. Era o que duas garotas comentavam quando Naruto passou por elas, costurando entre os alunos que caminhavam mais lentamente.
Suspirou aliviado quando avistou as escadarias. Havia um mar de atletas e torcedores, mas havia certa vantagem em ser alto. Esquivou-se com agilidade de Shion e o restante das líderes de torcida, que vinham, extasiadas, em grupo, pelo corredor contrário. Naruto se misturou com a multidão e caminhou em passos largos, sentindo-se o próprio espião enquanto deslizava pela parede. Parte de sua mente riu com a situação.
Subiu as escadas rumo aos dormitórios, agora mais tranquilo, e entrou em seu quarto rapidamente. O cheiro familiar de roupa suja era quase reconfortante. Abriu a janela e sentou-se em sua cama, sorrindo para si mesmo. O ambiente estava bem diferente de algumas semanas atrás, e era difícil de acreditar em como as coisas estavam mudando.
Lutando contra a enorme vontade de dormir da maneira que estava, o Namikaze tornou a se levantar, retirando suas roupas e indo tomar um merecido banho. A água quente sob seus ombros era relaxante, e, embora cansado, sentiu o corpo se renovar, e o sono se dissipou um pouco. Satisfeito, colocou uma roupa velha e voltou a se deitar, puxando do travesseiro o celular e checando as ligações. Algumas de Shion – que ele deliberadamente ignorou –, algumas mensagens de Sasuke e os outros meninos, mas nada importante. Sem pensar muito, abriu a lista de contatos e selecionou o número que sabia de cor. Mandou uma mensagem e recostou, sorrindo para o nada.
Hinata sentiu o bolso vibrar.
Em um salto, levou a mão até o celular, e percebeu que estava apenas informando as horas. Tornou a desligá-lo e puxou o bastão, abrindo-o e tateando pelo caminho de concreto. Shikamaru quis que ela esperasse a multidão se dissipar para que caminhasse até o quarto com segurança. Apesar de ter insistido, a garota garantiu ao capitão que conseguiu chegar sozinha. Despediu-se dele e da equipe, com novas congratulações, e começou a andar até o bloco dos dormitórios, contando a distância em passos.
Após a explosão de energia, Hinata finalmente começara a sentir os efeitos colaterais do nervosismo e da prova. Com as pernas cansadas, andou devagar até seu quarto, lutando contra a fadiga. Distraída, pensando em um bom banho quente, abriu a porta e não percebeu as três presenças a sua espera. Quando se deu conta, já estava gritando, mergulhada em um mar de abraços. Levou dois segundos para reconhecer as amigas, que riam e gritavam, pulando sobre ela.
— Gente, gente, calma! – Hinata tentou acalmá-la, meio rindo, meio dolorida – Vocês me dão muito medo. – brincou, desvencilhando-se dos apertos e caminhando até a cama, jogando-se nela. As amigas riram, sentando-se na beirada.
— Parabéns, Hina! – Ino quem gritou primeiro, batendo palmas – A gente tinha certeza que você ia ganhar.
— Isso aí. – Tenten concordou, por cima – Nós não vimos você competindo, mas a Sakura falou que foi de arrepiar. Você quebrou o recorde municipal! – Sakura, até então calada, riu baixo.
— Obrigada, galera. – a Hyuuga envergonhou-se novamente. Não estava acostumada a receber tanta atenção ou elogios. Estava gostando, confessava, mas ainda sentia-se estranha. Como se alguém como ela não pudesse ser capaz de feitios tão incríveis – Sinceramente, não sei como eu consegui. Estava tremendo igual vara verde, foi vergonhoso. – confessou, com um tom de falsa preocupação, fazendo com que as outras rissem.
— Você arrasou, amiga. – Sakura segurou-lhe pelos ombros, apertando – A melhor nadadora da equipe. Se continuar assim, vai conseguir uma bolsa fácil, fácil. – Hinata perdeu-se, por um instante, com o vislumbre da possibilidade, e sua garganta se fechou de felicidade.
— Ok, tudo bem. Agora, o que importa: nós temos que ir na festa! – Ino quem se pronunciou, ganhando o apoio fervoroso de Tenten. Hinata, por outro lado, mal esperou a frase acabar para protestar.
— Não contem comigo. – foi abordada por uma onda de reclamações – Eu estou exausta! E, convenhamos, acho que deu para perceber que eu não sou um tipo muito festivo. – rolou os olhos, e escutou Sakura esconder a risada com uma tosse. Já conseguia imaginar Ino com a cara amarrada.
— Isso, definitivamente, não tem nada a ver. – seu tom era emburrado – Fala para ela, Testuda! – Sakura resmungou do lado de Hinata, que riu do apelido.
— Ino, minha querida, eu bem que gostaria, mas preciso fazer uma coisa agora. Divirtam-se na festa. Hina, não deixe essas duas loucas te influenciarem. – a garota se levantou, balançando a cama, e Hinata fez uma careta confusão.
— Que? Como assim? Sakura, volta aqui! – a porta se bateu antes que Ino conseguisse terminar, e as garotas, dentro do quarto, continuaram a reclamar. Hinata distraiu-se por hora, mas iria lembrar de perguntar à amiga o que tinha acontecido.
Parecia que Naruto havia deitado apenas por alguns minutos quanto ouviu as batidas na porta. Um tanto zonzo, levantou-se e cambaleou até ela, abrindo de súbito. Assustou, esfregando os olhos e despertando definitivamente. Abriu espaço, sorrindo, um tanto quanto embaraçado.
— Você recebeu minha mensagem! – não pode conter o tom surpreso em sua voz.
— Recebi sim. Afinal de contas, já era hora da gente conversar. De verdade. – ambos se acomodaram dentro do quarto razoavelmente pequeno. Sentaram-se na cama, um de frente para o outro. A atmosfera continha uma bolha de paz, de camadas finas e frágeis. Poderia estourar a qualquer instante.
— Fico feliz que tenha vindo, Sakura, – Naruto falou sinceramente, encarando o rosto da amiga. A garota tinha um emblema calmo, mas somente o Namikaze sabia que a calmaria precede a tempestade.
— Muita coisa aconteceu, Naruto. E acho que você me deve uma explicação. – o garoto suspirou, levando a mão até a nuca. Seria difícil, ele sabia. Em sua mente, soava como um babaca medíocre, mas ficaria muito pior quando falasse em voz alta.
— Aquele foi um péssimo dia, não foi? – murmurou, mais para si mesmo, mas Sakura suspirou, concordando. Apoiou a cabeça nas mãos, enquanto cruzava as pernas sobre a cama.
— Você está sendo gentil com a situação. – apesar de tudo, o tom de voz da rosada não era hostil. Estava mais para cansado. Naruto esperou que ela continuasse – Quando a Tenten me chamou e eu cheguei no quarto… ela estava destruída. Acabada. Ela chorou muito. Daqueles choros que doem na gente, sabe? Que você percebe que é dolorido. – Naruto não queria olhá-la nos olhos, mas seu próprio coração se apertou naquele momento. Fazia tempo, mas ele ainda sabia como era o sentimento. Ele ainda sentia o choro preso na garganta, implorando para sair – Mas acho que era melhor quando ela chorava. Depois, ela simplesmente parou de existir. Ela parou de demonstrar, eu acho. – Sakura parou um pouco, pensativa – Ela era como um robô. Eu nunca vi ninguém naquele estado, e, sinceramente, espero nunca ver. – suspirou novamente, melancólica. Naruto engoliu em seco, brincando com a barra da camiseta para disfarçar os dedos trêmulos – O que aconteceu, Naruto? Eu conheço você. As outras pessoas podem não conhecer, mas eu conheço. – o Namikaze sentia os olhos esverdeados lendo sua alma – Você tem essa pose e essas máscaras, mas você não é assim. Você é bom, e é gentil. O que aconteceu?
O loiro não respondeu de imediato. Talvez fosse porquê ele também não conhecia a resposta. Aquela pergunta martelava em sua mente dia após dia. Entretanto, ele não seria hipócrita o suficiente para culpar apenas aos outros. Sabia que, dentro de si, preceitos e pré-conceitos lutavam, contraditórios. Ensinado a uma coisa, vivenciando outra.
— Eu poderia dizer que é o que as pessoas pensam de mim. – sua voz era baixa, e ele não ergueu os olhos – Mas não é somente isso. É desde sempre. É como eu fui criado. É como eu aprendi as coisas do mundo. Você conhece meu pai. – Sakura bufou, assentindo – Eu também não posso culpar só a ele. Parte de mim também é culpada. Parte de mim também pensa dessa maneira, também tem dificuldades, também tem medo, e tem vergonha. – despejou as palavras como em uma enxurrada, sem respirar – A minha mente é uma batalha constante. Existe um Naruto que tem, sim, vergonha de pessoas que não são como ele. Existe um Naruto babaca, que gosta de se sentir poderoso e gosta de ser invejado. Mas existe outro Naruto, o Naruto que eu gosto – frisou –, o Naruto que eu quero ser de verdade. Quando eu estou com ela, esse Naruto sou eu, inteiramente. Mas, quando eu estou com eles… – parou, balançando a cabeça – Eu sou influenciado. Eu preciso manter minha imagem, eu preciso ser quem eu sou. – pela primeira vez levantou a cabeça, e Sakura se assustou com a intensidade de seus olhos, com um brilho molhado. Ela se sentiu despedaçada, porque, no fundo, ela sabia daquilo – Aquele dia, eu estava dividido. Eu tinha que escolher entre ela e entre todos os outros. E, eu juro por tudo que é mais sagrado, eu quis escolher ela. Eu realmente quis! – em um ímpeto, suas mãos foram de encontro às da amiga, que as apertou por reflexo, chocada demais para reagir – Sakura, você mais que ninguém me conhece. Mas, com a pressão, eu fui covarde. Eu fui medíocre, eu me deixei levar. Eu deixei que eles me definissem, e, sinceramente, foi uma merda. – soltou uma risada fraca – Foi isso. A história de um garoto influenciável que não pode ser quem ele quer ser, tudo porque as pessoas são idiotas.
A risada seca de Naruto desapareceu poucos segundos depois, deixando um rastro no ar pesado que se instalara. As palavras estavam sendo absorvidas por Sakura, que sentia a cabeça trabalhando rápido. Durante todos os anos da relação deles, ela havia sido a pessoa que desabafava – Naruto cumprira fielmente o papel de ombro amigo e conselheiro, aguentando pacientemente cada uma das crises que Sakura tivera, a maioria delas inexplicavelmente sem motivos –. Naquele momento, a situação se invertera, e ela não estava acostumada com o garoto abrindo seus sentimentos tão abertamente.
Namikaze Naruto era diferente do que as pessoas conheciam. De fato, era possível contar quantas pessoas sabiam que o hobby secreto do garoto era colecionar conchas de praia – trazidas e adquiridas das mais diversas praias ao redor do mundo, guardadas cuidadosa e seguramente em um pote de vidro especial para não ressecarem e quebrarem. Talvez nem mesmo a família dele soubesse que Naruto era um ótimo pintor nas horas vagas, um talento que ele não mostrava para ninguém. Naruto gostava de dormir e acordar em horas pares. Ele nunca bebia água no mesmo copo duas vezes seguida, e ele gostava de piadas com animais. Naruto sabia recitar todas as 47 províncias do Japão, porque ele gostava de geografia.
Sakura sabia dessas coisas. Ela sabia dessas e de outras infinitas mais, porque ela e Naruto eram amigos desde sempre. Ela sabia que ele tinha um coração enorme, e sabia também de todos os problemas que ele enfrentara em casa. Sakura sabia sobre o temível Minato. Ela havia visto, ela havia presenciado a mudança. Os ensinamentos, as lições, as exposições na mídia. As broncas, os castigos, as cobranças.
A Haruno talvez não fosse capaz de defender Naruto do que ele havia feito – mas ela não podia, e nem iria, culpá-lo por aquilo. Ela entendia isso agora.
Um tanto desajeitadamente, Sakura se inclinou na cama e passou os braços pelo pescoço do garoto, puxando-o contra si. Naruto, pego de surpresa, perdeu o equilíbrio, tendo que apoiar um dos braços na parede, enquanto passava o outro pelas costas da amiga, por reflexo. O garoto não estava entendendo o que acontecia ali, mas ele, certamente, não iria reclamar. Afundou o rosto contra o pescoço da rosada, aproveitando do pequeno sentimento de paz que se instalara.
Permaneceram naquela posição por alguns minutos, até que as câimbras começaram a reclamar, e eles voltaram. Sakura tinha o rosto vermelho de forma suspeita, mas ela jamais admitiria, e Naruto jamais iria comentar. O loiro tinha o semblante envergonhado, mas estava aliviado de ter conseguido esclarecer tudo para a amiga. Naquele momento, ele estava mais próximo de uma solução do que estivera no último mês.
— Ok. Você foi um babaca. Pior. Eu não tenho uma palavra para descrever a sua atitude com a Hinata naquele dia. – Naruto rolou os olhos, porque Sakura era realmente gentil com as palavras – Mas eu vi como vocês ficaram. Os dois. Eu não posso dizer que entendo essa relação estranha entre ela, você e seu alterego – a garota fez uma careta confusa e Naruto riu – mas você faz bem para ela. E ela está fazendo bem para você também. – Naruto abriu a boca para negar, mas Sakura lhe deu um olhar mortal – Não ouse dizer que não. Eu vejo sua cara de idiota e como você acompanha ela com os olhos como se fosse o guarda-costas dela. – o Namikaze fez um bico, porque, novamente, Sakura estava 100% certa.
— Não era meu objetivo começar essa confusão, mas eu não soube o que dizer. Ela não conhecia os boatos, ele não podia me ver! E então ela começou a gostar de mim pelo que eu era, e eu não tive coragem de desmentir. – agora mais aliviado, Naruto desabafava mais facilmente, em busca de algum conselho – Eu não sei o que fazer, Sakura. Eu não quero afastá-la, mas não vejo como eu posso aproximá-la sendo o Naruto, e não posso manter essa história de Menma para sempre. E tem a Shion, e os caras do time, e a escola inteira. Argh! – afundou o rosto em um travesseiro e Sakura afagou o alto de sua cabeça, compadecida.
— Eu não sei o que você vai fazer agora, Naruto, mas eu posso te assegurar uma coisa: vou te ajudar. – o garoto levantou rapidamente, a encarando com os olhos brilhando. Sakura rolou as orbes esverdeadas, sorrindo – Não pareça tão surpreso. Você precisa de alguém que te impeça de ser um completo imbecil.
— Você é a melhor, Sakura! – o garoto disparou, sorrindo largamente, e ela deu de ombros, rindo.
— Não posso discordar. Mas, falando sério, Naruto. Vamos trabalhar juntos nisso. Infelizmente, vocês formam um belo casal. Nosso primeiro passo vai ser eliminar aquela vaca loira peçonhenta da sua vida de uma vez por todas. – fechou os punhos, obstinada.
— Acredite, eu sou absolutamente a favor disso. – Naruto bufou.
Os amigos continuaram conversando noite adentro, recuperando o tempo perdido. Naquela noite, depois de tudo, Naruto foi dormir com um sorriso genuíno no rosto. Há muito ele não tinha esperança – e, agora, as coisas pareciam tão reais que ele conseguia senti-las. Parte de si tentava desesperadamente negar, mas outra parte, uma maior e mais forte, sonhava com os olhos pérola, e elaborava um plano que seria posto em prática logo.
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