Quimera

16 Carrasco


Notas iniciais
Olá! Deu uma sumidinha, né? Algumas pessoas vieram me perguntar se eu tinha abandonado as fanfics, mas, aqui estou! Já postei em AMONG US, e fiquei inspirada, então resolvi postar também! Eu amo minhas histórias, eu amo escrever, então eu não pretendo abandonar elas não! São meus bebês, eu me sinto TÃO realizada escrevendo! Vão ter que me aguentar mais ainda! Agora, vamos ao capítulo. Nunca é demais dedicar, mas é sempre para a Bruna, que me apoia e me deixa lá no alto com tantos elogios. Uma amiga antiga, uma inspiração mais antiga ainda ♥ O título do capítulo é implícito, mas acho que todo mundo vai conseguir perceber! Espero que gostem, estou à disposição para qualquer coisa, podem mandar mensagem, amo interagir! Até o próximo!

— Os olhos são inúteis quando a mente é cega.

Naruto dormiu excepcionalmente bem naquela noite, e, por isso, talvez devesse ter acordado cedo e bem-disposto – no entanto, justamente por ter conseguido uma boa noite de sono foi que o garoto se atrasou para o primeiro período.

Sasuke quase não acreditou quando saiu do banheiro, já devidamente vestido, e encontrou o amigo dormindo desajeitadamente para fora da cama, com a boca entreaberta e um dos braços rentes ao chão, enquanto abraçava um segundo travesseiro. Há dias que o Uchiha não encontrava Naruto na cama quando acordava, sinal de mais uma noite de insônia – e mais um dia de mau humor –. Não conseguiu segurar o riso quando chacoalhou o loiro pelos ombros, dizendo que ele já estava atrasado. Naruto levantou-se em um salto, assustado, e correu para o banheiro. Sasuke decidiu esperá-lo, com um sorriso satisfeito e a sensação de que as coisas, enfim, estavam voltando para seu devido lugar.

Depois da vitória nas municipais, a escola definitivamente dera uma guinada positiva. Os alunos estavam mais motivados, e, embora os professores também estivessem, raras eram as tardes em que as bibliotecas e as áreas de estudo não se enchiam de estudantes com livros e cadernos de anotações abertos. Mesmo que as disputas regionais só fossem acontecer dali alguns meses, Naruto preparava treinos pesados e exigentes, forçando seus lutadores ao máximo, até que ele próprio estivesse resfolegando e exausto – e isso era uma coisa muito difícil de acontecer. As queixas constantes eram ignoradas e suprimidas pela sede da medalha por mais um ano consecutivo, e a época das avaliações não deixava muito tempo sobrando para se lamentarem.

O Namikaze se arrumou com agilidade e em poucos minutos estava correndo para alcançar Sasuke, enquanto tentava, sem sucesso, desamarrotar a camiseta e pendurar a mochila vazia em um dos ombros. Sentia-se sua vitalidade voltar com força total, e sentia-se como no começo do ano – bom, nada estava igual, mas a mesma ansiedade inexplicável. Os garotos chegaram no refeitório quase vazio, e encontraram Gaara e Kiba ainda comendo, enquanto Shikamaru cochilava no ombro de Temari, sua namorada, que olhava entediada para os outros meninos.

— Bom dia. – Sasuke cumprimentou, enquanto se sentava ao lado de Gaara. Naruto sentou em sua frente, roubando a bandeja do amigo e mordiscando uma fatia de pão que estava pela metade, ignorando os protestos do outro. Agradeceu pelas líderes de torcida e a maior parte do time já ter se dissipado. Seu bom humor não sobreviveria a um encontro com a sua adorável namorada.

— Temari, por que você não tem amigas? – Naruto perguntou de boca cheia, enquanto ria disfarçado, recebendo um dedo médio como resposta.

— Idiota. – a garota retrucou, rolando os olhos – Estou aqui para me certificar que o Shika não se atrase. Acredite, é um desprazer para mim também. – Naruto lhe mandou um beijo e continuou comendo, participando as brincadeiras de Gaara contra Kiba. Sasuke apenas observava, satisfeito, enquanto conferia os livros na mochila.

O primeiro período começaria em poucos minutos, mas Naruto não estava realmente preocupado. Sabia que dormiria durante toda a aula, e, mais tarde, convenceria Sasuke a emprestar seu caderno para que ele copiasse o conteúdo. O loiro gostava de pensar que não era preguiçoso – tinha apenas outro tipo de inteligência que era estimulada apenas sob pressão (de passar nas provas sem ter estudado nada).

A mesa fazia barulho, uma das poucos que sobrara no refeitório, quando algumas risadas do lado oeste. Pararam, observando, e Naruto olhou atento, com um quê de curiosidade. A primeira pessoa que ele viu foi Sakura, rindo de alguma coisa, com o cabelo preso no alto e várias pastas sobre as mãos. Atrás dela, Ino junto com uma garota morena que Naruto nunca lembrava o nome. E, atrás de todas, vinha ela – ele soltou um suspiro disfarçado, porque ela estava particularmente linda, com a camiseta de botões ligeiramente aberta e o rosto corado. Apesar da saia grande demais e dos sapatos básicos, Hinata tinha sempre uma aura indecifrável, e parecia brilhar.

Naruto engoliu em seco, forçando-se a desviar o olhar antes que alguém percebesse que estava encarando. As garotas acenaram de longe, indo até o balcão e pegando algumas frutas embaladas, logo dando as costas e saindo. Sasuke mal levantou os olhos, mas Gaara e Kiba, junto de outros dois amigos que estavam por ali, começaram a cochichar um tanto alto demais, com risos.

— Não sei, essa garota parece estranha demais para mim. Quer dizer, ela usa sempre roupas sem-graça e não fala nada. E quase sempre atrapalha o caminho no corredor. – Kiba comentou, ácido, e Naruto fechou as mãos em punhos, trincando os dentes.

— Ela é cega, seu animal. – Sasuke rosnou. O garoto, geralmente, não partia em defesa dos alvos dos amigos, mas tinha o pavio curto quando achava que algo não estava certo. Na maioria das vezes, era Sasuke quem conseguia deter Naruto quando ele começava.

— Eu sei disso. – o moreno deu de ombros, sem se deixar abalar – Só estou comentando. Essa garota não deveria ser visto por aí, vai manchar a reputação da Academia. – trocou um cumprimento de punhos com Gaara – Não é verdade, Naruto?

O loiro levantou a cabeça assustado, absorto. Os amigos o encaravam com expectativa, exceto por Sasuke, que mantinha os olhos baixo, e Temari, que grunhia sozinha, inconformada com aqueles garotos. Naruto engoliu em seco e abriu um sorriso amarelo.

— É sim. – riu sem graça, forçando uma risada na garganta – Estranha. – os amigos fizeram barulho, se concentrando em uma coisa qualquer, enquanto o garoto respirava fundo, deixando a cara se fechar novamente, com um bolo na faringe. Afastou a bandeja, perdendo subitamente a fome.

O garoto baixou a cabeça, os olhos nublados e a cabeça um pouco pesada. De fato, ninguém na mesa percebera sua súbita mudança de humor, e, se perceberam, nada comentaram. Sasuke, de soslaio, encarou o amigo com interesse e curiosidade, mas permaneceu verificando seus livros de estudo. Naruto conseguia apenas enxergar a garota com as pernas cruzadas e o rosto para o chão. Ela estava mais bonita que ele se lembrava, com o cabelo preso por duas faixas de cetim vermelhas, que destacavam suas maçãs coradas. O loiro suspirou disfarçadamente, lutando contra a vontade de ir até ela e afundá-la em um abraço. Hinata era como uma boneca, uma boneca de porcelana delicada e incólume.

Entretanto, risos altos demais fizeram com que Naruto se libertasse de seu transe. O garoto encarou os amigos, que apontavam descaradamente para Hinata. A outra garota morena que estava ao seu lado fuzilava-os, incomodada, e Sasuke rolava os olhos, ignorando-os. Quando as garotas pegaram seus pacotes e viraram-se para sair, os garotos soltaram algumas piadas infames, em alto e bom tom. O Namikaze assistiu a garota virar a cabeça, com as mãos inquietas, e Tenten passou o braço por seus ombros.

— Imbecis. – a garota sibilou quando passaram por sua mesa, protegendo a garota. Naruto também levou um olhar irritado das garotas, embora Sakura pedisse desculpas silenciosas. O loiro grunhiu, querendo, subitamente, bater em alguém.

— Você são babacas. – resmungou quando elas saíram da visão, e os amigos gargalhavam como hienas.

— Qual é, Naruto. – Gaara disse entre risos, enquanto mastigava alguma coisa.

O loiro não disse mais nada, com medo. Apenas se levantou e puxou a bolsa vazia, enquanto Sasuke o acompanhava, silencioso. Temari, então quieta, observou o garoto, com a mente trabalhando a todo vapor. Apesar de querer acompanhá-lo, permaneceu na mesa, aguentando as piadas sem graça, até que seu namorado acordou e ordenou que todos fossem para a aula.

— Hina, não liga para eles. – Ino disse pela terceira vez, afagando o ombro da amiga. Hinata, apesar de se recusar a derramar uma lágrima que fosse por aqueles garotos, havia ficado amuada, mesmo que acostumada com as pessoas rindo dela. Nos últimos dias, estava estranhamento sentimental, e ignorar estava ficando difícil. Por sorte, tinhas amigas maravilhosas consigo. Esboçou um sorriso mínimo, procurando pelas mãos da loira.

— Está tudo bem, Ino. Fica tranquila. Eu nem ouvi o que eles estavam falando. – mentiu – São pessoas pequenas. Agora, vamos, estamos atrasadas. – saiu na frente, mesmo não sabendo para onde estava indo. Sakura segurou seu braço, a guiando, e a Hyuuga agradeceu com a cabeça.

— Só você para estar animada com aula segunda de manhã. – Tenten suspirou, arrastando-se ao lado delas – Eu nem pude tomar meu café.

— Ninguém mandou acordar tarde. – Sakura alfinetou, rindo – E nós fomos buscar um bolinho para você também, então parem de reclamar. Precisamos do professor Kakashi para apoiar a campanha do grêmio esse semestre. Quero ser reeleita ano que vem. – seus olhos brilharam, obstinados.

— Achei que o grêmio era bancado por patrocinadores. – Ino levantou uma elegante sobrancelha, confusa.

— Sim, mas o Kakashi é o principal colaborador do Conselho, se ele me indicar, não tem porquê os patrocinadores reclamarem. – havia algo em sua voz que encerrou o assunto. Hinata resolveu não insistir, embora estivesse curiosa. Sentiu a aura de Sakura mudar, e uma atmosfera pesada pairou sobre elas.

Chegaram na sala e Ino e Tenten se despediram, pois eram de turmas separadas. Sakura abriu a porta, com Hinata em seu enlaço, e Kakashi estava sentado em sua mesa, com a caderneta aberta. A sala, como sempre, estava uma algazarra. A rosada levou Hinata até sua mesa, na frente, e sentou-se atrás dela. Em outros tempos, teriam se sentado no fundo, com as líderes e o time. Mas as coisas estavam diferentes naquele momento. Tudo estava diferente.

— Olha, que garota metida! – Shion sibilou para as amigas. Estava sentada na última carteira da fila, e Naruto, por mais que tivesse tentando fugir, tivera que sentar ao seu lado. Ao mesmo Sasuke havia permanecido com ele, solidário, e dividira seu livro – A Sakura sempre me pareceu falsa demais. – comentou – Já se bandeou para o lado daquelazinha. — resmungou. Naruto respirou fundo para não começar uma briga no meio da sala de aula – Naruto-kun, você não concorda? – se dirigiu ao namorado, colocando as mãos em seu ombro. O garoto se desvencilhou, ainda com a cabeça baixa sobre a bolsa.

— Me deixa, Shion. – murmurou contra a mochila, e a loira bufou, desistindo de ter sua atenção. Internamente, o garoto agradeceu.

Naruto permaneceu encarando a carteira à sua frente, alguns degraus abaixo. Suspirou, sentindo-se estúpido. As coisas eram ridiculamente fáceis. Bastava ele descer e sentar-se ao lado dela. Eles conversariam sobre inúmeros assuntos, e ririam, porque era fácil rir com ela. Mas, então, ouvia as vozes às suas costas, e lembrava-se de seus amigos – “amigos” – e as líderes, e, ugh, Shion, e sua cabeça pesava, porque ele sabia que era covarde, e sabia que as coisas não eram tão fáceis assim.

Kakashi começou a aula com um discurso motivacional e fórmulas novas, que, sinceramente, Naruto não tinha a menor intenção de aprender. Passou a maior parte do tempo analisando a morena, que folheava o livro em branco incessantemente, correndo os dedos habilmente. Era impressionante a maneira que ela parecia tão inteligente. As folhas eram grossas e o livro parecia pesado, mas ela continuava a ler e identificar os símbolos invisíveis. As vezes, pedia ajuda a Sakura, que indicava uma determinada página ou falava sobre determinado assunto. Naruto percebeu, então, que, as vezes, existiam apenas desculpas para não conseguir.

Ele estava se tornando um belo de um crítico.

As horas da manhã custaram passar, e, então, finalmente o professor liberou a turma. Haviam números estranhos na lousa e, provavelmente, uma prova a caminho, mas Naruto tampouco se importou com isso. Apressado, recolheu sua mochila e deixou os amigos para trás, tropeçando nos próprios pés. Seguiu Sakura, que levava Hinata, à frente, até a próxima sala. Estava quase a ponto de alcançá-las. Queria falar com Sakura, e ter uma desculpa para falar com Hinata também. Só a perspectiva deixava sua barriga em pânico, e suas mãos estavam frias. Por sorte, a Haruno parou próxima a escadaria, verificando algo em sua mochila.

— Sakura! – gritou por cima do barulho. Hinata fora a primeira a se virar, atenta para a voz. Naruto encarava diretamente suas orbes prateadas, mesmo que ela não pudesse sentir a intensidade de sua conexão – Oi. – disse quando se aproximou, o peito arfando – Oi, Sakura. Queria te perguntar uma coisa sobre a aula. – inventou. Sakura se virou, sorridente.

— Oh, olá, Naruto! Só um minuto. – Hinata estava tensa, mas não parecia querer afastá-lo. Lhe dirigiu um sorriso curto, educado, que fez o coração do Uzumaki disparar.

— Oi, Hinata… – sua voz se perdeu de nervosismo, mas não teve tempo de dizer mais nada.

Namikaze Naruto, favor comparecer à diretoria. Namikaze Naruto, favor comparecer à diretoria.

O loiro bufou, irritado, apertando a bolsa e baixando os olhos quando os demais alunos começaram a encará-lo. Hinata também ficou confusa, e Sakura segurava o riso.

— Bem, acho que preciso ir. Até mais. – resmungou, andando pelo corredor na direção oposto a que viera, tentando ignorar os olhares. Por que caralhos aquela escola tinha tantos alto-falantes?

Caminhou, sentindo seu humor esvair e dar lugar a uma carranca. Quando chegasse até a sala de Tsunade, com certeza a xingaria de alguns nomes. A avó mal falava com ele, mas fazia questão de chamar atenção. Velha maldita. Chegou até a sala e abriu a porta, caminhando pelo corredor, agora silencioso, com suas paredes isoladoras de som. Passou por Shizumi, a cumprimentando, e abriu a outra porta, ornamentada com uma placa brilhante.

Quando ergueu os olhos, se arrependeu de ter ido até ali.

Imediatamente, seus órgãos congelaram. Suas costas retesaram, e sua mão se fechou com mais força em torno da alça. Sua respiração, ofegante, tornou-se quase inexistente, uma vez que qualquer som era perigoso. Caminhou lentamente, fechando a porta atrás de si. Cumprimentou Tsunade com um olhar amedrontado, e a loira parecia séria, com seus óculos de leitura na ponta do nariz. Suas íris claras pediam desculpas, e ela também estava com a postura alerta.

— Sente-se.

Naruto obedeceu sem questionar. Seu gênio se tornava subitamente submisso diante daquela atmosfera pesada. As memórias voltavam, e sua mente preenchia e confundia passado e presente. Em ambos, o sentimento reprimido de rancor era o mesmo. Embora tivesse a pela bronzeada, sabia que seu rosto exibia uma péssima cor branca.

— Olá, otou-san.

O Namikaze mais velho era, acima de tudo, intimidador. Seus traços eram assustadoramente parecidos com os do filho, e apenas as rugas de expressão marcadas pela passagem do tempo permitiam que ele se distinguisse como o patriarca de uma poderosa família. Altivo e presente, sua aura era muito bem moldada em suas mãos habilidosas. O cabelo loiro e os olhos azuis intensos eram interpretados de diversas maneiras – uma beleza moderada e agraciada pelo tempo pelas revistas internacionais. Um homem confiável e bondoso, pelo povo. Um aliado importante. Um inimigo perigoso. De fato, Namikaze Minato jamais teria conseguido sua fama e seu império se não soubesse muito bem trabalhar com máscaras. Ele era o rei das marionetes, e Naruto lhe dava esse crédito.

Não saberia dizer que conhecia Namikaze Minato de verdade. Talvez sua mãe – a única mulher com quem Minato se permitia ser verdadeiramente gentil e carinhoso –. Fora isso, até mesmo os familiares estavam expostos às oscilações de personalidade que o homem sofria. Naruto sabia que aquela não era a melhor forma de descrever seu pai, mas, desde muito novo, não sabia definir de outra maneira. Crescera sob seus olhos duros e sua rigidez, e nunca sabia qual reação esperar. Naruto aprendera, sobretudo, que Minato era instável, e era preciso agir com cautela.

Como político influente e bem-sucedido, Minato passava uma imagem natural de confiabilidade e amabilidade. As pessoas simplesmente o amavam. Nos comícios e nas entrevistas, Minato exercia sua simpatia excepcional. Educado e polido, conquistava quem quer que fosse. Era disposto e verdadeiro, e, em anos de carreira, jamais sofrera com algum escândalo. Ainda jovem, casou-se sobre os holofotes com uma bela garota, simples, de família humilde, trabalhadora. Transformou-a em uma verdadeira rainha, e, mesmo após montar sua fortuna, o casal ainda era visto em eventos de caridade e inaugurações de novos orfanatos. O nascimento do segundo herdeiro Namikaze foi acompanhado dia após dia, e o pequeno bebê rechonchudo e corado era foco de cores e amores. Desde muito no princípio, Minato soubera aproveitar-se dos flashs e da popularidade. Para ser quem era, Minato tinha que saber manusear as oportunidades.

Naruto não sabia, entretanto, diferenciar Namikaze Minato de qualquer outra persona que ele criara para a mídia. O herdeiro conhecia apenas o político, investidor, filantropo, milionário, visionário, público. Não conviveram o suficiente para que o loiro pudesse conhecer além dos muros que cercavam suas falhas, sua humanidade. Naruto via tanto quanto os tabloides. E, então, ele aprendera a temê-lo. Respeitá-lo através do medo. Afinal, Minato ensinara tudo que ele sabia. Tudo.

— Olá, Naruto. – cumprimentou com um aceno, mexendo em sua gravata lisa de cetim vermelho, contrastando com suas botoadoras douradas – Não nos vemos há algum tempo. Está aproveitando seu carro novo? – antes que Naruto pudesse responder, continuou – Bom, não importa. Não vim aqui para meras ocasionalidades. Sua mãe mandou lembranças. – É claro que mandou.

Naruto amava sua mãe. Verdadeiramente. Inteiramente. Sua mãe era a mulher que ele mais admirava em toda sua vida, seu espelho moral e ético, sua inspiração. Sendo o caçula, sempre fora muito próximo da mãe, e conviveram por muitos anos, eram suas únicas companhias nos dias solitários na mansão Namikaze. Uma das histórias que Naruto mais gostava de ouvir era sua história de vida. Kushina nasceu em uma família de vários irmãos, e desde cedo trabalhou para conseguir as coisas que queria. Ajudava os pais no pequeno comércio que tinham, na vila em que morava, e se destacou. Um empresário local a levou consigo e a matriculou na escola da província vizinha, porque onde morava não havia o maternal. Kushina aprendeu a ler e a escrever, e aprendia os ofícios do empresário. Quando adolescente, conseguiu ajudar os pais a aumentarem o negócio, e mudou-se para a metrópole, para tentar cursar o nível superior. Tornou-se professora, e era adorada por todos. Era voluntária em diversas ONGs, e foi em um evento beneficente que se apaixonou por Namikaze Minato. Engataram em um namoro, e, quando descobriu que Minato era um político famoso, vindo de uma família influente, não se sentia ameaçada. Aceitou seu pedido de casamento, após apenas quatro meses desde que se conheceram. Tornou-se a primeira-dama Namikaze, encantando a todos com seu coração de ouro e sua bondade. Além de ser linda. Naruto achava que sua mãe era a mulher mais linda do mundo. No entanto, diferente de Minato, a Kushina nobre e benévola que a mídia conhecia era, simplesmente, ela.

Mas, claro, ser a esposa de Namikaze Minato vinha com seus sacrifícios. Depois de certa idade, Naruto e Kushina mal se falavam, enquanto Naruto permanecia nos colégios internos, e a mãe viajava pelo mundo, aparecendo ao lado do político. Naruto desconfiava que o pai não deixava que Kushina o mimasse muito, mas não gostava de pensar nessa possibilidade. Kushina também pouco falava com a família humilde do interior, que permanecia com seu negócio próspero, e uma vida confortável, porém luxuosa. Naruto amava seus avós, mas também não mantinha muito contato.

— Obrigado. Diga que eu mandei um oi. – respondeu, polidamente.

— Certo. – Minato chacoalhou a mão no ar, encerrando as formalidades – Como você sabe, eu sou um homem muito ocupado, mas quis me certificar pessoalmente de como está indo sua educação e o andamento desta escola. – cruzou as pernas, com seus sapatos chiques engraxados.

— Por que, claramente, ele não confia na própria mãe. – Tsunade alfinetou, com a voz sarcástica. Tsunade, provavelmente, deveria ser a única pessoa que não temia Minato, porque, bem, ela pariu ele. A própria mãe do anticristo.

— Sem drama, okaa-san. – Minato bufou, e Naruto se surpreendeu dele ainda usar os velhos tratamentos – Bem, como eu dizia, quis vir lhe visitar. – Naruto evitou erguer uma sobrancelha sarcástica – E devo dizer que fiquei absolutamente chocado com a situação. – Naruto assumiu uma máscara confusa, assim como a diretora, que não havia sido adiantada do motivo da visita surpresa – Que história é essa de ter uma garota cega estudando aqui?

Bem, ali estava. Naruto não estava surpreso. Nem ao menos chocado. Ele sabia que, hora ou outra, aquilo aconteceria. Era inevitável, uma força da natureza que chegava, imparável como uma catástrofe. Porque ele era Namikaze Minato, e ele sabia de tudo. Porque ele era Namikaze Minato, e era perfeito, como um maldito deus grego. E, tal qual ele, tudo a sua volta deveria ser como ele. Imaculado. O loiro mais novo apertou o punho, subitamente irritado novamente. Sua mente, de repente, clareou, com a imagem nítida de Hinata, sorrindo, com as maçãs coradas. Não havia nada de errado com ela. Minato não iria até ali pessoalmente para conversar sobre uma aluna qualquer – a não ser que ele achasse que ela tinha algum problema. Naruto estava irado.

O garoto desviou o olhar para uma Tsunade não diferente dele. A loira era amedrontadora quando irritava. Uma veia se erguia no canto superior de sua testa, e seus olhos afundavam nas órbitas, escurecendo. Tsunade tinha hábitos muito ruins, e, na maioria das vezes, estava em estados discutíveis de sobriedade, mas ela nunca era agressiva. Nunca. Sarcástica, talvez. Irônica, direta. Mas nunca agressiva.

— Que merda você está falando? – sua voz era um silvo, e Naruto se surpreendeu. Minato, por outro lado, permaneceu impassivo.

— Não achei que fosse verdade até ver com meus próprios olhos. E ainda fiquei sabendo que ela ganhou uma bolsa integral. Estamos pagando para essa garota estudar aqui. Isso é um absurdo! – inclinou-se para frente, o rosto com uma careta – Sinceramente, quando te coloquei como diretora, achei que soubesse o que está fazendo.

— Quando você me colocou? – Naruto estava preparado para sair da linha de ataque direto quando sua avó pulasse no pescoço de seu pai – Minato, você está grande demais para eu lhe dar uma boa surra, mas não vou medir esforços se precisar! – bateu as mãos com força quando se pôs de pé, assustando o loiro, que permaneceu quieto – Hyuuga Hinata é uma aluna excepcional, com um histórico impecável, uma aluna de destaque, assim como todos os alunos que aceitamos na Academia.

— Sim, mas ela é cega. — Minato proferiu quase como uma doença contagiosa, nítido em sua voz o choque – Uma hora ou outra ela falhará, porque é o destino dela. E, quando isso acontecer, será o nome desta escola que irá para o lixo. O nome da escola em que o herdeiro dos Namikaze estuda, a escola que minha mãe dirige.

— Então você está afirmando que ela ser cega acarreta diretamente que ela irá falhar como aluna, é isso?! – Tsunade quase gritou, inconformada – Isso é um absurdo tão grande que parece piada! Minato, eu não te criei para ser um preconceituoso de merda. – praguejou – Hinata está acima da média, é estrela de um grupo extracurricular e conseguiu eleger nossa escola para as competições regionais em apenas uma disputa! Ela consegue acompanhar todas as turmas avançadas, e é inteligente. Eu realmente não acredito que você está julgando o fato dela ter uma deficiência, como se isso determinasse todo e qualquer caminho que ela escolher!

— Eu não sou preconceituoso! – Minato se defendeu, parecendo ofendido com a acusação – Eu tenho diversos empregados com deficiências. Mas, você tem que entender que ela é cega. Isso é um fato imutável. Ela é assim, e sempre será. Eventualmente, surgirão dificuldades, e, quando ela não poder enfrentá-las, irá nos envergonhar. Envergonhar a todos.

— Ela não é assim, otou-san. – Naruto murmurou, fazendo com que os dois adultos olhassem para ele, Tsunade com o olhar surpresa, e Minato com a sobrancelha franzida.

— O que disse, Naruto? – o loiro permaneceu calado desta vez, a cabeça baixa – Você ousa me desafiar?

— Não, otou-san. – murmurou, sem olhá-lo nos olhos.

— Acho bom mesmo. – voltou-se para a loira atrás da mesa – Então estamos conversados. Só estou aqui para alertá-la do inevitável. Não quero essa garota manchando o nome da escola que prezo tanto. – começou a levantar-se, com sua maleta de couro caro – Nos vemos em breve, okaa-san. Naruto, me acompanha. – parecia como uma pergunta, mas seu tom deixava claro que Naruto não tinha escolha. O garoto se levantou atrás do pai, e virou-se para Tsunade, com a expressão impassiva. Estava claro que eles conversariam depois, mesmo que estivessem de mãos atadas.

Os Namikaze saíram da sala para o corredor silencioso. Naruto não se pronunciou, com a mochila sobre os ombros e os olhos no chão. Sua mente era um amontoado de massa cinzenta inerte. Sentia raiva, confusão, mágoa. Sentia falta de sua família, mas, a cada encontro com Minato, lembrava-se novamente porque não os visitava nos feriados.

— Naruto, quero que você fique longe daquela garota cega. – pronunciou, parados próximos a porta de saída. Naruto o encarou, surpreso pela ordem, mas sua boca pareceu costurada, a garganta se fechando. Ele não tinha autoridade para discutir com o pai, afinal – Ela manchará sua reputação, e a minha reputação também. Não fique cometendo bobagens por aí. Logo teremos uma reunião de família, aproveite para levar aquela sua namorada, dos Moryo. Ela, sim, é uma boa garota para aparecer com você. – Naruto rolou os olhos, mas apenas em sua mente – Nos veremos em breve. Mantenha seu telefone com você, para emergências. Até mais.

Virou-se e saiu, sem deixar que Naruto respondesse. O garoto permaneceu no corredor, processando o que tinha acabado de acontecer. Há meses que não via seu pai direito, e, quando finalmente o via, era daquele jeito. Naquelas circunstâncias. Ele não sabia porque ainda criava esperanças – mesmo sabendo que, quando acontecesse, elas seriam cortadas. Um corte limpo e rápido, feito na guilhotina. Era assim que Namikaze Minato agia.

Naruto sentiu vontade de dormir. Deitar e fechar os olhos, esquecer de tudo e todos, mergulhar em um novo mundo, onde não haviam preocupações ou problemas, apenas sonhos. Ilusões reais, doces, boas. Seu corpo estava cansado, e sua mente, pesada. Tudo que conseguia pensar era na garota morena, da pele porcelana, da voz suave. Dos olhos pérola – que enxergavam muito além de qualquer pessoa.

Parecia que, quanto mais tentava se aproximar, mais passos para longe ele dava. Mais passos para trás ele era obrigado a dar.