Quimera
17 Visto
Notas iniciais
— Se puder olhar, vê. Se puder ver, repare.
Julho era quente. O sol indicia por toda a manhã e pela tarde, fazendo com que os dias fossem mais longos e as noites mais curtas. As árvores estavam contavam com toda sua copa, mas nem mesmo as longas sombras sobre o grande jardim eram o suficiente para livrar a escola do calor. Os alunos se amontoavam nos bancos e na grama durante o almoço e os intervalos, em busca de alguma brisa refrescante, e, embora corressem o risco de se queimarem com os raios solares, a vegetação deixava o ar mais umedecido, e o tempo, mais suportável.
Naruto repousava a cabeça contra um tronco de um bordô, uma das várias árvores cultivadas ao longo da propriedade, e sentia que cochilaria a qualquer instante. Sua cabeça doía, e ele se recusava a tomar uma aspirina. Apesar de ser hora do almoço, havia conseguido despistar a maior parte dos colegas, e Shion e as outras líderes tinham aversão aos pequenos insetos que rodeavam as flores naquela região. Por ora, o loiro estava na mais completa paz.
Minato saíra com a mesma velocidade e discrição que entrara. Provavelmente estaria em Tóquio naquele momento, ou embarcando em algum avião particular, rumo a algum país, para mais uma de suas reuniões. Sinceramente, Naruto não se importava realmente com os detalhes. Só queria que o pai tivesse levado consigo o aperto incômodo que insistia em deixar todas as – raras – vezes que o visitava. Metade da sua mente se ocupava repassando cada singelo detalhe do monólogo dos Namikaze, enquanto a outra metade se concentrava na morena de olhos pérola. Fazia algumas semanas que não conversavam, e Naruto não fazia ideia de como abordá-la sozinho, sem a assustar. Não queria ter de mentir novamente – ele estava começando a ficar com ciúmes de Menma. Sozinho, soltou uma risada. Estava enlouquecendo aos poucos.
Aquela garota vai me matar.
Sua tranquilidade acabou quando sentiu a presença de outra pessoa ao seu lado. Por alguns segundos pensou em abrir os olhos e xingar toda a geração de quem se atrevia a perturbar seu sono, mas parou quando sentiu o inconfundível perfume doce demais da amiga. Permaneceu com os olhos fechados, mas soltou um suspiro.
— Manhã difícil? – o loiro assentiu – Eu imagino. Não sei do que se tratava, mas tinha um segurança grande e intimidador no portão da frente quando eu passei.
— Meu pai resolveu dar o ar da graça para o filho preferido. – comentou. Embora sua voz não estivesse carregada de ironia, Sakura riu do mesmo jeito.
— Foi por isso que a Tsunade-obaa-chan te chamou para a sala dela? – novamente Naruto assentiu, sem dizer nada – Eu lamento por você. O que Minato queria dessa vez?
— Tenho certeza que você consegue adivinhar sozinha. – abriu os olhos pela primeira vez, e algumas folhas protegeram-nos da claridade repentina. Encarou a amiga, com o semblante confuso, mas, em seguida, ela parou e respirou fundo, também recostando no tronco. Estava com um bico pensativo.
Sakura e Naruto se conheciam a tempo suficiente para terem uma conexão natural. A garota também convivera com sua família, e, mais que ninguém sabia identificar quando algo estava errado. Na maioria das vezes, a garota era quem cobria o loiro quando ele estava mal-humorado ou infeliz. Com o passar dos anos, Sakura aprendeu a ler a maior parte dos pensamentos do amigo, sem que ele precisasse falar. E a Haruno também conhecia Namikaze Minato – não era preciso dizer muito quanto a isso.
— Não fale nada. É sobre ela, não é? – o Namikaze não precisou assentir dessa vez. Sakura soltou um palavrão e coçou as têmporas, subitamente irritada – Eu sabia que isso ia acabar acontecendo uma hora ou outra. O que ele disse?
— Ele foi rude. – parou por alguns instantes – Ok, ele foi um completo babaca. Até mesmo para o padrão dele. A velha queria bater nele ali mesmo. Eu queria bater nele. – resmungou, sentando-se com as costas eretas e as pernas cruzadas. Virou-se para a rosada – Ele disse que eu não poderia me aproximar dela. Me recuso a repetir cada coisa nojenta que ele disse. – sua boca estava seca, e Sakura o olhava com compreensão – Agora eu entendo o que você queria dizer. Se eu tiver sido a metade do que ele foi hoje, então você já deveria ter me socado bem na cara. – ergueu uma sobrancelha e Sakura riu.
— É, você foi um merda mesmo. Não me admira que Minato tenha vindo aqui só para fazer caso. Você sabe como ele é. – suspirou – Demorou mais do que eu esperava. Me surpreende ele não ter expulsado a Hinata hoje mesmo. A pontapés.
— A velha não deixou. Ele foi tão– argh! – grunhiu, frustrado – Ridículo. E eu fiquei lá, sentado, como um idiota, escutando ele dizer aquelas coisas arrogantes e preconceituosas. Eu deveria ter dito alguma coisa.
— Naruto, não fica se cobrando desse jeito. – Sakura apertou seu braço levemente – Ninguém está cobrando que você enfrente seu pai. Está tudo bem.
— Sim, mas agora eu não posso nem ao menos chegar perto dela. Ele vai ficar sabendo. Ele sempre fica. – seus dedos brincavam com a grama, arrancando pequenas folhas e jogando perto de seus pés – Não que fosse resolver alguma coisa.
— Não vai me dizer que está desistindo. – Sakura zombou.
— Que chances eu tenho? – Naruto replicou, indignado, e Sakura deu de ombros.
— Eu não sei. Mas você precisa tentar. Nem que seja como Menma. – era estranho falarem daquilo como se realmente houvesse uma terceira pessoa, mas Naruto ignorou.
— Quanto mais eu prolongo essa história, pior fica. Eu tenho certeza que isso vai ser um problema depois. Meu carma é horrível. – fez uma careta, e a rosada riu.
— Bem, você não pode desistir agora.
Permaneceram conversando até o almoço acabar. Com sorte, Naruto escapou dos outros garotos, e encontrou-se com Sasuke já na porta da sala. O amigo lhe encarou esquisito, e o loiro apenas balançou a cabeça, encerrando aquele assunto, por enquanto. Entraram na sala de aula e se posicionaram perto das janelas. Naruto não conseguiria prestar atenção na aula – nem se quisesse –, então sua mente permaneceu viajando para muito longe dali. Odiava as aulas de tarde, e, mesmo com as mangas regatas e a bermuda, sentia o corpo todo derreter.
Hinata já estava com a bolsa pronta quando acabou de almoçar. Ino lhe acompanhou até o ginásio e depois seguiu para o treino das líderes, deixando a amiga no vestiário feminino da piscina. A garota tomou uma ducha rápida e vestiu o maio com cuidado. Deixou suas coisas guardadas no armário e caminhou de volta, com o bastão. Estava animada para treinar naquela tarde, não só porque o tempo pedia por um bom mergulho.
Shikamaru havia autorizado que ela treinasse fora do horário das atividades, e a garota aproveitou a tarde livre, uma vez que não havia se inscrito nas aulas repositórias. Posicionou-se na plataforma e inclinou, dando um bom impulso inicial. Sentiu a água bater contra seus ombros e submergi-la completamente. Deu longas braçadas antes de virar para respirar, e chegou até o outro lado rapidamente. Não virou. Parou na borda e ficou boiando, aproveitando a temperatura agradável. Havia um brilho incômodo contra seus olhos, e ela sabia que vinham da abóboda de vidro sobre a piscina.
Voltou a nadar, forçando-se até seu limite sem virar. Queria melhorar seu tempo para as regionais e conseguir mais uma medalha. Estava motivada. Havia alguma coisa naquele lugar – as pessoas, ou os professores. Eles a desafiavam a ser melhor, a impulsionavam. Hinata queria sempre melhorar, mostrar que era capaz.
Com os meses se passando, as pessoas esqueciam da sua deficiência, e começaram a focar em outras coisas. A maioria delas apenas a ignorava, mas agora ela não era mais o centro dos murmúrios na fila ou os comentários pelos corredores. De fato, algumas pareciam até mais prestativas, e, embora Hinata desconfiasse de tudo e todos, poderia se acostumar com aquilo. E, então, poderia mostrar suas verdadeiras capacidades.
Tantas coisas haviam acontecido. Como uma outra vida, de um passado muito distante. Hinata parou, com a cabeça cheia, e deitou de costas, boiando sem rumo, balançando os pés devagar. Na maior parte do tempo, concentrava sua atenção inteiramente nas aulas, ou nos exercícios, ou em coisas banais. Mas, quando estava sozinha, voava, para longe em pensamentos, deixando que o aperto em sua garganta ganhasse liberdade. Ela apenas não conseguia colocar as coisas no lugar.
Ela ouviu o farfalhar da água balançando, e, perto dali, o treino das líderes, barulhento e estridente. Ouviu o vento contra a porta, e algo caindo no teto, ecoando pelo ginásio vazio. Queria se concentrar nos sons, na realidade, mas sua mente gritava coisas inteligíveis. E aquela imagem continuava voltando, de novo, e de novo. Ela nunca mais falou com ele. Não o encontrava na biblioteca, ou nos corredores. Ninguém sabia seu horário de aulas, e Hinata era tímida demais para perguntar para os alunos mais velhos. Ela queria vê-lo novamente.
Bateu na água com força e virou-se, os pés quase tocando no fundo. Voltou a nadar, batendo os braços, tentando dispersar os pensamentos inconvenientes. Tomou uma decisão, e conseguiu até sorrir em meio a água turbulenta que deixava para trás enquanto se debatia braçada após braçada. Não era uma solução permanente, mas enchia seu coração de uma felicidade única.
Encerrou o treino mais cedo e saiu, tomando cuidado com as bordas molhadas. Pegou sua toalha e o bastão, batendo pelo caminho que já havia decorado. No chuveiro, tirou todo o cloro do cabelo e vestiu sua camiseta e a calça de pano de reserva. Penteou os fios com os dedos e verificou se o passe de ônibus estava em sua bolsa. Não avisaria Sakura, achou que não precisava. Colocou a bolsa nos ombros e saiu, sentindo o sol queimar sua pele. Caminhou com cuidado, para não confundir as entradas. O ponto de ônibus não ficava muito depois do portão leste.
Estava quase chegando quando ouviu um barulho incomum. Estava aproximando, e ficou mais alto, mais alto, mais alto. Mais próximo.
E então, parou.
Naruto não estava a perseguindo. Ele não era um perseguidor. Não era, de verdade. Mas, quando deu por si, já estava ali. Parado no batendo, controlando até mesmo sua respiração, para não fazer barulho. Ficou a olhando nadar, e nadar. Em seguida parar, e ficar boiando. Bater na água, e voltar a nadar. Ele estava fascinado. Hipnotizado – uma mariposa encarando a luz. Certo de que aquilo iria matá-lo, mas ele apenas não conseguia ver como não ser atraído.
O Namikaze pediu para ir até o banheiro – claro que ele não disse que era o banheiro do outro lado da escola –. Ele apenas queria sair e andar um pouco. Não aguentava mais aquela sala, aquelas pessoas, aquela atmosfera sufocante. Caminhou em círculos até que resolveu ir até os ginásios, onde as garotas estavam treinando. Talvez passasse para dizer um oi para Ino, a amiga loira de Sakura, desde que Shion não visse. Estava evitando-a desde o começo da semana, com sucesso. Mas, quando passou pelo portão das piscinas, viu que estava destrancado. Ouviu o barulho da água e não conseguiu resistir.
Ela estava sozinha, com seu maiô escuro. Hinata tinha curvas que ele jamais havia visto em uma garota antes, e nada daquilo atrapalhava em suas voltas perfeitas debaixo d’água. O garoto a observou por alguns minutos quando viu que ela saiu da piscina, em direção ao vestiário. Ficou curioso para saber onde ela iria em seguida. Estava criando coragem para chamá-la quando percebeu que ela saiu sem o uniforme – com roupas casuais e frescas. Ela parecia ir à algum lugar. Naruto a olhou de longe, em direção aos portões.
Teve milésimos de segundo para pensar em algo inteligente, mas seus pés se moveram sozinho, e ele chegou à garagem no subsolo em questão de segundos, apenas. Conhecia um atalho atrás do campo, e agradeceu aos céus quando notou a carteira e a chave reserva no bolso de trás. Naruto nunca saía com as suas chaves e a carteira, mas, por alguma razão, as tirou da mochila e guardou no bolso antes de ir almoçar.
Emocionado com a coincidência – ou com o destino –, o garoto apertou o alarme, e sorriu quando entrou no carro. Ainda estava com cheiro de novo, e , no banco de trás, ainda estava sua jaqueta do time, de meses atrás. Não pensou muito. Arrancou da vaga e saiu rampa acima, dando a volta no prédio até o portão leste. O pé estava pesado no acelerador, mas freou bruscamente quando a viu na calçada, parada, com desconfiança.
Aquilo acontecera em questão de minutos, e Naruto sentia o coração bater acelerado. Ele não estava pensando – havia parado de pensar há muito tempo.
— Parece que a gente só se encontra assim. – apesar de estar com a respiração ofegante, procurou falar baixo e pausadamente. Observou a garota mudar a face, de confusa para surpresa.
Hinata não podia acreditar. Era coincidência demais que aquilo estivesse acontecendo. Coisas como aquela não surgiam em sua vida daquela maneira. Sentiu seu pescoço eriçar e suas pernas bambearem. Quis correr, quis gritar, quis fugir. Ela sempre se sentia como uma garota indefesa quando escutava aquela voz. Seu coração palpitou, e ela caminhou três passos hesitantes, com o bastão à sua frente, pronto para servir de arma.
— Menma?
— Oi. – em algum lugar no fundo de sua mente, Naruto estava se batendo com força. Mas, por fora, manteve a careta e a voz controlada – Você está indo a algum lugar? – perguntou casualmente, torcendo para sim. Naquele momento, ele deveria estar quebrando umas cinco regras.
— Sim, na verdade… – Hinata parou, um pouco confusa – Na verdade eu estou indo visitar minha mãe. – Naruto foi pego de surpresa, mas não deixou transparecer.
— Oh, que legal! Eu posso te dar uma carona. – ofereceu, como quem não havia planejado nada. Hinata desconfiou, agora temerosa. As coisas estavam indo bem demais. Ela não confiava em si mesmo dentro de um carro novamente com ele.
— Não precisa. Eu vou de ônibus.
— Ônibus. – Naruto bufou. Tinha horror a transportes públicos. Pessoas desconhecidas aglomeradas, se empurrando, tropeçando umas nas outras. Nunca havia lugar para sentar e as janelas não abriam. Era um pesadelo! – Vamos, eu insisto. – viu que a garota se preparava para argumentar – Não me faça ir até aí te buscar. E eu vou fazer isso.
Hinata suspirou. Admitia que o carro era mais rápido e confortável, mas, ainda assim, era ele. Semanas que não se falavam, ela sequer teve notícias depois dos campeonatos. Não conseguia pensar direito quando estava do seu lado. A aura dele era tão forte, ela apenas se rendia. Como uma tola. Novamente, não tinha escolha. Apenas assentiu e caminhou com cuidado até o bastão bater contra a lataria. Desceu na sarjeta devagar e tateou até a porta do lado esquerdo. Entrou e sentou-se, o cheiro marcante de seu perfume esmurrando seu nariz, deixando-a tonta.
Naruto não cansava de observar seu perfil. Ela tinha as feições retas e harmoniosas, e ele queria tocar cada uma delas. Suspirou, tentando se controlar. Não podia ser descoberto. Olhou para os lados, para se certificar de que não havia ninguém, e arrancou o carro. Ficaram em silêncio por alguns instantes.
— Você dá as coordenadas. – brincou, olhado de soslaio. Percebeu que ela estava inquieta, com as mãos entrelaçadas. Hinata estava a beira de um ataque de nervos, e apoiava a bolsa no colo com força demais. O vento sobre seu rosto, no entanto, era inigualável.
— Conhece Chome? Perto do porto, o bairro velho. – Naruto murmurou que sim, estranhando. Conhecia boatos sobre o bairro, casas populares bancadas pelo governo em uma terra esquecida por Kami. Não sabia que Hinata morou lá. Passou a vida toda reclamando que um bairro tão pobre tirava o charme do porto de Kobe. Engoliu em seco, como das outras vezes – E então, o que você faz fora da escola? – Hinata perguntou, quebrando o silêncio, o rosto voltado para frente.
— Eu tinha um... compromisso. Mas foi cancelado. Eu estava voltando quando encontrei você. – inventou rapidamente, agradecendo sua útil habilidade de mentir com convencimento.
— Então eu atrapalhei você. Desculpe. – Hinata disse, sincera. Não gostava que os outros lhe fizessem favores, principalmente quando sentia que estava incomodando.
— Não, não! – Naruto negou rápido demais – Não foi nada. Fico feliz em ajudar. – sorriu e a viu sorrir de volta. Ela tinha um ótimo sorriso – Você pode me dizer quando você volta, e eu posso te levar, já que vamos para o mesmo lugar. – propôs.
— Que isso! Você pode entrar comigo. Vai adorar conhecer minha mãe. Ela é uma mulher incrível, e cozinha muito bem. – sua voz estava animada, mas Naruto sentiu o estômago revirar.
— Claro.
Não estava preparado, nem um pouco preparado. Conhecer a mãe de Hinata – e ainda pior! –, disfarçado em uma mentira. Estava ansioso, sim, para conhecer mais da garota, mais da sua vida, mas não conseguia deixar de se sentir como o namorado conhecendo a família pela primeira vez.
Pegou a rodovia e seguiu por fora da cidade, avistando o porto. Virou e entrou em uma ruela, avistando uma placa, já depredada, indicando onde começava Chome. De imediato Naruto sentiu a diferença entre as partes da cidade. Próximo à Academia, tudo era brilhante, limpo, conservado. A maneira que se aproximavam da ladeira, o lugar ia tomando forma e sons. Haviam sacos de lixo nas calçadas, em amontoados, e crianças correndo sujas de barro. O garoto olhava em volta, atordoado. Nunca havia conhecido um lugar como aquele.
As casas tinham formatos iguais, e eram parecidas. Paredes mal rebocadas ou até mesmo apenas de tijolos, com a tinta – as que eram pintadas – descascando. Janelas abertas, vidros quebrados. As gramas eram ralas e amareladas, e era barulhento, como muitas vozes gritando ao mesmo tempo. Teve que frear para desviar de gatos e cachorros, e crianças pequenas brincando com brinquedos velhos. Haviam pessoas velhas vendendo coisas, e o céu estava escuro, mesmo que fizesse calor.
Naruto teve que convencer-se a fechar a boca. Era tudo chocante demais para ele, como um balde de água fria, mas não iria ser um idiota com Hinata. Não de novo. Fingiu que nada daquilo lhe surpreendeu, e voltou a observar a garota, que reconheceu onde estavam, sorrindo.
— Pode subir até a quadra seis. A casa da minha mãe tem uma caixinha de correio e degraus de cimento. – orientou, e Naruto concordou, engatando na segunda marcha, a quinze quilômetros por hora.
Manteve a cabeça para frente, ignorando os olhares e as pessoas apontando para seu carro. Tinha certeza que eles jamais haviam visto algo tão caro passando pelas ruas esburacadas, e teve medo de ser linchado. Procurou não encaram ninguém, mesmo quando passavam na frente, com os olhos atentos. Continuou reto, olhando para os lados a procura de alguma placa, mas não haviam identificações. A ladeira acabou, e Naruto teve que lembrar quantas quadras haviam passado. Identificou a quadra certa e localizou a caixa de correio que Hinata havia dito. Parou o carro e tirou o cinto, saindo rapidamente para ajudá-la a descer.
Virou-se, e se surpreendeu com a casa. Era pequena, como as outras, mas era diferente. Tinha um certo charme. Haviam flores no parapeito das janelas, como uma casinha simpática de filmes, e um caminho de cimento que levava diretamente a uma varanda. A caixa do correio estava pintada e nova, com a bandeirola vermelha para baixo. As paredes estavam conservadas e pintadas de um amarelo gema. Naruto estava, novamente, hipnotizado. Aquela era a casa onde Hinata crescera, vivera. Era pequena. Droga, seu quarto era o dobro daquela casa! Subitamente, sentiu um bolo na garganta.
— Vamos! Ela vai adorar te conhecer. – Hinata buscou pela mão de Naruto, o puxando para frente. O garoto a seguiu, tomando cuidado para que não caísse, e fingiu não sentir o rosto queimar com suas mãos dadas. Hinata sentia o coração bater mais rápido, mas a mão de Menma era macia, e firme.
Chegaram na porta e Hinata deu duas batidas, esperando. A garota tinha um largo sorriso no rosto, e Naruto havia ficado um pouco para trás, cuidadoso. Ouviu alguns barulhos e não tardou até que a porta se abrisse. Uma mulher aparentemente jovem surgiu, e deu um grito, puxando Hinata para um abraço. As mulheres permaneceram alguns minutos se abraçando forte, e Naruto desviou o olhar. A mulher soltou Hinata, com um largo sorriso, que diminuiu um pouco quando fitou o garoto que acompanhava sua filha, e Naruto viu seus olhos indo dele até o carro estacionado atrás de suas costas.
— Mãe, esse é o Menma. – Hinata apresentou, sorridente, e a mulher assumiu uma expressão de entendimento, indo para frente para olhá-lo melhor.
Naruto tomou um choque. A mulher era igual Hinata. O mesmo cabelo preto, a mesma pele branca sem manchas, com algumas rugas de expressão nos olhos pretos e firmes. Seus lábios eram avermelhados e ela era um pouco mais alta. Usava um vestido de pano vermelho, com um avental na frente, sujo de farinha. Os fios escapavam do laço e até mesmo a expressão firme era a mesma. Se as vissem na rua, Naruto poderia jurar que eram irmãs.
— Muito prazer, Menma. Entrem, fiquem à vontade. – disse, por fim, entrando na frente. Naruto respirou fundo, com as mãos suando.
Hinata foi na frente, falando algo com a mãe. Deixou a bolsa em um cabide próximo a porta e tirou os sapatos no genkan, substituindo por chinelos gastos que estavam ali. Naruto a imitou, ficando de meias. Olhou em volta. Conseguia ver todos os cômodos da entrada. À sua direita estava a cozinha, que exalava um cheiro agradável e fumaça quente. Do lado esquerdo, o que parecia ser a sala de estar, com uma pequena televisão no canto e um sofá gasto, mas com almofadas arrumadas sobre ele. Da sala, uma pequena porta parecia levar a um dos quartos, e Naruto conseguiu avistar uma cama de casal. Era um quadrado pequeno, mas aconchegante, com diversos quadros e vasos espalhados. Apesar de comprimido, Naruto gostou das boas energias que o lugar exalava.
— Vamos, crianças, estou terminando algumas encomendas. Estão com fome? – a mãe de Hinata perguntou, pegando um pote e mexendo uma massa clara dentro. Hinata tateou até o balcão e se sentou em uma cadeira de madeira. Naruto permaneceu em pé.
— Não, obrigado, senhora. – respondeu, encabulado.
— Ora, deixe disso. Vou fazer alguma coisa para vocês. E, a propósito, me chamo Hiromi. Deixe isso de senhora para lá. – disse, com o mesmo sorriso contagiante, embora seus olhos o avaliassem bem mais. Naruto assentiu, sorrindo envergonhado, sentindo-se exposto por aquele olhar de falcão.
Ficaram na cozinha, com Hinata e a mãe conversando animadas. Naruto olhava para todos os cantos, captando os detalhes, sua mente tentando processar o que estava acontecendo. Parecia ser algo em torno das quatro ou cinco horas da tarde. O garoto avistou potes empilhadas em um armário cor de creme, e uma geladeira no canto com um pinguim no alto e várias fotos presas por ímãs. A maioria era de Hinata, e tinha algumas com ambas, em várias idades.
— Okaa-san, já volto, vou ao banheiro. – Hinata se levantou, sem precisar do bastão, e andou devagar até o batente.
Naruto sentiu-se desconfortável, e, por algum motivo, manteve seus olhos no chão. Mas, então, percebeu que Hiromi caminhava em sua direção, e parou diante dele. O garoto ergueu a cabeça assustado, e havia um brilho estranho nos olhos da mulher. Ela não sorria, mas parecia obstinada.
— Lembrei. – sussurrou, confiante.
— Perdão? – Naruto estava confuso.
— Lembrei de onde eu conheço você. – o garoto engoliu em seco, com as mãos tremendo. Cogitou sair correndo, mas suas pernas estavam paralisadas. A mulher estava a centímetros de distância, o encarando bem no fundo de seus olhos. Era estranho, e aterrorizante, ter uma versão mais velha de Hinata o olhando tão fixamente. Naruto estava sem reação.
Por um segundo, ficou com medo. E então, percebeu que poderia ter posto tudo a perder. Aquela mulher à sua frente tinha os olhos mais duros e inteligentes que Naruto já encarara. O olhar de quem havia vencido os objetivos que a vida lhe colocara, e que não seria enganada tão facilmente.
— Quero que saia da minha casa. – disse, com a voz baixa, mas firme. Naruto engoliu em seco, apoiando-se na parede atrás de si, acuado.
— Como? – sussurrou, confuso.
— Por que está enganando a minha filha?
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