Quimera

18 Verdades


Notas iniciais
Enquanto espero a Bruna assistir o melhor anime que existe, estou aqui, sendo uma boa autora e postando rápido (e aproveitando as minhas tão sonhadas férias!). Espero que gostem!

— Olhe dentro dos meus olhos e escute o que eu não estou dizendo. Para que, então, meus olhos possam falar tão alto quanto minha voz jamais poderá.

— O que disse?

Naruto sentiu a garganta se fechar e seu coração bater tão rápido que pensou ser início de um ataque cardíaco precoce. As palavras duras daquela mulher à sua frente o assustou. Estava diante de uma versão adulta de Hinata, e aquilo o desestabilizava. Mas ela enxergava – e muito bem, por sinal –. Não imaginou que seria descoberto tão rápido assim.

— Sim, você me ouviu bem. – acusou novamente, com os olhos faiscando e a boca crispada – Está enganando a minha filha, e eu não admito isso. Ela não é um desses joguinhos para divertir as pessoas. – Hiromi assemelhava-se a um animal selvagem e violento, defendendo sua prole. Naruto se lembrou, por um momento, da própria mãe.

— Por favor, me deixe explicar! – Naruto implorou, não pensando direito, atropelando as próprias palavras. A mulher o fuzilou, desconfiada – Me deixe explicar. Não é nada do que parece, eu juro! – juntou as mãos, e Hiromi pareceu se convencer minimamente, o suficiente para lhe virar as costas e se voltar para o forno. Foi o timing perfeito, porque, neste momento, Hinata entrou na cozinha novamente, tateando até a mesa. A garota franziu a sobrancelha.

— Está tudo bem? – o loiro permaneceu próximo ao armário, encolhido, respirando entrecortado. Hinata tinha uma ótima percepção do ambiente, mas, por sorte, Hiromi a tranquilizou:

— Está sim, filha! – sua voz mudou de repente, e o tom era suave e doce – Na verdade acabou minha última pitada de fermento, e eu preciso terminar essa massa. Você se importa de subir até o armazém ali na esquina? Eu mesma iria, mas tenho certeza de que Chiyo está morrendo de saudades de você. – desconversou, e Hinata, sem desconfiar de nada, assentiu com um sorriso.

— Claro, okaa-san! Eu volto em um instante. A senhora pode aproveitar e conversar com o Menma! – Hiromi fuzilou o garoto, que engoliu em seco.

— Posso sim. – concordou, disfarçando. Hinata pegou seu bastão, que estava recostado na parede, e caminhou até a porta, saindo em seguida. Naruto, pela janela, a observou andar até a calçada e subir, desviando de uma rachadura no concreto.

Por fim, permaneceram apenas o garoto e Hiromi, que cruzou os braços. Sua postura era firme e desafiadora, como alguém que estava pronta para enfrentar o que quer que fosse. Era curioso. Naruto sentia-se repelido em sua presença, mas também acolhido. Era uma sensação familiar, e, então, o garoto lembrou-se de todas as mulheres fortes em sua família – elas levavam consigo o mesmo olhar afiado e a atitude contestadora –. O Namikaze aproximou-se cuidadosamente da mesa de madeira, sentando-se na cadeira sem fazer movimentos bruscos. Cada passo dado foi fiscalizado com atenção pela mulher.

— Você não tem muito tempo. – apontou, com a voz de poucos amigos, e Naruto suspirou internamente. Não havia jeito pior de se apresentar para a mãe da Hyuuga – O que quer com a minha filha, Namikaze Naruto? – por um instante, o garoto assustou-se e perdeu a pose defensiva, olhando-a com genuína surpresa.

— Você realmente me conhece? – perguntou, e Hiromi não soube distinguir se o tom atordoado era verdadeiro ou não.

— Sim. Não é difícil reconhecê-lo. Você esteve a vida toda nos jornais. – esclareceu – Eu sabia que sua aparência era familiar. Você é a cara do senador. – Naruto notou uma ponta de sarcasmo em sua fala, e sua voz era ácida. O garoto quase soltou um resmungo ao ser comparado, como tantas outras vezes, com o pai.

— É o que parece. – murmurou. Depois de alguns segundos de silêncio, suspirou – Eu sei o que a situação toda parece, mas não é o que você está pensando, não é o que parece. – acalmou-a antes de tudo, cauteloso, mas Hiromi bufou, descrente.

— O que parece é que você está enganando a minha filha dizendo ser uma pessoa que não é. Parece que tem vergonha de assumir sua verdadeira identidade. Parece que está enganando ela. – Naruto não quis admitir que, em um primeiro momento, parecia muito o que era. Então, chacoalhou a cabeça, livrando-se dos próprios pensamentos sabotadores.

— Sim. NÃO! – apressou-se, confuso – Não, não é isso. – fechou os olhos com força, respirando fundo antes de falar, tentando manter a voz firme, mesmo que suas pernas estivessem trêmulas, embaixo da mesa – Foi um mal entendido. Quando eu conheci a Hinata, eu era... – parou – Eu ainda sou, um tremendo idiota. – a mulher o fitou, séria – Eu inventei um nome qualquer, porque pensei que ela esqueceria de mim. Nós conversamos por dois minutos. Mas, então, nos encontramos de novo. E de novo. E de novo. Eu não tive coragem de desmentir. – baixou a cabeça. A verdade não era, de fato, tão melhor, quando dita em voz alta.

— E por que não disse depois? – a mulher parecia disposta a um diálogo, embora Naruto não tivesse coragem de olhar em seus olhos fixamente por mais de três segundos.

— Aconteceram algumas coisas. – desconversou – Para Hinata, Namikaze Naruto é um babaca. – suspirou, sendo sincero. Não havia porque fazer rodeios – Se eu dissesse quem eu sou, ela não deixaria eu me aproximar, levaria em conta o que escutou de mim. Eu não quero isso. Eu realmente me interesso pela sua filha!

Estava ali. Pura e simples. A verdade não era surpreendente. Não veio com uma revelação mágica, um entendimento sobre si mesmo e sobre o universo, não trouxe todos os segredos. A verdade não foi libertadora, não trouxe alívio ou alguma mudança significativa. A verdade simplesmente saiu pela sua boca, porque Naruto já conhecia a verdade. Ele apenas não tentou negá-la mais. Ele estava interessado pela garota cega, que usava roupas amassadas – mais que isso, ele tinha medo de admitir os próprios sentimentos confusos –. Naruto queria conhecê-la a fundo, queria saber da sua história, do seu passado, dos seus traumas. E queria que ela soubesse dos seus também. E queria, desesperadamente, a aprovação da sua mãe, que o encarava fixamente, sem expressar reações.

— Eu me interesso por ela. – estava mais confiante, e seu coração parou de bater descontroladamente – Ela é uma garota incrível, e eu quero conhecê-la. Eu sei que parece que eu a estou enganando, mas eu quero ter uma chance de que ela me conheça sem que a fama que me precede interfira no que vai achar de mim! – falou rápido demais, empolgado – Me diga, se eu não parecesse com o senador, você me reconheceria sem eu dizer meu nome? – pela primeira vez durante a conversa, Naruto viu o relance de uma reação, e seus ombros relaxaram – Tudo que eu fizesse ou dissesse aqui hoje diriam apenas sobre como eu sou. Mas eu me pareço com meu pai, e você sabe quem eu sou. – suspirou – E sabe de toda a minha vida, porque eu sou filho do senador. Eu só queria uma chance de ser quem eu quero ser, de poder me abrir e ser verdadeiro com Hinata, sem que o meu sobrenome a influenciasse. Não é certo. Eu sei que não é. E eu pretendo dizer a ela toda a verdade. – em algum momento do futuro— Mas eu quero ter essa chance. Por ela.

O ambiente ficou silencioso quando Naruto terminou seu monólogo, e então o garoto começou a ficar realmente com medo de ter dito as coisas erradas, mesmo que não se arrependesse. Seus ombros estavam mais leves, e ele estava satisfeito consigo mesmo.

Hiromi soltou um alto suspiro, fazendo o garoto se assustar. Ele a encarou, esperando. A mulher desencostou da pia e limpou as mãos no avental, voltando-se para a massa, outrora esquecida e adormecida em farinha, e começou a amassá-la habilidosamente, os olhos já sem o brilho ameaçador. Estavam vagos, pensativos. Sua boca se curvou em uma careta, e algumas rugas salientaram-se próximas aos seus olhos, mas sua expressão suavizou-se.

— Bem, sabe que não vai adiantar muito se continuar aparecendo nos lugares com aquele carro chamativo. – Naruto quase desfaleceu de alívio, e arriscou-se a soltar uma risada sem graça, enquanto observava a mulher balançar a cabeça para ele.

— Estou trabalhando nisso. – levou a mão na nuca, constrangido.

— Eu não gosto de você. – o garoto virou-se tão rápido que seu pescoço estralou, o estômago embrulhando – Ainda não gosto. – Hiromi não parecia irritada, então o loiro forçou-se a relaxar, ainda assustado – Não confio em você. As pessoas têm o costume de achar que podem enganar a minha filha, só porque ela é cega. – Naruto a viu apertar a massa com mais força, antes de relaxar. Quando voltou a falar, sua voz estava um tanto baixa: – Hinata é tudo para mim. Ela é uma garota sem igual. Ela é melhor que tantas pessoas, tem tantas qualidades! E tudo que vocês enxergam são os olhos dela. – Naruto engoliu em seco – Ela tem tanto a oferecer para o mundo. Ela sequer tem mágoa, ou rancor. Ela aceita as brincadeiras, os apelidos, as ofensas. Ela suporta tudo isso sem reclamar. Ela é tão inteligente, como eu nunca vi alguém ser. Ela tem um potencial enorme, e ela é tão linda. – o loiro sentiu o próprio coração se apertar. Hiromi parecia falar sozinha, e sua voz era morna, com os olhos brilhando. Naruto viu uma gota escorrer pelos cantos e se perder entre os fios que se soltaram do rabo de cavalo – Hinata merece o mundo. Eu quero alguém que esteja ao lado dela, que não tenha vergonha, alguém em quem ela possa confiar, que goste dela e a proteja. – levantou o rosto, encarando Naruto com intensidade – Hinata parece confiar em você. Ela falou bastante de você. – Ela falou sobre mim? Naruto disfarçou um sorriso que custava em se abrir – Então, eu não tenho muitas escolhas a não ser apoiar a minha filha. Mas, fique sabendo, Naruto: – o garoto assentiu rapidamente, atento – Se alguma coisa acontecer com a minha filha, eu nunca vou te perdoar. Ela pode não ser capaz de fazer isso, mas eu estarei de olho em você. Em cada passo seu. Não brinque com Hinata. – a ameaça surgiu o efeito desejado, porque Naruto engoliu em seco e concordou, com a postura ereta e as mãos unidas sobre o colo, tensas.

Horas pareciam ter se passado, mas, quando o cômodo voltou a ser preenchido pelo silêncio, Naruto percebeu que apenas alguns minutos correram durante a conversa. Mergulhado em pensamentos, o coração pôde sentir suas juntas reclamarem da tensão aliviada abruptamente. Aquele, sem dúvidas, havia sido um dos diálogos mais inquietantes que ele já tivera. Por outro lado, sentia uma pontada de inveja da maneira que Hiromi se referia e defendia a filha – quando ela falava, sua voz assumia um tom quase de louvor –. Naruto sabia que seus pais nunca agiriam daquela maneira com ele.

Ouviram um estampido e voltaram-se para o batente, onde viram Hinata entrando com duas sacolas de plástico atadas em seu pulso. Sua testa estava com respingos de suor, mas ela sorria, com as maçãs vermelhas. Naruto não lutou com o sorriso de canto que se abriu em seu rosto, e Hiromi observou a cena em silêncio.

— Tadaima. – Hinata apoiou-se no balcão enquanto ajeitava os chinelos – Gomen, okaa-san. A senhora Chiyo e eu ficamos conversando. Ela mandou alguns pedaços de kasutera para nós. – sorriu, animada.

— Okaeri. Sem problemas, filha. Senta aí, vou terminar a massa e fazer um chá para vocês. – Hiromi falou docemente, guardando as coisas em cima da pia e voltando-se para sua massa, acrescentando uma pitada de pó branco do fermento sobre ela.

— Kasutera? – Naruto repetiu, confuso. Nunca tinha ouvido falar daquela sobremesa, e não se recordava de ter comido em alguma loja ou nos restaurantes.

— Sim! Aquele pão de ló, sabe, com mel em cima? – Naruto balançou a cabeça negativamente, mas lembrou-se de responder alto.

— Não conheço. – observou Hinata virar-se para ele com uma expressão de incredulidade no rosto, e Hiromi riu baixo. O Namikaze fez uma careta cruzando os braços.

— Você não sabe o que está perdendo! É uma delícia, e é ótimo com chá. Eu não acredito que você nunca comeu kasutera. É como uma obrigação culinária. – reclamou, e Naruto não conseguiu se segurar e riu também. Ele estava encantando. Hinata era tão diferente fora da escola. Como uma outra pessoa. Pensou, então, que aquele era o ambiente em que ela sentia-se segura para ser ela mesma. Como ele, quando estava com ela. Aquele era um bom pensamento.

— Me desculpe se eu... – Naruto parou. Estava pensando em fazer uma piada, mas todas as frases que pudessem completar aquela frase seriam altamente perigosas. “Me desculpe se eu sou rico”. “Me desculpe se eu nunca comi em restaurantes que tivessem isso”. “Me desculpe se eu não tive pais que preparassem esse bolo para o chá da tarde”. Apenas uma brincadeira que ele faria se estivesse entre amigos. Mas Hinata não sabia. Mordeu a língua, e Hiromi percebeu sua pausa repentina – Se eu nunca ouvi falar disso. – completou, rindo um riso sem graça. A Hyuuga não percebeu nada de diferente, e continuou apontando argumentos em favor da sobremesa.

Já estava começando a anoitecer. O céu tornou-se alaranjado, e depois, avermelhado, escurecendo aos poucos. Hiromi os convenceu de que não seria bom eles voltarem dirigindo tão tarde. Fez uma xícara de chá para cada um, e obrigou Naruto a provou o bolo. Naruto, um tanto receoso, ficou encarando o pedaço antes de levá-lo à boca, mas, quando o fez, sentiu a massa fofa e leve derreter em sua língua, e o gosto do mel adoçar seu paladar, e literalmente derreteu na cadeira.

— Isso é muito bom! – falou, ainda com a boca cheia de farelos. Tomou um gole de chá, que também estava ótimo, em seguida mordendo novamente o bolo, soltando um gemido não-conotativo prazeroso.

— Viu! Eu disse que você ia gostar! – Hinata riu da sua reação, orgulhosa por tê-lo feito comer, e até mesmo Hiromi se permitiu rir da cena. Naruto pegou outro pedaço logo em seguida na sacola, e mais um após esse, devorando-os.

— Hiromi, você precisa me ensinar essa receita! – soltou, sem pensar muito, e logo em seguida parou. Não queria passar dos limites, não quando a mulher havia começado a aceitá-lo. Para sua surpresa, no entanto, Hiromi sorriu afetuosamente para ele e assentiu.

— Claro que ensino. Da próxima vez que vier aqui nós podemos fazer um. – Hinata assentiu, alegrando-se com a ideia, e Naruto ficou confuso, mas de um jeito bom. Sorriu, um tanto envergonhado – Muito bem, crianças, hora de voltarem. – levantou-se, indo até a filha e a ajudando com o braço em sua cintura.

Caminharam até a pequena varanda. A rua estava mal iluminada, com algumas lâmpadas falhando, mas havia uma luminária pendurada sobre a porta. Naruto virou para Hiromi, fazendo questão de cumprimentá-la com um semiabraço. Quando se afastou, seu sorriso era genuíno, surpreendendo levemente a mulher.

— Hiromi, muito obrigado pela tarde maravilhosa. – havia mais motivos pelos quais Naruto estava agradecendo implicitamente, e a mulher assentiu, compreendendo-o – Eu vou esperar no carro, Hinata. – a garota assentiu e Naruto se afastou, deixando mãe e filha com um pouco de privacidade. Hiromi abraçou a garota com força, afundando suas mãos em seu cabelo. Não gostava de deixá-la partir, mesmo que fosse para perto.

— Filha, se cuida. Não esquece de comer direito, achei você muito magra. Se precisar de alguma coisa, pode me ligar, tudo bem? – foi recomendando, e Hinata riu.

— Pode deixar, okaa-san. Eu vou me cuidar. Logo eu estou de volta.

— Assim eu espero. – riu, um tanto chorosa – Agora vai. – a abraçou forte mais uma vez antes de soltá-la, acariciando seu cabelo – Aquele garoto, Menma, é um bom garoto. – disse, por fim, e Hinata abriu a boca levemente, corando e soltando um riso.

— Ele é, não é? – concordou. Beijou o rosto da mãe e caminhou pela trilha de concreto. Naruto foi ajudá-la, e acenou mais uma vez para a mulher na porta antes de entrar no carro.

— Vamos? – Hinata assentiu e Naruto deu a partida.

A volta para a Academia foi tranquila. Hinata parecia mais à vontade na presença de Naruto, e conversaram sobre vários assuntos. Era como se tivesse uma ligação natural. Descobriram vários pontos em comum, e alguns que discordavam, mas, a cada vez que Hinata ria, Naruto sentia que estava no caminho certo, de alguma maneira.

Naruto não conseguiu negar a pontada de tristeza que sentiu quando avistou o majestoso prédio da Academia. Significava que o dia acabara, e haviam chegado em mundos diferentes, realidades diferentes. O Namikaze nunca quis tanto que pudessem ser exatamente daquela maneira em todos os momentos. Se sentarem juntos no almoço e conversarem sobre banalidades que as outras pessoas não entendiam. Compartilhar seus gostos, suas opiniões. Não ter que ser o filho rico e popular do senador Namikaze – poder ser apenas Naruto.

Parou o carro no portão principal, para que Hinata descesse. Ficaram em silêncio. Era um momento em que não sabiam muito o que falar. Naruto fitou as maçãs do rosto da Hyuuga, que estavam vermelhas de rir. Seus olhos tinham pequenas manchas, e estavam comprimidos com o sorriso. O cabelo havia se embaraçado com o vento, e ela custava em mantê-lo afastado, atrás da orelha. O loiro agradeceu por Hinata não poder vê-lo naquele momento, ou ele ficaria envergonhado de ser pego admirando-a, como um idiota.

— Bom, muito obrigada por hoje. – a garota agradeceu, sincera.

— Não, eu quem agradeço! – Naruto apressou-se em dizer – Sua mãe é uma mulher incrível, e eu tive uma tarde ótima. – não disse uma só mentira, e ver o brilho nos olhos da garota valeu toda a pena – Estamos no portão principal, você precisa de ajuda? – tirou o próprio cinto, mas Hinata negou rapidamente, colocando a bolsa nos ombros e se preparando para sair.

— Não precisa! Eu consigo chegar no dormitório, não se incomode. – parou por um instante, e, então, tomou uma atitude. Inclinou-se rapidamente, o suficiente para Naruto não prever o que ela faria em seguida. Agilmente, Hinata colou seus lábios na bochecha do loiro, em um beijo rápido de despedida. Ficou com medo de errar, mas sabia que, se não fizesse naquele momento, perderia a coragem. Por sorte, algo a guiou exatamente para o lugar certo, como se ela já soubesse. Se afastou, sorrindo – Boa noite, Menma.

Naruto estava paralisado. Observou a garota sair cuidadosamente e estirar o bastão, batendo-o até encontrar o portão e a grama. Seguiu reto em direção aos corredores. O loiro, por outro lado permaneceu no carro, parado. Ainda conseguia sentir a textura em seu rosto. Levou um dos dedos até o local. Estava quente, e um pouco grudento. Tinha um cheiro bom, de gloss. Seu estômago deu duas voltas, de uma maneira boa. Naruto nunca tinha se sentido nervoso daquela maneira por ganhar um beijo de despedida de uma garota. Tudo era novo com Hinata.

Sorrindo – como um idiota, ele arriscaria dizer –, dirigiu até a garagem, guardando o carro e travando-o. Subiu pela rampa e caminhou, feliz, até seu dormitório. A escola estava silenciosa, com as luzes acesas. O garoto resistira bravamente à vontade de sair pulando pelos corredores vazios. Sentia-se ansioso, com energia acumulada. Suspeitava que conseguiria derrubar vinte lutadores sozinho. Estava enjoado, mas não de uma maneira ruim. Sua cabeça estava pesada, e sua mandíbula latejava, porque não conseguia diminuir o sorriso em seu rosto. O quão patética era sua situação naquele momento? Ele apenas não se importava.

Chegou em seu dormitório e abriu a porta, com vontade de assoviar. Sasuke estava em sua cama, lendo algum livro grosso. Quando ouviu o amigo, levantou os olhos, surpreendendo-se com o bom humor. Sorriu, sentando-se e deixando o livro de lado.

— Olha quem resolveu aparecer. – zombou – Você perdeu uma ótima atividade de cálculo hoje a tarde. Estavam todos querendo saber onde você tinha se metido. Shion estava uma fera. – comentou, mas Naruto deu de ombros, jogando-se em sua cama com a barriga para cima, olhando para o teto, sentindo-se no mais puro e pleno estado de felicidade.

— Meu caro Teme, hoje foi um dia memorável. – suspirou, e Sasuke não conseguiu se conter, rindo do amigo.

— O que aconteceu?

— Eu conheci a mãe dela. – disse, simplesmente – Foi inacreditável. É tão diferente. O lugar, as pessoas. Como outro mundo. – devaneou.

— Eu imagino. E como foi a experiência? – o Uchiha perguntou, interessado.

— Não consigo nem explicar! Achei que a mãe dela fosse me... – parou por um instante. E então sua cabeça processou a cena que estava prosseguindo, e sentou-se com rapidez, encarando o amigo, que ainda o fitava, um tanto confuso com a reação – ESPERA AÍ! Como você sabe? – o garoto perguntou em um só folego, assustado. Sasuke, para sua surpresa, começou a rir.

— Eu não sei, seu Dobe. – riu novamente, e o loiro o encarou, perplexo – Eu sabia que você me contaria quando estivesse pronto, mas não era realmente difícil de imaginar. Eu sou observador. Aqueles idiotas nunca vão perceber sozinhos, pode ficar tranquilo. – rolou os olhos, e Naruto sorriu para ele, constrangido. Sasuke era, definitivamente, seu melhor amigo.

Naruto e Sasuke tinham personalidades bem diferentes. De fato, ninguém sabia ao certo como se davam tão bem. Naruto era hiperativo e escandaloso, gostava de chamar atenção, enquanto Sasuke permanecia silencioso e observador, do tipo que gosta de analisar a situação, mais que participar. No entanto, de alguma maneira, eles se completavam. Sasuke, aparentemente, era o único que conseguia controlar Naruto, e este, por outro lado, convencia o Uchiha a participar do lado bom da vida – segundo o próprio Namikaze –. Conheceram-se ainda crianças, e, talvez a única coisa que tenham em comum, seja o fato de que ambos sabem como é uma vida cercada de câmeras, fama e papparazzi. Tornaram-se, então, o apoio um do outro, e, por mais que tenham outros amigos, sabiam que podiam contar com sua amizade no final do dia. Se conheciam melhor que qualquer outra pessoa. Eram o equilíbrio, de uma maneira curiosa. Naruto sabia que podia confiar sua vida à Sasuke, e sabia, também, que o garoto esperaria até que Naruto estivesse pronto, e que ele nunca iria julgá-lo.

Naruto sorriu, um tanto mais tranquilo, e acomodou-se.

— É uma história engraçada, você vai querer ouvir? – Sasuke puxou um travesseiro e deitou sobre ele, rolando os olhos.

— É claro que sim.

E Naruto começou a contar, desde o princípio. Passaram a noite conversando, e, no final, o Namikaze sentiu os ombros leves, e dormiu um sono tranquilo. De uma maneira estranha, sua vida estava virando de cabeça para baixo. Haviam coisas que ele não reconhecia mais, e era bom. Era muito bom. Naruto podia contar com o apoio dos amigos, dos melhores amigos. Podia ir com calma, superando suas próprias barreiras, porque todos que sabiam eram confiáveis.

Bem, quase todos.