Quimera
19 Festa
Notas iniciais
— Ela é louca, bagunça de um caos maravilhoso, e você pode ver isso em seus olhos.
Shion pegou mais uma taça de vinho da garrafa que escondia embaixo da cama. Enquanto bebericava o líquido quase morno, soltou um suspiro. Estou me tornando a minha mãe. Guardou o recipiente em seu estoque particular, sabendo que, até o final da noite, voltaria a puxá-lo para encher seu copo. Sentada em sua poltrona, olhava para o vazio, meditando sozinha.
Sua mente era um filme de memórias antigas, que passavam e voltavam, repetindo os mesmos momentos, tentando fazê-la entender quando as coisas começaram a dar errado.
As pessoas costumavam olhar para Shion e enxergar a líder de torcida perfeita. Alta, loura e linda, Shion era um reflexo bem-sucedido do modelo mais odiado do ensino médio. Mas, a verdade era que Shion era muito mais que um rostinho – muito – bonito. Shion era inteligente, satisfatoriamente inteligente, ela diria. Apenas sendo esperta ela teria alcançado a posição que almejara, há tanto tempo. Tinha tudo que sempre desejara, sob seus pés de cutículas bem-feitas.
A família Moryo era tradicionalista, há gerações herdeira de uma generosa fortuna cuja história se perdera ao longo dos anos. Nas últimas décadas, seu patrimônio cresceu graças a investimentos bem aplicados, ações compradas e empresas construídas. Não tinham um ramo específico. Apenas eram bons em multiplicar dinheiro. Quando Shion nascera, seu pai havia acabado de fechar um contrato milionário com uma família importante de um ramo importante. Era assim que seguiam. Apesar da inteligência e das boas jogadas, a família Moryo era conhecida na alta sociedade graças aos esforços de Moryo Miroku, socialite que marcava presença nos grandes eventos dos tablóides, alimentando-os com sua astúcia e lábia.
De certo modo, Shion não tinha culpa de ser da maneira que era. Cresceu na sombra da mãe, influente, poderosa, pública, acessível. Aprendeu com os melhores professores, desenvolveu as melhores habilidades, vestiu as melhores roupas, deu as melhores entrevistas. Participou de diversos concursos de beleza, e teve um conceito distorcido de apoio familiar. Aos seus olhos, sua mãe fora uma grande mãe. Sempre do seu lado, sempre lhe dando suporte em suas conquistas. Shion jamais achou estranho uma criança ser puxada e moldada por profissionais, ter seu rosto preenchido por camadas de maquiagem e seu corpo vestido com vestidos adultos demais para ela. Shion cresceu na mídia, e, consequentemente, aquele se tornou o seu universo. O lugar onde ela se destacava. Onde ela era boa.
Shion presenciou as crises. As brigas, os surtos. E também aprendeu a ser calculista quando precisava. Aprendeu a ignorar, a passar por cima. Sua personalidade era uma imitação direta da sua família, do jeito que fora criada para ser.
No ensino médio, parecia quase óbvio demais que Moryo Shion se tornaria a abelha-rainha. Entrou para a melhor escola que o dinheiro poderia comprar, e teve as melhores oportunidades. Suas habilidades exímias em ginástica, e sua lábia inevitável, a levaram para o topo sem grandes esforços. Shion apenas desempenhava o papel que ela nascera para interpretar – e ela adorava aquilo. Adorava ser temida. Adorava ser obedecida. Adorava ter a atenção toda para si. Adorava humilhar àquelas que se colocavam em seu caminho. Talvez Shion pudesse ter sido diferente, em outros tempos. Mas ela era quem era, e era filha da sua mãe.
Shion já conhecia Namikaze Naruto de outros eventos beneficentes que seus pais lhe levaram, quando era velha demais para ser uma criança, e jovem demais para entender o que estava realmente acontecendo. Sempre via a família Namikaze, o senador com sua esposa perfeita e seus filhos perfeitos. Embora tão diferentes, Shion sempre achara que o caçula tinha um certo charme, com seu cabelo loiro e seu sorriso carismático. O herdeiro Namikaze adorava os holofotes tanto quanto a loira. Foi natural. Foi como tinha de ser.
Começarem a namorar não foi nenhuma surpresa. Shion tinha a impressão que a mãe de Naruto não gostava realmente dela, mas nunca dissera nada, e, quando completaram um ano juntos, Shion achou que passariam a vida toda juntos. Teriam um império, e filhos loiros perfeitos, e também seriam a família perfeita nos eventos, posando perfeitamente com seus sorrisos que mostrariam o quanto eram felizes e realizados.
Mas, era claro, Shion não era burra. Ela sabia. Ela sempre soube. Dos outros casos. Das outras garotas. Das festas escondidas, dos porres, das brigas, dos escândalos nunca revelados. E ela era fiel. Ela quem cuidava de cada notícia comprada, de cada ressaca disfarçada, de cada puta dispensada. No final do dia, Shion era a namorada, era a que segurava em sua mão e que aparecia nas viagens de família. Sua mãe a aconselhava a todo momento, cuidando para que ela não tomasse nenhuma decisão inconsequente. Eles são homens, minha querida. Precisam de alguém que os controle. Ele precisa de você, cuidando da imagem dele. Você é quem tem o poder.
Shion tomou outro gole de vinho, e o gosto amargo que corroía sua garganta não lhe tirou outra careta. Sua cabeça estava pesada, e o álcool, que subia rapidamente, deixava-a suportavelmente leve. Beber sozinha tornara-se um hábito que ela não conseguia desfazer.
Há muito que ela tinha conhecimento da situação atual. Shion tinha plena consciência de que seu relacionamento era uma fachada ensaiada de merda. As pessoas não podiam saber. Eles eram o que os outros viam, e não podiam deixar que vissem demais. Shion sabia, também, que não passava mais de sexo. Uma válvula de escape para ambos, uma forma de manterem-se unidos, de se suportarem. No começo, Shion tentou, desesperadamente. Ela tomou cada medida atormentada para fazê-lo voltar para a palma de suas mãos. Mas, após alguns meses, era inevitável. E, então, tornou-se exaustivo. Shion achava que passaria por aquela situação apenas depois de alguns anos de casamento, mas, aparentemente, sua vida era uma coleção de precocidades.
Tudo estava sob controle. Até ela chegar.
Desde o primeiro dia, Shion sabia que ela seria problema. Tinha um olfato apurado para complicações. Ela era descuidada, desleixada, atrapalhada, cega. No entanto, tornou-se sua maior ameaça. Ela notou as mudanças, ínfimas, despercebíveis. Mas existiam. Shion não estava louca – ela nunca estivera mais consciente –. Sua vida perfeita, de repente ruindo sob seus pés. Rachaduras invisíveis ganhando força, proporções inimagináveis. Um império construído sob muito suor e esforço, prestes a se desfazer, como um maldito castelo de areia. E ela, certamente, não deixaria aquilo acontecer.
Não estava plenamente certa, mas, depois daquela noite, ela tinha certeza. As palavras de uma de suas criadas ainda preenchiam seus pensamentos. Shion sabia que não deveria confiar inteiramente em ninguém – nem mesmo em sua própria sombra –, mas, naquele momento, era tudo ou nada. Precisava agir. Rapidamente. Definitivamente.
Virou a taça em um único gole, e pôs-se de pé. Pegou o celular que permanecia escondido sobre os travesseiros e discou um dos números de emergência. Enquanto tocava, fitou as unhas pintadas, e encarou uma lasca. Franziu as sobrancelhas, achando irônico o contraste quase gritante das suas maiores preocupações no momento. Decidiu resolver a mais fácil. Quando o outro lado da linha atendeu, Shion já havia pego a lixa, com um sorriso perturbado.
Naruto não entendeu toda aquela movimentação em plena quarta-feira. Mal havia saído de seu quarto e já trombara com algumas pessoas que cruzavam o corredor em passos rápidos, distraídas demais com suas fofocas para olhar para frente. O loiro agradeceu por ser grande, ou teria sido levado pela pequena multidão. O corredor dos dormitórios estava apertado, embora as aulas começassem dali alguns minutos. Naruto ignorou a todas elas e seguiu até o refeitório. Não conseguiria tomar café da manhã, mas pegaria alguma coisa com Sasuke, que, como um bom aluno, levantara no horário.
O garoto chegou no pátio que, por incrível que parecesse, estava ainda mais lotado que os corredores. De alguma maneira, toda a concentração de alunos da Academia resolvera se encontrar, formando pequenos grupos apinhados nas mesas, falando alto. As conversas se misturavam em um barulho quase insuportável, e Naruto teve de empurrar algumas garotas até que chegasse na mesa mais ao canto, onde as líderes ocupavam a maior parte do espaço, enquanto Sasuke e Sakura conversavam – ou tentavam – aos gritos.
— O que está acontecendo? – Naruto se fez presente, e os amigos se viraram para ele. Sakura mordiscava uma maçã, e o Namikaze poderia jurar que tinha visto seus pés balançarem interruptos embaixo da mesa, mas sua atenção logo foi desfocada.
— Você não ficou sabendo? – Sasuke respondeu, e Naruto se aproximou para ouvi-lo melhor – Veja! Adivinha de quem foi a ideia! – o moreno estendeu um panfleto para o amigo, que o agarrou e o ergueu até a linha dos olhos, que, em questão de segundos, se arregalaram.
Era um convite, graficamente bem elaborado, com cores gritantes e letras garrafais. Naruto primeiro visualizou os desenhos, que se espalhavam de maneira incômoda, mas, então, prestou atenção nas frases curtas que estavam no topo da folha. Uma festa. Uma festa. Naquele fim de semana, no galpão localizado atrás do campus. Teoricamente, festas não eram permitidas dentro dos limites da escola, mas as regras diziam respeito aos dormitórios. Desta forma, há muitas gerações de alunos da Academia, descobrira-se um galpão abandonado, depois dos prédios de salas. Era um depósito empoeirado, mas tornou-se o centro de festas dos alunos. Os diretores faziam vista grossa, desde que não atrapalhasse as aulas no dia seguinte. Manter os alunos na linha era um trabalho mais fácil quando fazia-os pensar que estavam colaborando.
No entanto, era o meio do semestre. Ninguém dava uma festa no meio do semestre, a não ser que fossem por exceções muito boas. Bom, havia alguém. E Naruto sabia exatamente quem.
Suas mãos se fecharam em torno do papel, amassando-o com raiva. Não sabia o que a garota estava planejando, mas não era boa coisa. Definitivamente, nada vindo dela era boa coisa. Com uma careta, devolveu o convite na mesa, enquanto os amigos o fitavam preocupadamente. Sasuke observava o loiro, preparado para intervir em uma possível cena pública, enquanto Sakura suspirava, antecipando-se para ela mesma causar a cena pública.
Naruto puxou a mochila por cima do ombro e empurrou quem estava em seu caminho, pisando firme até o centro do grupo das garotas, com seus uniformes e suas bolsas caras. Ao avistarem Naruto, deram-lhe passagem, até que o garoto conseguiu chegar às duas garotas, que riam, juntas. Quando Shion pousou os olhos em Naruto, ignorou sua expressão inconformada e pendurou-se em seu braço, depositando um beijo estalado em sua boca. O garoto evitou uma careta enojada.
— Shion, o que significa isso? – mesmo que o barulho no refeitório fosse alto, todos em um raio de cinco metros ouviram a voz de trovão de Naruto soar enfurecida.
— Ora, meu amor, é uma festa! – a garota respondeu, fazendo-se de desentendida, piscando seus cílios endurecidos de maneira inocente – Essa escola está muito parada, então eu resolvi fazer uma festinha, sabe, para socializar. – seus olhos continham um brilho travesso que fez Naruto arrepiar-se – E eu convidei todo mundo. — a maneira que a garota frisou as palavras deixou o loiro em alerta.
— Shion, eu não estou gostando disso. – bufou. Sabia que não adiantaria nada reclamar, mas deixaria claro sua insatisfação com aquilo. Shion nunca planejaria uma festa com dois dias de antecedência, de uma hora para outra.
— Deixa disso, fofo. – a garota fez um gesto despretensioso com a mão – Nós somos os anfitriões! – anunciou rapidamente, sem esperar que Naruto retrucasse – Eu vou cuidar de tudo! Deixo sua roupa no dormitório mais tarde. – piscou e se desvencilhou do maior – Nos vemos mais tarde. Vamos, garotas.
O grupo de meninas seguiu Shion em uma fila dupla, ainda conversando entre si, com risinhos e apontando. Boa parte do refeitório esvaziou-se junto, e os grupos que restaram já conversavam em tom normal. Naruto observou a loira guiar a procissão escadaria acima, perdendo-se ao virar o corredor. O garoto, então, voltou para a mesa, com uma carranca nada amigável. Seus colegas o olharam confusos, e ninguém ousou perguntar.
— Isso só pode ser brincadeira. – resmungou, soltando seu peso ao lado de Sasuke, que deslizou para o lado.
— Bom, está todo mundo falando sobre isso. Nós acordamos, e os convites já tinham sido distribuídos nos dormitórios. Acho que é a primeira vez que Shion resolve dar uma festa assim, de repente. – Sakura comentou, com o próprio convite em mãos.
— Essa escola vai ficar insuportável até o fim de semana. – Naruto gemeu, baixando a cabeça, com seu ótimo estado de espírito se esvaindo lentamente – E... vocês sabem. Ela foi convidada? – levantou a cabeça devagar, a voz em sussurro. Por sorte, Sakura e Sasuke estavam próximos o suficiente para ouvi-lo. Trocaram um olhar cúmplice, e o Namikaze soltou um resmungo quando Sakura lhe dirigiu um sorriso significativo – Nem começa. – resmungou.
— A Hinata também foi convidada. – Sakura respondeu com o tom de voz cauteloso, olhando para os lados – Ela estava com a Ino-porca hoje de manhã, e é óbvio que ela está animada. – revirou os olhos – Mas a Hinata disse que não sabe se vai. Ela não se sente muito confortável com esse tipo de coisa. – apontou, brincando com os restos de sua maçã.
— Compreensível. – Sasuke comentou.
— Não sei se eu quero que ela vá ou não. – Naruto levou a mão até os fios, bagunçando-os, tentando colocar os pensamentos no lugar – Estou com um mal pressentimento. Shion estava estranha esses dias, e ela sabe que eu não quero mais ficar com ela. Sinto cheiro de encrenca. – franziu a testa.
— Talvez ela esteja apenas querendo dar uma festa. Você sabe como ela é. – Sasuke propôs, mas sua voz deixava claro que ele não acreditava em suas próprias palavras.
— De qualquer maneira, você precisa ficar esperto com isso. – aconselhou Sakura, levantando-se e pegando sua própria bolsa. Naruto percebeu que estava quase atrasado e suspirou, sem ânimo para as aulas – Ela envolveu seu nome no meio .
Naruto assentiu, seguindo-os corredor acima, ignorando o falatório ao seu redor. Sua cabeça ameaçou latejar, e, embora fosse quarta-feira, sabia que seu sossego já havia sido extinguido. Teria de lidar com aquilo, e se concentrar em segurar Shion para que as coisas não saíssem do controle. Internamente, sentiu falta de passar a tarde com Hinata. Não falava com a morena desde então, e não estava acostumado com aquele sentimento estranho – de uma maneira boa –. Talvez desse sorte, e conseguisse fugir para conversar, ao menos um pouco, com a Hyuuga.
Os dois seguintes foram acompanhados de muita expectativa entre os alunos, e o assunto que mais se ouvia nos corredores era sobre a esperada festa de Moryo Shion. A garota, conhecida por todos os anos – por motivos diversos, alguns nem tão bons –, tinha boas influências entre os veteranos, e providenciara todos os detalhes com uma rapidez assustadora. Os primeiranistas, que conheciam apenas os boatos sobre as festas épicas dadas pela líder de torcida, também se propuseram a ajudar da maneira que pudessem. Ao que parecia, todos desejavam um minuto de reconhecimento da garota.
O sábado chegou, e, embora alguns professores exigissem atividades semipresenciais para complementar a carga horária de suas matérias, a maior parte dos alunos aproveitava para dormir até tarde, pular refeições e permanecer no ópio. No entanto, naquela manhã, houve uma espécie de acordo coletivo, para que conseguissem sair da Academia sem que a diretora ou algum dos inspetores intervissem. A maioria destes saíra para comprar bebidas, e a outra grande parte se dirigira até o centro de lojas da pequena ilha Rokko, onde as opções, embora caras e restritas, continuavam sendo a melhor saída.
A comoção era geral. Depois do almoço, a atmosfera se tornou ainda mais pesada, enquanto as horas eram contadas ansiosamente. Há tempos um evento não movimentava os ânimos dos estudantes, e até mesmo os motivos para aquela festa repentina eram discutidos – mesmo que por baixo dos panos –.
Hinata não tinha saído do quarto ainda. Aproveitou o dia de folga para tomar um bom banho quente, e vestiu uma muda de roupas velhas para ficar no dormitório. Havia acabado de puxar seus livros quando Sakura entrou, ofegante, e Hinata franziu as sobrancelhas, curiosas.
— O que você estava fazendo? – perguntou, rindo para si mesma quando a garota soltou um resmungo, e sentiu a cama estremecer quando a outra jogou-se no colchão.
— O grêmio estava sem ninguém. – disse em um fôlego só, respirando fundo – E precisávamos entregar um relatório agora de manhã. Eu tive que ir para lá correndo. – Hinata achou a situação engraçada, mas não interrompeu a amiga – Todo mundo só está falando nessa maldita festa. Bando de incompetentes. – reclamou, e a Hyuuga assentiu, condescendente – Falando nisso, você vai, não vai, Hina? – a morena sentiu toda a expectativa na voz da rosada, e suspirou, fechando o livro, sabendo que, a partir daquele momento, não conseguiria mais se concentrar.
— Sakura, você sabe que eu não gosto de festa. – replicou, sabendo que a amiga não se deixaria levar por seu tom suplicante – Mas você pode ir com a Ino.
— Hina, vai ser divertido! – Hinata sentiu a garota pulando próxima a ela, e se desequilibrou, agarrando um travesseiro – Nós vamos juntas! Dançamos um pouco, comemos salgadinhos e voltamos para o dormitório. – Hinata sabia que se arrependeria, mas suspirou, concordando, por fim.
— Tudo bem, eu vou. Mas eu quero voltar cedo! – adicionou rapidamente, quando sentiu Sakura apertá-la em um semiabraço animado, comemorando.
— As meninas vão ficar tão felizes! Vai ser ótimo, eu prometo. – Hinata conseguiu sorrir diante da animação da Haruno, e deu de ombros. Não faria mal.
Sakura saiu da cama, correndo pelo quarto para separar as roupas e suas maquiagens, enquanto Hinata deitava, fechando os olhos e tentando relaxar. A perspectiva de estar em um lugar com várias pessoas – e, o que parecia ainda pior, várias pessoas que a odiavam – deixava-a com o estômago embrulhado. Não era realmente tímida, mas aprendera a se fechar diante de grandes multidões. Era um método de autoproteção, e ir, de livre e espontânea – pressão – vontade, era como caminhar para a toca dos leões.
Distraída, pensou se encontraria Menma. Há dias não falava com o garoto, que, como usual, sumira na Academia. Não sairia perguntando sobre o garoto pelos corredores, e não sabia informações suficientes para pedir que Sakura procurasse nos arquivos da secretaria. Restava, apenas, esperar que trombassem novamente. Acontecia bastante – para sua felicidade –. Encontrá-lo em uma festa, em um ambiente normal, com pessoas normais, poderia não ser uma experiência totalmente aterrorizadora.
Mas, a verdade era que Hinata apenas não tinha esse tipo de conhecimento. Não acreditou quando Ino chegou com um convite para ela. Não conhecia a anfitriã suficientemente bem, mas sabia quem ela era, e a fama que a precedia. Pelo que bem se lembrava, essa garota basicamente a odiava. Era a namorada do famoso Naruto, e eles eram uma espécie de realeza na escola. Hinata, definitivamente, não tinha interesse em se meter no caminho da abelha-rainha. Já tinha problemas demais por si só. Pensou ter sido um engano, mas não seria ela a confrontar a garota.
Quando a tarde se aproximou, Sakura obrigou Hinata a tomar um novo banho, enquanto cuidava da sua roupa. A Hyuuga não se sentia confiante com a amiga escolhendo o que ela vestiria – Sakura tinha um senso retorcido sobre estilo –. Mas tinha de acreditar, uma vez que ela não tinha outras escolhas. Saiu, dessa vez com o cabelo molhado, e deixou que Sakura trabalhasse nela, suspeitando que a rosada estava se divertindo em tratá-la como uma barbie gigante. Vestiu um vestido estranho, mais apertado do que estava acostumada, com um tecido que deslizava, e colocou um sapato fechado com cadarços. Deixou que Sakura mexesse em seu fios, penteando-os, e, por mais que tivesse protestado, Sakura passou algumas coisas estranhas em seu rosto. Quando ficou pronta, Hinata não podia ver o resultado, mas Sakura estava satisfeita consigo mesmo.
A garota esperou que Sakura ficasse pronta, sentada sem se mexer, conforme a amiga mandara. Estava ansiosa, e sentia-se desconfortável. Não estava acostumada a usar vestidos justos ou sapatos que faziam barulho ou ter gloss em sua boca.
Ouviu a porta abrir e assustou-se um pouco, voltando de seu devaneio.
— Uau. – ouviu a voz de Tenten, e relaxou – Hina, você está linda! – a garota corou nas bochechas. Não estava acostumada, tampouco, a ser elogiada tão diretamente.
— Sakura trabalhou em mim. – respondeu, sem graça.
— Ela fez um ótimo trabalho! – Ino respondeu, entrando em seguida – Estão prontas? Já estamos indo! – Hinata não percebera que já era noite. Pôs-se de pé – Testuda, você está um arraso. – ouviu Sakura xingar, do corredor do banheiro, e riu – Ok, vamos. – sentiu um par de mãos em seu braço, puxando-a pela lateral, e apoiou-se na amiga, deixando-se guiar. Internamente, fez uma prece rápida para que tudo desse certo.
Não eram dez horas, mas o galpão já estava apinhado de gente. As luzes estroboscópicas piscavam para todos os lados, em cores neon, e era difícil caminhar. A decoração se concentrava em tons preteados, com faixas descendo pelo teto, que espelhavam os grandes refletores laterais. Uma mesa de DJ estava no palco improvisado, montado na frente. Haviam balcões laterais com copos, garrafas e bandejas de petiscos que ninguém comera ainda. Era uma produção surpreendente para a quantidade de dias em que a festa fora anunciada, mas ninguém esperava menos de Shion. A garota observava tudo de cima do palco, perto do DJ, com um olhar satisfeito. Usava seu melhor vestido vermelho e os saltos a deixavam enxergar melhor, embora as luzes não favorecessem sua maquiagem. Monitorava a chegada dos convidados e se estava tudo no lugar. Ao mesmo tempo, mantinha sua mão firmemente presa à de Naruto, que, ao seu lado, resmungava sem parar – tendo seus xingamentos perdidos no meio da música alta. Sabia que a loira estava ignorando-o propositalmente – apenas mais uma de suas habilidades –.
Naruto estava servindo de chaveiro desde o começo da noite, sendo arrastado de um lado a outro, se conseguir se livrar de Shion e sua vista grossa. Até mesmo Sasuke havia abandonado-o na metade do caminho, e teve a impressão de ver Gaara e Kiba perto da mesa de bebidas, mas, antes que pudesse chamá-los, foi levado a outro lugar, cumprimentando as pessoas com uma carranca.
Estavam parados há alguns minutos, e faltava muito pouco para Naruto chutar a caixa de som que explodia próxima ao seu ouvido, quando ouviu um silvo e olhou para o lado, assustado. Shion encarava um ponto específico a sua frente com os olhos injetados, mesmo que seu sorriso fosse assustadoramente grande. Seguiu o olhar da garota e tomou um novo susto, surpreso. Seu rosto passou de irritado para embasbacado, quando avistou Sakura chegar com suas amigas – e, por amigas, incluindo Hinata.
Lá estava ela, linda. A palavra “linda” não chegava nem aos pés da garota. Naruto não conseguiu vê-la por completo, mas vislumbrou o colo de seu vestido preto, com um decote arrendondado, e a saia esvoaçante, se perdendo no mar de pessoas. Seu rosto, no entanto, parecia polido, quebrável. A pele, outrora leitosa, agora estava corado, com os olhos cheios de maquiagem e a boca rósea, brilhante. Como uma boneca, Naruto achou difícil resistir ao impulso de descer e guardá-la consigo, para protegê-la. Avistou também, a contragosto, os olhares que a Hyuuga atraiu. Sakura, mais próxima de si, puxou-a com força, sussurrando algo em seu ouvido e vendo-a assentir.
Naruto não notou, mas Shion parecia exultar ao seu lado. A garota comemorou internamente quando avistou a Hyuuga entrar. Não tinha certeza se ela iria até a festa, mas, naquele momento, tudo estava exatamente como ela planejara.
Apressadamente, puxou Naruto com um solavanco, abrindo espaço para o palco do DJ, o ponto mais alto do galpão. O Namikaze a xingou, tropeçando, mas a seguindo sem resistir, virando o pescoço para manter os olhos em Hinata, e a perdendo depois de alguns segundos.
Ino havia abandonado-as assim que chegara, mas Hinata ainda sentiu as mãos de Tenten e de Sakura em seus cotovelos. A música era alta, e incomodava sua audição. Era jogada para os lados, com as pessoas trombando em seus ombros, e estar desnorteada deixava-a incomodada, na defensiva. Não conseguia se localizar, estava um tanto assustada, e agarrou as mãos de Sakura com força.
— Hina, vamos para um canto mais calmo! – Sakura gritou próxima a seu ouvido, e Hinata assentiu, e começou a andar, em passos lentos e curtos.
Não soube dizer o quanto tinham andando até que pararam. Sakura a puxou para perto, e ficaram paradas. Tocava uma música dançante, com batida viciante, e Hinata sentia vontade de dançar, mesmo com vergonha. Ainda não se acostumara com o ambiente barulhento, e se certificava de estar segurando a mão de Sakura o tempo todo.
Naruto não sabia que estavam indo para o palco até chegarem. Shion disse algo para o DJ, que assentiu e parou a música. Houve uma onda de protestos, e um holofote de luz cegante voltou-se para a garota, e Naruto, ao seu lado, que teve de levar a mão aos olhos. Não entendeu o que a garota estava fazendo. Provavelmente mais alguma de suas oportunidades de chamar a atenção. Enquanto isso, aproveitou para procurar Hinata, mas não conseguiu encontrá-la.
— Boa noite a todos! – Shion falou em um microfone sem fio, sorrindo largamente – Agradeço por terem vindo! – aplausos ecoaram pelo lugar – Obrigada, obrigada. Agora, antes que possamos festejar até cair – muitos risos, e a próprio Shion soltou uma risada curta – eu gostaria de falar sobre uma pessoa em particular, que está aqui hoje! – Naruto parou, confuso, olhando para Shion, com o coração disparando. Na multidão, burburinhos sobre o que estava para ocorrer – Uma aluna nova entrou na Academia esse ano, e não tivemos tanto contato assim!
Naruto congelou, e sua vista se tornou turva. Os alunos, atentos, fizeram barulho, e Hinata não entendeu o que estava acontecendo. Como se sua cabeça não estivesse trabalhando na mesma frequência do que estava acontecendo.
— Hyuuga Hinata, vem aqui para frente, para a gente poder te ver! – a garota anunciou, com sua melhor pose, e começou a confusão.
Hinata, que estava com Sakura, sentiu um forte empurrão, e gritou. Alguém puxou-a pelos ombros, e ela sentiu os dedos da Haruno desfazerem o aperto em seu braço. Várias mãos empurraram seus braços e ombros, jogando-a para frente, e não perdeu o equilíbrio porque era amparada por novas pessoas. Trombou em desconhecidos, batendo em peitorais e tropeçando em pernas esticadas. Sentiu-se enjoada, e sabia que sua pele ficaria com alguns hematomas. Parou, abruptamente, levando o pé para frente para se manter de pé. Sentia vontade de chorar, confusa. De repente, clareou. Estava quente, e ardia. Ela tentou gritar por Sakura, mas haviam vozes, várias delas, e risadas.
— Shion, o que você pensa que está fazendo? – Naruto puxou Shion pelo braço com uma força desmedida, e a garota loira o fitou com os olhos raivosos antes de puxar o próprio braço, se livrando do aperto e trocando a carranca por um sorriso largo. Naruto estava desesperado, procurando por alternativas. Não conseguia enxergar direito, e uma roda se formou onde o holofote apontava, no centro, Hinata, com a expressão assustada. O garoto sentiu um bolo na garganta, e vários dos rostos estavam voltados para ele também.
— Agora, queridos, vamos dar as boas vindas que nossa amada Hyuuga merece! – anunciou a loira em seu microfone, sendo seguida por nova onda de aplausos e assovios.
Havia muito barulho, e estava claro. Hinata virava-se, tentando concentrar sua audição, gritando por alguma de suas amigas, mas tinha medo de se mover e acabar caindo. Seu coração estava desritmado, e ela estava com medo.
Shion sorria, de uma maneira que fazia suas bochechas doerem. Virou para trás, para duas outras líderes que aguardavam suas ordens. Acenou com a cabeça, e voltou-se, para não perder o show. Durou apenas um instante. O barulho chegou primeiro, um estrondo alto, como água caindo, e todos se calaram. Em seguida, viram. Para todos os lados. Quando a lata de metal despencou, o galpão já estava silencioso, cheio de rostos chocados, luzes coloridas. E tinta.
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