Quimera
20 Recomeçar
Notas iniciais
— Nós somos cegos apenas para o que queremos ser.
A queda aconteceu em um ápice de segundo, mas todos pensaram ter acompanhado a cena em câmera lenta, quadro a quadro. Nenhum par de olhos piscou, se movendo lentamente até o momento, inevitável, do impacto. Houve um barulho alto, embora o choque tenha sido amortecido contra o corpo miúdo da garota no centro da roda. Segundos se passaram, e ninguém ousou emitir algum som. Baixo, um grupo específico de pessoas ria com as bocas tampadas pelas mãos, os ombros mexendo, curvadas. Todo o trabalho de colocar a pesada lata no alto – entre as vigas de ferro que sustentavam o teto, e depois prendê-la com uma corda estrategicamente posicionada para ser puxada e tombar seu conteúdo – fora compensado naquele instante.
Os minutos que se seguiram equilibraram-se entre a comoção e a desorientação. Hinata, no centro, sentia o corpo tremer, mas não conseguia reagir. Percebia uma textura melada, pesada, grossa, de cheiro estranho, escorrer por seus braços e cabelo. No alto de sua testa, um filete incômodo caía mais lentamente, até chegar na altura de suas sobrancelhas, e passar rente a seus olhos. A garota tremulava fortemente, sem reação. No escuro, seus ouvidos zumbiam, surdos, e seu corpo estava sujo, denso. Quanto mais aquela solução escorria, mais Hinata tremia. O cheiro não era desagradável, mas a morena não conseguia identificar o que era. Queria sair dali, mas não conseguia se mover.
Apesar de o tempo parecer estar escorrendo, algumas reações levaram apenas segundos para serem tomadas. Sakura, que fora violentamente afastada de Hinata por fortes pares de mãos e empurrões, percebeu o que estava acontecendo tarde demais. Quando ergueu os olhos, avistou a chuva de tinta caindo diretamente na amiga. Não teve oportunidade, no entanto, de sentir-se perplexa, embora fosse isso que sua mente gritasse naquele momento. Em passos rápidos, empurrou as pessoas que estavam a sua frente com demasiada força, ouvindo reclamações e ignorando-as. Sem pensar muito, alcançou Hinata, tocando-a pelos ombros, sem se importar em manchar a si mesma.
— Hina, sou eu. – falou próxima ao ouvido da Hyuuga, que assentiu, reconhecendo a voz da Haruno. Apesar de saber quem era, Sakura reparou que a amiga estremecia fortemente, paralisada. Seus olhos, faiscantes de raiva, moveram-se para o alto do palco, onde Shion observava a cena com um sorriso divertido. Se não fosse por Hinata, Sakura teria agarrado-a ali mesmo pelo pescoço. Em vez disso, moveu os olhos para Naruto, que, em igual choque, permanecia ao lado da líder de torcida. As íris esverdeadas de Sakura transmitiram uma mensagem silenciosa, que fez o loiro engolir em seco.
Naruto teve um insight. Uma compreensão súbita de algo, um lampejo de esclarecimento. Assim que a movimentação se iniciou, o Namikaze teve a impressão de que sua visão estava embaçada. As cenas ocorreram rápido demais, mas ele não se sentiu preocupado – porque, de alguma maneira, Naruto já sabia o que aconteceria. Cada célula em seu corpo paralisou, e a falta de oxigênio em seu cérebro deixou-o ofegante e cambaleante, mas tudo aconteceu rápido – e devagar – demais. Naruto sabia. Ele sabia o que estava acontecendo, sabia o que já tinha acontecido.
Quando seus olhos focalizaram o pequeno corpo coberto de tinta, escorrendo pelas pernas, entretanto, foi como uma injeção de adrenalina diretamente em suas veias. Seus membros começaram a formigar, esquentando, e sua visão, outrora inebriada, agora estava afiada. Seu raciocínio estava limpo, e ele tinha plena consciência da garota ao seu lado, que ria. E seus punhos se fecharam.
Naruto também estava ciente dos sussurros. Das pessoas murmurando, apontando e rindo. Ele sabia que estavam falando dele. Afinal, ele era o grande Namikaze Naruto, e aquela era sua namorada, a rainha das artimanhas. A realeza, que sempre pisava nos inferiores. Ricos e populares, humilhando a garota cega por diversão. Naruto compreendia seus pensamentos, e a imagem que cultivavam sobre ele e sobre sua posição.
E onde isso havia levado-o até agora?
O loiro se virou, movido pelo ódio cego, e puxou Shion novamente pelo braço, em um aperto de ferro. A garota tropeçou em seus saltos, movendo-se para frente e buscando equilíbrio. Com alguns fios soltos em seu rosto, ela fitou Naruto, inconformada. Seus olhos eram ameaçadores, e ela detinha uma careta. Naruto teve uma boa criação – ele jamais machucaria uma mulher de propósito –, mas, naquele momento, ele não estava pensando muito nas consequências.
— Está doendo! – Shion sibilou, a ponto de fazer uma cena. O aperto não havia pego em nenhum ponto crítico, e ela poderia ter aguentado mais algumas horas, mas ela não aceitaria ser humilhada em público, por quem quer que fosse.
— O que você fez? – Naruto pensou ter sussurrado, porque seus dentes estavam cerrados, apertados de raiva, mas, aparentemente, todos escutaram. Seus olhos moveram-se do centro do galpão para o alto, no palco, atentos para o que seria mais uma das épicas brigas do casal.
— Qual é, fofo, foi engraçado. – Shion rolou os olhos, rindo novamente. Naruto fechou mais os dedos, e a garota soltou uma nova reclamação – Não é para tanto! – sua voz aumentou duas oitavas. Em momentos como aquele, Naruto teria levado-os para um canto afastado. O garoto gostava da atenção em si, mas nunca fora fã de plateias para escândalos. Todavia, não queria prolongar-se o suficiente para darem continuidade àquela discussão em outro lugar.
Sakura, aproveitando-se da distração, moveu Hinata devagar, caminhando por trás até os bastidores, uma parede falsa no galpão que guardava um pequeno quarto. A Haruno imaginou que as amigas já teriam se movido para o lugar, e providenciariam algumas toalhas e roupas limpas para Hinata. Naquele momento, a morena era a prioridade, mesmo que Sakura estivesse morrendo para permanecer no local e assistir, de camarote, o amigo finalmente tomar uma atitude.
— Você passou dos limites. – Naruto tinha muitas coisas a falar, mas percebeu que apenas não valia mais a pena – Chega, Shion. Acabou. – a loira parou, surpresa, e sua careta transformou-se, de repente, em uma máscara assustadoramente fria.
— Você não está falando sério. – Naruto soltou seu braço, e uma mancha vermelha apareceu no lugar. Estava prestes a dar as costas para sair – Namikaze Naruto! Você não vai terminar comigo! NÃO PODE FAZER ISSO! – gritou, e o loiro voltou-se, os olhos em brasa. Shion nunca havia notado como seus ombros era largos, e sua postura a fez recuar ligeiramente.
— Não posso? – o garoto franziu as sobrancelhas, os nós dos dedos brancos de tanto serem apertados – Shion, eu já fiz. Fique longe de mim. – seu tom não era verdadeiramente ameaçador, mas sério.
A escola toda parecia mais chocada com a cena desenrolado do que com o acontecimento anterior – cujas algumas pessoas ainda continham manchas e respingos em suas pernas –. Estavam entreabertas, murmurando não tão discretas, e apontando. Naruto desceu do palco, caminhando em passos pesados, e Shion permaneceu no lugar, sentindo a raiva fomentar dentro de si. Assistiu, imponente, seu plano virar do avesso, causando a reação oposto à que ela esperava. Recusou-se a olhar para frente, e ver todos comentando sobre seu abandono ridículo. Sentiu ser puxada para trás por uma de suas amigas, e se deixou ser levada, atônita demais para planejar seus próximos movimentos.
Enquanto isso, Sakura havia chego no quarto dos fundos com Hinata, e a feito sentar em um banco de madeira, preso a parede. A morena não havia dito uma palavra sequer durante o caminho, embora tivesse parado de tremer. Mantinha a cabeça baixa, e Sakura limpou a tinta que escorria em seu rosto com alguns lenços. Não tardou até que Ino e Tenten também chegassem. A loira tinha toalhas escuras em mãos, e a de cabelos chocolate trazia um roupão de aparência velha, mas limpo.
— Aqui. – Ino estendeu, com o rosto preocupado – Você ouviu? – perguntou para Sakura.
— Não teve como não ouvir. – a garota respondeu, distraída, limpando Hinata com delicadeza, passando a toalha e tirando o excesso de tinta de seus braços e torso – Eu achei pouco. Ele deveria ir na diretora e expulsar aquela vagabunda.
— Não é escolha dele. – Tenten quem respondeu, os olhos caindo na garota sentada, com a feição perdida – Hina, como você está? – a garota se aproximou receosa, colocando sua mão em cima do ombro. Hinata balançou a cabeça afirmativamente, mas não falou nada – Kami, eu quero matar aquela vadia. – grunhiu, se afastando e cruzando os braços.
— Ela foi longe demais. – Sakura estava com raiva, talvez mais que qualquer uma ali.
Foram interrompidas por um barulho alto e a porta se fechou, isolando, novamente, o ambiente do barulho exterior. Viraram-se, assustadas, mas relaxaram quando viram Naruto. O garoto respirava com dificuldade, o peito se movendo rapidamente. Entre as pessoas na sala, Sakura foi a que mais se retesou. Qualquer movimento ou frase errada ocasionariam em uma onda de perguntas que eles não poderiam responder naquele momento.
— Oi, Naruto. – Ino cumprimentou, com os braços cruzados – Está tudo bem?
— Na medida do possível. – o garoto respondeu, dando de ombros, já bem mais calmo – Vocês poderiam me dar alguns minutos? Por favor? – seus olhos se moveram diretamente para os da Sakura, que ficou tensa por três segundos antes de assentir.
— Vamos. – chamou as amigas, que concordaram, e se despediram temporariamente de Hinata.
Naruto percebeu que Hinata estava com as mãos apertadas sobre o colo. Embora já livre do excesso da tinta, seu corpo estava todo pintado, e o vestido novo estava completamente manchado. Havia respingos em seu rosto e cabelo, e, sob seus ombros, um roupão esfarrapado, que a aquecia. Embora o ambiente estivesse agradavelmente morno, Naruto pode vê-la estremecer, e ele, suava.
— Oi. – disse, com receio e a voz controlada. Tinha de tomar cuidado naquele momento. Ele era Naruto. Namikaze Naruto. O garoto babaca que tomou atitudes erradas, que Hinata não confiava.
— Vai embora. – surpreendeu-se com o tom defensivo, embora não parecesse realmente ofensivo em sua voz baixa. Apesar da represália, Naruto não se afastou. Sentou-se ao lado da garota, mantendo um espaço respeitoso entre eles.
— Eu queria me desculpar. – disse o mais sincero que pode, e Hinata percebeu suas intenções, tentando sair da retranca.
Hinata estava com medo. Até mesmo naquele momento, depois de estar segura e rodeada de suas amigas, ainda não conseguia se mexer, paralisada. Nunca se sentira daquele jeito, e não tinha conhecimento de como lidar. Estava com raiva, confusa, magoada, envergonhada. Sentia-se cansada, e seu corpo estava pegajoso, sujo. Ela estava suja, de várias maneiras.
Não conhecia o garoto que entrara, apesar de ter ouvido falar muito sobre ele. Mesmo sendo um desconhecido, e tendo várias motivos para repeli-lo, havia algo que a atraía. Como se já o conhecesse, de alguma maneira.
Naruto a encarava com expectativa, vendo-a franzir e desfranzir a testa diversas vezes, e sabia que ela estava pensando. Aguardou, respeitando seu tempo. Afinal, era culpa dele que ela estivesse naquela situação. Entre uma das várias que aconteceram, uma após a outra. Parecia que a simples presença de Naruto era como um ímã de azar, de problemas. Talvez ele e Hinata nunca pudessem coexistir em paz, verdadeiramente, sem que algo ou alguém os atrapalhasse. Mas, a cada vez que pensava em desistir, Naruto sentia um aperto, como nunca antes. Era doloroso. Ou ele era covarde demais. Não importava.
— Você é namorado dela, não é? – Hinata perguntou, quebrando o silêncio. O quarto não tinha lâmpadas, mas as luzes do lado de fora iluminavam por uma pequena portinhola, e Naruto conseguia ver os reflexos de Hinata, impassiva. O garoto estava inquieto. Era desconcertante conversar com ela como Naruto.
— Era. – suspirou, seus ombros aliviados com a palavra que saiu, pela primeira vez, da sua boca. Tornando tudo real – Nós terminamos. Escute, Hinata... – percebeu a garota se movimentando, atenta – Eu queria me desculpar. Por tudo que aconteceu. Pelo que Shion fez. – Naruto tinha consciência que desculpas não eram o suficiente, nem ao menos chegavam perto, mas ele precisava começar em algum ponto. Estava determinado, com um novo objetivo, e, para isso, precisaria conquistar a confiança de Hinata, precisaria fazê-la acreditar que ele não era a mesma pessoa de meses atrás.
Hinata não respondeu, a princípio. Seu peito estava apertado, e seu coração batia rápido. Ao longo de sua vida, Hinata passou por muitas situações em que precisou perdoar. Com o tempo, aprendeu algumas lições preciosas, e teve de entender que ressentimento era algo que envelhecia o coração. Era parte da sua personalidade, irremediavelmente, ser bondosa – e, sabia também, o que certas pessoas diziam sobre isso –. De fato, Hinata não tinha dificuldade em perdoar as pessoas, porque ela entendia que elas eram como eram, e mudar levava tempo. Ela desculpava, esquecia, superava, e, então, recomeçava. Acredita no melhor de cada um, porque ela não tinha outra opção. A Hyuuga não tinha como identificar mentiras, e, dessa forma, desenvolveu uma forte intuição, acreditando, sobretudo, na força do universo e do carma – tudo que as pessoas faziam, voltavam para elas –.
Hinata sabia como perdoar, mas isso não significava que era fácil.
Ela estava ali, na presença de um garoto que não conhecia, coberta com algo gosmento e sujo, humilhada, confusa. E sentia-se confortável. A atmosfera estava leve, e ela não sentia vontade de chorar. Estava com raiva, mas evaporara, e tudo que ela desejava naquele momento era um bom banho. Hinata não sabia o motivo que levou aquela garota a fazer aquilo – conhecera diversos exemplos do mesmo tipo, embora não compreendesse o porquê de serem o que eram –, mas aquele garoto, Naruto, estava ali, pedindo desculpas, sendo sincero. Se importando o suficiente para isso.
Hinata tampouco esquecera o episódio perto dos ginásios. O sentimento de pena era, de longe, o mais doloroso. Mas ela não era digna de pena. E Naruto não estava ali para sentir pena dela. Ele estava ali porque parecia arrependido.
Para o Namikaze, aqueles minutos em silêncio foram simplesmente torturantes. Encarava Hinata com expectativa, mas a garota parecia imersa em um universo particular de pensamentos. Ela permaneceu imóvel, mantendo somente o movimento dos ombros em respiração. Por fim, a Hyuuga se empertigou, os olhos fixos em algum ponto no canto da parede.
— Naruto, certo? – Naruto assentiu por força do hábito, mas era mais uma pergunta retórica – Você não precisa se desculpar. – Naruto se surpreendeu, com uma centelha de culpa se acendendo – Eu aprecio a sua atitude. – o loiro respirou aliviado – Nós podemos recomeçar. – estava incerta, mas foi o suficiente para Naruto.
— Sim! – exclamou, rápido demais – Sim. – repetiu, mais controlado e um tanto envergonhado. Pode ver a sombra de um sorriso, e se aqueceu – Eu agradeço a chance. Eu me arrependo muito, por tudo que aconteceu. E haverão consequências. – sua voz era séria e decidida, surpreendendo, dessa vez, à Hinata.
— Não precisa se preocupar com isso. – Hinata parecia envergonhada com tanta determinação. Não estava acostumada com as pessoas tomando a frente por ela, defendendo-a, mesmo que suas amigas fizessem isso com considerada frequência.
— Eu faço questão. – Naruto procuraria Tsunade na segunda-feira, e faria uma reclamação formal. Não seria mais manipulado por Shion.
— Obrigada.
Hinata estava curiosa. Alguma coisa naquele garoto a atraía, deixando-a intrigada. Ela mantinha o pé atrás com a maior parte das pessoas, mas, naquela Academia, era como uma força, um campo de atração, que a impelia a confiar em quem se aproximava dela. Talvez fossem suas experiências antigas. Não era acostumada com amizades fáceis. Era um espírito solitário, mas começara a se acostumar com o brilhante que suas amizades deixavam. Era perigoso, mas viciante, de uma maneira boa. Não conseguia ver, mas era quase como se pudesse sentir a aura de Naruto.
— A gente já se conhecia? – perguntou, de supetão, e Naruto suou frio, pego de surpreso.
— Nós já nos falamos antes. Na competição, eu fui te parabenizar. – levou a mão à cabeça, agradecendo por estar parcialmente escuro, e sua culpa não inflou totalmente, por estar dizendo uma meia-verdade.
— Eu me lembro. – Hinata, por outro lado, não parecia completamente satisfeita, mas deixou o assunto de lado, por enquanto.
A porta foi aberta uma nova vez, e apenas Sakura e Ino entraram. Pareciam sem fôlego, e o ambiente se tornou mais iluminado. A luz estava clara e forte, como se tivessem acendido as lâmpadas, em vez dos refletores neon. Naruto se pôs de pé, agindo por instinto, e desviou do olhar penetrante que a Haruno lhe encaminhava.
— A Shion colocou todo mundo para fora. – Sakura comentou, indo para perto de Hinata, protetoralmente – Você precisava ver. Ela deu um ataque. – a rosada riu disfarçadamente, mas Ino soltou uma risada alta.
— Acho que a festa acabou. – a loira apontou – A Tenten foi junto com algumas das meninas para descobrir alguma coisa. – rolou os olhos – A gente acha que ela teve uma motivação para fazer essa palhaçada toda. – informou a Yamanaka para Hinata, mas foi Naruto quem se encolheu. Sakura disfarçou, encarando o garoto com o canto do olho.
— Ino, você leva a Hina até nosso quarto? Eu vou logo atrás. – a loira assentiu, e a Hyuuga se levantou, caminhando em passos hesitantes, enquanto Ino segurava-a pelos cotovelos, tagarelando distraidamente, enquanto a outra assentia e sorria curto.
— Até mais, Sakura. – Hinata falou, antes de saírem do pequeno quarto – Boa noite, Naruto. – o loiro surpreendeu-se, quase perdendo a voz. Mas conseguiu recompor-se a tempo.
— Boa noite, Hinata. – ainda bem que eu não gaguejei. As garotas saíram, restando apenas o Namikaze e a Haruno.
Ainda conseguiam ouvir o barulho de vozes e movimentação. Uma brisa fria entrava pelas frestas, mas a poeira dos móveis abandonados fazia o nariz de Naruto arder. Sua cabeça ainda processava lentamente o que havia acabado de ocorrer. Como um filme, surreal demais para a realidade. Provavelmente, naquele instante, ele estaria se tornando, novamente, o assunto mais falado pelos corredores.
Sakura prostrou-se ao seu lado, observando-o.
— Você está bem? – era a primeira vez que alguém perguntava para ele. Assentiu, deixando os ombros cair de cansaço.
— Estou. – sua voz se arrastava, e ele a fitou com os olhos gratos. Sakura sempre permanecia ao seu lado, não importavam as circunstâncias.
— Foi muita coragem sua, sabe, terminar com a Shion na frente de todo mundo. – comentou, e Naruto evitou soltar um gemido desgostoso. Não queria pensar naquilo agora, ou em qualquer outra oportunidade. No calor do momento, pareceu a coisa certa a se fazer, mas, depois que seu ímpeto de raiva se esvaíra, começara a se preocupar como se refletiria nos próximos dias – Fica tranquilo. – Sakura pareceu adivinhar o que se passava em sua cabeça – O que quer que ela faça, não vai ser pior do que ela te fez passar nesses anos de namoro. Sinceramente, se você não matasse ela, eu mataria. – o clima se tornou instantaneamente ameno, e Naruto conseguiu soltar uma risada. Passou os braços pelos ombros de Sakura, em um abraço lateral, e começaram uma caminhada juntos.
O lugar estava quase deserto àquela altura, e as luzes estroboscópicas foram retiradas, assim como o palco do DJ. A decoração permanecia pendurada, e, no chão, os resquícios de tinta, agora secos. Naruto trancou a mandíbula ao ver as pequenas manchas coloridas. Sakura estava certa. Shion havia passado dos limites, e ficar com ela se tornara tóxico, cansativo. Não era justo insistir naquela merda de relacionamento apenas por capricho, ou luxúria. Muita coisa mudara desde o começo do ano, quando Naruto gostava de exibi-la em seus braços. A líder de torcida mantinha uma personalidade sufocante por si só, mas decidira mexer com Hinata – que não havia feito absolutamente nada para ela.
Naruto não podia ficar se escondendo para sempre atrás do medo de se posicionar. Estava na hora de deixar claro o que era justo, o que era certo. Ele ainda sentia medo, ainda sentia receio, e, por Kami! Ele estava apavorado com o que Shion poderia fazer – e ela faria— no futuro. Mas, de alguma maneira, foi impulsionado a fazer aquilo. Foi algo por ele, apesar de ter sido motivado por Hinata. De todo jeito, não havia mais volta. E, mesmo aterrorizado, Naruto sentia-se livre, como há tempos não o sentia.
— Então, agora você é o Naruto? – Sakura perguntou, de repente, e o garoto suspirou, sabendo bem do que se tratava – É só uma pergunta. Para eu me preparar também. – a rosada ergueu uma sobrancelha, atenta, e Naruto grunhiu.
— Eu sou o Naruto. – resmungou – Preciso fazer com que ela confie em mim como Naruto, ou eu nunca vou conseguir me aproximar. E o que aconteceu hoje, eu precisava fazer alguma coisa. – sua voz parecia mais tenaz, espantando Sakura.
— Você sabe que não vai ser fácil, não depois de tudo o que aconteceu. E você ainda tem uma reputação a zelar.
— Nem me lembre. – amolou, desanimado. Maldita reputação.
— Mas eu acho que você consegue. – Sakura completou, concreta, e Naruto conseguiu abrir um sorriso torto. Saíram do galpão, ganhando a madrugada gélida, com o céu coberto de nuvens. O vento estava frio, mas revigorante. Ao longe, conseguiam ver alunos entrando pelos corredores laterais, silenciosos – O que quer que aconteça, Naruto, eu vou estar com você. – o loiro a fitou, com a garganta fechada de gratidão.
Prosseguiram em silêncio, abraçados, até chegarem ao dormitório. A noite parecia ter corrido como um borrão, e Naruto também estava preocupado com o que aconteceria no futuro. Mas, ao se lembrar da cena, e de todas as outras protagonizadas por Shion, sentia uma vibração agressiva subir por sua coluna, e, quando percebeu que o sentimento de querer proteger Hinata importava mais que qualquer imagem a zelar, Naruto soube que havia tomado uma decisão, e dado um novo passo,
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