Quimera

21 Conversa


Notas iniciais
Eu realmente tinha decidido que iria postar em outras fics depois de terminar AMONGUS, mas eu vi que, no último dia 07, a fic completou UM ANO! Dá para acreditar?! Eu estou simplesmente CHOCADA, porque eu estou me dedicado há muito tempo nessa história, e tentando melhorar cada vez mais, então é incrível perceber como passa rápido. Tem leitores que acompanham desde o começo! Então decidi escrever algo, apenas simbólico, porque é uma data especial. Não é nada importante, mais como um episódio que vai servir para concretizar esse novo envolvimento entre eles, com vários diálogos. Espero que gostem! Acredito que vou demorar um pouco para postar novamente, mas, quando o fizer, definitivamente postarei algo significativo, prometo! Enquanto isso, gostaria de agradecer imensamente a cada um que comenta e acompanha. Vocês quem fazem a fic, quem me motivam e inspiram diariamente. Muito obrigada por esse um ano!

— Ninguém consegue mentir, ninguém consegue esconder nada, quando se olha diretamente em seus olhos.

Durante o fim de semana, não houve uma só pessoa que não falou sobre a festa. O local fora devidamente esvaziado e limpado antes das onze horas, mas passaram-se quase três dias inteiros, e ninguém esquecera ainda. Era um domingo quente, como esperado dos meados de julho, e as janelas estavam escancaradas, enquanto os garotos permaneciam deitados no chão gelado, em silêncio.

Uma nova batida na porta fez com que Naruto soltasse um resmungo alto, abafado contra o travesseiro fofo em sua cara. O loiro estava com as pernas suspensas sobre a cama, e usava apenas uma bermuda. Mais batidas, dessa vez mais altas. Naruto continuou a choramingar, até que Sasuke bufou, se levantando de perto do corredor e indo para atender.

— Ele não está! – levou cerca de três segundos, e o Namikaze não teve tempo de ver os rostos decepcionados das garotas do outro lado do dormitório. Mas, realmente, não fazia diferença – Porra, Dobe, eu não sou seu porteiro! – o Uchiha soltou, enquanto deitava novamente com a barriga para cima. Naruto sabia que o amigo tinha muita paciência, e sentiu-se culpado de fazê-lo inventar desculpas a cada minuto para salvar sua própria pela.

— Foi mal, Teme. – Naruto suspirou, soando verdadeiramente chateado – Eu só não aguento mais. Eu queria sumir esse fim de semana. – apertou um travesseiro sobre o rosto, frustrado.

Naruto realmente imaginou que o pior que poderia acontecer com ela era continuar a namorar Shion. Doce engano. Apenas doze horas após seu término oficial – espetacularmente presenciado por noventa por cento da escola na noite anterior –, o Namikaze recebeu mais assédios que poderia contar. As garotas simplesmente batiam em seu dormitório, fossem do primeiro, segundo ou terceiro ano. Nas primeiras horas da manhã, Naruto se importou em atender, com sua habitual cara de sono, e arriscou um sorriso educado ao dispensá-las. No entanto, elas não pararam. Vinham, uma após a outra, em grupos, com presentes e olhares ansiosos. Depois de algum tempo, o loiro apenas obrigou Sasuke a atender e dizer que ele não estava – o que estava bem perto de acontecer, visto faltava realmente pouco para Naruto se enterrar em travesseiros até morrer –.

Em outros tempos – apenas meses atrás –, Naruto teria adorado todo aquele assédio, a atenção. Unicamente amado. Teria se dedicado a sair com o maior número de pretendentes possíveis, e se exibido pelos corredores. Teria vestido sua jaqueta do time de luta e passeado pelos jardins com os óculos escuros e alguém dependurado em seu braço. Mas era diferente. Tudo estava diferente, em níveis absurdamente altos. Como uma nova vida, de uma nova realidade, que Naruto nunca imaginaria existir, mas estava preso, inevitavelmente.

Havia outros fatores relevantes naquela balança. Ou apenas um fator. Um fator cego de maçãs que coravam facilmente.

Pensar em Hinata fazia com que o coração de Naruto palpitasse ridiculamente, sem que conseguisse controlar. Suas mãos suavam, e ele se sentia um belo covarde, porque a garota parecia ocupar seus pensamentos em todos os momentos das últimas noites. Naruto finalmente teve a chance de se redimir com sua persona real, e conseguiram manter uma conversa normal por tempo suficiente sem que Hinata acabasse magoada ou achando que o loiro era um babaca – era, de fato, um grande avanço –. Mas ele precisava se arriscar. Precisava conquistar a Hyuuga como Namikaze Naruto, e levar em frente seu plano.

Logicamente Naruto não estava pensando no que aconteceria depois. Terminar com Shion fora o ápice para sua popularidade dentro daquela escola, mas o garoto não tinha certeza se continuaria tão requisitado caso soubessem de seus verdadeiros sentimentos. Naquele momento, estava pisando em ovos, e parte de si queria desesperadamente manter aquela crescente – ao menos, o suficiente para que seu pai ficasse a par. Não que fosse fazer grandes diferenças, de qualquer maneira –.

— Você deveria aproveitar que está finalmente livre. – Sasuke ergueu uma sobrancelha para ele, com seu habitual ar de quem sabia das coisas, ao passo que Naruto apenas grunhiu novamente, considerando parar de falar e começar a se comunicar exclusivamente através de sons estranhos com a garganta – Estou falando sério, Dobe. É domingo, estamos cozinhando, e falta pouco para as férias. Você deveria aproveitar sua oportunidade.

Naruto finalmente desviou os olhos para o amigo, surpreso por não ter se lembrado das férias de verão antes. Algumas semanas em casa definitivamente não era o que ele precisava no momento. Sentia saudades da mãe e do irmão, mas a presença de Minato era sufocante demais para aproveitar seu descanso. Provavelmente ele o obrigaria a rever todas as matérias e estudar o dia todo.

Além disso, férias implicavam em um assunto um tanto mais delicado – ficaria sem ver Hinata. Logo no momento em que deu um pontapé inicial, se afastar por dias seria como dois largos passos para trás. Era crucial que eles estabelecessem o mínimo de vínculo, ao menos para que a garota se lembrasse dele. Se ao menos tivesse Sakura consigo, ela saberia o que fazer. Ela sempre sabia.

E, de repente, houve a iluminação.

Naruto se levantou com um salto, desequilibrando-se e levando alguns cobertores consigo para poder permanecer em pé. Sasuke se assustou com a movimentação repentina, enquanto observava o amigo buscar por uma camiseta surrada qualquer e vesti-la as pressas.

— Resolveu colocar a cabeça para pensar? – provocou, mas o loiro estava animado demais para ligar. Apenas assentiu, penteando os fios com os dedos e passando desodorante.

— Eu vou até o dormitório dela! – anunciou como se, subitamente, tivesse descoberto que o céu era azul – Como não pensei nisso antes! – buscou seus chinelos e o celular, seriamente quebrado de algum dos ataques de fúria que o loiro tivera.

— Era o que eu estava tentando te dizer, idiota. – Sasuke rolou os olhos, mas o Namikaze novamente não se importou, sorrindo largamente, tão iluminado que o Uchiha teve de abrir seu próprio, rindo de como o amigo conseguia ser simplista quando queria.

— Tudo bem, eu vou lá. Espera! – parou a centímetros da porta, o rosto sorridente desaparecendo, dando lugar a uma feição assustada – O que eu vou dizer? – estava a beira de uma crise, e Sasuke quis rir.

— Apenas pergunte se ela está bem, seu dobe. E depois seja você mesmo. Conversem um pouco. – o moreno deu de ombros – Apenas para que ela saiba que você se importou o suficiente para ir visitá-la.

— Uau. – Naruto o encarou verdadeiramente fascinado – Você falou igual a Sakura agora. – abriu um sorriso malicioso, desta vez – E por falar nisso, preciso de um favor. – seus olhos eram expressivos e Sasuke imediatamente balançou a cabeça, receoso – Ah, por favor Teme. – rolou os olhos – Não é como se não rolasse uma atração absurda entre vocês dois.

— Não sei do que você está falando. – foi a vez de Sasuke resmungar, com sua habitual feição entediada.

— Bom, só coloquem o papo em dia. E seja legal. — orientou, rindo quando o garoto levantou seu dedo médio.

Naruto fechou a porta atrás de si, piscando rapidamente quando o sol bateu diretamente contra seus olhos, cegando-o momentaneamente. Depois que se adaptou com a claridade excessiva, andou rapidamente até o extremo norte do corredor, em direção aos dormitórios femininos. Agradeceu por estar com sorte naquele dia – não encontrou nenhuma admiradora fanática –. Não se lembrava ao certo de as regras permitiam que alunos do sexo masculino transitassem nos corredores dos dormitórios femininos aos fins de semana, mas, para não abusar do universo, resolveu ser rápido. Deu duas batidas fortes da porta, esperando, ansioso.

— Sakura, sou eu! – falou, para se certificar de que a garota abriria.

Sakura, por outro lado, assustou-se quando ouviu o barulho. Estava concentrada lendo um livro de romance qualquer, com os pés apoiados próximos ao ventilador, que não estava ajudando muito na situação. Não esperava visitas àquela altura, e, um pouco a contragosto, resolveu saber o que Naruto queria.

Quando abriu, retesou os olhos com a claridade, que parecia emanar do próprio Namikaze, uma vez que o garoto brilhava excessivamente com seu cabelo perfeitamente desarrumado e seu sorriso branco de trinta e dois dentes. Sakura imediatamente cruzou os braços. Ela conhecia quando Naruto queria aprontar alguma coisa.

— O que você quer dessa vez? – perguntou, direta e reta, e o garoto sequer fingiu-se ofendido, tentando espiar por cima do ombro da amiga.

— Quero falar com ela. – respondeu, a voz um tanto mais baixa, e Sakura baixou um pouco a guarda, olhando para trás e suspirando.

Havia dias em que era fácil ler Hinata. A garota era simples e objetiva quanto ao que estava sentindo, e, usualmente, se encontrava sempre em um mediano de serenidade e paciência. Era alegre e tranquila, exceto quando grandes acontecimentos faziam-na chegar no pico de seu estresse emocional – Sakura ainda não superara o episódio que ocorrera envolvendo seu querido amigo –. De qualquer forma, Hinata era uma pessoa estável e confiável.

Mas, desde a noite da festa, Sakura não tinha muita certeza do que estava acontecendo. Quando chegaram, conseguiram, com sucesso absoluto, remover cada vestígio de tinta que havia no corpo da Hyuuga. A morena sentiu-se envergonhada de Sakura tê-la ajudado no banho, mas a Haruno afirmou não se importar – já havia dado mais banhos em uma Ino bêbada do que poderia contar. Então, para que Hinata não se sentisse mais culpada, Sakura também conseguiu limpar o vestido, com algumas gotas de cloro e sabão em pó. Assim, já de madrugada, a rosada colocou a amiga para dormir, preocupada em como ela acordaria. Desde o ápice, Hinata não derramara uma lágrima sequer.

No dia seguinte, a morena dormiu até a tarde, o que, por si só, era atípico. Comeu pouco, o mínimo que Sakura havia levado para ela, e permaneceu na cama o tempo todo, calada. A Haruno considerou uma reação normal, visto o que tinha acontecido, e preencheu o silêncio com um falatório desnecessário e superficial, falando sobre as revistas de moda que lia ou sobre como todos estavam comentando o fora épico que Shion havia levado. Para todos os efeitos, Hinata não reclamou – ela não falou nada.

Naquela manhã, a garota chegara a levantar e tomar um banho, colocando uma muda de roupas frescas e limpas, mas ainda permanecia na cama, deitada, com a cabeça virada para a parede. Sakura não queria incomodá-la, mas sabia que, se Hinata se fechasse em uma bolha particular, não saberia como tirá-la de lá.

Voltou-se para Naruto, com sua animação excessiva e dispensável. Com um novo suspiro, decidiu deixá-lo entrar. Se alguém conseguiria fazê-la falar, era ele.

— Tudo bem. Mas não abuse. – deu espaço e deixou que o amigo passasse. Naruto entrou, agradecendo com a cabeça e depositando um beijo rápido em sua bochecha.

— Ah, quase me esqueci. – se voltou, com um sorriso travesso que Sakura não conseguiu identificar a tempo – Sasuke está morrendo por companhia. Até mais! – e empurrou a garota para fora, fechando a porta em seguida. Sakura tropeçou, atônita, querendo bater no Namikaze.

— NARUTO! – ouviu o garoto rir do lado de dentro, e balançou a cabeça. Sabia que merecia aquilo, e deixá-los sozinhos talvez fosse mais vantajoso. No entanto, não estava realmente preparada para passar algum tempo sozinha com ele. Só a possibilidade deixava seu estômago nervoso. Respirou fundo e começou uma caminhada lenta, rezando para que Naruto tivesse mais sorte que ela.

O loiro respirou fundo, ainda com os ombros tremendo de riso. Acalmou-se e virou-se para o pequeno dormitório, com algumas roupas espalhadas pelas cadeiras e a cama de cima do beliche bagunçada. Na cama debaixo estava Hinata, deitada para a parede. Naruto não saberia dizer se ela estava dormindo ou acordada, mas havia feito barulho suficiente.

Aproximou-se, sentando na beirada e curvando as costas para não bater a cabeça. Analisou a garota, que não se moveu com a aproximação. Usava uma calça de linho e uma camiseta branca ligeiramente amassada, e o cabelo parecia um tanto úmido. Naruto não se cansaria do cheiro de lavanda que chegava em seu nariz, mesmo tão longe.

— Oi. – cumprimentou com a voz propositalmente um pouco mais alta. Esperou, sem resposta, mas poderia jurar que a viu se mexer minimamente.

O garoto não se sentiu confiante em dizer algo. Tinha certeza que Hinata sabia que era ele – Naruto, queria dizer –, mas tinha medo de que algum traço em sua atuação denunciasse Menma. Ele não estava preparado para se revelar ainda, embora admitisse que, como o outro, teria bem mais chances de convencer a Hyuuga a se abrir. Suspirou. Era tudo tão difícil.

— Como você está? – tentou novamente, indeciso entre se aproximou ou não. Permaneceu no lugar. A janela estava aberta, e balançava um simpático cortinado de rendas. O vento sacudia os lençóis sobre eles, revelando um livro que descansava debaixo da cama.

Nada. Mais silêncio. A tarde era quente, ensolarada, e nem mesmo os pássaros estavam fazendo algazarra do lado de fora. Naruto gostava do claro. Do brilho do sol, em como os raios solares iluminavam o ambiente. Gostava da luz. Em meio a essa reflexão, não pode deixar de pensar em como seria viver no escuro. Nunca ter visto as cores, o resplendor. Seu coração encheu-se de compaixão. Não como pena – mais como um sentimento cálido, uma necessidade de ajudar. Naruto surpreendeu-se com seus próprios pensamentos.

— Se você não falar comigo, eu vou ser obrigado a tomar previdências drásticas. – tentou manter o seu melhor tom sério – Eu vou ter que cantar. E eu te garanto que eu sou um péssimo cantor. – segurou o riso, mas estava falando sério. Àquela altura, descobriu que faria qualquer coisa para arrancar de Hinata uma palavra, uma risada. Uma reação.

Aparentemente a ameaça surgiu efeito. Fosse por ter cedido, fosse por querer paz e sossego, Hinata levantou-se. Sentou-se com as pernas cruzadas, e parte de seu rosto continha uma mancha avermelhada, por estar apoiada contra as mãos. Seus olhos estavam inexpressivos, mas não tinha traços de estar dormindo. Sua feição era neutra, mas Naruto não viu traços de raiva. Alargou o sorriso.

— O que você quer? – a voz de Hinata falhou, como se há muito não a usasse, e ela pigarreou levemente. Não parecia irritada, e tampouco animada. Falava polidamente.

— Conversar. – Naruto falou como se fosse óbvio, e quase riu quando ela uniu as sobrancelhas e cruzou os braços. O vento bagunçava seu cabelo, e a franja caía sobre seus olhos.

— Eu não quero conversar. – a garota foi direta, e Naruto bufou.

— Ótimo, só eu falo, então. – prendeu o riso. Apenas estar na presença da garota deixava-o absolutamente extasiado (de uma maneira completamente ridícula).

— Você é bem insistente, não é? – Hinata suspirou, desfazendo os braços cruzados e recostando na cama. Naruto riu baixo.

Hinata não estava tendo o melhor fim de semana da sua vida. Depois da humilhação da festa, recusou-se a falar com Sakura, embora soubesse que se sentiria bem melhor. Apenas não estava pronta para ouvir falarem consigo com o mesmo tom de pena e solidariedade que ela tentava tão desesperadamente evitar. Não queria ser um alvo frágil ou digna de dó. Não queria ser fraca.

Então, apenas permaneceu deitada. Seu corpo parecia adormecido, e ela estava constantemente cansada. Comeu pouco, porque seu estômago doía. Alternou-se entre não pensar nada, e pensar em tudo. Sua mente reproduzia as sensações, as emoções. Não estava se martirizando. Era como uma maneira de não esquecer. Embora lutasse para relevar, e perdoar, seu peito se apertava quando se lembrava da voz da garota líder de torcida. A maneira que ela ria, fazendo doer seus ouvidos. Hinata queria esquecer a noite passada. Por vezes, desejava esquecer os últimos meses, e nunca ter aceitado a bolsa de estudos para a Academia. Continuaria morando com sua mãe, frequentando a escola do bairro, treinando no ginásio municipal. E, logo em seguida, arrependia-se de pensamentos tão egoístas. Sabia que estava tendo uma chance de ouro, e ficava desperdiçando lamentando a si mesma. Sendo patética.

Não estava esperando a visita do garoto naquela tarde. Ouviu ele e Sakura discutirem algo em voz baixa, em seguida, Sakura gritando, irritada, e o garoto rindo, enquanto fechava a porta. Sentiu-o sentar no colchão, próximo aos seus pés, e o ouviu falar sozinho, com sua voz alta e irritante. Hinata não entendia porque ele tinha uma aura tão intensa. Nada tirava da sua cabeça que já o conhecia, de algum lugar, porque, por mais que quisesse o repelir, sentia-se atraída a ele, incapaz de ignorá-lo. A curiosidade era maior que sua vontade de permanecer quieta, então resolveu respondê-lo. Não estava preparada para aquelas respostas rápidas e sinceras. Esse Naruto era uma pessoa estranha.

— Eu estou bem. – disse Hinata, por fim, com um suspiro, e Naruto abriu um sorriso maior, feliz por tê-la convencido – Não precisa ficar se sentindo culpado pelo que aconteceu. – garantiu. Hinata não esperava que ele se redimisse ou algo do gênero. Sendo sincera, não cultivava sentimentos negativos por ele, por mais que suas últimas interações tenham sido intensas, para dizer o mínimo.

— Eu não estou aqui porque me sinto culpado! – Naruto retrucou, com a voz indignada, e Hinata franziu a testa, confusa – Ok, talvez seja em partes por isso, mas eu queria conversar com você. Sabe, como amigos fazem.

Amigos.

Simples assim.

Hinata não estava acostumada com aquilo, e não conseguiu controlar sua expressão surpresa. Sua fortaleza havia caído, tão facilmente. Aquele garoto a desarmara com apenas algumas palavras. Ele era tão direto e objetivo que tirava seu fôlego. As pessoas não chegavam, simplesmente, dessa maneira. Eles haviam trocado apenas algumas frases, e a Hyuuga sequer sabia que podia confiar nele. Quer dizer, haviam histórias, e, por mais que se obrigasse a viver plena consigo mesmo, sua mente ainda a enganava com o episódio de meses antes. Era confuso, abrupto. A morena não gostava de ser pega de surpresa daquela maneira. Seus sentimentos estavam confusos, e ela não conseguia entender porque seu coração batia tão rápido.

Naruto observou Hinata mudar a feição, abrindo a boca ligeiramente, o rosto expressivo. Sentia como se ela estivesse o encarando, e esperou, ansioso. Aquela fora uma jogada arriscada, mas, se queria se aproximar verdadeiramente da Hyuuga, se queria provar que era uma pessoa diferente, tinha que falar o que estava pensando e sentindo. Queria ser franco, autêntico. Suas chances não eram as melhores, dado seu infeliz histórico, mas ele se esforçaria mais do que qualquer coisa. Naquele momento, nada importava. Fama, popularidade, holofotes, sobrenome. Era apenas um garoto tentando conquistar uma garota.

Suas mãos suavam, enquanto Hinata sentia seu estômago cair de inquietude. Ainda digeria as palavras do garoto, ponderando se devia confiar nelas. Se deveria lhe dar um voto de confiança. Mesmo ali, sozinhos no quarto, ela não se sentia ameaçada. Não sentia raiva, ou rancor. Sentia medo, sim, mas, de alguma maneira insana, seu subconsciente gritava para que ela deixasse que ele entrasse.

— Você é bem diferente do que falam. – comentou, por fim, com um novo suspiro. Naruto estava esperando por aquela, mas não deixou de fazer uma careta. Fitou o rosto de Hinata, memorizando os detalhes, e não deixou de reparar no sorriso discreto que bruxuleava em sua boca.

— Acho que eu só preciso de uma chance para provar não que não sou o que falam de mim pelos corredores. – respondeu, convicto, e Hinata assentiu, pensando naquela frase. Apesar de serem absolutamente diferentes, sabia o que era ter as pessoas falando sobre ela, coisas sobre sua personalidade e sobre quem era, coisas que não eram verdade. Ela realmente acreditava naquela coincidência?

— Tudo bem. – Hinata anunciou por fim. Naruto estava tão certo da resistência que assustou-se com a resposta, pensando não ter ouvido direito.

— Você disse que tudo bem? – repetiu, sentindo-se idiota. Ouviu um riso baixo da garota, e não conseguiu evitar de sorrir.

— É, pois é. Acho que podemos conversar. – Hinata deu de ombros – Você vai cansar rápido, mesmo. – sua voz deixava claro que era uma brincadeira.

— Pode apostar que não. – Naruto exibia o maior dos sorrisos, e, por mais que Hinata não pudesse ver, sentiu através das palavras.

Embarcaram em uma conversa trivial sobre qualquer coisa. Naruto puxou um travesseiro e encostou, sentindo-se à vontade, enquanto gesticulava. Hinata não deixava de se surpreender cada vez mais. Era como uma pessoa totalmente nova, animada e escandalosa. Lembrava um pouco Ino, com a energia que contagiava o ambiente todo.

Hinata não sabia se iria se arrepender no futuro – muito possivelmente sim —, mas, ignorando seu lado racional, deixou-se levar pelo momento, depositando um voto de confiança naquele garoto. Naruto. Hinata tinha a impressão de que não conseguiria se livrar dele tão descomplicadamente, mas, de alguma maneira realmente estranha, não estava se importando muito com aquilo naquela tarde.