Quimera
22 Boas notícias
Notas iniciais
— Deixe que minha alma sorria através do meu coração, e meu coração sorria através dos meus olhos, para que eu possa espalhar sorrisos ricos para corações tristes.
— Eu já disse que não, Dobe. – Naruto fechou a cara em uma nova careta, enquanto Sasuke apenas ignorava o garoto, terminando seu café da manhã calmamente.
— Por favor, Teme! Se você realmente for meu amigo, faz isso por mim. – o loiro aproximou-se da mesa, quase deitando-se sobre ela, enquanto encarava o outro, do outro lado, com seu melhor olhar implorante.
— Não vou cair na sua chantagem emocional, Dobe. – Sasuke respondeu, achando graça – Eu já sou vacinado contra isso.
Naruto voltou a recostar na cadeira, cruzando os braços e bufando. Não sabia o que tinha acontecido no curto período de tempo em que ficou fora do dormitório – ele realmente não considerava ter ficado fora tanto tempo assim –, mas, de alguma maneira, Sasuke se recusava a enrolar Sakura para que Naruto se esgueirasse sorrateiramente no dormitório da garota.
Uma semana tinha se passado, e era domingo novamente. Naruto estaria mentindo se dissesse que não foram dias interessantes, e ele vinha tomando coragem para ter algum tipo de atitude, mas não seria possível com Sakura pegando no seu pé todas as vezes que se viam.
O Namikaze ainda conseguia se lembrar de cada palavra trocada naquela tarde – como se não bastasse ter sido o dia mais quente do ano, mas isso não era, de fato, importante para ele –. Sempre que sua mente repassava os detalhes, em um filme colorido, ele tinha que sorrir, porque seu rosto não conseguia se conter. Foi obrigado a sair do dormitório quando Sakura voltou, batendo contra a porta com tamanha força que provavelmente poderia ser escutado do primeiro andar, assim como seus gritos ameaçadores. Naruto podia lidar com a raiva, mas ele definitivamente não precisava de uma suspensão, o que certamente ganharia quando Tsunade fosse até o corredor saber o porquê do escândalo. O garoto teria um pouco de sorte se Sasuke mantivesse Sakura ocupada o suficiente por algumas horas, mas ele se negava terminantemente a isso. O loiro não conseguira arrancar um detalhe sequer do ocorrido, mas a questão era que seus melhores amigos não podiam ficar no mesmo ambiente sem começarem a gaguejar e se evitar. Nessa guerra silenciosa constrangedora, Naruto saía perdendo de várias maneiras – ele não sabia o que estava acontecendo e não conseguiria mais falar com Hinata.
A verdade era que a garota não saía da sua cabeça, de uma maneira perturbadora e deliciosa. Naruto ainda não a cumprimentava no refeitório ou durante as aulas, mas sempre a acompanhava para o dormitório nos fins de semana, depois do treino, e, as vezes, a ajudava com algum livro na seção especial da biblioteca – que ele passou a frequentar muito mais, sem nenhum motivo implícito, claro —. E, em nenhuma dessas vezes, o Menma apareceu.
Desde que Naruto e Hinata se conheceram, o Menma não deu mais as caras – Naruto achava um tanto esquizofrênico da sua parte pensar em si mesmo como duas personalidades distintas. Ele também percebia a maneira que Hinata ficava mais à vontade na presença do outro garoto, o levando a pensar que talvez fosse porque Menma não tivesse sido um completo babaca na primeira – e na segunda e na terceira – vez que se encontraram, o que o levava, por fim, a uma crise de consciência.
É claro que o Namikaze aceitava que o culpado era exclusivamente ele. Apesar do que acontecera, ele se entregou a todos os mimos e a bajulação na semana que passou. Ter terminado com Shion daquela maneira não lhe rendera descrédito, como imaginou que seria, mas sim um novo status de popularidade e requerimento, o que, indiscutivelmente, alimentou seu ego já grande demais.
Mas, mesmo com todas as pessoas que o cumprimentavam pela manhã, nos corredores ou nos jardins, Naruto não se sentia satisfeito. O que o levava novamente ao motivo do porquê estar emburrado no domingo, enquanto pondera a melhor forma de convencer Sasuke a lhe ajudar.
— Eu deveria saber o que aconteceu naquele quarto. Eu sou seu melhor amigo! – resmungou, com os olhos cerrados. O refeitório estava vazio, e o sol mal tinha se levantando ainda, o que deixava Naruto à vontade para esbravejar. Sasuke, no entanto, parecia calmo demais enquanto bebericava a xícara de leite, e Naruto se perguntou porque ainda eram amigos.
— Pergunte para a Sakura. – Sasuke sabia como vencer uma discussão, porque Naruto resmungou palavras desconexas, desistindo do assunto, fuzilado a sobrancelha elegantemente erguida do garoto.
Nos últimos dias, Naruto e Sakura estavam travando uma batalha, porque nenhum dos dois queria ceder e compartilhar suas próprias experiências da semana passada. Aparentemente, Hinata não havia dito nada para a Haruno, que passara a atormentar o loiro sempre que o via. Naruto, mesmo que estivesse morrendo para saber o que tinha acontecido, se empenhou em fugir da rosada e suas perguntas indiscretas. Ele poderia ser insistente da mesma maneira, mas, certamente, não seria inteligente em apostar contra Sakura naquele sentido. O que o deixava sem opções, e frustrado.
— Teme, isso não é nada justo. – choramingou, apoiando os cotovelos na mesa – Nós só temos mais alguns dias de aula, eu não estou pronto para passar as férias inteiras longe dela e perto do meu pai! – o Uchiha demonstrou certa solidariedade.
— Dobe, você está sendo dramático. – suspirou, o que era sua primeira reação visivelmente notável ao longo de toda a conversa desde que acordaram, e Naruto se sentiu um pouco orgulhoso de si mesmo – Seu pai não vai estar em casa, e eu vou estar, então eu não vejo a menor necessidade disso tudo. Me deixa comer em paz. – finalizou, de maneira tão objetiva e prática que nem mesmo Naruto foi capaz de argumentar, lhe restando apenas resmungar.
— Ele só vai viajar no fim do mês. – murmurou com uma carranca, roubando uma torrada do prato de Sasuke e mordiscando tristemente – Nunca pensei que diria isso, mas eu adoraria ficar na escola. – suspirou, e o amigo arriscou uma risada, sabendo que o outro assunto estava encerrado, por hora.
Hinata não conseguia entender porque Sakura acordou de tão bom humor, se ainda eram sete da matina, mas era impossível não ouvir a rosada cantarolando no banho. Riu sozinha, enquanto escovava o cabelo, distraída. Em momentos como aquele, Hinata desejava que pudesse enxergar, porque a brisa que vinha da janela indicava que era uma bela manhã. Mas não deixou aquele tipo de sentimento lhe atingir, e terminou de se arrumar, novamente animada.
Ultimamente, estava melhorando em controlar os próprios sentimentos, o que se mostrava extremamente benéfico para sua própria saúde mental e psicológica. Não gostava de reaver velhas memórias, e focava em bons pensamentos. Parecia estar funcionando.
Naquele momento, havia se lembrado que as férias estavam se aproximando, e, logo, ela poderia voltar para a casa da mãe, conviver com ela vinte e quatro horas por dia, matar a saudade que tanto apertava seu peito. Seu rosto se abriu em um sorriso.
— Feliz por quê? – Hinata soltou um grito involuntário, levando uma das mãos ao peito, enquanto respirava profundo e ouvia a risada alegre da amiga próxima a ela.
— Caramba, Sakura, quase me mata de susto! – a Hyuuga reclamou, sem estar brava realmente, e virou-se para a Haruno, cruzando as pernas em cima da cama – Estou feliz porque as férias estão chegando, e eu vou ver minha mãe. – deu de ombros, e sentindo a cama balançar quando Sakura subiu na dela.
— Vamos ficar um mês sem nos vermos! – a voz de Sakura chegou entristecida até Hinata, que baixou a cabeça, subitamente desanimada.
— Sim. – concordou, murcha.
Hinata nunca tivera muitos amigos, quiçá uma amiga como Sakura. Dividir o dormitório com a garota tornara-as mais unidas que antes, e passavam todo o tempo juntas. Confiavam uma na outra e confidenciavam seus segredos, se davam conselhos, dividiam comida contrabandeada de madrugada. Sakura esteve ao seu lado durante cada acontecimento – os bons e os ruins –, então, a primeira grande separação entre elas, definitivamente, seria difícil. Todo dia acontecia algo que Hinata desejava contar para a amiga, e, mesmo que quisesse desesperadamente ver a mãe, também gostaria de ficar.
— Já sei! – Sakura gritou de repente, assustando a Hyuuga pela segunda vez, fazendo a morena resmungar e acalmar o coração, que batia rapidamente com o espanto – Você pode ir passar uns dias em casa! – Hinata ficou confusa, mas Sakura já gesticulava enlouquecidamente, se empolgando e embolando as palavras, em um fôlego só: – Eu adoraria que você fosse! E você poderia conhecer meus pais, ai, Hina, seria o máximo! – Hinata conseguia enxergar os olhos pedintes e amáveis, e soltou um suspiro.
— Não sei não, Sakura. Eu nunca dormi na casa de outra pessoa, quem dirá passar alguns dias! – exclamou, verdadeiramente preocupada. Se fosse por si mesma, com certeza aceitaria a ideia, e seu corpo inteiro já formigava de animação. Mas havia sua mãe, cuja qual a garota sabia que morreria de preocupação, e ela não queria causar mais problemas. Entendia suas limitações e as razões pelas quais a mãe era tão superprotetora.
— Eu posso ir até sua casa pedir! Por favor, Hina, me deixa, ao menos, tentar! – Hinata sabia que Sakura era uma força imparável da natureza, e qualquer discussão que pensasse em iniciar estaria perdida, de qualquer maneira.
— Tudo bem, você pode tentar. — frisou bem a palavra, mas o final da frase foi abafado pelo grtio exageradamente alto dado pela Haruno, fazendo a Hyuuga reclamar novamente – Mas se ela não deixar, está decidido! – insistiu, se fazendo ouvir, mas foi atacada por um par de braços que surgiram do nada, afundando-a em carne fofa e perfume doce. A morena riu, abraçando-a de volta como pode, e tentando não se animar demais.
Era domingo, e poderiam aproveitar para descansar o dia todo, mas Hinata puxou seus próprios livros, para revisar a matéria, e Sakura tentou acompanhá-la pelos primeiros cinco minutos, até que desistiu, reclamando que era tortura estudar no fim de semana, e se levantou para sair, enquanto a morena ria para si mesma, resolvendo algumas equações físicas da maneira que conseguia, tentando fazer com sua mente não dispersasse.
Sakura não se deu ao trabalho de trocar os chinelos e a camiseta de flanela. Tinha um único dormitório em mente, e, certamente, seria a mais bem-vestida, então não havia um propósito. Decidiu acabar com a agonia do melhor amigo – provando, uma nova vez, que ela era mesmo generosa –, levando as boas novas para ele. E, com um pouco de sorte, estariam sozinhos, e ela não precisaria encarar Sasuke nos olhos, ou fingir que ele não existia.
Balançou a cabeça. Não, definitivamente não queria encarar Sasuke. Ainda queria matar Naruto pela semana passada, mas sabia que era apenas uma tentativa frustrada de ignorar o acontecido. É claro que era sua culpa, e lidar com a vergonha era infinitamente pior que lidar com as próprias responsabilidades. De qualquer maneira, não teria como evitá-lo para sempre. Quer dizer, eles eram como os três mosqueteiros – de um jeito um tanto destorcido –, melhores amigos, e era impossível evitá-lo, embora estivesse disposta a tentar com todas suas forças.
De toda forma, Sakura ainda planejava deixar Naruto de bom humor, o que lhe deu forças para bater na porta do dormitório do menino. Eram nove horas passadas, e, se bem os conhecia – e ela conhecia –, já tinham tomado café da manhã. Dito e feito, Naruto que abriu, o rosto um tanto emburrado e o cabelo desarrumado.
— Bom di-
Sakura não conseguiu terminar a frase, porque a porta foi fechada com força, quase desesperadamente, por pouco evitando um hematoma em seu nariz. Irada, deu dois socos fortes e sonoros, gritando sem se importar:
— ABRE A DROGA DA PORTA, NARUTO!
Naruto, do lado de dentro, fitava Sasuke com aflição palpável nos olhos, mas o Uchiha apenas se limitou a gargalhar, sentado em sua cama. O loiro pediu socorro silenciosamente, mas, vendo que não adiantaria contar com o próprio companheiro, suspirou. Sakura continuava a gritar e bater, e não tardaria até que outras pessoas começassem a linchá-los. Temeroso, tornou a abrir uma fresta, o suficiente para conversarem, mas, no menor movimento, a Haruno empurrou, entrando com todo seu peso. O Namikaze tornou a virar a tranca atrás de si, com um bufar pesaroso, e a rosada o encarava com fúria.
— Você é um idiota! – gritou a todos pulmões, enquanto Naruto lhe fazia um careta e jogava-se na cama novamente, por cima dos cobertores desarrumados – Você é o pior amigo de todos os tempos! – o loiro deu de ombros. Já tinha recebido xingamentos mais terríveis por muito menos – Eu vim trazer uma notícia e você me trata desse jeito, seu merda. – praguejou, jogando-se no tapete felpudo enquanto abraçava uma almofada. Naruto se ergueu, interessado, e seu rosto se curvou em um sorriso brilhante.
— Eu gosto de boas notícias. – Sakura bufou, ainda arisca, e Naruto suspirou – Eu não tinha como adivinhar! Você vem me enchendo a semana toda, então me desculpe se eu quis proteger minha retaguarda. – a Haruno fez uma careta, provando que ele estava certo, mais uma vez, o loiro insistiu: – Vamos, agora fala.
— Tudo bem. – passado o ataque histérico, a garota voltou a se animar, com uma rapidez que impressionou até mesmo Sasuke, ainda calado diante da cena – Eu convenci a Hinata a passar alguns dias em casa! – anunciou com a voz carregada e os olhos brilhantes – Bom, pelo menos a pedir para a mãe dela. Mas com certeza ela vai deixar! – Sakura tinha o espírito inabalável, mas Naruto não reagiu como ela esperava, apenas a encarando com a sobrancelha arqueada.
— Ok, isso é muito legal, mas eu não entendo o que tem a ver comigo. – a rosada quis bater no amigo por ele ser vergonhosamente lento.
— Naruto, pelo amor de Kami, é verão. – seu rosto denunciava algo que parecia ser bem óbvio, mas ele ainda não conseguiu adivinhar o que era – Por favor! O que nós fazemos todo verão? – o rosto do loiro não se alterou e Sakura atirou uma almofada nele – Nós vamos para sua casa, idiota!
— Ai, Sakura! – reclamou, mas, em seguida, seu rosto se converteu em uma máscara iluminada e seus olhos reluziram – Você é a melhor amiga de todas! – ele saltou, apertando Sakura em um abraço de urso e depositando diversos beijos contra sua mandíbula, enquanto ela ria e tentava afastá-lo – Isso é simplesmente genial! Como eu mesmo não pensei nisso? – recompos-se, voltando para a própria cama.
— Porque você é um energúmeno. – foi Sasuke quem respondeu, e Sakura riu. Naruto sorriu, mesmo diante do xingamento, porque ambos estavam convivendo em paz, por hora, e estava tudo bem.
Aquilo lhe dera uma nova perspectiva de vida, e ele sentia-se verdadeiramente renovada. A mera possibilidade de ter Hinata em sua casa por alguns dias deixava-o extasiado, resolvendo todos seus problemas – o desânimo das férias, e estar longe da garota –. Por um momento, tinha se esquecido completamente que Sakura também iria visitá-lo, e não somente Sasuke. Naquele momento, o vislumbre do horizonte se tornou decididamente mais positivo.
No dia seguinte, ligaria para sua mãe, informando que alguns amigos a mais iriam visitá-lo. Kushina estava acostumada com os amigos do filho, e gostava de companhia – ela ficava sozinha na grande mansão mais que o próprio Naruto, o que, por si só, era deprimente –. Além disso, muito provavelmente ela viajaria com o marido, deixando os filhos – Naruto contava com a presença do irmão, ao menos por algumas semanas – sozinhos. Nada novo sob o sol.
— Você tem certeza que consegue convencê-la a ir? – Naruto confirmou, tentando controlar os próprios pensamentos.
— Eu acho que sim. – Sakura parecia sincera – Ela disse que eu preciso perguntar para a mãe dela antes.
— Ah, isso é fácil! – o loiro respondeu, aliviado – A mãe dela é um amor! – imediatamente, percebeu que havia dito besteira, porque dois pares de olhos maliciosos se voltaram para ele, e, mesmo que já tivesse contado a eles, esquecia-se que qualquer comentário espontâneo poderia e seria usado contra ele. Soltou um gemido arrependido, enquanto os amigos riam.
— Você deveria ir perguntar para a sogrinha, então, Naruto. – Sakura não perdeu a oportunidade, provocando-o, e Naruto tentou atingi-la com um travesseiro, rindo. Sentia-se feliz. De repente, estava ansioso para que as férias chegassem logo.
Hinata se arrependeu de ter recusado todas as caronas no último dia de aula, quando teve de subir a ladeira de Chome com suas bolsas. O motorista do ônibus que pegou foi realmente generoso, a deixando na esquina de baixo do bairro, mas, sob o sol escaldante do verão, era difícil carregar todas suas coisas com as palmas das mãos suando. No entanto, sentia-se cada vez mais animada a medida que o barulho aumentava, as vozes se misturando em uma sinfonia urbana gostosa de se ouvir. Retribuiu alguns cumprimentos a medida que se aproximava, e, por pouco não se perdeu na contagem dos passos. Por sorte, trombou com a velha caixa de correio, e, sorridente, entrou pela estradinha de cimento.
Largou todas suas malas aos seus pés quando bateu na porta, e foi tomada por um par de braços magros, a apertando pelos ombros. O cheiro de farinha e óleo atingiu seu nariz, e ela se sentiu em casa, afundando o rosto contra o cabelo da mãe, desarrumado em algumas partes, fugindo da touca.
— Filha, que saudade! – Hiromi proferiu, enquanto enchia a garota de beijos, espalhando-os por todo seu rosto. Hinata riu – Você está tão magra, filha! Vem, deixa eu te ajudar com as suas bolsas. Deveria ter me dito que viria hoje, eu teria ido te ajudar! – sua voz continuava protetoralmente acusadora, e a mais nova deu de ombros.
— É claro que eu não iria te atrapalhar, okaa-san. – Hinata tirou os sapatos e calçou suas pantufas, caminhando com cuidado pelo estreito corredor e passando pela sala, para deixar suas malas no quarto do fundo – Foi tranquilo vir até aqui.
Hiromi fez um muxoxo, mas estava feliz com a volta da filha. Hinata parecia mais magra, realmente, mas estava mais alta também. Seu cabelo estava maior, e a franja atingia seus olhos. Porém, não era isso o que mais chamou a atenção da mãe – seu rosto continha traços diferentes, um brilho diferente, que há muito não via. Sorriu, ponderando se era por conta de um certo garoto.
— Vem, estou terminando um bolo, você pode almoçar comigo. – Hiromi pegou a filha pela mão e a guiou até a cozinha, embora nada tivesse mudado de fato, e ela fosse capaz de chegar sozinha até o outro cômodo. Assim que entrou, a quentura do forno e o cheiro de doce lhe abraçaram, e seu peito se aqueceu também. Puxou um banquinho, apoiando na bancada suja de farinha, sem se importar em limpar os cotovelos.
— Estou faminta! – com a ansiedade, não teve tempo de tomar café da manhã depois da cerimônia, onde Tsunade fez alguns anúncios e desejou bom descanso a todos. Hinata não conseguiu ver suas amigas depois daquilo, e, com pressa, pegou o primeiro ônibus que passou.
Mãe e filha permaneceram conversando trivialidades, e Hiromi queria saber todos os detalhes da vida escolar de Hinata, desde suas matérias, os professores, seus colegas, os treinos de natação, tudo. Hinata não se lembrava de ter falado tanto, mas, quando finalmente teve uma pausa, sua boca estava seca. Ele bebeu avidamente o copo de água que sua mãe lhe entregou – um gesto tão simples, mas tudo em sua casa tinha um gosto diferente, um sabor especial. Hinata sentiu muita falta de casa, e, principalmente, de estar junto da mãe.
Pela tarde, Hiromi saiu para entregar algumas encomendas pela rua, e Hinata aproveitou para ir até o quarto, desarrumar parte das suas coisas – uma vez que, muito possivelmente, teria que arrumá-las novamente –. Suspirou, lembrando-se da proposta de Sakura. Quase como telepatia, o velho telefone celular que carregava em seu bolso vibrou, e o identificador de chamadas anunciou, sem nenhuma surpresa, o nome da amiga.
— Oi, Sakura. – Hinata cumprimentou-a, prendendo o telefone contra o ombro enquanto empilhava alguns livros no pé da cama.
— Hina! – a morena fez uma careta quado a voz soou alta demais em seu ouvido – Já chegou em casa? Nós nem conseguimos nos despedir! — fazia apenas algumas horas que tinham se separado, e Hinata não conseguiu deixar de rir.
— Eu já cheguei, Sakura. Vocês sumiram, então eu vim embora, me desculpe. – sentou-se, puxando o celular do ombro e ajeitando-o.
— Tudo bem! Eu liguei para dizer que vou aí dia vinte. Isso te dá muito tempo, e nos dá bastante tempo também. É perfeito. — Hinata suspirou, prevendo uma dor de cabeça.
— Sakura, você tem certeza disso? – suas maiores preocupações não eram que a garota viesse implorar que sua mãe a deixasse raptá-la para algum bairro chique, mas o fato dela se locomover até lá – Eu mesma posso pedir, você sabe.
— Mas você não se empenharia como eu! – Hinata reprimiu um novo suspirar, porque a amiga soava sempre tão entusiasmada – Não se preocupe, Hina. Eu sei chegar até aí, de qualquer maneira — Hinata não quis pensar como – e sua mãe não vai resistir ao meu charme. – riu – Ok, nos vemos daqui alguns dias. Boas férias!
— Até mais, Sakura. – franziu a sobrancelha, mas sorria – Boas férias para você também.
Desligaram, e Hinata deitou-se, se perguntando se fora, realmente uma boa ideia. Sempre quisera ter uma amiga para onde fugiria quando enjoasse de casa, e dormiriam no quarto uma da outra, vendo filmes – no caso de Hinata, ouvindo – românticos até dormir. Era uma fantasia antiga, de criança, e, com o passar dos anos, a morena simplesmente não ligava mais. Mas, quando a oportunidade realmente surgiu, ela sentia medo, porque não lidava bem com o desconhecido – o que era quase uma ironia peculiarmente engraçada –. Gostava do conforto de casa, onde conhecia como a palma da mão – literalmente –.
Procurou não pensar muito nisso, concentrando-se em aproveitar cada minuto que podia com a mãe. A noite, conversava com os vizinhos, todos muito receptivos e orgulhosos, e seu coração se encheu de felicidade, porque Hinata sabia que nenhum dinheiro compraria aquela sensação de pertencer a algum lugar.
Naruto, por outro lado, jogou-se em sua cama de novo, e já se sentia entediado. Chegara pela manhã, depois de escapar da cerimônia de Tsunade – sabia que levaria uma bronca no próximo jantar de família, mas não se preocuparia realmente com aquilo –.
Era estranho voltar. Procurava ficar na escola o maior período de tempo possível, até mesmo durante os feriados, e, quando voltava para casa, sentia-se deslocado. Gostava de ficar em seu quarto – um dos poucos cômodos da casa que não passava por constantes mudanças de decoração, fruto do tédio insaciável de Kushina, e bons milhões à sua disposição.
As paredes azuis e laranjas se fechavam ao seu redor, e Naruto ainda mantinha os mesmos pôsteres colados na porta, e as mesmas estrelas brilhantes no teto. Suas prateleiras estavam cheias de miniaturas raras e colecionáveis, além de gibis de super-heróis e troféus de competições. Poderia passar horas olhando para aquelas medalhas, relembrando cada uma delas, a sensação de ter ganhado. Se fechasse os olhos, conseguia ouvir claramente quando seu nome foi anunciado pelo juiz.
De certa maneira, seu quarto era seu refúgio. Nada nele foi mudado – a não ser pela cama de casal, adquirida recentemente, substituindo a cama de solteiro que estava pequena demais para ele –. O rodapé ainda tinha a mesma mancha de cigarro, quando Sakura deixou a bituca cair, depois de ter se queimado. O painel de fotos ainda reuniam várias da sua infância, e as cortinas ainda tinham os mesmos rasgos. Aquele quarto não o deixava esquecer quem ele era. Poderia interpretar quaisquer papéis lá fora, mas, quando ia dormir, Naruto se tornava apenas o garoto que tinha estrelas brilhantes no teto. Era poético, e deprimente também.
Sentou-se, buscando suas pantufas, para descer até a sala de estar, onde encontraria sua mãe. Apesar de a casa ser desnecessariamente grande, era muito vazia. A maior parte dos empregados moravam nas acomodações na parte de trás do terreno, e os longos corredores cheios de salas eram silenciosos durante o dia.
Naruto caminhou, admirando a nova combinação de cores pastéis. Tinha que admitir o bom gosto da mãe. As colunas tinham sido restauradas, e os rodapés foram refeitos com detalhes impressionantes. Uma bela casa – mas Naruto não a chamava de lar. Desceu as escadas, evitando olhar para os quadros na parede, que exibiam, majestosos, uma carreira promissora, desde o primeiro Namikaze, que adquirira o terreno da família e construíra nele a mansão. A casa era uma herança de várias gerações, mas Naruto tinha a impressão que não seria passada para ele – sabiam que ele a venderia na primeira oportunidade.
Chegou na sala de estar, com a grande mesa de madeira maciça, e, em um dos últimos lugares, Kushina estava lendo, concentrada, com os óculos escapando pelo nariz. Naruto parou, sorrindo. Sua mãe era uma bela mulher. A idade apenas preservara sua beleza natural, e as rugas deixavam-na elegante, com os fios, ainda tão vermelhos e flamejantes, longos e brilhosos. O corpo magro e esguio era mantido com uma dieta rígida e exercício físico, o que também mantinha seu fôlego para comandar aquela família.
De sobressalto, Kushina voltou-se para a entrada, sorrindo calorosamente quando avistou Naruto caminhando até ela. Ele se aproximou, beijando o alto de sua cabeça, e se sentou de frente para ela.
— Oi, filho! Está com fome? Está quase na hora do almoço. – falou, fechando o livro, e Naruto assentiu.
— Claro! – animou-se por poder almoçar com a mãe, depois de tanto tempo – O Nagato vem para almoçar? – não tinha visto o irmão ainda.
— Não sei. – a mulher respondeu, com uma carranca – Não vejo muito seu irmão, aquele inconsequente. Nem sei se ele está na cidade. – Naruto não deixou de suspirar – Mas, me conta, como vai à escola? Está obedecendo sua obaa-chan, não está? – o loiro riu.
— Sim, sim, estou sim. – se lembrou, com um lampejo – Ah, okaa-san, talvez a Sakura traga algumas pessoas quando ela vir, tudo bem? – sabia que sua mãe não se oporia, mas quis informá-la mesmo assim.
— Claro, filho! Pode trazer quantas quiser! – Naruto gostava de como os olhos da mãe brilhavam – Vou mandar limparem a piscina. – o loiro sorriu mais largamente, com o duplo significado particular – Acho que eu e seu pai viajaremos antes disso, então vou deixar avisado para a Chiyo. – a velha governanta da casa que, por algum milagre, ainda estava viva para reclamar da terceira geração dos Namikaze. Naruto assentiu, mesmo grunhindo.
— O otou-san está na cidade? – perguntou temeroso, mas respirou aliviado quando a resposta foi negativa – Então parece que eu nem vou conseguir vê-lo. – sua voz estava satisfeita, e Kushina o fitou reprovadoramente.
— Filho, não seja tão incompreensivo. – criticou, mas, em seguida, foi para a cozinha pedir o almoço, e Naruto sabia que o assunto não se prolongaria. Seguiu a mãe, feliz. Só lhe restava esperar pelas próximas semanas.
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