Quimera
36 Turbulência
Notas iniciais
Abram os olhos! Precisamos acordar! / Não estamos sós! / E quando tive esta visão / eu cheguei a conclusão / de que os cegos somos nós!
Nem o auge do inverno, nem a aproximação do início das aulas, foram suficientes para aplacar a onda de excitação coletiva que embalou os alunos da Academia Canadense, na segunda semana de janeiro. Uma nevasca deixou as ruas cobertas de gelo por quase cinco dias, mas, no fim de semana, a temperatura subiu consideravelmente, transformando o cobertor branco em poças frias de água – e aumentando as expectativas para a próxima sexta-feira.
Tradicionalmente, não era comum que o ano letivo se iniciasse tão tarde, todavia o colégio não era exatamente como as outras instituições de ensino. A diretoria era bastante complacente, visto que a competição colegial esportiva mais importante do ano acontecia em janeiro, acompanhando os calendários da capital. Todos os anos, equipes diversas e atletas individuais viajavam quinhentos quilômetros até Tóquio, para uma sequência de três dias de competições entre as escolas de melhor colocação nacional. A Academia marcava presença há alguns pares de anos, mas era a primeira vez que disputavam tantas categorias – e era a primeira vez de Hinata.
Naruto acordou cedo, tomou um bom banho quente, vestiu duas meias, seu moletom e a inseparável jaqueta laranja que o deixava um tanto mauricinho. Desarrumou o cabelo e arrumou as malas – uma única bolsa continha todos seus pertences essenciais e três uniformes com suas respectivas faixas de capitão. Deixou seu quarto ainda de manhã, embora não soubesse dizer as horas exatas, porque a única luz que entrava pela janela era azulada, e o sol não dava indícios de aparecer. Se despediu de Chiyo, aceitando uma das frutas que ela lhe oferecia insistentemente, para não viajar com fome. Não teve notícias de Minato – não que ele ligasse –, nem de Nagato – talvez se encontrassem na capital –. Contudo, ficou triste por não poder se despedir da mãe, antes de dirigir até a ilha e embarcar em um pequeno avião comercial para um voo de quase duas horas.
Entrou em seu amado conversível, feliz por poder dirigi-lo novamente. Deu a partida, mantendo os vidros fechados e o aquecedor ligado. A brisa gélida da madrugada esfriara as campinas, e Naruto torceu para esquentar a medida que se aproximasse da cidade. Sorriu, animado para ir à escola, mesmo que ainda estivessem de férias, e mesmo que ele odiasse a escola durante o ano letivo. Porque eles não teriam aula, e não teria que fugir de aulas monótonas, professores implicantes e colegas chatos – em vez disso, desfrutaria de uma viagem bancada totalmente pela instituição, e passaria um fim de semana hospedado em um hotel legal, curtindo com seu time, seus amigos e sua namorada, que, por falar nisso, ele já estava morrendo de saudades.
Depois do natal, tinham se visto apenas no ano novo, em um dos dias mais felizes de sua vida. Passearam pelo festival, ele descrevendo barraquinhas, participando de jogos e lhe dando pequenos presentes. Em retribuição, ganhava os sorrisos mais brilhantes, e a imagem de Hinata em um yukata seria algo que nunca se esqueceria. Se beijaram sob os fogos de artifício, e ficaram até de madrugada conversando sobre a vida.
Duas longas semanas tinham se passado, e, embora tivessem conversado muito por mensagens e chamadas de vídeo, Naruto sentia falta de estar com ela, sobretudo em seu quarto pequeno e aconchegante, em vez de preso naquela mansão solitária. Por isso, a perspectiva de viajar com Hinata, só com ela – e os outros atletas que competiriam – o deixava tão entusiasmado.
Cruzou as avenidas até desbocar em algumas ruelas, entrando no bairro que Hinata morava. A essa altura, os moradores já não se espantavam com um carro tão caro passando por suas ruas esburacadas. Ele estacionou na frente da única casa com pintura colorida e um escaninho de verdade, saindo com suas luvas e soprando ar frio.
Ativou o alarme, com sua bolsa no minúsculo porta-malas, e bateu à porta da casa de Hinata. A janela estava aberto, e um cheiro incrível de bolo inundava toda a varanda, então não precisava se preocupar em acordá-las. Só precisou chamar duas vezes. Na terceira, Hiromi atendeu, com um guardanapo nos ombros e um avental manchado cobrindo a parte de baixo de seu vestido de pano. O cabelo preso destacava suas rugas de expressão, mas ela continuava uma bela mulher. Não parecia surpresa em ver o garoto.
— Bom dia, Naruto! Vem, pode entrar. – cumprimentou. O garoto deixou seus tênis e andou de meias no chão rachado, porém bastante limpo. A acompanhou até a cozinha, onde ela continuou a untar uma massa crua, batendo contra farinha – Você se importa em esperar um pouco? A Hina deu uma saída, mas acho que ela já volta. As coisas dela já estão todas prontas. – justificou, ainda de costas, mas parecendo se desculpar. Ele prontamente concordou.
— Que isso, sem problemas. – seu tom de voz denunciava seu humor inabalavelmente bom naquela manhã fria.
Por um momento, o cômodo foi preenchido pela massa sendo batida. O forno ligada deixava a casa toda quente, e não demorou até Naruto retirar as luvas e a touca. Devaneou um pouco, pensando em Hinata, com saudades. Seus pensamentos o levaram longe, refletindo também sobre o último ano, na faculdade, na competição, em seu pai. Lembrar de seu pai o fez lembrar de outro homem, e seus ombros se tornaram subitamente tensos. Fitou Hiromi, de costas, a cabeça baixa e parecendo murmurar alguma coisa. Não sabia se ela o odiaria por perguntar, mas precisava perguntar, em algum momento. Ficaria longe durante todo o fim de semana, e muito provavelmente ele assistiria as competições – e, depois da vitória certa de Hinata, porque ela era realmente boa, Naruto não conhecia seus próximos passos.
— Hiromi? – chamou, um tanto incerto, e ela respondeu com “hm?” – A Hinata, hm, conhece o pai? – parou de bater a pasta. Naruto engoliu em seco. Ela se virou devagar, encostando na bancada e sacudindo as mãos brancas. Seu rosto estava impassível, no entanto, se analisasse atentamente, veria vestígios confusos em seu olhar.
— Por que quer saber? – havia alguns significados ocultos na frase. O loiro suspirou, decidindo sem completamente honesto, para variar. Sabia que precisava conquistar a confiança de Hiromi, pelo bem de Hinata.
— Eu conheci ele. – não quis soar amargo. Hiromi ergueu as sobrancelhas tão alto que quase tocaram as raízes. Ela parecia cética.
— Conheceu? – repetiu. Pelo menos estava prestando atenção. Naruto não imaginava quanto tempo teria, então decidiu ser direto.
— Meu pai e Hyuuga Hiashi fecharam um negócio milionário no mês passado. – um tremor perceptível correu seus ombros, e ela empertigou-se – Eu sei, podem existir mais pessoas com esse sobrenome, mas ele me procurou para falar sobre ela. – torceu os dedos, tentando, sem muito sucesso, manter a pose. Estava tão abalado quanto a mulher à sua frente. Hiromi desistiu de ficar em pé, sentando-se na banqueta ao seu lado. De repente, parecia muito cansada.
— O que aquele canalha está aprontando dessa vez? O que ele quer com a minha filha? – murmurou, perplexa, mas com um ligeiro tom possessivo e ameaçador. Naruto não teria tempo para explicar, como queria, sobre a reversão da doença, então se concentrou em apenas um dos motivos.
— Ele disse que quer Hinata como herdeira da sua empresa. – Hiromi emitiu um som parecido com um engasgo, fechando as mãos pequenas em dois punhos furiosos.
— Que miserável cara de pau! – xingou, surpreendendo-o. Seu rosto estava convertido em uma careta injuriada, e parecia imersa em seus próprios raciocínios.
— Por que registrou ela com o sobrenome dele? – ela o olhou de repente, como se ele tivesse perguntando por que o céu era azul – E se ela, não sei, ouvisse sobre ele na TV?
— Nós ainda éramos casados quando Hinata nasceu. – respondeu, por fim, encolhendo os ombros – Eu estava preparada para quando ela perguntasse do pai. Nunca escondi nada. Apenas evitei deixar a televisão ligada, ou o rádio, quando ela era muito pequena. – massageou as têmporas – O clã Hyuuga é muito antigo, e muito ramificado. Eu não ligaria se ela descobrisse, mas meu único medo era de que descobrisse o quão canalha ele era. – parou, respirando fundo – O que mais ele disse?
Naruto abriu a boca para responder, mas foi interrompido pela porta da frente batendo. Se pôs de pé com rapidez, o mesmo para Hiromi, que se voltou para a bancada, a respiração profunda.
— Tadaima, okaa-san. – cumprimentou do corredor, mas, assim que se virou, parou, um tanto surpresa – Naruto? – parte dele suspirou, derretida, se perguntando como ela sempre sabia.
— Oi, Hina. – murmurou, andando dois passos para se aconchegar em seu abraço. Ela rodeou sua cintura, enquanto ele a afundava em seu peito, inspirando seu perfume para matar a saudade – Kami, eu estava louca para te ver! – sussurrou em seu ouvido, e ela soltou uma risadinha.
— Eu também. – confessou. Se afastaram, e ele a ajudou com algumas sacolas – Desculpa, tive que sair.
— Sem problemas. Fiquei conversando com sua mãe. – ela arqueou a sobrancelha, talvez se perguntando que assunto eles teriam em comum.
— Tudo bem. Já estamos indo? – perguntou, animada. Naruto assentiu, mas se lembrou de verbalizar.
— Sim, vim te buscar. O voo saiu em algumas horas, mas precisamos nos reunir e fazer a contagem, essas coisas. – deu de ombros. Hiromi se virou, retirando o avental e caminhando até a filha, passando o braço por seus ombros e levando-a até o quarto.
— Vamos, vamos, nada de atrasar. – cantarolou, totalmente diferentes de minutos atrás. Naruto as esperou no batente, assistindo a cena com o coração aquecido.
Hiromi – ao contrário do que pensou Hinata – não fez nenhuma objeção contra sua viagem para Tóquio. Ela estava emocionada por sua garotinha ter classificado o time de natação para uma competição tão importante. Segundo as mensagens ocasionais da garota, sua mãe fizera todas suas malas, e arrumara peça por peça. Elas foram no comércio e compraram algumas roupas novas de inverno com as economias de fim de ano – o que fez Naruto engolir em seco, porque sua mesada era o triplo daquele valor –. Mesmo assim, elas estavam felizes. Mais que felizes, radiantes.
Com um pouco de rancor, Naruto assistiu Hiromi passar inúmeras instruções e distribuir infinitos beijos pelo rosto de Hinata, triste por não poder ir até a capital para assisti-la – enquanto isso, Minato dispunha de um jato particular e milhas ilimitadas na companhia aérea japonesa, e não faria o esforço de assistir o próprio filho. O mundo era mesmo irônico, de uma maneira cruel.
— Hiromi, eu já te disse que posso pagar sua passagem, vamos conosco. – insistiu, enquanto ela os expulsava para o frio, rolando os olhos.
— Claro que não. – orgulhosa como era, jamais aceitaria – Além disso, eu tenho muito o que fazer, sabe como é. – deu de ombros, parando nos degraus de cimento e abraçando Hinata pelos ombros, apertado – Faça uma boa viagem, meu amor. E dê seu melhor! – a garota retribuiu o abraço, já sentindo falta da mãe.
— Pode deixar, okaa-san. – sua voz estava um tanto embargada – Prometo que dou notícias.
— Eu vou esperar ansiosa! – a afastou, parecendo limpar discretamente uma lágrima – E Naruto, cuide dela, está bem? – ela o fitou com seus olhos límpidos, e o Namikaze assentiu, abraçando Hinata e pegando sua mala.
— Fique tranquila, Hiromi, não vou desgrudar dela. – Hinata corou, apesar do vento gelado – Vamos ligar todos os dias.
A guiou até a calçada, abrindo a porta e a fazendo entrar rapidamente, para longe do vento. Em seguida, guardou a mala com a sua, e, antes de entrar no carro também, voltou-se uma última vez para Hiromi. Ela acenou, agora com o semblante sério e pensativo. Retribuiu, um pouco mais tranquilo por tê-la avisado. Entrou, e Hinata o esperava com um largo sorriso. Não conseguiu se conter, e abriu um também, apertando sua mão enquanto dava a partida. Tinha esperado ansiosamente por aquilo, e agora ficariam juntos por um fim de semana inteiro.
O céu se tornou mais claro a medida que se aproximavam da baía. Pegaram a balsa, avistando a pequena cidade que se erguia da ilha. Hinata, acomodada no banco, segurava uma das mãos de Naruto, com a cabeça apoiada na janela e semblante pensativo. O loiro, por outro lado, não quebrou o silêncio agradável, com suas próprias preocupações – mesmo que estivesse animado pela viagem, ainda teriam que treinar em todo tempo livre que tivessem, para, finalmente, conquistar o título nacional, depois de tantos anos.
— O se passa nessa cabecinha, meu anjo? – pega de surpresa pelo apelido, ela ruborizou, abrindo um sorriso acanhado.
— Nada demais. – fez para dar de ombros, parecendo relaxar.
— Não se preocupe, essa viagem vai ser ótima. – seu entusiasmo era palpável na voz – Quase ninguém vai estar lá, e vamos poder ficar no mesmo quarto. – Hinata não pôde ver o sorriso sugestivo, mas corou mesmo assim.
— Achei que garotas ficavam com garotas. – encontrou sua voz, desviando do assunto, embora tivesse ficado quente. Já tinha combinado com Sakura, que ia como presidente do conselho estudantil, e basicamente a organizadora de tudo.
— Como se eu fosse deixar a Sakura ficar mais tempo com você do que eu. – bufou, totalmente descrente, e Hinata riu baixinho, secretamente feliz.
Quando chegaram na escola, a maioria já estava esperando, com suas malas e seus cachecóis. Havia uma quantidade consideravelmente reduzida de alunos, poucos do primeiro ano, e muito menos do terceiro – mesmo formados, os que faziam parte de equipes poderiam competir –. Naruto estacionou na garagem do sub-solo, puxando as duas bolsas e encaixando Hinata em seu braço. A morena tentou resistir, dizendo que conseguia chegar sozinha, preocupada que alguém pudesse vê-los, mas Naruto foi irredutível. Quando a pouca claridade voltou a incindi-los, Hinata já tinha a respiração presa, esperando pelos comentários, mas eles não vieram. Ninguém se virou para eles.
O Namikaze avistou Sakura correndo até eles, com Sasuke a reboque, e anotou mentalmente para provocá-lo mais tarde sobre aquilo.
— Finalmente chegaram! – uma nuvem de fumaça branca saiu de sua boca quando falou.
— Estamos dentro do tempo, Sakura, fica tranquila. – Naruto rolou os olhos. Tinha soltado Hinata, todavia, manteve os braços bem próximos, com seus dedos roçando – Já está tudo certo? – procurou pelo pequeno avião comercial que os levaria até Tóquio.
— Sim, só estamos esperando algumas pessoas chegarem. – balançou a prancheta com a relação de competidores – Vem, Hina, a Ino-porca está esperando a gente. – puxou a morena, e Naruto fechou a cara. Ela lhe estirou a língua, rindo – Não esqueçam de ficar com a carteirinha na mão para embarcar. – lembrou, e o loiro, em um estalo, bateu a mão nos bolsos.
— Merda, esqueci a carteira no carro. – resmungou – Teme, vai na frente que eu vou buscar. Senhoras. – brincou, dando as coisas e correndo rampa abaixo.
O estacionamento estava bem mais silencioso. Destravou o alarme, puxando a carteira de couro do painel e voltando. Satisfeito, colocou-a no bolso da frente, e estava prestes a voltar quando avistou uma silhueta caminhando em sua direção. Franziu as sobrancelhas, tentando identificar quem era. Demorou alguns segundos, e ficou sério.
— O que você quer? – grunhiu, subitamente irritado, como uma reação instantânea. Tentou andar, rumo a saída, mas ela bloqueou seu caminho, não parecendo se incomodar com o vento gelado que entrava por suas pernas nuas, cobertas apenas pela microssaia das líderes.
— Ai, que rude. – zombou – Você costumava ser mais gentil comigo, Naruto-kun.
— Já disse para não me chamar assim. – retrucou, fuzilando-a. Embora sorrisse, não havia nenhum traço de humor em seu rosto.
O fato era que Shion estava irritada. Muito irritada. Seu fim de ano tinha sido uma bela porcaria, com sua mãe bêbada e seu avô senil. Não foi convidada para eventos de gala, confraternizações importantes, nem viajou com a família Namikaze para as Ilhas Maldivas ou para as Bahamas. Viu, colérica, as fotos do evento promovido pelo senador para comemorar seu novo contrato milionário com as empresas de Hyuuga Hiashi – é claro que ela estava ocupada demais proferindo xingamentos para se atentar a quem era –. Uma cólera se abateu sobre ela, e tudo que enxergava era vingança. Não era suficiente ser humilhada publicamente na escola? Tinha que perder todos os privilégios que deu duro para conquistar? Sabia que o senador gostava dela – da sua aparência, da sua lábia, e de como ela ficava deslumbrante em um Chanel original, linda e loura ao lado de seu filho lindo e louro. De repente, não tinha nada.
E Shion não aceitava não ter nada.
Naruto a fitou de cima para baixo, enojado. Seu rosto estava emoldurado por maquiagem, os lábios vermelho-sangue e as unhas compridas. Usava o casaco do time – provavelmente emprestado de um de seus admiradores –, e a saia das líderes, com tênis. Seu cabelo escorria para os ombros, e ela tinha cortado uma franja pouco acima das sobrancelhas. O Namikaze se perguntou como conseguiu ficar quase dois anos com ela. Tudo em sua aparência o repugnava – ele percebia como era falso.
— Pode me dar licença, Shion? Preciso ir para o avião. – pediu educadamente, se esforçando para não xingar.
— Não antes de conversarmos, querido. – rebateu, apagando o sorriso e assumindo um olhar homicida.
— Ah, Shion. – Naruto suspirou, cansado – Você quer mesmo fazer esse papel? É um tanto baixo, mesmo para o seu nível. – a fitou sem desviar o olhar, enquanto a observava fazer uma careta azeda.
— Não se faça de sonso. Eu vi. — sibilou – Eu vi você com a ceguinha. – cuspiu, quase com nojo. Naruto retesou, e torceu para que ela não tivesse reparado em sua reação. Lutou para manter a máscara neutra. Não jogaria aquele joguinho.
— Você está delirando. – sua voz soou fria, mas ela não se abalou.
— Naruto, Naruto. – sussurrou, se enroscando para perto dele, como uma cobra – Você pode enganar a todos eles, mas não a mim. Não vou deixar você acabar com a reputação que eu lutei tanto para construir. Você vai acordar desse delírio e voltar para meus braços, como sempre fez, sim? – seu indicador contornou sua jaqueta, e, embora sua voz fosse doce, ele sabia identificar o verdadeiro perigo. Conhecia Shion bem o suficiente para não confiar nela.
— Você só pode estar alucinando se pensa que vou voltar com você. – agarrou seu pulso com demasiada força, o afastando. Ela cerrou os olhos, irada – Que parte do “nós terminamos” você se recusa a entender? Supera, Shion. – a soltou, empurrando seu braço como se tivesse asco. Ela bufou, afastando as mechas loiras dos olhos gélidos.
— Estou te avisando, em consideração ao nosso relacionamento. – estava cortando e ameaçadora – Acho bom acabar com essa palhaçada de se envolver com aquela coisa, eu não vou mais te encobrir. Está acabando com nós dois. Ela pode ser um bom passamento, mas nós dois sabemos que não é assim que o mundo funciona. – a cada palavra Naruto acirrava mais os punhos, com o peito subindo e descendo. Repetiu, como um mantra, que ela era uma garota.
— Não fale sobre Hinata. – grunhiu, e Shion estremeceu, mas não demonstrou. Ele se aproximou, até que seus rostos ficassem na mesma altura, com os olhos crueis – Não fale sobre a minha vida. Você não tem mais esse direito. No passado, nós até significávamos alguma coisa, e eu me iludi ao pensar que amava uma pessoa tão asquerosa e doentia. – cuspiu – Mas não fique se enganando nesse joguinho de ameaças, ou você vai se arrepender. Não é a única que pode acabar com as coisas por aqui. Não se esqueça do seu lugar. Você era apenas uma garota que eu costumava foder quando estava entediado, e que eu podia levar nas festas do meu pai. E só. Não use essa boca suja para manchar o nome de uma pessoa mil vezes melhor que você. – sussurrou a última parte, no entanto, poderia muito bem ter gritado. Passou, trombando com seus ombros, e saiu, sem olhar para trás.
Shion permaneceu, com as mãos apertadas e um bolo na garganta. Uma lágrima quente escapou, mas ela a limpou depressa com as costas da mão, furiosa. Engoliu em seco cada uma daquelas palavras, com ódio. Ela não ligava para a maioria das coisas que ele dissera – não era como se não tivesse se aproveitado da fama e do luxo que ele lhe proporcionava –. Agora, compará-la àquela garotinha, dizer que ela era melhor? Melhor que Shion? Tratá-la como se fosse lixo, enquanto ela construía um renome impecável para ele?
Nunca.
Virou, caminhando em passos duros, enquanto planejava seus próximos passos – faria Naruto lamentar tê-la insultado, nem que fosse a última coisa que fizesse. Sabia que eles estavam saindo, ela sabia. Uma intuição que só as mulheres conseguiam explicar. Só precisava conseguir provas, e mostrar para ele como estava errado, e como se arrependeria de ter lhe desprezado.
Naruto cruzou o pátio da escola com cara de poucos amigos. Chegou no avião, em uma área deserta pronta para decolagem, e apresentou sua carteirinha. O monitor nada disse, preferindo não se manter em seu caminho. No corredor, achou Sasuke nas poltronas do fundo, com sua bolsa. Caminhou duro até ele, jogando na poltrona do corredor. Sakura, do seu lado direito, o fitou interrogativamente.
— Que bicho te mordeu? – questionou. Hinata, curiosa, se inclinou para frente, no banco da janela.
— Shion. – resmungou seu nome como se fosse um palavrão, e Sasuke suspirou, já prevendo algo do tipo.
— Aquela vaca não desiste! – Sakura se queixou, bufando.
— Sakura, troca de lugar com ele. – Sasuke sugeriu – Vai por mim, não vamos aguentá-lo durante três horas.
A rosada abafou uma risada, se levantando, enquanto o Uchiha empurrava Naruto pelos ombros, obrigando-o a se mover. O loiro não apresentou objeções apenas porque ficaria ao lado de Hinata. No lugar de Sakura, abraçou-a, segurando suas mãos, sem se importar. Estavam no fundo do avião, e, de qualquer maneira, ele não ligava muito.
— Você está bem? – a voz suave dela clareou seus pensamentos, relaxando-o.
— Agora estou. – murmurou, vendo-a corar nas maçãs de maneira totalmente adorável – Não vamos deixar isso atrapalhar nossa viagem. Vai ser incrível. – murmurou perto de seu rosto, roubando um beijo casto.
Hinata se acomodou confortavelmente em seus ombros, e se perderam em um mundo apenas deles. Naruto sussurrou em seu ouvido os detalhes da decolagem, a paisagem vista da pequena janela circular e o formato das nuvens. Sentiram repuxões no estômago, mas não passaram por nenhuma turbulência. Abaixo deles, todos os condados e províncias que se seguiam de estradas cheias de campinas em borrões verdes. Casas pequeninas e rios que pareciam lagoas. Tóquio ficava a pouco mais de quinhentos quilômetros de Rokko, e o avião comercial, embora menor, cumpria bem sua função.
Quase todos os atletas dormiram durante a viagem. Naruto, sem sono e com a cabeça cheia, ficou observando a maneira adorável que Hinata respirava com os ombros, dormindo serena. Estava encantado por absolutamente tudo nela. A maneira que mexia as sobrancelhas, que tirava o cabelo do rosto, que percorria seus dedos pelos livros em braile. Se tornou tudo que ele jurou destruir – um idiota apaixonado. Durante aquele fim de semana, faria questão de brigar com qualquer um que ousasse zombar de Hinata. Não admitiria mais aquele preconceito ridículo – sabia que se tratavam, em sua maioria, de mentes pequenas e ignorantes –. Ele podia mudar a situação. Usar sua amada reputação para o bem.
Fora as líderes de torcida – com um infeliz acréscimo de sua estimada capitã –, as equipes e os atletas individuais eram relativamente despreocupados com Hinata. A cumprimentavam educadamente, se fosse o caso, e ignoravam sua presença. Bem, aquilo já facilitava bastante a situação. Quando voltassem com os títulos nacionais, ninguém mais ligaria para uma coisa tão insignificante quanto a deficiência – se concentrariam na nadadora incrível que ela era.
Pousaram perto das duas. Conforme se aproximavam do solo, os prédios se tornavam maiores, com luzes brilhantes, mesmo durante o dia. Estava mais quente que no interior, e os transeuntes se pareciam com torrentes de formigas. Aterrizaram em um aeródromo um pouco afastado do centro, rodeado de matagal, e um ônibus os levaria para o hotel. O ginásio onde competiriam também não ficava na parte principal da cidade, embora, com tantos prédios, tudo se parecesse com o centro.
Naruto estava ligeiramente entediado. Conhecia Tóquio como conhecia sua própria casa, por conta dos infinitos e sempre agradáveis comícios que o senador Namikaze participava, além das reuniões de empresários e poses para a mídia. Cada hotel de luxo já tinha sua marca registrada, os melhores restaurantes, as lojas internacionais mais caras. No entanto, Hinata parecia estranhamente fascinada com os sons de buzinas que vinha de longe, da avenida, então ele compartilhou de seu sorriso extasiado e foi descrevendo minuciosamente cada cenário.
No ônibus, pôde dar uma desculpa qualquer para seu time e se sentou com Sasuke nos fundos, onde eles, Sakura e Hinata compartilharam algumas piadas internas. Chegaram ao hotel pouco depois, com a correria da grande capital. O almoço foi servido no saguão, mas depois da sobremesa, Naruto não pôde escapar. Shikamaru – maldito seja – arrastou Hinata para a área da piscina aquecida, com o resto do time, e Sakura começou a correr de um lado a outro com sua equipe do conselho estudantil. Restou a ele descontar suas frustrações em Sasuke e nos outros.
Já tinha estado naquele hotel antes, e sabia que tinham ótimos equipamentos de treino nas quadras dos fundos. Não tinha muito o que treinar – apenas repassou o básico e os fez se exercitarem e repetirem as séries básicas. Deu um discurso inspirador qualquer, e o clima estava bom. Ele estava com um bom pressentimento.
Com o inverno, o dia durou menos que estavam acostumados. As seis e meia, o céu já tinha escurecido, o que serviu bem como sinal para pararem e descansarem. As primeiras rodadas aconteceriam no dia seguinte, cedo, e todos deveriam dormir. Naruto dispensou seus lutadores com um sentimento de satisfação. Os quartos eram de tamanho razoável, divididos em dois corredores reservados para a Academia e sua verba generosa. O loiro se arrastou até o seu andar, fisicamente exausto, mas agitado.
O jantar podia ser pedido pelo serviço de quarto, e com a ansiedade, somada aos últimos treinos exaustivos, ninguém estava com coragem para explorar a sala de jogos ou o incrível bar que servia margueritas sem pedir identidade.
Hinata subia o elevador com Sakura, o cabelo pingando e chinelos. Shikamaru não pegou leve nos repasses finais, fazendo todos cruzaram três piscinas no melhor tempo possível. Todos seus músculos queimavam, mas ela nunca se sentira tão revigorada. Sakura, ao seu lado, parecia dormir em pé, segurando a prancheta com força contra seu peito. Soltou um bocejo.
— Eu juro, não vou conseguir nem jantar. – resmungou, e Hinata riu.
— Posso pedir alguma coisa para você também. – estava curiosa para saber como funcionava o serviço de quarto. O mais longe que tinha ido era para os limites da ilha Kobe. Estar em Tóquio parecia um sonho.
— Está maluca? – a morena não entendeu o que ela queria dizer. As portas do elevador tilintaram, e, com os braços enganchados, saíram para o corredor barulhento.
— O que quer dizer?
— Eu realmente não quero o Naruto batendo na minha porta e fazendo um escândalo enquanto eu descanso. Você vai dormir no quarto dele. – grunhiu, e Hinata a sentiu empurrar seus ombros. No entanto, seu estômago estava revirando.
— C-Como assim? D-Dormir no quarto dele? Sakura! – choramingou, pega de surpresa. Quer dizer, ela já o tinha ouvido brincar sobre o assunto, mas não tinha levado a sério.
— Força, amiga, vai lá e aproveita. – empurrou com mais força, e Hinata tropeçou para frente – O quarto dele é a próxima porta. Até amanhã! – deu a impressão de estar escapando de fininho.
— Saku-!
A ouviu se afastar, e, com os demais estudantes entrando em seus respectivos quartos, não conseguiria encontrá-la. Lamuriou-se, sozinha, inconformada. Não acreditou que a amiga tinha concordado com aquilo! A perspectiva de passar a noite dividindo um quarto com Naruto a deixava nervosa. Passavam muito tempo juntos, mas nunca realmente tinham dormido no mesmo cômodo.
Sozinha, estendeu o bastão a sua frente, até bater contra a porta, que, segundo Sakura, seria o dormitório. Respirou fundo, engolindo em seco e tentando controlar os tremores ridículos em suas pernas. Não adiantava adiar. Estendeu a mão e bateu.
Fale com o autor