Notas iniciais
EU NEM VOU FALAR NADA AQUI QUERO VER LOGO A REAÇÃO DE VOCÊS ALETHEA ESSE CAPÍTULO É PRA VOCÊ OBRIGADA PELA RECOMENDAÇÃO LINDA ME DEIXOU SURTANDO ♥♥♥

— A justiça é cega, mas a verdade não. Ela sempre se faz ver.

Naruto viveu sob uma constante ameaça silenciosa durante dias. Há todo momento, esperava por um ataque de Shion, a execução de algum plano bem elaborado ou um surto vingativo – mas isso nunca aconteceu. Com o passar do tempo, então, ele relaxou, embora ainda ficasse próximo à Hinata com uma postura demasiada protetora.

As coisas pareciam mais tranquilas perto de maio. Pela primeira vez, Naruto estava realmente engajado nas aulas, e compreendia a maior parte das matérias – o que o levou a pensar quantas oportunidades maravilhosas ele teria tido se fosse minimamente dedicado –. Quando tinha alguma dúvida, contava com as explicações impacientes de Sasuke, as orientações confusas de Sakura e toda a dedicação atenciosa de Hinata – ele amava importuná-la com as mais diversas perguntas, apenas para ouvi-la falar.

Sentia que estavam no melhor momento que poderiam estar. Assistiam às aulas juntos – ainda que Hinata continuasse se sentando nas primeiras fileiras, por conta dos degraus, e Naruto não abdicasse da última carteira, ao lado de seus colegas de time –, e almoçavam na mesma mesa. Ele não estava realmente ligando para o que as fofocas dos corredores diriam sobre ele – Sasuke tinha trazido Gaara, Kiba e metade do time do segundo ano, e Sakura e Ino puxavam algumas das líderes, de modo que sempre precisavam unir duas ou três mesas de plástico para poderem se acomodar apropriadamente. Naruto não deixava que ninguém se sentasse entre ele e Hinata, e segurava sua mão por baixo do aparador, tirava alguns fios de seus olhos e fazia piadas internas com ela. Ainda que surgissem alguns olhares entrecortados, todos os atletas tinham desenvolvido uma espécie de respeito pela garota, por sua performance no campeonato nacional, e isso era tudo que importava.

Tsunade já tinha conhecido Hinata oficialmente como sua namorada no natal – uma ocasião que certamente nenhum dos dois se esqueceria facilmente –, e tentava fazer vista grossa quando pegava o neto escapulindo para o dormitório feminino tarde da noite, ou retornando dele, mais tarde ainda – embora fizesse insinuações demais para a sanidade do Namikaze –. Se não estava treinando, estava com Hinata. Estudavam, assistiam algum filme no computador clandestino que ele tinha – ela explicou como funcionavam os áudios descritivos, e ele passou a se acostumar depois de um tempo –, conversavam banalidades e também coisas sérias. Hinata lhe explicava sobre o universo, e os sentimentos, e a sensibilidade, e ele bebia suas palavras, como o homem mais apaixonado do mundo; o que ele era. Apenas estar com Hinata, deitar-se ao seu lado, já era o suficiente. Sabia que nunca esteve tão feliz.

Hinata, por outro lado, experimentava sensações extraordinárias, e aquilo a assustava na mesma medida que a fascinava. Naruto era seu príncipe encantado – tudo que ela não sabia que precisava; atencioso, gentil, engraçado, carinhoso. Se ela se movia, ele imediatamente mudava de lado. Se ela queria algo, ele se prontificava a buscar, não importa onde fosse, não importa quanto custasse. Naruto a fazia se sentir amada e protegida, e não a tratava como uma inválida, e sim como alguém capaz. Saber que podia contar com ele a deixava corajosa, e ela não tinha mais medo de sentir.

Enquanto crescia, nunca se imaginou como alguém que merecia amor. Apenas não pensava em garotos, namorados, encontrar uma paixão tão forte que dominasse todo seu corpo e seu espírito. Quando Naruto surgiu – depois que superaram os pequenos incidentes envolvendo sua personalidade obtusa e momentaneamente babaca –, ela não se achava digna de atenção, ou interessante o suficiente para atrair alguém. Mas ele insistiu. E continuou insistindo, apesar das evasivas. E então, ele a beijou, naquela noite – foi como ver fogos de artifício. Foi naquele momento que ela percebeu que não tinha mais volta. Não seria mais ninguém; apenas ele. De repente, estava cercado de amigos, pessoas que gostavam dela de verdade, que se preocupavam.

Junto com Naruto, foi como se tivesse ganhado uma segunda família. Kushina costumava ligar no celular do filho e pedir para falar com ela – passavam horas conversando sobre os mais diversos assuntos. Ela adorava Nagato, e ria das brigas dos irmãos. Tsunade, ainda que lhe causasse um pouco de medo, era engraçada, e vivia a bronquear o loiro. A única pessoa com quem não tinha muito contato era o senador Namikaze – conhecendo a relação dele com Naruto, também procurava não tocar no assunto. Todos seus familiares pareciam tê-la aceito muito bem, e isso era mais do que podia esperar.

Hiromi, por outro lado, simplesmente adorava Naruto. Conversaram algumas vezes por vídeo-chamada, e a mulher o fez prometer que iria junto visitá-la da próxima vez que Hinata fosse – o Namikaze, é claro, não negou. A morena gostava de ver a interação entre ambos – as duas pessoas que mais amava no mundo –, mas, nos últimos dias, tinha achado a mãe um tanto aérea e distraída. Parava de ouvir com facilidade, e sua voz parecia quase sempre lamentosa. Ficou com medo de perguntar o que estava acontecendo, convencendo-se de que ela contaria, quando se sentisse confortável.

O dia começou normalmente. Naruto se atrasou de manhã – dormindo demais, porque voltou tarde para seu quarto –, e teve de correr para a aula sem café da manhã. Os corredores estavam mais cheios que o usual, e ele trombou em uma ou duas pessoas. Quando se sentou, Sasuke lhe estendeu um pacote com dois bolinhos – Naruto sempre se perguntava como era possível ele conseguir acordar no horário, se passavam a mesma quantidade de tempo em certo dormitório.

— Por que esse lugar parece mais cheio e barulhento que o normal? – sussurrou, com a boca cheia de comida. Sakura o fitou com nojo antes de se inclinar para trás e responder.

— Hoje o pessoal que se formou ano passado veio buscar os diplomas. – o Namikaze soltou um “ahh” de compreensão e se virou, tentando acompanhar a professora, anotando mentalmente para procurar seus veteranos no intervalo, e cumprimentá-los.

A manhã passou mais rapidamente que de costume. Naruto reclamou uma ou duas vezes de não conseguir entender nada do que estava acontecendo, e levantava vezes demais, apenas para passar pela carteira de Hinata e mexer em seu cabelo; ela nunca se assustava, com seu toque, seu cheiro e sua presença se tornaram inconfundíveis.

Finalmente, chegou a hora do almoço. Naruto esperou Sasuke, que esperava Sakura. Desceu as escadas, e parou ao lado da Hyuuga. Ele soprou sua orelha, e ela riu. Naruto parou por alguns segundos, admirando-a com um sorriso bobo. Saíram da sala quando quase todos tinham se retirado, e o loiro apoiou a mão na base de suas costas, guiando-a despreocupadamente pelo corredor até o refeitório.

De fato, o lugar estava mais lotado que o usual, e barulhento. Naruto cumprimentou uma ou duas pessoas conhecidas, e Ino chegou com Tenten, que abraçou as duas garotas com entusiasmo. Estavam procurando por uma mesa livre, quando os auto-falantes soltaram ruídos, sendo ligados. Esperaram por um recado da diretoria, como era habitual. Pouco a pouco, o barulho no refeitório silenciou, todos atentos.

— Eu não amo a Hinata.

Oh.

— Só estou brincando com ela.

Os braços de Naruto caíram, pendentes ao lado do corpo. Seu rosto ficou inexpressivo.

— Ela não passa de um joguinho para me distrair, e, quando eu me cansar, vou chutá-la.

Centenas de pares de olhos se viraram para ele, fitando-o surpresos; nenhum deles importava. Se não estivesse paralisado, teria se virado para a única pessoa com quem realmente se preocupava. Sua mente gritava para que ele se mexesse, para que fosse até Hinata e explicasse a verdade, mas seu corpo simplesmente não obedecia.

— Ela é uma ceguinha sem graça com um corpo legal, e não passa disso.

A gravação estava perfeita, sem ruídos ou sinais de corte. Ela o tinha pego.

— Não tem nenhuma chance de nós continuarmos juntos no futuro.

Silêncio.

Um farfalhar fez Naruto cair em si, e virar o rosto tão rápido que pôde ouvi-lo estralar. Hinata deu as costas, estendendo o bastão agilmente e saindo pelo corredor. As pessoas atrás dela lhe davam passagem, sem hesitar. Sakura, com a expressão em mais puro choque, olhou de um lado a outro, para ela e para Naruto, e sai rapidamente atrás da garota, alcançando-a já quando estavam fora de visão. O restante se voltou para ele novamente. O Namikaze não podia dar o que eles estavam esperando; estava sem reação.

Procurou por rostos conhecidos, mas sua visão estava nublada. A boca entreaberta provavelmente o deixava parecendo um babaca, mas ele não se importava. Virando a cabeça devagar, perdeu-se no mar de pessoas, todas igualmente em silêncio. De repente, ele a avistou – a confusão vasta de cabelos muito loiros, o top muito apertado, a saia muito curta e o sorriso muito perverso. Shion ria como quem assistia um filme; mais que isso, ela parecia realizada. As unhas pintadas de vermelho coçaram o canto dos lábios, talvez como se limpasse o veneno.

Naruto reagiu; de nublado, sua visão foi para vermelho. Um vermelho puro, de raiva. Seus punhos se fecharam com tanta força que as unhas calcaram a palma. Sua respiração se tornou rápida, e ele não pensou. Ele não se importava.

Andou em passos pesados para a mesa mais próxima, e subiu nela. Imaginou ter ouvido Sasuke o chamando, ou talvez seria Gaara. Ignorou. Todos os olhos estavam voltados para ele. Naruto refletiu, por uma fração de segundo, que era exatamente como ele gostava antes. Toda a atenção; todos bebendo cada uma de suas palavras, imersos no próximo drama que ele protagonizaria. De repente, tudo que ele não queria era aquilo. Aquela hipocrisia era sufocante.

— EI! – gritou, ainda que nenhum barulho pudesse ser ouvido no raio de quinhentos metros – Eu só vou dizer uma vez, então gravem bem isso. – sorriu, ácido – Eu amo Hyuuga Hinata. – sua voz nunca esteve tão firme – Eu estou namorando Hyuuga Hinata, e pretendo continuar a fazer isso por um longo tempo! – frisou, irritado – Hyuuga Hinata é a garota mais linda, inteligente, sensível, gentil e incrível que eu já conheci. Ela é melhor que muitos de vocês! – voltou-se para a capitã das líderes de torcida, que já não tinha mais o sorriso vil. Ela o olhava com fúria. Shion poderia alegar que era apenas por vingança, mas Naruto ainda a conhecia; uma parte dela, uma parte mínima, pensava que poderia voltar a controlá-lo caso o humilhasse publicamente. Não mais. — Eu não estou nem aí para o que vocês pensam ou fofocam. – cuspiu – Eu estou cansado de fingir! EU AMO HYUUGA HINATA! – pulou da mesa, correndo sem olhar para trás.

Deslizou pelo corredor, tropeçando nos próprios pés. Que se fodam todos eles, ele precisava encontrá-la. Precisava implorar para que ela o ouvisse, implorar seu perdão, explicar a verdade. Ele a amava, a amava mais que tudo, mais do que amou qualquer pessoa – não deixaria que Shion estragasse sua vida mais uma vez.

Correu até as escadas, subindo e olhando pelos corredores. Começou a se desesperar. Onde Hinata estaria? Todos estavam no refeitório – ela sabia o que estava fazendo. Esperou até que os ex-alunos estivessem no prédio. Mais platéia para seu show. Sentiu um bolo na garganta, com vontade de chorar. Muitas emoções tomaram conta de seu corpo naquele momento. A menor ideia de perder Hinata para Shion o deixava atordoado.

Estava prestes a voltar correndo, esbaforido, quando identificou a cabeleira rosada de Sakura, ao mesmo tempo que a garota acenou, o vendo também. Andou em passos agitados até ela. A Haruno o parou, tentando acalmá-lo. Naruto parou, respirando fundo e sentindo pontadas no peito que ele esperou muito determinadamente que fossem de felicidade.

— Calma, respira! – a rosada orientou, com a mão em seu ombro. Naruto tossiu, limpando a garganta.

— Sakura, e-eu, eu não disse aquilo! Você sabe, eu não d-disse aquilo, eu amo a Hina, eu amo ela, eu jamais diria aquelas coisas, foi uma armação da Shion, você sabe! – insistiu, arquejante, quase chorando. Sakura assentiu a cada sentença, acariciando seu braço.

— Naruto, calma! Eu sei! – ele quase desfaleceu de alívio – Eu acredito em você. – suavizou – A Shion é uma cobra invejosa. Se fosse o Naruto de um ano atrás – revirou os olhos – eu ficaria com dúvidas. Mas esse Naruto – bateu contra seu peito – esse Naruto ama a minha amiga. – sorriu – Ela está na biblioteca. Ela vai te ouvir.

O loiro assentiu, e se inclinou para abraçá-la forte. Sakura gritou, rindo, e disse para ele se apressar. Naruto respirou fundo, andando até o fim do corredor para as portas duplas que levavam à biblioteca. Lembrou-se de quando escondia-se ali com Sasuke, e também quando conversou com Hinata, naquele mesmo lugar. Suas pernas estavam tremendo, e ele não sabia se conseguiria se manter de pé por muito tempo.

O lugar estava escuro e silencioso. As janelas, no alto, traziam parca luz para as mesas de estudo, enquanto as prateleiras se erguiam, soberanas, sobre ele. Não era muito confortador, mas tudo desapareceu quando ele a viu. Parada perto da mesa do fundo, estava de costas, apoiada, de cabeça baixa. Parecia tão visivelmente conturbada, o Namikaze só queria confortá-la – e fazer aquela desgraçada pagar.

Não queria assustá-la, então se aproximou silenciosamente. Estava nervoso.

— Hinata? – não soou firme. Sua voz estava baixa, cuidadosa e rouca, muito diferente do regular.

Ela se virou assustada. Mais que assustada, parecia supreendida. Seu rosto se iluminou de reconhecimento, e sua postura não parecia acuada.

Foi quando Naruto percebeu seu erro.

— Menma? É você mesmo?

Ele parou de respirar.

— Não acredito que você veio hoje também!

Naruto não pôde impedir que ela se aproximasse. Seus passes eram confiantes, e seu sorriso, genuíno. Seus braços vieram para abraçar um velho amigo, e o loiro não tentou se afastar, para não correr o risco de derrubá-la. Tudo aconteceu rápido demais.

As mãos tocaram seus bíceps e seu sorriso se desfez.

— Naruto? O que... – suas sobrancelhas se enrugaram por um milésimo de segundo. Hinata era inteligente; a pessoa mais interessante que Naruto conhecia – Não. – foi por isso que ela entendeu tão rápido – Não.

— Hina, eu... – sua voz se perdeu no ar. Angustiado, não foi capaz de encontrar as palavras, e ela se afastou, devagar. Suas mãos retesaram como se tivesse tomado um choque. Sua expressão era de desnorteamento.

— Não. – um novo sussurro. Naruto assistiu, devastado, os olhos dela encherem de lágrimas. Se acumularam nos cantos das orbes peroladas, e seu rosto esbranqueceu – Não, não, não, não, não, não, não. – tropeçou para trás.

— Hina, me escuta, por favor! – gaguejou, estendendo o braço para o nada.

— Por favor. – foi como se estivesse gritando, mas não passava de um murmuro – Por favor, me diz que eu entendi errado. Diz que não é isso. – implorou, com as primeiras lágrimas – Por favor, Naruto. – seu nome nunca soou tão lancinante – Diz que não é isso. – limpou o rosto furiosamente.

— Não é nada disso! – se apressou.

— Você tem a voz dele! – acusou, mais alto. Soluçou – Como isso é possível?

— E-Eu... eu... – se perdeu, balbuciando – Eu não queria. – quase não foi ouvido.

— Não. – Hinata gemeu, apoiando-se na mesa para não cair. Naruto conseguiu sentir; a frágil felicidade que ele experimentou, agora se despedaçando, esfarelendo entre seus dedos.

— Eu não queria que você me reconhecesse! – falou, agora rápido demais, e Hinata soluçou novamente – Eu não queria, eu não sei, eu era idiota naquela época! Ainda sou! – consertou, se aproximando dela – Quando eu te vi nada, eu... eu... – balançou a cabeça, angustiado para conseguir explicar o que foram aqueles sentimentos, na primeira vez – Foi a coisa mais linda que eu já tinha visto. – sussurrou, e sua mão alcançou a dela. Embora não retribuísse o aperto, ela não o afastou de imediato – E eu não sabia o que fazer! Você era diferente do que me ensinaram, do que eu conhecia, e eu não queria me afastar. Estar com você fazia eu me sentir eu mesmo! E você odiava o Naruto. – fechou os olhos por um instante, engolindo em seco – Eu só queria me aproximar e conquistar você. Quando começamos a conversar, com eu sendo eu mesmo, eu mudei! Eu terminei com a Shion, eu me tentei ser melhor! – arfou, sem fôlego. Hinata chorava silenciosamente, e ele queria limpar aquelas lágrimas.

— Você mentiu para mim. – seu sussurro doeu mais que qualquer ataque físico. Ela retirou as mãos dele sob as dela, deixando o braço cair, apático – Eu te disse que eu odiava mentiras, e você mentiu para mim.

— Eu não menti! – Naruto sufocou, aflito – Hina, por favor, acredita em mim, eu não tive oportunidade de contar antes, mas eu ia! Eu só, eu-

— Quem é você? – murmurinhou – Alguma coisa do que você já me disse foi real? Que outras coisas você inventou? E-E aquilo no refeitório, é verdade? Eu sou um joguinho para você, e quando você cansasse ia me jogar fora? – sua voz falhou no final, mesclada com um pranto.

— Não! – Naruto quase gritou, depressa – Hinata, não! Nada daquilo era verdade, acredita em mim! Eu amo você, eu amo você de verdade. A Shion armou aquilo, fez parecer que eu estava falando aquelas coisas mas eu não estava! – implorou, afligido.

— Eu sabia que era uma armadilha. – fungou, com os ombros tremendo – Sai de lá porque fiquei com vergonha de todas aquelas pessoas ouvindo aquelas coisas baixas sobre nós. Eu estava disposta a ouvir a sua versão. – seus lábios tremeram – Mas agora como eu vou poder confiar em você de novo? – Naruto lamuriou, atordoado.

— Hina, eu amo você. – sua boca estava seca, e seus olhos, úmidos.

— Às vezes o amor não é suficiente, Naruto! – rebateu – Você mentiu para mim, fingiu ser duas pessoas diferentes! – ela estava exasperada – Meu Kami, como eu pude ser tão burra? – levou a mão no rosto, esfregando – Como você conseguia? Eu nunca percebi. Era por isso que nunca deixava eu me aproximar? Por que eu ia reconhecer você? – falou, com náusea – Você me enganou. Me fez de idiota. – voltou a falar baixo, e Naruto quis que ela gritasse.

— Tudo que eu fiz foi para me aproximar de você. Nunca quis brincar com você, eu fui sincero em tudo que eu te disse. Meus sentimentos são verdadeiros. – tentou uma última vez, pesaroso.

— Eu já não confio mais em você. – murmurou. Seu rosto estava vermelho, molhado, e os olhos lilases, sempre brilhantes em sua direção, desta vez estavam apagados – Vai embora, Naruto. Vai embora, por favor. – apoiou a cabeça contra as mãos, virando de lado, se fechando.

Estava feito.

Todos seus medos, seus temores, se concretizaram. Parte de si já esperava por aquilo – ele devia ter dito a verdade. Tentou se convencer que eram boas intenções, mas o inferno estava cheio delas. Não tinha mais o que fazer. Naruto amava Hinata o bastante para se afastar, se esse fosse o desejo dela. Ele a tinha machucado, tinha mentido, e agora a tinha perdido. Afastado a única pessoa que já tinha amado verdadeiramente, a pessoa pela qual ele tinha mudado. Talvez aquela dor nunca cessasse, mas ele a aceitaria de bom grado, se fosse para findar as lágrimas dela.

Destruído, deu meia volta. A biblioteca continuava tão vazia quanto antes, contudo, mais gelada e mais solitária. Saiu, e não olhou para trás. Não havia mais o que fazer. Prendeu um soluço, que veio em seguida, de qualquer modo, junto de lágrimas pesadas e quentes.

Assim que parou de ouvir os passos se afastando, Hinata desabou. Com os pulmões ardendo, sem ar, ela tateou em busca da cadeira mais próxima, e deixou que suas pernas desmoronassem, sentando-se e apoiando a cabeça contra os braços. Sentia os ombros tremerem violentamente, conforme o choro aumentava de intensidade, se tornando tão forte e impetuoso que ficara sem ar. Seu peito doía como nunca antes, e ela queria arrancar aquela dor.

Menma tinha sido a primeira pessoa que fora realmente legal com ela na escola. Seu primeiro amigo, o primeiro em quem tinha confiado. Fora ele quem a incentivara a entrar na equipe de natação, quem a ajudara quando perdeu o ônibus para as regionais. Pouco a pouco, as peças começaram a se encaixar perfeitamente, cada fragmento, cada detalhe que não tinha percebido antes – porquê ele estava sempre por perto, mas sempre tão longe; porquê Sakura não o conhecia, ainda que ela conhecesse todo mundo; naquele dia, em que marcaram de se encontrar, e as líderes de torcida apareceram, zombando dela. Quando Menma não apareceu, Naruto estava lá. Os dias que ela passou chorando pelas coisas que ele disse, a sensação de ser digna de pena. Hinata não queria conversar com ele no dia da festa, mas ele pareceu tão arrependido, tão solícito. Ela se lembrava de sentir que o conhecia, que podia confiar nele. Porque já o tinha feito.

Burra, burra, burra!

Ela deveria saber que, uma hora ou outra, quebraria a cara – garotas como ela não viviam sonhos como aquele. Sempre tinha sido bom demais para ser verdade; cada beijo, doce. Cada toque, suave. Cada noite em claro, gentil. Cada palavra, amável.

Como Hinata deveria superar isso, amando Naruto com cada uma de suas células?

Muito tempo parecia ter se passado, e ela agradeceu por ter sido deixada em paz. Levantou-se, fungando, e percebeu a umidade na mesa de madeira, e a dormência em seus braços. Limpou o rosto com os dedos trêmulos, e se levantou, hesitante. A luminosidade parecia ter diminuído. Puxou o bastão, estendendo-o e tateando para a saída. Não ouvia um barulho sequer, e não se importava em como parecia – ela não podia ver as expressões de julgamento que redirecionariam a ela.

Sempre que se esquecia de sua deficiência, encarando-a nada mais do que uma característica, algo acontecia para lembrá-la que, de alguma maneira, a cegueira definia o seu destino. Se não fosse cega, então teria percebido aquele joguinho de Naruto – as coisas teriam sido diferentes? Ela teria se interessado por ele podendo vê-lo, e ele se interessaria por ela? Hinata amava Naruto muito mais profundamente, justamente por não poder ver sua aparência. E aquela foi sua sina.

Não sabia para onde estava indo, e, ao descer as escadas, entrou em campo aberto, pensando estar nos jardins, ou no estacionamento, ou em uma das entradas laterais. Andaria em volta do prédio até encontrar algum ponto de referência, mas sentiu uma presença se aproximar, e parou.

— Olá? – sua voz estava falha e insegura.

— Olá, Hinata. – era um homem – Nós não nos conhecemos ainda, mas é um prazer. – ele estava emocionado ou comedido? – Meu nome é Hiashi.