Quimera
3 Talento
Notas iniciais
— Poucos são aqueles que veem com seus próprios olhos e sentem com seus próprios corações.
Naruto estava furioso. Não estava acostumado a ser afrontado, muito menos por um de seus amigos. Ver Sakura caminhar até a mesa daquela garota e conversar com ela, como se fossem velhas e grandes conhecidas, despertou nele um sentimento de pura traição. Se seu humor não era dos melhores pela manhã, aquele momento havia acabado de piorar drasticamente.
Passou o resto do café com a cara fechada, emburrado. Ninguém ousou dizer nada, mesmo que Sasuke quisesse dizer algumas coisas ao amigo, como, por exemplo, que ele estava sendo um completo imbecil. Entretanto, nem mesmo o Uchiha seria capaz de enfrentar Naruto. Não gostavam de admitir, mas eram controlados pelo medo do loiro.
O dia – costumeiramente nublado – tornou-se, se possível, ainda mais monótono. Naruto, sem a menor disposição ou paciência para as aulas, ponderou matá-las, escondendo-se na biblioteca (a única utilidade que considerava decente), mas Sasuke o lembrou, novamente, que os olheiros da universidade levavam presença escolar muito a sério, e que o garoto não poderia pegar mais dependências por falta. Resmungando, Naruto se deixou levar até a sala, consolando-se ao lembrar que, naquela tarde, os treinos do time recomeçariam.
A única coisa a qual realmente se dedicava era o esporte. Na infância, era um meio de chamar a atenção do pai, que fazia esforços para vê-lo jogar no fundamental. O tempo passara e Naruto começou a exigir-se cada vez, em busca do reconhecimento do Namikaze mais velho. O loiro sabia que não havia sido dotado de inteligência extraordinária, como o irmão, mas orgulhava-se de cada medalha conquistada. No esporte, via uma saída, uma escapatória. Fosse em terra, na água ou no campo, podia ser quem ele quisesse ser – capitão, astro, pivô ou suporte. Podia extravasar toda a mágoa que assolava-o por dentro e focar no que realmente era importante.
— Dobe, você sabe que não pode ficar com essa cara emburrada o dia todo. – Sasuke comentou, quando chegaram em suas carteiras. O moreno retirou seus cadernos e livros, enquanto Naruto jogava a mochila na mesa e a usava de travesseiro.
— Pode apostar que consigo, Teme. – murmurou com a voz abafada.
— Não sei qual sua implicância com a garota. – o Uchiha retrucou e Naruto levantou a cabeça rapidamente, o fitando com um olhar mortificante – Quero dizer, ela acabou de chegar aqui e não fez nada para você. Nós sequer temos muitas aulas com ela.
— É que, argh! – grunhiu, exasperado – A presença dela aqui me irrita! Era para ser uma escola de elite, frequentada por pessoas seletivas, não qualquer plebe. – reclamou – Não vai demorar para que as pessoas comecem a fazer favores para ela, e isso vai bagunçar uma estrutura social cuidadosamente organizada para fazer funcionar esse lugar. – explicou, irritado, gesticulando nervosamente com as mãos.
— Kami, as vezes me pergunto se você não vive no século passado. – Sasuke revirou os olhos tediosamente – Você fala mais como seu pai do que pensa, quando quer. Deixe esse papo político para alguém que acredite em você, tipo seu fã clube. Esqueça essa garota e peça desculpas a Sakura, ela vai ficar irritante por sua culpa.
— Você é insuportável, Teme. – Naruto desistiu, tornando a se deitar, pensando no que o amigo tinha dito.
Não sabia explicar porque se incomodava tanto com a garota cega – ela não representava nenhum perigo eminente para sua reputação. Sequer a tinha visto novamente depois do café da manhã. Era só uma pobre criatura desafortunada que por um acaso simples do destino havia se metido em seu caminho por alguns segundos. A Hyuuga significava um total insignificante em sua vida, mas apenas não conseguia parar de pensar nela. Sentia um incômodo crescente, uma necessidade pungente de falar dela o tempo todo, encontrar defeitos para que todos a odiassem como ele o fazia.
Enquanto isso, Hinata sentia-se radiante. Embora não pudesse ter as primeiras aulas com Sakura, a garota havia levado-a até a sala, prometendo se encontrar com ela no almoço, para que comecem juntas. Aquilo fora o mais próximo de uma verdadeira amiga que Hinata jamais teve em toda sua vida. Crescida sob uma bolha invisível, as pessoas a ignoravam, fosse por medo, fosse por desprezo. Havia sido uma infância solitária, mas aprendera a lidar com a rejeição, reconhecendo que a melhor companhia era sua própria. A Haruno, por outro lado, era espontânea e divertida, embora retraída por medo de dizer algo que magoasse Hinata, não havia limitado contato ou agido de forma estranha por sua deficiência. A morena sentia-se plenamente feliz, e queria correr até sua mãe para contar todas aquelas novidades incríveis.
O tempo na Academia passava de maneira diferente que do lado de fora da realidade, apressando-se para os alunos. Hinata mal via as aulas passarem, entretida com as matérias e suas anotações. Ficara apreensiva de usar seu aparelho convencional de escrita que, embora antigo, era extremamente útil, mas os professores lhe asseguraram para não se importar com qualquer comentário negativo. Desse modo, não demorou até que enchesse sua pasta de papéis com lembretes e comentários que julgava importantes de serem guardados.
Esperou até que estivesse sozinha na sala para organizar suas coisas. Não gostava das pessoas olhando para ela. Com um suspiro, ajeitou suas vestes e pegou o bastão. Com algum tempo se acostumaria com os passos e não teria que depender do instrumento – não gostava de nada que denunciasse sua situação descaradamente, embora sentisse saudades do cão guia que havia deixado em sua casa.
Distraiu-se pelo corredor, com a movimentação e a correria. Mesmo que as diversas conversas bagunçassem sua cabeça um pouco, era reconfortante estar no mundo real, fazer parte de algo que existia. Ao contrário do pensamento popular, Hinata odiava sentir-se reclusa, afastada do convívio. A realidade era onde as coisas aconteciam, onde a vida se desenrolava, onde estavam os problemas de verdade. Andava pelas laterais, e sabia que as pessoas estavam liberando o caminho para ela. Algumas provavelmente estavam apontando e cochichando, mas ela não se importava – muito.
Com sorte, ouviu o barulho aumentar e respirou aliviada por não ter se perdido – teria sido vergonhoso ter de pedir ajuda, principalmente naquele lugar, onde as pessoas pareciam vergonhosamente superficiais e presas em seu mundo particular.
Sentiu uma mão em seu ombro e se assustou.
— Calma, sou eu! – ouviu a voz de Sakura e se acalmou, sorrindo. A garota entrelaçou seus braços e reiniciou sua caminhada – Desculpa. Como você conseguiu chegar? Alguém te trouxe? – perguntou distraidamente, e Hinata gostou dela falar com a mesma tranquilidade que qualquer outro assunto.
— Eu conto os passos, da distância entre uma sala e outra ou do dormitório até aqui. Fica mais fácil depois de algum tempo. – deu de ombros.
— Uau. Isso – pausa – é realmente incrível. – pausa – Quer torta? – Hinata percebeu, então, que ela fazia suas bandejas de almoço, e assentiu, animada.
Caminharam pelo caminho inverso, e pararam em uma mesa do lado mais iluminado, onde uma brisa gelada passava por entre elas. Hinata se surpreendeu com a aparição do sol em meio a abril, mas gostava do calor morno em sua pele. Entretanto, ficou tensa, ao perceber que haviam outras pessoas na mesa.
— Saku-chan! – era uma voz animada e particularmente alta – Você tinha razão, ela é superfofa! Parece uma bonequinha. – Hinata se assustou, se perguntando se era dela que a garota estava falando.
— Ino! Você vai assustar ela! – uma terceira voz se pronunciou. Hinata fez uma careta confusa.
— Vocês são duas estranhas. – a voz de Sakura era a que estava mais próxima, ao seu lado – Hinata, essas são minhas amigas Ino, a escandalosa que falou primeiro, e a Tenten. – a garota fez as apresentações, e Hinata sorriu para elas, meio hesitante.
— É um prazer, Hina-chan! Nós vamos ser superamigas! – a que Hinata julgou ser Ino era inegavelmente energética, e sua voz a lembrava das garotas com quem costumava estudar, que andavam em grupos enormes e tinham crise de risos a todo momento. Conseguia a imaginar loura e fabulosa.
— Mas a Ino tem razão, você é muito fofa, Hinata! – a outra deveria ser Tenten. Era mais contida e parecia um pouco mais velha que as demais.
— Obrigada. – a morena riu envergonhada, sentindo o rosto esquentar – É um prazer conhecer vocês. Todas estudam com a Sakura-chan? – perguntou, tateando e beliscando um pedaço de comida, para manter as mãos ocupadas.
— A Tenten aqui é o gênio do grupo, pulou um ano. – foi Ino quem respondeu, e Hinata riu baixo – E se querem minha opinião, é muito injusto você se formar antes da gente.
— Você só não quer ficar mais dois anos aqui, Ino. – zombou Tenten, e houve um momento de silêncio seguido de um slap e risos – Ai! Doeu!
Hinata sorriu mais largamente. O clima entre aquelas garotas era inconfundivelmente leve, compartilhando uma ligação de camaradagem e confiança. Sentiu-se parte do grupo, sendo incluída nas conversas e nas brincadeiras. Nenhuma delas citou sua deficiência, quase como se ela não existisse. Almoçaram enquanto as outras comentavam sobre cada aluno que passava por elas, fazendo Hinata rir tanto que seu estômago doeu.
O refeitório foi esvaziando a medida que os alunos terminavam de almoçar. A maioria das atividades extracurriculares se iniciariam na parte da tarde e, como exigido pela grade de excelência, todo aluno deveria fazer parte de, pelo menos, um grupo. Todas as inteligências eram incentivadas – haviam reuniões de teatro, artes, esportes, grêmio estudantil, estudos a parte, habilidades manuais e muitos outros. Logicamente, os times eram os mais famosos. A Academia Canadense apresentava um recorde de primores há gerações, portando títulos e troféus em todas as modalidades. Atualmente, estavam inscritas no torneio nacional, lutando pela oportunidade de representar o Japão no campeonato internacional.
— E aí, Hina, o que você está pensando em fazer agora a tarde? – Ino perguntou, animada.
— Ainda não sei. – respondeu, pega de surpresa pela pergunta – Por enquanto não tenho nada em mente, mas vou passar um tempo na biblioteca, revisando a matéria.
— Você deveria participar das líderes de torcida com a gente! – bateu palmas, alegre, e Tenten suspirou, desacreditada – Eu sempre tento levar a Sakura com a gente mas ela nunca aceita. – terminou com a voz triste. Hinata riu.
— Ino, deixa de ser lesada!
— Acho que eu não teria muita coordenação motora para as líderes, Ino, mas obrigada pelo convite. – Hinata respondeu com bom humor, e Ino fez uma cara culpada, enquanto as amigas a encaravam acusadoramente. A garota percebeu o clima e tentou mudar de assunto – Por que você não participa das líderes, Sakura-chan? – perguntou.
— Esse ano eu fui promovida a presidente do conselho estudantil de organizações e eventos. – respondeu com um tom particularmente orgulhoso.
— Uau. Isso parece importante. – Hinata reprimiu um riso, mas as duas outras garotas riram abertamente.
— Basicamente sou eu quem organiza os campeonatos, as viagens, as festas, os eventos beneficentes, as excursões e até a formatura! – listou com um único fôlego, e riram em seguida.
Continuaram a conversar por mais alguns minutos, até que Ino e Tenten tiveram que ir se trocar para o treino, que começaria junto com o do time principal da temporada – o de judô. Sakura ajudou Hinata a chegar até o corredor principal, se despedindo também. A Hyuuga, agora sozinha, caminhou até seu quarto, pensando em tudo que havia acontecido até ali.
Distraída, confirmou estar entrando no quarto certo antes de abrir a porta. Deixou sua bolsa sobre a cama e despiu-se, indo até o banheiro para tomar uma ducha. Tinha, sim, que revisar a matéria e Tsunade havia deixado que ela tivesse acesso aos livros de estudo da ala de consulta, mas sua cabeça estava há horas dali – no fim da tarde, quando todos os treinos tivessem acabado e a ala esportiva estivesse vazia. Solitária, poderia, enfim, retomar uma parte sua que há muito sentia falta.
Naruto mal conseguiu se concentrar em seu almoço, de tanto ansiedade. Os amigos o zombavam e irritavam, mas ele não dava a mínima. Quando o almoço terminasse, ele teria seu amado tatame de volta, e poderia mostrar a todos seu verdadeiro potencial.
— Calma, Naruto. Se você morrer engasgado, não vai poder lutar. – Gaara não perdeu a oportunidade, ganhando um olhar atravessado.
— Eu quero todo mundo bem nutrido, a gente vai pegar pesado esse semestre para ganhar o campeonato nacional. Quero competir pelo Japão esse ano. – seu olhar era pura adrenalina, assustando até mesmo os garotos.
— É por isso que eu faço parte do time de natação. É bem menos complicado. – Shikamaru se pronunciou, com a cara cansada, e todos riram.
— Achei que era para ver as garotas de biquíni. – Gaara provocou, ganhando um tapa na nuca, e resmungou.
— Se a sua irmã te escuta eu levo uma bronca, cabeça de fogo.
— Como se a Temari te intimidasse tanto assim. – o garoto retrucou, ainda massageando o local estapeado.
— Você é o único que participa do time de natação. – Naruto reclamou, se pronunciando – Nunca entendi porque não quis entrar no judô com todo mundo.
— Eu não sou adepto a ficar batendo nas pessoas. – respondeu com ar displicente – Somos só eu e a água, e todos os competidores têm as mesmas chances, não importa se é homem ou mulher.
— Já disse que nós não batemos, tentamos derrubar. – resmungou o loiro, ainda inconformado.
Terminaram a refeição e não tiveram tempo para descansar. Naruto ordenou que todos fossem buscar as roupas e os pesos individuais, para que se encontrassem na frente do campus. As duas horas em ponto, o grupo de atletas já cruzava o prédio principal, passando pelos corredores cobertos até o tatame principal, sob uma quadra coberta, que detinha diversos instrumentos de treino e especializações.
Naruto estava inegavelmente animado. Deixou sua mochila de lado e guiou a todos até os novos vestiários. Quando colocou sua judogui branca e a faixa preta de capitão no antebraço. Uniu todo o time, admirando os membros, inflando de orgulho de ter a melhor equipe em anos. Todos treinados e de confiança, prontos para alcançar a vitória custe o que custar.
— Time, bem-vindo! – Naruto começou. Era de praxe fazer o discurso de boas vindas duas vezes: uma no primeiro treino e após os testes de admissão dos lutadores da categoria mirim – É uma honra para mim estar aqui mais um ano. Esse ano aperfeiçoaremos nossas técnicas de wazari, e levaremos as lutas ao chão o quanto antes. O campeonato nacional começa em seis meses, e eu não aceitarei nada além de excelência. – sua postura era altiva e a voz, grossa. Naruto, quando dentro do time, era um respeitável capitão, independente de sua personalidade. Todos o admiravam como lutador e instrutor há dois anos, o mestre mais novo que a escola já teve.
Os alunos em semicírculo gritaram em uníssono, empolgados. Sem demorar, Naruto guiou o alongamento e em seguida começou com os treinos iniciais, dividindo em grupos menores para treinar técnicas individuais e ver a dificuldade de cada um.
Os exercícios eram puxados e não demorou até que resmungos ofegantes ecoassem pelo local. Aquilo era como injeções de ânimo para Naruto, que os incentivava com gritos, exigindo até a última gota de suor. Os lutadores mais antigos continuavam experientes, com técnicas de pé firmes e de grande vantagem em competições. Alguns estavam enferrujados, mas, depois de alguns treinos, estariam em perfeito estado novamente.
Ao longo do treino, tiveram que ouvir o treino das líderes de torcida, que já recrutavam garotas novas. As músicas eram altas e haviam muitos gritos, fazendo com que Naruto e seus amigos suspirassem. Voltam com o time significava suportar as líderes os seguindo nas competições. Eram um preço que tinham que pagar, uma vez que a Academia ganhou o título nacional de competições de coreografia pela segunda vez consecutiva, dando uma guinada nada agradável no ego da equipe.
A tarde passou com rapidez, e, quando deu por si, já eram seis horas. Naruto dispensou a equipe depois do alongamento final, sendo cumprimentado por alguns deles. Todos estavam animados com a volta dos treinos, uma vez que a maioria deles tinha o judô como atividade extracurricular principal. Gaara se despediu de longe, correndo para o jantar. Sasuke, já pronto, parou para esperar Naruto, que arrumava suas coisas e organizava o ringue.
— Pode ir, Teme. Ainda preciso tomar banho, a obaa-chan me mata se eu deixar isso aqui bagunçado de novo. – fez uma careta, e o amigo riu, concordando. Pegou sua mochila, dizendo que o esperaria no dormitório mais tarde.
O Namikaze, já sozinho, sorriu consigo mesmo. Sentia-se revigorado, e naquele ano, poderia, finalmente, impressionar o pai quando voltasse para casa com a medalha de campeão mundial. Reuniu suas coisas e tomou uma ducha rápida, a água gelada despertando seus sentidos e relaxando seus músculos tensos. Se não passasse pomada depois, certamente sentiria as dores pela manhã.
Secou os fios com a toalha, apagando as luzes e trancando tudo. Para encurtar caminho, saiu pelos fundos, e teria que passar pelo campo e pelas piscinas, onde o time de natação praticava nos fins de semana. Era uma piscina olímpica, e Naruto sempre se perguntava como eles tinham fôlego de nadar tantos metros repetidas e repetidas vezes.
Nunca deixava de admirar as arquibancadas ao redor das piscinas, que serviam para as competições inter-regionais. No entanto, parou, assustado, quando ouviu alguém nadando. Achou que os treinamentos só começariam na semana que vem. Além disso, já havia passado do horário permitido para frequentar as quadras. Naruto marchou pelo meio do caminho, pronto para dar uma bronca no desordeiro e delatá-lo para a diretora.
Quando se aproximou da borda, travou. A nadadora ainda estava dentro d'água, e nadava de uma maneira que Naruto nunca havia presenciado antes. Deslizava pela raia com fluidez a graça, como se pertencesse àquele lugar. A água a guiava em seu território, enquanto o cabelo negro, solto, flutuava sobre suas costas, formando cascatas enegrecidas e brilhantes.
Naruto engoliu em seco. Embora não pudesse ver seu rosto, sentia que conhecia aquela garota – e era impossível. Para ele, era impossível.
Depois da segunda volta, a garota colocou a cabeça para fora, respirando fundo e afastando alguns fios. Naruto perdeu o fôlego por alguns segundos – seu rosto era como porcelana. Nunca tinha visto rosto tão angelical quanto o dela. Cada detalhe se encaixava perfeitamente, como em um desenho. Traços suaves e equilibrados. Mas o que o deixou paralisado foram seus olhos.
Pérolas. Eram como pérolas. Duas luas cheias, de cor aveludada. Não focalizavam em lugar algum, mas brilhavam. Era cheias de vida.
Naruto estava atônito. Dentro de si, sentimentos confusos que brotavam e mesclavam-se, deixando-o furioso e encantado. Nunca havia sentido aquelas coisas, e nunca, jamais, havia visto uma garota tão bela em toda sua vida. Mas aquilo era errado – não era?
A garota, então, virou o rosto, confusa, como se procurasse por alguma coisa. Abaixou o tronco, ficando da altura da borda.
— Quem está aí? – sua voz soou por todo o lugar, e, mesmo em tom normal, pareciam gritos perfurando os ouvidos de Naruto. Este engoliu em seco, sem saber o que fazer. Ela já sabia que estava ali, e, mesmo podendo sair correndo, algo dentro de si dizia para não o fazer.
— Hã... você nada muito bem. – tentou baixar a voz, deixando-a suave. Aproximou-se, hesitante, e, quando ela sorriu, seu coração falhou duas batidas. Era um sorriso pequeno, tímido, mas carregava algo muito maior e misterioso.
— Obrigada.
— Eu estava só de passagem, não quis atrapalhar. Já estava de saída. – não sabia como as palavras saltaram de sua boca, mas ele não conseguiu as frear. Estava sem reação, com a mente dublada.
— Espera! – a garota cega falou, alto demais – Espera. Pode me dizer seu nome?
Naruto teve apenas dois segundos para pensar, mas, quando abriu a boca, soube que estava se metendo em algo que não tardaria a sair de seu controle:
— Menma. Meu nome é Menma.
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