Quimera

4 Amizades


Notas iniciais
Eu teria postado antes se a Bruna não tivesse me feito maratonar animes e mangás por três dias, só dizendo. Obrigada por cada comentário e apoio, é maravilhoso! Espero que estejam gostando!

— Se amor é cego, a amizade fecha os olhos.

“Menma? Que nome estranho para se ter”. Hinata mergulhou novamente quando ouviu passos saindo pela direita. Decidiu dar mais algumas voltas para ter certeza que não havia enferrujado no curto tempo que ficara sem treinar. No entanto, já não estava mais tão concentrada – sua mente estava nublada de pensamentos. Aquela era a primeira vez que um garoto falava diretamente com ela, e, ainda mais, a elogiava. No início sentiu-se envergonhada, mas havia algo na voz dele que dizia que poderia depositar sua confiança. Desejou encontrá-lo novamente.

Terminou duas voltas e voltou à superfície, respirando fundo. Seu pulmão doía pelo esforço, mas era uma dor recompensadora – com alguns treinos, poderia pedir para entrar no time da escola. Não tinha muitas esperanças, mas não custava tentar. Era boa, e sabia disso – pelo menos tão boa quanto alguém poderia ser em sua situação.

Foi na água que encontrou conforto, há muitos anos. O médico que a acompanhou na infância aconselhou que ela praticasse algum esporte, como forma de tratamento indireto. Ele mostrava centenas de casos de crianças e adolescentes que caíam em depressão pela situação em que se encontravam, vítimas de uma sociedade incompreensiva. O esporte ajudaria a extravasar sentimentos negativos e muitos atletas com deficiência encontravam sua vocação nos campos. Hinata se interessou de imediato, mas não tinha muitas opções na área que morava. Dessa forma, andava todos os dias cerca de dez quilômetros, percorridos metade por ônibus e metade a pé, até a quadra da comunidade, que contava com uma piscina mediava onde vários jovens treinavam.

A garota se identificou desde a primeira vez. Não fora fácil se adaptar e não foram poucas as vezes que fez galos na cabeça por bater nas bordas. Entretanto, com o passar dos anos, se aperfeiçoou e ganhou algumas medalhas com o time juvenil. Ao mudar-se para a nova escola, Tsunade lhe falou do time, dos campeonatos e das piscinas profissionais, incentivando que ela participasse do grupo.

Hinata mergulhou novamente e saiu, impulsionando o corpo com os braços e sentando-se na borda, tateando a procura da bolsa, que deixou preparada no mesmo lugar. Com a toalha, secou a cabeça e enrolou sob os ombros, ficando de pé com cuidado. Pegou a bolsa e o bastão, tateando pela direita, de volta pelo corredor principal. Aproveitou que já estava no horário do jantar, para que ninguém lhe visse de maiô. Subiu até seu dormitório, querendo um bom banho para tirar o cloro do corpo e, quem sabe, uma boa caneca de chá.

Naruto chegou em seu quarto batendo a porta. Esmurrou a parede e chutou a beirada da cama, puxando os cabelos e tentando arrumar uma maneira de se socar tão forte que ficaria inconsciente pelo resto do ano. Como ele pôde ser tão estúpido? Seu cérebro havia o traído, quando se deu por si, as palavras saltaram da boca. Ele havia ficado petrificado, como um idiota.

Não se conformava com suas próprias atitudes. Jamais, em toda sua vida, havia se encantado por qualquer garota que fosse, e, quando aconteceu, foi justamente por uma deficiente. Naruto mantinha para si um nível de excelência para com as garotas que se envolvia. Embora fosse assumidamente um canalha, ele ainda tinha escrúpulos. Todas as incontáveis mulheres com quem havia se envolvido, se encontrava uma variedade considerável de etnias, raças, tamanhos e características. Solteiras, casadas, novas, velhas. Todas obedeciam um rigoroso nível de qualidades, que incluíam poderio social e econômico a altura dele mesmo.

Sentir-se abalado por uma mera garota cega já era, de fato, um baque para sua inabalável confiança, mas mentir para essa mesma garota apenas por estar petrificado era muito mais que seu ego frágil conseguia aguentar.

Autodenominar-se “Menma” havia sido, de todas as suas burrices até aquele momento, a maior delas. Apenas embranqueceu, e disse o primeiro nome que lhe veio a mente – era comum a brincadeira com comidas entre seus familiares por conta de seu próprio nome. A partir daquele instante, Naruto sentiu que havia se metido em uma grande confusão. Com sorte, aquela menina esqueceria que um dia conversou com ele, e suas vidas seguiriam normalmente, como se nunca tivessem se cruzado.

Em meio a seus monólogos internos, Naruto deixou-se impressionar pelas habilidades aquáticas da garota. Ela nadava com maestria, deslizando sobre a água com uma naturalidade que via somente em Shikamaru, veterano da piscina há anos. Questionou-se como ela conseguia sequer nadar – para ele, pessoas com deficiência eram incapazes de cumprir quaisquer tarefas com maior nível de complexidade.

Depois de algum tempo, sua fúria súbita foi substituída pela conformidade e incredulidade. Já sem fome, decidiu tomar uma boa ducha e ir visitar um velho quarto conhecido. Talvez Shion tirasse pensamentos inapropriados de sua cabeça, e seria uma ótima distração. Passou seu melhor perfume e vestiu uma calça fácil de vestir. Ele era quem era, afinal, e não seria uma garota cega que mudaria isso.

Hinata já estava com seus pijamas quando ouviu uma batida na porta. Estranhou. Julgava ser horário de dormir, pela quietude do campus. Ponderou ser a própria diretora ou algum professor. Vestiu seu robe e tateou até a porta. Quando abriu, assustou-se ao sentir o cheiro adocicado do perfume de Sakura.

— Sakura? – fez uma careta confusa e ouviu mais risos – Oi meninas. Hã, entrem, entrem. – moveu-se para o lado para deixar que as garotas entrassem.

— Algum dia nós descobrimos como você faz isso, Hina. – Ino falou, quando passou pela Hyuuga, que fechou a porta e virou-se para as outras.

— É tudo mágica. – brincou, rindo – O que vocês estão fazendo aqui? – perguntou, mas soou rude demais, e tratou de consertar – Não que eu não queira vocês aqui! Mas achei que não podia andar pelos corredores depois das oito.

— Pode ficar tranquila. Nós queríamos conhecer seu quarto. – Tenten respondeu, olhando em volta.

Era um cômodo relativamente bem organizado. Diferentemente dos dormitórios compartilhados, havia apenas uma cama, no canto do quarto, e um criado-mudo onde havia um bastão e uma luminária. Ali, também estava um quadro. Duas mulheres na fota, uma claramente Hinata, mais nova e com o cabelo curto, enquanto a outra deveria ser sua mãe, com os mesmos fios negros e o sorriso terno. Um armário baixo e com a porta semiaberta. Um corredor que levava ao banheiro, e algumas adaptações, como tapetes de alto-relevo.

— Quem é essa, da foto? – Sakura perguntou, se sentando na cadeira acolchoada do canto. As outras se acomodaram na beirada da cama, e Hinata sorriu, nostálgica.

— É minha mãe, Hiromi. Ela é uma mulher incrível. – divagou, o peito apertando com saudades de casa, o cheiro de doces que infestava o ar da cozinha ou o quarto da mãe, sempre aconchegante.

— Vocês são muito parecidas! – Ino exclamou.

— É o que dizem. – Hinata não se deixou abater, enquanto as garotas abaixavam o rosto, se entreolhando culpadas. Era fácil esquecer da deficiência da garota, quando ela tratava tudo de maneira tão natural – Está tudo bem. Ela sempre se descreveu para mim, então é como se eu a enxergasse, de certa forma.

— Como é ter que “enxergar” os outros pelo que eles descrevem? – ela fez aspas no ar, enquanto Sakura e Tenten soltaram um “Ino!” uníssono, mas Hinata riu.

— Eu preciso confiar no que as pessoas dizem para mim. Minha mãe foi a única que eu conheci pelo tato também. – confessou. Ninguém havia sido tão próximo da garota para permitir esse tipo de confiança – As vezes eu me sinto insegura com a minha aparência, mas aprendi a não dar muita importância. Não posso ver se as pessoas me acham feia, então costumo achar que sou muito bonita. – todas riram. Hinata gostava de brincar com o assunto, tornar a atmosfera mais leve.

Não era como se ela não tivesse consciência do próprio corpo. Sabia que a pele era macia, e que possuía alguns atributos físicos considerados atraentes – tinha conhecimento dos seios talvez grande demais, e da cintura afunilada, embora sempre achasse que estava acima do peso. Fora isso, acreditava no que a mãe dizia, o cabelo escuro e as bochechas quase sempre rosadas. Com o tempo, em sua mente, levava para si que era uma garota bonita. Era fácil perder-se na própria mente, e conhecia garotas inseguras o suficiente para saber das consequências de um padrão elevado inalcançável.

— Você é muito bonita, Hina! – Ino exclamou, passando os dedos pelo cabelo da garota, que se assustou, mas não recuou ao toque – Você é mais linda que muitas garotas nessa escola, pode ter certeza. E superfofa também. Igual uma bonequinha! – as outras rolaram os olhos para a amiga, que se entusiasmava rapidamente.

— Obrigada, eu acho. – riram.

— Até quando você vai ficar aqui, Hina? Parece muito solitário. – Tenten comentou, olhando ao redor do quarto.

— A Tsunade me disse que eu poderia ficar até quando me sentisse a vontade para dividir um quarto com alguém. Eu não conheci ninguém além de vocês, então acho que mais alguns dias. – deu de ombros. Internamente, estava morrendo de medo de dormir com outra garota, uma pessoa desconhecida e que muito provavelmente não gostaria dela.

— Ei! A Sakura tem uma cama sobrando no quarto dela. Nós poderíamos falar com a diretora para você ocupar a vaga. – Ino exclamou de supetão, e Hinata engasgou um pouco, pega de surpresa.

— Sim! – a rosada confirmou, também animada – Essa é uma ótima ideia! E você não ficaria sozinha.

Hinata emocionou-se, e não encontrou palavras dentro de si. Nunca alguém havia feito aquilo por ela – sequer tinha tido amigas para isso. Era acostumada a viver sozinha, e não sabia lidar com todo aquele carinho e sentimentos felizes dentro de si. Estava grata, mas também assustada, porque temia sentir falta daquilo se elas fossem embora. Mas, naquele momento, procurou não pensar nisso, abrindo um largo sorriso e contendo as lágrimas que se formavam no canto dos olhos.

— Isso seria ótimo. – confessou, e as garotas soltaram gritos de comemoração, pulando na cama e chacoalhando tudo.

— Vamos falar com a velha amanhã mesmo! – Sakura parecia determinada, e todas gargalharam. Continuaram brincando por alguns minutos mas logo tiveram que ir. O horário de recolher era rígido, e Hinata não queria que se metessem em problemas por ela. Ao saírem, todas abraçaram a garota pelos ombros, e Ino lhe deu dois beijos, um em cada bochecha. Quando a porta se fechou, Hinata continuou sentada, sorrindo. Ainda podia sentir os abraços em seus ombros, e foi dormir tão leve como nunca, pensando em suas três novas amigas.

Quando amanheceu, Hinata arrumou suas coisas de volta na mala e deixou rente a porta. Escovou o cabelo e recolheu seus pertences do banheiro, deixando tudo o mais organizado possível. Pegou sua bolsa e estava pronta para ir até o dormitório, mas assustou-se quando percebeu que Sakura estava do lado de fora, pronta para acompanhá-la. Animadas, conversavam trivialidades. O corredor já começava a apinhar-se de gente.

A de cabelos rosas havia levantado mais cedo, sentindo-se animada. Hinata era uma garota incrível, alguém em que ela podia confiar. Queria provar que gostaria de ser sua amiga, e estar lá por ela. Atravessavam o corredor quando, na altura das escadas, Sakura viu Naruto sair de um dos dormitórios femininos. O garoto estava com o cabelo bagunçado e o uniforme amassado. Atrás de si vinha Shion, já usando seu minúsculo uniforme de líder. Infelizmente os professores faziam vista grossa por ser um dos uniformes da escola, mas era sempre repugnante vê-la naquela roupa minúscula.

Sakura fez barulho de vômito e Hinata riu.

— O que foi?

— Apenas uma cena nojenta demais para se ver. Agradeça por isso. – Hinata riu, assentindo, e Sakura quase se esqueceu do amigo idiota quando percebeu que havia sido confortável fazer uma piada da situação. Quase.

O casal se virou em sua direção, andando como se não houvesse nada nem ninguém no caminho das majestades. Sakura revirou os olhos, perguntando-se como seu amigo podia se envolver com uma cobra daquelas. Se aproximaram e, ao se cruzar, Hinata acidentalmente esbarrou no braço de Shion, que se virou, a boca escancarada.

— De-desculpa! – Hinata gaguejou, surpreendida. Sakura a segurou mais próxima de si, quase protetoralmente. Fuzilou a loira, desejando coisas nada boas para ela.

— Olhe para onde anda! Ah, esqueci. Você não pode. – a loira arreganhou um sorriso cheio de dentes com sua boca carregada de batom. Algumas pessoas pararam para ver o confronto. Sakura soltou algo como um rosnado, sentindo a raiva subir a cabeça.

— Ora, sua... – a rosada avançou, preparada para dar um soco bem dado no nariz plastificado da loira falsa, mas Hinata agarrou seu braço a tempo, apertando com uma força advertida. Shion soltou um grito, se escondendo atrás do braço do garoto ao seu lado.

— Sakura, não. – disse, baixo – Está tudo bem. Não vale a pena.

Naruto observava a cena com uma cautela acima do normal. Em outras situações, não hesitaria em zombar nocivamente da garota. Mas as coisas estavam diferentes. Olhando para ela a sua frente, só enxergava seus olhos, brilhantes e desfocados, e sua boca, tão rosada e convidativa. Enxergava a nadadora do dia anterior, inocente e a mercê. Mas ele estava em público, e não podia arriscar sua própria reputação por uma insanidade temporária.

Com um movimento, rodeou a cintura de Shion, a puxando para junto de seu corpo. Encarou Sakura, já contida, mas com um semblante irritado. A amiga o fitou, e, quando a olhou nos olhos, enxergou a mágoa e a decepção. Por um milésimo de segundo, aquilo o atingiu – Sakura era sua melhor amiga, apesar de tudo. Engoliu em seco, trancando quaisquer tipos de sentimentos. Shion era – tecnicamente — sua namorada, e ele precisava defendê-la.

— Vamos, Shion. Não vale a pena. – olhou as duas garotas com o ar superior que vestia e deu as costas, guiando a loira em seus braços. Algumas líderes seguiram os dois, comentando em cochichos. Hinata ajudou Sakura a se aprumar, sorrindo de canto, um pouco entristecida.

Aquela voz era a mesma do primeiro dia. O garoto com quem havia trombado, de tom hostil e raivoso. Ele parecia soar superior e imponente, e Hinata imaginou que ele seria alto e com postura ereta, ostensiva. Apesar de não demonstrar, algumas palavras machucavam. Ela tinha conhecimento da sua própria condição, mas ouvir isso, tão provocativa e debochadamente, era incômodo. Mas o que mais lhe deixou surpresa foi o garoto – ele soava quase indiferente, como se estar na presença dela, ou pior, se incomodar em provocá-la, fosse uma enorme perda de tempo.

— Hina, não dê a menor importância para eles. São uns idiotas. – Sakura ainda estava muito irritada, as mãos apertadas em punho. Teria uma conversa muito séria com Naruto mais tarde. Embora brigassem com a mesma frequência que um casal de idosos, no dia seguinte estavam se falando normalmente, instigando um ao outro. A não ser que Naruto agisse como um babaca por mais tempo que permitido.

— Quem eram? – Hinata conseguiu disfarçar a voz embaraçada, e juntas voltaram a andar.

— A garota era Shion. – o ódio era palpável, e Hinata imaginou se ela não seria uma espécie de rival da garota – O outro era o Naruto. – suspirou, dessa vez um pouco mais resignada, e talvez um pouco magoada – Ele é o maior imbecil. Eu queria pedir para você ficar longe dele. Sei que não vai ser difícil. – soltou uma risada anasalada, mas Hinata percebeu uma pontada de lástima – Ele não é uma pessoa ruim, mas as vezes não pensa nas coisas que ele fala. Ele foi acostumado a estar sempre certo, e é mimado. De qualquer maneira, não quero que você se magoe por um imbecil daqueles.

— Tudo bem, Sakura. Pode ficar tranquila, vou tentar ficar longe dele. – riram. Hinata apertou a mão da Haruno um pouco mais forte, sorrindo para que ela pudesse ver – Obrigada. Sabe, por me defender. Ninguém nunca fez isso por mim antes. – Sakura se surpreendeu com a confissão, mas retribuiu o aperto, sorrindo, e, mesmo que ela não pudesse ver, Hinata sabia que retribuía.

Foram para o refeitório e tomaram o café da manhã sem grandes preocupações. Ino se juntou a elas e disse que havia falado com Tsunade antes de ir para lá, e a mulher havia autorizado a mudança, pedindo para que cuidassem de tudo. As garotas comemoraram, e Hinata estava tão realizada que esqueceu-se de comentar com as novas amigas sobre o encontro com o desconhecido da tarde anterior. Por alguma razão, havia ficado curiosa para saber mais sobre ele. Em alguma parte de seus pensamentos, achou engraçado que dois garotos na escola levassem nome de acompanhamento de lámen, mas perguntaria a Sakura em um outro momento.

Notas finais
*Naruto é um acompanhamento usado nos pratos de lámen típico que consiste em uma pasta cozida de peixe que tem desenho de redemoinho, e Menma é um acompanhamento feito de brotos de bambu fermentado. Até mais!