Quimera

32 Relacionamentos


Notas iniciais
OIOI GENTEEEE como estamos? As vezes eu fico em choque com Quimera, já está com TRINTA E DOIS capítulos! Tipo, eu comecei ela há tanto tempo, e me dediquei tanto, e gosto TANTO dela, é surreal. A fic está com MAIS DE NOVE MIL VISUALIZAÇÕES!!!! Eu não sei nem o que dizer, mesmo. Eu amo isso, eu amo escrever, e eu amo Quimera ♥ Agora, pode parecer que eu tô SEMPRE falando da Bruna, mas ela é minha inspiração INTEIRA, cada comentário, cada opinião, me importa muito, e ela é sempre incrível, um mulherão mesmo, então, é isto. Preciso manifestar sempre meu amor por ela. Obrigada, Bruna ♥ Sem mais, espero que gostem do capítulo! Estou ficando triste, porque os acontecimentos estão indo para o fim! Ansiosos?

— Nunca tenha medo de ver o que você vê.

O silêncio no cômodo para bem gritante para Hinata. De repente, ela ouvira gritos e barulho de móveis se quebrando. O irmão de Naruto, Nagato, saiu na frente, e Kushina enganchou seu braço e a puxou corredor adentro, logo atrás. Hinata não estava entendendo muita coisa, mas suas mãos tremiam. Cruzaram uma larga galeria e pararam no batente, onde as respirações agressivas se faziam mais presentes. Kushina arquejou, ao seu lado, e gritou. Em seguida, tudo ficou estranhamente calmo. Ninguém se moveu por alguns instantes, até que, abruptamente, a garota sentiu-se ser puxada, escorregando do aperto da mulher e sentindo sua mão ser agarrada com firmeza. O toque era familiar, embora furioso, e ela tropeçou ao ser virada bruscamente, tentando acompanhar os passos largos e duros de quem a puxava.

— Naruto! Volte aqui! – Kushina gritou, vendo o filho e a nova nora desaparecerem pela porta da frente, que foi fechada com uma batida ruidosa. Suspirou, sentindo a cabeça dar pontadas – Nagato, você poderia ir com Chiyo buscar a maleta de primeiras socorros lá em cima, por favor? – o mais velho sabia que apenas a governanta seria suficiente para pegar os medicamentos, mas aquela era a deixa sutil e desesperada da mãe para ser deixada sozinha.

Assentiu, mudo, e segurou os ombros da senhora, que assistiu a cena com uma máscara de pavor. Juntos, sumiram degraus acima. Kushina, agora só, correu para dentro do escritório sem pensar duas vezes. Afastou os pedaços da mobília para o lado e se ajoelhou, aproximando-se do marido. Delicadamente, retirou os maiores pedaços de madeira de cima de seu corpo, ajudando-o a endireitar a postura. O estranho era significativo – queixo e lábios cortados, com sangue escorrendo para o colarinho da camisa, agora totalmente estragado. A bochecha parecia inchar. Cabelo desalinhado e os olhos cansados, desatentos. Ele parecia confuso – ou resignado –.

A mulher aninhou a cabeça em seu braço, sentando sobre as pernas e puxando-a para seu colo. O corpo acompanhou, inerte, esticado no carpete elegante. Passou os dedos pelos fios dourados, assentando-os, e acariciou suavemente seu rosto.

— Ah, Minato. – suspirou, baixo. Ele fechou os olhos, como quem desistia, e se entregou ao carinho da esposa.

Kushina já esperava por um momento como aquele, embora definitivamente não desejasse que viesse a se concretizar. Já há muito Naruto demonstrava um tipo de mágoa para com o pai que Nagato não tivera – mas Nagato tampouco conviveu tempo suficiente com o pai, para isso. Quando o primogênito nasceu, o Namikaze trabalhava muito para construir o império que veio a conquistar posteriormente. Kushina tinha, como companhia, o único filho, e o criou diferente de Naruto. Viviam em um apartamento de dois quartos em um bairro afastado. Não havia luxo ou empregados, carros importados e reuniões milionárias. Logo pequeno, Nagato já deixava claras suas inaptidões para os negócios, e era muito perspicaz com problemas lógicos. A mãe, logicamente, o incentivou a ingressar na escola técnica, e se orgulhava do engenheiro que ele tinha se tornado.

Naruto, por outro lado, foi quase projetado laboratorialmente. Minato ansiava por um herdeiro, uma vez que estava consolidado como empresário, investidor, prestes a ingressar na carreira política e com seu primeiro milhão na conta. A gravidez de Kushina foi anunciada para todos as redes de comunicação midiáticas da costa leste do Japão, e, passo a passo, Naruto se tornava uma estrela em ascensão. Acompanhou o pai quando criança, que investia no filho como investia na bolsa de valores. Kushina sabia que ele amava o filho – a sua maneira –. Só queria que fosse igual a ele, e que desse continuidade a seu trabalho árduo.

Todas aquelas expectativas refletiam em Naruto como uma confiança exacerbada e carisma supervalorizado. No fundo, Kushina nunca pode alcançar suas inseguranças, e assistiu, imponente, o filho se transformar na versão mais crua e mais cruel do pai. Tentou, por anos, mudá-lo, dar conselhos para que seguisse sua própria vida, contudo, não pode ser uma mãe tão presente quanto gostaria, uma vez que agora era a primeira-dama Namikaze, e acompanhava o marido por toda parte, sorrindo para câmeras e exercendo sua presença feminina nos eventos mais monótonos.

— O que você fez dessa vez, querido? – murmurou, ninando-o desajeitadamente. Minato gemeu baixo, e tornou a abrir os olhos, as íris azuis escuras agora parecendo nubladas.

— Eu apenas o parabenizei. – tossiu, limpando um filete de sangue que escapava pelo canto. Kushina ciciou, balançando a cabeça e piscando diversas vezes, para clarear a mente. Não podia começar a chorar ali.

Poucas pessoas conheciam verdadeiramente Namikaze Minato, e, quando o faziam, conheciam apenas os lados que ele lhes permitia ver. Para a mídia, era o investidor com o tato certo para a bolsa internacional. Para os civis, era simpático e acessível, o representante perfeito. Para os filhos, era o homem severo e cheio de cobranças. Mas, quando estavam sozinhos, realmente sozinhos, Minato deixava suas barreiras caírem, e Kushina era a única que podia vislumbrar o seu interior. Ela o amava, com todo seu coração. O amava desde nova, quando era jovem e inconsequente. Seus pais não aprovaram o relacionamento entre eles, mas, mesmo assim, ela desafiou o próprio pai para que se casassem. Para ela, Minato era o homem mais gentil, carinhoso e responsável que já havia conhecido. Nascera em uma família pobre, e lutara, desde baixo, para conquistar uma boa vida para eles – se ele criava grandes expectativas sobre os filhos, era porque, no fundo, tinha medo que sofressem como ele sofreu em sua juventude.

Kushina sempre esteve ao seu lado. Nos momentos bons, e nos ruins. Gostava de acompanhá-lo em comícios e jantares de negócios, porque sentia que ele precisava de alguém que o lembrasse de quem realmente era. O mundo o transformara em alguém amargurado e temeroso, que sempre pensava no pior das pessoas e não deixava que suas barreiras caíssem, com medo de que usassem suas fraquezas contra ele. Ele era severo, deveras preconceituoso, conservador e arrogante. Os filhos, poucas vezes, puderam desfrutar da verdadeira face do pai, e, principalmente Naruto, agora fomentavam uma imagem negativa dele. Uma hora ou outra, suas personalidades entrariam em conflito, e coisas como aquela aconteceriam.

A Uzumaki sentia o coração quebrar a cada momento, sobretudo agora. Queria consolar o filho sobre o que quer que tivesse acontecido, mas sabia que, se abandonasse Minato, ele não teria a mais ninguém. Prometeu amá-lo em todas as dificuldades, e era isso que faria, mesmo que ninguém mais entendesse.

Nagato voltou com a caixa de remédios, assustando Kushina quando se abaixou ao seu lado. Chiyo não estava com ele. Em silêncio, ajudou a mãe a afastá-lo para encostar na estante, e, ainda no chão, limparam suas feridas, enquanto ele emitia resmungos de dor. Nenhum dos dois falou – era mais fácil daquela maneira, para preservar o ego ferido de Minato.

Naruto estava furioso, e Hinata sabia disso. Segurava seu pulso com a mão fechada como um grilhão, e a arrastava com pressa para fora da propriedade. A garota percebeu que estavam do lado de fora quando o sol atingiu seu rosto, desnorteando-a momentaneamente. Não sabia para onde estavam indo, mas tentava acompanhar o ritmo do garoto. Ele estava com raiva, e algo de muito nocivo tinha acontecido no escritório, com o pai. Naruto quase nunca falava dele, e, quando falava, sua voz ficava pesada e ressentida.

Pararam, com Naruto respirando com força ao seu lado. Seus pés tocavam em algo fofo, como grama, e o ar era quente e úmido. Esperou até que ele falasse, deixando que sua mão lentamente se livrasse do aperto, para movê-la até seu rosto, procurando por sua bochecha e acariciando. Ele tremia, no entanto, relaxou com o toque, erguendo os ombros e soltando intensamente. Puxou-a pelo antebraço alguns passos, e a guiou para sentar em um banco de concreto, na sombra. O ambiente era refrescante e bastante amplo – deveria ser bem verde e cheio de diversidades –. Hinata tentou não se distrair tanto, ainda acalmando-o no silêncio.

— Aquele cara é inacreditável. – grunhiu, finalmente, e ela assentiu, deixando que se abrisse ao seu tempo. Sentia-se uma intrusa em assuntos familiares, mas estava preocupada.

— Você está bem? Ele o feriu? – perguntou, a voz o mais terna possível. Naruto soltou uma risada anasalada, e sua mão cobriu a de Hinata sobre seu rosto, envolvendo seus dedos.

— Não fisicamente. – parecia achar muita graça no que dizia, como um humor negro – Mas eu dei um soco nele. Caiu em cima da mesinha, por isso o barulho. – explicou, e a Hyuuga engoliu em seco, balançando a cabeça.

— O que aconteceu? – indagou, finalmente, desejando poder encarar seu rosto. Naruto parou. Não podia contar toda a verdade. Ele tinha acabado de descobrir que o grande magnata Hyuuga Hiashi era pai de Hinata. Ele teria associado o sobrenome, uma hora ou outra, mas, ainda assim, era um choque. Não era algo que podia simplesmente jogar em seu colo. Teria de conversar com Hiromi, ao menos. Um minuto se passou antes dele responder.

— Ele disse algumas coisas ofensivas sobre você, e eu fiquei irritado. – murmurou, e Hinata deixou-se abrir a boca, indignada. Sentiu-se imediatamente culpada.

— Você não podia ter batido no seu pai por minha causa! – grasnou, apressada – Naruto, eu estou acostumada com as pessoas dizendo coisas ruins sobre mim, não tem problema! Eu não ligo mais. – era meia verdade, mas foi o Namikaze quem se apressou.

— Não, Hina! Eu não vou deixar nem ele, nem ninguém, te ofender na minha presença! – sua voz era eloquente, e ele deixou sua mão para segurar seus ombros – Não entende? Eu já fui um idiota com você, não posso, nem vou, deixar ninguém, ninguém, te fazer sofrer como eu fiz! – agora parecia agoniado, com dor. Era tão palpável que Hinata precisou tocá-lo, agarrando seu braço suspenso, afundando os dedos na carne macia. Sua garganta estava fechada, por muitos motivos. Agonia, surpresa. Medo. Era assustador aquele sentimento que tomava conta de seu peito, pouco a pouco. Como se as lembranças do passado, e as piadas, e as palavras crueis, que Naruto dissera uma vez, simplesmente evaporassem de sua mente. E ela tinha medo de esquecer, porque eram memórias que faziam-na ser quem precisava ser. Ao mesmo tempo, Naruto tinha batido no próprio pai, por ela. E aquilo era assustador.

Permaneceram naquela posição, sem nada dizer. Naruto segurava seus ombros como se dependesse daquilo para viver. Encarava o rosto temeroso, memorizando aqueles olhos expressivos, e como pareciam fitá-lo direto na alma. As mãos seguravam seu antebraço com força, e o sol queimava suas canelas. Hinata abriu e fechou a boca diversas vezes, imersa em pensamentos conflituosos, dividida entre falar ou não. Por fim, desatou o aperto nos braços e estendeu as mãos até a altura de seu pescoço, procurando. Naruto se inclinou, com um meio sorriso, e Hinata se enlaçou em nuca, aproximando-o bastante de seu rosto – sentia a respiração quente contra ele.

Naruto obrigava-se a levar as coisas devagar e cuidadosamente – suas outras relações se basearam no mais puro instinto carnal, mas, com Hinata, parecia até mesmo profano agir como um animal irracional guiado por hormônios. Ele gostava das reações nas coisas simples, como um pegar de mãos ou um beijo roubado. Claro que o fato descrição ajudava muito para aquilo, contudo, uma parte de si gostava de pensar que estava indo devagar apenas porque queria assim. Então, quando Hinata tomava uma atitude, tão simples quanto aquela, era o suficiente para fazer seu coração bater desenfreadamente.

— Você não pode brigar com as pessoas por minha causa. – ela insistiu, agora em um sussurro, e Naruto acariciou seu cabelo, distraído.

— Eu posso sim. – retrucou, teimoso, e ela riu baixo antes de voltar a ficar séria.

— E quando forem as pessoas da escola? E quando forem seus amigos? – nenhum dos dois queria tocar naquele assunto, mas ele surgiria de uma maneira ou outra. Naruto engoliu em seco, agradecendo, mais uma vez, por Hinata não poder ver suas reações faciais. As bochechas vermelhas de vergonha se misturaram à palidez de susto.

Era óbvio que Naruto tinha pensado naquilo. Não sabia de onde tinha tirado culhões para enfrentar Minato – bater nele, mais precisamente –, mas sabia de onde vieram as motivações. A simples suposição de que ele estava usando Hinata como massa de manobra política lhe deixava enojado, e há muito ele alimentava sentimentos frustrados pelo pai. No entanto, a situação mudava quando se tratava dos colegas da Academia. Eles eram preconceituosos por uma questão de conveniência – porque, em algum momento, foram ensinados daquela maneira, e nunca pararam para pensar de outra maneira –. Como ele próprio. Quando passou a ver Hinata fora do espectro deficiência – há muitos meses, naquela vez na piscina –, foi uma questão de tempo para perceber a pessoa incrível que ela era. Se apaixonar foi uma consequência, apenas. Sabia que muitos também tinham futuro quanto aquilo. O problema era fazer eles enxergarem.

Naruto não sabia se as piadinhas sobre a cegueira de Hinata seriam piores que acusações de serventia estratégica. Ele também não sabia se estava pronto para deixar que todos soubessem daquele relacionamento. Uma parte de si ainda era estupidamente covarde, e ainda queria atingir as expectativas do pai – que, embora fosse um cretino de marca maior, ainda era seu pai –.

— Eu vou mudar. – foi sua resposta, e Hinata sorriu, como uma mãe que sabe que o filho mente, mas que não se zanga com isso.

— Não estou pedindo para que mude por mim. – insistiu. Naruto não conseguia acreditar como uma criatura tão compreensiva poderia existir, e, pior, estar abraçada a ele.

— Eu não te mereço. – murmurou, sorrindo mais largamente ao vê-la corar nas maçãs – Você é incrível. Está na hora de assumir nosso relacionamento para meus amigos, ao menos os melhores. – concluiu, falhando na última sílaba. Significava enfrentar Sasuke, Gaara e Shikamaru.

— Amigos? Relacionamento? – ela repetiu, ligeiramente histérica, e o loiro riu, agora alto, apertando sua cintura enquanto deixava um beijo cálido contra seu pescoço. A pele sob sua mão se arrepiou de maneira deliciosa.

— Você quer um anel grande e brilhante? – brincou, soprando perto de seu nariz, e ela estremeceu.

— Ah, não, por favor, nada de anéis grandes e brilhantes. – embarcou, tombando a cabeça e rindo. Naruto quis ter uma câmera, para eternizar aquele momento.

Procurou sua boca, unindo com a sua em um beijo alegre. Todo resquício de raiva tinha desaparecido de suas células, sendo substituído por aquela felicidade radiante que Hinata lhe dava. Não entendia como uma garota conseguia lhe deixar tão em êxtase – pensava ter alcançado aquele sentimento com Shion, quando começaram a namorar, mas percebia, agora, que não chegava nem perto –. Quando estavam juntos, nada mais importava. Só Hinata. Seus lábios tinham gosto doce, viciante, como chiclete e gloss. Sua língua era tímida, e quando se encontravam, era uma explosão ansiosa. A medida que o beijo aprofundava, Hinata sentia-se mais à vontade, deixando que seus dedos puxassem os fios mais curtos na base do pescoço, ou que passeassem pelo trapézio.

Naruto quebrou o contato, soltando-se aos poucos e distribuindo beijos rápidos e molhados em todo seu rosto. Hinata riu, com embaraço, e manteve a cabeça baixa, com o cabelo caindo por seus ombros. Teriam continuado se não tivessem ouvido passos. A Hyuuga quis desfazer o abraço íntimo, mas Naruto continuou tranquilo, mantendo-a perto de seu peitoral.

— Olá, pombinhos. – cantarolou Kushina, se aproximando.

— Olá, Kushina-sama. – Hinata cumprimentou, ruborizada. Naruto riu.

— Oi, okaa-san. Precisa de algo? – o semblante da mãe era indecifrável. Não estava irritada, mas as linhas de expressão em sua testa pareciam proeminentes.

— Queria me desculpar com a Hinata, por ter deixado ela sozinha. Foi deselegante da minha parte. – sua voz era arrependida, e a morena engoliu em seco, balançando a cabeça furiosamente.

— Longe disso, Kushina-sama! Não teve problema nenhum, nada para desculpar. – se apressou. Kushina abriu um brilhante sorriso.

— Nesse caso, vamos entrar e comer um pedaço do bolo de frutas que a Chiyo-san fez para nós, e depois vocês voltam para o colégio, porque é segunda-feira e está escurecendo. – terminou, com o tom autoritário, e o casal concordou, rindo.

Por fim, acabaram aproveitando o restante do dia em um agradável clima de cumplicidade. Kushina os fez comer dois pedaços cada – não foi grande esforço, uma vez que estava delicioso –, e, quando o sol já se punha, expulsou ambos, preocupada que pegassem estrada no escuro. Se despediram da Uzumaki e de Chiyo, Nagato comeu com eles e saiu mais cedo, a mando do trabalho. Hinata teve de prometer que voltaria mais vezes, e Naruto teve de prometer que a traria.

No carro, andaram com os vidros abaixados e de mãos dadas. Naruto falava sobre a paisagem e histórias sobre infância, e Hinata falava sobre os assuntos que estudou ao longo da vida, curiosidades e as sensações. A rodovia passava por eles como um borrão, e a garota tinha leve consciência do desenho que o dedo de Naruto fazia nas costas de sua mão.

— O ano está acabando. – Hinata comentou, por fim. Lembrava-se de abril, quando as aulas começaram, e parecia ter sido há tanto tempo.

— Sim. – havia um alívio cômico em sua voz – Finalmente o terceiro ano. Só preciso sobreviver aos testes de literatura. – estremeceu, e Hinata riu um pouco.

— A Tenten vai embora esse ano. – ficou um pouco triste – E eu gostaria de me despedir de outra pessoa, mas nunca consigo achá-lo. – Naruto engoliu em seco, tendo uma leve impressão de que sabia de quem se tratava – Parece que ninguém conhece o Menma. – ali estava. Naruto esperou que o suor em sua mão não fosse notável.

— O que esse Menma tem de tão especial, afinal? Você sempre fala dele. – disfarçou o caroço na garganta com uma tentativa de piada. Hinata, se percebeu algo de errado, não disse. Continuou com o rosto para frente, as sobrancelhas baixas e semblante pensativo.

— É difícil explicar. Eu nunca tinha conversado de verdade com um garoto antes. Quando eu cheguei na escola, todo mundo me olhava estranho e fazia piadas, mas ele me fez um elogio. Não ligou para minha cegueira, só para como eu nadava. Eu fiquei marcada. Costumava pensar que gostava dele, ou algo assim. – corou um pouco, nas bochechas – Mas não é nada disso. É só uma admiração meio persistente. Nunca conversamos de verdade, ele é misterioso. Só queria deixá-lo saber como foi importante para mim.

Naruto não respondeu – por não ter uma resposta, e por não conseguir falar. Permaneceu impassível, olhando o horizonte alaranjado escuro. Para ele, se tratou de uma válvula de escape em um momento de desespero, tomado pela surpresa de ver uma garota tão talentosa pela primeira vez. Não sabia que tinha significado tanto para Hinata. A culpa começou a remoer seus ossos. Menma representava a figura de um cara que a tinha notado por suas habilidades, em vez de zombar dela por suas limitações – uma espécie de alter ego de Naruto que se manifestou antes que pudesse perceber. Contudo, aquela brincadeira inocente poderia lhe custar a confiança de Hinata, que lutou tanto para conquistar, depois de todos os erros que cometeu.

— Cara legal. – ela não fisgou o silêncio mortal sobre ele, e riu, alheia.

— Não precisa ter ciúmes. Ele é só um amigo, e está indo embora esse ano. – apertou seus dedos carinhosamente, e Naruto não teve que fingir um sorriso. Retribuiu o aperto, desejando nunca mais precisar soltar sua mão.

Chegaram na Academia perto das sete horas. Naruto estacionou o carro na garagem subterrânea e tecnicamente ilegal da escola e trancou. Abraçando a garota pelos ombros, caminharam escadaria acima. Os corredores continuavam silenciosos, embora pudessem ouvir barulho do refeitório.

— Você quer ir no meu quarto? – o Namikaze propôs. Não queria que o dia acabasse, e era o incentivo perfeito para que tomasse o primeiro passo.

— No seu quarto? Para que? – Hinata tinha um chute, e sua coluna arrepiou, enquanto agarrava a barra da camiseta do maior.

— Bom, Sasuke é meu companheiro de quarto, e ele vai estar lá. E você já conhece o Gaara, e o Shikamaru. Pensando bem, não vai ser nenhuma surpresa. – Hinata se lembrava daqueles nomes, entretanto, a coisa mudava de direção quando falavam de ser apresentada com Naruto. Não garantia estar pronta, mas, antes que desse conta, tinha assentido com a cabeça, silenciosa, e ele apertou seus ombros.

Subiram as escadas largas até o segundo andar do prédio. Os dormitórios masculinos ficavam do lado oposto aos femininos, no corredor da direita. Caminharam muito pouco antes de Naruto parar em frente a uma porta, e, antes de abri-la, se inclinou, beijando o alto de sua testa, tentando transmitir segurança.

— Vamos? – perguntou, de novo, e ela concordou, respirando fundo. Ajeitou as roupas e o cabelo, e Naruto a fitou com afeição.

Abriu a porta, e Sasuke estava deitado em sua cama, de costas para a entrada. O lugar estava bagunçada do seu lado da cama, e parecia errado agradecer por Hinata não poder ver aquilo – era apenas uma força abrandecida de expressão –. O garoto usava apenas bermuda, mas Naruto tampouco tinha que se preocupar com aquilo. Ajudou a Hyuuga a entrar, parando ao seu lado.

— Dobe, eu já estava ficando preocupado. – Sasuke falou, monótono, sem se virar. Deixou o que parecia ser um livro de lado e jogou as pernas para fora, se levantando. Parou, estático, quando notou a visita – Opa. Hyuuga, oi. – cumprimentou, sem graça, encarando Naruto, se perguntando o que estava acontecendo. O loiro tinha a expressão divertida, enquanto Hinata estava prestes a desfalecer.

— O-oi Sasuke. Como vai? – falou, polida. Sasuke indagou com os olhos o que estava acontecendo, analisando a maneira que Naruto a abraçava despreocupadamente, se deleitando com sua confusão. Nunca tinha visto o amigo com aquele brilho estranho.

— Teme, esta é Hinata, minha namorada. – a palavra deslizou por sua língua, ecoando pelas paredes do quarto, e até mesmo Sasuke teve que se render ao choque, deixando os ombros caírem e a boca entreabrir – Hina, você se lembra do Teme. Ele é meu melhor amigo, e agora parece estar em estado catatônico. – brincou, vendo seu rosto ficar mais vermelho, desde o queixo até a raiz.

Ficaram, os três, em silêncio. Sasuke piscou rapidamente, assimilando a situação pouco a pouco. Ele imaginava o envolvimento de Naruto há muito tempo, principalmente com a história de dupla identidade. Durante as férias, em sua casa, a bolha que se formava entre eles era frágil e tensa, e, no dia seguinte, com a presença de Gaara, pareceu ter se intensificado – além dos ciúmes óbvios de Naruto –. Por fim, relaxou, deixando os ombros caírem e um sorriso curto tomar seu rosto. Naruto, observando, atento, a mudança do amigo, também relaxou. Não que estivesse preocupado de fato. Sasuke, mais que qualquer um, entenderia. Ele era seu melhor amigo.

— Bom, Hinata, eu espero que ele não te enlouqueça como fez comigo. – brincou, chocando Naruto, e a garota deixou uma risada esganada escapar, cobrindo a boca em seguida. Toda aquela situação era algo único, com todos aqueles nomes e aquela atmosfera de camaradagem. Por toda a vida, tinha sido reclusa, subjugada, ignorada. Em um ano, tudo mudara. Ainda tinha medo de que, em algum momento, as coisas caíssem por terra, e aquela sensação de felicidade evaporasse.

— Eu vou te processar por calúnia. – retrucou – Teme, você pode ficar com a Hina por uns minutos. Preciso procurar aqueles outros dois idiotas. – rolou os olhos, e o Uchiha assentiu, entendendo o que queria dizer. Não que o tremor claro e o suor frio da garota denunciasse alguma coisa – Fica tranquila, tudo bem? Ele não morde. – brincou, no pé de seu ouvido, e ela chegou a sorrir um pouco, apreciando o beijo que recebeu no alto da testa.

Ouviu a porta bater e, sozinha, sentiu-se um pouco mais acuada. Não conhecia o quarto, o que a deixava menos à vontade que o costume. Sasuke parecia alguém recluso – todos pareciam, quando comparados à personalidade receptiva e escandalosa do Namikaze –, mas, pelo que se lembrava, sua companhia era confortável. Falava o suficiente, respeitava o espaço. E, quando se era amiga de Sakura, parecia normal imaginar Uchiha Sasuke como o próprio Zeus reencarnado.

— Você quer se sentar? – ele ofereceu, quebrando a calada, e Hinata concordou. Esperou, e sentiu uma mão hesitante guiá-la pelo cotovelo. Seus dedos eram macios, mas frios. Deixou que a orientasse até o que seria uma cama, o colchão de molas chiando quando sentou na borda. Ouviu um farfalhar, e o garoto também se sentou – Fico feliz que suas primeiras impressões de Naruto não tenham te impedido de conhecê-lo. Ele pode ser um idiota quando quer, mas não é uma má pessoa. – tinha sido uma frase longa, e Hinata precisou de um minuto para se recuperar. Enfim, acabou por sorrir.

— Eu nem me lembro dos outros, hm, episódios. – parou, pensativa – Ele é insistente. Acho que não tive escolha. – deu de ombros, blasé, e Sasuke riu baixo.

— É um dobe mesmo. Se me permite a pergunta, o que levou a isso? – ele parecia despreocupado conversando com ela, e a recíproca era verdadeira.

— Para ser sincera, eu não sei ao certo. A Sakura me pediu para conhecê-lo, depois que tudo aconteceu. – Hinata não podia ver a careta desconfortável que o moreno fez na menção – E, então, teve aquela garota, Shion... – deixou morrer ligeiramente, recuperando em seguida – Não me lembro quando ele começou a falar comigo, ou me dizer essas coisas bonitas. Pareceu que levou muito tempo, mas, para mim, foi instantâneo. Como magnetismo. E então, ele me levou para conhecer a Kushina-sama – Sasuke sorriu sozinho, apoiando – e foi bem legal. De repente, estávamos namorando. – ela não refreou o próprio riso naquele momento – Acho que as coisas com Naruto acontecem assim. – terminou. Não se lembrava de ter falado tanto com alguém que mal conhecia, mas era fácil ser ela mesma ali. Sentia-se segura, e tudo brilhava em sua mente.

— Se ele exagerar, não fique com medo de falar a verdade. – aconselhou, gentil – Muitas vezes ele não tem noção das próprias atitudes, e precisa de alguém que o segure. Mesmo quando parece que é maldoso, na maioria das vezes, não é. – suspirou – Naruto é uma boa pessoa, que foi cercado por influências ruins.

— Eu posso imaginar. – lembrou-se de como ele parecia irritado com o pai. No fundo, achou legal a maneira que Sasuke defendeu o amigo.

Não puderam conversar mais, porque a porta tornou a ser aberta, e Hinata ouviu muitas risadas e passos. As pessoas adentraram, e, imediatamente, sentiu a cama chacoalhar ao seu lado, Naruto entrelaçando sua mão e colando seus ombros.

— Espero que não tenha aborrecido minha garota, Teme. – provocou, e a Hyuuga corou com a escolha de palavras. Definitivamente, não se acostumaria com aquilo.

— Ela é mais legal que você. – devolveu, provocador.

— Finja que ele não existe. – o Namikaze murmurou para ela, e Hinata riu – Bom, Hina, você já conhece o Gaara e o Shikamaru. – fez as apresentações – Essa é minha namorada. – sua voz estava orgulhosa, e Hinata queria se esconder.

— Pode deixar que eu vou tratar de contar todos seus podres para ela. – se lembrou da voz de Gaara, o garoto simpático do dia da piscina. Um tanto sincero e sarcástico, mas amigável.

— Você me cansa, Naruto. Tinha mesmo que me trazer aqui só para isso? – Shikamaru reclamou, mas não realmente irritado. Hinata percebeu que não estava desfazendo, apenas tratando com obviedade. Não sabia qual das duas lhe deixava mais encabulada.

Os meninos entraram em uma discussão e gritos, enquanto Hinata tentava acompanhá-los, ouvindo. Infelizmente, se distraiu com facilidade, feliz demais para ignorar o carinho circular que o dedão fazia em sua palma, deixando-a toda aquecida.