Quimera

33 Despedida


Notas iniciais
A gente participa de desafio de drabble, mas também posta nas outras fics! Sentiram minha falta? Eu nem consigo dizer o quanto foi bom escrever um capítulo com mais de 100 palavras, eu não aguentava mais! Para quem está acompanhando a drabble, saiba que está sendo uma tortura. Agora, Quimera ♥ É sempre ótimo escrever essa história, ir desenvolvendo ela, mesmo que esteja chegando ao fim. Calma! É o fim, mas ainda não tããão no fim, teremos vários capítulos de tragédia (HAHA) ainda ♥ Eu queria dedicar especialmente à Amelia, que me mandou uma MP muito incrível, falando que a fic era a preferida dela, e isso me deixou absolutamente inspirada e animada. É ótimo ler mensagens como aquela, e ver que seu propósito como escritora é real, sabe? Que as pessoas gostam do que você faz. Enfim, muito obrigada, meu anjo, esse vai especialmente para você. Estou ansiosa para que leiam esse! Foi uma delícia escrevê-lo. Ao mais, nos vemos em breve ♥

— O olhar da despedida é silencioso, mas carrega um turbilhão de sentimentos.

Se dissesse que aqueles foram os dias mais felizes de sua vida, ainda não seria o suficiente. Hinata nunca havia experimentado aquele sentimento puro e intenso, que a preenchia por inteiro, quase fazendo transbordar. Admitia estar um pouco mais poética que na maioria das vezes, mas apenas não conseguia se conter – eram pensamentos de êxtase que saltavam em sua mente.

Namorar com Uzumaki Naruto poderia ser uma experiência descrita em diversas palavras, mas Hinata gostava particularmente de desafio. Claro, ela não esperava que, de repente, assumissem o relacionamento para toda a escola, e que a vida fosse um mar de rosas, mas coisas estavam saindo melhor do que ela realmente planejara. Os amigos de Naruto – os que ela conhecia e que, segundo o mesmo, não eram completos babacas – a acolheram como parte do grupo, e, nos momentos que dividiam, ela ria até sua barriga doer. Gaara era, de longe, o mais engraçado. Vivia a fazer piadas com todo mundo, lançando comentários ácidos e sarcásticos que, de certa maneira, combinava com sua personalidade. Shikamaru era o mesmo nos treinos e nos momentos de lazer, quase sempre reclamando ou resmungando, e, aparentemente, ele namorava a irmã de Gaara, que estudava em outra província mas o visitava com frequência. Sasuke, mesmo calado e observador, era perspicaz. Hinata se identificou com ele imediatamente, e o silêncio em sua presença era agradável.

Inevitavelmente, Hinata teve que contar para suas amigas também. Sakura reagiu surpreendentemente bem, considerando a quantidade de vezes que ela xingara Naruto, e pareceu verdadeiramente feliz, parabenizando-os e distribuindo muitos abraços. Tenten ficou muito surpresa, e Ino – bem, Ino reagiu como a tudo em sua vida, com entusiasmo de mais e discrição de menos. Mesmo assim, a Hyuuga não se importou, porque, pela primeira vez, sua vida estava completa. Cercada de tudo que amava, era fácil se distrair e trombar contra as coisas, apenas por não estar prestando atenção o suficiente – Sakura ficou horrorizada com seu primeiro hematoma, e a acompanhou como um cão guia durante três dias –.

E havia Naruto. Nesta equação, ele não era a incógnita – estava mais para o resultado –. Estar com Naruto era estar em águas claras. Hinata não tinha realmente o conceito de claro, mas, segundo o que diziam, era algo iluminado, que refletia sua própria imagem. Era assim que se sentia. Sendo refletida. Naruto era engraçado, de um jeito diferente – ele conseguia lhe tirar os mais variados sorrisos, desde as gargalhadas sem fôlego, até os tortos e envergonhados. Não tinha papas na língua, sempre falando o que pensava, e a elogiava tantas vezes quanto respirava. Estavam sempre se tocando, fossem as mãos, os ombros, os dedos ou partes do corpo. Hinata já tinha se acostumado com a temperatura da pele contra a dela, como a extensão do próprio corpo. As vezes conversavam de coisas sérias, as vezes de irreverência. Ele queria saber de tudo, e também contava tudo – suas viagens, seus desejos, seus sabores preferidos. Perguntava sobre sua infância e as dificuldades. Hinata gostava da sinceridade crua entre eles. A deficiência não era um problema, era apenas uma característica.

Se encontravam quase que diariamente. Em público, ele ainda não a cumprimentava, mas ela percebia as mudanças nos rumores. No refeitório, ele brigava com qualquer um que fizesse um comentário engraçadinho, e, quando passava por elas acompanhado dos outros amigos, cumprimentava a todas – uma desculpa para fazer o mesmo com ela sem que desconfiassem –. Hinata não se sentia mal ou chateada. Ela via sua tentativa, e como ele mudava, dia após dia. Depois do episódio com o pai, não tocaram mais no assunto, mas ela pôde entender um pouco de tudo que o cercava.

Os dias se transformaram em semanas, e o inverno estava se aproximando na forma de brisas geladas que fazia os alunos preferirem o refeitório em vez dos campos abertos. A piscina aquecida era relativamente menor, então os treinos foram divididos para duas turmas menores, e Hinata preenchia a ansiedade de nadar com a presença do loiro. Depois do torneio regional, os estudantes passaram a focar nos exames finais que se aproximavam.

Hinata estava tranquila com as matérias – além de ter lido a maior parte das apostilas, guardava na memória as explicações, e tinha Sakura para revisar o conteúdo –. Descobri, porém, que Naruto não era adepto aos estudos. Basicamente, ele ia na sorte e contava com seu talento para esportes – e sua influência desmedida – para conseguir boas notas na somatória. Claro que a garota ficou perplexa, mas foi avisada que nem mesmo a influência de Sasuke foi capaz de incentivá-lo a mudar.

Era mais uma tarde, e estavam no dormitório do Uzumaki, sentados em sua cama. Novembro viera com toda força. Hinata usava meias até os joelhos e a jaqueta de Naruto, que estava quase deitando em seu colo. Ela tentava, sem sucesso, lhe explicar sobre literatura.

— Isso é muito chato, Hina. – resmungou pelo que seria a terceira vez. Ela ergueu as sobrancelhas em sua direção, tateando pelo colchão até encontrar a outra apostila.

— Não é chato, você que não sabe apreciar os clássicos. – ele soltou uma exclamação verbal. Estava acostumado a caretas silenciosas, mas, com Hinata, tentava ser o mais barulhento e expressivo possível – E isso cai na prova, você sabe. Precisa tirar uma boa nota. Vai ser um veterano em poucas semanas, que exemplo você quer dar?

— Eu vou intimidá-los com minha faixa de capitão e com meus músculos. – ele retrucou, com um sorriso na voz, e Hinata quis revirar os olhos, reprimindo uma risada. Apesar de tudo, Naruto ainda não abdicara do trono – Não preciso de boas notas. Vou conseguir uma bolsa com o judô. – repetiu, agora deitando por completo. Hinata, percebendo que os estudos não iriam adiante, desistiu, passando a acariciar seu cabelo.

— Já sabe o quer fazer? Depois da escola. – perguntou, distraidamente.

— Ainda não. – respondeu, sincero – Meu pai vai querer que eu faço algo que continue os negócios dele. – havia certa amargura na frase – Mas eu queria continuar lutando. Fazer algo que incentivasse as pessoas. Usar meu charme. – terminou, um pouco debochado, e Hinata lhe deu um peteleco, fazendo-o rir.

— Como um professor, você quer dizer? – ela realmente conseguia imaginar Naruto ensinando outras pessoas. Ele era bom naquilo, todos os primeiranistas do time o veneravam.

— Sim, algo assim. – deu de ombros – E você? O que quer fazer? – houve um farfalhar, e ele se virou, apoiando os ombros para poder analisar o rosto da garota.

— Bom, eu gosto muito de Psicologia. – falou, tímida – Ou alguma coisa na área. Ajudar as pessoas. A faculdade na capital aceita bolsas por esporte, mas eu não tenho certeza. – sua voz se tornou incerta no final da frase – Eles podem não aceitar deficientes visuais, e eu nem sei se conseguiria acompanhar. – a insegurança se fez presente mais uma vez, e, de repente, Naruto saltou de seu colo, movimentando toda a cama até estar sentado ao seu lado, segurando sua mão.

— Como assim? É claro que você consegue! – ele, mais que ninguém, não permitia que Hinata tecesse comentários auto-depreciativos. Ele a acostumava mal, com todo o otimismo – Você é a garota mais inteligente da sala, e é a melhor nadadora da região. Eles seriam idiotas se te recusassem. Você vai ser uma profissional incrível. – seu tom era firme o suficiente para fazê-la corar.

— Obrigada. – sussurrou, sentindo as mãos do garoto tomarem seu rosto inteiro, puxando-o em sua direção.

Para Naruto, aquela era a melhor visão de seu dia. Hinata, próxima a ele, com as bochechas vermelhas, sua voz ressoando pelo quarto vazio, preenchendo-o todo. Quando se aproximava, com os lábios quase se tocando, ele conseguia sentir o quanto a amava. Ainda não tinha verbalizado aqueles sentimentos – as vezes, era assustador como seu coração palpitava, prestes a romper seu peito –. Mas ele sabia que ela sabia. Que ela também sentia. Naruto não aguentava quando a ouvia falar aquelas coisas, com tanta incerteza e insegurança. Só queria fazê-la entender o quão incrível ela era, e todo o potencial que tinha. Então, quando faltavam palavras, ele a beijava, tentando passar pelo toque tudo que fazia-o tremer.

As últimas semanas se passaram como um sonho vívido e muito, muito, bom. Em poucos dias, Naruto experimentara algo único, que nunca sequer chegara perto com Shion. Ele pensava que a tinha amado, no passado, contudo, agora percebia que não se aproximava em nada com o que sentia por Hinata. Estar com ela, ouvir sua voz, ver cada uma de suas reações. A maneira que ela mexia no cabelo, ou ajeitava as roupas. Como buscava seus livros e era tão independente. Como corava – ah, ele amava como ela corava. Tê-la junto de si, com todos seus amigos e uma bolha de confidência não tinha preço. Ao acordar, já se pegava ansiando pelas tardes em que poderia ficar juntos, até a hora do jantar, e mais um pouco depois disso.

Inclinou-se para frente, aprofundando o beijo, a medida que Hinata suspirava, buscando seu pescoço, para que pudesse lhe dar passagem. Naruto sorriu internamente quando suas línguas se encontraram. No começo, era um contato desajeitado, mas agora tinham sintonia, deixando tudo deliciosamente melhor. Uma das mãos apoiava seu peso contra a cama, enquanto a outra apertava-a pela cintura, em uma bagunça de pernas. Suas cabeças se encaixavam, movendo-se em harmonia, enquanto o ambiente se tornava mais quente. Hinata ousou um pouco e, entrelaçando seus dedos contra o cabelo que já lhe cobria a nuca, puxou. Naruto soltou um grunhido involuntário, e foi a vez dela sorrir, sem se conter. Gostava daqueles barulhos, dos sons ofegantes e dos murmúrios.

Então, algo aconteceu.

Hinata já não tinha grande controle das próprias reações. Era sempre assim quando Naruto a beijava. Ela desejava ardentemente que pudesse ver, apenas para gravar todos os detalhes de seu rosto – mas precisava se contentar com o que tinha. Seus dedos deslizavam pelo maxilar quadrado e firme, pelo rosto simétrico e pelos músculos fortes. Prendia-se como cordas atadas em seu cabelo, sentindo a maciez e embriagando-se com o perfume. Era viciante. Era envolvente. As vezes, em um impulso mais audacioso, tomava o controle do beijo, e Naruto satisfatoriamente deixava que ela dominasse. Naquele instante, seus corpos estavam tão unidos quanto possível, seus troncos apertados e as pernas para trás, de maneira um pouco dolorosa.

O casal perdeu-se em sensações, e então, Naruto, já em grande parte tomado por instintos, desapoiou o braço para guiá-lo até a cintura de Hinata. A mão que sustentava a base de suas costas passou para suas pernas, ligeiramente expostas por conta da saia que subira. Em um impulso de força, puxou Hinata para cima, voltando a apoiar na parede, com as pernas esticadas, enquanto a encaixava sob seu colo. O beijo foi parcialmente quebrado pelo arfar da Hyuuga – não era uma exclamação assustada. Naruto não conseguiu identificar no momento, com a mente nublada e tomada unicamente pela ânsia de continuar sentindo-a.

Hinata tinha pouca consciência do que estava acontecendo. Sentiu quando Naruto segurou fortemente sua coxa, suspendendo-a, e, quando voltou a se sentar, estava em algo macio. Uma parte – pequena e insignificante – que ainda estava sã a avisou sobre o que tinha acontecido. Assim, afastou o rosto o suficiente para que sua boca emitisse lufadas ofegantes. Suas mãos, trêmulas, apoiavam-se nos ombros de Naruto. Este, por outro lado, abriu os olhos no ímpeto, repentinamente ciente do que estava fazendo. Ficou com medo, então, de que Hinata o achasse apressado, abusado. A visão que capturou, por outro lado, não ajudou em nada para seu senso de cavalheirismo. Hinata, em seu colo, com o rosto vermelho, o cabelo bagunçado e a camisa do uniforme amassada. A saia espalhada para todos os lados, as pernas, uma de cada lado, revelando a pele alva das coxas fartas. Era quase um pecado que Hinata não pudesse ver como era linda. Ela segurava em seus ombros de maneira quase obscena, alimentando as fantasias de um garoto já não muito certo do que fazer.

A garota, embora atordoada, não quis pensar muito. Emitiu flashes para seu cérebro, e deixou que sua vontade a guiasse. Voltou a fechar as pálpebras, inclinando para frente. Naruto, tomado pela surpresa, a imitou, voltando a encaixar suas bocas corretamente. O beijo recomeçou, no mesmo ritmo acelerado e intenso de outrora. Agora seus braços fechavam-se em torna dela como duas grades fortes, apertando o máximo que podia. O peito, coberto apenas pelo tecido fino da camiseta de botões, sentiu os seios espremidos, e ele soltou um gemido rouco. Hinata nunca tinha ouvido aquele som, mas imediatamente reagiu a ele, agarrando-se à nuca e mexendo-se sobre o colo.

Ambos poderiam pensar que não eram eles. Que estavam tomados pela ocasião, que era passageiro. No entanto, aquilo seria uma mentira – eram eles. Eles queriam aquilo, queriam aquele contato, o toque, a urgência. Hinata sentiu um fervor na boca do estômago, ardendo em todo seu corpo, e deixou uma das mãos passear pelo trapézio e pelos braços, subindo e descendo, a palma guardando cada informação, desde a rigidez até a temperatura. Naruto arrepiou-se com o toque, e procurou novamente pela perna, cravando os dedos na pele macia. Algo como um ronronar saiu de sua garganta, motivando o garoto. Eram uma bagunça deliciosa de corpos, mãos, toques e beijos.

Hinata sentia um fervor que corria por suas veias e que não conseguia aliviar. A única forma era mover-se, as costas eretas, reagindo a cada toque de Naruto sobre si. De repente, se deu conta de algo, firme, contido pelo tecido dos jeans que ele usava. Teria corado de vergonha – em outras circunstâncias. De alguma maneira, saber que deixava Naruto excitado também a deixava quente.

Quando se tornou impossível continuar respirando entre o beijo, afastaram-se, mas Naruto não se permitiu ficar longe de Hinata. Distribuiu beijos úmidos por seu rosto, em uma trilha até a base do pescoço, mordiscando próximo a orelha. A Hyuuga, pega de surpresa e com a boca desocupada, deixou um alto e sonoro gemido escapar. Apertou a nuca com as unhas, e foi a vez do Uzumaki de suspirar, afundando o rosto na curvatura. As mãos, apertando a lateral das coxas, subiu ligeiramente, atingindo a barra do tecido da saia.

— Naruto, a Hina- OH MEU KAMI!

Uma sequência de ações impossivelmente rápidas aconteceu. Sakura, que estava acompanhada de Sasuke, saíra do conselho e fora direto para o dormitório dos rapazes, procurar pela amiga que ela sabia estar ali. Abriu a porta e entrou, já falando, contudo, assim que seus olhos capturaram a cena que se desenrolava, ela gritou, fechando os olhos e dando meia volta, trombando com Sasuke enquanto fechava a porta assustadoramente depressa.

Hinata, ao ouvir a voz da amiga, foi acometida pela realidade, e empurrou Naruto, saindo de seu colo com uma agilidade impressionante, derrubando alguns dos livros enquanto tentava arrumar o cabelo e as roupas, ao mesmo tempo. O loiro, assustado, puxou imediatamente um travesseiro para cobrir seu colo, cuidando para que Hinata não se machucasse trombando na cabeceira da cama. A garota tinha o rosto tão vermelho quanto nunca, com as mãos escondendo-o de vergonha, as pernas cruzadas.

Naruto resmungou palavrões, vendo a porta sendo aberta novamente. Sakura entrou, tão rubra quanto Hinata, mas continha um riso nervoso. Para completar, Sasuke a seguia, gargalhando sem pudor algum.

— Ai meu Kami, me desculpa, eu não sabia que estavam ocupados. – ficou longe de Naruto, sendo fuzilada por seu olhar. O garoto estava uma bagunça. Cabelo desalinhado, roupas amassadas e alguns botões abertos, e um curioso travesseiro azul sobre ele. Hinata, ao seu lado, tentava se esconder do embaraço, diminuindo e lamuriando – Hina, gomen, foi sem querer! – se voltou para a amiga – Aquela cena nunca mais vai sair da minha mente. – choramingou. Sasuke, perto do armário, ria abertamente.

— Sakura, sua desgraçada, não sabe bater não? – Naruto falou, irritado, querendo acertá-la com o travesseiro, mas já o estava usando para outra coisa – Para de rir, Teme! – reclamou, mas o Uchiha não lhe deu ouvidos.

— Eu vivi para te ver todo envergonhado assim, Dobe! – zombou, e Naruto fez uma careta emburrada, com as bochechas aquecendo.

— Não estou envergonhado. – parou, voltando-se para Hinata e abraçando-a pelos ombros. A garota escondeu o rosto em seu peito – Estão constrangendo minha namorada, seus miseráveis!

— Peço desculpas, Hinata. – Sasuke finalmente parou de rir, jogando a bolsa no chão. Sakura riu entre a mão, engolindo e tentando ficar séria.

— Hina, eu vim ver se você estava aqui, para irmos jantar. – a Haruno se explicou, e a morena assentiu, ainda escondida – Se quiser eu espero lá fora? – foi mais uma pergunta, trocando um olhar divertido com Sasuke.

— Não, eu já estou indo. – ela murmurou, encabulada. Naruto teria usado sua infalível cara de cão sem dono, mas não teria efeito, então queixou-se para ela – A gente se vê depois. – riu estrangulado, subindo para beijá-lo na bochecha, acertando um pouco abaixo da maçã.

Desvencilhou, escorregando da cama e calçando os sapatos. Arrumou a jaqueta do namorado sobre si e pegou sua bolsa, sem procurar os livros que tinha caído. Passou por Sasuke, se despedindo dele e deixando que Sakura enganchasse seu braço no dela. Saíram para o corredor gelado e escuro. A rosada esperou até que estivesse a uma distância segura para cair na gargalhada, enquanto Hinata enrubescia.

— Para de rir, Sakura! – ralhou, com um sorriso também lhe escapando.

— Hina, eu não sabia que você era dessas! – tirou sarro, e a Hyuuga empurrou seu ombro.

— Estou morrendo de vergonha. – murmurou – Sem mais um pio sobre isso, está me ouvindo? – ordenou, e a rosada assentiu, jocosa.

— Sim, senhora. – falou, sarcástica, e as amigas seguiram para o dormitório, para que Hinata pudesse se arrumar devidamente.

De volta no dormitório masculino, Naruto grunhia e reclamava em bom tom, enquanto Sasuke o encarava prestes a rir novamente. O loiro saiu da cama direto para o banheiro, batendo a porta e fitando sua própria figura caótica no espelho. Respirou fundo, trocando a calça jeans por uma de moletom mais folgada – àquela altura, já tinha brochado quase completamente –. Saiu com uma carranca, e Sasuke trocava de roupa, esperando para zombar dele.

— Você é um péssimo amigo, Teme. – Naruto rosnou, irritado, recolhendo do chão os livros em braile.

— Vocês estavam no maior amasso! Até eu fiquei encabulado. – Sasuke não perdoou, e Naruto lhe atirou uma almofada.

— Espero que ela não me ache um tarado. – grunhiu, cruzando os braços e suspirando, trocando a careta por um sorriso bobo – Eu não consigo me controlar quando estou perto dela.

— Percebi. Ela te pegou de jeito, Dobe. – não tinha mais o deboche na voz, agora falando um pouco curioso. O amigo estava diferente, de um jeito que nunca tinha visto antes.

— Eu vou começar a fazer as coisas do jeito certo, Teme. – ele não entendeu o que aquelas palavras proféticas queriam dizer. Estava distante, perdido em pensamentos, e Sasuke sabia que o amigo planejava algo – Ajeitar uma por vez.

O episódio do quarto poderia ter deixado as coisas confusas entre eles, mas serviu justamente para o contrário – foi como uma despedida de toda a timidez que sentiam um do outro. Hinata corou quando ele a cumprimentou, no dia seguinte, mas também sentiu o corpo esquentar com as lembranças de seu toque. Agora ambos sabiam que se desejavam na mesma intensidade, e dividiam uma cumplicidade de casal. Cada entrelaçar de dedos tinha um novo significado.

As férias de natal estavam se aproximando, e ainda não tinham feito planos para se verem nas férias – além de se concentrarem efetivamente nos exames, o torneio nacional aconteceria poucos dias depois de voltarem, e não ficariam tanto tempo sem se ver. Caso ganhassem, poderiam aproveitar o merecido descanso em março como vitoriosos, e a Academia ganharia maior visibilidade no início do período letivo.

A turma de terceiranistas se despedia. Os diplomas foram devidamente impressos, e a cerimônia de colação contou com um emocionante discurso. As famílias compareceram ao prédio, e Hinata – junto de Sakura e Ino – só pode acompanhar a entrega dos canudos. Estava emocionada por ter que se separar de Tenten, todavia, a amiga prometeu que a veria competir em Tóquio e voltaria sempre para visitá-las. Foi uma noite emocionante.

Naruto também disse adeus para os veteranos do time e alguns amigos. Mas sua cabeça estava longe. Ele estava nervoso pelo que estava prestes a fazer. Tudo era diferente, e ele não sabia se conseguiria mais uma vez – uma última vez.

Esperou em um canto escuro, próximo ao auditório. Era uma entradela com quinas, mal iluminada por conta do ângulo, mas todos passavam por ali se quisessem voltar pelo corredor principal. Ele esperou, pacientemente, e estava com sorte – Hinata vinha caminhando sozinha, com seu bastão. Respirando fundo uma última vez, ele a chamou, com a voz tão baixa e suave quanto conseguia:

— Hinata. – ela parou, procurando pelo som da voz, abrindo um sorriso gentil e morno. Naruto sentiu o bastão bater contra seu pé e ela parou a uma distância perigosa.

— Menma? Não acredito! – ela respondeu, animada, e o Uzumaki prendeu a respiração, aliviado por ter dado certo.

Estava na hora de se despedir daquela história maluca de uma vez por todas – ele já não precisava se esconder na identidade de um alguém imaginário para interagir com Hinata sem culpa. Tinha se livrado das amarras e aceitado seus sentimentos. Mas precisava dar um fim digno àquilo, por Hinata. As palavras dela ficaram em sua mente, e, de uma maneira ou outra, devia a ela.

Quando arquitetou o plano, contou unicamente com sua sorte. Rezou para todos os deuses, implorando para que Hinata tivesse se habituado o suficiente com seu tom alto e escandaloso para não reconhecer a voz baixa e suave que usara antes. Treinou incontáveis vezes, sozinho, até que estivesse diferente o bastante. Se aproveitou do canto escuro e isolado, mas próximo ao auditório, onde o som reverberado estaria a seu favor. Seria breve, e não poderia deixar que ela se aproximasse – Hinata reconheceria seu toque, seu cheiro e até seu jeito de andar. Ela era inteligente, e Naruto só queria dar um fim em tudo, sem magoá-la – não quando tudo andava tão bem.

— Eu estou com a minha família, e com um pouco de pressa. – sussurrou, vendo sua silhueta se mover – Só queria me despedir.

— É muita consideração sua, obrigada! – ela deu um passo para frente, e ele desviou para o lado, torcendo os dedos – Fico feliz que tenha se lembrado de mim. Queria agradecer por todos os momentos que dividimos, quando me levou até o torneio e quando foi comigo visitar minha mãe. – uma parte de Naruto congelou, com medo que ela associasse todas essas pequenas coisas a ele.

— O prazer foi meu. – sucinto e apressado – Eu só queria dizer tchau. Hm, continue nadando e fique bem.

— Obrigada. – sua voz estava carregada de sentimento, e ela parecia querer alcançá-lo para um abraço. Naruto desviou de maneira estratégica, descendo do palanque e contornando suas costas. Se sentiu mal por enganá-la com sua deficiência, porém não correria o risco de ser descoberto.

— Adeus, Hinata. – sussurrou, e, em uma atitude irresponsável e impensada, levou a ponta dos dedos até o alto da cabeça, acariciando desajeitadamente o couro, de maneira que não se tocassem de nenhuma outra forma.

Saiu, apressadamente, deixando-a no canto. Engoliu em seco, os pulmões ardendo por segurar a respiração tantas vezes. Longe o suficiente, suspirou fortemente, deixando os ombros caírem de alívio, mas com um pouco de culpa. No futuro, ele poderia pensar em contá-la a verdade, mas não naquele ponto – não quando tudo estava bem entre eles. Não queria pensar que era uma má pessoa pelo que fizera. A segunda identidade o ajudara a se aproximar verdadeiramente de Hinata, e, agora, encerrava seu ciclo.

Hinata continuou parada por mais alguns instantes, absorvendo tudo. Menma sempre fora recluso e falava pouco, mas estar com ele era sempre reconfortante. No final, ficou feliz por poder ter agradecido, e desejou que ele fosse bem-sucedido no caminho que escolhesse. Seu coração estava aquecido com o carinho inesperado, e algo nela sentiu-se estranhamente familiar, talvez por terem dividido tantas situações marcantes – ele a ajudou quando mais precisava, e sempre se lembraria dele.

Distraída da tristeza de ter que se despedir de Tenten, deu meia volta, retornando para o corredor do auditório a fim de encontrar as amigas de novo. Anotou mentalmente para contar a Naruto, depois, o que tinha acontecido – tinha certeza que ele ficaria feliz por ela.

Notas finais
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