Quimera

34 Confronto


Notas iniciais
OLÁ OLÁ OLÁ ANJINHOS Como estamos? Esse mês foi uma loucura! Já leram todas as fics do desafio de drabbles? Porque eu não #shame De qualquer maneira, eu não sossego, então aqui vai mais um capítulo de Quimera! ♥ Ele está mais curto que o comum, porque eu tinha duas ideias principais para tratar, mas não quis colocar tudo no mesmo (ia ficar enorme!), então dividi em dois. Bastante coisa para acontecer! Espero que gostem ♥ Prometo responder todos os comentários o quanto antes (promessa de político, só pode). Obrigada por acompanharem, por comentarem. Eu descobri que essa se tornou, oficialmente, minha maior fic no Nyah! Imperfeitamente Perfeitos só teve 29 capítulos, e esse é o 33, então batemos aqui um recorde oficial, minha gente! Eu sou a autora mais feliz desse site todinho. Sem mais delongas, aproveitem! ♥

— A intensidade em seus olhos queimou minha caneta conforme eu escrevia.

Naruto realmente não se sentia diferente quando o segundo ano acabou. As aulas se deram por encerradas definitivamente, e, com um sentimento de dever cumprido, ele foi aprovado em todas suas grades – não antes de escutar um senhor sermão de Tsunade, que o fez prometer não dormir mais nas aulas e não contar somente com a bolsa de esportes. É claro, ela também teve que jogar em sua cara que Hinata tinha passado como uma das melhores da classe.

Ah, Hinata.

As férias mal tinham começado e já eram uma tortura. Naruto foi tomado por um instinto de culpa quando Hinata o encontrou, depois da colação dos terceiranistas, para lhe contar sobre o encontro breve, porém satisfatório, que teve com seu amigo. Ele assentiu durante todo o monólogo, novamente se sentindo um babaca por ela não ver sua máscara clara de compunção. Mesmo assim, o alívio foi maior que o arrependimento, e, àquela altura, Naruto faria literalmente qualquer coisa para fazê-la feliz.

Estavam separados há alguns dias, e Naruto estava perto de enlouquecer. Sem Hinata, seus dias eram sem graça, resumidos em aproveitar toda a tecnologia e a mordomia que sua casa podia oferecer e, ainda assim, nunca era o suficiente. Passava a maior parte do tempo em seu quarto, assistindo alguma coisa desinteressante na televisão, mexendo nas redes sociais e jogando videogame com seus amigos igualmente entediados. Sasuke estava viajado com a família na primeira semana de dezembro – deixando o Namikaze sem ser maior escudeiro –. Quando tinha sorte, conseguia almoçar com sua mãe, contudo, o fim do ano se aproximava, e como diplomata, ativista e filantropa, sua agenda estava demasiada cheia. Nem mesmo Nagato podia salvá-lo, imerso em um projeto grande e importante. Chiyo era bondosa e o fazia companhia durante as refeições, e era tudo que ele tinha.

Nunca pensou que sentiria falta do colégio. Estar rodeado de pessoas – estar com Hinata — tornava-o quem ele era, e simplesmente odiava ficar sozinho. Desconsiderando todo e qualquer drama sobre sua vida social, Naruto também sentia falta da Hyuuga, no quesito estar com ela, abraçá-la, beijá-la, compartilhar segredos que ninguém mais conhecia. Em público, sustentava sempre a mesma máscara despojada e cínica, e ele gostava disso – mas, nos momentos que compartilhavam, sozinhos, ele podia ser quem quisesse, sem ser julgado por isso. Hinata era a pessoa mais gentil, compreensiva, engraçada, brilhante e linda que ele já conhecera. Julgou, por fim, estar mal acostumado.

Entediado, rodou na enorme cama de dossel com lençóis macios e caros – Naruto sentia-se ingrato as vezes –. Pegou o celular, ponderando ligar ou não para Hinata. Tinham se falado mais que nunca por mensagens e ligações de vídeo. Ele se encantava ao ver seus olhos brilhando de animação enquanto fazia relatos minuciosos de seus dias junto de Hiromi, como estava com saudades de casa e de todos em seu bairro – Naruto poderia passar horas ouvindo-a falar. Ainda não tinham se encontrado depois da formatura, há menos de duas semanas, e parte do motivo era porque Hinata ainda não tinha contado sobre o namoro. Claro, era totalmente compreensivo, e Naruto compartilhava fervorosamente de seu medo – lembrava-se nitidamente das palavras ameaçadoras da mulher, na primeira vez –.

Desistiu de ligar, voltando para o computador, ligado em um site qualquer. Acabou entrando no site de vídeos das competições internacionais, vibrando com os golpes campões da temporada de inverno. Assistiu-os durante um bom tempo, e, quando estava prestes a colocar outro, ouviu o portão de abrir, e correu para a janela, puxando o cortinado. Animado, deu meia volta e se apressou pelo corredor, descendo os degraus de dois em dois até o hall, chegando no timing perfeito.

— Okaeri, okaa-san! – recebeu-a, e Kushina o olhou, assustada, e sorriu logo em seguida. Vinha com sua bolsa e algumas sacolas.

— Tadaima. – respondeu, deixando os sapatos sofisticados por chinelos – Não sabia que estava me esperando, querido. – Naruto a ajudou com as sacolas, rindo com entusiasmo.

— Eu te vi chegando. – explicando, acompanhando a mulher até a copa. Chiyo não estava a vista, então os dois sentaram na ilha de mármore. Naruto roubou um morango da fruteira e mordiscou – Vai ficar em casa? – perguntou com expectativa, e Kushina negou com tristeza.

— Por pouco tempo. Estou organizando a confraternização da empresa, e estamos em cima da hora. Preciso ir ver o salão, o buffet, a decoração, os convites. Pode vir comigo se quiser. – ergueu uma sobrancelha, debochando, e Naruto fez uma careta.

— Não, obrigado. – sabia o que significava seguir a mãe loja após loja, suportando longas conversas monótonas sobre os mínimos e irrelevantes detalhes. Mas oura coisa o distraiu: – Não sabia que vai ter uma confraternização. – comentou, observando a mãe ir de um lado a outro da cozinha, checando os armários e seu celular.

— É para comemorar o novo acordo do seu pai. – Naruto sentiu o rosto endurecer – E, respondendo sua próxima pergunta, sim. Você vai. Toda a família precisa ir. – ela parou, fitando-o como se o atrevesse a questioná-la. Ele não o fez, tampouco escondeu sua insatisfação. Já odiava os eventos corporativos quando não pensava em seu progenitor como um crápula sem escrúpulos. Não estava nem um pouco animado, e Kushina percebeu. Suavizou a expressão, aproximando-se e segurando sua mão – Olha, querido, eu sei que está bravo com seu pai, e eu entendo o porquê. Mas isso significa muito para ele, e para mim também. – Naruto não aguentava cada vez que sua mãe o olhava com os olhos cheios de ternura. Cedendo um pouco, suspirou.

— Tudo bem, vou me esforçar. – deu de ombros, e Kushina soltou uma exclamação de alegria, beijando-o por todo o rosto. Naruto reclamou, rindo um pouco. Faria aquilo única e exclusivamente por ela.

— Você pode escolher todos os restaurantes, esse ano. – a mulher desencostou da bancada, voltando a se movimentar. Naruto alegrou-se por dois segundos, e depois murchou.

— Ahn, sobre isso... – coçou a nuca, sem saber como dizer, e Kushina o fitou, esperando – Eu queria passar as festas com a Hinata.

As festividades de fim de ano eram mais típicas do que substancialmente sagradas. O natal era comemorado para troca de presentes, e, no último dia de dezembro, Rokko oferecia uma impressionante queima de fogos, no festival. Todavia, todos os anos, a família viajava para um lugar diferente, aproveitando os feriados para ter um descanso da rotina fora da cidade – na teoria, porque Minato acabava não desgrudando do celular, então era apenas Kushina e os dois filhos conhecendo lugares exóticos –. Naruto e Hinata conversaram sobre a possibilidade pouco antes das aulas acabarem. Estavam namorando há quase dois meses, àquela altura, e o Namikaze estava inquieto para participar novamente das comemorações locais, e para passarem um tempo juntos, sem precisarem se esconder. Como um casal de verdade.

— Mas nós sempre passamos a virada do ano juntos. – Kushina não parecia verdadeiramente magoada. Secretamente, estava contente pelo filho, cujos olhos brilhavam sempre que falava o nome da garota Hyuuga. Mas ela tinha medo, como toda mãe, e ainda mais por ser ela.

— Eu queria mostrar a Hinata como são as festas na cidade. – corou nas maçãs, envergonhado, e Kushina teve vontade de lhe apertar as bochechas.

— Você poderia trazê-la aqui para o natal, e comemoramos todos juntos! – sugeriu, subitamente entusiasmada, porque Kushina realmente gostava da garota. Porém, Naruto reagiu de maneira oposta, cruzando os braços e fechando a cara.

— Não! – retrucou, um pouco rude – Não vou trazer Hinata para ele agir como um idiota. – resmungou, e a ruiva rolou os olhos, entendendo seu comportamento.

— Naruto, ele é seu pai! – suspirou, parando novamente na frente do filho, fitando-o. Nunca tinha visto-o reagir tão categoricamente, o que significava que ele, provavelmente, a estimava muito. Estava um pouco emocionada – Nós podemos conversar sobre isso depois? Não se preocupe, não vou te impedir de passar o fim de ano com sua namorada. Só quero que repense a ideia. Eu e seu irmão gostamos muito dela. – frisou, já procurando por sua bolsa novamente. Naruto sentiu a indireta e se levantou, assentindo, mesmo a contragosto. Inclinou-se para beijar o rosto da mãe, que o acariciou nos braços – Eu te amo. Nos vemos mais tarde.

— Também te amo. – respondeu, acenando da porta. A casa se tornou novamente silenciosa, e, com um suspiro derrotado, voltou a subir a escada.

Kushina não reagiu da pior maneira possível – sendo justo, Naruto sabia que ela respondera muito melhor que o esperado –. Admirava sua persistência para manter a família unida sob todas as circunstâncias. E, internamente, ele não conseguia pensar em nada melhor para o natal do que poder comemorar com Hinata e sua mãe, juntas. Contudo, a menor ideia de levá-la novamente para sua casa implicava ter de dividir o ambiente com Minato, o que era impensável, dada a situação de seu último contato – Naruto o estava ignorando categoricamente desde o soco. Não aceitaria expôr Hinata para aquele homem preconceituoso, soberbo e oportunista.

Vivendo um dilema moral e a beira de um colapso, Naruto resolveu tirar um cochilo. Fechou as cortinas e desligou o computador, se jogando no emaranhado de lençóis. Agora emburrado, pensou na confraternização, e no papel que teria que interpretar, mais uma vez – o filho perfeito da família perfeita. Fechou os olhos, desejando que tudo fosse mais simples – e desejando estar com Hinata.

Como uma típica quarta-feira, o clima estava medíocre. Não havia nevado ainda, mas as quedas súbitas de temperaturas deixavam as janelas embaçadas demais. Contudo, havia um lugar, nos altos da cidade, que parecia ignorar veementemente as condições naturais do tempo. Todas as luzes penduradas sobre o forro criavam uma cascata de estrelas, deslizando, e o brilho não ofuscava. A temperatura estava irritantemente agradável – nem tão quente, nem tão gélida. Enquanto bebericava uma taça ilegal de champanhe, Naruto tentava encontrar defeitos na decoração impecável, apenas para poder criticar – e, logo em seguida, para sentir-se culpado, porque sua mãe tinha feito mesmo um bom trabalho daquela vez.

Afastou a gravata borboleta ridícula, engolindo em seco. Incomodado, transitava de um lado a outro, desviando de executivos falastrões e suas acompanhantes garbosas. A noite mal havia começado, e ele já sentia que podia se embebedar com aquele líquido barato – Kami o livre sua mãe descobrir sobre ele ter ameaçado o garçom para poder servi-lo –.

Do canto em que estava, conseguia ver os carros importados estacionados em fila, com as janelas embaçadas e filetes de gelo derretido escorrendo. Era como olhar para o outro lado de um universo paralelo. Dentro daquele grande salão, não tinha sinais de geada ou de respirações condensadas. Tochas crepitavam chamas ardentes, pequenas o suficiente para não incendiarem todo o pavimento. O conceito cor nude caiu perfeitamente em cada toalha de mesa bordada a mão, nas louças sofisticadas e nas faixas laterais que caíam junto dos lustres. As mesas foram organizadas de maneira que a passagem não fosse obstruída, mas Naruto desejou que fosse – o som dos saltos tilintando contra o piso de porcelanato irritavam-no.

Todas aquelas pessoas eram importantes de alguma maneira – fosse no ramo executivo, ou importantes nomes da mídia. Naruto perdera as contas de quantas entrevistas tinha dado. Sempre com um largo e irônico sorriso. Sua parte preferida ainda não tinha chegado – a foto de família, antes do discurso memorável. Ele mal podia esperar. Por enquanto, encontrara apenas Kushina, que, correndo de um lado a outro, não teve tempo de parar para cumprimentá-lo, mas, de longe, sorriu, aprovando a escolha do smoking. Sozinho, transitou pelo salão, acenando silenciosamente para quem o chamava. Por toda a vista, mulheres com vestidos esvoaçantes e saltos agulha. Homens com terno Armani e expressões concentradas enquanto falavam sobre eles mesmos.

Naruto sentiu falta de Hinata. Sua presença o acalmaria, sua simplicidade tornaria tudo mais tragável. Esperava, ansiosa, pela chegada de Sasuke e a família Uchiha. Rostos conhecidos, para variar. Enquanto isso, permanecia calado, na extremidade, observando com olhos de águia. Tampouco avistara Minato, todavia, sabia que ele já tinha chegado, prestigiando seus estimadíssimos convidados.

Uma música de jazz começou a tocar de fundo, e o Namikaze teve de admitir o talento da banda, que tocava em som ambiente, próximo a ele. Mais pessoas chegavam, e, finalmente, avistou Sasuke, com seu irmão, Itachi, que, atualmente, representava o pai nas conferências imobiliárias. Acenou freneticamente, chamando atenção do amigo, que cruzou o salão até ele. Chegou, fitando-o com sua usual máscara observadora.

— Kushina sabe que você está bebendo? – perguntou, zombeteiro, e Naruto fez uma careta, entornando os resquícios da bebida.

— Espero que ela nunca descubra. – retrucou, deixando a taça em cima de uma mesa qualquer. Colocou a mão nos bolsos, entediado – Finalmente você chegou, Teme.

— Não pode estar tão ruim assim. – ele parecia quase inconformado – Sua mãe fez um trabalho incrível. – olhou em volta, deslumbrado – É só esperar pelo jantar e ir embora. Umas fotos, alguns sorrisos. Até parece que você não adora atenção. – ergueu uma sobrancelha. Naruto odiava como Sasuke sempre parecia estar certo.

— As fotos não são o problema, é meu pai. – resmungou. Sasuke desfez o semblante brincalhão, fitando-o confuso – Aconteceram algumas coisas. – suspirou – Com Hinata. Ele foi um idiota. – um rápido vislumbre de compreensão cruzou seus olhos – Enfim. Não importa. Só preciso aguentar mais quatro horas dessa chatice.

Juntos, passearam pelo salão, comentando sobre as coisas que achavam interessantes, e também as horríveis. Era bom poder se distrair, e a festa ficou quase legal. Naruto conseguiu surrupiar uma garrafa inteira da cozinha, e a dividiram, fazendo com que o loiro precisasse ir no banheiro, com a bexiga apertada.

O banheiro era – não – surpreendentemente amplo, com pias de mármore e toalhas de algodão penduradas. Naruto não gostava do mictório, então usou uma das cabines. Quando saiu, no entanto, deparou-se com outra pessoa lavando as mãos. Parou, surpreso.

Fosse o álcool em seu organismo, ou a saudade, mas ele pôde ver Hinata. De costas, o mesmo cabelo negrume, quase azulado, caindo pelas costas. Era mais fino e mais curto, amarrado de maneira tradicional, porém, ainda parecido. Naruto piscou, fugindo do devaneio. Era um homem, mais baixo e mais velho que si. Correu a vista para o espelho, tomando um susto quando encarou olhos claríssimos, quase translúcidos, com íris apagadas e severas. Ele também o encarava.

Com espanto, reconheceu quem se tratava – a grande estrela da noite. Seus punhos cerraram.

— Ora, se não é o senhor Namikaze Naruto. – sua voz era grossa e cuidadosamente descontraída. Ele se virou, ficando de frente para o loiro. Usava um terno ainda mais sofisticado, com a lapela posta para fora. Acompanhava também um longo casaco, que se arrastava até suas pernas, não parecendo se incomodar com a temperatura ambiente. Em uma primeira vista, tudo nele gritava poderoso — É um prazer finalmente conhecê-lo.

— Você é Hiashi, não é? – sentiu-se um tolo, umedecendo os lábios. É claro que era. A semelhança era notável.

— Perfeitamente. – ele não apresentava-se abalado – E você é o formidável filho de meu novo sócio, e namorado da minha filha. – não era uma pergunta. Naruto grunhiu, sem se importar com etiquetas. Não gostou como a palavra serpenteou por seus lábios. Foi tomado por uma cólera inexplicável, todos seus pensamentos voltando-se para Hinata.

— Filha? – repetiu, cético.

— Certamente. Minha primogênita. – confirmou, cruzando as mãos, pacientemente.

— E por que abandonou ela, então? Por que abandonou a mãe dela? Por que surgiu agora? – as perguntas jorraram sem que pudesse impedi-las. Hiashi permaneceu impassível, mas Naruto jurou ter visto uma incidência desconfortável em seu rosto.

— Não acredito que eu deva satisfações a você, garoto, mas eu era muito inexperiente na época. – algo em sua voz fez Naruto se lembrar de arrependimento. Contudo, seu semblante ainda era uma máscara fria – Hinata é inteligente, muito inteligente. Como uma verdadeira Hyuuga. – seus ombros assumiram uma postura altiva, e as peças foram encaixando, pouco a pouco, em sua mente.

— Você a viu competindo. – concluiu, mais para si. Não esperou confirmação para continuar – Viu como ela não era nenhuma inválida, como ela tem potencial, e agora quer se aproximar.

— Hinata é minha herdeira por direito, e vai assumir minhas empresas em breve, da maneira que deve ser. – Hiashi estava ligeiramente mais agressivo, veias saltando em sua testa. Naruto ficou ainda mais irritado.

— Hinata quer ajudar pessoas, não lidar com multimilionárias. – cuspiu rudemente. Era um milagre que mais ninguém tivesse entrado ainda. As coisas estavam começando a ficar perigosas.

— Você não sabe de nada, rapaz. – Hiashi quase abandonou a postura, aproximando-se. Naruto não se intimidou.

— Então por que ela não está aqui hoje? – desafiou, e, pela primeira vez, o magnata não replicou na primeira oportunidade. Ele parou, balançando a cabeça, e o Namikaze continuou, sem pensar: – É por que tem vergonha dela. Tem vergonha de Hinata ser cega. E quer saber? Eu também já tive! – as palavras simplesmente vinham em sua mente, e seu coração se apertou ligeiramente – Mas a Hinata merece mais que isso. Ela merece pessoas que assumam ela como ela é. Já teve decepções demais na vida. – murmurou a última parte – Então, sugiro que o senhor fique longe dela. – cerrou os olhos, a voz engrossando e baixando – Fique longe e não a aborreça só porque, de repente, descobriu que ela é fantástica. Hinata sempre foi fantástica, e se o senhor não enxergou isso desde o primeiro momento, então não merece tê-la em sua vida.

Não deixaria que mais ninguém magoasse Hinata, por nada. Já tinha sido um babaca arrogante por tempo suficiente, e se arrependia amargamente de todos os meses que perdeu odiando uma pessoa por algo tão ridículo quanto uma deficiência. Ele tinha aprendido sua lição, e não permitiria que a ferissem como ele o fez, um dia.

Saiu em passos duros, dando as costas para o homem.

— Minha equipe está pesquisando uma cura para a condição dela.

Estacou.

Virou-se lentamente, voltando a encará-lo. Ainda mais severo, Hiashi sustentava seu olhar. Naruto ponderou ter ouvido errado. Abandonou a postura agressiva, verdadeiramente em choque.

— O que disse?

— Estamos procurando uma forma de reverter a doença. – parecia quase sem fôlego – Uma vez que são meus genes que transmitem essa circunstância. Nunca estivemos tão perto de encontrar o tratamento. Hinata poderia enxergar. Vai mesmo privá-la do que pode ser um futuro brilhante, apenas por capricho? Eu posso dar a ela tudo que sempre sonhou. – o atacava com palavras afiadas. De cabeça fria, o Namikaze percebeu que não havia sentido ficar ali discutindo, para mais com tantos pensamentos atordoando-o.

— Fique longe de Hinata. – foi mais como um balbucio, quando saiu.

O barulho o atingiu de repente, e Naruto procurou, aturdido, a saída mais próxima. Precisava de ar fresco. Conseguiu chegar na entrada, esgueirando-se pelos arvoredos e recostando na parede. Baixou a cabeça, respirando fundo. Hiashi tinha algo, uma presença, que tornava a atmosfera densa. Era eloquente – não surpreendia que tivesse se dado tão bem no ramo de investimentos.

O garoto não sabia o que pensar. Movido pela irritação – e por uma quantidade alarmante de álcool no sangue –, respondeu como não deveria. Ele não era ninguém para falar assim com um homem mais velho, quem dirá com Hyuuga Hiashi. Não tinha autoridade para dizer o que ele deveria ou não fazer – entretanto, o menor pensamento de Hinata se machucando por alguém ele apenas o deixara furioso. Queria protegê-la. Precisava protegê-la. Só não contava com a cartada final.

Seria mesmo possível reverter seu quadro? Curar a doença com a qual era crescera? Naruto não sabia o quanto Hinata desejava enxergar. Quantas noites passou imaginando como seria o mundo, suas formas, suas cores. Ele não poderia tirar aquela esperança dela – faria dele um ser humano pior do que jamais imaginara –. Hiashi era rico, poderoso, influente. Não duvidava que tivesse uma equipe de ponta, pesquisando e estudando uma cura. Se houvesse uma chance – uma mínima chance –, então Naruto seria o primeiro a apoiar.

Não pôde continuar com sua meditação. Da porta surgiu Minato, procurando-o ensandecidamente, e o pegou pelo pulso, puxando-o novamente para o salão.

— Onde você se meteu? Venha. – falou, apressado. Naruto engoliu em seco, flashs pipocando em seu rosto. Em um palanque, avistou sua mãe, vestida lindamente com um modelo aberto e cor de creme, com sapatos tão brilhantes quanto os cristais da festa. Ela sorriu para o filho, como quem pedia colaboração. Nagato, ao seu lado, destacava o cabelo ruivo flamejante, e sua careta entediada denunciava tudo.

O garoto desvencilhou do aperto do pai, e, sozinho, arrumou o smoking. Minato o fitou advertidamente, e, segundo depois, voltou-se para o palco, com seu melhor sorriso. Chamou Naruto, que se uniu à família, cada passo sendo fotografado.

— Gostaria de apresentá-lo a nossos novos sócios. – falava demasiadamente alto, sempre olhando para a pequena multidão aglomerada abaixo deles. Naruto reprimiu o desejo de rolar o olhos e sair correndo. Da extremidade oposta, observou Hyuuga Hiashi subir, com um sorriso contido, o olhar fixo em seu rosto. Atrás dele, uma miniatura sua, mais parecido com Hinata que o próprio homem. O mais jovem tinha os olhos quase perolados, como ela – Filho, este é Hyuuga Hiashi.

— É um prazer, meu caro Naruto. – sua voz destilava escárnio, e estendeu uma mão, pairando-a no espaço entre eles. O loiro teve a impressão de que o tempo parou por alguns átimos, e, mesmo que sua vontade fosse abandonar aquele lugar, deteve-se em seu próprio papel, cujo qual interpretava muito bem.

— O prazer é todo meu, senhor Hyuuga. – retribuiu o aperto com as mãos firmes. Câmeras apitaram, registrando o momento histórico da união de duas empresas. Nos olhos que se encaravam, os segredos que cada um guardava, e uma faísca, mínima, porém intensa, indicando que aquela não seria a última vez que se veriam.