Quimera

35 Presente


Notas iniciais
COBRANÇA É DÍVIDA Prontinho, Amelia, aqui está um capítulo fresquinho pra você kajskj E aí, meus lindos? Como estamos? Tecnicamente eu deveria postar Genderswap primeiro, mas estou em um bloqueio terrível :( Dei uma esticadinha nesse porque é cheio de amorzinho e eu precisava disso ♥ Mas no próximo já voltamos ao drama de sempre, mal posso esperar! Vi que muita gente comentou desde o começo, então, BEM VINDOS!!!! É uma honra tê-los aqui ♥ (juro que respondo tudo assim que puder!) Sem mais demora, espero que gostem desse capítulo! Notem o título com duplo sentido, tá ♥

— Para seus olhos, apenas, eu mostrei meu coração. Para quando você estiver só, e se esquecer de quem você é.

— Eu poderia ficar assim para sempre. – Naruto gemeu, e Hinata deixou uma risada escapar, sacudindo seus corpos.

Suas mãos já começavam a ficar dormentes de tanto percorrer os dedos pelos fios dourados, mas não queria parar – ouvir Naruto ronronar sempre que chegava no couro cabeludo mais uma vez era viciante –. Estava com as costas apoiadas confortavelmente em um de seus travesseiros de espuma, enquanto o garoto estava deitado sobre suas pernas cruzadas, com a cabeça encaixada próxima a sua barriga. A precária cama de solteiro parecia pequena demais para os dois, mas fizeram dar certo, de alguma maneira – como duas peças que se ajustavam.

Ele chegou pela manhã, e estavam quase na hora do almoço – as horas pareceram ter escorrido para fora de seus dedos –. Hinata sabia que não conseguiria mantê-lo afastado por muito tempo, e tampouco o queria. Naruto era uma força irreprimível da natureza, e, por fim, ela concordou que ele poderia visitá-la. No telefone, sua voz não estava tão diferente, embora percebesse as nuances – contudo, quando ele chegou, abraçando-a tão desesperadamente, ela não soube dizer o que tinha acontecido. Apenas retribuiu o aperto, afundando-se na felicidade de se reencontrarem.

O convidou para entrar, ligeiramente nervosa. Sua mãe não estava em casa – tinha ido ajudar com algumas encomendas na padaria há algumas quadras, que, mesmo pequena e humilde, sempre a chamava quando podiam –, de maneira que não teria que se preocupar, por enquanto, em explicar o que ele fazia ali. Não estava realmente aflita com a reação da mãe diante do namoro. Sabia que ela seria compreensiva. Ainda assim, seu estômago dava algumas voltas desconfortáveis.

Em seu quarto, não demorou para Naruto enroscar-se contra suas pernas, implorando por carinho. Não pôde deixar de sorrir, percebendo como ele era dramaticamente manhoso. Começou a acariciá-lo distraidamente, perto da nuca, enquanto conversavam trivialidades. No entanto, não conseguiu negar quando ele pediu, dengosamente, para que continuasse.

Desde que ele chegara, sabia que algo estava errado. Também sentira saudades – dos toques, da cumplicidade, de suas risadas escandalosas e das piadas sem graça –, mas sentia algo de estranho. A atmosfera, embora silenciosa, carregava uma nuvem consistente e pesada de mágoas não-ditas. Lembrava-se vagamente de suas últimas mensagens, reclamando sobre uma festa que teria que comparecer. Se perguntou mentalmente o que poderia ter acontecido para deixá-lo tão cabisbaixo, mas não teve coragem de externar suas dúvidas. Preferiu ajudá-lo da melhor forma possível, em vez disso – fazendo carinho em seu cabelo e falando sobre quaisquer outras coisas.

— Você já falou com sua mãe? – ele perguntou, chacoalhando sua perna ao se virar. Sentiu a bochecha contra sua perna, e lutou para não ruborizar ao imaginar a posição que ele estava, com os olhos focados diretamente em seu rosto.

— Ainda não. – murmurou, voltando a brincar com os fios grandes demais que caíam pela testa – Meio que contava que você me ajudasse nessa parte.

— Bem pensado, ela vai direcionar a raiva toda para mim. – fingiu estremecer, teatralmente, e Hinata riu, estapeando seu ombro. Ele a acompanhou, acariciando a parte exposta de sua pele, na cintura – Vai dar tudo certo. Já aproveitamos o embalo e convidamos ela também. – foi a vez de Hinata vacilar, gemendo internamente.

Ela não tinha realmente levado a sério quando Naruto propôs que ela e sua mãe passassem o natal junto da família Namikaze. Quer dizer, ela estava animada para passar a virada do ano com o garoto – e, se a sorte estivesse a seu favor, Sakura também chegaria a tempo –. Quando conversaram sobre o assunto, ela foi sincera ao dizer que queria passar as festividades natalinas junto da mãe, como sempre faziam, ainda mais depois de terem passado todo o ano separadas. Parte de si também queria passar o feriado com Naruto – afinal, seria a primeira vez, e não conseguia fazer seu corpo parar de reagir com hormônios adolescentes –, todavia, jamais imaginaria que ele proporia isso.

Segundo ele, em sua defesa, foi ideia de Kushina. Hinata lembrava-se com carinho da mulher extrovertida e tempestuosa, ansiosa para se encontrarem de novo, mesmo que – assim como Naruto – nutrisse um certo medo da sogra. O Namikaze já tinha lhe alertado que Kushina conseguia tudo que queria, inclusive convencê-lo a levar as duas Hyuuga para o feriado em sua casa.

Hinata já sabia, no momento em que ele lhe falou, que era uma batalha perdida. Não conseguia pensar de que maneira a mãe reagiria à ideia, porém, torcia para que fosse condescendente – ela estava tão ansiosa.

— Você acha que é uma boa ideia? Quer dizer, eu nem sei se sua família gosta de mim. – sua intenção era fazer uma brincadeira, mas sentiu, sobre sua mão, Naruto retesar os ombros.

— Minha mãe te adora, e meu irmão também. E os outros vão ter que se comportar. – sua voz saiu mais grave e ríspida do que ela esperava. Engoliu em seco.

Imediatamente seu pensamento se voltou para a confusão com o pai. Seu coração se apertava sempre que aquelas lembranças a tomavam – os gritos, o barulho, Naruto levando-a para longe, furioso. Não precisou de muito para associar aquele mau humor ao evento dos últimos dias, onde, provavelmente, ele teve de permanecer ao lado do senador, a contragosto. Conhecia-o o suficiente para saber que, não importava o quão bravo ou ressentido estivesse, não faria uma cena, não prejudicaria a imagem da família. Ainda assim, era um fardo deveras árduo para se carregar.

Perdeu-se em devaneio momentaneamente. Durante toda sua vida, sempre foi ela e Hiromi. Sua mãe era uma guerreira, e a tinha criado da melhor maneira possível, mesmo com todas as dificuldades. Se sustentaram no amor e no respeito mútuo, e se apoiaram nos piores momentos. Hinata a amava com todas suas forças. Mesmo que considerasse todo o bairro como uma extensão da sua família, nunca teve, realmente, irmãos. Nunca teve um pai. Não era como se sentisse falta, e teve um tempo em que quis mesmo saber quem ele era, mas nunca pressionou Hiromi para contar, e, por outro lado, a mãe nunca escondeu nada do que ela quisesse saber – esse sentimento, por fim, acabou se extinguindo, quando percebeu que não faria diferença.

Ouvindo sobre a família de Naruto, todas suas lamúrias, as discussões, as reclamações – e até mesmo o que ele não dizia, como os problemas e as expectativas que sustentava –, não conseguia deixar de pensar em como seria o seu pai. Se ele tinha outra família, outros filhos. Se era um bom homem – afinal, Hiromi havia sido perdidamente apaixonada por ele, em uma juventude distante. Hinata não sabia, então, se preferia tê-lo conhecido, ou continuar ignorando sua existência.

— Nós sabemos que sua família é o menor dos meus problemas. – desconversou, mantendo o tom casualmente divertido – Não tenho roupa apropriada para um evento desta magnitude. – caíram no silêncio por dois segundos, até que Naruto deixou uma risada lamuriosa escapar, transformando-a em uma gargalhada contagiante.

Riram tanto que a cama começou a chacolhar, sobre os pés de madeira corroída. Hinata parou, recuperando o fôlego, com as bochechas doendo. Naruto sacudiu as estruturas quando se sentou, deixando um vazio gelado onde sua cabeça estava apoiada. Pôde esticar as pernas para frente, enquanto o colchão balançava na cabeceira. Ele se acomodou sentado ao seu lado, passando o braço por seus ombros e puxando-a para si. Hinata apoiou a cabeça, descansando, ainda com traços de lágrimas de riso nos cílios.

— Você, senhorita – bateu o dedo na ponta de seu nariz, fazendo cócegas – ficaria bem usando um saco de batatas cheio de enfeites de natal. – beijou seu cabelo, e ela suspirou, com as maçãs coradas. Ele sempre sabia o que dizer – E não pense que eu esqueci do seu aniversário!

— Ah, não! – protestou rapidamente, escondendo o rosto em seu ombro – Espero que não me dê presentes. – costumava comemorar com sua mãe as duas datas em uma, já que seu aniversário era apenas dois dias depois. Não esperava que Naruto soubesse disso.

— Claro que não. – cantarolou – Vou dar dois. Um de natal, um de aniversário. – falou como se fosse óbvio, e ela esbravejou.

— Não quero algo que valha o dobro do valor da minha casa, estou te avisando. – murmurou, e Naruto rolou os olhos, mesmo que ela não pudesse ver.

— Está brincando? Nada vale o preço desse lugar. – Hinata não sabia como Naruto achava seu quarto mais confortável do que o dele jamais fora.

Estava prestes a responder quando ouviu o trinco da porta. Deu um pulo, assustada, e, habilmente, jogou as pernas para fora, sentindo o tapete de relevo entre seus dedos. Ouviu Naruto a seguir, e engolir em seco ruidosamente. Arrumou o cabelo e esticou o vestido amassado. Andou até o batente, sem precisar do bastão, chegando no curto corredor no mesmo segundo que Hiromi entrou, carregada de sacolas.

— Tadaima.

— Okaeri, okaa-san. – cumprimentou, ajudando-a com as compras.

— Tudo tranquilo por aqui, filha? – ela ergueu os olhos, assustando-se ao se deparar com o garoto pouco atrás da divisória, coçando a cabeça como se estivesse perdido – Oh, olá, você.

Hiromi ergueu as sobrancelhas divertidamente, desafiando-o com os olhos. Naruto pigarreou, sentindo-se diminuir com a pressão lânguida. Hinata, alheia, sentiu o rosto queimar, esperando que sua mãe não estivesse tentando intimidá-lo.

— Mãe, e-esse é m-meu-

— N-Namikaze Naruto, senhora. Namorado da Hinata. – estendeu a mão a frente do corpo, tremendo vergonhosamente. Hiromi teve vontade de rir enquanto lhe dava um aperto firme. Analisou ambos os rostos amedrontados, e o brilho ansioso em Hinata foi o suficiente para lhe convencer.

— É um prazer, Naruto. Venha, vamos para a cozinha.

Dois suspiros aliviados audíveis. A mulher mais velha reprimiu uma risada, guiando os dois para a pequena e abafada cozinha, com a ilha de madeira mais suja de farinha do que nunca. Mesmo assim, o piso de linóleo brilhava e um bolo esfriava na bancada. Hiromi deixou as sacolas em cima da pia e pegou as que Hinata carregava. Eles se sentaram nas banquetas, no mesmo lugar da última vez – indagou-se mentalmente o que tinha acontecido com toda aquela história, mas não disse nada em voz alta. Ao invés, se virou para fitá-los, observando a maneira que suas mãos se atraíam, mesmo que discretamente. Sorriu, afinal.

— Então, me diga, Naruto, como conheceu minha filha? – perguntou, e ele encolheu os ombros. Hinata soltou um “okaa-san!”, mas ela a ignorou. Tinha licença poética para aquilo.

— N-Nós, eu... – o Namikaze gaguejou, respirando fundo – Nós estudamos na mesma classe, e competimos j-juntos nas regionais do intercolegial. U-Uma amiga nossa em comum nos apresentou. – sua garganta coçava e suas palmas suavam. Hinata assentiu furiosamente, incentivando-o.

— A Sakura, se lembra? – torceu os dedos – E foi isso. Nós começamos a conversar, viramos amigos. – se permitiu sorrir.

— Eu gosto m-muito da sua filha, senhora Hiromi. – a mulher assentiu para ele, satisfeita. Hinata estava feliz, e era isso que importava.

— Bom, garotos, alguém quer um pedaço de bolo?

O clima se tornou surpreendentemente mais leve. Naruto, aliviado, sentiu o nervosismo esvair e, mais à vontade, se permitiu retomar a conversa com a mulher, elogiando – mais uma vez – seus dotes culinários. Hinata ouviu mais que falou, radiante. Estava ansiosa pela reação da mãe, sabendo que ela o reconheceria pelo sobrenome. Mesmo assim, ela agiu como sempre, e agora suas duas pessoas preferidas estavam juntas, com ela.

— Então, Hiromi – ela já tinha ralhado para ela tratá-la pelo primeiro nome, apenas, dispensando formalidades –, para provar que minhas intenções com a Hina são as melhores possíveis, eu e minha família convidamos vocês para passar o natal com a gente.

A Hyuuga se virou, deixando de amassar a massa para encarar o garoto com a testa franzida. Tinha sido pega de surpresa com o convite.

— Bem, se querem passar o natal juntos, eu não tenho nada contra. – respondeu, confusa.

— Não, okaa-san! Eu quero passar com a senhora também. – a mais nova insistiu – E a Kushina-san convidou nós duas. – Hiromi reconheceu vagamente o nome. Baixou os ombros com um suspiro pesado.

— Olha, Hina, eu não tenho certeza. Quer dizer, vai ser chique, eu não estou acostumada com essas coisas. – enumerou, incerta. Naruto balançou a cabeça da mesma maneira que tinha feito com Hinata, antes.

— Nem pensar. Vai ser algo bem familiar, só eu, meus pais e meus irmãos. E meus avós, pais do meu pai. Nós não temos muitos parentes aqui em Rokko. – Hiromi analisou o azul firme de seus olhos, cedendo um pouco.

— Tudo bem, eu vou pensar. – eles comemoraram – Pensar, eu disse! – insistiu, rindo um pouco.

Uma semana depois, Naruto estava na mesma cozinha de outrora. O mesmo piso quadriculado de linóleo continuava brilhante, e parecia combinar perfeitamente com a simpática casinha de paredes amarelas descascadas. Mesmo abafado, ele agradecia por não estar suando. Afastou a gola da camiseta social ridícula que sua mãe o obrigara a usar, bagunçando o cabelo que não parava arrumado mesmo. Aguardava pacientemente pelas duas mulheres que viera buscar. Era 24 de dezembro, e sequer nevava, embora a previsão apontasse tempestades de gelo a qualquer momento. Não passava das seis horas da tarde, mas o céu já estava muito escuro.

Kushina insistiu para que elas estivessem em sua casa o quanto antes. Desde a última semana – quando ele, milagrosamente, conseguiu convencer Hiromi a passar o feriado com eles –, a Uzumaki estivera mergulhada em planos natalinos até o pescoço. Cancelou toda sua agenda, focando nos menores detalhes da ceia, da decoração, da montagem típica da árvore, nas roupas que usariam, nas músicas que tocariam. Estava surpreendentemente nervosa para agradar a mulher e Hinata, mesmo que Naruto tivesse insistido veementemente de que não precisava de tudo aquilo.

Agora, as duas Hyuuga obrigaram-no a esperar na cozinha, porque toda a casa era pequena demais para manter o fator surpresa do corredor que unia seus quartos. Da janela escancarada, via crianças correndo pela rua, e luzes acesas em todas as moradias. Sorriu sozinho, porque aquele espírito era maravilhoso – não havia nada do tipo em sua casa, afastada trezentos metros do vizinho mais próximo –.

Distraído, preparou-se mentalmente pela noite que seguiria. Kushina tinha preparado uma surpresa para Hinata, com direito a bolo e velas sparkles, para comemorar seu aniversário. Em seu bolso, o primeiro presente pesava, a espera do momento perfeito para ser dado. Estava ansioso. Passara dois natais com Shion, e não conseguia acreditar em como a sensação era diferente. Todo o nervosismo e a ânsia por fazer dar certo.

Passos chamaram sua atenção, tirando-o do devaneio. A fraca luz amarelo iluminou a chegada de Hiromi, e, sendo honesto, Naruto lutou para ser respeitoso e não deixar a boca entreabrir. Ela estava deslumbrante. Imaginou-a alguns anos atrás, sem as rugas de expressão e o abatimento que somente a idade e as dificuldades traziam – Hiromi teria sido uma mulher de causar inveja –. Usava um vestido verde-escuro, justo por sua silhueta e com as barras abertas. Não tinha a menor ideia de como o modelo se chamava, mas sabia que sua mãe também os adorava. Os ombros eram entalhados com pedras brilhantes e um discreto decote quadrado. Ela parecia alta e elegante com o cabelo posto para trás, no alto, e brincos discretos. Seus olhos estavam marcados por linhas pretas de maquiagem e só. Ela sorria maternalmente para ele.

— Uau, Hiromi-san! Está linda! Quer dizer, com todo o respeito. – consertou rapidamente, coçando a nuca, e ela riu abertamente, batendo em seu braço com a carteira de mão.

— Não se preocupe, há muito tempo não sou elogiada por um garoto da sua idade. – brincou, parecendo mais animada naquela noite – Já disse, pode me chamar só de Hiromi. – ele assentiu – Hinata já está vindo, fui ajudar ela a subir o zíper. – o loiro estava ansioso para vê-la. Enquanto isso, dividiram o espaço reduzido do cômodo – E então, alguma recomendação para hoje? – perguntou com o tom divertido, mas seus olhos eram sagazes. Naruto permitiu-se suspirar.

— Eu estou torcendo para que dê tudo certo hoje. – mal tinha trombado com Minato durante a semana, mas, segundo Kushina, ele iria “se comportar” – Não vou deixar ninguém magoar a Hinata. – disse, firme.

— Acho que é tudo que posso querer. – ela murmurinhou – Sabe, Naruto, você é um bom garoto. Não deixe que nada aconteça entre vocês. Hinata é boa, gentil e sabe perdoar, mas ela também já sofreu demais.

Ele quis perguntar o que aquelas palavras proféticas queriam dizer, contudo, novos passos se fizeram ouvir, e ele virou a cabeça rapidamente. Seus olhos brilharam quando ela entrou em seu campo de vista.

Perfeita.

Era tudo que ele conseguia pensar.

Usava um vestido escuro, quase vinho. Tinha grossas mangas três quartos e gola. A saia descia até suas canelas, em uma cascata de panos desenhados com cerejeiras em vermelho-vivo. Mesmo escuro, identificou um sapato de salto redondo, porque ela estava ligeiramente mais alta. Seu cabelo estava preso no alto, com a franja e algumas mechas enfeitando seu rosto corado. Sem maquiagem, apenas os lábios fartos brilhavam, também vermelhos. Estava estonteante, como uma verdadeira princesa – e, como se não bastasse, o brilho nas duas pérolas de seus olhos era a coisa mais linda que ele já tinha visto.

Emocionado e sem palavras, se aproximou, puxando-a delicadamente pelas mãos e admirando seu rosto, incapaz de expressar como ela estava maravilhosa.

— E então? Muito ruim? – brincou, com a voz vacilando. Ele engoliu em seco.

— Não criaram uma palavra que descreva como você está perfeita. – sussurrou tão profundamente que ela engoliu em seco, emocionada. Não precisaram se beijar ou aprofundar o toque, porque compartilhavam um momento muito mais especial. Hiromi os observou, comovida, tentando espantar as lágrimas que se formavam.

Naruto pigarreou, olhando para os lados, desnorteado. Sorriu sem graça, puxando as chaves do carro e se virando para Hiromi.

— Bem, senhoritas, vamos?

Saíram do casebre, fechando as portas. Cumprimentaram os moradores na calçada, que olhavam, espantados, para o conversível estacionado. Naruto abriu a porta para as mulheres, e Hiromi se ofereceu para ir atrás. Deram partida rapidamente, conversando sobre o tempo, o clima e os guias da televisão.

Quando chegaram, nenhuma das Hyuuga esboçou reação. Ele admitia que estava impressionante – de longe, as luzes verdes e vermelhas brilhavam incessantemente, contornando toda a fachada e os portões. Kushina deveria estar orgulhosa.

Saiu, e elas deram os braços, com Hiromi sussurrando em seu ouvido. Pelas reações faciais, imaginou que estaria descrevendo a Hinata como era a decoração. Sorriu com a cena, deixando-as um pouco para trás, para aproveitarem. Avistou Kushina descendo pela escadaria, com um sorriso contagiante. Usava uma calça de linho nude e uma blusa escura que ressaltava o vermelho de seu cabelo.

— Demorou, meu filho! – beijou-o nas bochechas e se virou para cumprimentar as convidadas – Hinata, você está deslumbrante! E, Hiromi-san, é um prazer conhecê-la. – estendeu a mão, e a Hyuuga mais velha sacudiu com animação.

— O prazer é todo meu. Sua casa é linda, Kushina-sama. – elogiou, olhando para todos os lados, fascinada.

— Deixe disso, querida! Pode me chamar só de Kushina. Venham, vamos entrar e nos aquecer.

Guiou os recém-chegados, conversando com Hiromi, e Naruto assumiu seu lugar ao lado de Hinata. A garota apertou sua mão, sorrindo. Ajudou-a a subir com os saltos, e deixou a porta aberta para ela.

— Que cheiro maravilhoso. – gabou, e o Namikaze concordou.

— Minha mãe não sabe quando parar. – pensou nos três tipos de comida que esquentavam no forno – Vem, o Nagato não parava de encher o saco. – rolou os olhos, e ela deu uma risadinha.

Foram todos para a sala de estar, já decorada com todas as guirlandas e as meias. Hiromi parecia amiga de longa data de Kushina, e Naruto avistou o irmão com um copo e o celular. Minato não estava a vista. Também avistou seus avós, e, radiante, guiou Hinata até eles. Tsunade já tinha as bochechas coradas de gemada batizada.

— Obaa-chan, para de beber! – provocou-a. Hinata permaneceu com as mãos unidas, acanhada.

— Ora, moleque abusado. – resmungou – Hinata! Que surpresa maravilhosa, venha aqui. – a esmagou em um abraço de urso, surpreendendo a garota. Naruto rolou os olhos, sentindo-se constrangido.

— Oji-san, controle sua mulher. – grunhiu, e o velho de longos cabelos brancos riu sua risada rouca – Hina, aqui. Esse é meu avô, Jiraya. – ela se recuperou do abraço, estendendo a mão. Jiraya a apertou, surpreso.

— Hinata, é um prazer conhecê-la. Tirou a sorte grande, garoto, ela é uma gata. – a Hyuuga enrubesceu, e Naruto tratou de puxá-la possessivamente pelos ombros.

— Vocês só me matam de vergonha. – lamuriou, e Hinata riu baixo, deixando-se levar para longe.

— Eles são encantadores. É estranho ver a Tsunade-sama fora do escritório.

— Acredite, é estranho de todo jeito. – ele rolou os olhos, mas acabou rindo também.

Talvez fosse o clima natalino, mas ele sentia uma felicidade muito maior do que podia descrever. Hinata, em seus braços, tinha o rosto sereno, como um anjo. Quis ter uma câmera, para capturar sua expressão. Todos falavam animadamente, o som de violinos destoando no fundo. De repente, teve vontade de mostrá-la cada detalhe da casa, dos piscas-piscas dourados. E lembrou-se de Hiashi, com a garganta fechando.

— Vem, quero te mostrar um lugar. – ela assentiu, estranhando a falha em sua voz.

Saíram pelo canto, e o corredor já estava mais silencioso. Suas mãos entrelaçadas não se soltaram em nenhum momento, nem quando abriu as portas da varanda para o pequeno quintal de inverno. Tinha preparado viscos sobre o banco – admitia ter um senso romântico um tanto clichê –. Levou Hinata até o balanço de hastes de corrente. Ela cruzou as pernas, virada para ele.

— É nosso quintal de inverno. – sua voz estava baixa e carinhosa – Tem um balanço, que eu amo. Grama artificial e algumas plantas da minha mãe. Mas eu coloquei viscos na trepadeira, que é maior que a minha altura. – descreveu – Está meio escuro, mas ainda consigo ver como você está linda. – Hinata purpureou, baixando o rosto.

— Obrigada. – sussurrou, embargada – Pelo convite. Significa muito para mim passar o natal com você com a minha mãe.

— Sem problemas. Algo me diz que a dona Kushina também gostou. – riu, como uma piada interna. Ficaram em silêncio, com ele acariciando seu braço. Finalmente, disse: – Não é meia-noite ainda, mas eu queria entregar seu presente agora.

— Naruto-

— Shh. – interrompeu seu protesto, colocando a mão no bolso e puxando a caixinha de veludo – Vou deixar você abrir.

Ela esticou a palma, segurando-a e tateando para identificar. Suas sobrancelhas se uniram ao identificar seu formato, e procurou pelo fecho. Abriu, apalpando até seus dedos se fecharem em torno do delicado anel. Sua boca entreabriu, sem reação, com os olhos brilhando. Deixou a caixa cair para poder reconhecer cada aspecto da joia. Naruto assistiu, ansioso. Tinha escolhido na joalheria preferida de sua mãe, e, quando o viu, soube na hora que era o escolhido. Queria algo significativo, que ela pudesse usar todos os momentos.

— Ah, Naruto... – suspirou, maravilhada. Ele respirou aliviado, sorrindo de orelha a orelha. Ele pegou de sua mão, encaixando em seu dedo anelar, perfeitamente.

— Eu achei que você gostaria de algo que, sabe, lembrasse de mim. E prático. Não tem uma pedra, porque você pode usar quando nadar, a não ser que queira uma pedra, porque eu posso levar e trocar e você escolhe alguma. – tagarelou mais rápido, ansiosa, mas Hinata o calou com um balançar de cabeça.

— Eu amei assim. – sua voz estava embargada. Ela o encarava como se pudesse enxergar sua alma – É lindo.

— Tem uns desenhos que combinam com você, e uma inscrição. – deu de ombros.

— E-Eu não comprei nada para você. – gaguejou, envergonhada, no entanto, Naruto riu, segurando seu rosto entre as mãos e se aproximando, o hálito gelado atingindo-a.

— Eu já tenho tudo que preciso bem aqui. – encostou suas testas, de maneira que as pontas de seus narizes quase se tocavam – Escute. Eu sei que fui um babaca com você. Um verdadeiro idiota. – suspirou – E muito provavelmente eu não mereço você. Talvez Kami seja misericordioso e fez você se interessar por mim também. – ela riu, meio débil – Eu cometi muitos erros, e ainda tem partes minhas que eu gostaria, não, que eu vou mudar. – sussurrou firmemente – Mas, eu prometo a você, a partir deste momento, não vou deixar nada, nem ninguém, ficar entre nós. Nem mesmo as nossas famílias. – engoliu em seco. Hinata não percebeu seu tom falhar. Estava mais concentrada em não deixar as malditas lágrimas caírem.

Se beijaram, talvez pela milésima vez. Parecia a primeira. Não era ano novo, mas fogos de artifício explodiram no céu. Também não era meia-noite ainda, mas ambos sentiram que aquele era o presente perfeito de natal.