Quimera
11 (Re)Animação
Notas iniciais
— Há mais perigo em teus olhos do que em vinte espadas!
Algumas semanas se passaram, e o mês de maio entrou, trazendo consigo brisas mornas e os primeiros fulgores do que poderia ser um inverno mais ameno. Apesar da renovação do clima e do florescer precoce de novas folhas nas sempre grandes cerejeiras ao redor do prédio, maio não conseguira introduzir um novo ânimo. A atmosfera permanecia fúnebre, e toda a escola se regia a passos lentos e desanimados.
— Vamos, Hina, se você não levantar agora, irá se atrasar para o primeiro turno. — a garota, ainda deitada e coberta até as orelhas, murmurou alguma sentença afirmativa, embora não tivesse, de fato, fazendo algo para sair de sua posição.
Sakura suspirou, mas sabia que de nada adiantaria insistir naquele momento. Hinata sempre acabava levantando, no final, talvez por sua consciência sempre justa demais. Nos últimos dias, a Haruno quem tinha que despertar a amiga, quase sempre em cima da hora. Sentia falta de quando acordava e avistava a garota já pronta e com seu humor matinal intacto. Hinata era boa — era pura e realmente se importava. Cerrou os punhos ao se lembrar do babaca medíocre que destruíra parte da Hyuuga. Dias haviam se passado, no entanto, a ferida continuava aberta, sem sinais de cicatrização. Era doloroso, sobretudo para Hinata, e vê-la definhando era torturante. Como ver uma estrela perdendo o brilho — cedo ou tarde, se tornaria uma supernova, e, então, um buraco negro —.
O clima se tornara quase intolerável entre o segundo ano. Era extenuante permanecer mais que algumas horas no mesmo ambiente, e o grupo de amigos, outrora sólido e numeroso, dividiu-se em dois. De fato, apenas algumas poucas pessoas sabiam o ocorrido — nem mesmo Sasuke estava a par dos acontecimentos —, mas os demais começaram a tomar partido quando sentiram a tensão quebrante, pairando ruidosamente em uma nuvem invisível, mas, ainda assim, palpável e incômoda. Todos sabiam que Naruto era o mais socialmente forte — uma reputação zelada e construída com anos de esforço e aparência que somente os treinos de luta poderiam proporcionar —, mas também sabiam que Sakura Haruno quem colocava ordem até no próprio Naruto — o gênio forte e a carisma notável eram pontos positivos, e a garota já detinha certa fama pela presidência do conselho. Aos poucos, tomou-se partido de um dos lados da briga. Uma disputa silenciosa e passiva — todos sabiam que os protagonistas não estavam se falando, e o próprio círculo íntimo de amigos não sabia dizer o que estava acontecendo. As pessoas começaram a falar, e bastou apenas uma semana para os horários livres se tornassem campos de expectativa de uma possível batalha.
Sakura não lidava para nada daquela merda toda. Ela só se importava com Hinata, assim como Ino e TenTen, que, apesar de ignorantes quanto ao motivo, mantiveram–se fielmente ao lado das amigas. Além do mais, era visível o estado cada vez mais deplorável que Hinata assumia. Tudo se resumia a garota, sempre cheia de vida e positividade, agora presa a todo instante dentro de seus devaneios.
A morena, por fim, levantou-se. Sabia que estava atrasada e não teria tempo de tomar café da manhã, mas não se importava. Não sentia fome, de qualquer maneira. Pegou uma muda de roupas limpas e foi até o banheiro, com os pés pesados e a cabeça latejando. Mais uma noite mal dormida, e agora ela já não se lembrava de quantas mais haviam passado. Trancada no banheiro, conseguiu soltar uma risada fraca, enquanto se despia. O quão ridícula estava agora? Quantas vezes havia preocupado Sakura ou alguma das outras garotas? Hinata estava cansada. Cansada de sentir seu peito doer a todo momento, cansada de ter seus sonhos perturbados pela mesma maldita cena, cansada das pessoas. Estava cansada, sobretudo, de sentir pena de si mesma.
Ela era forte. Foi criada para ser independente e ter seus sentimentos blindados contra tudo e todos. Hinata nunca fora uma pessoa de sentir pena — atos de misericórdia estavam banidos da sua lista, porque ela era uma Hyuuga, e, tal como sua mãe, uma batalhadora. O que ela diria se a visse daquela maneira? Hinata iria desapontá-la.
Encostou mais uma vez na parede gélida de ladrilhos do box e chorou. Estava cansada de ser fraca e chorar no banho, longe dos outros, porque não queria preocupá-los. Ela estava sendo uma péssima amiga — a primeira vez em anos que tinham amigos! E estava estragando tudo, apenas por ser emocionalmente débil. Patético.
Enxaguou-se mecanicamente e puxou a toalha. Prendeu ao redor dos fios molhados e quebrados, com textura áspera e prováveis pontas duplas. Vestiu seu uniforme, notando, novamente, o quão folgados estavam. Já faziam dias, e suas roupas pareciam lhe cair cada vez mais largamente, a ponto de precisar dar um pequeno nó no cós. Estava perdendo peso, e sentia-se na maior parte do tempo. Queria ficar deitada na cama. Queria dormir para sempre.
Sakura a estava esperando, e Hinata agradeceu com um pequeno aceno de cabeça. A rosada nada disse sobre as roupas grandes demais em seu corpo mirrado. Precisava ser compreensiva, porque Hinata necessitava dela naquele momento. Sabia que a amiga nunca admitira, mas a Haruno era seu suporte, e temia que, a qualquer momento, ela cedesse. Precisava estar ali para sua ruptura. Precisava ajudá-la.
— Eu vou indo para a classe. — Hinata falou ao chegarem na escadaria. Sakura a fitou preocupada, mas a garota não podia ver seus olhos acusadores e o brilho verde opaco.
— Mas e o café? Você precisa comer. — bateu o pé, teimosa, e a morena suspirou, cedendo um pouco.
— Pega... não sei, pega um bolinho para mim. Vou guardar nosso lugar. — forçou um sorriso fraco pouco convincente, mas Sakura satisfez-se com a tentativa e concordou.
As amigas se separaram, e a rosada soltou o ar pela boca, caminhando e repetindo mantras dentro de sua cabeça. A cada momento em que tinha que compartilhar o mesmo ar com eles era uma prova de fogo para sua própria sanidade. Hinata não lhe dissera todos os detalhes sórdidos, mas apenas de saber quais as pessoas envolvidas, já conseguia ter uma pequena visão do quão ruim havia sido. Não havia, em toda a escola, pessoa mais manipuladora, venenosa e traiçoeira que Shion – ela sempre estava por trás de cada mísera brincadeira, injúria ou provocação que acontecia. Ironicamente, ela também era a única que nunca se envolvia. Como uma verdadeira orquestradora, trabalhava manejando as peças que detinha ao seu redor. E não havia nada mais que irritasse Sakura tanto quanto aquilo.
Na verdade, havia apenas uma coisa – motivo, pelo qual, agora ela ignorava dois de seus melhores amigos.
Suspirou consigo mesma. Sabia que Sasuke nada tinha a ver com aquela merda toda – como poderia, sendo tão perfeito como ele era (e, para registros, se alguém dissesse que ela pensara aquilo, negaria até sua morte) –, mas falar com o Uchiha implicaria nele. Eles eram como unha e carne, verdadeiros irmãos, e Sakura conhecia a si mesma. Bastaria alguns segundos para que acertasse um soco bem-dado no belo rosto do Namikaze. A rosada sentia falta até mesmo de Gaara e Kiba, e do time, e das suas amigas da torcida, e de todas as pessoas com quem conversava a cada manhã, porque Sakura era uma personalidade que não suportava não se ver cercada pelas outras pessoas. Entretanto, ela sabia que aquele era um momento de escolhas – e ela já havia escolhido o lado de sua amiga.
Como imaginava, o refeitório encontrava-se quase inteiramente vazio, com apenas alguns poucos alunos que já haviam finalizado sua refeição. De fato, a fila era inexistente, e, por sorte, Sakura conseguiu adquirir uma bandeja com um bolinho ainda fresco e um pedaço apetitoso de panqueca. Estava prestes a voltar pelo mesmo corredor em que viera, quando ouviu seu nome. Virou-se, com uma sobrancelha já erguida, e lutou contra as batidas irregulares quando avistou Sasuke correndo em sua direção, com a gravata frouxa e o cabelo soltando-se do laço.
— O que foi, Uchiha? – perguntou com a melhor voz indiferente que possuía, embora tivesse saído bem melhor em sua mente.
— Por favor. – ofegou, retomando o fôlego da pequena corrida – Para com isso. Pode, pelo menos, me explicar o que raios aconteceu?
— Pergunte ao seu amiguinho. – retrucou, irônica, apertando a bandeja entre os dedos – Aliás, não estou vendo ele cercado da sua multidão usual de bajuladores. – sorriu torto, um tanto ácida, mas Sasuke não pareceu se atingir. O garoto suspirou, com um ar seriamente preocupado.
— Ele não levantou hoje. Está faltando as aulas há quase uma semana. Se continuar assim, a diretora vai suspendê-lo e ele não vai poder treinar o time nem competir! – Sasuke parecia realmente desesperado, e Sakura vacilou por um momento. Embora estivesse nutrindo um verdadeiro ódio pelo garoto, sabia que, para alguns integrantes da equipe, o esporte seria uma oportunidade única para bolsas estrangeiras em universidades. O título de campeões era importante para eles, e para a escola. E para o Namikaze – Por favor, Sakura. Estou pedindo como seu amigo há anos. Ele não está me escutando. Você pode ir lá e chutar a bunda dele, se precisar, mas faça ele tomar alguma atitude!
Sasuke nunca se deixara abater pelas emoções. Era conhecido por sua máscara fria e arrogante, sempre desprovida de expressões ou reações sobre qualquer situação. Era dotado, também, de uma frieza calculista invejável. Mas, ali estava ele – quase implorando para que Sakura falasse com o outro. Mesmo sabendo que Sakura o estava ignorando de propósito. Mesmo sabendo que haviam brigado seriamente. Mesmo não falando com ela com tanta intensidade.
Suspirou. Era muita dor de cabeça.
— Tudo bem, eu dou um jeito. – no segundo seguinte, foi tomada por uma onda de surpresa e estática, porque os braços do outro a cercaram com força pela cintura. Era uma posição desconfortável, e havia a bandeja entre eles, mas, mesmo assim, Sasuke conseguiu a puxar para junto de si. Durou apenas alguns milésimos, mas, quando se desprenderam, a Haruno ainda conseguia sentir a pressão sobre seus antebraços. Permaneceu de boca aberta, chocada.
— Muito obrigado!
O garoto saiu, pela direção oposta, deixando Sakura com os pés pregados e a cabeça nevoada de perguntas sem respostas. Permaneceu por quase um minuto no mesmo lugar, até que caiu em si, e, sorrindo informada, retomou seu caminho. Novamente, ela tinha muito trabalho para fazer – seria um longo dia.
Naruto acordou assustado. Esfregou os olhos e pegou o celular embaixo do travesseiro para conferir as horas. Havia perdido as três aulas da manhã. Tornou a se deitar, deixando a cabeça cair pesadamente. Depois de algum tempo, acostumou-se com os pesadelos, e aprendeu a lidar com as noites inquietas. Depois de uma semana, já não se importava mais com sua frequência nas aulas.
A única coisa que ainda significava alguma coisa para o garoto era a preocupação de Sasuke, que, todos os dias, continuava a insistir para que se levantasse da cama. Doía ter de esconder qualquer coisa do melhor amigo, mas, além de muitas coisas, Naruto sentia vergonha – principalmente vergonha. Parecia ridículo, se visto por fora, inventar uma pessoa totalmente diferente apenas para se aproximar de uma garota. Mas não importava mais, no final das contas. Fora tudo em vão. Estava tudo acabado.
E havia Sakura – entre idas e vindas, as brigas bobas que tinham serviam apenas para fortalecer a amizade que nutriam por anos a fio –. Até aquele momento. O olhar da garota assombrava-o quando se distraia, o fulgor era aterrorizante. Uma ruptura, um término. Naruto apenas não funcionava bem sem Sakura, e agora conseguira afastá-la, talvez permanentemente. Sakura era uma pessoa altamente centrada consigo mesma, de uma noção ética invejável – havia apenas o certo e o errado, nada entre eles. Da maneira que conseguia, procurava ser o mais sincera e correta possível, e inspirava Naruto (por vezes de maneiras bem menos sutis).
Agora, preso em dilemas morais, Naruto ainda tinha que lidar com o peso na consciência, que parecia aumentar dolorosamente a cada madrugada. Gravado em sua mente, a expressão de Hinata não deixava-o apavorado, como Sakura o fazia – por outro lado, deixava Naruto angustiado. Como se ele estivesse em seu lugar, e sofresse o que ela estava sofrendo. Quase como uma paralisia, não conseguia se livrar.
Em suma, as coisas não iam nada bem.
Com um impulso nada corajoso, Naruto se pôs de pé, apenas para usar o banheiro. Não ligava em tomar banho ou usar roupas limpas, uma vez que já não saía do quarto. Ignorou uma nova ligação que tocava, estridente, em seu telefone. Fosse Shion, ou fosse algum outro colega, não fazia diferença. Não era como se realmente se importasse com qualquer um deles.
Estava voltando do banheiro, fechando sua braguilha, quando ouviu batidas fortes sobre a porta. Suspirou mentalmente. Já esperava que Tsunade o viesse visitar, àquela altura. Tinha que manter seu histórico escolar exemplar, e já não era um aluno verdadeiramente modelo ou algo do gênero. Estava prestes a abrir quando parou, com a mão na maçaneta.
— Naruto.
O garoto sentiu a boca abrir, e travou. Esperava qualquer pessoa, qualquer uma, menos ela. Engoliu em seco, sentindo-se, repentinamente, acuado.
— Não precisa abrir. – ela continuou – Apenas me escuta. Você é um babaca. – o garoto conseguiu rir engasgado – Você é a pessoa mais idiota e inconsequente que eu já conheci. Você é influenciável, e tem o ego inflado. Você pode mofar aí dentro, eu não ligo. Você pode morrer de fome, se quiser. Mas lembre-se que existem pessoas que dependem de você. – o loiro deixou o braço suspenso cair, surpreso – Tenha responsabilidade uma vez na vida e assuma seus compromissos. Aqueles garotos precisam de você, precisam que você os ajude. Você deve isso a eles. Pode repetir de ano se quiser, mas não seja egoísta a esse ponto.
Naruto ouviu movimentos e passos. E, então, o silêncio. Demorou um pouco até que conseguisse raciocinar novamente. Quando o fez, não pode deixar de rir. Uma gargalhada alta, um tanto insana, que ecoou pelo quarto vazio. Sakura poderia ser rude e insensível, mas ela sempre tinha razão. Naruto devia àquilo. Ele precisava conseguir o título novamente, porque, afinal, ele era um Namikaze.
Ele rumou novamente para o banheiro, e tomou o primeiro banho em dias.
O ginásio já estava aberto, e todo o time já estava vestido com os kimonos de treinamento, embora se entreolhassem hesitantes. Se reuniam no tatame principal, mas sentiam-se perdidos, principalmente sobre o que fazer a seguir. As eliminatórias estavam chegando, e precisavam treinar mais do que nunca para vencer as outras academias da província. Mas, sem o capitão, não poderiam treinar os novos golpes, e, sem eles, não tinham chance alguma.
Sasuke olhava em volta, apreensivo. Já estava sendo cobrado, mas, como a maioria, não fazia ideia do que estava realmente acontecendo. Gaara o olhou confuso, e o Uchiha apenas fez um gesto com as mãos, dando de ombros. Haviam se passado dez minutos do início do treino, e não haviam muitas perspectivas. Os novatos começaram a se mobilizar, rumo ao vestiário, quando foram impelidos por um forte estrondo.
— Eu quero dez repetições de cada circuito, chute e defesa que eu já passei! – se viraram assustados, mas sorridentes, para a origem do som, que vinha da entrada principal – E depois iremos treinar até ficarmos mortos, porque eu não estou aqui para levar um time de perdedores para as nacionais esse ano. Vamos acabar com nossos rivais nas eliminatórias daqui alguns dias!
Houve vários silvos e gritos animados. Alguns, mais ousados, correram em direção ao capitão, cumprimentando-o com socos e high-fives no ar. Depois que o alvoroço acalmou, Naruto caminhou até Sasuke, que o encarava com um largo sorriso – o que era, por si só, um fato raro –. Os amigos bateram as mãos e se puxaram para um semiabraço. Quando se afastou, Naruto parecia até brilhar. Parte do entusiasmo costumeiro ainda reluzia em seus olhos.
Não muito longe dali, a equipe de natação se reunia em um semicírculo, todos molhados e vestindo seus roupões, ouvindo atentamente o treinador. Shikamaru também havia mergulhado, porque competiria com seu time no revezamento a quatro. Estava com uma prancheta nas mãos, e nomeava os titulares para as eliminatórias, que aconteceriam no grande ginásio municipal, junto com as demais modalidades esportivas.
— Muito bem! Foram bons treinos, pessoal. Estou orgulhoso da evolução que tivemos. A escola irá fretar nosso ônibus, e nos encontraremos dia 25, as dez da manhã. Peço que não se atrasem, porque como todos sabem o motorista é muito pontual. – todos assentiram com múrmuros – Agora, vou falar os selecionados para competirem nas eliminatórias. Deem um passo a frente quando eu disser seu nome.
Hinata mal escutava – parecia estar com uma bolha d'água sobre os ouvidos, tamanho nervosismo. Naqueles últimos dias, apenas o treino de natação havia realmente a animado, algo que a motivava a continuar frequentando as aulas diariamente. Esforçou-se com todo seu potencial, dando tudo de si, aprendendo técnicas novas e descontando suas frustrações na água. Agora, esperava ser escolhida para, pelo menos, uma categoria – dentre tantos colegas, ter destaque por seu talento, e ter uma chance de trazer à escola um troféu.
Shikamaru havia dito toda a lista das competições de revezamento, e quase quinze nadadores foram selecionados. A cada nome, Hinata ficava mais nervosa, com as pernas bambas. Confessava que não queria nadar na troca de modalidades, porque não se sentia tão confiante, mas queria tanto nadar solo! O treinador já estava na última lista, no nado livre, e faltam apenas alguns nomes. A Hyuuga começou a perder as esperanças.
— Ok, se acalmem vocês. – o garoto ralhou, embora também estivesse animado – Agora, Tayuya, e, por fim... Hyuuga. – a garota estacou, abrindo a boca, enquanto recebia palmas e tapinhas amigáveis nas costas, a incentivando a dar um passo a frente. Shikamaru sorria, embora a garota não pudesse ver – Parabéns, garota. Você conseguiu uma vaga no solo. Não nos decepcione.
— E-eu não vou. – gaguejou, e se entregou as comemorações junto com a equipe, sorrindo. Sentia-se verdadeiramente feliz, pela primeira vez em dias.
Do lado de fora do ginásio, alguns pares de olhos extras observavam a cena, com o cenho franzido e uma careta nada agradável no rosto.
Com as novas perspectivas em vista, a escola foi inundada por um novo fôlego, que manteve todos os anos ocupados com suas atividades extracurriculares. As matérias efetivas folgaram, compreensivos com a excitação coletiva que visava as eliminatórias, que aconteceriam no dia seguinte. Todas as equipes treinavam arduamente, e não era incomum brigas entre representantes para reservar ginásios fora dos horários escalados. De uma maneira geral, era um clima amistoso, porque a Academia sempre foi conhecia por sua excelência nos jogos escolares, e a sala de troféus estava apinhada de medalhas e objetos brilhantes do primeiro lugar.
Todas as categorias competiriam no mesmo dia, então os transportes estavam apinhados com diferentes times e organizados para que desse para levar todos. O grêmio estudantil – e, consequentemente, Sakura – estava com trabalho dobrado, tomando cuidado para não deixar ninguém de fora da escala. Apesar disso, a própria rosada também estava animada. Iria cobrir os eventos como representante oficial, mas, mais que isso, assistiria seus amigos competirem. Qual foi sua felicidade quando Hinata chegou no quarto, eufórica, gritando que havia sido admitida nos titulares. Para sua sorte, algumas das competições divergiam nos horários, e poderiam assistir o time lutar, as competições das líderes de torcida e, logo depois, o time de natação na piscina aquecida municipal.
Enquanto isso, Naruto encerrava o último treino do time, e estava particularmente orgulhoso da evolução. Mesmo com titulares em sua maioria primeiranistas, tinham muito potencial, e estava confiante na vitória certa. Não viajaria com o ônibus até o centro. Aproveitaria uma das – poucas – ocasiões para andar com seu carro. Já sentia falta do vento e da velocidade. Convidara Sasuke, mas o garoto iria com o time para cuidar da chamada e dos detalhes finais. De uma maneira geral, foram semanas agitadas, e Naruto conseguiu, finalmente, dormir algumas noites inteiras, tamanho seu cansaço.
A noite foi de preparações, e Hinata, do outro lado do dormitório, já havia deixado sua bolsa pronta há muito tempo, com suas roupas, seu maiô e seus acessórios. Avisara sua mãe sobre a competição, e ela prometera que tentaria ir vê-la nadar. A Hyuuga quase não dormiu, tamanha animação, e seu estômago se retorcia. De manhã, correu para acordar Sakura – que acordou sorrindo largamente, porque realmente sentira falta daquilo! – e tentar engolir de qualquer jeito uma barrinha de cereal para evitar câimbras. Sakura saiu apressadamente, para ir em outro ônibus, mas deixou suas sinceras positividades, torcendo pela amiga.
Sozinha, Hinata, a muito custo, esperou até que seu relógio soasse nove e meia, para sair do dormitório, com sua bolsa, rumo a entrada principal do colégio, onde o ônibus do time esperava. Era muito pontual, e não queria correr riscos.
Caminhou confiante com seu bastão, e tudo parecia mais claro. A escola estava estranhamente silenciosa, e todos os times já haviam partido àquela altura, restando apenas a natação e os atletas de futebol para zarpar. A morena desceu a escada e surpreendeu-se com o sol morno que tocou sua pele. Ao pisar na grama, procurou seguir o som das vozes, porque não se lembrava direito onde ficava a entrada.
No entanto, foi abordada quando parou, e não reconheceu a voz da garota.
— Hinata Hyuuga, não é? – Hinata assentiu, hesitante – O time de natação vai embarcar na entrada dos fundos, perto da garagem, porque tinha muitos ônibus na entrada principal! Foi o Shikamaru que pediu para te avisar. – a garota tinha a voz doce e simpática.
— Ah, entendo! – Hinata sorriu para sua mensageira misteriosa – Muito obrigada!
Hinata se lembrava da garagem, porque era um grande pátio de concreto cheio de pequenos pedregulhos. Virou-se e deu meia volta, caminhando, feliz por ter sido avisada a tempo! Enquanto caminhava, a figura loira tornou-se para seu próprio ônibus, satisfeita, com sua saia de líder balançando com seu movimentar.
A Hyuuga chegou facilmente no seu ponto, e ficou a procura de vozes. Virou-se lentamente, caminhando para mais perto, até chegar nas barras do portão, abertas. Havia algum burburinho, mas estava longe, como um som distante demais. Sua face, outrora tranquila, começou a se desesperar. Ela caminhou até o lado oposto, mas também trombou no muro, e suas mãos apertavam o bastão tão forte que seus dedos doíam.
Tarde demais, percebeu a verdade escancarada – havia sido enganada. Uma brincadeira de mau gosto, para se divertir com ela. Seu celular apitou, e eram dez horas. O ônibus, onde quer que estivesse, já estava saindo, e Shikamaru se decepcionaria com sua falta.
Hinata engoliu em seco, lutando para não chorar. Novamente, ela estava ali, sendo feita de idiota por pessoas maldosas que não ganhavam nada com a sua desgraça, a não ser uma diversão baixa e barata. Tornou o rosto para cima e respirou fundo, apoiando-se no muro e nas grades. Estava longe demais de qualquer aluno, e a maior parte dos ônibus já havia saído, então não teria como pedir carona para ninguém. Estava perdida, e não teria como competir. A única coisa que vinha lhe dando forças para continuar, ridiculamente arrancada de si.
Naruto colocou seus óculos escuros, sentindo-se bem. Puxou as chaves do carro do bolso e montou em seu bebê, fungando longamente o cheiro do couro novo, e sorrindo. Era uma bela manhã, e o trajeto sozinho faria bem para seus pensamentos. Arrancou do subsolo, chegando no pátio da garagem e saindo pelo portão aberto. No entanto, seus olhos capturaram outra cena, e ele brecou abruptamente
Lá estava ela – como uma perseguidora, uma maldita sombra para lhe tirar o sossego. Parecia perdida, absorta, recostada na grade com uma bolsa dependurada no ombro. Parecia uma das bolsas dos lutadores, então supos que ela iria competir hoje. Sorriu por alguns segundos, até perceber que todos os transportes já haviam saído, e a escola estava vazia àquela altura. Seu sorriso murchou, percebendo, sem muita dificuldade, que ela não teria se confundido – Hinata era perfeccionista demais, organizada demais. Começou a grunhir, porque, como sempre, haviam fodido com ela a troco de nada.
Bateu a mão no volante, dividido. Soltou alguns resmungos, se arrependendo quase no mesmo instante em que percebeu que precisaria tomar uma decisão, e que, de uma maneira ou outra, acabaria irritando alguém.
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