Quimera
41 Provocação
Notas iniciais
— Ela era como a Medusa. Olhar em seus olhos podia ser fatal.
O terceiro ano estava para começar.
Depois da vitória nacional, a Academia Canadense comemorou como verdadeiros campeões. Foram congratulados pelos técnicos, juízes e diretores presentes no local, tiveram diversas fotos tiradas e foram filmados durante a explosão de confetes e os abraços grupais. Aquele era o primeiro ano em que venciam todas as categorias mais importantes – que recebiam as maiores doações de patrocinadores; judô, natação, vôlei, e até mesmo tênis e o campeonato de coreografias de líderes de torcida. Os elevadores não foram o suficiente para carregar todos os troféus dourados e pesados.
Nos corredores do hotel, a festa durou até a madrugada. Os quartos mantinham suas portas abertos, e os atletas dançavam e riam uns com os outros, sem se importar com nada. Até mesmo Sakura cedeu um pouco as rédeas e concordou em beber champanhe com as amigas. Naruto, é claro, estava exultante; quaisquer acontecimentos negativos foram momentaneamente esquecidos, deixando que a felicidade refulgente ocupasse o lugar do desgosto.
Ele era o capitão do time campeão das nacionais. Estava em Tóquio, com seus melhores amigos, e namorava a garota mais linda; o Namikaze não perdeu nenhuma oportunidade de elogiá-la e fazê-la corar. Pelo menos naquela noite, não se importou com ninguém além deles dois. Todos estavam bêbados demais, de qualquer maneira. Aquelas pequenas lembranças – Hinata enrubescida e com os olhos brilhando, abraçada à sua cintura, rindo de algo que Sakura tinha dito à Sasuke – ficaram marcadas em sua memória, e elas lhe dariam forças para o próximo ano que se aproximava.
Deixaram Tóquio no dia seguinte, despedindo-se das mordomias do hotel cinco estrelas e da falta de responsabilidades. Hinata, ainda extasiada pela vitória e por todo aquele surrealismo, ficou triste de ter que partir. Nunca tinha conhecido a capital, ou se hospedado em um lugar tão majestoso. Acima de tudo, as recordações feitas naquele lugar representariam algo muito mais profundo e ardente que qualquer outra coisa; muito mais intenso que vencer o campeonato nacional de natação – os toques de Naruto por todo seu corpo eram impossíveis de esquecer. Naquele fim de semana, a garota foi mais feliz do que poderia se lembrar, em toda sua vida.
Voltar para Rokko foi um choque de realidade. O pequeno avião comercial que pegaram no aeródromo – experiência que custou alguns fios brancos para Sakura e sua prancheta de chamada – chegou ao porto perto das seis horas da tarde, e alguns dos pais esperavam por seus filhos, ansiosos. Como não aterrissaram a noite, Tsunade foi irredutível e decretou que os alunos deveriam regressar à escola já no dia seguinte, ainda que o ano letivo se iniciasse apenas na próxima semana. Com o fim de fevereiro e o torneio colegial realizado mais tarde naquele ano, o calendário se tornou apertado, como costumava ser.
Naruto deu carona para os três amigos, aproveitando os últimos minutos com Hinata e fazendo drama. Se veriam no dia seguinte – como Sakura lembrou enquanto reclamava –, mas os poucos minutos que ficou sozinho no carro, apenas com o motorista, foram suficientes para deixá-lo pensativo.
A mansão Namikaze estava vazia; como sempre. Kushina provavelmente estava na casa de Nagato, ainda em Tóquio, e Naruto não fazia questão nenhuma de saber o paradeiro do senador. Os funcionários receberam-no com alegria, parabenizando-o pela medalha que carregava no pescoço, e foram atenciosos. O garoto se sentiu menos solitário, jantando com Chiyo na cozinha. Atualizou suas redes sociais, repletas de mensagens e fotos do campeonato. Ele continuava popular, e as coisas permaneceram as mesmas. Mal podia esperar pelo terceiro – e último – ano.
Enquanto isso, Hinata não precisou entrar em casa para ser recebida por Hiromi. Assim que desceu do carro de Naruto e cruzou a calçada, foi tomada por um par de braços sufocantes, e o cheiro de massa pré-assada invadiu seu nariz. Largou a mala e a abraçou de volta, emocionada. Ouviu os vizinhos a aplaudirem, e ficou envergonhada, embora estivesse exultante.
— Eu estou tão orgulhosa de você. – ouviu a mãe sussurrar em seu ouvido, apertando-a mais forte. Hinata imaginou ser de saudade.
Foi uma festa no quarteirão. A Hyuuga mais nova não se lembrava de ter repetido tantas vezes a mesma história, sendo abraçado e prestigiada por cada uma das senhoras que moravam nas casas ao lado, e brincando com as crianças por entre suas pernas. Foi somente tarde da noite que ela lembrou a todos que precisava voltar para a Academia no dia seguinte, e se despediu, agradecendo a comemoração. Guardou sua medalha junto da mala, cuidadosamente, sobre suas roupas.
No dia seguinte, acordou revigorada, com cheiro de café passado. Hiromi a fez comer o bastante para três pessoas, e estava mais emocional que de costume. Hinata a abraçou com força, enquanto terminava de se arrumar.
— Não se preocupe, okaa-san. É o terceiro ano, e logo eu estou de volta em casa.
Hiromi não respondeu. Prendeu as lágrimas, segurando a filha em seus braços o máximo que pôde, naquela manhã. Hinata não viu – e nem teria como ver – o panfleto preso firmemente em seu bolso, detalhando um procedimento cirúrgico complicado demais; entregue por um alguém que ela já não esperava encontrar.
Naruto estacionou seu conversível na garagem subterrânea, em vez da calçada, como era costumeiro. A escuridão e o silêncio eram reconfortantes. Estacionou no fundo, depois das colunas de cimento, uma vez que pouquíssimas vagas eram utilizadas. De fato, não havia necessidade de seu carro, uma vez que ele não sairia mais para suas diversões noturnas – tudo que precisava estava há vinte passos de distância. Mesmo assim, o trouxe, por algum motivo. Desligou o motor e pegou sua mala, usando a velha jaqueta do time; agora que eram campeões nacionais, não faria mal acreditar em uma velha superstição de sorte.
Caminhou rampa afora, o sol morno cegando-o ligeiramente. Não costumavam voltar para a Academia tão cedo, e uma pequena multidão se arrastava pelos portões. Naruto procurou uma pessoa em especial, ansioso – e não conseguiu deixar de pensar em como as coisas tinham mudado de um ano para o outro.
Andou com os ombros eretos e o mesmo sorriso debochado no rosto, cumprimentando os mesmos colegas e se gabando com a mesma pose. Nunca esteve mais orgulhoso de usar aquela jaqueta surrada laranja; por outro lado, nada parecia o mesmo, sobretudo dentro de si. Estava mudado.
Encontrou Sasuke e Gaara, e andou até eles, carregando sua própria mala. Os amigos o cumprimentaram como sempre, e, quando recomeçaram a andar, eles disfarçaram bem a surpresa por ver que Namikaze Naruto estava, mesmo, levando suas próprias coisas, sem deixar para que algum funcionário carregasse, como o príncipe moderno que era – o diabo mora nos detalhes, diziam.
— Nem parece que tivemos férias esse ano. – reclamou o Sabaku, bocejando.
— Estávamos ocupados demais treinando. – Sasuke retrucou.
— E valeu a pena. – Naruto aproveitou para emendar, alargando o sorriso. Os amigos não tiveram como contrariar, rindo junto do Namikaze, lembrando do mesmo momento; a vitória – Acho que vou sentir falta de toda aquela expectativa.
— Eu não. – Gaara alfinetou, estalando o pescoço com uma careta de dor. Naruto lhe deu o dedo – Mas você ainda é o capitão, e pode tentar conquistar o nacional pela segunda vez consecutiva.
— Até que sim, mas nós só podemos competir até terminar a temporada. Além de precisarmos eleger um novo capitão e recrutar mais primeiranistas, ainda tem os vestibulares. – deu de ombros para disfarçar seu incômodo.
Aquele ainda era um assunto delicado. O senador esperava que ele cursasse Ciências Sociais, Direito ou Economia, como o fez; Naruto queria conseguir uma bolsa de esportes e se tornar profissional. Não negava gostar da área social, mas definitivamente não entraria para a política. Não gostava de toda aquela atuação repugnante ao qual o pai submetia sua família. Naruto era espontâneo e desvergonhado; era teimoso, obstinado, certamente conseguiria alcançar seus objetivos, quaisquer que fossem.
Mas o peso de seu sobrenome era custoso demais. Nagato – o bastardo sortudo – conseguira se livrar de herdar as empresas de ações e investimentos, mas Naruto não teria o mesmo sucesso. Não via uma maneira de escapar das garras do senador, nem mesmo com a mãe intercedendo por ele.
Passara demasiado tempo pensando sobre isso, e a sensação de estar sufocando ainda era a mesma.
— Nos encontramos no auditório? – falou para os amigos, desviando do caminho e subindo as escadas para os dormitórios. Gaara e Sasuke se entreolharam maliciosamente, fazendo Naruto revirar os olhos e lhes das as costas. Não importava o que pensassem; só existia uma pessoa para ele.
Muitas das portas estavam abertas, com os alunos se alojando. Alguns ainda não tinham chego, tampouco. Naruto passou pelos dormitórios masculinos, caminhando até o corredor do lado oposto – àquela altura do seu terceiro ano, já era mais que óbvio que as regras de proibição de garotos nos quartos femininos se tornara totalmente obsoleta –.
Naruto chegou ao quarto de Sakura, e a porta estava entreaberta. Empurrou silenciosamente, e avistou somente Hinata. Por alguns segundos, se limitou a admirá-la de longe, suspirando. Ainda que não estivessem juntos, ele seria eternamente grato pelas mudanças que ela lhe proporcionara – era uma pessoa melhor agora, por causa dela. Usava o uniforme, novo e alinhado, com a saia pouco acima do joelho, tão diferente das outras garotas. Assim como muitos outros detalhes, Naruto aprendeu a amar suas distinções, e achar bonito do que, antes, zombava.
Caminhou pé-ante-pé até ficar em suas costas. Inspirou o perfume doce do shampoo que ela usava, e sorriu. Em um movimento rápido, a pegou pela cintura, erguendo-a do chão e a girando em meia volta.
— Surpresa! – exclamou, rindo quando ela gritou de susto. A colocou no chão, virando-a para poder abraçar sua cintura. Seu rosto estava corado e os lábios entreabertos.
— Você quer me matar de susto? – brigou, embora sorrisse.
— Foi inevitável. – soou como alguém nem um pouco arrependido. Inclinou-se lentamente, a beijando com leveza. Hinata apoiou as mãos em seus ombros, suspirando. Quando se afastou, o quarto parecia mais brilhante – Senti saudades.
— Nós nos vimos ontem. – a Hyuuga brincou, com a voz entrecortada e as pernas vacilantes.
— Tempo demais. – beijou estalado em sua bochecha, deixando-a ruborizada. Ele adorava fazer isso – Sua mãe ficou muito feliz? – perguntou, afastando-se para deixá-la terminar de organizar suas coisas. Naruto sempre se surpreendia em como ela era disciplinada, muito mais que ele.
— Ela fez uma festa. Literalmente, ela fez uma festa. – riu, e Naruto a acompanhou, imaginando a cena – Ela disse que estava orgulhosa. Fez tudo valer a pena. – seu rosto se iluminou de uma maneira que o Namikaze só descreveria como linda— Mas ela estava bem emocional, como se alguma coisa tivesse acontecido.
Ele deixou seu sorriso esfriar e morrer. Imediatamente, teve um estalo; poderia ter sido, literalmente, qualquer coisa. Mas ele sabia. Em seu âmago, ele sabia. Hiashi a tinha procurado.
Por um momento, Naruto se esquecera daquele outro problema. Apostaria sua vida que o homem viu a performance de Hinata no campeonato, e, agora que tinham vencido, não havia mais motivo para esperar. O próprio Minato dissera que a parceria já estava certa, e provavelmente há muito já conversavam sobre aquilo.
O Hyuuga era ardiloso – não seria multimilionário se não o fosse. E, pensando pelo lado racional e prático, não havia motivos para querer que Hinata não o conhecesse. Quer dizer, ele estava liderando uma equipe de pesquisa própria para fazê-la voltar a enxergar. Era surreal, Naruto sabia disso; Hiromi devia saber disso. Contudo, ainda assim, não conseguia deixar de ter o coração apertado apenas ao pensar na possibilidade. Hiashi queria Hinata como um troféu de exibição, um peão naquele maldito jogo. Naruto tinha nascido para isso, já estava acostumado com os holofotes, a mídia, as mentiras, as máscaras. Ele era um deles, afinal. Mas Hinata, ah, não, Hinata não. Ela era pura, e boa. Naruto não tinha mais salvação, mas Hinata era boa. Ela tinha todo um futuro brilhante pela frente, uma carreira para ajudar a salvar pessoas, sonhos altruístas. Naruto não suportaria ficar parado, vendo Hiashi arrastá-la para aquela lama nojenta, envolvê-la em seus entretenimentos dissimulados. Torná-la uma CEO executiva, jogada aos lobos famintos. Até que ponto, então, sua abnegação era substituído pelo mais puro egoísmo? Era o medo de vê-la envolvida com aqueles negócios, ou o medo de perdê-la?
Era isso que Hiromi pensava também?
— Naruto? – saiu do devaneio com Hinata o chamando, do batente – Está tudo bem? Você parou de falar de repente.
— Está sim, amor. Está tudo bem. – garantiu, caminhando até ela e segurando firmemente sua mão – Vamos para o auditório?
Saíram, caminhando lado a lado, conversando e rindo como se existisse apenas eles. Enquanto isso, uma terceira pessoa observava.
Já não sabia mais qual era sua motivação. Àquela altura, já não era mais sobre reconquistá-lo – não era burra, tampouco cega. Já não era mais o mesmo, e não tornariam a ficarem juntos. Seria o despeito? Uma maneira de mostrar que sempre sairia por cima. Ou talvez fosse amargura? O sentimento de ter sido abandonada. Mera ilusão se o fosse – ela tinha qualquer homem aos seus pés, e todos seus desejos realizados. De fato, não sabia explicar a obsessão. Sonhava, dia e noite, com a melhor vingança. Traçava planos, traiçoeira, reunia informações, assistia de longe.
Ela a odiava. Com cada uma de suas células, nutria um asco agudo e incompreensível, fomentava uma necessidade de destruí-la psicologicamente – e fisicamente, em seus sonhos mais complexos e intragáveis. Será que apenas sua personalidade execrável era suficiente para explicar aquela perseguição despropositada? Era um bom esclarecimento. Detestava perder, e detestava não estar no topo. Não queria ser amada; queria ser temida. E, para ser temida, as pessoas precisavam achar que ela era perfeita.
Tomar um fora humilhante como aquele não era perfeição. Ser trocada por uma inválida não era perfeição. O que ela tinha? Era sem graça. Era feia. Era desajeitada, com aquelas desproporções corporais. Estava sempre com a mesma expressão patética. O que ela tinha?
Shion bebeu mais um gole de vinho de sua taça, irritada – não importava se eram nove horas da manhã –. Sentada na poltrona, como há meses, aborreceu–se mais ainda. As cortinas carmesim estavam totalmente fechadas, deixando o ambiente insípido e sufocante. Suas colegas de quarto não ousariam atormentá-la naquele momento, de modo que apenas seus pensamentos estavam torturando–na.
Qual era o objetivo? Por que insistia em continuar se humilhando com aquela perseguição inútil? Naruto nunca mais voltaria a ser dela. Nunca mais o controlaria com seus dedinhos, nunca mais o teria na palma de sua mão. Nada de eventos sofisticados, fotos na mídia, roupas de gala. Nada de sexo selvagem e exibição pelos corredores. Shion não se limitaria, é claro, a uma posição tão desprezível quanto rainha do ensino médio, mas seguia os conselhos da mãe; conquistar um mundo de cada vez.
Ela não o amava. Talvez nunca tivesse amado. Mas o sentimento de ter sido substituída por uma inválida, com nada de atrativo, com nenhum poder, a deixava possessa. A sede de vingança foi seu ânimo durante meses a fio, e ela sabia, ela sabia, que havia algo – um instinto feminino primitivo tão poderoso quanto o de suas antepassadas. Agora restava saber o que ela faria para acabar com eles. Com aquela felicidade enjoativa, aquela bolha frágil que construíram. Queria atingir Naruto exatamente onde doeria mais – nela.
Shion não se importava em fazer o papel da ex ensandecida— ter o poder era a única coisa que importava.
Terminou aquela bebida de quinta categoria e escondeu a taça entre suas coisas – beber nos dormitórios ainda era proibido, apesar de tudo –. Suficientemente alcoolizada, se ergueu, arrumando a microssaia em seus quadris, puxando o bastante para que pudessem ter uma visão privilegiada de suas pernas. Sacudiu o cabelo loiro, gravando bem em sua mente a imagem do casalzinho passeando pelos corredores. Eles iriam se arrepender.
Naruto estava atrasado – isso não era novidade. Seu corpo não tinha se acostumado com os horários de aula ainda – isso já acontecia há três anos, era difícil se adaptar –. O ritmo de terceiranista estava deixando-o mais cansado que o usual; entre assistir as classes, treinar pesado com o time, selecionar os novos primeiranistas, estudar para o vestibular e passar algum tempo com sua garota, ele estava dormindo mais do que deveria. Sasuke o chutava para fora da cama, já saindo para o café, e ele corria para comer, geralmente esquecendo coisas sem importância, como sua mochila, por exemplo. Naquele dia, correu de volta para o dormitório, desesperado, enquanto os amigos faziam piada dele.
Há alguns meses, ele não se importaria em não ter seus livros, porque dormiria, de qualquer maneira, todavia, não naquele ano. Passou raspando graças ao seu desempenho nas aulas livres e no esporte, com notas medíocres em quase todas as disciplinas teóricas. Se quisesse ter uma performance satisfatória nos vestibulares e convencer seu pai a deixá-lo estudar o que almejava, precisava se esforçar. Para sua sorte, Hinata era realmente boa aluna.
Entrou no dormitório e procurou, ávido, pelos livros, que estavam na prateleira de trás. Já estava de saída quando ouviu um farfalhar na cama. Virou-se assustado.
— Para que tanta pressa? – Shion sorriu com os dentes a mostra, e Naruto entreabriu a boca, chocado.
— S-Shion? Mas que merda...? C-Como você... o que? – gaguejou, atônito – Quer saber, não me interessa. Cai fora! – exclamou, sacudindo a cabeça, deixando que a exasperação tomasse conta.
— Uh, não vou não. Não até termos uma conversinha. – se levantou da cama, trajando aquele micro-uniforme.
Naruto desviou os olhos, desconcertado e irritado. Aquela garota não tinha limites! Passou por ele e deu um tapa na porta, a fechando com um estrondo. O loiro sentiu o cheiro do perfume que costumava mandar comprarem para ela em seu aniversário. Sentiu-se enjoado. Como pôde ficar com ela por tanto tempo? Como pôde permitir que fizesse tantas coisas ruins?
— Pensei ter dito para me deixar em paz. – rosnou, sem paciência.
— Pensei ter dito que se afastasse daquela ceguinha. – rebateu, no mesmo tom. O fitou com o queixo erguido, os olhos tão claros que beiravam o violeta. Não era como os violetas de Hinata; enquanto os da Hyuuga eram suaves e gentis, os de Shion era desafiadores e mortais.
— Não use essa palavra. – sua voz engrossou e ele não percebeu como a garota estremeceu – Eu não quero ter de usar a força, então sugiro que caia. fora. – não seria condescendente.
— Uau, você seria capaz de bater em uma garota? – piscou seus cílios inocentemente – Você mudou mesmo. – riu, sem humor. Naruto bufou, impaciente.
— O que você quer comigo? – grunhiu. Não adianta lutar; ouviria o que ela tinha a dizer e a mandaria embora. Shion deu as costas, indo até a janela, sem responder.
— Eu quero entender. – virou-se de repente, o rosto sério, quase agressivo – Eu quero entender, Naruto. – ele começou a perceber o que estava acontecendo – Quero entender como você trocou a mim — frisou, apontando para todo seu corpo – por ela. — falou com asco. Naruto rolou os olhos.
— Sério que você não superou ainda? – ironizou, encostando na parede e cruzando os braços. Shion o fuzilou – Não faz seu tipo ficar implorando desse jeito, sabe.
— Nós tínhamos tudo. – estava mal-encarada— O mundo aos nossos pés. Todos nos amavam. Éramos o melhor casal dessa escola. Éramos os preferidos da mídia. Seus pais me adoravam. Eu era perfeita para você. Juntos, nós conquistaríamos tudo que quiséssemos. – cuspiu – E então você me troca por ela? Uma inválida, que não pode te dar nada! – gritou – Você sabe o que dizem por suas costas? Você virou a piada dos corredores! – acusou. Naruto, embora incomodado, não demonstrou.
— A vida é mais que isso, Shion. – manteve a voz grave— O que vai ser quando sairmos do ensino médio? Quando não houver mais corredores, e fofocas, e superficialidade? Eu não me importo mais com isso. – endireitou as costas.
— Esse não é você. – acusou.
— Então quer dizer que você me conhece? – riu – Faça-me o favor, Shion.
— Mudaram você! – incriminou, quase histericamente – Você nunca diria algo assim!
— Ah, eu entendi. – alfinetou— Você quer que eu diga as coisas que você quer ouvir. O que seria? Hein, Shion, o que quer que eu diga? Vamos ver. – fingiu pensar por um instante – Eu não amo a Hinata. Só estou brincando com ela. – sorriu friamente – Ela não passa de um joguinho para me distrair, e, quando eu me cansar, vou chutá-la. Ela é uma ceguinha sem graça com um corpo legal, e não passa disso. Não tem nenhuma chance de nós ficarmos juntos no futuro. Está bom ou quer que eu continue? – aproximou-se perigosamente – Isso amacia seu ego? Porque nada disso é verdade. – sussurrou, ríspido – Eu estou com a Hinata porque eu amo ela. Ela é linda, inteligente, incrível, engraçada, gentil. Ela me transformou. E, acima de tudo, ela é uma pessoa infinitamente melhor que você.
Shion trincou a mandíbula. Naruto irritou-se consigo mesmo por ter cedido às provocações daquela cobra. Virou-se, abrindo a porta com um supetão.
— Saia. Agora. E me deixe em paz. — ordenou. Shion percebeu que não tinha mais como enrolar, e passou por ele jogando o cabelo, sem se deixar atingir. Ele a fechou assim que ela passou, enfurecido. Aquela garota era impossível.
Shion caminhou sem parar até o corredor oposto, com o coração descompassado. Tinha um sorriso afetado. Parou, recostando na parede e fazendo seu coração parar de bater desenfreadamente. Não se deixaria abater por algumas palavras vazias. As vezes, para dar um passo para frente, era preciso dar dois para trás – ah, ela adorava interpretar aquele papel.
Discretamente, tirou o celular de dentro da saia, e desligou o gravador. Agora, tudo que precisava fazer era algumas edições.
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