Quimera
44 Possibilidade
Notas iniciais
— Eu ouço, eu sei. Eu vejo, eu lembro. Eu compreendo, eu faço.
— Eu sei que vai parecer estranho, e não vou pedir para você confiar em mim instantaneamente. – a voz daquele homem não era exatamente desconhecida, mas Hinata não soube identificá-la – Por isso sua mãe está nos esperando lá fora. – minha mãe? — Quer ajuda?
Atordoada, ela assentiu com a cabeça, estendendo o bastão e o braço, deixando que ele a apoiasse sobre o seu próprio – honestamente, ela estava perdida –. Caminharam devagar, a uma distância respeitável, em silêncio. As mãos do homem eram quentes e macias, ligeiramente enrugadas, algo perto dos quarenta anos. Sua cabeça latejava com a quantidade de pensamentos que insistiu em processar – sem contar as horas a fio que passou chorando, e agora seu rosto provavelmente estava inchado e vermelho.
Chegaram ao lado de fora – Hinata sentiu o polido do piso ser substituído pela dureza do concreto –. O homem soltou seu braço, afastando-se, ao passo que Hinata ouviu um farfalhar e foi acometida por um par de braços afoitos.
— Hina! Minha filha, como você está? – Hinata deixou a cabeça afundar no pescoço da mãe, aconchegando-se no perfume familiar e na carícia – O que aconteceu? Está tudo bem? – o tom preocupado indicava que ela já tinha visto seu rosto.
— Estou bem, okaa-san. – fungou, afastando-se do abraço, mas mantendo os braços ao redor de sua cintura.
— Minha menina. – suspirou, passando a mão por suas bochechas – Hiashi, você já contou a ela?
— Ainda não. – o homem respondeu, até então assistindo a cena em silêncio – Achei melhor termos essa conversa com privacidade, a caminho do escritório. Todos os documentos estarão lá.
— Hiashi, você sabe que isso não é necessário. – sua mãe retrucou com desaprovação.
— Quero fazer as coisas certas dessa vez, Hiromi.
Hinata surpreendeu-se com a intimidade com que conversavam. A mãe a guiou até o carro, tomando cuidado para não tropeçar, e escorregou para o canto da janela, a sentindo sentar ao seu lado. Hiashi também entrou atrás, e o ruído a fez pensar que ele tinha se acomodado em frente a elas. Distraidamente, tentou imaginar como seria aquele carro – decerto, um modelo luxuoso –. O motorista – supôs que havia um – deu a partida, saindo da escola. Uma parte dela ficou preocupada em deixar as dependências do prédio daquele jeito, mas era uma parte muito pequena. Estava confusa, e ansiosa para descobrir do que aquilo se tratava – desesperada por uma distração.
— Bom, eu não conheço uma maneira fácil de fazer isso. – Hiromi apertou a mão de hinata sob a sua – Hinata, meu nome é Hyuuga Hiashi.
— Oh.
Aquilo certamente seria uma boa distração.
— Lembrei da onde eu conhecia sua voz. – ela murmurou, mais como se falasse sozinha – Das entrevistas na televisão, não é? Você é um investidor famoso. – recentemente, o contrato fechado com as empresas do senador Namikaze estampava as manchetes de todas as redes de comunicação; Hinata ignorou o bolo que se formou em sua garganta e se concentrou no momento presente.
— Entre outras coisas, sim. – ele parecia verdadeiramente cansado – Eu e Hiromi nos envolvemos ainda jovens, e estávamos com o casamento marcado quando ela engravidou. Decidimos esperar, meus pais nunca gostaram dela, e seria um escândalo público. Você nasceu, e as coisas pareciam ir bem, mas eu tive que ir embora, porque... bem...
— Porque eu nasci cega. – Hinata terminou a sentença, calmamente. Hiromi apertou sua mão, e a garota não precisava enxergar para saber que a mãe estaria a beira de lágrimas.
Ela conhecia essa história. Sua mãe sempre manteve uma relação muito franca e aberta – talvez, justamente, por causa da deficiência –. Hinata nunca procurou saber sobre o pai para não magoar a mãe, mas sabia que ela teria dito antes, se perguntasse. Lembrou do que Hiromi tinha lhe dito – ela não tinha nascido completamente cega, mas o médico avisou que algo estava errado, e precisaria de monitoração. Hinata foi um bebê anormalmente tranquilo, e a cegueira começou a se manifestar aos quatro meses. Foi quando seu pai viajou, para nunca mais voltar.
— Não foi exatamente assim. – Hiashi pareceu incomodado.
— Está tudo bem. – Hinata retrucou, educada – Eu não tenho problema em falar abertamente sobre a minha deficiência. Não precisa fingir que foi por outro motivo. Você não podia ter uma filha cega.
Hinata já tinha ouvido seu sobrenome outras vezes, no rádio ou na TV. Ainda que fingisse ignorância – para preservar os sentimentos da mãe –, imaginava que seu sobrenome provinha de uma família muito antiga e muito rica. Os Hyuuga não costumavam esconder sua influência, sobretudo no mercado internacional, e as peças eram fáceis de encaixar. Uma filha deficiente seria um escândalo, e por isso Hiashi teve de abandonar sua mãe e ela, ainda recém-nascida.
— Você é realmente uma garota inteligente. – ele observou, apenas. Ficaram em silêncio por alguns segundos.
— Por que decidiu me procurar agora? – conseguiu manter sua voz estável. Não estava com raiva, tampouco rancorosa. Entendia as motivações, e se orgulhava da mulher guerreira que a mãe era, e de todos os esforços para criar uma filha deficiente. Se orgulhava da casa onde moravam e da história que construíram. Ela só queria entender.
— Eu tive outros dois filhos. – Hinata engoliu em seco, surpresa – Eles não apresentaram a cegueira, mas a pigmentação de seus olhos começaram a se assemelhar com a sua, quando bebê. Assim como a minha, agora. – ela esperou que ele continuasse – Como meus outros filhos eram, hm, normais – pigarreou, desconfortável – eu acreditei que a doença decorria da genética materna, mas, de alguma maneira, são os meus genes que transmitiram essa condição. – fez uma pausa, e ela não percebeu que o carro tinha parado, possivelmente no porto – Eu iniciei uma série de pesquisas para compreender melhor o que era essa doença, e entender como ela afetava a mim e a meus filhos, uma vez que você, minha primogênita, tinha ficado cega tão cedo, e os outros não.
— E ele descobriu, filha – Hiromi interrompeu, com seu melhor tom maternal – que existe uma possibilidade de cura. Uma cirurgia que te faria enxergar.
Uma cirurgia que a faria enxergar.
Quantas noites Hinata não passou acordada, sonhando com aquela possibilidade? Quantas vezes não desejou poder ter sua visão? Quantas vezes não chorou, escondida, porque ser cega a tornava limitada, fraca, dependente? Foi necessário muitos anos até que entendesse que a deficiência era parte de quem ela era, uma característica incômoda; a natação ajudou com que assimilasse todo seu potencial, com ou sem visão, e que aquilo não deveria determinar quem ela era de verdade. Ainda que fosse autoconfiante, estaria mentindo para si mesma se dissesse que, no âmago de sua alma, ver era tudo que ela queria.
Sequer conseguia imaginar como sua mãe estava – ela ficaria tão feliz. E Hinata se tornaria independente; livre de ajuda, livre do bastão, livre de piedade, livre de rótulos, livre de desconfiança. Livre.
— Eu estou financiando uma equipe de pesquisa com os melhores médicos, e eles querem fazer exames em você, para comprovar a viabilidade de reversão. – Hiashi se inclinou e tocou o joelho de Hinata, que sobressaltou – Eu sei que errei muito no passado, e não posso mudar isso. Mas eu posso fazer diferente daqui para frente. Eu quero ajudar. E espero que você possa aceitar minha ajuda.
Hinata ainda podia se lembrar do diálogo tão claramente como se tivesse sido há minutos, não dias. Sua vida tinha dado uma guinada radical, e ela não sabia o que era sonho e o que era realidade. Hiashi levou ela e Hiromi para seu escritório – uma instalação improvisada, uma vez que a verdadeira ficava em Tóquio –, onde mostrou todos os documentos necessários para Hinata acreditar que ele dizia a verdade; não que fosse realmente necessário. Ela já tinha acreditado. Hiromi tinha lhe dado o sobrenome de Hiashi porque ainda estavam noivos quando ela nasceu, e era muita burocracia mudar quando ele se foi. A própria mulher não parecia abalada com seu retorno, embora Hinata sempre tivesse imaginado que ele tinha sido o grande amor de sua vida.
Hiashi insistiu para que elas ficassem mais próximas da clínica, e as convenceu a viajarem com ele de volta para a capital. Hinata tinha ficado preocupada com a escola, mas Hiashi garantiu que tinha conversado com Tsunade, em sigilo, e garantido que ela não fosse prejudicada com sua bolsa. Ficaram em um hotel, com todas as despesas pagas, e visitariam o centro de pesquisas pela primeira vez naquela manhã.
Hinata estava tentando não criar muitas expectativas – ao contrário de Hiromi, que só falava disso, emocionada –. Não era como se ela não acreditasse na existência de uma cura, mas pensar que ela poderia ser curada a deixava ansiosa; posteriormente, caso não desse certo, a decepção seria mais do que ela poderia aguentar. Por enquanto, se distraía com os sons da cidade, os programas de televisão e com toda aquela situação absurda – ela tinha conhecido seu pai, depois de dezoito anos, saído de Kobe e ido para Tóquio, tudo isso no intervalo de alguns dias.
Não tinha conversado com Naruto desde então.
Mandou uma mensagem para Sakura dizendo que estava bem, e que explicaria quando pudesse. Apesar de tudo aquilo ter sido uma bela distração, não era como se sua mente tivesse parado de pensar no garoto a cada minuto e instante possível. Seu coração pesava de saudade, e ela segurava-se constantemente para não chorar. Queria pegar o telefone e ligar para ele, contar o que estava acontecendo, ouvir o quanto ele estava feliz e como as coisas dariam certo. Mas não tinha conseguido restabelecer sua confiança, e não sabia como fazê-lo.
Aquela era uma de suas maiores motivações para fazer os exames – nunca mais seria enganada por ninguém.
Hiromi e Hinata desceram para o carro, que já as esperava. Em pouquíssimo tempo a garota já tinha entendido que o dinheiro de Hiashi era capaz de abrir muitas portas. A medida que se aproximavam de seu destino, suas mãos começavam a suar mais, as pernas trêmulas de inquietação. O braço de Hiromi ao redor de seus ombros ajudava a acalmá-la – não importava o que acontecesse, elas sempre teriam uma a outra.
— Chegamos. – a mulher disse baixinho – É um prédio enorme, redondo, parece um estádio. Tem um monte de janelas e seguranças nas portas, e canteiros que parecem artificiais. – narrou a paisagem para a filha, que assentia, tentando imaginar suas dimensões – Sinto como se estivéssemos em um seriado futurista. Tem cheiro de hospital. – Hinata concordou.
Foram guiadas para dentro, até o segundo andar. Assim que entraram, Hinata sentiu o ar gelado arrepiar sua pele. O barulho do bastão ecoava pelo corredor, e ela ouvia muitas pessoas conversando abafado, como se estivessem atrás de portas de vidro.
— Hiromi, Hinata, que bom que vieram. – Hiashi as recepcionou, caminhando com elas – Estamos indo encontrar o doutor Sakoto, que está liderando a equipe de pesquisas. Por aqui, chegamos na sala dele. – a maneira que ecoava indicava um lugar grande e aberto, com o mesmo cheiro de desinfetante e álcool esterilizado.
— Hiashi. – o homem tinha uma voz grossa e simpática – Senhoritas, permitam que eu me apresente. – Hiromi soltou Hinata para apertar sua mão, e ele fez o mesmo com ela. Seus dedos eram rijos e firmes – Sou o doutor Sakoto, estou aqui para tirar quaisquer dúvidas que venham a ter, e depois começaremos os testes iniciais. Sentem-se. – sua mãe a acomodou no que parecia um sofá, ou uma poltrona de couro – Hiashi, você já adiantou alguma coisa a elas?
— Nada. – ele estava próximo.
— Tudo bem, então vamos do início. Hiromi-san, o que a senhora pode me contar sobre a deficiência da sua filha?
— Podemos deixar de lado as formalidades. – Hinata sorriu para a forma que sua mãe já parecia imensamente a vontade, ao contrário dela – Quando a Hina nasceu, os médicos me disseram que havia uma deformidade em seus olhos, e com quatro meses ela já tinha perdido noventa e cinco por cento da visão. – sua voz ficou um pouco triste, e Hinata apertou sua mão – Continuou indo em médicos e pediatras, mas eles apenas fizeram o acompanhamento do crescimento dela. Não tinha dinheiro para pagar um especialista, então só garanti que ela crescesse saudável.
— Certo. – o médico fez um barulho com folhas – Aqui. Vou começar explicando sobre a doença. Eu acredito que a Hinata tenha uma neuropatia óptica hereditária de Leber. – mais farfalhar – Não deixe que o nome assuste vocês. Os exames vão comprovar se estamos corretos ou não, porque a Hinata é realmente um caso raro. – ela ouvia atentamente – Essa doença é hereditária, mais comum em homens, e se manifesta na adolescência e vida adulta. Costuma ser uma herança dos genomas maternos, mas encontramos a presença da mutação nos aconselhamentos genéticos dos filhos de Hiashi também, o que indicaria que ele também seria portador. É uma das teorias que estamos analisando que pode explicar a condição de Hinata, uma vez que a atrofia se manifestou nela ainda criança. Ambos os pais poderiam ter a mutação. Nem sempre ela se evidencia na mãe, mas o gene sempre vai ser passado. Unido ao possível gene do pai, a doença se tornou predominante. Estão conseguindo me acompanhar? – apenas murmuraram em concordância. A cabeça de Hinata girava – Testes mais específicos vão comprovar a existência da mutação em seu DNA, e então poderemos passar para a próxima fase, que é a cirurgia.
— Eu posso mesmo... – Hinata respirou fundo – Eu posso mesmo enxergar?
— Nós acreditamos que sim. – ele respondeu, sério – Me diga, você é capaz de distinguir alguma coisa em sua visão?
— Bem, eu... eu não consigo explicar... – parou, pensativa, procurando pelas palavras certas – Algumas vezes, é como se estivesse brilhando.
— Você consegue perceber a presença ou ausência do sol? Consegue diferenciar claro do escuro?
— Isso! – exclamou – Exatamente isso. Quando está sol, é como se estivesse brilhando mais, e quando não tem nenhuma luz, fica mais escuro.
— Essa característica reforça nossa hipótese. – o doutor parecia satisfeito – Você ainda possui sensibilidade à luz. Esse brilho é uma resposta das suas funções cognitivas visuais, e é um quadro comum entre as pessoas que sofrem da doença em estágios iniciais. O fato de você também apresentar essa condição nos deixa positivos quanto à reversão total. – Hiromi apertou mais forte sua mão, e Hinata retribuiu – A neuropatia de Leber está sendo estudada e alguns testes com células-tronco já foram bem-sucedidos. Iremos realizar experiências com essas células e preparar seu organismo para a cirurgia regressiva. Não existe uma cura para os portadores que desenvolvem a patologia já na fase adulto, mas estamos confiantes que podemos fazer dar certo.
Hinata ouviu a mãe soluçar ao seu lado, e não duvidou que ela estava tentando – sem sucesso – segurar suas lágrimas. Ela mesma sentiu um bolo na garganta, e suas mãos estavam trêmulas. Não sabia exatamente o que dizer, ou o que sentir. Era como se ainda estivesse presa a um sonho, um sonho maluco. A escuridão não parecia mais tão escura.
Chegaria mesmo aquele dia? – o dia em que ela conheceria a luz do sol, e as formas da natureza. As cores, Hinata morreria para conhecer as cores. Poder imaginá-las, sonhar com elas, todas brilhantes e chamativas. Por muito tempo, suas mãos foram sua visão, e todas aquelas formas estavam guardadas em sua memória; ela sabia como era uma cadeira, mas, ao mesmo tempo, não sabia. Ela poderia ver como era uma cadeira, uma mesa e uma bola. Um caderno, uma mochila, um carro, uma casa. Uma chave, um vestido. Ela poderia ver o rosto de sua mãe.
De repente, as expectativas tomaram conta dela, de suas células, de seus pensamentos. Já não tinha mais volta. Pela primeira vez, em muito tempo, sentia-se cheia de esperança. Ela não era ingrata – estava feliz com quem era, quem tinha se tornado, todas as coisas que tinha conquistado. Ela só seria uma Hinata com upgrade.
Nos dias que se seguiram, ela e Hiromi aprenderam mais sobre a doença, sobre genética e sobre probabilidades genéticas. Inúmeras pessoas tiraram seu sangue, fizeram exames físicos e psicológicos, todos os tipos de medições e anotações. Embora estivessem hospedadas no hotel, passavam quase quinze, dezesseis horas no centro de pesquisas, com o doutor Sakoto e sua equipe. Hiashi também as acompanhou, com seu gene sendo comparado para saber das chances dele mesmo sofrer da doença. Hinata não foi apresentada a seus meio-irmãos – um garoto e uma garota –, mas estava ansiosa por isso também.
Antes que se desse conta, as semanas passaram, uma atrás da outra. Ela conversou com Tsunade por telefone – ainda que Hiashi tivesse garantido que tinha conversado com ela, a garota preferiu fazê-lo pessoalmente –, e a diretora lhe garantiu que não seria afetada em suas notas. Ela desejou boa sorte nos testes e assegurou discrição, como ela tinha pedido. Não queria que as pessoas soubessem, ao menos, não ainda.
Garantiu a Sakura, Ino e Tenten que sim, ela estava bem, e sim, ela ia contar tudo depois. Estava grata pelas boas amigas que tinha feito na Academia, e uma parte de si queria dizer tudo a elas naquele exato momento. Provavelmente, era essa mesma parte que abria o contato de Naruto incessantemente, fechando logo em seguida.
É claro que qualquer resquício de raiva e mágoa evaporou depois da primeira semana. Se ele aparecesse na sua frente, provavelmente ela se jogaria em seus braços e o beijaria de uma forma que a deixaria envergonhada mais tarde. Hinata o amava mais do que consideraria saudável, e a distância a machucava quase que fisicamente. O Namikaze tampouco ligou, e ela não podia dizer que o culpava – ele estava respeitando seu espaço, o que, de alguma maneira, só a fazia sentir mais saudade.
A história de Menma era absurda, ridícula e surreal. Quanto mais ela pensava, mais parecia sem sentido, e ela pensava bastante. Naruto mentiu descaradamente para ela, e, enquanto fingia ser seu amigo, a ofendeu do pior jeito possível, a deixando um caco por dias. Hinata disse que não gostava da sensação de ser enganada. Que não perdoava mentiras.
No entanto, tudo isso foi antes dela se sentir perdidamente e irremediavelmente apaixonada.
Agora estava dividida. Queria ter Naruto de volta para si, queria seu apoio, ele ao seu lado durante aquele momento tão importante. Por outro lado, não sentia que era capaz de confiar nele novamente, por enquanto. Não conseguia juntar seus pedaços, e aquilo a deixava quebrada. Sua felicidade nunca seria completa sem ele.
— Posso entrar?
A voz de Hiashi a tirou de seus pensamentos. Hiromi o tinha convidado para jantar no quarto em que estavam, e Hinata se recolheu enquanto eles ficaram conversando. Sentou-se na cama, puxando o cobertor.
— Claro.
— Só queria saber se está bem instalada, se precisa de alguma coisa. – ele parecia mais próximo, talvez ao lado da cama.
— Estou bem. – garantiu. Algumas perguntas ficaram presas na ponta de sua língua.
— Sem problemas. Até amanhã. – ela ouviu passos.
— Espera! – disse antes que pudesse se conter. Os passos pararam – Por que está fazendo isso? – era a que mais rondava sua cabeça. Ele não respondeu de imediato.
— Serei franco com você. – voltou a se aproximar – Estive te acompanhando nas últimas semanas. Você deve saber do contrato recente que fechei com o senador Namikaze. – pega de surpresa, ela apenas assentiu, apertando as mãos com força – Me aproximei porque fiquei sabendo do seu envolvimento com o filho mais novo dele. Saber que ele a estava fazendo feliz me motivou a finalizar definitivamente.
— Nós, hm, não estamos mais juntos. – murmurou, com a voz falhando.
— Ah, eu sinto muito. – ele parecia solidário – De qualquer forma, eu a acompanhei, e percebi seu potencial. Minhas empresas estão crescendo, sobretudo depois desse último negócio, e eu preciso de bons herdeiros para dirigi-las no futuro. Uni o útil ao agradável. – aquilo a surpreendeu – Acredito que a sinceridade é um bom elemento em uma relação. Você é inteligente, Hinata. É audaciosa, é corajosa. E, como minha filha primogênita, tem direito de grande parte do meu império. Investi nessas pesquisas para saber se eu e meus filhos seremos afetados pela doença, mas também porque quero fazer algo bom para você.
Hinata ficou em silêncio, impressionada. Não esperava por aquelas motivações; não fazia ideia de que ele a tinha visto nadar nas nacionais. Hiashi não se preocupou em esconder seu interesse para que ela assumisse suas empresas, e que estava financiando seus exames esperando por isso. Ela não sabia como reagir. Jamais tinha se imaginado como uma empresária, ou algo do gênero.
— Nós teremos tempo para conversar melhor sobre isso. – voltou a se afastar – Mas eu fico realmente feliz por ter deixado que eu me aproximasse, depois de tudo. – ela murmurou algo, encabulada – Boa noite.
— Boa noite, Hiashi. – sussurrou.
— Eu sinto muito sobre seu relacionamento. – ela não respondeu isso.
Hinata escorregou para baixo das cobertas; encolheu-se, na esperança que aquilo unisse seus pensamentos e seus pedaços.
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