Quimera
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Notas iniciais
— Abra seus olhos e olhe ao redor. Você está satisfeito com a vida que está levando?
Se, antes, o tempo estava passando lentamente, setembro definitivamente estava escoando como areia de ampulheta. Com o fim do verão se aproximando, o clima já começara a se modificar, trazendo brisas frescas e levando embora o sol escaldante, que fora substituído por nuvens ocasionais e a perspectiva de chuva. O segundo semestre do primeiro ano mal tinha se iniciado, mas era como se muitos meses tivessem se passado.
Hinata reuniu seus livros quando o professor anunciou que a aula havia acabado. Mesmo com a chegada eminente das primeiras avaliações, era visível a dispersão da turma, de forma que as manhãs tornavam-se absolutamente improdutíveis. Esperou que a bagunça se dissolvesse para se levantar da carteira, tateando sua mesa para organizar tudo em sua bolsa. Cumprimentou o professor, quando este passou ao seu lado, e trombou, acidentalmente, em Sakura, que a esperava impacientemente no degrau de cima.
— Está cada vez mais impossível estudar nessa sala. O professor Asuma quase subiu pelas paredes. – a Haruno reclamou, e Hinata soltou uma risada abafada, enquanto pegava a mochila e deixava que a amiga encaixasse seu braço no dela, iniciando uma caminhada lente e cuidadosa pelo corredor apinhado de gente.
— Só mais algumas semanas, e depois tudo volta ao normal. – a morena repetiu mais uma vez, paciente. Embora não pudesse ver o rosto da rosada, sabia que, muito provavelmente, ela estaria rolando os olhos.
— Não sei porque esse alvoroço todo. Você está tão tranquila! – Hinata soltou uma risada nervosa e um tanto histérica.
— Eu, com certeza, não estou nada tranquila.
Os últimos dias foram tomados por verdadeira comoção entre os alunos. Havia sido liberadas as listas de disputas dos torneios regionais dos jogos colegiais, de maneira que cada escola já tinha acesso aos dados oficiais de cada adversário, assim como o chaveamento das competições. De certo, não havia nada diferente, fora um pequeno detalhe – haveria apenas uma semana entre os jogos que definiriam os representantes regionais, e o início das disputas nacionais. O torneio Nacional era o objetivo mais almejado de todas as equipes colegiais, e, em vez de meses de preparação para competir, teriam apenas dias. Logicamente, não era preciso se preparar para as nacionais se não passassem, primeiro, pelas regionais – mas, sendo sincero, que equipe realmente pensava assim?
De qualquer maneira, Hinata e a maior parte do grupo de natação da Academia Canadense já tinha se classificado, por pontuação, para o campeonato regional, sem precisar passar pelas eliminatórias, que aconteciam durante dois dias – o que não impedia Shikamaru de exigir deles um treino incansavelmente pesado –. Nos fins de semana, a última etapa classificava as melhores equipes de cada região para representar sua província nas Nacionais. E, por fim, na próxima semana, o grande torneio premiaria as melhores escolas. Os próximos níveis permitiam que os times competissem em qualidades adultas e oficiais, mas a maioria dos colégios, assim como a Academia, visavam apenas os títulos nacionais.
Se ganhassem, o time de natação alcaçaria um novo recorde na história da instituição – o bicampeonato consecutivo. Outras modalidades também treinavam arduamente para manter suas posições ou conseguir o pódio pela primeira vez, mas, certamente, nenhuma delas colocara tanta pressão atmosférica quanto o time de luta – campeões regionais invictos, mas, apesar disso, nunca conseguiram um título nacional, de fato. Por esse motivo, toda a Academia se tornara uma bolha frágil de estabilidade, podendo ser rompida a qualquer momento. Os ginásios já não podiam ser usados, por estarem sempre reservados, e, até mesmo durante os horários de aula, o time conseguia controlar sua ansiedade.
Depois do almoço, Hinata voltaria a treinar com Shikamaru, para melhorar – ainda mais – seu tempo. Se conseguisse uma volta perfeita, poderia levar o time às nacionais na primeira disputa, sem precisarem depender das notas dos jurados. Claro, se conseguissem se concentrar – no ginásio ao lado, o escarcéu causado pelo treinamento da equipe de judô era ensurdecedor –. Sakura, como presidente do Comitê, tentava apaziguar os ânimos acirrados, dividindo as reservas de treino entre todos os pedidos, e sofrendo a pressão de ambos os capitães quando sentiam-se injustiçados. De todos os alunos, a rosada parecia a mais estressada, e a que menos se importava com os eventos esportivos.
— Você vai arrasar, Hina. – Sakura apertou seu braço e a garota sorriu, agradecendo o apoio. Chegaram no refeitório um pouco mais tarde que o costume – Eu não mereço. – ouviu a rosada reclamando com seu melhor tom reprovador.
— O que foi? – Hinata perguntou, curiosa.
— Essa escola é ocupada por um bando de animais. – respondeu, desgostosa. A Hyuuga riu, sem precisar de maiores detalhes. Apenas mais um dia normal, que se repetira nas últimas semanas, sem cessar.
Em sua maioria, as equipes ocupavam potencialmente todas as mesas, discutindo estratégias e procurando intensificar seu tempo livre. O problema era que todos tinham essa mesma ideia, tornando o refeitório um ambiente barulhento demais e cheio demais – sem falar que a comida acabava muito mais rápido, incrementando o já grande mau humor da Haruno –. Hinata agradecia, neste momento, que tivesse a garota agarrada ao seu braço, ou certamente não conseguiria inteira em uma mesa.
— Já vi a Ino e a Tenten. Vamos. – a puxou habilmente, guiando-a em zigue-zague, proferindo algumas maldições e xingamentos. Conseguiram chegar, em afastaram um espaço para que a Hyuuga se sentasse. Tateando a mesa, puxou um pedaço de pão da bandeja da frente, mas era difícil se concentrar nas vozes das amigas.
— Parece mais barulhento que ontem! – Ino se fez ouvir, também parecendo ansiosa. As líderes estavam ensaiando mais que o normal, e a garota vinha reclamando de dores e cansaço desde o começo da semana – Tinha que ser eles. – Hinata conseguia imaginar a careta no rosto da Yamanaka.
— O que eles têm de músculos, têm de desordeiros. – Sakura complementou, acusadoramente, e Hinata baixou a cabeça subitamente incomodada.
Sabia de quem elas falavam. O time mais apreensivo da Academia era, decerto, o de luta – a ânsia pelo sonhado título nacional parecia a desculpa perfeita. Fosse como fosse, Naruto – o capitão – ainda não tinha falado com Hinata ao longo da semana. A garota esperava que sua atenção estivesse inteiramente voltada para os treinos, mas ela sentia que o Namikaze estava diferente. Não tentara nenhum tipo de abordagem direta – ela jamais teria coragem para isso, de qualquer maneira –, mas, em alguns momentos, ouvia sua voz conversando com Sakura, e surpreendentemente ficava calado quando ela chegava. Hinata estava acostumada a ser ignorada, mas a sensação de estar sendo deliberadamente evitada a deixava com um incômodo estranho.
Agradecia o cuidado das amigas em não mencionar o garoto perto dela – apenas Sakura sabia de parte da história conturbada pela qual estavam passando –, e Ino e Tenten, percebendo seu desconforto, passaram a fazer o mesmo. Apesar disso, Hinata ainda não tinha contado a ninguém sobre o beijo, sobre as investidas ou as conversas. Tudo era tão novo e perturbador, ela apenas não sabia como agir. Tinha medo, na maioria das vezes, e Naruto era o extrovertido e descarado da relação. Bom, isso antes dele começar a ignorá-la.
Hinata tentava não pensar o pior – mesmo que todas as possibilidades indicassem o contrário –. Em sua mente, tentava se convencer de que o garoto estava mesmo focado no torneio, treinando sem cessar, sem tempo para conversar com ela. Esperava que, depois das primeiras eliminatórias das regionais, as coisas voltassem ao normal. Ela demorava para confiar em alguém, e não sabia se seu coração estava preparado para mais uma decepção.
— Hinata? – a morena se voltou, assustada – Está tudo bem? Te chamei umas três vezes. – a voz de Sakura parecia preocupada, e a Hyuuga sorriu rapidamente, para garantir que estava bem.
— Gomen, Sakura. Estava no mundo da lua. – soltou um riso nervoso – O que queria?
— Precisa de ajuda para ir no ginásio agora? – ela parecia ter esquecido completamente o pequeno lapso da amiga.
— Mas já? – Hinata se assustou, não percebendo que o almoço tinha passado tão rápido. Ela mal tinha beliscado alguns petiscos da bandeja de Ino.
— Ainda faltam uns minutos, mas eu preciso ir no escritório tentar controlar aquela bagunça. – Hinata riu com o tom da rosada – E as meninas provavelmente vão para o treino das líderes agora. De qualquer maneira, está mais vazio agora. – comentou, e Hinata percebeu que podiam conversar sem ter de gritar.
— Vou acompanhar vocês, então. – se levantou, pegando sua bolsa e o bastão, ajeitando-os. Ouviu passos e bandejas sendo arrastadas pela mesa. Tenten alcançou seu braço, puxando-o na frente, enquanto Sakura e Ino iam atrás – O que foi, Tenten? Você está tremendo um pouco. – a morena notou que os dedos da amiga a apertavam ligeiramente mais forte. A ouviu suspirar.
— Sempre nota tudo, não é? – elas riram, atingindo o lado de fora do refeitório – Eu estou supernervosa com o campeonato este fim de semana. Vou ser a base da pirâmide, e a Shion vai me matar se eu errar a coreografia. – ela estremeceu, e Hinata fez muito esforço para não resmungar ao ouvir aquele nome. Entendia a amiga, e compartilhava do seu nervosismo. Buscou por sua mão e a envolveu compreensivamente.
— Você vai arrasar! Eu tenho certeza. – a empurrou delicadamente pelos ombros – Você é forte, Ten. Só precisa ter confiança, vocês estão treinando o mês todo, vão ganhar. – cada palavra foi dita com verdadeira sinceridade, e Hinata gostaria de ter visto o sorriso brilhante que se abriu no rosto da amiga.
Se contentou com os braços que se apertaram ao redor de seus ombros, acolhendo-a entre o tórax. Hinata sempre desconfiara que era a menor das garotas – mas isso não a deixava incomodada, de qualquer maneira –. Devolveu o abraço segurando a cintura de Tenten, e, em seguida, sentiu as duas outras meninas pulando sobre elas, em uma confusão de braços e risadas. Naqueles momentos, curtos, esporádicos, casuais, Hinata sentia-se verdadeiramente completa, de uma maneira única.
Afastaram-se, despedindo-se, enquanto cada uma seguia por um corredor. A Hyuuga continuou pelo caminho de concreto, passando pelos jardins em direção aos ginásios. De longe já ouvia as ordens e os gritos dos times, e, mesmo que as grossas paredes metálicas que separavam cada um dos ambientes isolassem a maior parte do som, a garota sabia que, em algum lugar, ali, a equipe de judô preparava-se para começar a treinar. Limitou-se a um suspiro, expurgando de sua mente todos esses pensamentos ridículos, enquanto controlava seu corpo, relaxando todos os músculos e se preparando para mais um dia de exercícios.
Guiando-se com o bastão, bateu contra as portas duplas, que tilintaram, e, satisfeita, escutou barulhos de água. Entrou, puxando o bastão e retirando os sapatos, guardando-os em uma sacola separada. Seus dedos nus pisaram em uma poça molhada, e ela estremeceu com a água gelada. Seguiu pelo canto, para não escorregar, e tateava pela parede. Chegou até o banco, onde alguns de seus colegas gritavam e torciam pelos possíveis competidores que nadavam furiosamente – gotículas espirraram por toda sua roupa.
— Hyuuga! – a garota se voltou para o treinador, que se aproximou pelo seu lado direito. Sua voz continuava firme e autoritária, mostrando que até mesmo o calmo e centrado Shikamaru estava a beira de nervos – Que bom que chegou. Começamos em dez minutos. Vá se aquecer, vamos treinar viradas. – ordenou diretamente, e a garota assentiu.
— Volto em um instante, treinador.
Puxou sua bolsa e caminhou até o vestiário, contando o número de passos mentalmente. Pisou em chão seco, e retirou os chinelos de dedo, calçando-os. Tateou pelas paredes até os armários, e procurou por um na altura de seus dedos. Guardou suas coisas e puxou seu maiô tradicional, despindo-se no canto. Enquanto vestia o traje comum de preparação, corou ao ser tomada por lembranças furiosas das férias – o maiô ridiculamente rasgado que Sakura obrigara-a a vestir, e, por conseguinte, as reações estranhas de Naruto e seus amigos. Naruto.
Hinata odiava a maneira que ele estava sempre em seus pensamentos.
Se vestiu propriamente e prendeu o cabelo em um rabo baixo. Puxou sua toalha e deixou a mochila, levando consigo também o bastão, embora não estivesse aberto. Voltou para as piscinas, e parecia que todos já haviam chego para o treino. Mesmo com todas as janelas, o sol que entrava do alto queimava o top de sua cabeça e deixava tudo claro e luminoso. Sentou nos primeiros bancos, ao lado de Tayuya, que tagarelava sobre as corridas de cinquenta metros que o Nara incentivava-os a fazer. Hinata assentia, ansiosa para competir contra os colegas, mas sabia que, provavelmente, ficaria sob as ordens do treinador o dia todo.
Dito e feito, Shikamaru se aproximou, mandando-as para a piscina principal. Hinata alongou os braços e as pernas, puxando uma touca e encaixando-a em suas orelhas. Agachou e apoiou contra a borda, molhando primeiro as pernas. Estremeceu, mas a água se ajustou depois de alguns segundos. Saltou e mergulhou por inteiro, submergindo até se acostumar e voltando. Não importava o que acontecesse, estar na água sempre era revigorante. O Nara se aproximou, mandando que começassem a nadar, e Hinata se preparou para um bom impulso. Enquanto seus braços deslizavam sobre a superfície, ela sentia seu corpo flutuar. Mais que nadar, era conversar com a água – guiar e ser guiada. E então, a ponta de seus dedos tocavam a borda, e ela impulsionava para baixo, realizando um giro e empurrando para frente. Como perdia tempo na virada pela desvantagem de precisar tocar a borda, tinha que ser rápida nas braçadas, e ganhar na velocidade. Não via o tempo passar, e, muitas vezes, trombava com Shikamaru, que a esperava na borda oposta, com o cronômetro.
— Está melhorando. – sua voz orgulhosa era um incentivo e tanto – Tudo bem, pode treinar livre a partir de agora. – disse, depois de três ou quatro voltas. Hinata surpreendeu-se – Você está na melhor forma que poderia atingir com a minha ajuda, Hyuuga. Está pronta para as nacionais. – Hinata sentiu uma mão sobre seu ombro, apertando, e sorriu, de maneira que suas bochechas rasgaram. Ela não deixaria que se decepcionassem.
Era quarta-feira. No sábado e no domingo, aconteceriam as competições regionais da província de Kobe, para determinar quais escolas os representariam no torneio nacional. E, então, na semana seguinte, as competições nacionais de outubro – o momento que todos os atletas colegiais esperavam.
Nos dois dias que se seguirem, Hinata se concentrou em produzir mais resultados que qualquer um. Não podia nadar na modalidade revezamento, junto com seus colegas, e, por esse motivo, se esforçava para compensar individualmente. Aquela fora a última tarde de treinos, e Shikamaru se recusara a fazer um discurso motivacional – mas todos seus colegas se uniram para jogá-lo na piscina –. Ficou por último nos chuveiros, pensando em tudo e nada. Sua mente estava clara, límpida, mas também energética. Repassava cada ensinamento dado pelo Nara, cada sensação que percorria seu corpo quando nadava. Reuniu energia e positividade suficientes para fazê-la acreditar no próprio potencial. Depois que se trocou e desligou todas as luzes, percebeu como era tarde. Não havia mais sol, e era pouca a luminosidade.
Saiu pelo corredor central, ainda distraída. Atingiu o jardim, o bastão batendo contra a grama fofa, e virou-se para seguir até o prédio, mas, quando esbarrou no muro, sentiu um puxão pesado em seu pulso, e, com um tranco, se virou, assustada. O susto durou apenas o suficiente para sua mente trabalhar com racionalidade – Hinata reconheceria aquele toque em qualquer lugar. Sorriu.
— Você quer me matar de susto? – brincou, sentindo o puxão apertado se transformar em um toque carinho, e sua espinha arrepiou-se, liberando sensações que há muito não sentia, mas que sentira tanta falta.
Naruto não pretendia desaparecer nos últimos dias. Ele realmente não pretendia. Mas parecia óbvio que ele não era realmente corajoso daquela maneira. Não sabia quantos dias haviam se passado do começo do semestre até aquele momento, porém sabia que sentia como se fosse muito mais. Estar longe de Hinata havia se tornado – bem, era devastador. Era vergonhoso admitir que estava envolvido naquele ponto, mas cada segundo em que não conversavam era uma tortura. Ele a via nos refeitórios, depois dos treinos, na sala de aula, e tudo que fazia era admirá-la de longe. Depois da reação exagerada que tivera, sentira-se mal o suficiente para recuar. Era um covarde, não negaria – a questão era como ele contornaria a situação.
Enquanto isso, descontava toda sua frustração nos treinos. Exigiu duas, cinco, dez vezes mais de cada exercício, e sua irritação parecia particularmente aflorada. Seus companheiros quem realmente sentiam sua cólera, e, depois de uma semana, metade da equipe não comparecia aos treinos, doloridos demais para levantar da cama. Se não fosse por Sasuke – e sua irritante habilidade de controlar Naruto –, teriam poucos lutadores para as regionais. De qualquer modo, este era o ponto central da sua raiva nos últimos tempos. Em seu quarto, dezenas de medalhas reluzentes exibiam os títulos invictos – mas nenhum troféu nacional.
Zangado, frustrado e sem nenhuma perspectiva real de como deixar de ser um babaca, Naruto não viu nenhuma opção senão fugir de Hinata, para colocar os próprios pensamentos no lugar. De fato, a distância também serviu para comprovar que aquela era, de longe, uma péssima ideia. Então, esperou, pacientemente – ou nem tanto – até o momento certo para falar com ela, se desculpar. As eliminatórias começariam na manhã seguinte, e, mesmo que nenhum deles competisse até o domingo, ainda estavam nervosos.
— Me desculpe. – tomou cuidado para manter a voz natural, rouca. Sabia que, no escuro, um erro poderia levar a conversa a um rumo que ele não estava pronto para encarar – Como você está? – sua mão acariciava seu punho, sentindo a pele quente e macia. Brincava entre seus dedos, querendo entrelaçá-los. A escuridão naquele trecho do caminho tornava tudo deliciosamente melhor.
— B-bem. – Hinata xingou-se por gaguejar – Estou bem. – respirou fundo – Só nervosa para amanhã.
— Mas você não compete amanhã. Não precisa ficar ansiosa. – Naruto queria desesperadamente ver os detalhes de seu rosto, mas a meia-luz não era suficiente para iluminá-los. Estavam recostados despretensiosamente na parede, e bastava um movimento para que a distância entre seus rostos acabasse.
— Eu sei. – ela sussurrou – Mas as meninas vão competir, e tem a modalidade de revezamentos, e eu quero tanto ganhar! – a frase saiu em um fôlego só – Eu nunca competi em um torneio oficial antes, mas eu quero muito ganhar o título para o time. – confessou.
— Você vai ser ótima, Hina. – Naruto sentia o peito explodir quando sua mão livre tocou seu rosto, acariciando sua bochecha suavemente com o dedo indicador. Sem precisar, Hinata fechou os olhos, querendo que aquele toque ficasse marcado para sempre em sua pele. Ali, na penumbra, apenas eles dois, parecia tão simples – Quando você ganhar, pode ter certeza que eu vou estar na arquibancada, torcendo.
— Promete? – Hinata não gostava da maneira que seu coração pulava dentro do peito.
— Prometo. – Naruto sussurrou de volta, se aproximando devagar. Sua mão repousou em seu maxilar, adulando, mas, antes que pudesse fazer qualquer outro movimento, ouviram vozes se aproximando do corredor. O loiro suspirou, se afastando, e Hinata percebeu a ausência de calor. Naruto resolveu não abusar muito da sorte – Se for me ver lutar, vou dedicar minha vitória para você. – era uma aposta ousada, e Hinata surpreendeu-se, boquiaberta. Naruto achou graça da sua súbita falta de ação, e se apressou em se despedir – Nos falamos depois. – rapidamente, depositou um beijo estalado no alto de sua testa, e desfez o laço entre seus dedos, caminhando pelo corredor.
A Hyuuga permaneceu no mesmo lugar por mais alguns minutos, processando o que tinha acabado de acontecer. Sua pele ainda ardia, e sua voz morrera em algum lugar de sua garganta. Mesmo que fossem por poucos minutos, a mera presença do Namikaze já a deixava sem reação. Com um sorriso bobo, tornou a andar, equilibrando-se, enquanto se deixava divagar em pensamentos que mais pareciam sonhos.
Na manhã posterior, Hinata se arrependeu de ter demorado a dormir. Ficou revirando na cama, ouvindo os sons que vinham de fora, revivendo o curto diálogo de mais cedo. Quando percebeu, o cansaço a venceu tarde demais, e, no momento em que Sakura a acordou, sentiu-se mais exausta que deveria. A rosada, por outro lado, estava pilhada, e parecia carregar pilhas de pastas e formulários. Hinata arrumou suas coisas na velocidade da luz, sendo apressada pela amiga, enquanto engolia, com muito custo, uma barrinha de cereal. Desconfiava que o treinador também a obrigaria a comer quando chegassem no ginásio, mas, por enquanto, foi o suficiente. Saíram do quarto bons trinta minutos antecipados, mas o corredores já estavam apinhados de bolsas e estudantes aos gritos, conferindo se tinham pego tudo. Seria a primeira vez que Hinata dormiria em um hotel fora da região, e estava ansiosa.
Deixou que Sakura a puxasse pela mão durante todo o percurso, carregando suas bolsas e tagarelando furiosamente. Ela queria garantir que Hinata fosse a primeira a entrar no ônibus – uma vez que a última competição foi particularmente perturbada quanto a isso –. Em partes, a Hyuuga sentiu falta de dividir o trajeto com Menma, apesar de tudo que acontecera. Duvidara, no entanto, que quaisquer um de seus colegas, suas amigas e até mesmo o Nara, fossem deixar que ela ficasse para trás.
Aos tropeços, as duas garotas alcançaram o sol da manhã, já ao pino, e Hinata incomodou-se com tanto barulho e claridade. Era difícil se orientar, mesmo agarrada a Sakura, e sentia pessoas trombando contra ela a todo momento. De alguma maneira, acabou ao lado de um ônibus, enquanto Sakura falava alguma coisa no celular. A garota trazia suas pranchetas, além de milhares de outros utensílios.
— Ah, Shikamaru, finalmente! – exclamou – Aqui, o seu ônibus é esse. Coloca a Hina para dentro, os outros devem estar chegando. Partimos as dez. – Hinata não fazia ideia de que horas eram, mas, pela correria, deveria estar quase no horário.
— Relaxa, Sakura. Para quê tanta correria? – o garoto soltou um sonoro bocejo, nem parecendo o treinador ávido que o time de natação enfrentava – Vamos, Hyuuga, antes que a Sakura tenha uma síncope. – sentiu mãos em seus ombros a empurrando, e pegou sua mala, rindo.
— Há, há. Tchau, Hina. – Sakura depositou um beijo rápido em sua bochecha – Nos vemos depois.
— Tchau! – gritou, mas a garota já tinha ido.
Se contentou em ser guiada por Shikamaru, e subiram no ônibus, diferente do da última vez. Os bancos eram acolchoados, mas, com o calor, tornavam o automóvel mais abafado. O garoto fez questão que Hinata se sentasse nos últimos bancos, e ela já esperava pela bagunça durante o trajeto de pouco mais de três horas.
Acomodada, Hinata encostou na janela, ouvindo quando os colegas subiram, e o professor Asuma, que os acompanharia – aparentemente, ele e Shikamaru eram grandes amigos, e passavam horas conversando e jogando Shogi –. Também alguns outros que não eram do time de natação, mas ajudariam no momento da disputa. Quando o motor ligou, foi quando Hinata sentiu as mãos suarem verdadeiramente. Ela nadaria na competição de amanhã, contra as equipes que se classificassem nas eliminatórias.
Durante todo o percusso, dividiu-se entre interagir com os colegas e permanecer quieta, perdida em pensamentos. Tentava se tranquilizar, mas era impossível. Pensou em Ino e Tenten, em busca da primeira classificatória em anos. Fosse o que fosse, diziam que as coreografias de Shion eram realmente elaborados, e elas tinham grandes chances de vencer. Hinata queria torcer para as meninas, e ignorar aquele sentimento ruim que se alimentava bem no fundo de seu peito.
Conseguiu cochilar antes de chegarem. O ônibus parou e esperou que todos descessem, despertando. Pegou suas coisas e seguiu junto com o grupo. O número maior de pessoas falando ao mesmo tempo mostrava como o ambiente estava lotado. Diversas escolas competindo pela vaga colegial, em dezenas de modalidades. No ginásio onde estavam, disputavam apenas os esportes em grupo, mas, nem por isso, estava menos cheio.
— Time de natação! – Shikamaru gritou, reunindo a todos – Vamos para a ala leste! Somos os segundos a competir, quero todos aquecidos! Quem não for competir, vem comigo para os bancos.
Hinata se apressou em seguir o treinador, e não precisou abrir o bastão, uma vez que uma de suas colegas se prontificou a acompanhá-la. Passaram pela multidão que chegava, e, do lado de dentro, o som ecoava, e era mais gelado. Andaram pelo que pareceu um longo caminho, e passaram por diversas salas, as narrações nos alto-falantes se misturando. Hinata teve vontade de sair e procurar pelos ginásios que abrigariam as lutas marciais, mas se conteve.
Ao chegarem, a garota se sentou em uma das pontas, ouvindo pessoas mergulharem e saírem a todo momento. A água não respingava perto de si, e a ansiedade se tornava maior a cada minuto que passava. A sirene indicando o início do torneio soou, aguda, e as escolas se alinharam apropriadamente. A Hyuuga queria estar competindo, mas tentou se acalmar, deixando suas energias para o dia seguinte. No fim, não tinha pelo que se preocupar – a Academia passou com louvor na categoria revezamento, e conseguiram o melhor tempo possível. Em meio as comemorações, Hinata conseguiu escutar as narrações que se esforçavam para acompanhar a rapidez com acontecimentos.
— Sim, senhoras e senhores! A Academia Canadense passa para as regionais, que acontecerão amanhã! Nenhuma surpresa, os nadadores da Academia são os mais esperados para a competição! Temos um time forte liderado por Nara Shikamaru, o treinador mais jovem a assumir! E uma equipe de primeiranistas notáveis. Seguem Nara, Shimura, Karatachi e Umino no revezamento de quatrocentos metros. Estrelam no individual Shiranui, Uzuki, Utatane, Otogakure e a Hyuuga, que bateu o último recorde regional e passou direto pelas eliminatórias! – neste momento, Hinata foi inundada por braços, e sorria largamente – Boa sorte para todos os competidores. Estaremos sendo transmitidos para todo o país no canal de esportes, não percam!
Hinata não conseguiu ouvir a última parte, ocupada pelos colegas, que celebravam a visibilidade do time. Nas arquibancadas, torcidas ensurdecedoras incentivavam a equipe, que se dividia entre celebrar e agradecer o apoio. A manhã passara rapidamente, e logo teriam de voltar ao hotel, quando as disputas da tarde acabassem, incluindo as líderes, o basquete e o judô. Perdida na multidão entre gritos e a pequena vitória, a morena sentia tanta felicidade que quaisquer resquícios de preocupações desapareceram de seu corpo. Naquele momento, Hinata conseguia ver a felicidade, palpável a sua frente, e sentia-se confiante – poderia dar cem voltas sem se cansar. Ganharia as regionais e levaria seu time até as nacionais.
Longe dali, um homem desligava a TV, outrora em canal pago regional. Se virou em sua cadeira monumental, buscando pelo interfone em sua mesa de escritório, que, embora milimetricamente arrumada, ainda era ocupada por centenas de relatórios e estatísticas. Apertou o botão principal, falando calmamente:
— Kanna? Mande chamar meu filho.
— Sim, senhor.
Não demorou até que o garoto entrasse pelas luxuosas portas duplas do escritório principal, no topo do prédio. Ele tinha as costas retas, vestidas elegantemente em um terno de linho, cuidadosamente projetado para ele. O cabelo, impecável, assim como seu olhar, que sustentava liderança e pacificidade. Quando se aproximou da mesa, o homem o fitou, analisando suas reações sempre íntegras.
— Acredito que também tenha acompanhado.
— Sim, senhor. – o garoto respondeu. Não tinha mais que dezoito anos, mas já parecia muito mais velho – Ela não disputou hoje, mas os olheiros estão atentos para sua performance amanhã.
— Perfeito. Eu não esperava que essa reviravolta acontecesse a esta altura do campeonato, mas, não podemos ignorar.
— Certamente, senhor.
— Está decidido. – o homem se levantou com toda sua imponência, abrindo a primeira gaveta e entregando um cartão para o filho – Agende seu voo para Kobe, e reserve o mesmo hotel. Você ficará até as nacionais. Veremos se ela realmente vale a pena.
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