Quimera
27 Beijo
Notas iniciais
— De qualquer forma o que eu realmente quero dizer é que seus olhos são os mais lindos que eu já vi.
Mesmo que só disputasse no dia seguinte, Naruto sentiu-se igualmente nervoso assistindo as classificatórias do sábado. Os torneios de equipes aconteciam nos ginásios leste e sul, e ele migrou de quadra para quadra, tentando acompanhar a maior parte dos eventos, durante todo o dia. Vibrou quando a divisão mirim da Academia também se classificou, assim como os times de luta livre, basquete, futebol e até mesmo as líderes de torcida conseguiram uma vaga. As chaves regionais estavam uma bagunça, e, honestamente, o garoto não entendeu porque correram tanto com os cronogramas naquele ano, mas, em partes, era bom para a ansiedade que o consumia. Naruto também conseguiu aparecer para ver Shikamaru e sua equipe ganharem no revezamento – claro que o amigo era o único motivo para o Namikaze acompanhar o torneio de natação.
Suas próprias lutas aconteceriam no período da tarde, após o almoço oferecido pela instituição que patrocinava os torneios, todavia Naruto sabia que ele – ou qualquer outro atleta – não conseguiria almoçar momentos antes da luta. Aquele seria seu segundo regional, mas conhecia a história de frustração de seus senpais. Precisava passar e ganhar as nacionais, se quisesse honrar a reputação da Academia. Pessoalmente, tinha motivos bem mais intensos para almejar o primeiro lugar – embora sua parede fosse cheia de medalhas, Naruto sabia que um troféu grande e brilhante chamaria atenção de Namikaze Minato, e, talvez, ele se orgulhasse.
O fim do ano letivo se aproximava, no entanto, os dias pareceriam mal passar. Desde as férias de verão, Naruto sentia-se exausto sempre que se deitava para dormir – era como uma batalha que nunca terminava. Não sabia se era contra sua própria consciência ou contra todos os outros. De qualquer maneira, ele só queria poder relaxar, de preferência, com certa garota ao seu lado.
Enquanto seus colegas de time gritavam e comemoravam a caminho do hotel em que ficariam hospedados pela noite, Naruto só conseguia olhar pela janela, ansioso, pensando se seu quarto e o de Hinata ficariam muito distantes um do outro. Sendo totalmente sincero consigo mesmo, a única coisa que conseguira pensar nos dias que antecederam as competições fora uma maneira eficiente e bem-sucedida de se aproximar da Hyuuga sem a assustar. Já havia dormido fora de casa inúmeras vezes, com ou sem seus times esportivos, mas podia apostar alguns milhares de ienes que aquela era a sua primeira vez. Os hotéis bancados pela Academia costumavam ser grandes e luxuosos, na medida certa. Provavelmente ficariam em duplas ou trios em cada quarto, e Sakura certamente acompanharia Hinata – como uma irritante guarda-costas –. O loiro precisava de um momento tranquilo com a morena, ou não teria evolução nenhuma.
Parecia besteira, mas ele precisou de muita coragem para admitir a si mesmo que estava a perigosos passos de se apaixonar seriamente por Hyuuga Hinata. – era o que ele pensava –. Naruto não tinha problemas quanto aos seus sentimentos – se orgulhava de ser bastante conciso quanto a isso –. Mas, quando precisava, efetivamente, agir de acordo com eles, a coisa simplesmente mudava de rumo. Não era a melhor pessoa para demonstrar carinho ou amor – ele sequer conseguia abraçar a própria avó, com quem convivia diariamente –. Era uma limitação pessoal, ainda mais se tratando de uma relação não-convencional como a que tinha com Hinata.
Com não-convencional, Naruto não se referia à deficiência da morena, porque aquilo certamente não afetava em nada – de fato, Hinata parecia enxergar melhor que determinadas pessoas, de uma maneira intensa e assustadora. A questão que preocupava o Namikaze era sua própria imagem e a que carregava junto de seu sobrenome. O segundo ano mal estava acabando, e ele sabia que tinha que sobreviver ao terror do ensino médio. Odiava admitir, mas, sem Shion, precisaria de muito mais que seu charme natural para sustentar a popularidade. Vencer as nacionais seria um bom passo, porém precisaria ser cuidadoso quanto as armadilhas e os boatos que a ex, com certeza, provocaria. O loiro não teria estruturas para travar uma guerra fria com a capitã das líderes de torcida, e as coisas pioravam quando Hinata entrava na história.
Naruto já tinha percebido como a simples menção de seu nome o tirava do sério. Ele não aguentaria que Shion a atacasse para atingi-lo, ao mesmo tempo que o relacionamento que, porventura, terão, não seria algo que ele poderia anunciar aos quatro ventos. Aquele era um lado obscuro dele, sabia, e tinha nojo disso, mas era realista – se assumisse estar com a Hyuuga, seria alvo de chacotas pelo resto da graduação. Na pior das hipóteses, Minato ficaria sabendo, e então sua vida se tornaria um inferno.
Pensar na sua popularidade era apenas metade do problema. Conhecendo o pai como conhecia, sabia que, se chegasse em seus ouvidos o envolvimento do filho com uma deficiente, ele certamente o obrigaria a se afastar dela. Àquela altura do campeonato, Naruto preferia mantê-la escondida e ser tachado de babaca do que ficar longe dela. Não eram escolhas nobres, mas a luta também não era justa.
Por enquanto, ele só queria um tempo para conversar com Hinata. Seu último encontro foi repleto de tensão palpável, e, se estivesse com sorte, conseguiria fazê-la confiar mais nele. Ignorando totalmente a existência de um terceiro elemento na relação – uma vez que ele realmente não existia –, Naruto estava confiante. Os quartos dos lutadores ficavam no quarto andar, e descobrira que os do time de basquete ficavam no mesmo corredor. Provavelmente os times de competição coletiva ficariam agrupados próximos uns aos outros, e ali estava sua chance de ouro.
O ônibus manobrou e estacionou na frente de um grande prédio. A entrada tinha uma fonte artificial, e caminhos de pedra que contornavam todo o quarteirão, levando a um jardim nos fundos. Naruto já se hospedara ali algumas vezes. Pegou suas bolsas e esperou a fila avançar, descendo no veículo e seguindo Sasuke e Kiba, que conversavam qualquer coisa. Outros ônibus também estacionavam, e os capitães organizavam seus times e esperavam pelas ordens dos professores que os acompanhavam para supervisão. O Namikaze agrupo visualmente seu próprio time, sem deixar de esquadrinhar o hall, procurando por Shikamaru. Gaara também estava por perto, conversando com Ino, e Naruto se aproximou.
— Vão ficar no nosso andar, Ino? – perguntou, como quem não queria nada, sem parecer suspeito. Era algo que Namikaze Naruto realmente perguntaria, e a loira mordeu a isca, pensando que ele estava organizando uma social para mais tarde.
— Estamos no terceiro. – respondeu, com um biquinho – Eu, a Ten e as meninas estamos no corredor do 301. A Sakura foi mais sortuda, ficou no 505. – bingo! – Acho que essa coisa de presidência estudantil dá certo, ela ficou com uma suíte. Eu queria uma suíte para descansar. – monologou, e Gaara engatou em uma conversa sobre banheiras, mas Naruto já tinha parado de escutar. Ele poderia até mesmo beijar a Yamanaka. Se afastou, exultante, entrando no prédio para cadastrar a própria equipe, mas o sorriso em seu rosto era mais que suspeito.
Em sua cabeça, começou a arquitetar um plano infalível para que pudesse escapar de seu próprio quarto e convidar a Hyuuga para uma volta. Levaria ela até os jardins, que eram de uma beleza avassaladora – e ela sentiria isso. A partir deste ponto, Naruto não conseguia pensar em uma continuação. O que dizer, o que fazer. Ele só queria ficar a sós com ela, tirar aquela máscara, ser quem realmente queria ser, com quem realmente queria estar.
Havia muitas pessoas da Academia naquele hotel. Talvez outras escolas também tivessem se hospedado, mas, para onde se virasse, os uniformes vermelho e preto se destacavam, as jaquetas do time e o logo emblemático estampado na altura dos olhos. Naruto organizou o time de luta, que contava com seis titulares e alguns reservas. Os primeiranistas – como era de se esperar – estavam maravilhados. Aquelas tinham sido, para muitos, sua primeira competição, e o Namikaze queria que eles sentissem o mesmo que ele sentiu em seu primeiro ano – a glória, a ansiedade, o desejo de continuar lutando e vencendo. Queria ser um bom capitão, ao menos isso. Obrigou-os a subir pelas escadas, com suas vozes reverberando pelos corredores vazios. Chegaram ao quarto andar, e o capitão cuidou para que todos se instalassem apropriadamente. Não encontrou Sasuke em meio a confusão, mas, quando se dispersaram, conseguiu enxergar os amigos nos primeiros quartos. Naruto carregou as próprias mochilas, sentindo o corpo tenso do dia todo. Queria um banho quente.
— Vocês sempre ficam com os melhores quartos. – escutou Gaara reclamando para Sasuke, na porta de seu quarto. Realmente, era um dos maiores, mas Naruto não acreditava que o fato de ser ele tinha alguma coisa a ver. Rindo em deboche, trombou com o ruivo, que o xingou, meio rindo – Maldito! Não sei porque sou seu amigo. – Naruto, de costas, abriu um sorriso afetado, lembrando-se de quando ele e Gaara brigaram, por algum motivo irrelevante o suficiente para que não se lembrasse. Depois disso, tornaram-se companheiros, como aconteceu com a maioria de seus amigos.
— Nenhum de nós sabe. – foi Sasuke quem completou, e Naruto o fitou, incrédulo, erguendo um dedo.
Ignorou as provocações e avaliou o quarto em cento e oitenta graus. Duas camas de casal, um banheiro e algumas cômodas. Um tapete macio, escrivaninha e janelas de correr, com cortinas escuras de aspecto caro. Abajures no canto, mas a iluminação também vinha de lâmpadas laterais e do pequeno lustre no teto. Era um quarto grande – mesmo para os dois garotos, com síndrome de reis –, e Naruto largou as bolsas no meio do cômodo, se jogando na cama da direita. O colchão afundou com seu corpo, e ele deixou um gemido satisfeito escapar. Estava mais cansado do que se lembrava, e o dia cheio de apreensão tensionava seus músculos. Não permaneceu muito tempo com os olhos fechados – Gaara e outros três colegas entraram, falando alto e dando risada. Naruto grunhiu.
— Você sabe que eles vão vir aqui depois do jantar. – Sasuke comentou, do seu lado, dobrando algumas de suas roupas. O Namikaze assentiu, melancólico – Se quiser dormir, aconselho que vá para o quarto do Shikamaru.
— Eu não vou dormir. – Naruto retrucou, sentando-se em um pulo – Mas vou precisar de cobertura quando estiverem todos aqui. – fitou o Uchiha com sua melhor expressão de pena, e encarou os olhos ônix estudando-o por alguns segundos. Sasuke, por fim, suspirou, e concordou.
— Se isso der certo algum dia, você vai me dever muito. – resmungou, entendiado, e Naruto se levantou, plantando um beijo molhado em seu rosto. O garoto soltou uma interjeição de nojo, e o loiro riu.
— Quando der certo – frisou – vou ser seu escravo para sempre. – Sasuke rolou os olhos.
Os outros não perceberam o pequeno diálogo. Kiba e Gaara discutiam sobre alguma coisa no batente da porta, e os demais integrantes da equipe também passavam na frente do quarto, bagunçando pelo corredor. Naruto permaneceu na cama, olhando para os amigos, com o pensamento longe. Não sabia porque estava se sentindo tão pensativo – talvez fosse a ansiedade. Não queria que ninguém o visse saindo, ou teria que responder perguntas embaraçosas. Sabia que podia contar com alguns daqueles caras – até mesmo Gaara tinha se mostrado fiel e discreto. Naruto sabia disso, mas era difícil convencer sua consciência.
Deixou os garotos e pegou uma muda de roupa, indo para o banheiro. Fechou a porta, encarando os ladrilhos brilhantes e o ambiente gelado. Deixou a toalha pendurava e se despiu, analisando a própria expressão no grande espelho acima da bancada, com sabonetes artesanais e aromatizantes. Seu cabelo estava espetado para todos os lados, e seus olhos pareciam desconfiados, sobre pesadas bolsas arroxeadas e uma careta. Tinha certeza que aquele vinco em sua testa logo se tornaria definitivo. Suspirou. Voltou-se para a ducha, ligando as duas torneiras para deixar a água o mais quente possível. O banheiro foi inundado de vapor, e, quando os jatos fortes atingiram suas costas, teve vontade de ficar sentado embaixo deles por horas. Se lavou com uma esponja nova e macia, e sabonete líquido de cheiro neutro. A sensação de estar limpo definitivamente lhe deixava de bom humor. Esfregou o cabelo com shampoo do hotel e enxaguou duas vezes.
Fechou o chuveiro a contragosto, depois do que pareceram muitos minutos. Se secou, vestindo calça de moletom e uma camiseta lisa. Teria pego roupas mais velhas e confortáveis, mas ainda teria que descer para jantar. Bagunçou o cabelo, sem perder muito tempo, e saiu do banheiro. O quarto estava vazio e silencioso. Provavelmente tinham descido para comer, e Naruto apreciou o momento de sossego que não teria mais tarde. Sentia-se sonolento, mas também alerta – ele não conseguia entender. Pensar em Hinata fazia seu coração disparar, e planejar sua rota de fuga, mais ainda. Queria que desse certo, pelo menos uma vez.
Sentou na beirada, puxando o celular. Não tinha nenhuma ligação, ou mensagem. Por um momento, quis ligar para casa. Falar com sua mãe, ou com Nagato – eles saberiam o que dizer. Ainda não tinha conversado sobre a situação, mas não precisava dizer todos os detalhes. Só queria conversar. Seu peito parecia explodir, e, de qualquer maneira, sabia que tinha que ser aquela noite.
Desistiu. Largou o aparelho sobre o travesseiro e pegou seu cartão de acesso. O corredor tampouco tinha alunos, e, com preguiça, desceu pelo elevador até o hall, onde estava sendo servido o jantar. Se lembrava que as massas eram realmente gostosas. Animou-se, e, no primeiro lugar, trombou com algumas garotas de outra escola. Sorriu, galanteador, apenas porque não podia evitar, mas, antes que pudesse ouvir os risinhos, seus olhos captaram o cabelo exótico de Sakura, e, sem esperar, cortou caminho entre as filas até alcançar a amiga. Como esperado, atrás da garota estava a Hyuuga, distraída conversando com outra garota.
— Olá, garotas. – cumprimentou com sua melhor voz, e Sakura se virou, assustada, com o rosto indiferente. Naruto lutou para não virar todo o corpo, mas aumentou o sorriso quando viu, de soslaio, a morena encolher os olhos e corar o rosto.
— Até que demorou. – a Haruno zombou, mas Naruto deu de ombros, com a mão nos bolsos. A rosada se divertia ao provocá-lo – O que está fazendo aqui? Estava com saudades de mim?
— Com certeza sim. – rolou os olhos. O salão estava cheio, e pequenos grupos de conversa preenchiam o cômodo – Estou convenientemente aproveitando nossa amizade para jantar mais rápido. – as garotas estavam próximas do primeiro aparador. Sakura bufou, e Naruto viu Hinata rir, disfarçadamente. Sentiu seu peito aquecer.
— Você é imprestável. – a rosada virou-se para frente, ignorando-o, mas não o enxotou da fila. Naruto entrou atrás da amiga, ficando quase ao lado da Hyuuga, que permanecia parada, com o rosto baixo.
— Oi. – sussurrou, como quem não queria nada. Hinata virou-se para ele, contendo um sorriso.
— Oi. – retribuiu, com voz de soprano. Naruto tombou o corpo, mantendo os olhos para cima, mas suas mãos suavam – Não esperava te encontrar aqui.
— Queria conversar com você. – todo o nervosismo valia a pena quando Naruto vislumbrava aquele brilho envergonhado no rosto dela – Vamos dar uma volta depois? – ele esperava não tomar um fora.
— Uma volta? – ela parecia estar se divertindo com aquela conversa em múrmuros.
— Sim. Posso te mostrar os jardins. – complementou – O pessoal vai passar no meu quarto mais tarde, eu escapo e vou para o seu. – em situações normais, Naruto apenas piscaria e daria um sorriso mulherengo, mas era infinitamente mais difícil quando só podia contar com a própria lábia. Para sua sorte – ou não – Hinata sorria para seus pés. Quase não podia vê-la, pela sua altura, e por todas as pessoas que passavam por eles, mas de jeito nenhum ele perderia aquela expressão em seu rosto.
— Bom, acho que pode ser divertido. – o Namikaze quase desfaleceu de alívio – Vou ficar esperando. – em um ato de coragem Hinata ergueu o rosto, parecendo fitá-lo diretamente nos olhos. Naruto sorriu, dando um passo para frente conforme a fila andava. Em seguida, alguns de seus amigos chegaram e o distraíram, mas tudo que ele esperava era pelas próximas horas.
Mesmo com fome, pegou pouca coisa no self-service. Seu estômago parecia dar nós e voltas. Ele se sentou com Kiba e os outros da equipe, no meio da algazarra. Bastaram algumas garfadas para que estivesse satisfeito, e esperou que os amigos terminassem de comer para irem falar com os outros. Os professores fariam vista grossa para a social que sempre acontecia antes das competições, e todos estavam convidados. O loiro escapou das líderes de torcida ao levar a própria bandeja, e voltou para o quarto andar com Gaara.
Era pouco mais de nove e meia, e, apesar do céu escuro e pesado, o tempo estava fresco. Não se conseguia ver muitas estrelas daquele lado da cidade. Naruto mal teve tempo para chegar no próprio quarto e guardar suas coisas antes que as primeiras pessoas chegassem. Traziam sobremesas e garrafas escondidas em sacos de papel. Cumprimentou Ino e Tenten e mais algumas dezenas de estudantes. Alguém colocara música no celular, e logo todo o quarto estava abafado por conversas altas e risadas. Em outros tempos, Naruto gostaria de estar no meio da confusão, entrosando com todo mundo e virando alguns shots, mas, assim que teve oportunidade, escorregou pela tangente, escapando pelo corredor sem ser notado. Sabia que Sasuke ficara chamando a atenção por alguns minutos – se lembraria de agradecer o amigo mais tarde.
Todo o quarto andar estava barulhento, mas, conforme subia as escadas, ficava mais silencioso, até que conseguiu ouvir os próprios passos. Estava claro, iluminado por lâmpadas acopladas nas paredes, e vasos ornamentais deixavam o ambiente um tanto requintado. Naruto procurou pelo 505, que ficava quase no fim do corredor, e, na frente da porta, deu duas batidas suaves. Esfregou os dedos, os olhos tentando associar a maior quantidade de informações que podia. As cores da parede, os detalhes dourados, o piso madeirado. Distraído, não tinha chegado a se virar quando ouviu o clique da fechadura, e, tão rápido que seu pescoço estralou, ele se voltou para a porta.
Não importava quantas vezes ele a visse, sempre pareceria como a primeira – aqueles traços pareciam surreais demais em sua mente. Hinata trazia seu bastão, e usava um vestido branco e um casaco costurado. Foram poucas as vezes que ele a vira sem o uniforme, e sua pele refletia contra a luz, contrastando com a delicadeza da peça. O tronco desnudo revelava um colo farto, e o Namikaze agradeceu por ela não poder ver seu rosto vermelho. O cabelo descia por suas costas, e a franja tinha alguns fios fora do lugar. Seus lábios estavam entreabertos, como se ela estivesse sem fôlego – e, talvez, só talvez, seu coração estivesse batendo tão rápido quanto o de Naruto.
— V-você está linda. – gaguejou, achando que aquela seria uma boa oportunidade para elogiá-la. Hinata sorriu, encabulada, e Naruto não conseguia lidar com aquelas bochechas coradas.
— Você está sendo gentil. – ele pensou em discutir, mas ela foi mais rápida – A Sakura disse que ia passar no seu quarto, mas logo voltava. – o loiro se apressou e prostrou-se ao seu lado.
— Então nós temos que ser rápidos. – brincou, pegando em sua mão. Uma descarga percorreu seus dedos, arrepiando sua pele.
Com os dedos entrelaçados, parecia normal que se tocassem daquela maneira. Nada disseram, a não ser quando Naruto a orientava sobre os degraus. Desceram pelo elevador, saindo pelos fundos do hotel. Os caminhos de pedra eram sinuosos e irregulares, e tomaram cuidado para não tropeçarem. Mesmo escuro, havia algumas lâmpadas azuis, e o chafariz emitia luzes coloridas. Naruto gostava daquele lugar – a maneira que os bonsais artificiais contrastavam próximos aos bancos de concreto. Trepadeiras, cerejeiras, árvores frutíferas montavam um jardim pequeno, mas bem cuidado. Apesar de querer que Hinata pudesse enxergar aquele lugar, quando fitava seu rosto, a maneira que suas íris brilhavam o faziam achar que ela conseguia, de fato, ver.
Se sentaram em um dos bancos mais afastados, e a brisa era gelada. Naruto estava verdadeiramente nervoso naquele momento. Mesmo com suas mãos se tocando, ele não sabia como agir – e aquilo era algo novo. Tinha que manejar bem a situação. Era a primeira vez em muito tempo que ficavam sozinhos, e aquela era uma chance em um milhão. Contra a luz da lua e das lâmpadas, Naruto admirava o rosto delicado de Hinata. Seus olhos estavam focados na frente, a boca levemente curvada, quase como se risse de uma piada interna. As íris peroladas, translúcidas, eram únicas.
— Por que você não usa óculos escuros? – Naruto deixou escapar antes que pudesse sequer pensar no que estava dizendo. Hinata virou-se para ele, erguendo uma sobrancelha, e o loiro se xingou mentalmente – Desculpe, foi ofensivo, saiu sem querer.
— Não, está tudo bem. – a Hyuuga garantiu – É que eu não esperava que você me perguntasse isso. – Naruto grunhiu, se desculpando, e Hinata riu baixo – Não tem um motivo específico, eu acho. Quando criança, minha mãe não me deixava usar, porque incomodava, e eu me acostumei. Eu sei que as pessoas olham torto, porque meus olhos são estranhos, mas eu não ligo muito. A claridade não incomoda também.
— Eu não acho seus olhos estranhos. – o Namikaze se apressou – Acho eles lindos.
A garota enrubesceu, baixando o rosto, e Naruto quis erguê-lo, para que continuasse admirando-a durante todo o tempo. Ela era apenas linda demais para ser verdade. O garoto não conseguia acreditar que um sentimento tão forte e intenso pudesse nascer dentro dele, mas, naquele momento, ele não conseguia respirar. Sua garganta estava fechada, e, por mais que tivesse imaginado mil diálogos diferentes, nada saía. As palavras tinham se perdido, porque ele só conseguia continuar a encará-la, decifrá-la, beber suas reações, por mínimas que fossem – e aquilo era assustador.
— O que está acontecendo? – Hinata quebrou o silêncio, com a voz baixa, mesmo que estivessem sozinhos. Deixou sua mão apoiada contra a de Naruto, brincando com seus dedos, mas parecia insegura.
— Como assim?
— Nós. O que está acontecendo conosco. Eu sinto... eu sinto como se fosse chorar a qualquer momento. Eu nunca sei o que dizer ou o que pensar, e eu não quero me iludir e pensar que você, um dia, poderá sentir algo por alguém como eu. – Naruto ficou boquiaberto, sem reação. Não estava esperando por uma pergunta tão direta e tão dolorosa — Mas, quando estamos juntos, você é sempre tão engraçado e tão atencioso, parece que meu coração vai sair pela boca. – ela riu, sem graça – Mas, um dia você está aqui, e no outro não. Você foge, e disfarça, mas também se aproxima em momentos que eu não estou preparada. Eu não espero que, de repente, você comece a andar de mãos dadas comigo pelo corredor, nem nada disso. É que eu preciso saber, porque você está começando a interferir no meu humor mais do que eu gostaria, e eu não sei o que fazer.
Sua voz tomou força no fim da frase, mesmo que parecesse lamentosa. Seu rosto continuava baixo, e, mesmo no escuro, parecia ruidosamente vermelho. É claro que ela estava com vergonha – foram poucas as vezes que Naruto a ouvira falar tanto, e com tanta convicção. Parecia o desabafo de alguém que ficara muito tempo em silêncio, mas, de alguma maneira, o Namikaze sentia seu coração palpitar muito rápido.
Ele nunca pensou que Hinata pudesse se sentir da maneira que ele se sentia.
Era difícil dizer o que ela estava sentindo, embora seu rosto fosse bastante expressivo, na maioria das vezes Naruto era apenas um covarde. Todas as provocações, as insinuações, as perguntas indiscretas, os passos antecipados – ele era um garoto descobrindo o mundo pela primeira vez –. Era mais fácil quando se envolvia fisicamente com as garotas, porque dependia de seus instintos. Não havia conversa, descoberta ou o medo constante. Com Hinata, cada palavra parecia ter um peso diferente, e ele tinha tanto receio de dizer a coisa errada.
Mas ele sentia. Naruto sentia. Ele sentia o peito apertar quando a via passar e não podia pegar em sua mão. Ele sentia as pernas bambas quando estavam próximos e ele identificava o cheio de lavanda invadindo seu nariz. Ele sentia quando pensava nela antes de dormir, e se perguntava o que era aquele sentimento. Ele sentia quando tinha que desmentir ou fazer uma piada sem graça para que as pessoas não desconfiassem de nada. Em outros tempos, em outras situações, ele seria um aluno normal, com quem ela conversaria eventualmente – eles sairiam e se apaixonariam como tinha de ser. E ninguém teria nada com isso. Passariam o dia juntos, estudando, se descobrindo, e Hiromi e Kushina seriam amigas e falariam sobre como seus filhos ficaram bem juntos.
Mas ele era Namikaze Naruto, e não era um aluno normal. De fato, daquela realidade, apenas um dos fatores parecia se repetir inevitavelmente.
Ele se apaixonou.
Aquilo era paixão? Poderia ser. Naruto só não tinha experiência suficiente para dizer como se sentia. Mas ele tinha plena consciência da onde estava, e com quem estava. Seus dedos acariciavam exatamente a mão de quem deveria.
Muito tempo pareceu ter passado em silêncio, e Hinata se arrependera amargamente de ter falado. Mas, então, Naruto se moveu, aproximando-se mais ainda da garota, enquanto apertava sua mão entre seus dedos, e alcançava seu rosto, respirando pesadamente. A Hyuuga não se moveu, sentindo lufadas quentes, e seu âmago arfava.
— Eu não sou a melhor pessoa com quem você poderia se envolver. – Naruto procurava dizer baixa e pausadamente, mantendo o aspecto natural da voz – Eu tenho muitos problemas familiares, e outros problemas complicados demais para te envolver. Eu cometi erros, muitos deles, porque eu sou medroso. Eu sou covarde, e sou só um garoto. Eu não sei o que eu estou fazendo, e eu sei que tenho que agir como um babaca. Eu sei que você merece o melhor que existe nesse mundo, e merece alguém que te trate como a princesa que você é. – descansou uma das mãos em sua mandíbula, cobrindo quase toda sua lateral, do queixo a orelha – Mas eu nunca, nunca, vou mentir sobre como eu me sinto. Eu acho que é mais improvável alguém como você sentir algo por alguém como eu. – se atreveu a rir – Mas eu estou aqui agora, e não sou bom com essa coisa de sentimentos. Eu estou nervoso para caralho agora, e parece que eu vou vomitar, porque você me deixa nervoso como um pré-adolescente. E, bem, se não for o suficiente, acho que vou ter que dizer que você é a garota mais linda que eu já tive o prazer de conhecer.
Ali estava.
Naruto poderia passar a vida admirando a maneira que o rosto dela se convertia em uma expressão de puro deleite. Como o rubor se espalhava por seu pescoço, e como suas maçãs se acentuavam quando seus olhos se arregalavam. Sua testa vincada, e a boca – ah, aquela boca – se entreabria, os lábios úmidos e brilhantes, tão rosas, implorando para serem beijados. Hinata era como um botão de rosa, que se abria quando a tratavam com gentileza. Se tornava a mais bela flor. Naruto estava ciente de cada um de seus sentidos naquele momento. Sua pele, sensitiva para a maneira que ela procurava por seus dedos. Seu nariz, inalando seu perfume doce, e o suro que escorria de seu próprio rosto. Seus olhos, ele nem precisava dizer – olhava para a paisagem mais bonita que já vira. Estava silêncio, mas ele não tinha medo da resposta de Hinata.
Naquele momento, naquele pequeno momento, o garoto não sentia medo de nada. Das pessoas, das reações, da própria família, dos amigos. Do futuro, do destino. Em algum outro instante, ele se recordaria daquilo, e se lembraria de todas as vezes em que dissera algo que não devia, e de todos os olhares tortos, e todos os conceitos que derrubara. Mas, enquanto não chegava, ele se contentava em ficar contemplando, maravilhado, aquela garota que estava a sua frente, iluminada pela luz da lua.
— Eu acho que... – Hinata começou a falar, hesitante, e Naruto esperou. Ela desprendeu sua mão do aperto, o fazendo estranhar, principalmente quando ergueu o braço, estendendo-o com cuidado, como se procurasse algo no ar – Eu acho que você pode me beijar agora, Naruto.
Foi o suficiente.
Com a garganta fechada de emoção – o quão patético aquilo parecia? –, o loiro abaixou-se o bastante para que a mão suspensa de Hinata tocasse sua face. Ela estendeu a palma, acariciando o local, e ele finalizou a distância que existia entre seus corpos, abraçando-a pela cintura. Com a outra mão, apoiou seu queixo, mantendo-o erguido enquanto aproximava seu próprio rosto. Seus olhos gravaram cada detalhe, abertos até que seus narizes se encostassem. Ele não respirava. Então, fechou as pálpebras, finalmente tocando seus lábios.
Naruto já esperava pela corrente elétrica que percorreria cada célula de seu corpo, mas, ainda assim, foi indescritível. O gosto adocicado continuava ali, como gloss, ou protetor labial. Eram macios, molhados. Sua mão escorregou pelo braço da garota, permanecendo pouco abaixo de sua costela. Ela mantinha a palma contra o rosto, próximo a sua mandíbula, e parecia não saber o que fazer. Naruto achou sua inexperiência adorável.
Esperou até que ela se sentisse confortável o suficiente para entreabrir a boca. Vacilante, ela fez o mesmo, e Naruto entendeu como um consentimento. Cuidadoso, moveu sua língua, tocando os lábios dela, e a sentiu estremecer em seu abraço. Sorriu mentalmente. Cada novo contato era um choque, inebriando-o. Em um movimento ousado, a língua de Hinata tocou a sua própria, e ele começaram um beijo desordenado. Era perceptível que a garota estava nervosa, no entanto, relaxou depois de alguns segundos, deixando que o loiro guiasse o beijo. Moveu sua mão até o pescoço dele, abraçando-o e emaranhando os dedos entre os fios rebeldes de sua nuca.
O Namikaze não conseguia se lembrar de uma só vez em que se sentira daquela maneira. Já tinha beijado inúmeras garotas, porém, é como se aquela fosse a primeira vez. Estava nervoso, e seu corpo todo pegava fogo apenas com a maneira que Hinata retribuía. Ela se entregava, confiando nele, deixando que ele conhecesse um novo lado seu. Não sabia se fora seu primeiro, mas o pensamento o deixou feliz. Quando o ar começou a faltar, Naruto quebrou o contato, para que Hinata pudesse respirar – ele mesmo sentia como se seu pulmão fosse explodir. Ela não se afastou, como ele esperava que fizesse. Em vez disso, colou suas testas, apoiando-se contra ele, de olhos fechados. Ofegava, com o rosto vermelho, e seu braço ainda estava suspenso, abraçando-o. Naruto desejou que eles nunca mais saíssem daquela posição.
— Eu vou me livrar dessas amarras, e eu não vou mais te magoar. – sussurrou, e Hinata assentiu minimamente, chacoalhando ambos. Ela se inclinou, beijando o canto de sua boca, e Naruto apertou sua cintura, deixando que ela o beijasse.
Aquela era sua promessa.
Fale com o autor