Quimera

28 Felicidade


Notas iniciais
CHEGUEI! Olá meus amados! Primeiro, desculpa pela demora, em meio a tantas coisas, as vezes perco a criatividade e a disposição, mas é só começar a escrever que volta tudo de uma vez! Espero que gostem, e peço desculpas também pelo tamanho dos capítulos. Mesmo sendo uma marca registrada minha, caso sintam que está sendo cansativo, me deixem saber, e eu diminuo o tamanho deles! A recepção dessa história é incrível, chegamos aos CEM ACOMPANHAMENTOS! Isso é surreal, parece um sonho pra mim. Obrigada. Apenas obrigada. Estou amando escrever, principalmente neste ponto, onde nossos pombinhos estão se acertando! A fic vai ficar maior do que eu esperava, mas não me arrependo de nada, estou amando o resultado, de verdade, é meu orgulho. Especialmente, gostaria de dedicar esse capítulo ao Sr. Balthazar, que deixou uma recomendação linda e me emocionou demais! Muito obrigada, mesmo. Por fim, vou tentar não demorar tanto. Deem uma olhada de Heroína, minha outra fic! Um beijão ♥

— Aqueles olhos verdadeiros, puros e honestos demais para disfarçar a alma doce que brilhava através deles.

Hinata poderia ter morrido naquele exato momento, e sequer perceberia – ela já estava no céu.

Os últimos dias só conseguiam ser descritos como surreais. A pressão dos treinos e preparação para as regionais submergiram a Academia em uma verdadeira rede de agitação inconstante, e para a garota não foi diferente – é claro que havia um pequeno fator que potencializava cada uma de suas reações. Todavia, se Hinata ao menos soubesse o que estava para acontecer – por Kami – ela aceitaria passar por tudo outra vez.

Depois do encontro convenientemente planejado com Naruto no dia anterior, sua cabeça se afundara em pensamentos que a mantiveram acordada a noite toda, mantendo-a alerta, seu corpo conseguia reproduzir cada pequeno toque, sua pele esquentava – e Hinata se via, novamente, irritada. Quando ela estava prestes a superá-lo, quando ela finalmente conseguia organizar suas ideias, ele aparecia, com seu charme, sua voz aveludada, suas mãos macias e aquelas palavras melodiosas, embalando-a pateticamente até que estivesse, novamente, encovada naquela fantasia dramática. E Hinata odiava a maneira que ficava suspirando, tocada por cada palavra que ele se dignava a dizer para ela. Estava claro que eles eram de estratosferas diferentes, em todos os aspectos possíveis, e se relacionaram graças ao que só poderia ser chamado de intervenção divina. Ela sabia disso, se convencia diariamente disso, mas era só ele aparecer para que sua cabeça superreagisse tão estupidamente.

Hinata apenas não gostava da maneira que ela parecia apaixonada por Naruto.

Quer dizer, ela mal conhecia o garoto – e suas primeiras impressões não foram das melhores, nem mesmo as segundas e as terceiras –. A maior parte do contato que tiveram ao longo do ano foi por conta dos amigos em comum, e, mesmo assim, mesmo com todo o receio, mesmo com todas as barreiras, pareceu inevitável que ela se rendesse àquele tom macio. Era como se todas as fofocas de corredores não passassem de comentários maldosos sobre uma pessoa que não existia. Quando estavam juntos, Naruto se transformava na pessoa mais doce, engraçada e afetuosa que ela já conhecera. Exercia um fascínio hipnotizante para ela, e falava tão abertamente – com ele, Hinata sentia que podia enxergar o mundo todo.

Aos poucos, ela se viu esperando ansiosamente pelas conversas que teriam, pelos esbarrões que dariam ou pelos momentos que dividiriam. E aquilo era perigoso. Honestamente, Hinata não era idiota. Ela sabia bem o que implicava estar caída por Namikaze Naruto – assim como metade da população feminina daquela escola –. Mas era simplesmente inevitável, afinal. No momento em que se viu ignorando os alertas veementes de Sakura e se desprendendo da intimidação velada da capitã das líderes de torcida, parecia tarde demais para ela – e Hinata sequer se importava. De certo modo, estava confortável alimentando suas próprias esperanças inúteis, satisfazendo-se com as migalhas de atenção que pareciam sempre tão completas e satisfatórias.

Incontestavelmente, se ela não esperava pelo encontro nos muros, a pequena conversa na fila do jantar poderia muito bem ser um sonho. Durante todo o dia, foi capaz de se distrair com as competições, apoiando sua própria equipe e, quando anunciada as classificações, as comemorações a seguiram pelos demais ginásios e disputas. Hinata não entendeu grande parte do que estava acontecendo, sendo guiada por seus sentidos afetados pelo barulho e os alto-falantes. Agradeceu por estar sendo guiado por seus colegas, e não conseguiu falar com Sakura ou com as amigas até o anoitecer. No ônibus, a atmosfera do time foi algo mágico – Hinata não conseguia se lembrar a última vez que seu estômago doera tanto de rir –.

Chegaram no hotel em que ficariam hospedados, e, mesmo que não pudesse ver, era como se fosse um lugar elegante demais para ela. Ouvia uma fonte, e tilintar de portas se abrindo e fechando. Vozes eufóricas de todas as equipes juntas no saguão – é claro que Hinata evitou pensar que Naruto estaria em algum lugar próximo a ela, apenas para não aumentar sua já grande ansiedade –. Sakura a encontrou, puxando-a pelo braço e relatando detalhadamente todo seu dia, correndo de um lado a outro com suas pranchetas e sua tag de identificação. Hinata sorriu e ouviu atentamente a maneira que a Haruno parecia maravilhada e orgulhosa de si mesma. Ela contou que as duas ficariam em uma suíte – uma suíte! – no quinto andar, e subiram pelo elevador com algumas outras pessoas. Era tudo novo, e até andar parecia merecer concentração redobrada. Sakura a mostrou, atentamente, cada canto do quarto, levando-a para a cama, a janela e o banheiro – que era grande como sua casa toda, mas a essa altura Hinata já estava, de fato, acostumada com os luxos proporcionados por estudar na Academia –.

Um mês tinha se passado em um dia. A adrenalina e a euforia mantinham seu corpo alerta, mas, quando Sakura insistiu para tomar um banho de banheira, Hinata quase dormiu ali mesmo. Sua cabeça abandonou todos os pensamentos, e era como se, depois de tanto tempo, ela pudesse finalmente descansar. Seu cansaço foi vencido unicamente pela fome, e ela saiu, sentindo-se mais leve e com um humor infinitamente melhor, se fosse possível. Desceram para o restaurante, com a barriga implorando para provar todos aqueles cheiros que invadiam seu nariz.

Entretanto, quando ela ouviu aquela voz, não sabia dizer se seu estômago se contorcia de fome ou de nervosismo.

Parecia vergonhosamente óbvio que ela diria sim para qualquer proposta que ele lhe fizesse, afinal. Não ligava para o que falariam sobre ela, porém se preocupava se alguém visse Naruto em sua companhia. Hinata sabia das suas motivações, pelo que ele se empenhava, e não seria ela a estragar tudo. Mesmo assim, no instante em que ele propôs saírem para os jardins, não houve um só devaneio que fosse contrário. E, nas horas que a separavam daquele encontro, Hinata não conseguia parar quieta. Disfarçou a súbita falta de apetite enchendo o prato de verduras, e mordiscou algumas o suficiente para que Sakura se distraísse. Voltaram para o quarto, e, enquanto pensava em uma desculpa plausível para enganar a amiga sem que se sentisse culpada depois, a Haruno saiu com Ino e voltou, dizendo que iria para o quarto do time de judô por insistência da loira, mas logo voltava. Era a conveniência perfeita – quase perfeita demais. Hinata não contava com aquela sorte no dia a dia, e esperava que, a qualquer momento, as coisas começassem a dar errado.

Desejou que pudesse enxergar para poder se vestir apropriadamente, no entanto, tudo que pode fazer foi procurar por um vestido que guardara oportunamente na mala. Era de algodão, com tiras grossas nos ombros e saia reta. Sentiu-se desnuda, e pegou seu casaco. Penteou o cabelo no banheiro, mas a brisa que entrava pela janela bagunçou sua franja. Andou de um lado a outro, fazendo coisas pela metade, irrequieta, e, quando ouviu as batidas na porta, correu, tropeçando, para atender. Seu coração batia forte, audivelmente, e ela se envergonhou. Ficou imaginando se ele estaria tão humilhantemente ansioso – mas foi só sentir o calor daquele mão se entrelaçando sobre a sua que tudo desapareceu.

Conforme andavam, o clima mudava – o ambiente se tornou mais gelado, e mais escuro. Hinata não sentia medo, enquanto segurava-se em Naruto, que a guiava corredores abaixo. Andavam pelo que pareceu alguns metros, até que a garota afundou seus pés em chão fofo, supondo ser grama. Os orvalhos molharam a ponto de seu dedão, e ela procurou pelos blocos de concreto, se perguntando onde estariam indo. A atmosfera mudara – era reconfortante, suave. Em sua imaginação, viu pontos luminosos e sombras de árvores grandiosas. E estava quente, morno como um abraço.

Sentaram-se, e Hinata agradeceu por não precisar mais controlar as pernas trêmulas. Tudo tremia – mãos, ombros e pés. E mais alguns órgãos, revirando-se. Não sabia o que fazer, ou o que dizer – até que disse demais, claro. Ela tinha que se deixar falar mais que a boca. Quando Naruto emudeceu por mais que alguns segundos, Hinata cogitou se levantar e ir embora no mesmo momento. A vergonha tomava conta da sensação de conforto que sentira outrora, e as palavras rudes e diretas se repetiam em seus ouvidos, fazendo-a com que se arrependesse amargamente logo após tê-las dito.

Mas, Kami, quem imaginaria? Naruto apenas continuava a surpreendê-la de novo, e de novo.

De repente, não se tratava mais sobre ela – sobre como se sentia ou o que pensava. Parecia muito mais simples, apesar de contraditório, quando se tratava sobre eles. Eram dois, um par, um casal. Cada um com sua bagagem, com seus problemas, seus receios, suas amarras. Mas, então, era tudo sobre eles, e era tudo tão simples. Por um momento, um instante ínfimo, nada mais importava, a não ser eles, juntos. E a maneira que os lábios de Naruto eram macios sobre os dela.

A cada nova vez que se afastavam, Hinata se sentia mais atordoada. Aquele fora, oficialmente, seu primeiro beijo, e, apesar de não ser muita – nenhuma – experiência, tinha a impressão que Naruto sabia bem o que fazer. Insegura, se deixava ser guiada pelo garoto, que ditava o ritmo, a intensidade e até mesmo a maneira que ela abraçava sua nuca. Mesmo assim, ele fazia com que se sentisse confortável e corajosa, deixando que arriscasse um movimento mais ousado ou mudasse de posição. Não fazia muita diferença, apesar de tudo – suas bocas se encaixavam tão perfeitamente que só poderia ser descrito como clichê.

Hinata nunca tinha sentido que era digna de ser amada. Ela sabia que sua mãe a amava, que seus amigos e vizinhos a amavam, mas era difícil desenvolver autoestima quando não podia conhecer a si mesma. Supunha, superficialmente, como seriam suas próprias características, porém não o suficiente. Cresceu e ouviu as histórias românticas contadas ao seu redor, se convencendo, com o tempo, que apenas não era atraente. Não podia sentir falta do que nunca tivera – e estava tudo bem. Mas, então, veio Menma, despertando em si, pela primeira vez, sentimentos verdadeiros de mulher. O coração acelerado, a ansiedade súbita, o desejo de ser notada. E, depois, veio Naruto, história contada de outros livros, de outra realidade, tomando, pouco a pouco, a atenção de Hinata para ele. Era claro que ela não daria importância – soava como uma piada a simples suposição de que, um dia, ela e Namikaze Naruto pudessem se relacionar em qualquer instância.

E talvez, só talvez, o destino fosse uma grande chacota – enquanto Naruto a beijava, Hinata sentia-se a garota mais desejada, sentindo as mãos firmes contra suas costas, com seus dedos afundando contra sua pele como se realmente quisessem tomá-la como dele.

Uma mordida discreta em seu lábio inferior quebrou seus pensamentos, fazendo com que sua garganta soltasse, involuntariamente, um resmungo constrangedor – aquilo era um gemido? Céus, estava perdendo a cabeça! Mas era tão viciante. Era doce, e amargo, e macio, e áspero, e úmido. Sua condição fazia com que fosse mais perceptiva a outros sentidos e sensações, mas era realmente difícil pensar quando sentia repuxões no estômago cada vez que suas línguas se tocavam. Hinata poderia beijá-lo para sempre. Não se importava com a vida ao seu redor, ou sequer em respirar, e a falta de oxigenização apenas potencializava o toque em sua cintura.

Mas, novamente, cedo demais, Naruto se afastou. Hinata ofegou pesadamente, com os pulmões queimando – e alguns outros órgãos em fogo também –. Não sabia dizer se estava acontecendo, ou era apenas um sonho lúcido demais. Se fosse real, o garoto se afastaria, a deixaria sozinha, como tantas outras vezes. Ele não continuaria abraçando-a junto a seu corpo, ou estaria tão arfante quanto ela própria, descansando sua cabeça apoiada contra sua testa – exatamente como estava naquele momento. Hinata duvidava que conseguiria criar uma fantasia tão real, mas como acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo? Coisas como aquela apenas não funcionavam com garotas como ela.

— Não faz bem para a minha sanidade ficar sonhando assim. – comentou, sussurrando, como medo de quebrar aquela bolha frágil de êxtase. Naruto riu, uma risada pura e clara.

— Você acha que é um sonho? – ele perguntou, provocativo, e Hinata sentiu um dedo percorrer atrás de sua orelha. Suspirou, de olhos fechados, mesmo que não fosse necessário.

— Bem, é impossível que eu esteja mesmo aqui, com você. – frisou a última parte, sem deslaçar as mãos do pescoço. A respiração dele batia contra seu rosto, tão perto que estava.

— É mesmo? – ele soava como se divertisse muito. Ventava, uma brisa gelada da noite, mas Hinata estava com calor – Me conte mais – um beijo em sua bochecha – sobre esse – outro beijo – sonho. – mais um beijo. Foram rápidos, mas fizeram Hinata corar, envergonhada. Não estava acostumada com aquilo. Não estava acostumada com nada daquilo, mas não sabia explicar porque seu coração batia tão forte.

— É um onde eu, eu, descubro que o popular e inestimável rei da escola é o rei dos beijos. – resolveu entrar na brincadeira – É um ótimo roteiro de filme.

— Rei dos beijos? – mais uma risada, e Hinata descobriu que faria tudo para ouvi-la de novo – Agora eu estou me achando. Você está criando um monstro de ego. – foi a vez da Hyuuga rir baixinho, concordando – Mas está acontecendo uma injustiça por aqui.

— É? Por quê?

— É um pecado que você não possa provar o próprio beijo. – a voz respondeu no pé de seu ouvido, arrepiando toda sua coluna. Hinata apertou os dedos, ainda depositados na nuca do garoto, e mordeu o lábio.

— Não precisa mentir para me agradar. – desconversou – Eu nem tenho experiência. – admitiu, envergonhada.

— Então você é uma máquina de talentos natos. – ele respondeu, com uma pontada suspeita de presunção – Não preciso mentir, já disse. Eu acho que nunca me senti desse jeito. – confidenciou – Não vou deixar escapar tão fácil.

Hinata não respondeu, porque sabia como ele se sentia – ela sentia o mesmo. Não conhecia aquele sentimento, mas queria muito descobrir. Aos poucos. Aquela fantasia, porém, se esfarelou, escorrendo como areia, quando a garota ouviu o barulho que vinha do quarto andar do prédio. Naruto também devia ter ouvido, porque suspirou baixo.

— Você precisa voltar. – não era uma pergunta. Hinata estava triste, sim, mas não era algo que não estivesse esperando.

— Não quero voltar. – resmungou, como uma criança fazendo manha, e a Hyuuga riu. Em um ato de coragem, ela moveu sua mão contra o rosto de Naruto, deslizando os dedos levemente, sentindo a pele, como da primeira vez que o fez. Os traços continuavam firmes como outrora, marcados pelo que parecia ser um sorriso. Hinata acompanhou. Parou os dedos perto de seu queixo.

— Eu tenho que descansar, de qualquer maneira. Sakura deve estar louca. Eu compito amanhã. Nós dois, inclusive. – o lembrou, já sentindo o nervosismo voltar.

— É mesmo. – Naruto suspirou, aceitando – Tudo bem. Eu vou. E você vai. Nós dois vamos vencer, e vamos para os nacionais. – sua voz levava Hinata para outra realidade – E nós vamos para Tóquio, e vamos ficar um fim de semana inteiro juntos. Eu prometo. – parecia tão fácil acreditar.

Hinata acabou por concordar, silenciosamente. Naruto a beijou de novo, suave, com calma. Rápido demais, se afastou, beijando o alto de sua cabeça antes de se levantar do banco, com a mão em seu braço para ajudá-la. A morena se pôs de pé, tomando cuidado para não tropeçar. Apoiou contra o braço forte do garoto. Ambos puseram-se a andar, e Hinata corou quando ele a abraçou pelos ombros. Ela rodeou sua cintura, um tanto perdida pelo senso de direção alterado, mas era simples caminhar junto ao corpo dele.

Entraram no prédio, a bagunça alcançando-os no saguão. Pararam no elevador, e Hinata entrou, mas Naruto não a seguiu. Em vez disso, beijou seu rosto.

— Eu vou subir pelas escadas. Já apertei o andar. – a Hyuuga tentou não demonstrar mágoa. Ela também esperava por aquilo. Tentou se concentrar apenas no carinho que ele fazia em sua mão – Boa sorte amanhã. Estarei vendo. – ele sorria, então Hinata sorriu da mesma forma.

— Eu também. Bom, você entendeu. – brincou, ouvindo a risada dele uma última vez antes do elevador fechar.

Sozinha, suspirou apaixonada e embaraçosamente. Estava silencioso, mas iluminado, e uma música clássica que ela conhecia tocava de fundo. O elevador parou, abrindo, e ela abriu o bastão, estendendo-o e virando para a esquerda, como se lembrava. De qualquer maneira, não precisou andar muito. Mal apareceu e já ouviu a voz de Sakura gritando em sua direção.

— HINATA, PELO AMOR DE KAMI! – sentiu seus braços a afundando em um abraço pesado e dolorido – Eu quase morri do coração! Vem. – a puxou, guiando-a até o quarto. Hinata pensava em uma desculpa plausível, tentando esconder o sorriso culpado.

Seguiram até o fim do passadiço, entrando no cômodo iluminado. Hinata tirou o casaco e desabotoou o vestido, enquanto ouvia Sakura andar de um lado a outro.

— Você consegue entender meu desespero quando eu voltei pro quarto e você não estava nele? – a garota parecia sinceramente perturbada, e Hinata se sentiu culpada – Eu fiquei preocupadíssima, estava quase indo falar com a segurança do hotel!

— Me desculpa, Saki. – Hinata se apressou, sentando-se na cama – Eu saí para dar uma volta. Queria conhecer o hotel, acabei indo nos jardins e ficando por lá. – ela poderia ter dito para a amiga, mas preferiu não o fazer ainda. Sakura ficou em silêncio, mas acabou aceitando as desculpas. Quando respondeu, estava mais calma:

— Espera eu voltar da próxima vez, tá? Por favor. – a Hyuuga assentiu rapidamente, rindo.

— Como foi na festa? – mudou de assunto, como quem não queria nada.

— Ah, foi uma droga. – sabia que a amiga começaria a reclamar.

Ficaram conversando por muito tempo, enquanto se arrumavam para dormir, e, até mesmo quando apagaram os abajures, continuaram sussurrando até pegarem no sono, já pelas tantas da madrugada.

Quando acordou, na manhã seguinte, Hinata sentiu que não tinha dormido nada. Passou a noite toda tendo pesadelos, desde perder a competição, até relacionados a Naruto. A maioria deles eram escuros, e não brilhantes, como estava acostumada, e algumas ofensas nada gentis ocuparam sua mente enquanto estava desacordada. Em decorrência disso, despertou exausta – e com um aperto estranho no coração. Frustrada, tentou não demonstrar suas preocupações quando Sakura a cumprimentou, xingando-se por ter uma imaginação tão fértil às vésperas da disputa.

Se trocou, primeiro buscando por seu uniforme, mas a Haruno a fez vestir uma saia, mesmo a contragosto – o uniforme era mais prático para se trocar, mas, ainda distraída, optou por não discutir. Pegou sua bolsa com o maiô, a touca e o roupão, e também vestiu o casaco da Academia, cortesia do capitão Nara pouco antes da viagem. Apesar da ansiedade, Hinata sentiu-se ligeiramente feliz por estar ali. Desceram de elevador com outras pessoas que a Hyuuga não conhecia, mas com quem Sakura conversou animadamente. Ao contrário da noite anterior, o hall estava movimentado, cheio de conversas e pessoas transitando de um lado a outro, fazendo com que Sakura tivesse de segurá-la pelo braço para evitar trombos. Seguiram até o refeitório, mas Hinata sabia que não conseguiria comer nada – a não ser que quisesse colocar tudo para fora na piscina –.

Estava sentada há algum tempo quando ouviu Ino e Tenten se aproximarem.

— Bom dia, raio de luz! – Ino gritou em seu ouvido, abraçando-a pelos ombros. A morena fez uma careta.

— Como consegue estar sempre bem-humorada? Pelo amor de Kami, eu estou um caco. – Tenten reclamou, do outro lado, se fazendo ouvir sobre a bagunça. Hinata não estava acostumada com aquela atmosfera estudantil competitiva, e sentia-se acuada, embora entendesse o que a amiga estava dizendo.

— Bom, os jurados também dão nota pela expressão, sabia? – rebateu a loira.

— Nós estamos tomando café da manhã, não sou obrigada a ficar sorrindo para o nada igual você. – Hinata gostava das discussões matinais das amigas, e soltou um riso baixo – E você, Hina? Não vai comer nada? – a Mitsushi voltou-se para ela.

— Estou sem fome. – deu de ombros, não querendo prolongar o assunto – Vocês já sabem o horário da competição? – as disputas regionais estendiam-se durante todo o dia, e Hinata só sabia que competiria as onze, mas queria estar lá pelas amigas também.

— Ainda não. – Ino parecia decepcionada – Só divulgaram os coletivos. Basquete vai ser o primeiro, depois futebol, natação, e vôlei, que vão ser no mesmo horário. – recitou a garota – Ah, e judô depois do almoço. – Hinata comemorou internamente.

— Espero que a nossa prova seja só a tarde. – opinou Tenten – Quero ver as lutas dos meninos. Disseram que o Naruto deixou todo mundo com sangue nos olhos. – riram.

— Estão falando do que? – Sakura chegou, se intrometendo, deixando uma bandeja sobre a mesa delas. Hinata afastou as mãos, dando espaço para que comecem.

— Os horários das regionais.

— E o Naruto com sangue nos olhos.

— Não é por menos, ele quer ganhar as nacionais de qualquer jeito. – defendeu a Haruno – Eu não vi os treinos, mas vocês lembram como eles estavam. Não quero perder isso por nada. Se conseguirem muitos pontos, conseguirão uma boa colocação nas chaves.

As garotas continuaram discutindo, enquanto Hinata permanecia calada. Sua inquietação aumentou, pensando não somente nas disputas dela, mas nas de Naruto também. Queria que ele ganhasse, e Sasuke também, e Gaara também – não os conhecia bem o suficiente, mas sabia que eram boas pessoas, e se dedicaram muito para aquele dia. Não podia se dar ao luxo de se preocupar com os outros naquele momento, mas era inevitável. Seu estômago começou a rosnar, dando voltas.

Não demorou até que todos começassem a se dispersar, indo até os ônibus. Hinata aproveitou a deixa para ir também, garantindo às amigas que conseguia sozinha – não queria perturbá-las –. De qualquer maneira, foi bastante fácil. Com o bastão, tomou cuidado para não tropeçar nos degraus, e, quando o sol alcançou seu rosto, seguiu os barulhos, encontrando os colegas do time em seguida. Sentou-se na frente, com a bolsa a tiracolo.

Partiram minutos depois. Estava quente, mesmo para outubro, e Hinata começou a suar na nuca. Balançava a cabeça para os comentários dos colegas, mas continuou quieta, acalmando a própria mente. Chegaram nos ginásios, tão barulhento quanto o hotel. A garota aceitou a ajuda de Shikamaru, que segurou em seus ombros para que a multidão não a levasse junto. O capitão reuniu todos que concorreriam na modalidade solo na frente, guiando-os até o ginásio. Hinata caminhou, sentindo a mudança de temperatura quando saiu do sol e entrou no prédio todo estruturado em metal.

Os momentos seguintes passaram como um borrão para a Hyuuga. Se lhe perguntassem, diria que se lembrava de ser empurrada pelos corredores, se lembrava dos alto-falantes anunciando incessantemente quais disputas aconteceriam, e se lembrava das arquibancadas gritando quando o time da Academia entrou pelo portão principal. Conseguiria dizer a temperatura da água que espirrou em seu pé, mas não se lembrava de uma palavra sequer que dirigiram a ele, tampouco suas respostas. Como se sua cabeça estivesse em modo stand-by, preservando energia. Seus pensamentos se voltaram todos para concentração, enquanto deslizava o velho maiô pelas pernas, e amarrava o cabelo na nuca. Pensou nos colegas de time, nos conselhos do capitão, em seu velho ginásio, em sua mãe. Se ela conseguisse trazer a primeira vitória, competiria em Tóquio. Ela, que nunca saíra de Rokko, indo para a capital. Era um sonho – distante, frágil, mas, ainda assim, existia.

Sem que percebesse, o primeiro alarme soou, avisando que era para se apresentarem. Respirando fundo, sentia um ataque de nervos chegando. Shikamaru reuniu todos os nadadores em um círculo, e Hinata tinha a vaga consciência de braços a cercando. Sentia-se incômoda, como há tempos não acontecia, com a escuridão. Seus demais sentidos estavam alarmados, todavia, não substituíam o que apenas a visão poderia lhe proporcionar.

— Escutem, todos. – o capitão chamou a atenção, com a voz arrastada e parecendo sonolento – Nós estamos aqui. Conseguimos passar pelas eliminatórias, mesmo com o chaveamento apertado, e estamos honrando o nome da escola em que estudamos. Eu não poderia pedir mais de vocês. Agora, nós vamos lá fora, e iremos mostrar como nadamos, e iremos conseguir o primeiro lugar. Eu confio no meu time, e no potencial de vocês. Boa sorte a todos. – aquele era o discurso motivacional do líder deles, e bastava. Com urros e bagunça, os colegas se abraçaram, caminhando para fora do vestiário. Hinata foi arrastada por eles, meio rindo, meio tremendo. Para todos os efeitos, ela era parte do time, e podia contar com eles.

Quando a iluminação do sol voltou a bater contra seu rosto, Hinata ouviu a animação das arquibancadas, e as outras equipes se posicionando também. Trazia em sua mão a touca, sem os óculos – ela poderia usá-los, mas o cloro não incomodava tanto assim –. No banco, deixou seu roupão, enquanto esperava pelo sorteio. Ficariam na raia central, pela classificação nas eliminatórias. Hinata esfregou uma mão contra a outra, respirando fundo.

— Bem-vindos, amigos do esporte! Começa agora mais uma etapa do Campeonato Esportivo Colegial Regional. Hoje, conheceremos os finalistas para concorrer no torneio nacional. Depois das eliminatórias provinciais, as melhores escolas competem agora pelas duas primeiras colocações e uma chance de disputar nos ginásios de Tóquio. Agora, as escolas se apresentando aos jurados e determinando a ordem dos inscritos. Começaremos com o nado solo, e, em seguida, a modalidade de revezamento de 100 e 400 metros. Com vocês, a Academia Canadense, preferida na competição e campeã regional, senhoras e senhores! – os gritos eram ensurdecedores. Hinata agradeceu pelas narrações, e Otogakure avisou para ela que seria a segunda a nadar. Ela agradeceu, procurando não deixar que o nervosismo cada vez mais aparente tomasse conta dela – Sorteios realizados, vamos para a liberação das piscinas. Esta é a terceira modalidade do dia. – Hinata se perguntou como os outros tinham ido – Fiquem conosco para assistirem os favoritos do judô após o almoço. — que conveniente – Nadadores preparados, vai ser dada a largada!

Hinata parou de escutar, fechando as pálpebras e concentrando a respiração. Tentou limpar sua mente de todos os tipos de pensamentos, bons e ruins. Imaginou a água, seus movimentos, cada lição dada pelo Nara durante os treinos. Parte de si se perguntava quem estaria nas arquibancadas, vendo. Grande parte da Academia torcia uns pelos outros, assim como nas eliminatórias. Suas amigas, com certeza, estariam lá. Alguns colegas, que não sabia quem eram, mas que a cumprimentavam nos corredores. Pessoas que falavam dela pelas costas. Pessoas que não gostavam dela. Naruto.

Não. Ela não pensaria em Naruto naquele momento.

Shikamaru tocou seu ombro, a guiando até a plataforma. Não ouviu quem tinha ganhado, não ouviu o narrador, e nem os gritos que ecoavam pelo ginásio circular. Sentia levemente os raios solares esquentarem sua pele exposta. Posicionou-se, alinhando as mãos contra os pés e curvando as pernas. Ajeitou a touca para não escorregar, e, quando ouviu o apito, deu um bom salto, impulsionando-se para frente.

Dentro da água, todo barulho desaparecia. As ondas de movimentação pouco a atingiam, por estar na raia central, mas isso também não importava. Sem a luminosidade, a escuridão parecia estarrecedora, mas estava na água – e não tinha nada a temer. Sabia que seu impulso tinha sido perfeito, e continuou sem braçadas por quase um terço do percurso. Deslizava pela piscina, e voltou a superfície, erguendo o rosto pela primeira vez para respirar. Voltou, realizando movimentos suaves. Não tinha que lutar contra a água – bastava ser amiga dela. Saber que ela a ajudaria, deslizando seu corpo para frente. Não precisava de visão, de ajuda, de piedade. Era ela, somente ela, e seu talento. Lembrou-se das dicas de Shikamaru, aplicando cada um de seus conselhos, sentindo seu corpo queimar de esforço. Antes que desse conta, a ponta de seus dedos tocou a outra borda, e apressou-se para realizar uma virada. Perdia tempo na volta, e tinha que compensar no trajeto.

Era a disputa mais cansativa. Mesmo sendo quatrocentos metros, sabia que no torneio nacional eram três voltas, em vez de uma. Não podia se cansar, ou pensar no quão difícil seria. Tudo que Hinata vislumbrava era uma braçada a mais, uma pernada a mais, um deslize a mais. Se, no final, não tivesse conseguido, ao menos teria dado tudo de si.

Estava chegando – conseguia sentir. Esforçou-se, sem levantar para respirar, e, no timing certo, espalmou contra a borda, subindo a cabeça freneticamente, os pulmões queimando. Não sabia o que estava acontecendo, desnorteada. Mas todos gritavam, alucinadamente, e a água se mexia sem parar. Respirou fundo, puxando a touca e deixando o cabelo escorregar pelas costas. O barulho quase não a deixava ouvir o narrador.

— Ela conseguiu, sim, senhoras e senhores! Hyuuga Hinata chega em primeira com segundos de vantagem! – a garota abriu o maior dos sorrisos, comemorando ainda dentro da piscina – Essa é a segunda vez que a garota bate o recorde regional. Que nadadora! A Academia Canadense se classifica por soma de pontos para a primeira categoria do torneio nacional!

Tudo estava brilhante. Hinata sentiu mãos em seus ombros, e estendendo o braço, sendo ajudada a subir a borda. Suas bochechas doíam, e todo o sentimento de apreensão desapareceu, diluído, sendo substituído pela euforia que poucas vezes experimentara. Foi engolida por abraços e parabenizações, e o próprio capitão Nara parecia elétrico, gritando com os outros. Aquele instante fazia tudo valer a pena. O narrador continuou anunciado as colocações, mas, novamente, Hinata não estava ouvindo.

Foi praticamente carregada até os bancos, onde colocaram o roupão sobre ela, ainda comemorando. Quando os colegas se acalmaram, a Hyuuga pode agradecer cada um individualmente, envolvendo tantos pares de braços que perdeu a conta. Quando achou que estava acabando a fila, foi envolta por Sakura, a quem reconheceu pelo cheiro inconfundível de flores.

— PARABÉNS, HINA! – gritou em seu ouvido, mas Hinata sequer reclamou, regojizando.

Não conseguiu perguntar como a amiga tinha entrado ali – embora suspeitasse que nem mesmo a área restrita a nadadores estivesse fora do alcance de sua tag de reconhecimento de presidente estudantil –. Quando ela a soltou, novos braços a ergueram do chão, rodando no piso molhado sem medo de escorregar. Hinata soltou uma exclamação de surpresa, agarrando-se. Nem mesmo a exaltação a faria não reconhecer aquele abraço, aquele cheiro, mas o espanto a confundiu. O que ele estava fazendo? Na frente de todos?

— Eu sabia que você ia conseguir. – Naruto sussurrou em seu ouvido, arrepiando-a, e, céus, naquele segundo, Hinata sentiu que tinha ganhado dez competições.

Rápido demais, ele a soltou, e outras pessoas a abraçaram. Extasiada, Hinata terminou de cumprimentar a todos, voltando-se para torcer pelos colegas, mesmo que sua mente só conseguisse se concentrar em uma coisa – uma pessoa.

Da arquibancada, poucas pessoas notaram a cena, distraídas pela movimentação e pela continuidade das provas. Mas um, especificamente, estava bem atento nos bastidores, pouco se importando com o campeonato. Em vez disso, ele pegou o celular, fazendo anotações rápidas no bloco de notas, para que não se esquecesse de nada. De óculos escuros e roupas casuais, ninguém o notaria ali, e seu objetivo, que outrora o faria pegar o próximo voo de volta para casa, se alteraram, e ele ficaria para ver mais uma disputa colegial. Escorregou o dedo pelo nariz, subindo os óculos – não podia deixar que ele saísse do lugar, nem por um instante. Por trás das lentes, haviam íris peroladas que intrigariam a muitas pessoas, mas ele não tinha pretensão de chamar atenção.

Notas finais
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