Quimera
48 Laços
Notas iniciais
— O perdão é algo poderoso; ele devolve brilho ao olhar.
As primeiras horas passaram em uma lentidão surpreendente. Naruto, incapaz de se sentar, andava de um lado a outro da sala de espera, encarando as portas que separavam o centro cirúrgico com uma ansiedade quase palpável.
Restaram ele e Hiromi. A sala de espera estava vazia, e, se não fossem pelas duas enfermeiras na cafeteria, no final do corredor, o silêncio seria mortal. Não houve necessidade de conversa, no primeiro momento – possivelmente, nenhum deles estaria em condições de falar sobre qualquer coisa.
Hiromi mantinha a cabeça baixa, e Naruto não saberia dizer se estava rezando ou não. Sakura, que tinha ficado até Hinata ser levado, teve de voltar para o hotel e esclarecer o restante das coisas com Kushina, e seus próprios pais, que o garoto sequer sabia estarem na cidade.
Sentiu-se um pouco egoísta por não estar pensando nas pessoas que, provavelmente, estariam preocupadas com ele. Deixou sua mãe e Nagato para trás, sendo arrastado por uma garota não exatamente tranquila; não tinha atendido o telefone durante as vezes que vibrara em seu bolso, tampouco lembrou-se de ligar para os acionistas, depois da coletiva, para dar mais notícias sobre o sucesso do projeto.
Tudo que passava por sua mente era Hinata. Não sabia quanto tempo demoraria uma cirurgia daquela magnitude, mas, depois das primeiras duas horas, suas pernas começaram a dar sinais de cansaço, enquanto a ansiedade não o deixava descansar. Contra sua vontade, sentou-se do lado de Hiromi, que o fitou com os olhos cansados.
— Teremos um longo dia pela frente. – comentou, sorrindo torto. Algumas rugas se destacaram em seu rosto, e Naruto a encarou atentamente; Hiromi era uma mulher bonita, mesmo com a passagem do tempo, e o claro nervosismo. Diferente de Kushina, jovial, Hiromi tinha uma espécie de beleza natural que chamava a atenção, mesmo com os fios brancos e o rosto enrugado. De repente, perguntou-se se Hinata ficaria daquele jeito dali dez, vinte anos, e, em seu peito, alguns sentimentos apertaram-no. Naruto queria tanto estar ao lado dela.
— A senhora sabe quantas horas vai demorar? – perguntou, a garganta raspando um pouco.
— Na verdade não. – suspirou – Dr. Sakoto disse que pode demorar cinco, seis horas, mas é uma cirurgia experimental, então pode haver todo tipo de complicações. – os cantos de sua boca estremeceram no final da frase.
— Experimental? – engoliu em seco. Soltou uma risada nervosa, um tanto inapropriada – Não se fazem muitas dessas, não é mesmo. – coçou a nuca, tentando controlar a maldita boca.
Voltaram a ficar em silêncio. A televisão fora ligada por uma das enfermeiras de plantão, e o som do apresentador do jornal local preencheu a sala. Naruto recostou na cadeira de plástico, que, embora acolchoada, não era exatamente confortável para passar o restante do dia, e da noite, se fosse preciso; o Uzumaki não deixaria o hospital sem saber que Hinata estava bem.
Após alguns minutos, engoliu em seco, pigarreando para tornar a voz audível.
— Hiromi, eu sinto muito. – a mulher se virou, um tanto surpresa pela frase. Naruto sabia que era algo que precisava fazer – Acho que você deve saber o que aconteceu. Gostaria de dizer que nunca foi minha intenção magoar Hinata, e, se eu pudesse, teria feito tudo diferente. – não teve coragem de terminar olhando em seus olhos. Mordeu o lábio inferior enquanto esperava pela reação da mulher, torcendo para que não fosse muito hostil.
— Sabe, querido... – não havia traços de raiva em suas feições – Da primeira vez que você apareceu lá em casa, eu imaginei que boa coisa não podia sair disso. – Naruto engoliu em seco, torcendo os dedos ansiosamente – Você estava lá, com seu charme, mas ela não fazia ideia. E eu te alertei, sobre o que deveria fazer. – bem, não era exatamente isso que Naruto esperava, mas não era como se não merecesse – Quando ela descobriu que você também era o outro rapaz, eu nunca tinha visto Hinata chorar tanto.
O Uzumaki suspirou silenciosamente, com o um bolo descendo por sua garganta.
— Ela passou dias deprimida, na cama, e nada do que eu fizesse ajudava. Mesmo aqui, em Tóquio, durante as pesquisas para a cirurgia, eu sabia que minha filha não estava completamente feliz, porque ainda pensava em você. – Naruto se mexeu, desconfortável.
— Eu-eu...–
— Nunca tinha visto minha filha tão triste, mas também nunca a vi tão feliz.
Voltou seus olhos para cima novamente, surpreso. Hiromi estava sorrindo, com uma sobrancelha erguida e ar de quem sabe um segredo.
— Hinata nunca esteve tão feliz. Eu conheço minha filha, e conheço o caminho que ela teve que percorrer por conta da deficiência. Eu a vi ser guerreira, forte, destemida. Eu via sua timidez, suas limitações, mas também uma coragem incrível, apagada dentro dela. E, quando ela te conheceu, seja como Naruto, seja como qualquer outra pessoa, ela tinha o sorriso mais brilhante do mundo. Ela se tornou outra pessoa, sabe? Eu conseguia ouvir pela voz dela. Hinata me ligava no meio da tarde para contar dos treinos, das aulas e de você.
— De mim? – sussurrou, com a boca seca.
— Sim, querido. – ela riu um pouco – Hinata te amava. Ela te ama. – emendou, rápido – Ela te ama muito, e qualquer um que olhe vocês dois sabe que são um casal apaixonado. Casais brigam, isso é normal. Nenhuma relação é perfeita, mesmo que tenham nascido um para o outro. – aquela frase, por algum motivo, ficou permeando em sua cabeça – Você fez minha garotinha feliz, e isso é tudo que importa. Ela se tornou mais livre, independente, realizada. Ela se tornou mais destemida, por você. Por isso, Naruto, eu sei que você é um bom menino. – segurou suas mãos sobre seu colo – Não se preocupe com o passado. Tudo que importa é que você está aqui por ela, e esteve disposto a mudar.
— Nossa, eu... poxa, obrigado. – fitou a mulher com o olhar um tanto emocionado – Muito obrigado. – Hiromi assentiu, apertando seus dedos antes de soltá-los.
Era como um peso saindo de seus ombros. Aliviado, voltou-se para a televisão, e falavam sobre a coletiva. Já não sentia mais medo, ou remorso. Estava apenas preocupado com Hinata, e torcendo para que a cirurgia desse certo, de uma maneira ou outra.
A tarde chegou ao auge, com o sol iluminando todas as janelas daquele andar. Naruto já tinha pego um copo de café, e um chá gelado para Hiromi, quando ouviu passos, e viu Sakura e Sasuke chegando. Levantou-se em um pulo, subitamente feliz de ver os amigos.
A situação não era nada apropriada, mas estar junto a eles tornavam tudo mais leve. Se parasse para pensar, nunca houve um só momento em que seus melhores amigos não estivessem ao seu lado para apoiá-lo, ou corrigir suas besteiras.
— Desculpa a demora, Naruto. – Sakura lamentou assim que se abraçaram. Em seguida, trocou um cumprimentou e um meio abraço com Sasuke, e sentaram-se juntos – Me encontrei com Sasuke e viemos juntos.
— Não se preocupe. Estamos esperando notícias, mas vai demorar um pouco. – suspirou, esfregando os olhos, sentindo-se cansado – Foi um dia cheio. Ah, como está minha mãe e meu irmão? – lembrou-se de perguntar.
— Kushina já está a caminho. Não sei se Nagato conseguirá vir agora, mas sei que ele passará aqui no hospital depois do trabalho. – Sasuke garantiu – Explicamos tudo para eles, e entenderam sua saída.
— E o senador também estava no quarto. – Sakura acrescentou, trocando um olhar rápido com Sasuke. Naruto sequer piscou.
— Não faz a menor diferença. – retrucou, procurando ponderar o tom indiferente quando a garota o encarou com as sobrancelhas arqueadas – Não tenho cabeça para lidar com ele agora, tudo bem? Hinata é tudo que importa agora. – murmurou.
— Vai dar tudo certo. – Sakura inclinou-se, acariciando seu joelho em reconforto.
— Assim espero. – respirou fundo.
O tempo livre era uma boa pretensão para deixar que seus pensamentos voassem longe. Sem total controle das memórias, Naruto deixou que algumas de lembranças tomassem conta de sua mente; boas e ruins, mas todas com Hinata. O toque de sua mão, seu abraço, seu beijo. A risada, as broncas, cada pequeno momento. Quando competiram juntos, e todas as vezes que a tinha visto nadar. Inevitavelmente, voltou a pensar sobre o primeiro ano. Parecia como uma outra vida.
— Eu era um verdadeiro babaca, não era? – seus lábios contraíram-se em um sorriso um tanto cansado.
— Era. – Sasuke concordou, distraído – Ouch! Doeu! – sibilou quando Sakura o acertou com as costas da mão.
— Você tinha seus momentos. – falou o mais gentil possível, e Naruto rolou os olhos, estranhamento grato pelo cuidado – Você melhorou muito quando terminou com aquela cobra. – abriu um sorriso falso e o Uzumaki deixou uma risada escapar.
— Não sei como durou tanto tempo. Acho que era o sexo. – comentou, divagando, mas soltou um “ai!” quando Sakura o acertou da mesma maneira – É brincadeira! Meu Kami, que mão pesada é essa.
— A Hinata te tornou bem mais tolerável. – bufou. A menção do nome da garota não lhe trouxe uma sensação de aperto, mas sim um calor confortável.
Ficaram em silêncio por alguns minutos.
— Bom, acho que... – pigarreou – Acho que eu quero agradecer vocês. – dois pares de olhos surpresos fitavam seu rosto – Sabe, por tudo. Todos esses anos, todas as merdas. – deu de ombros – Se a Hinata... se nada der... se... – balançou a cabeça, incapaz de terminar a frase.
— Ei, ei, ei. – Sakura interveio, abraçando-o pelos ombros, com a feição suave – Nada disso. Vai dar tudo certo. Hinata vai sair bem da cirurgia, e todos nós poderemos aproveitar juntos. – sua voz estava determinada. Naruto engoliu em seco, assentindo. Sasuke colocou a mão em seu outro ombro, e, embora não fosse de palavras, elas não eram necessárias.
O trio continuou sentado, sem dizer mais nada. Os ponteiros do relógio passavam, a tarde avançava, e nenhum médico passava pelas portas; Naruto tentava não ficar desesperado.
Hiromi chegou a cochilar, na cadeira de plástico. Naruto não teve coragem de acordá-la para perguntar se estava bem; parecia óbvio que não. Sua filha estava na sala de uma cirurgia arriscada, experimental, quase inacreditável. Além de todas as expectativas criadas, que o garoto sequer conseguia imaginar. Mesmo assim, a mulher portava um rosto pacífico que, de certa maneira, o acalmava.
Três, quatro, cinco horas. O sol já ameaçava se pôr atrás dos prédios da capital, pintando o céu de cores que nenhuma das pessoas naquela sala seria capaz de apreciar corretamente. Hiromi despertou, foi até o banheiro lavar o rosto e comprou um bolinho, por insistência de Naruto. Não queria que ela passasse mal, embora ele mesmo não tivesse comido nada mais que algumas torradas no café da manhã, antes da coletiva.
Perto das cinco e meia, um furacão de cabelos ruivos entrou pelo corredor, diretamente do elevador, com uma bolsa grande a tiracolo e óculos escuros no alto da cabeça. Naruto levantou-se, sentindo as pernas estralarem com a rapidez, e soltou um suspiro pesado de alívio.
Inclinou-se para abraçar a mãe, que o apertou pelos ombros.
— Desculpe a demora, meu filho. Como você está? – afagou seu rosto, os olhos azuis gentis.
— Melhor agora, okaa-san. – confidenciou.
— Alguma notícia? – perguntou, enquanto deixava a bolsa sobre as cadeiras – Trouxe roupas para você, alguns lanchinhos, toalhas, tudo que pudesse precisar. – Naruto sorriu fraco, agradecendo.
— Nada ainda. Nenhuma enfermeira sabe nos dizer se vai demorar. – sua voz tremeu, e Kushina segurou sua mão, compreensiva.
— Não se preocupe, meu amor. Vai dar tudo certo. – sentou-se, puxando Naruto para a cadeira também – Sasuke, querido, obrigada por ter ficado para nos falar, sei que queria ter vindo com Naruto. – o Uchiha corou ligeiramente, mas deu de ombros.
— Sem problemas, Kushina.
— Bem, eu não quero más vibrações, tudo bem? – não era como se a personalidade radiante e teimosa da Uzumaki permitisse outra reação. Naruto riu – E essa seria a famosa Hiromi? – inclinou-se, chamando a atenção da mulher, que virou-se surpresa, tentando, educadamente, não ouvir sua conversa – Olá, eu sou Kushina! Uzumaki Kushina, muito prazer. – estendeu a mão, e Hiromi sorriu, apertando-a.
— Hyuuga Hiromi, o prazer é todo meu. Já acompanhei diversos trabalhos seus na televisão, a senhora é incrível. – Kushina riu, polida.
— Que isso, não precisamos de formalidades. – abanou a mão, despojada – Hyuuga, uh? – comentou, como quem não queria nada.
— Okaa-san! – Naruto exclamou, envergonhado.
— O que? – retrucou, ao passo que Hiromi riu.
— Imagina, querido, não se preocupe. Sim, Kushina-san, eu mantive o sobrenome de meu ex-marido, Hyuuga Hiashi. – seu rosto converteu-se em um sorriso um tanto corado – Na época, era muito complicado alterar todos os documentos, e Hinata era minha maior preocupação. Hiashi nunca se opôs ou exigiu que eu alterasse, então, por conveniência, acabei mantendo o sobrenome. – deu de ombros. Kushina ouvia tudo com a maior atenção.
— Sinceramente, não cheguei a realmente conhecer Hiashi-san. Ele fez negócios com meu marido, e o vi apenas em alguns de nossos eventos. – Naruto trincou a boca audivelmente quando ouviu a mãe mencionar o senador. Kushina lhe deu um olhar zangado, enquanto Hiromi ignorava educamente a reação.
— O senador Namikaze, certo? Também o acompanhei pela televisão.
— Bem melhor que conhecê-lo pessoalmente. – Naruto resmungou, levando uma cotovelada de Kushina e reclamando.
— Não fale assim do seu pai, garoto. – ralhou.
— Okaa-san, olha, realmente... – suspirou, esfregando as têmporas e lembrando-se da bagunça administrativa que tinha causada naquela manhã. Parecia tão distante – Eu não tenho cabeça para lidar com isso agora, tudo bem? – pediu, implorando por um pouco de apoio. Kushina o fitou por dois segundos e suspirou, também cedendo. Apertou a mão de Naruto entre seus dedos, carinhosamente.
— Ok, meu filho. Desculpe. Nós vamos lidar com isso mais tarde. – como se Naruto tivesse alguma escolha – Hiromi-san, perdão por esse momento, não foi gentil, dada as circunstâncias. – desculpou-se com a mulher, que negou rapidamente com a cabeça.
— Imagina! Não se preocupe. Eu sei bem o que são as relações familiares conturbadas. – seu pequeno sorriso diretamente para Naruto o fez imaginar que ela sabia porquê ele tinha tanta aversão ao senador.
Enquanto cada célula de seu corpo se preocupava com Hinata, na cirurgia, parte de seus pensamentos voltaram-se para a recente parceria entre as empresas Hyuuga e Namikaze, e como Naruto tinha se enfurecido com aquilo. Não tinha dúvidas que era Hiashi quem patrocinava as pesquisas e um procedimento experimental como aquele. Lembrou-se de sua conversa no banheiro, e seus punhos apertaram-se de raiva.
Imaginar a aproximação do magnata apenas para transformar Hinata em mais uma de suas herdeiras, um robô político, o deixava enjoado. Hinata merecia mais. Se ela escolhesse se tornar uma mulher de negócios, então Kami sabia que Naruto a seguiria para cada uma das reuniões mais chatas, dos eventos mais maçantes e das conferências mais confusas. Mas seria uma escolha dela. Estava com medo – entre outra coisas – que a pressão e a culpa a fizessem seguir Hiashi para tentar compensá-lo. Era desumano pensar a que ponto um homem chegava para proteger seus patrimônios.
— Hiashi me procurou alguns dias antes de falar com Hinata. – Hiromi, como se lesse cada palavra que passava pela mente conturbada do loiro, comentou, com a voz despreocupada. Naruto virou-se rapidamente para encará-la – Confesso que foi um choque reencontrá-lo depois de tantos anos. Ele nunca se preocupou em me ajudar a criar nossa filha, fosse com ou sem deficiência. Mas ele me contou que seus outros filhos – ela sorriu como quem achava graça, mas era educada demais para rir – também desenvolviam a doença, embora não tão predominante quanto Hinata, já cega antes de completar três anos. Ele ficou desesperado, e começou a financiar diversas pesquisas, mas descobrir o que poderia ser e como reverter.
— Era de se imaginar. – Kushina comentou. Naruto, preso à fala de Hiromi, assustou-se quando percebeu que a mãe também escutava. Sakura e Sasuke tinham se inclinado, atentos.
— Hiashi é rico, e poderoso. Quando ele disse que havia uma chance, uma chance real, de Hinata enxergar, eu não pensei em mais nada. Rancor, raiva, mágoa. Nada disso importava. – descruzou as pernas, relaxando – Só importa minha filha, e o que ele pode fazer por ela. O que eu não pude. – perdeu-se em memórias por alguns instantes. Era tão intenso que Naruto precisou desviar o olhar – Mas, as vezes, atitudes boas vêm de motivações erradas. Hiashi não se redimiu pelo passado, longe disso. Mas eu prefiro acreditar nas consequências das decisões dele, em vez do que o motivou.
Naruto engoliu em seco, fitando os próprios pés. Atitudes boas, motivações erradas. Não era à isso que se resumia sua vida? Seu passado? Sempre tomando decisões boas, do jeito errado. A culpa, quase sempre escondida no fundo de sua cabeça, não o deixava dormir bem a noite. No entanto, de alguma forma, as palavras de Hiromi tiraram um peso de seus ombros, e ele pôde respirar profundamente. Não se redimiu do passado, mas as consequências podem ser boas.
Depois de dois anos culpando-se por como tinha tratado Hinata, Naruto, finalmente, começou a se perdoar.
Hiromi e Kushina estavam se dando surpreendentemente bem – Naruto já estava esperando as histórias constrangedoras que sua mãe fazia questão de contar. No fundo, estava grato pela mulher ter uma aura tão radiante, e encantar todos ao seu redor; Hiromi precisava daquela distração, bem como o próprio Naruto, de seus pensamentos.
Eram quase seis da tarde. O sol, ao pino quando chegaram no hospital e Hinata entrou em cirurgia, agora se punha, pintando todo o andar de um azul escuro reconfortante. As nuvens de Tóquio eram mais pronunciadas naquele ponto, e, no terceiro andar, as janelas mal deixavam que o alaranjado dos últimos raios solares do dia entrassem.
Sakura e Sasuke insistiram em se revezar para não deixar Naruto sozinho no centro de pesquisas. A garota foi primeiro para o hotel, tomar um banho e trazer roupas limpas; era óbvio que o Uzumaki não sairia para fazer coisas tão insignificantes quanto higiene básica. Ainda usava a roupa da coletiva, e as calças sociais incomodavam um pouco.
Enquanto isso, Sasuke o obrigou a comer alguma coisa. Kushina distraía Hiromi, e a fez comer algo substancial. Houve a troca de turnos das enfermeiras, mas, fora alguns burburinhos de conversa ocasional, a sala de espera naquele andar era silenciosa. A televisão agora mostrava o jornal da tarde, com o plantão de notícias em volume baixo. Naruto fitava a tela, mas não via, realmente, o que estava passando.
Os minutos passavam lentamente, quase como uma tortura pessoal. Nenhum dos médicos envolvidos na cirurgia saiu para dar notícias, e, depois de seis horas de operação, Naruto estava começando a ficar preocupado. Sua mente era um mar de pensamentos negativos, positivos e repressões. Tinha que se manter firme, por Hiromi, por seus amigos, por sua família e por ele mesmo. Pensar em perder Hinata era inadmissível.
— Gaara ligou. – Sasuke falou quando retornou do corredor, sentando-se ao lado do Uzumaki – Ele e Shikamaru aguardam notícias. Espero que não se importe, eles estavam preocupados com Hinata também. – emendou, a voz um tanto culpada. Naruto negou rapidamente.
— Imagina. Eles gostam dela. Gaara até demais. – resmungou, rindo em seguida, apenas para tentar quebrar o clima. O riso morreu em um suspiro – Queria ter vindo com ela, fazer os exames, conversar com o médico. Não acredito como eu fui burro. – apertou a base do nariz com o indicador e o polegar, fechando os olhos.
— Não foi sua culpa, Naruto. Shion quem aprontou com você. – ao ouvir o nome da ex-namorada, teve um espasmo. Estava feliz em saber que ela tinha sido expulsa seis meses antes de terminar o ensino médio. Pelo menos a avó estava do seu lado.
— Mas eu menti para Hinata. Ela teve todo o direito de ficar irritada comigo. – resmungou.
— Bem, aquela história toda de Menma foi... curiosa. – Sasuke parecia estar tirando sarro dele – Ok, isso é passado. Você mudou, a Hinata mudou, e vocês se amam. Para de ficar se torturando e foca na recuperação da Hinata, e que ela pode realmente enxergar depois da cirurgia. – sua voz sincera emocionou um pouco Naruto.
— Nossa, Teme... que lindo. Onde você aprendeu a ser sensível assim? – zombou, e Sasuke empurrou seu ombro, rindo um pouco.
Naruto sentia-se leve, apesar de tudo. Era bom ter amigos como os dele, e poder contar com eles, mesmo quando era um idiota. As coisas finalmente pareciam estar entrando nos eixos, e, mesmo com o cansaço físico e mental, estava aliviado.
A noite chegou da mesma forma que o dia tinha transcorrido; silenciosa e angustiante. A essa altura, Hiromi e Kushina tinham feito amizade com algumas das enfermeiras de plantão, e conversavam sobre as possibilidades da cirurgia. Uma delas tentava tranquilizar as mulheres, dizendo que as más notícias, geralmente, eram as primeiras a serem dadas.
Naruto tentou cochilar na cadeira de plástico desconfortável, mas não obteve sucesso. Começou a roer as unhas de ansiedade, e já estava pronto para invadir o centro cirúrgico ele mesmo. O tempo parecia estar contra eles.
Tempo. Era sempre a chave de tudo.
Às dez da noite, Naruto estava quase precisando de um médico ele mesmo. Kushina tinha voltado para o hotel, para atualizar Nagato e – a contragosto do filho – o senador, mas prometeu que voltaria assim que possível. Hiromi tentava se distrair, mas seu semblante era sério e preocupado. Com quase dez horas de cirurgia, não conseguiam mais pensar positivo. Alguma complicação tinha surgido. O quão grave poderia ser?
Distraído, Naruto foi surpreendido pela chegada de alguém no corredor leste. Moveu os olhos para identificar quem vinha, e, tomado por uma onda de choque, empertigou-se na cadeira, subitamente alerta.
Hyuuga Hiashi caminhava até a ala de espera, onde ele e Hiromi estavam sentados. Sakura dormia, recostada em uma das cadeiras, com a jaqueta de Sasuke sobre os ombros. Naruto evitou uma careta de aversão. Hiromi, por outro lado, parecia quase aliviada. O magnata vinha com um terno caro, gravata desatada e a expressão de mais puro cansaço. Quando avistou Naruto, não parecia surpreso.
— Como ela está? – foi a primeira coisa que disse, para Hiromi.
— Ainda não tivemos nenhuma notícia. Não sabemos como a cirurgia está indo. – sua voz falhou no final da frase, e Hiashi sentou-se para consolar a ex-mulher, acariciando seu braço.
A cena lhe deixou incomodado. Não sabia por quê; não era da sua conta. Mas ver Hiashi consolando Hiromi parecia errado. Ele tinha abandonado a mulher e a filha com deficiência há dezoito anos, e sequer se preocupou em ajudá-las. Sabia que Hinata nunca reclamaria, mas tinha crescido em um bairro precário, com condições nada adequadas para seu quadro. E, anos mais tarde, volta para fazer a filha de experiência, salvar a própria pele, e torná-la um de seus peões políticos, depois de perceber que, mesmo contra todas as adversidades, Hinata tinha se tornado um prodígio.
Impaciente, o loiro saiu, sem dizer nada. Caminhou até o final do corredor, para a máquina de chocolates, e puxou uma nota do bolso. Grunhia consigo mesmo, irritado, e irritado por estar irritado.
Sua nota ficou presa na máquina, e ele quis chutá-la; mas foi impedido pela sombra de Hiashi, parado próximo a ele. Olhou para baixo, alguns centímetros, e encarou os olhos intimidadores do magnata. Fechou os punhos.
— O que foi? – perguntou grosseiramente. Se Kushina o ouvisse falando daquele jeito, provavelmente apanharia.
— Entendo que esteja passando por uma situação estressante. – comentou, mantendo a voz calma. Naruto, se não estivesse tomado pela aversão que tinha ao Hyuuga, teria percebido a figura de um pai em agonia, naquele momento – Sinceramente, agradeço que tenha ficado aqui, com Hiromi.
— Estou aqui porque me importo com Hinata. – rebateu – O que já é muito mais do que eu posso dizer de certas pessoas.
Se encararam em silêncio. Hiashi suspirou.
— Não vou te culpar por não acreditar na preocupação genuína que tenho com minha filha. – uma luz perspicaz passou por seus olhos exaustos quando continuou antes que Naruto pudesse interrompê-lo – Mas deixe-me fazer uma pergunta: nunca tomou nenhuma decisão da qual se arrependeu amargamente, apenas porque precisava manter uma imagem?
Naruto não tinha uma resposta. Sentiu as mãos formigarem.
— Você, mais que ninguém, deve saber. – continuou, a voz baixa – Deve saber os sacrifícios que fazemos por sermos quem somos. Não quer dizer que não tenhamos arrependimentos, ou que não procuremos tudo — sua voz tornou-se feroz – para nos redimir.
O Uzumaki recostou na máquina, as pernas repentinamente fracas. Aquele não era o mesmo homem que o enfrentou no banheiro; tampouco o empresário que via nos jornais. Sua raiva foi momentaneamente ofuscada pelo sentimento de reconhecimento.
— Contudo, pense o que quiser de mim. – empertigou-se, recuperando-se do rápido acesso de humanidade – Aliás, meus parabéns pela iniciativa com a corporação Namikaze. Na próxima semana, meus assessores entrarão em contato com o senador para reiterar nosso apoio.
— Eu-eu... – Naruto gaguejou, sem conseguir responder Hiashi. No entanto, não foi capaz de completar a frase. Seus olhos captaram as portas do centro cirúrgico se abrirem, e o médico apareceu, retirando a touca e a máscara.
De repente, suas pernas ganharam força novamente; colocaram-se em movimento sem que, sequer, pensasse. Sua mente, nublada, fez com que atravessasse o corredor em largas passadas, alcançando Hiromi em poucos segundos. A mulher também tinha se levantando, em um ímpeto, e agarrava a barra da blusa.
Hiashi chegou logo atrás, ligeiramente arfante. Naruto encarou o rosto do médico, procurando por quaisquer traços que indicassem a situação de Hinata; o sucesso, ou o fracasso. Seu coração batia descompassadamente.
O médico sorriu.
— Houve algumas complicações, mas a cirurgia foi um sucesso.
Fale com o autor