Quimera
49 Fim
— Viver é sonhar de olhos abertos.
— Mesmo com todos os exames, o nervo óptico estava localizado ligeiramente para a esquerda, e precisamos reestruturar o procedimento para não torná-lo invasivo demais, e acabar danificando a estrutura ocular de Hinata. Por isso demorou um pouco mais do que esperávamos – o Dr. Sakoto suspirou, parecendo cansado – Mas foi um sucesso. O organismo dela está reagindo surpreendentemente bem às células-tronco, e estamos confiantes.
Foi como se o mundo tivesse sido retirado dos ombros de Naruto. Com as pernas bambas, sentiu os lábios tremelicarem, sem conseguir agradecer apropriadamente. Estendeu os braços, e segurou Hiromi, que chorava copiosamente, molhando seus ombros. A mulher parecia aliviada, quase em êxtase, deixando que toda a tensão acumulada nas últimas 12 horas se esvaísse.
Naruto, com a garganta fechada de emoção, sentiu duas lágrimas rolarem por seu rosto, sem conseguir se segurar. Estava tão feliz; a cirurgia tinha sido um sucesso. Hinata não tinha morrido; esta era a única possibilidade com a qual o garoto não estava preparado para lidar. Tinha evitado pensar sobre durante todo o tempo, mas, em seu interior, havia uma pequena centelha de agonia. No entanto, agora, estava tudo bem. Hinata estava viva, ela estava bem, e isso era tudo que importava.
Se desse certo, se desse errado; ele não ligava realmente. Hinata poderia desenvolver três olhos e pés de pato, que ele ainda continuaria amando-a como nunca havia amado alguém em toda sua vida. Seu coração parecia explodir de felicidade e alívio, batendo com urgência para revê-la. Mesmo que estivesse dormindo, se recuperando, Naruto precisava tocá-la. Já tinham ficado muito tempo separados.
— Quando poderemos ver a Hinata? – Hiromi parecia compartilhar da urgência, e Naruto agradeceu. Ela limpou as lágrimas discretamente, com as costas das mãos, e o Uzumaki ainda abraçava seus ombros, temendo que suas pernas a traíssem.
— Os efeitos da anestesia devem passar dentro de três ou quatro horas. Hinata está em um quarto especial, sem iluminação, para que a claridade não machuque a sensibilidade da retina. Mas, assim que ela acordar, vocês podem vê-la. – confirmou, olhando para Hiromi e Naruto – O processo de adaptação será lento e gradual. Ela precisará de muito apoio e ajuda para se adaptar ao uso do corpo ciliar, e ainda não sabemos a extensão da redução dos danos da doença. Hinata pode recuperar a visão em 100%, mas também em 90%, 85% ou 70%. Precisamos esperar alguns dias para refazer os exames, e indicar o uso dos remédios corretos. – explicou, em seu melhor tom profissional, mas, àquela altura, Naruto realmente não se importava.
— Isso é muito mais do que eu jamais poderia sonhar. – Hiromi exclamou, com a voz rouca. Lançou-se no médico em um abraço apertado, pegando-o de surpresa – Muito obrigada, dr. Sakoto. Muito, muito obrigada. – o médico, encabulado, retribuiu o gesto, enquanto Naruto ria baixo, com alívio.
— Ora, o que é isso. – respondeu, timidamente. Hiromi afastou-se, limpando o rosto novamente – Hiashi-san, se o senhor quiser ver os novos exames, temos resultados promissores para a pesquisa e a aplicação dela em novos portadores do gene. – Naruto tinha se esquecido da presença do magnata, que, silenciosamente, moveu-se de trás dele, os ombros curvados e a expressão escondida.
— Certamente, Sakoto. Já estou indo. – o homem parou ao lado de Hiromi, e inclinou-se para abraçá-la. Durou apenas alguns segundos, mas Naruto percebeu como o toque pareceu íntimo.
Quando soltaram, Hiashi fitou Naruto diretamente, por um instante. O garoto viu, nas íris claras – quase do mesmo tom perolado que Hinata sempre exibiu –, uma sombra de tranquilidade que atenuava os sinais da idade e da rigidez de um rosto marcado pelo tempo. Por um momento, Naruto realmente pôde ver a preocupação genuína por Hinata, a felicidade do sucesso da cirurgia; um pai, que recebeu notícias sobre a filha, em vez do empresário magnata que comandava um centro de pesquisas de milhões de ienes, apenas para salvar a própria pele.
De certa forma, Naruto deixou que um pequeno sentimento de respeito crescesse pelo Hyuuga. Não muito; apenas o suficiente.
Hiashi despediu-se e voltou com o médico pelas portas do centro cirúrgico. Naruto puxou o celular, ligando para Sakura, informando que a cirurgia tinha acabado e tinha dado tudo certo. Imaginou que ela falaria com Sasuke por ele. Também ligou para Gaara e Shikamaru, agradecendo a preocupação dos amigos.
Decidiu não ligar para a mãe – daria um pulo no hotel, para tomar banho e trocar de roupa. Apesar de Kushina ter levado algumas mudas para ele, com o alívio, percebeu como precisava relaxar com água quente.
— Hiromi, precisa de carona para algum lugar? Vou para o hotel tomar um banho antes de podermos entrar no quarto. – a mulher assentiu, sorrindo.
— Claro, querido, pode ir! Não se preocupe. Minhas coisas acabaram ficando aqui no prédio, e eu vou comer alguma coisa. – Naruto inclinou-se para abraçá-la rapidamente – Obrigada. Por tudo. – seus olhos tinham um brilho jovial contagiante. O garoto sorriu.
— Eu quem agradeço. Volto logo. – apertou as mãos da mulher – Finalmente acabou.
— Sim. – concordou, fervorosamente – Finalmente acabou.
Hinata acredita que está em um sonho. Um sonho muito vívido, porque sente pequenas dores por todo seu corpo, mas, ainda assim, um sonho.
Tenta mover os braços, mas seu membros não obedecem o comando. Está tudo escuro, e a sensação de estar flutuando apenas contribuía para suas impressões. Seus pensamentos estavam um tanto confusos, e ela tinha quase certeza de que seus sonhos não costumavam ser tão conturbados. Geralmente, era apenas um grande apanhado de brilhos e distinções pragmáticas.
Desistindo de se mover, deixou que sua mente mergulhe no sonho. Formas distintas voltam a aparecer, tomando sua atenção. Tentou se lembrar de quando havia dormido – estava se sentindo muito cansada. Lembrou-se, pouco a pouco, das peças que se encaixavam. A cirurgia. Isso, a cirurgia! Tinha sido levada para operar seus olhos, e, se tudo desse certo – ela tentou não criar muitas expectativas quanto a isso – poderia voltar a enxergar.
A cirurgia tinha acabado? Tinha sido um sucesso? Ainda estava operando?
Kami, estaria morta?
Não, aquilo não podia acontecer. Hiromi ficaria arrasada. Além disso, Hinata nunca tinha parado para pensar na vida após a morte, mas tinha quase certeza que suas convicções não incluíam aquele limbo de semi-consciência.
Então, ter morrido durante o procedimento estava fora de cogitação.
E agora? Ainda operavam seus olhos? Não tinha a menor ideia de tempo. Quanto poderia demorar? Ou já teriam acabado?
Tinha dado certo? A confusão estava deixando-a irritada.
Muitas possibilidades passaram por sua mente, uma mais improvável que a outra. Divagou entre desilusões com cores e maneiras que consolar sua mãe quando acordasse e percebesse que de nada tinha adiantado.
Sozinha, e aparentemente sonhando, Hinata sentia-se a vontade para admitir que, desde o primeiro momento, não tinha colocado muitas esperanças naquela pesquisa. Acreditou, e se dispôs a todos os exames, porque há muito tempo não sentia sua mãe vibrando tanto, daquela maneira. Sua voz, seu toque, tudo parecia extasiado. Ela devia à Hiromi aquela tentativa, um motivo para deixá-la confiante.
Entretanto, pessoalmente, não fazia muita diferença. Quer dizer, ela não era hipócrita ou ingrata; não havia palavras para descrever como gostaria de enxergar, e agradecia por todos os esforços de Hiashi. Apesar de conhecer suas motivações, não guardava ressentimentos. Talvez a sinceridade crua tenha sido a chave para começar a construir um relacionamento entre eles. O Hyuuga não tinha escondido suas falhas, porque partiu e nunca entrou em contato, e porque financiava a pesquisa. Hinata não esperava dele nada além do que ele tinha se proposto a oferecer, e isso era bom.
Mas enxergar parecia uma realidade tão distante. Nem toda a tecnologia ou avanços da medicina poderiam convencê-la de que seu quadro era reversível. Ou, talvez, sua mente fosse obtusa demais para se imaginar em um mundo onde pudesse, de fato, ver. Ver as formas, as cores. Ver as pessoas.
Hinata não tinha raiva da sua condição. Já teve, sim, muita raiva do mundo, mas aprendeu a se aceitar como ela era; uma garota com deficiência visual. Isso não a impediu de se tornar uma estudante esforçada, conseguir bolsa em um colégio de renome, treinar em um esporte que amava, ganhar medalhas em campeonatos. Ser parte de um time, ter amigos. Ter um namorado.
Naruto.
Pensar em Naruto deixou o sonho mais brilhante, e ela moveu os lábios para sorrir, sentindo que, ao mesmo aquele movimento, seu corpo obedeceu. Lembrou-se dos momentos anteriores à cirurgia, e como o garoto surgiu, barulhento, perseguido pelos seguranças, gritando no meio do corredor – não conseguiria imaginar uma cena diferença, tratando-se dele –.
O discurso na televisão foi lindo, e corajoso. Sabia quantos sacrifícios Naruto teve de fazer para enfrentar o pai em rede nacional, livrar-se das amarras que o prendiam as suas obrigações familiares. Ele tinha se libertado, tinha se redimido, por ela. Seu coração batia mais forte quando mensurava o tamanho do amor de Naruto – seria algo remotamente próximo ao que ela sentia?
Naruto foi a primeira pessoa a realmente reconhecê-la, quando ninguém mais o fez; uma escola nova, um ambiente novo, hostil, e ele fez com que acreditasse em si mesma e em suas habilidades. Ok, de um jeito peculiar, com a história do Menma, mas como poderia dizer que não entendia seus motivos? Quando levou dois anos para que ele enfrentasse o próprio pai, e por ela? Ele tinha mudado, sabia disso. Qualquer outro detalhe tinha ficado no passado.
Ele tinha corrido para vê-la, e tinha dito que a amava. Perguntou-se, timidamente, em seus pensamentos, se Naruto ainda a amaria se a cirurgia não desse certo. Ele estaria esperando uma namorada normal? Que pudesse enxergar?
Não. Aquele não era Naruto. Seu Naruto estaria esperando por ela quando terminasse, e não se importaria se ainda fosse cega – afinal, ele a amava com a deficiência, e nunca foi um empecilho.
Seu Naruto.
As palavras escorregaram, e tornaram tudo mais brilhante.
De repente, seu corpo, que flutuava, começou a cair. Pesado, seus membros ficaram doloridos, e incômodos. Hinata teve a sensação de que estava para acordar do sonho, mas, quando tentou abrir as pálpebras, tudo continuava escuro. Sem mais brilho, sem mais leveza.
Apurou a audição. O quarto estava silencioso, mas, do lado de fora, escutou passos, e pessoas falando. Tentou movimentar as mãos, mas conseguiu fazer apenas com que os dedos se mexessem. Sua mente estava nublada, e confusa. Lentamente, as sensações voltaram para seu corpo – a rigidez do colchão, o ar gelado do quarto; supôs que estava em um. Significava que a cirurgia tinha acabado.
Estava morta? Possivelmente não, ou nem teria acordado de seu sonho.
De repente, o trinco da porta se abriu. O som parecia reverberar por todas as paredes. Hinata tentou mover a cabeça, mas sentiu pontadas dolorosas.
— O efeito da anestesia estavam passando, acredito que ela já esteja consciente agora. – reconheceu a voz do Dr. Sakoto. Mais passos. Alguém se aproximou da cama, colocando as mãos sobre o colchão – Hinata? Pode me ouvir? – ela ouvia, mas ainda estava tudo tão escuro.
Não tinha dado certo?
— O... – sua garganta estava rouca, e doendo um pouco – Okaa...san?
— Estou aqui, meu amor. – sentiu a pressão quando ela segurou sua mão, apertando-a firme – Está tudo bem agora, querida. – sua voz estava embargada. Seria de emoção? De tristeza?
— Hinata, não se esforce. Você foi submetida à uma anestesia relativamente forte, e pode sentir dores no corpo e na garganta. Aos poucos sua voz vai voltar ao normal. – tentou assentir com a cabeça, mas não soube dizer se tinha conseguido – Hinata, a cirurgia foi um sucesso.
Foi um sucesso.
— Demorou um pouco mais do que esperávamos por conta da posição exata do seu corpo ciliar e o alcance da retina, mas conseguimos reverter o quadro da doença com as células-tronco. – explicou sucintamente, mas as palavras pareciam ser ditas embaixo d’água. Hinata não estava realmente ouvindo – Você está com faixas de pano e gaze enroladas sob os olhos, para a cicatrização. Iremos retirá-las e introduzir seus olhos lentamente à claridade, para observar como eles irão se comportar. Peço que tenha paciência, em alguns dias poderemos fazer testes mais precisos, mas, particularmente, acredito que sua visão deva alcançar quase 100% de funcionalidade. – ele parecia estar sorrindo.
— Ouviu isso, filha? Você vai enxergar! – sua mãe se inclinou para ela, beijando o topo de sua cabeça. Hinata imaginou que ela estaria se debulhando em lágrimas naquele momento.
As frases pareciam não fazer sentido em sua cabeça.
Enxergar?
Ela poderia enxergar?
— Eu... – não conseguiu formular nada.
— Shh, eu sei, meu amor. – Hiromi a abraçou cuidadosamente pelo tronco. O perfume materno, adocicado, igual há tantos anos, fez com que Hinata começasse a tremer – Eu sei.
Hinata tinha certeza que algumas lágrimas surgiram, mas elas não podiam ser vistas.
— Vamos deixá-la descansando, até que o efeito da anestesia passe totalmente. Eu retorno mais tarde para verificar como você está. – o médico se afastou, e Hiromi o seguiu, depois de beijar a testa da garota mais uma vez.
Novamente no silêncio, Hinata não queria dormir; contudo, foi levada pelo cansaço, e voltou a sonhar.
Muito tempo parecia ter se passado quando Hinata voltou a despertar. Ao contrário da primeira vez, quando estava sonhando, e tudo era brilhante, agora dormiu um sono pesado, voltado a se mexer somente quando recuperou a consciência. Arriscou mover os braços, e, apesar do incômodo, não doeu para colocá-lo por cima da barriga.
— Hina? Você acordou?
A voz a deixou repentinamente alerta. Virou a cabeça em direção ao som, ansiosa. É claro que reconheceria aquele timbre em qualquer lugar, mas parecia fazer tanto tempo desde que ouvira pela última vez.
Foi acometida por uma vontade quase irreprimível de levar a mão, procurar pelo rosto dele, acariciar seus traços – mas temia causar alguma dor indesejada com movimentos muito bruscos. Inconsciente, virou todo o tronco, quase chamando-o. Ouviu um farfalhar e barulho de passos. Não demorou mais que três segundos até que sentisse a presença ao lado da cama, e, finalmente, ele segurou sua mão; as coisas voltaram para os eixos.
— Naruto... – sussurrou. Sua garganta estava bem melhor, mas sua voz ainda não passava de um sussurro. A mão livre do garoto acariciou sua bochecha, e ela sentiu a divisória da gaze atada à seus olhos.
— Oi, minha princesa. – o sorriso em sua voz fez Hinata querer chorar. Sua pele era quente, e ele estava tão perto que conseguia sentir o cheiro de seu perfume. Quanta saudade tinha sentido daquele perfume – Como você está se sentindo?
— Estou... bem. – pigarreou, tentando melhorar o volume da voz – Há quanto tempo... eu... você... – ainda estava ligeiramente desorientada, mas Naruto não pareceu se importar.
— Deve ser nove, quase dez da manhã. O dr. Sakoto liberou algumas visitas de madrugada, mas eu deixei sua mãe ficar com você primeiro. Ela precisava te ver. – o carinho com que falava aqueceu seu coração – Eu cheguei há pouco tempo, queria esperar você acordar.
Naruto tinha voltado para o hotel apenas para tomar um banho. Não conseguiria dormir, nem se quisesse; por isso, tomou dois cafés expressos e comeu algumas torradas, apenas por insistência de Kushina. A mulher ficou esperando por notícias, e comemorou quando o garoto contou que tudo tinha dado certo. Não havia sinal do senador no quarto do outro lado do corredor – Naruto achou melhor assim. Nagato também esperou por notícias, e saiu para trabalhar logo em seguida. Naruto agradeceu pelo irmão ter ficado com a mãe.
Com roupas limpas e revigorado, não ficaria um minuto sequer longe de Hinata. Deixou que Hiromi visse a filha, enquanto se arrumava, e, ao voltar para o hospital, já de manhã, fez a mulher ir dormir um pouco. Quando Hiashi passou, acompanhando-a, Naruto estava em tão bom humor que até mesmo chegou a cumprimentá-lo.
O quarto estava muito escuro, mas, depois que seus olhos se acostumaram, o Uzumaki era capaz de identificar perfeitamente a silhueta de Hinata. Seu corpo, tão pequeno e frágil. Seu rosto, coberto por faixas brancas, mas seus lábios estavam ligeiramente curvados. Uma parca luz entrava pelo vão da porta, mas todas as lâmpadas estavam apagadas, e as cortinas, blackout, não permitiam que o sol cruzasse as janelas. Finalmente tranquilo por estar com Hinata, Naruto sentiu-se quase sonolento. Chegou a cochilar um pouco na poltrona, mas despertou quando ouviu Hinata mexer os braços.
— A cirurgia foi um sucesso, amor. – sussurrou, mas foi como o quarto todo reverberasse – Os médicos falaram que você vai poder testar daqui alguns dias.
— E você... está feliz? – murmurou, engolindo em seco. Naruto revirou os olhos para ela, inclinando-se para acariciar o topo de sua cabeça com a mão livre. Seu corpo pairou sobre o de Hinata, e, onde ele tocou, uma onda elétrica surgiu. Hinata sentiu a pressão, o calor, e corou um pouco.
— É claro que eu estou feliz. – roçou os lábios na bochecha da garota – Estou feliz porque você está viva. Estou feliz porque estamos juntos. – frisou, fervorosamente – Sinceramente, eu nunca mais vou ficar longe de você tanto tempo assim.
— Nunca. – concordou, baixo. Naruto distribuiu uma trilha de beijos por seu rosto, e Hinata ficou um pouco envergonhada.
— Por isso, sim, eu estou feliz, muito feliz. Mas não porque você vai enxergar. – aquelas palavras, de algum jeito, se tornaram tudo — Claro que isso é incrível, mas... – sua respiração pairou em frente ao rosto da garoto – Eu amo você. Não vai ser o fato de você enxergar que vai me fazer te amar mais, assim como sua deficiência não me fez te amar menos.
Pareceu simplesmente certo quando Naruto a beijou. Era delicado e comedido, mas cheio de ternura. Não conseguiu erguer os braços para puxar a nuca, como gostaria de ter feito, então apertou sua mão, e ele retribuiu, abraçando-a também pelos ombros. Depois de tantas semanas separados, Hinata sabia que precisaria de muitos mais beijos e toques para suprimir a falta, quase uma abstinência, que sentia dele.
Cedo demais, Naruto se afastou. Hinata deve ter feito uma careta engraçada, com um biquinho de insatisfação, porque ele riu; definitivamente estava bem animado.
— Quando você sarar, nós vamos recuperar todo o tempo perdido, eu prometo. – Hinata sorriu, assentindo. Naruto pareceu se afastar, talvez se sentando na poltrona, mas não soltou a mão dela – Como você está se sentindo? Está com dor?
— Não. Mais... ansiosa. – queria frisar as sobrancelhas, mas elas também estavam enfaixadas – Ver se eu vou... sabe, conseguir. – sua garganta arranhou um pouco.
— Eu sei, amor. Estamos todos na expectativa. Mas, independente do resultado, não quero que se decepcione ou coloque muita pressão em si mesma, ok? Enxergando ou não, você sempre vai ser a garota talentosa, linda, inteligente e perfeita que eu amo. – como ele conseguia dizer aquelas coisas vergonhosas? Hinata riu, sentindo o rosto todo corar. Esperou que estivesse tão escuro para ele quanto estava para ela, para que não visse seu estado – Agora, você vai voltar a dormir e descansar mais.
— Não estou com sono. – reclamou, mas seu corpo estava amolecido e sua mente, pesada.
— Sei. – Naruto riu, acariciando sua mão com o polegar – Sabia que o dr. Sakoto nos chamou quando passou o efeito da anestesia, de madrugada? Ele disse que você estava sorrindo, e já ia acordar. – algo em sua voz parecia achar graça, mas Hinata não se importou em ficar constrangida.
— Estava... sonhando com você. – balbuciou – Você é uma ilusão?
— Não. Eu sou real. – sua risada ficou mais próxima quando ela sentiu os lábios dele sob seu rosto – Todos os dias, eu também sonhava com você. Mas agora eu estou aqui.
Durante os dias que se seguiram, Naruto não saiu do lado de Hinata. A garota dormiu e acordou diversas vezes, enquanto o efeito da anestesia passava completamente. Sua voz também retornou aos poucos, bem como o movimento pleno de seus braços e pernas. Já conseguia se sentar para conversar e comer; ela fez muito isso.
Recebeu tantas visitas quanto poderia – imaginou que Hiashi tinha certa contribuição para que tantas pessoas estivessem, ao mesmo tempo, em seu quarto. Naruto e sua mãe estavam sempre ali, quando ela acordava, até quando cochilasse novamente. Também recebeu seus amigos, e ficou surpresa pela visita.
Sakura chorou e ameaçou bater nela se desaparecesse daquele jeito novamente. Hinata se desculpou, e passou cinco longos minutos abraçada à garota. Ino e Tenten ligaram por videochamada, e foi bom ouvir a voz delas. Sasuke estava junto com a Haruno, e até arriscou um abraço — Naruto não o deixou em paz por isso. Hinata falou com ele, com Gaara e Shikamaru, além de quase toda a equipe de natação, que estavam torcendo por sua recuperação. Ela não sabia que tinha feito tantos bons amigos.
Também falou com Hiashi, e ele prometeu que, em breve, conheceria seus meio-irmãos. Hinata sempre tinha sido filha única, e ficou animada com a possibilidade de irmãos mais novos – um garoto, quase da sua idade, e uma garota, criança. Hiromi sequer pareceu incomodada, e Hinata ficou satisfeita com a nova relação que tinha se formado entre seus pais. Não tinha porque guardar rancor, quando sua vida era tão boa.
Kushina, Nagato e a diretora Tsunade apareceram no terceiro dia, para a surpresa – e vergonha – da garota. Todos eles estavam preocupados, e torciam para sua recuperação. Hinata agradeceu imensamente, e prometeu passar alguns dias na mansão Namikaze quando tudo aquilo acabasse; não tinha notícias do senador, e Naruto, tampouco, falava sobre isso, mas descobriu, quando as enfermeiras vieram lhe ajudar no banho, que a ações da empresa subiram depois do anúncio de Naruto; pelo menos era o que Hiashi comentava pelos corredores.
Hinata não sabia o que esperar do sogro, mas tinha boas perspectivas para o futuro.
Finalmente, uma semana depois da cirurgia, dr. Sakoto anunciou que tiraria as bandagens e as gazes, para o primeiro teste.
A Hyuuga não conseguiu dormir, e tampouco Naruto, que se propôs a ficar com ela durante a madrugada, embora tivesse insistido para ele dormir. Hiromi chegaria nas primeiras horas da manhã, para acompanhar tudo, mas o garoto se recusou a ir para o hotel. Hinata ficava lisonjeada, mas culpada de estar privando-o de algum conforto.
Durante toda a semana, manteve suas expectativas o mais baixo possível. Se conseguisse enxergar, então seria incrível; se não, não se deixaria frustrar. Não ficaria triste, ou decepcionada. Não estava insatisfeita com sua situação, e, por isso, não havia necessidade de se deixar abater, caso as coisas não dessem certo.
Mas temia por sua mãe, e por Naruto.
Não queria que eles sofressem por sua causa. Apesar de dizerem o contrário, sabia como se sentiam quanto àquele momento. Poderia mudar tudo em sua vida. Tudo que conhecia, tudo que era.
Uma vida enxergando. Como seria?
— Bom dia. – o médico cumprimentou, abrindo a porta. Naruto saltou, segurando a mão de Hinata, e Hiromi entrou logo atrás dele. Hinata já era capaz de perceber a luminosidade que entrava do corredor, o que era um sinal positivo – Chegou o grande dia. Preparada?
— Não exatamente. – murmurou, com o estômago embrulhado. Ainda bem que não tinha comido, ou vomitaria tudo em dois instantes.
— Muito bem, vou explicar a condição e poderemos ver como estão as coisas. – sua voz era profissional, mas Hinata identificou uma pontada de excitação – Nós tratamos sua condição com uma solução de células-tronco. Elas podem se transformar em qualquer outra célula, tecido ou órgão do corpo humano, e temos esperança de que elas estejam reconstruindo seu canal óptico. Hoje tiraremos as gazes e iremos avaliar o local da cirurgia, a recuperação, e tentar fazer um teste visual, mas não significa que elas tenham atingido todo seu potencial. Nossa perspectiva é de dois ou três meses. Mesmo assim, qualquer resultado já é extremamente promissor, e devem se lembrar disso. – Naruto apertou um pouco mais sua mão – Hinata, nós adaptamos seu quarto para que a luminosidade não prejudique seus olhos. Eles estão sensíveis, e colocamos uma luz infravermelha especial, que não agride a córnea. Você simplesmente vai abrir as pálpebras e dizer como se sente, mas não force, ok? Vá no seu ritmo.
— Tudo bem. – engasgou. Estava mesmo acontecendo.
— Esse é apenas o primeiro de muitos passos. Pode ser confuso, desorientador e doloroso utilizar sua visão neste primeiro momento, então sinta-se a vontade para fechar os olhos quando quiser. Eles irão lacrimejar bastante, e isso é normal. Se incomodar, ou doer, nós voltaremos com as faixas, então é importante seguir seu próprio ritmo. – sentiu que se aproximavam da cama, e um par de mãos começou a trabalhar em seu rosto.
Os nós de seu estômago deram algumas voltas desagradáveis. Sua percepção, aguçada pela ansiedade, sentia cada volta que as faixas davam, desenrolando-se. Não demorou mais que alguns segundos até que caíssem sobre suas mãos, e fossem recolhidas. Sentiu uma brisa gelada bater em sua pele. Agora, seus olhos eram cobertos apenas pelos curativos, e uma gosma estranha, que o médico tinha explicado ser os remédios de cicatrização.
Também começaram a retirar as gazes, com mais cuidado que antes. Seus dedos flexionaram no lençol, e o perfume de Naruto, próximo à ela, era o que estava lhe tranquilizando. De repente, a pressão macia deixou seu rosto, e seus olhos estavam livres.
Permaneceu com as pálpebras fechadas.
Não iria conseguir.
— Bom, está tudo certo com o tecido. Nenhuma infecção, a cicatrização está ocorrendo bem. Não precisa se preocupar com isso. – dr. Sakoto tranquilizou – Agora, você pode abri-los lentamente. Vai sentir certa resistência, por conta do esforço, então pode voltar a fechá-los quando achar necessário. – incentivou.
Hinata assentiu, sem fazer outros movimentos.
A expectativa no quarto era quase palpável. A luminosidade, que parecia mais presente que antes, desapareceu; Hinata imaginou que alguém teria fechado a porta do quarto, e a luz do corredor tinha parado de entrar. Tentou imaginar, também, como seria o quarto a sua volta – os móveis, as posições. Ela conhecia as formas, pelo tato. O que era quadrado, circular, reto. As texturas da madeira, do aço. Quente e frio. Pensar a deixava mais tranquila, porque ela estava com medo.
— Hina. – sua mãe chamou, apertando sua perna, do lado da cama. A garota balançou a cabeça. Não queria decepcioná-la. Não queria decepcionar ninguém.
— Vá com calma. – o médico a encorajou.
A garota respirou fundo, mas suas mãos tremiam. Não se surpreenderia se estivesse a beira de um ataque de pânico. Sequer pensar em abrir as pálpebras a deixava angustiada. Era paralisante. Todas as possibilidades eram perturbadoras – não conseguir enxergar nada ainda parecia mais tranquilizador que realmente poder enxergar.
Não enxergar era tudo que ela conhecia. Era sua zona de conforto, seu porto seguro. Era o que ela podia esperar, e estava tudo bem. No entanto, de repente mudar isso, não ter o que esperar, era aterrorizador.
— Hinata.
Assustou-se com a voz de Naruto em seu ouvido. Ele sussurrava, provavelmente inclinado contra ela. Tateou até que seus dedo estivessem entrelaçados.
— Respira, meu amor. – a garota respirou fundo, soltando uma risada meio nervosa – Você está pensando demais. Está com medo do que esperar. – bom, era surpreendente como ele a conhecia – E está com medo de decepcionar a gente. – suspirou, e a lufada de ar arrepiou seu pescoço – Não pense. Não pense em nós, não pense no futuro. Se concentre no que você quer. Nos seus instintos. E siga eles.
Afastou-se.
Como sempre, Naruto sempre parecia saber a coisa certa a se dizer.
Imediatamente, Hinata sentiu como um peso saindo de cima de seus ombros. Seus pulmões filtraram o oxigênio mais facilmente, e os tremores pararam. Não pensar. Não pensar. O que ela queria? Quais eram seus instintos? Não o medo, não as expectativas, mas os pensamentos no fundo de sua mente, que ela vinha tentando desesperadamente ignorar, para manter o senso de sobrevivência?
O que aconteceria se seguisse aquele impulso?
Hinata abriu as pálpebras.
Foi difícil, no começo. Estavam grudentas, pegajosas. Os cílios grudaram contra as pestanas, e ela teve de fazer um pouco de força. Não doeu, nem nada, mas estava com medo de fazer um movimento em falso e estragar tudo.
Quando abriu os olhos, foi...
Foi estranho.
O que era aquilo? Não era a escuridão com que estava acostumada. O nada. Era um tipo diferente de preto. Havia algo... de estranho. Não conseguia focar, o que a deixava incomodada. Depois de alguns segundos, começou a doer, e ela piscou uma vez, tentando se adaptar. Não sabia o que estava acontecendo, mas sabia que era diferente.
— Hinata, pode me dizer o que está sentindo? O que está vendo? – dr. Sakoto pediu, com a voz ligeiramente ansiosa.
— Eu... eu não sei, eu... – gaguejou, quase lamuriando. Tornou a piscar, confusa – Não é igual... eu, eu não sei, tem essa coisa, pequenos pontos, como... como granulado... – procurou lembrar-se das experiências extra-sensoriais que pudessem descrever aquele momento. Dos bolos preparados pela mãe, do granulado que escorria por seus dedos, pequenos, minúsculos – Incomoda um pouco, e... eu não conseguir distinguir... – engasgou, fechando as pálpebras novamente, frustrada. Sentiu algo molhado, e percebeu que estava lacrimejando.
— Isso é ótimo! – o médico vibrou, e nenhum deles entendeu – Hinata, você está experimentando uma sensação de embaçamento. Isso significa que seu sistema está procurando se adaptar, depois de tanto tempo em desuso!
Sua garganta se apertou, bem como seus dedos. Se a mão de Naruto estava dormente pela força, ele não disse nada. Permaneceu tão quieto quanto Hiromi, e Hinata se perguntou se era pelo choque, pela surpresa, ou para não pressioná-la.
Tentou novamente.
Piscou, e abriu os olhos.
O granulado parecia se dissolver mais, ainda lacrimejando. Piscou lentamente, e de novo. Estava ardendo, mas ela não queria parar. Tentou focar, e percebeu que a desorientação estava passando, pouco a pouco.
E ela viu.
Era confuso. Não era preto, o preto que tinham descrito, o preto da sua escuridão. Era estranho, ela não conseguiria descrever. Virou a cabeça lentamente. Ela conseguia identificar, mas não completamente. Aquilo era enxergar? Não era nítido. A sua frente, formas indistintas, e seu peito ficou pesado, tentando achar as palavras certas para descrever.
— O que... eu não sei, eu não consigo... – gaguejou, ansiosa – Parece como... não sei, como passar a mão pela tinta, e ela espalhar... – lembrou-se dos quadros da mãe, quando seus dedos esbarravam sobre o líquido pastoso, e o alto relevo permitia que ela percebesse as formas diagonais, confusas.
— Borrões? – foi Hiromi quem murmurou, tão atônita que sua voz não passou de um sussurro.
— Hinata, você está vendo borrões. — dr. Sakoto explicou, quase exultante – Consegue distinguir a mim? Minha forma? Ela parece granulada, desfocada? – perguntou, e um sentimento borbulhante cresceu dentro da garota.
— Sim! Sim, sim, é isso! – concordou, engasgando.
— Consegue distinguir o movimento que eu estou fazendo? – um vulto, do lado esquerdo, para onde sua cabeça estava virada, começou a se mexer. Parte do vulto subia e descia, deixando uma trilha desorientada.
— Para cima e para baixo. – sussurrou, maravilhada. Piscou devagar, com medo de que desaparecesse. Sua cabeça fervilhava – É seu... braço?
— Exatamente, exatamente! Muito bom, Hinata, você está indo muito bem. – o vulto parou e voltou a fazer um movimento mais comedido. O som parecia que estava escrevendo.
Hinata não sabia o que sentir, o que pensar, o que fazer. Era como uma ilusão.
Havia dois vultos, mais próximos a ela. Um menor, pequeno, estranho. Outro maior, em largura.
Seus olhos lacrimejaram, mas talvez porque estivesse chorando. Ela via os vultos de sua mãe, e Naruto.
E era estranho porque ela via cores.
— O que... vocês, o quarto, como... como é... – gaguejou, sufocada pelas palavras e pensamentos que não conseguia dizer.
— Vermelho. – Naruto murmurou. Ela piscou, e o vulto se aproximou de seu corpo, quente – Você está vendo vermelho. É a cor da lâmpada. Por isso nós estamos assim. – sua voz estava carregada de emoção.
Hinata assentiu, engolindo em seco. Aquilo era vermelho? A cor do fogo, a cor do amor. Os borrões que passeavam por seus olhos embaçados eram vermelhos.
Subitamente, o ardor se tornou mais forte, e ela fechou os olhos, triste por ter que fazê-lo. Ainda estava processando o que estava acontecendo, e sua cabeça dava voltas.
— Não se force, você foi muito bem hoje, Hinata. – o médico se aproximou, analisando seu rosto com algo gelado – É normal se cansar e sentir algum incômodo. Mas os resultados são, definitivamente, positivos. Foi pedir para que as enfermeiras tragam um protetor, para seus olhos, mas ele pode ser tirado facilmente. Mais tarde nós tentaremos novamente, ok? – ele se afastou, ainda com um sorriso na voz – Parabéns, Hinata. Você vai conseguir enxergar.
A luminosidade voltou, e alguns passos indicaram as pessoas que saíram da sala.
Você vai conseguir enxergar.
As enfermeiras mal fecharam a porta, e Hiromi desabou em um choro cheio de soluços. Hinata deu uma risada, sem conseguir conter os próprios sentimentos.
— Okaa-san! – exclamou – Por favor, não chora!
Naruto, também rindo, movimentou a cama, puxando Hiromi para um abraço de consolo.
— Eu-eu estou t-tão fe-feliz... – gaguejou, aos soluços.
Hinata sentiu dois pesos sobre seu corpo quando sua família a abraçou, desajeitadamente. Passou um dos braços pelos ombros da mãe, acariciando e dizendo palavras de conforto, enquanto sua mão segurava, firmemente, a cintura de Naruto. A mulher ria e chorava; Hinata sabia como ela se sentia.
Algumas lágrimas escorreram de seu rosto, mas não sabia se eram suas ou de sua mãe.
— Tudo bem, tudo bem... – a mulher respirou fundo, com o riso trêmulo – Preciso ligar para seu pai! Ele vai querer vir correndo, e avisar Kushina, e todo mundo. – afastou-se. Antes de sair do quarto, Hinata sentiu um beijo no alto de sua testa – Eu te amo, minha filha.
— Também te amo, okaa-san. – respondeu, sorrindo.
— Naruto, cuide dela. – orientou, com a voz mandona, e o garoto riu.
— Pode deixar!
A porta bateu, e o quarto ficou silencioso.
Então, Hinata voltou a sentir uma pressão na cama, e, quando se deu conta, Naruto já estava beijando-a, por toda a extensão de seu rosto. Ela riu, com as mãos procurando seus ombros. Sem o medo, e as expectativas, e a falta de resposta, era como se o mundo estivesse brilhando.
— Meu Kami, como eu te amo! – Naruto murmurou, fervorosamente. Hinata, envergonhada, sorriu – Você foi ótima, meu amor. Ótima!
— Eu não consigo descrever a sensação. – sussurrou, extasiada – Naruto, é... é simplesmente inacreditável. As formas, os borrões. Mesmo se for só isso, já é muito mais do que eu sempre sonhei. – desabafou, mas não estava com medo.
Não. Hinata não tinha mais medo.
— Você vai enxergar. – ele segurou seu rosto entre as mãos, delicadamente – Melhor ainda. E vai ver tudo. – era uma promessa.
— Quero tentar de novo. – confessou.
— Hina... – sua voz se tornou hesitante – Não precisa se forçar, você ouviu o médico.
— Não está doendo, eu juro. – se apressou – Só mais uma vez. Só com você.
Naruto não podia, realmente, negar. Suspirando, afastou-se um pouco, ainda sentado na beirada da cama, com o corpo virado para ela. Apesar de ficar em silêncio, seu estômago borbulhava com borboletas e suas asas.
Hinata respirou fundo, e apertou as pálpebras, antes de abri-las, lentamente. Já não grudavam tanto, mas ainda lacrimejou um pouco.
Foi inexplicável.
A forma de Naruto se projetava à sua frente, pairando sobre ela. No início, não distingiu mais do que na primeira vez. Mas, aos poucos, adaptou-se ao ambiente – a luz vermelha —, e começou a percorrer os olhos pelo borrão que se formava.
Os ombros largos. Os braços fortes, apoiados na cama. O tronco, um grande borrão. O rosto.
Ainda estava embaçado, mas Hinata reconheceu a mandíbula, que cansou de acariciar. Por instinto, levou os dedos para percorrer a linha definida mais uma vez. E então, pode enxergar sua própria mão, seguindo seus movimentos, reconhecendo a pele macia. Naruto se aproximou, emocionado, e deixou que ela contornasse cada detalhe em seu rosto.
— Achei que estava sonhando. – sussurrou – É a minha imaginação?
— Você não seria tão criativa. – brincou, mas sua voz estava falhando. Hinata reconheceu o tom abalado de emoção – Aqui. – inclinou-se, beijando o canto de seus lábios – Eu sou real. Você vê? – ansioso, seus lábios se repuxaram em um sorriso. Hinata conseguiu identificar isso.
— Sim. – piscou devagar, e a imagem não sumiu – É real. Eu vejo você.
— Eu vejo você. – Naruto segurou sua mão – Eu vejo você.
E provou que não era uma fantasia.
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