Quimera
38 Extra: Memórias
Notas iniciais
— Eu conheci um garoto cujos olhos me mostraram que passado, presente e futuro são todos a mesma coisa.
Sakura sorriu para si mesma, orgulhosa do que tinha feito. Caminhou pelo corredor direto para seu próprio quarto, o corpo exausto e a barriga doendo de fome. Ainda assim, continuou a rir sozinha, lembrando-se da cara de desespero de Hinata. A Haruno tinha dito a verdade – não queria um Naruto irritado batendo na sua porta em plena madrugada. Concordou, então, em deixar que os pombinhos se divertissem, enquanto lamentava, sozinha e abandonada, a própria vida amorosa fracassada.
Claro, aquilo lembrava outra coisa.
Suspirou, todo e qualquer vestígio de bom humor sendo substituído pelo receio. Sabia o que encontraria dentro de seu dormitório, e não estava pronta. Ela nunca estava pronta, embora tivesse alguns anos de vantagem na mala. No entanto, não agiria como uma covarde – engoliu em seco e disfarçou, abrindo a porta com seu cartão de acesso. Entrou, e se perdeu na silhueta que estava sentada sobre a cama.
Ele também a encarou.
2003
Não estava calor suficiente para ser verão, nem ventando o bastante para ser primavera. Todas as janelas do pequeno bloco estavam abertas, iluminadas pelo sol. As crianças – lindas e irritantes crianças – corriam pelo tapete acolchoado, jogando brinquedos de pelúcia e interagindo umas com as outras. A escola primária cuidava primorosamente do ensino básico e do divertimento de uma turma pequena – e ruidosamente energética.
Sakura esperava do lado de fora, as mãos agarradas desesperadamente em sua boneca. Viu a avó conversar com uma mulher desconhecida. Elas falavam palavras estranhas, e a garota sabia que não queria ficar – mas também ia chorar mais. Sua avó voltou, se agachando e acariciando sua cabeça, beijando-a dos dois lados da bochecha e pedindo que se comportasse. Em seguida, a mulher desconhecida – mais nova e mais bonita – também se abaixou, sorrindo. Sakura não sabia se gostava daquele sorriso.
Era nova demais para entender porque seu quarto era diferente, e porque o bairro onde moravam não era o mesmo, ou, também, porque seus amigos da escola tinham desaparecido. Ela só sabia que seus pais passavam muito tempo no hospital, fazendo coisas de adultos. E aquela casa era muito grande e muito colorida.
A mulher pegou sua mão, a levando para dentro. Tinham outras crianças, do seu tamanho, correndo de um lado para outro, gritando e brincando. Assustou-se, agarrada imediatamente na perna da maior, tentando se proteger. Elas pararam para lhe fitar, e Sakura não gostou de como fizeram isso. Suas chiquinhas estavam desajustadas? Seu macacão estava fora do lugar? Elas queriam tomar sua boneca?
— Não se preocupe, querida. – a mulher tinha um carinho quente, e a fitou com compaixão, embora não pudesse identificar isso naquela época – Aqui tem vários coleguinhas para você. Que tal se enturmar um pouco? – sugeriu.
Sakura assentiu devagar, dando dois passos hesitantes. Alguns ainda a encaravam, e tudo era alto demais, barulhento demais. Sem saber o que fazer, continuou caminhando. Duas garotas se aproximaram, junto com um garoto. Tímida, ela esperou que dissessem alguma coisa.
— ‘Tá aqui por que? – perguntou uma das meninas.
— Minha vó me trouxe. – respondeu, acanhada. A tiara que prendia sua franja para trás começou a escorregar.
— Seu cabelo tem uma cor engraçada! – outra exclamou, tocando em uma das mechas soltou. Sakura ficou magoada; ela gostava do cabelo cor-de-rosa, porque combinava com seus brinquedos. Baixou os olhos, sem saber o que responder.
— Eu adorei!
Se virou para a voz estranhamente escandalosa que veio de trás de suas costas. Surpresa, viu dois garotos vindo. O primeiro, que tinha gritado, tinha o cabelo amarelo e roupas laranjas estranhas. Ele parecia agitado, sorrindo. Sakura também sorriu para ele, porque ele a tinha defendido. Atrás dele, veio outro, quieto, quase como que arrastado. Usava roupas todas pretas, e olhava para o chão, como ela. A rosada sentiu-se curiosa para saber mais sobre ele.
— Ela vai brincar com a gente! – exclamou, segurando na sua mão de repente. Sakura se assustou, e deixou que ele a rebocasse para o outro lado da sala, tropeçando em seus pézinhos. Aquele garoto era estranho, mas ela gostou dele. Quando chegaram a um monte de almofadas, sentaram no chão, rodeados de brinquedos – Não liga para aqueles chatos! – ele deu a língua. Sakura riu – Qual seu nome?
— Sakura. – respondeu.
— Eu sou Namikaze Naruto! – apontou para si mesmo com o dedão – E esse é o Sasuke! – apontou para o outro. Sakura esperou que ele dissesse alguma coisa, mas, como sempre, continuou olhando para o chão, calado. Em vez disso, Naruto que preencheu o silêncio – Aqui, pode brincar com os nossos brinquedos!
Sakura admirou a quantidade de carrinhos, naves, bonecos e pecinhas de encaixar que eles tinham. Apoiou a boneca contra suas pernas, e, tímida, pegou um carrinho com um piloto, passando pelo chão. Aprendeu rápido que Naruto era hiperativo, sempre rindo, gritando e gesticulando. A professora – a mulher desconhecida do corredor – vinha sempre para tentar acalmá-lo; era engraçado. Mas Sakura também observava Sasuke. Ele falava pouco, quase todas as vezes apenas com Naruto. Não se sentiu triste por ser ignorada; ele tinha algo.
No dia seguinte, Sakura chegou de manhã, com as outras crianças, e encontrou Naruto logo de cara. Ele vinha rebocando Sasuke, sonolento. Os três se uniram para brincar mais, assim como no dia seguinte, e no outro depois dele. Sakura sabia que gostava daqueles garotos, e eles não deixavam que ninguém implicasse com ela. Sasuke passou a interagir, e a garotinha nunca se esqueceu das vezes que eles trocaram algumas palavras enroladas.
Ela fechou a porta atrás de suas costas, com um suspiro e sem se virar. Ele era tão lindo que chegava a doer. Sentado em uma das camas, tinha a cabeça baixa, com os ombros relaxados. Provavelmente não estava tão nervoso quanto ela. Usava roupas casuais, que – Kami abençoe – caíam muito bem nele. Seus ombros não eram tão largos, seus músculos não eram tão grandes, mas, de alguma maneira, Sakura o achava perfeito.
A noite seria longe demais para sua própria sanidade.
— Sinto muito que precise fazer isso. – murmurou, passando para o outro lado sem fitá-lo nos olhos. Ele ergueu o rosto, sem aparentar irritação.
— Não entendi o que quis dizer. – respondeu calmamente – Acho sua companhia absolutamente agradável. – as palavras saltavam naturalmente de sua boca, o que, de certa forma, fazia seu coração doer mais ainda.
— Ah, Sasuke. – suspirou, baixo. Em seguida, estendeu o braço até o telefone – Vou pedir o jantar para nós, tudo bem? – ele assentiu, um tanto alheio. Uma vez que ambos tinham cedido seus companheiros, e quartos, para os amigos ficarem juntos, seria lógico que passassem a noite no mesmo dormitório, para que ninguém, principalmente os professores, descobrisse. Sakura já devia estar acostumada a se sacrificar para suas amigas se darem bem.
Enquanto esperavam, foi até o banheiro, trocar de roupa. Colocou um pijama confortável, de algodão – de fato, sua mala continha algumas opções favoráveis, mas, àquela altura do campeonato, ela já tinha desistido da ideia de seduzir Sasuke. Estava conformada, apesar de tudo. Riu sem humor, voltando para o quarto com as roupas dobradas de qualquer maneira. O garoto tinha recostado na cama, de olhos fechados e feição tranquila. Sakura engoliu em seco, admirando seus traços equilibrados – era injusto que ele não colaborasse.
Sasuke ouviu a movimentação no quarto, e abriu os olhos. As ônix encontraram diretamente seu rosto, e, enquanto ela corava, ele sorria, um sorriso que poucos tinham tido a sorte de presenciar.
2007
Sakura e Sasuke esperavam na sala, de cabeça baixa. A grande mansão Namikaze era assustadora, não importava o quanto olhassem. A garota, principalmente, nunca tinha consegui se adaptar com todas aquelas paredes vazias e os cômodos escuros. Mesmo ao lado de Sasuke, ela ainda sentia medo – mas não tanto quanto estava preocupada.
Naruto tinha entrado com o pai no escritório. Sakura não conhecia o grande senador Minato muito mais que seus eleitores – ele quase nunca estava em casa. Naquela tarde, brincavam no jardim de Naruto, porque ele tinha os melhores brinquedos e a casa na árvore mais legal. No entanto, o senador chegou, com uma mala pesada e o rosto sério. Chamou o filho com voz de trovão, e Naruto, o sempre alegre e hiperativo Naruto, ficou paralisado na mesma hora. O seguiu, com os olhos baixos e a postura diferente. Aquela foi a primeira vez que Sakura viu a cena acontecer – não ia ser a última.
Sozinhos, foram obrigados a esperar sentados no sofá. Se tornaram inseparáveis desde a tenra idade, e agora estudavam juntos de novo. Os laços de amizade se estreitaram, e Sakura era feliz, apesar de tudo. Tinha bons amigos, seus melhores amigos. Sasuke, ela aprendeu, era naturalmente tímido e introvertido, mas absurdamente leal para com eles – ela também não sabia como ele e o loiro eram amigos, sendo tão diferentes, mas eles funcionavam.
— Será que aconteceu alguma coisa? – perguntou, em um sussurro, como se compartilhassem um segredo muito importante. O garoto a olhou, com os fios caindo por seus olhos em um corte caseiro engraçado, mas não feio. Nunca feio.
— Acho que não. O senador só queria conversar com o Naruto. – franziu os lábios finos em uma careta. Talvez conhecesse Minato-san melhor que ela, e por isso parecia tão calmo. Mesmo que fosse uma fachada.
Eles tinham noção de como as coisas na família Namikaze funcionavam. Kushina era uma pessoa maravilhosa, uma mãe dedicada e sempre presente – ela brincava com eles e fazia lanches de tarde. Nagato era engraçado, e eles sempre admiravam as histórias que ele contavam do ensino médio. Mas Minato – bem, Minato era o senador famoso da televisão. Quando ele chegava, as coisas mudavam. Era como se Naruto se transformasse em outra criança; mais sério, mais comportado, mais orgulhoso. Sakura não gostava quando isso acontecia, e, assim como o amigo, ela tinha medo do senador.
Ela torceu os dedos na barra do seu vestido, já parcialmente sujo de terra. Deu um pulo no sofá quando ouviu a porta destrancar. De dentro, saiu o senador, com Naruto em seu encalço. Algo parecia errado, porque ele tinha os olhos vermelhos e o rosto inchado. Minato tinha as mangas levantadas até os cotovelos e rosto de poucos amigos. A rosada encolheu-se. O homem começou a andar em sua direção, os olhos saltados e a boca crispada.
Sasuke se pôs de pé. Sakura acreditou que fosse pelo instinto, uma reação impensada. A medida que o homem avançava, na direção dos garotos, era como se o Uchiha crescesse. Sakura ficou encolhida, assustada, e ele na sua frente. Ela nunca tinha visto algo assim. Seus braços pareciam firmes e estendidos, bloqueando sua visão. Sasuke a estava defendendo – garantindo sua segurança diante da ameaça que apenas crianças de sete anos imaginavam.
Sakura não soube dizer porquê ele fez isso. Se foram os olhos raivosos do homem, em seu curso, ou se Naruto, tremendo, no canto da sala. Quaisquer que fossem os motivos, Sakura jamais se esqueceria daquele dia. Quando Sasuke se prostrou a sua frente, pronto para defendê-la com seu corpo minúsculo. Talvez ela devesse imaginar que, desde aquela época, o garoto tivesse desenvolvido um senso de proteção fraternal para com ela.
— Gostei do pijama. – Uchiha Sasuke podia ser debochado, irônico ou irritadiço. Mas ele nunca mentia; ele nunca mentia para ela.
— Obrigada. – murmurou. Torceu os dedos, assim como criança, e se acomodou na outra cama, sentindo o colchão se moldar contra seu corpo cansado.
— Você parece exausta. – ele comentou, olhando em sua direção. Seus pés sem meia enroscavam no lençol.
— Eu me sinto exausta. – reclamou, desatando a falar – É cansativo tentar manter vocês, atletas, juntos. Fazer a checagem de todo mundo o tempo todo, conferir as inscrições de todas as provas, correr de um lado para o outro nos treinos, aguentar a Ino surtando pelas coreografias. – soltou uma risada anasalada, enquanto listava – Sinceramente, eu não sei porque aceitei ser a presidente. – soltou a respiração pesadamente, massageando as têmporas.
— Você é a melhor para o cargo. – Sasuke comentou, parecendo sorrir – Está fazendo um trabalho fantástico. Sempre acreditei no seu potencial.
Cara, aquilo doía.
2015
Ter quinze anos era uma droga, na opinião de Sakura. Ela era uma das mais velhas da sua turma, e quase todos seus colegas estavam viajando com os pais, nas férias. Mesmo assim, havia uma quantidade considerável de pessoas na sua festa, em um salão chique, com uma decoração chique. Seu vestido chique pinicava, e ela não se sentia confortável com a maquiagem, embora admitisse que tinham feito um bom trabalho.
Ter quinze anos significava estar mais perto do primeiro ano. Ela estava tremendo com a possibilidade de entrar no internato caro que seus pais tinham proposto. Não queria se separar dos melhores amigos – a avó de Naruto era diretora, então isso não seria problema; no entanto, Sasuke estava realmente preocupado, e passou quase dois meses imerso em estudos para a prova de aptidão, embora tivessem garantido que, se sua família pudesse pagar as mensalidades, então ele já estava dentro.
Sasuke queria orgulhar seus pais. Queria ser tão incrível quanto seu irmão. Foi por isso que Sakura esperou. Esperou até seu aniversário, até os exames terem passado. Ela esperou para revelar a ele seus verdadeiros sentimentos.
Quer dizer, ela entendia o porquê dele nunca ter descoberto sozinho. Sasuke não via nada além da sua grande amiga, sua irmãzinha, a garota que andava com eles. Não era realmente sua culpa. O problema era que até mesmo Naruto sabia – Sakura foi obrigada a contar quando ele a pediu em namoro com um anel de máquina de chiclete, e, desde então, o loiro criava as mais inúmeras piadas internas para deixá-la com vergonha –. Ela teve esperança, por longos dez meses, que o moreno percebesse sozinho, e a poupasse da humilhação completa. Isso não aconteceu. Ela não queria mais esconder, entrar em uma nova fase da sua vida sem que Sasuke soubesse como ela o amava do fundo do seu coração adolescente.
O salão ficou abafado, e ela saiu para o jardim. Respirou fundo, controlando um possível ataque. O lugar era lindo, com luzes noturnas e uma fonte convencional. Quis tirar os sapatos de salto que apertavam seus pés, mas sua mãe surtaria. Em vez disso, ficou observando as estrelas, tentando decidir o que fazer. Foi quando ela ouviu passos atrás de si, desmanchando as folhas secas.
Pensou ser Naruto, procurando por ela, preocupado. Mas reconheceu aquele perfume.
— Estão todos esperando por você. – sua voz era baixa e contida. Ele vinha com as mãos nos bolsos do smoking elegante; provavelmente seus pais o obrigaram a usar. De qualquer maneira, estava muito bonito.
— Precisei respirar um pouco. – respondeu, com a boca seca. Se virou para ele, e a luz iluminou parcialmente seu rosto. Era agora ou nunca – Olha, Sasuke, que bom que você veio aqui. Tem algo que eu preciso te falar. – torceu os dedos, uma mania velha. Seu estômago dava voltas, e ela sentia que ia vomitar, ou cair.
— Claro. – concordou, se aproximando até que pudessem se ouvir através de sussurros. Não ajudou muito a controlar seu nervosismo.
— Hm, eu queria te, q-quer dizer, falar para você, hm, sobre como eu me s-sinto... – gaguejou vergonhosamente. Parou. Respirou fundo – Euqueriadizerqueeugostodevocê.
— Perdão? – fez uma careta. Sakura quis chorar de nervosismo.
— Eu gosto de você. – murmurou, sem fitá-lo no rosto. Pronunciar aquelas quatro palavras foi mais difícil do que tinha pensado.
— Bem, eu também gosto de você. – ele estava confuso. Sakura irritou-se, sentindo borbulhar e lhe dando uma dose extra de coragem para erguer o rosto e começar a gesticular furiosamente.
— Não! Não assim! Poxa, para alguém que é considerado um gênio, você é bem lerdo. – grunhiu – Eu gosto de você, eu gosto gosto de você. – enfatizou – Eu gosto de você de estar apaixonada por você. – pronto. Ali estava – Eu gosto de você há muito tempo, e eu nunca tive coragem de dizer antes, mas eu estou dizendo agora, porque eu já tenho quinze anos, e eu não queria começar uma nova fase da minha vida mentindo para mim mesma. Eu gosto de você, Sasuke. – terminou o monólogo ofegante, com o coração batendo desenfreadamente.
O silêncio voltou a ser preenchido pela música que vinha de dentro do salão. Sasuke pareceu abrir e fechar a boca várias vezes, provavelmente pensando na melhor maneira de lhe dar o fora. Sakura quase riu. Voltaria atrás – isso, diria que era uma brincadeira. Não queria que o clima ficasse ruim, e, se porventura Sasuke se afastasse, Naruto iria com ele. Não estava pronta para perder dois melhores amigos; ter Sasuke pela metade era melhor do que não tê-lo.
— Sakura, eu... – ela se virou rapidamente. Sasuke suspirou pesadamente, parecendo estar em conflito – Eu agradeço muito seus sentimentos. – escolheu as palavras cuidadosamente. Ela fungou, envergonhada. Sasuke se aproximou, tocando seus braços com a ponta dos dedos. Sakura pulou, surpresa – Você sabe que eu te considero muito. E por isso eu não acho justo te dar esperanças, quando eu não posso retribuir o que você sente, na mesma intensidade. – sua voz parecia urgente e firme. Sakura segurou o choro, assentindo devagar – Preciso me concentrar nos estudos, para poder herdar as empresas um dia.
Sakura identificou uma pontada de emoção em sua voz, e se surpreendeu. Não sabia se aquilo a deixava melhor ou pior. Não parecia um fora propriamente dito – talvez Sasuke fosse gentil demais para isso. De qualquer maneira, o que estava feito, estava feito. Ela se declarou, e ele – gentilmente – a rejeitou.
— Ei, ei, calma. – Sakura não percebeu que seus ombros tinham começado a tremer. Ela fungou novamente, limpando as lágrimas no canto dos olhos para que não borrassem a maquiagem.
— N-Não quero que você s-se afaste. – gaguejou, murmurinhando. Ele a abraçou com delicadeza pela cintura, consolando-a no escuro.
— Eu prometo que não vou. – garantiu. Por algum motivo, ela acreditou – Você é uma garota incrível, Sakura.
— Você acha mesmo? – choramingou, débil.
— Acho. – garantiu, sincero – Você é inteligente, sagaz e determinada. Eu não duvido de você, nem por um momento. Vai fazer grandes coisas, e vai se tornar uma mulher maravilhosa. Mais do que já é. – ele estava sendo tão cru, tão direto, que ela não pôde deixar de sorrir. Agradeceu por estarem afastados, a meia-luz, assim ele não poderia ver como estava vergonhosa – Eu vou ser muito sortudo se continuar a te ter do meu lado. Não se esqueça disso.
Sakura ficou sem palavras por um instante. Seu coração batia desenfreadamente. Não foi de todo ruim – teve coragem para se declarar, e Sasuke tinha sido gentil. Ele realmente gostava dela, e, como disse, talvez não da mesma maneira que ela se sentia. Agiu como um cavalheiro, afinal.
Aconteceu muito rápido. Abraçados, ele apertou ao redor de sua cintura, aproximando-se devagar. Uma lufada quente atingiu seu rosto, e, paralisada, sentiu os lábios macios contra os dela. Durou um ínfimo segundo – e pareceu como se fosse a eternidade, o seu primeiro beijo.
— Feliz aniversário, Sakura.
— Eu estou morrendo de fome. – resmungou, atendendo a porta quando bateram.
Voltou para o quarto com duas bandejas. Sasuke se apressou e a ajudou. Sentaram-se nas camas, abrindo os pratos. O cheiro se instalou, e comeram em silêncio, comentando uma ou duas coisas triviais. Sakura fingiu que estava tudo bem – como já vinha fingindo há algum tempo. Não era difícil fingir, depois de treinar muito.
— Ah, agora eu estou bem. – suspirou, se jogando na cama. Sasuke soltou algo como uma risada.
— Como você acha que eles estão? – o garoto perguntou, reunindo as bandejas, agora vazias, e empilhando perto para o serviço de quarto. Sakura franziu a testa, com a mesma curiosidade.
— Provavelmente fazendo algo muito bom. – soltou um risinho. A noite caiu, e as luzes amarelas eram as que iluminavam o quarto. No fundo estava feliz. Naruto e Hinata mereciam uma chance de se acertarem definitivamente – Acho que vai dar tudo certo com eles. Apesar da loucura de como se conheceram. – comentou.
— O Dobe pode ser complicado quando quer. – retrucou, e ela o imaginou revirando os olhos – Essa história de fingir ser outra pessoa ainda vai arranjar problemas para ele.
— Só espero que ele conte do jeito certo, ou eu vou ter que bater nele. – grunhiu.
— Ele amadureceu muito durante esse tempo. – Sasuke continuou a defender o amigo, mas aquilo já era normal – O amor muda as pessoas.
Sakura se virou, ainda deitada. Apoiou a cabeça contra o braço, e abriu os olhos. Sasuke estava sentado ao seu lado, os pés para cima, pensativo. Admirou seu perfil, mas suas mãos suavam. Ela não sabia mais se estavam falando sobre Naruto e Hinata.
— Ele muda mesmo. – concordou. Ele se virou, até seus olhos se encontrarem. Não quebrou o contato, tentando adivinhar quais pensamentos o atingiam. Talvez os mesmos que os dela.
Havia tantos sentimentos naqueles olhos. Ela os conhecia, os entendia. E não sabia se aquilo a confortava ou a machucava mais ainda. Antes, pensava que seria ruim nunca ter Sasuke. Então, ela o teve, e era muito mais doloroso; ela sabia como era, mas não o podia ter todos os momentos. O teve por um instante breve, mágico. Era uma boa memória.
— Você está bem? – ele perguntou, ainda a fitando diretamente. Sasuke nunca tinha medo. Sakura assentiu, devagar. Estava conformada, apesar de tudo. Ele era seu melhor amigo de toda a vida, e seu coração estava bem com isso.
2017
Sakura saiu irritada pelo corredor. Naruto era muito folgado! Onde já se viu, empurrá-la para fora do seu dormitório, e expulsá-la? Ora, ela lhe daria uns bons tapas para aprender. Bastou dar um pouco de confiança e o idiota, completamente apaixonado, já começava a abusar da sua boa vontade. Teria que ter uma boa conversa com Hinata, e avisá-la para ficar longe daquele atrevido.
Não teve muitas opções. O sol de domingo estava estalando, quente. Poderia ter ido para o quarto de Ino e Tenten, contudo, quem ela estava tentando enganar? É claro que seus pés a levariam somente para um lugar. E não, não seria pela sugestão abusada e sem fundamentos de Naruto.
Bufou, irritada. Na ala masculina, evitou fazer barulho, e despertar a fúria da diretora Tsunade em pleno fim de semana. Parou diante da porta certa, como tantas outras vezes, e entrou, sem bater. Como esperava, o encontrou deitado em sua cama, lendo alguma coisa. Quando fechou, ele desviou os olhos apenas para cumprimentá-la.
— Naruto conseguiu, então? – perguntou, um tanto debochado. Sakura revirou os olhos, se jogando no chão, entre as almofadas.
— Ele teve a cara de pau de me jogar para fora do quarto. – reclamou.
— Quando eu sugeri que ele aproveitasse para se aproximar da Hyuuga, não imaginava que ele realmente faria isso. – comentou.
— Ideia genial, Sasuke! – zombou. Ele riu, tranquilo.
Sakura conhecia aquele quarto como seu próprio. Desde o primeiro ano, passava algumas noites ali, jogando conversa fora, brincando. Eram inseparáveis, os três amigos. Tinham diferentes laços de amizade, mas nunca deixaram de ser, bem, eles. No entanto, há algum tempo que não se reunia sem que Naruto estivesse presente, com suas piadas fora de hora e sua hiperatividade. Estar sozinha com Sasuke a deixava tensa. Mesmo depois de tanto tempo, ele continuava a influenciar suas emoções, reações. Era irritante, sobretudo depois de ter se tornado a garota que desejava ser – segura de si e independente.
Ela já tinha duvidado de si, mas não mais. Conseguiu ser presidente apenas no segundo ano, e estava sempre com eles, torcendo, organizando, cuidando de seus dois melhores amigos inconsequentes. Desde o primeiro ano – e todas aquelas lembranças que a perseguiam –, fingiu para Sasuke e Naruto, e todas as pessoas, que tinha superado seus sentimentos, e aceitado ser a boa e velha amiga, a irmã mais nova. O beijo, é claro, foi perturbador. A marcou para sempre, e era disso que ela se alimentava, quando seu corpo resolvia agir como uma adolescente cheia de hormônios.
Ficaram em silêncio. Ele deixou o livro de lado, escorrendo para baixo. Estava sem camisa, apenas de bermuda – abençoado seja –. Esticou as pernas, e elas tocaram as da garota. Ela fingiu que sua pele não tinha arrepiado. Fingir, fingir, fingir.
— Bom, já que fui expulsa do meu quarto, vou ter que ficar aqui. – explicou, em forma de desculpas.
— Sinta-se à vontade para ficar o tempo que quiser. – seus olhos escureceram.
Não era justo. Sempre que Sakura convencia a si mesma de que conseguia lidar com aquela situação, ele dizia coisas daquele gênero. Como se sentisse prazer em lhe dar falsas esperanças, pisar em seu coração.
— Isso não é legal, sabe. – murmurou. Ele a fitou, as sobrancelhas erguidas.
— Não sei sobre o que está falando.
— Você disse que não podia retribuir meus sentimentos. – sua voz se fez baixa.
Sasuke a fitou, sem responder. Era a primeira vez que tocava naquele assunto, depois de dois anos. Não soube porque falou – só falou. Precisava colocar para fora, ao menos naquele momento. Ficaria feliz em voltar a fingir depois, todavia, por um instante, ela queria ser sincera. Queria que ele soubesse que nunca tinha deixado de amá-lo.
— Eu disse que não podia retribuir seus sentimentos na mesma intensidade, naquela época. – suas palavras a tingiram. Ele se aproximou, sentando-se ao seu lado. Seus rostos estavam perigosamente próximos.
— Falando assim, você até me dá alguma esperança. – o sarcasmo era sua defesa; Sasuke não se abalou – Seja sincero. Você só me vê como sua melhor amiga, porque crescemos juntos. – recriminou a vontade de chorar.
— Ah, Sakura. – suspirou. A voz rouca lhe deu arrepios – Eu te vejo muito mais do que isso.
Ele estava perto o bastante para que ela não pensasse mais. Apenas deixou que o momento seguisse seu curso. Era o que ela queria, afinal – para quê lutar? Deixou que aqueles lábios finos a capturassem uma nova vez. Que as sensações voltassem, as pernas bambas, o estômago em borboletas. Ficou feliz que ninguém o conhecesse com ela; se o fizessem, também se apaixonariam. Sasuke segurou seu rosto com delicadeza, enquanto a beijava como ela sempre sonhava.
Ele era sério, comprometido. Tinha as melhores notas, era exemplar, e queria ser motivo de orgulho para sua família. E Sakura respeitava isso. Não seria necessário implorar para que ele explicasse seus sentimentos, ou que os assumisse. Porque ela entendia.
Combinaram não contar a Naruto, pelo menos não ainda. De qualquer maneira, ele não perceberia, distraído o suficiente com Hinata – que, finalmente, amolecia seu coração. Aquele seria seu pequeno segredo, e, depois daquele dia, voltariam a se tratar como sempre fizeram.
— Todo mundo diz que você não tem coração. – riu, baixo – Que é frio, insensível. Eu acho isso engraçado. As pessoas não conhecem você. – pensou ser efeito da barriga cheia, e do sono. As palavras saíam enroladas. Sasuke pareceu pensar por um minuto, e seu rosto tinha uma careta agonizada.
— Eu sinto muito, Sakura. – sua voz parecia culpada. Ela se sentou rapidamente.
— Não! – exclamou, depressa – Não tem pelo que se desculpar, Sasuke. Você não fez nada. – insistiu. Sasuke se levantou, agachando entre os espaços da cama. Seus rostos ficaram na mesma altura.
— Sempre deixei você de lado, de escanteio. Nunca te dei o devido valor, ou assumi o que realmente sentia. – aquele desabafo a pegou de surpresa. Ela sorriu, acariciando seu rosto com a ponta dos dedos.
— E eu nunca pedi por isso. – rebateu, terna – Sasuke, eu nunca exigi nada de você. Eu estou feliz da maneira que estamos. – talvez fosse uma meia-verdade, talvez não.
— Você merece mais. – disse, convicto. Sakura se emocionou.
— Eu tenho tudo que eu preciso. – seu coração batia forte. Se antes ela tinha dúvidas, ali estava sua confirmação. Quem sabe ainda precisasse fingir para as outras pessoas; entretanto, não precisaria fingir mais para si mesma – Eu tenho tantas memórias boas de nós dois. – soprou, sorrindo – Só dói quando eu te vejo e não posso te ter.
— Se serve de alguma coisa, também dói em mim. – murmurou.
Sakura sorriu. Se inclinou, o beijando. A posição era desconfortável, mas ela se sentia nas nuvens. Quem sabe aquela fosse sua maneira de lidar com as coisas. Não precisariam de muitas palavras – Sasuke também era tímido, apesar de tudo. Como aquela criança que a recebeu, que a defendeu, aquele garoto que lhe deu o melhor presente de todos. Pelo menos por uma noite, eles se entendiam do seu jeito – sem dizer nada. E fazia tudo valer a pena.
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