Quimera

39 Nacional


Notas iniciais
PODEM BAIXAR AS LANÇAS QUE EU ATUALIZEI AQUI TAMBÉM VIU LINDOS e ai como estão? askdjksajd aaaa eu amo vocês as reações na minha outra fic foram MARAVILHOSAS mas como cobrança é dívida vim correndo atualizar quimera minhas aulas voltaram :( então só posso escrever em pequenos intervalos mas prometo tentar não demorar EU IA ESCREVER TUDO DE UMA VEZ mas ficou enoooorme então como sempre eu dividi rs não queria que a fic ficasse tão grande mas foi acontecendo e acontecendo, juro que tá nas retas finais!! obrigada por todo o apoio, vocês são sensacionais ♥

— Por não escolher lados, a vitória é cega.

Naruto soltou um longo e preguiçoso bocejo, contorcendo-se nos lençóis. Demorou alguns segundos para perceber que estava nu, e, então, baixou os olhos para a outra criatura que ainda dormia tranquilamente em seu braço letárgico. Sorriu terno. Hinata não tinha acordado com toda aquela movimentação. As pálpebras fechadas ressaltavam os cílios longos, tão escuros quanto o cabelo que se estendia como uma cascata no travesseiro. A pele alva estava deliciosamente corada, e sua respiração era regular. Naruto percebeu que poderia ficar horas a fio admirando cada detalhe daquela garota.

Suspirou. Pessoas como ele não mereciam a sorte que tinha. Hinata era perfeita – ele não a merecia. E, mesmo assim, na noite anterior ela se entregara completamente a ele. Dividiram algo profundo e inexplicável, e, agora, Naruto apenas não conseguia ver como prosseguir sem ela. Era um anjo, dormindo tranquilamente nos braços de um mero pecador. Ele passaria a vida toda tentando se redimir pelas coisas que havia feito, pelos erros que havia cometido.

Olhou no celular, e viu que ainda era muito cedo. Os atletas aproveitavam os últimos minutos de sono antes de começarem a se preparar para as competições nacionais. Pensar na disputa não fez seu coração cair para o estômago. Confiava em seu time, e tinham uma boa qualificação – ou talvez fosse a garota ao seu lado, que conseguia tranquilizá-lo mesmo dormindo. Voltou a recostar na cama, acomodando-a mais para perto. Já totalmente desperto, continuou a encará-la, acariciando, vez ou outra, sua bochecha. Não que houvesse parâmetro de comparação, mas Naruto jamais tinha experimentado algo parecido com Shion. Percebeu, tarde demais, que tudo que tinham era baseado em uma relação vazia de exibicionismo e sexo.

Hinata espreguiçou-se como uma gata, abrindo os olhos e piscando. Jogou as pernas para o lado, estalando alguns ossos. Não pareceu desorientada. As pérolas continham um brilho travesso, e Naruto jurou nunca ter visto nada tão belo. Ela tateou pela cama, os dedos percorrendo seu peitoral nu e causando alguns arrepios agradáveis. Por fim, deu-se por satisfeita, repousando em seu ombro.

— Bom dia. – Naruto cumprimentou, soprando. Ela sorriu.

— Bom dia. – fez um barulho ininteligível enquanto se virava – Dormiu bem?

— Maravilhosamente. – sua voz transmitia o tamanho de seu sorriso naquele momento – E você?

— Muito bem. Não queria sair daqui hoje. – resmungou.

— Acredite, Hime, eu também não. – encostou o nariz contra seu cabelo, inspirando. Suas mãos apertavam a base de suas costas possessivamente – Mas nós precisamos ir lá e ganhar um troféu grande e brilhante, lembra?

— Deve ser bom acordar com toda essa confiança. – riu.

— Você é meu amuleto da sorte. – beijou seus lábios rapidamente, e a assistiu enrubescer.

— Estarei na primeira fila torcendo por você. – garantiu.

— E eu vou gritar mais que todo mundo quando você chegar em primeiro. – retribuiu a carícia, puxando-a até que seus braços parecessem engoli-la – Eu sinto muito em dizer isso, mas daqui a pouco a Sakura aparece aqui fazendo um escândalo. – fingiu estremecer, e Hinata soltou uma risada.

— Tudo bem, tudo bem. Estou saindo. Desfez-se da bagunça de lençóis e colocou os pés no chão gelado. Uma brisa gelada arrepiou sua pele nua, e, sem se importar, tateou em busca do bastão. Seus dedos tropeçaram em uma peça de roupa qualquer, e Naruto assoviou baixo enquanto encarava, despudoroso, o belo traseiro de sua bela namorada – Olha, só porque eu não posso ver, não significa que seja menos constrangedor. – o Namikaze gargalhou.

— Desculpa. – ele não parecia nem um pouco arrependido. Hinata se apressou para o banheiro com um sorriso atravessado.

Enquanto abriu o chuveiro, as memórias da noite anterior vaguearam sua cabeça. Cada toque ardente, cada beijo, cada suspiro, cada murmúrio. Não parecia real. Naruto era um verdadeiro deus do sexo, e, mesmo assim, a tratou como uma princesa – sequer estava dolorido –. Sabia que era privilegiada por isso, e agradeceu por tê-lo. Não foi naquele momento, mas sabia que toda e qualquer lembrança antiga tinha sido completamente apagada. Tudo que importava era um presente, e seu relacionamento.

A água quente relaxou seus músculos. A percepção de realidade a atingiu, finalmente, e ela começou a ficar tensa. Nunca tinha competido oficialmente, quiçá ter chego a uma final de nível nacional. Canais de televisão estariam cobrindo cada ginásio, cada modalidade e cada estudante competidor. Ela estaria representando toda a grandeza da Academia Canadense. Não podia falhar.

Ouviu a porta abrir, e imaginou que seria Naruto. Desligou o chuveiro quanto sentiu-se limpa e relaxada, e tateou os cabides. Ele tinha deixado uma toalha e suas roupas penduradas. Sorriu. Secou-se e vestiu-se antes de cambalear para fora da suíte. A claridade já havia aumentado, e podia ouvi-lo indo de um lado a outro.

— Se você me esperar, podemos descer juntos para tomar café. – propôs, passando por ela e deixando um beijo estalado.

— Juntos? – a ideia era tentadora – Não seria ruim? – o ouviu bufar.

— O primeiro que se atrever a alguma gracinha vai se ver comigo. – seu coração deu um salto, e, emocionada, apenas assentiu com a cabeça, sentando-se na beirada da cama.

Enquanto ele estava no chuveiro, ouviu o trinco na porta. Assustou-se por dois segundos, até se lembrar que provavelmente era Sasuke, que também tinha o cartão de acesso. Dito e feito, dois barulhos de passos a atingiram, e não demorou até que Sakura estivesse do seu lado, abraçando-a.

— Bom dia, Hina! – manteve um braço ao redor de seus ombros.

— Bom dia, Sakura. – retribuiu – Bom dia, Sasuke. – adiantou-se, sorrindo com o arquejo surpreso que, vez ou outra, aparecia.

— Bom dia, Hinata. O Naruto está no banho?

— Está sim.

— Hm, e a noite foi boa? – Sakura provocou, dando o que Hinata imaginava como um sorriso malicioso. Sem responder, apenas corou, batendo com a palma em sua perna. A garota riu gostosamente – Nem precisa responder, foi boa sim!

— Ei, parem de perturbar minha garota! – Naruto gritou do banheiro, e o casal riu disfarçado; nem mesmo Sasuke resistiu.

O loiro voltou, usando uma bermuda puída e camiseta velha. Logo colocaria o quimono para lutar, e não estava realmente a fim de se importar com roupas naquele momento. Hinata estava vermelha, na cama, com Sakura a tiracolo e Sasuke camuflando a risada. Rolou os olhos para seus amigos.

— Deixem de importuná-la e vamos logo comer alguma coisa. – salvou a Hyuuga, puxando-a pela mão, e ela se enroscou de bom grado em sua cintura.

— É, eu ouvi dizer que certas atividades gastam muita energia mesmo. – alfinetou a rosada.

— Isso é inveja porque eu tenho uma vida sexual ativa e você não? – sua sobrancelha se ergueu e Sakura fechou a cara subitamente, envergonhada.

— Você não sabe brincar. – bufou, e Hinata riu – Vim chamar os pombinhos justamente para isso, ok, seu ingrato. Estamos com um cronograma apertado hoje. O ônibus para o estádio sai as dez.

— Sim, senhora.

Os quatro seguiram pelo elevador, já ouvindo os demais atletas despertando. Passaram pelas líderes – pelo menos Ino os cumprimentou –, e, de alguma maneira, Naruto conseguiu manter seus dedos entrelaçados com os de Hinata sem que ninguém percebesse. Ou quase ninguém.

Shion liderava a comitiva quando ouviu Yamanaka Ino parando para cumprimentar a Haruno. De soslaio, fez uma careta ao ver que a ceguinha estava com eles, e ninguém fazia cara de repulsa – nem mesmo o Uchiha fresco, que tinha terminado com Karin por qualquer motivo ridículo. Se não tivesse olhos perspicazes, jamais teria notado a sutil aproximação da cega com Naruto. E, mesmo com muitas pessoas indo e vindo, ela ainda conseguiu ver seus dedos se tocando. E tudo ficou vermelho.

Aquilo estava passando dos limites. Suas ameaças pareceram não surtir efeito; teria que ser mais incisiva. Jamais passaria pela humilhação de ser trocada por aquela garotinha deficiente. Não ela.

Naruto e Hinata, alheios às observações da capitã, continuaram com as carícias disfarçadas, caminhando para uma mesa mais afastada. Embora preferissem compartilhar uma refeição particular, foi impossível evitar que os atletas se unissem ao capitão da equipe. Kiba e Gaara acomodaram-se na outra ponta – o Sabaku cumprimentou Hinata, e Kiba, um tanto confuso e envergonhado, seguiu seu exemplo, sob os olhares intimidadores de Naruto –. Comeram pouco; todos estavam muito nervosos.

Hinata rejeitou as panquecas, mesmo que o cheiro fosse maravilhoso, ela sentia que seu estômago saltaria para fora. Com as mãos trêmulas, perdeu-se em pensamentos, não ouvindo as conversas barulhentas do refeitório. Shikamaru a despertou, desejando um bom dia sonolento e dizendo que a esperava no ônibus quando desse a hora. Ela concordou, e afastou definitivamente o copo de café com leite, ainda pela metade. Estava chegando.

Pouco a pouco, os estudantes dispersaram-se com suas próprias equipes. Muitos dos atletas da Academia tinham se classificado para a fase nacional, e isso era motivo de orgulho para a escola. As fases regionais de cada província selecionaram os melhores esportistas, e a fase nacional não se estenderia muito além de três etapas. O Torneio Nacional Colegial de Inverno reunia escolas do país inteiro, e apenas o fato de saber que estava entre milhares de pessoas que sonhavam com aquilo – e eram as melhores das melhores – já deixava Hinata a flor da pele.

Naruto lamentou não poder apresentar Tóquio para Hinata. A Sky Tree estendia-se majestosamente sobre a vista do hotel, e a bagunça de cores e sons das avenidas era viciante. Ele adorava aquela cidade, ainda que algumas lembranças desagradáveis com o senador manchassem esse sentimento.

— Acho que precisamos ir. – sussurrou ao pé do ouvido da Hyuuga, que assentiu, também triste – Não se preocupe com nada. Você vai ser campeã.

— Você também. – retribuiu, murmurando. Ele sorriu. Queria beijá-la como na noite passada, mas não seria possível. Contentou-se em apertar seus dedos por baixo da mesa, saindo e sendo seguido pelos companheiros.

Foi cumprimentado por quase todos os alunos da Academia. Correspondeu os sorrisos e incentivos. Ele adorava aquela atenção – a sensação de ser querido; ou temido. Não importava muito, no final. Contudo, ao mesmo tempo, sua mente imaginava o momento em que poderia andar de mãos dadas com Hinata pelos corredores. Almoçarem juntos, deitarem no jardim. Se beijarem. Aquele sentimento que alimentava seu ego realmente valia a pena o sacrifício de tudo que poderia ter?

— Está pronto, capitão? – Gaara perguntou, enquanto subiam as escadas do ônibus que os levaria para o ginásio. Carregavam apenas a bolsa com os equipamentos; de uma maneira ou outra, voltariam para o hotel, fosse para comemorar ou lamentar. Naruto procurou pelos bancos do fundo, ostentando a faixa no braço e a jaqueta laranja do time.

— Eu nasci pronto. – estufou o peito, arrancando algumas risadas.

Lembrou-se do primeiro ano, quando seus veteranos incentivavam o time com gritos de guerra. Quando perderam na última fase; as lágrimas, as caras derrotadas. Naruto sabia que nunca mais queria ver aquelas expressões novamente. Ele faria seu time ganhar, não importava o quanto custasse.

Saíram pontualmente as dez horas. O céu estava escuro, e os lutadores, em silêncio. A bolha de concentração era palpável. Outros ônibus os seguiam, para o mesmo ginásio – grande o suficiente para abranger as diversas categorias individuais e coletivas, e as centenas de estudantes que iam competir –. Naruto mentalizou Hinata, e a calma que ela trazia. Desejou sorte para ela, onde quer que estivesse.

O Ginásio Metropolitano era gigantesco. Milhares de estruturas de metal entrelaçadas, formando um arco prateado que abrigava as quadras mais famosas do país. Esportes oficiais como vôlei e basquete eram disputados dentro daquele ginásio, mas não significava que ficavam atrás em disposições para o judô ou natação – a piscina olímpica era aquecida no inverno, e contava com gloriosos quatrocentos metros. Todas essas informações foram passadas para Hinata ao longo da viagem. Tayuya e Inari falavam animadamente sobre como parecia um estádio, e como a equipe de natação nunca tinha chego a competir nas piscinas de quatrocentos metros. O time da capital sempre levava a melhor nas nacionais, e, pela primeira vez, eles estavam em vantagem.

Hinata desejou poder ver todo esse esplendor ao qual eles se referiam tão entusiasmadamente. A brisa gelada entrava pela janela, e as buzinas e sons eletrônicos bagunçavam sua audição – Tóquio era assustadora, e fascinante. Parte de seus pensamentos pousaram em Naruto, que deveria estar, a essa hora, preparando-se com os outros integrantes da equipe. Ela sabia o quanto aquela vitória significava para eles. Pensou também, distraidamente, no quanto sua vida mudara desde o começo do ano. Como não tinha mais medo daquelas pessoas, como tinha sido aceita — como acabou namorando o famoso, inigualável, rei da escola, Namikaze Naruto.

Às vezes coisas boas também aconteciam com ela.

Sentiu uma guinada, e o ônibus parou. Levantou-se, carregando sua mochila maltrapilha com o maiô, o roupão e seus equipamentos. Optou por usar os óculos, porque o cloro incomodava, e a touca, para prender o cabelo e deslizar melhor. Qualquer coisa que lhe desse vantagem, mesmo que mínima, seria bem-vinda. Desceram em fila única, e Shikamaru a ajudou até que pudesse abrir o bastão. Ouviu, ao longe, Sakura gritando, e provavelmente correndo com sua prancheta. Riu, nervosa.

Não ver ajudava com a timidez, em alguns momentos. Hinata não precisava ver quem seriam seus rivais – se eles eram mais altos ou mais magros, se vestiam uniformes melhores ou eram mais intimidadores. Ao mesmo tempo, também não precisava ver as expressões confusas e surpresas ao vê-la com seu bastão, sendo guiada, e, mesmo assim, usando uma jaqueta do time. De uma maneira ou outra, conheceria a todos, e todos a conheceriam na piscina.

Os alunos da Academia entraram pelo portão principal, e, assim que se alojaram dentro do Ginásio, já puderam sentir a atmosfera mudar. Pequenos grupos se formavam, cada qual representando sua província – assim como eles representavam Kobe –. Os capitães, junto dos professores responsáveis, confirmaram as inscrições. Shikamaru voltou para a equipe com o ar sério e entediado.

— Muito bem, já liberaram as grades. Nós vamos começar uma e meia, quando começam as competições individuais. Categoria revezamento primeiro, livre depois. – Hinata respirou aliviada, internamente.

— E as lutas? – ficou feliz que alguém perguntou por ela. Não era surpresa; o time de judô era o mais popular e aguardado.

— As últimas, para fechar com chave de ouro. – comemoram por poderem ver. Hinata não soube se era bom ou ruim; Naruto ficaria uma pilha de nervos até o fim da tarde – Bem, vamos nos preparar e assistir as demais provas.

A Hyuuga seguiu o grupo por alguns corredores, mas, por sorte, encontrou Sakura, e acompanhou a amiga, para assistirem juntas. A rosada estava uma pilha, verificando folha atrás de folha, gritando por cima do barulho e xingando. Hinata quase teve de correr para acompanhar seu ritmo, e só diminuíram quando chegaram na primeira arquibancada. Alto-falantes anunciavam, a cada minuto, quais escolas competiriam em quais modalidades. Aparentemente era vôlei.

— HINA! SAKI! Aqui! – Ino gritou, gesticulando exageradamente para Sakura, que também puxou Hinata para onde tinha poucos degraus – Nossa, isso aqui está lotado! – comentou, ainda falando alto.

— Nem me fala, eu vou ficar maluca! – a Haruno respondeu, ainda de braços dados com Hinata – Onde estão as outras?

— E eu vou saber? Sumiram com a Shion. – Hinata, até então alheia com o assunto, apurou a audição. Riu quando Sakura fez som de asco com a garganta – Falando no diabo, aparece o rabo! – exclamou, e, logo em seguida, sentiu alguém soprar em seu pescoço. Assustada, deu um salto, até sentir a mão familiar de Naruto em sua cintura, em meio a confusão de espectadores.

— Estavam fofocando sobre quem? – perguntou, também tentando falar mais alto que a arquibancada.

— Ninguém! – Sakura se apressou, disfarçando – Você não deveria estar se preparando ou qualquer coisa assim?

— Viemos assistir junto com as senhoritas. – Hinata imaginou que Sasuke também estava com ele.

Continuaram se alfinetando enquanto a partida não começava, e Hinata desistiu de acompanhar, rindo de um ou outro comentário pescado entre o barulho. Resolveu sentar, porque suas pernas estavam formigando. Quanto mais o tempo passava, mais iminente estava.

Sendo sincera, ela não percebeu a disputa acontecendo. Ouvia quando alguns vibravam, ou xingavam, mas não prestou, realmente, atenção. Tão logo o jogo de vôlei acabou, já começaram a reorganizar a quadra para uma nova modalidade. Vez ou outra, a garota ficava ciente da pele que roçava contra a sua, criando atritos de eletricidade. Tentava se acalmar com sua presença, no entanto, quando os microfones anunciaram o almoço e, posteriormente, o início das competições individuais, sentiu que parte da sua alma tinha se deslocado no corpo. Acompanhou o resto da equipe rumo a ala que continha a fabulosa piscina olímpica.

Despediu-se de seus amigos com um cumprimento rápido e ofegante. Suas mãos suavam conforme caminhava, e ela tentava desesperadamente se acalmar pensando em problemas complicados e equações matemáticas – nem isso ajudou –. A perspectiva de competir individualmente em nome de uma escola tão célebre quanto a Academia não ajudava muito na sua concentração. Nos vestiários, indicaram um armário para ela, e começaram, um a um, despir-se e colocar os trajes de torneio.

Shikamaru fez um discurso motivacional rápido, embora sua voz também estivesse trêmula. Como capitão, Hinata entendia toda a responsabilidade que caía sobre ele, e a ansiedade de vencerem. No final, todos saíram muito quietos, alongando-se e recordando todas as dicas úteis que pudessem ajudar. Hinata ficou no banco, desejando poder acompanhar a modalidade de revezamento, e torcer para seus colegas. Os alto-falantes narravam parcialmente o que estava acontecendo, mas o barulho das arquibancadas, somado ao seu próprio nervosismo, tornavam difícil a compreensão de qualquer coisa.

— Você está tão nervosa quanto eu? – Tayuya murmurou perto dela, e a Hyuuga assentiu furiosamente.

— Tenho a impressão que vou vomitar. – confessou. O ginásio já começava a encher, e Hinata se perguntou se seus amigos estavam ali também, torcendo por ela.

É claro que estavam. Naruto fez questão de engolir um almoço insignificante apenas para poder arrastar todo mundo consigo até as fileiras mais próximas. Sakura ainda comia apressadamente, enquanto Gaara o seguiu se perguntando onde era o incêndio. Não importava – ele unicamente queria encorajar sua garota. Não entendia nada de natação, mas sabia que Shikamaru e os outros três que nadavam com ele iam primeiro. Também sabia que ficar nas raias centrais significava uma vantagem. Estava confiante na vitória do time.

— Fica quieto, Naruto, meu Kami. Está me dando nos nervos! – Sakura reclamou, e ele a ignorou, continuando de pé, quicando ocasionalmente.

Seus olhos fixaram-se determinadamente na figura sentada de Hinata. Ela usava o antigo maiô preto, segurando uma touca elástica com o cabelo ainda preso embaixo. Uma outra garota conversava com ela, e aquela cena o deixou contente. Correu os olhos pelo lugar, admirando-se com a quantidade de escolas e de outros atletas que, assim como eles, estavam torcendo por suas equipes. Foi esquadrinhando o corredor central que Naruto o viu – suas costas retesearam imediatamente, e ele cerrou os punhos. Abriu caminho entre Ino e Sakura, passando como um tiro.

— Ei! Onde você vai? Naruto!

Estava de óculos escuros, mas o Namikaze o reconheceu mesmo assim. O cabelo longo estava amarrado discretamente, e as vestes eram o mais camufladas possível. Mesmo assim, ele reconheceria aquela genética em qualquer lugar – a mesma pele marmorada, as mesmas feições desenhadas, a mesma postura altiva. Se aproximou, empurrando algumas pessoas para passar. Se aproximou, quase perto da saída, e ele não teve opção a não ser se virar para a fúria loira que surgia.

— O que está fazendo aqui? – Naruto perguntou grosseiramente.

— Acredito que não seja da sua conta. – cruzou os braços, sorrindo ácido.

— Hiashi mandou você, não foi? – acusou, mais próximo – Você é o Neji, meio-irmão da Hina.

O garoto, ligeiramente mais alto, retirou os óculos escuros, revelando as impressionantes pérolas, assombrosamente parecidas com as da garota. Mas, em vez de refletirem bondade e brilho, eram ferozes e amargas. Os dois Hyuuga era parecidíssimos, e assustadoramente diferentes.

— Ela vai vencer. – rosnou, com raiva. Neji o fitou como se não passasse de um inseto que o estava incomodando; aquilo o deixou mais irado.

— Eu estou aqui para me certificar disso. – sequer piscou – Ela trará honra para seu sobrenome, e Hiashi-sama irá orientá-la para herdar as empresas, como deveria ser.

— Hinata jamais vai querer isso. – rebateu.

— Hinata não ter que querer nada. – Neji parecia mais sério e agressivo que antes – Como uma Hyuuga, é sua obrigação. Não que você tenha alguma coisa a ver com isso, Namikaze. – alfinetou, não esperando por uma resposta.

— Eu tenho tudo a ver com isso! – ultrajou-se.

— É mesmo? – abriu um sorriso afiado— Vamos ver quem Hinata irá escolher: sua família, ou o covarde que mente para ela. – aquela frase trazia diversos sentidos implícitos, e, pela primeira vez, Naruto se deixou abalar – Olha, parece que é a vez dela.

Naruto se virou com rapidez, sem perceber que o revezamento já tinha acabado. Pela maneira que eles vibravam, no banco e nas arquibancadas, a Academia tinha vencido, ou, pelo menos, garantido uma boa classificação. Atordoado, observou Hinata soltar-se de um abraço e colocar a touca, escondendo o cabelo. Virou-se para Neji, que reposicionava os óculos escuros. Saiu, então, em passos lentos. A cada novo encontro, odiava mais aquela parte da família.

Voltou para seu lugar na galeria, e nenhum deles fez nenhum comentário sobre seu sumiço repentino. Tentou apagar aquele diálogo, pelo menos por enquanto, e se concentrou em Hinata, se unindo aos gritos de incentivo.

A garota nem acreditou quando ouviu os narradores gritarem o nome da Academia no primeiro lugar. Shikamaru tinha feito uma última volta espetacular, e a colocação já os deixava em vantagem. Agora, a corrida individual dependia unicamente de cada atleta. Hinata seria a primeira, para seu azar. Um bom trunfo nos segundos atribuiria pontos a mais, e tudo que ela queria era terminar bem a volta. Nunca tinha nadado naquela piscina, e quatrocentos metros era o suficiente para deixar exausto qualquer nadador experiente.

Abraçou toda a equipe, ouvindo também incentivos e desejos de boa sorte. Trêmula, mal ouviu o grito de guerra da Academia, em peso na torcida. Tomou seu lugar, na raia central, e respirou fundo. No momento em que mergulhasse, todo o redor desaparecia, e ela tornaria a emergir quando tivesse acabado – para bem ou para mal. Colocou-se em posição, com as costas curvadas e os dedos tocando os pés. Respirou fundo, limpando sua concentração dos sons diversos que a bagunçavam, e, quando ouviu o disparo agudo, pulou com força.

A pressão da água foi a primeira coisa a envolver seu corpo. Tudo ficou confuso, e as bolhas estrepidavam em seu ouvido, mas, a medida que escorregava como um missel, tudo que conseguia pensar era em começar a movimentar os braços. “Vá para frente. Nade!”. Do fundo, voltou para a superfície, virando o rosto e sugando ar suficiente para fazer seus pulmões pararem de queimar. Suas mãos espalmavam contra a água, impulsionando-a mais e mais, junto das pernas que batiam ritmadamente. Submergia tempo insuficiente para ouvir o que as pessoas gritavam. Apenas se concentrou em nadar, e vencer.

Sua pele sentia a água. A envolvia, a levava consigo. A temperatura estava perfeita, e a movimentação da água não atrapalhava. As braçadas eram longas e rápidas, e seu essência, de repente, se unia as ondas, como se fosse natural. Se esforçava para ser. A água era sua maior aliada – sem ver, apenas vivenciar. Não precisava de visão, somente dos seus sentidos, deixar a piscina guiar. Em vez de desespero, procurava relaxar, e continuar nadando, como se apenas isso pudesse deixá-la viva.

No entanto, começou a sentir a diferença entre as distâncias das piscinas nas quais treinava. Era diferente fazer várias voltas – conseguia nadar três, as vezes quatro vezes sem descansar, mas isso quando chegava ao outro lado e usava a beirada como suporte. Não importava o quanto batesse os braços, o outro lado não chegava nunca. Parte de si começou a se preocupar realmente com a competição – estariam na sua frente? Ela estava perdendo? Quanto tempo faltava?

Quase como se a água estivesse a seu favor, a ponta de seus dedos tocaram a borda. Impulsionando-se com um novo entusiasmo, usou toda a força de suas pernas para servirem de mola. Perdia alguns segundos na volta porque não podia vê-la com antecipação, então precisava de vantagem. Não deixou que a pressão em seu ouvido atrapalhasse. Metade do percurso já tinha sido feito, ela só precisava chegar do outro lado.

O cansaço fazia cada um de seus membros inflamarem. Mais ou menos vinte segundos depois, já não estava tão convicta das suas próprias motivações. Aquela piscina era extensa demais, comprida demais. Hinata não ia conseguir.

Mas se ela não conseguisse, o que isso provaria? Que eles estavam certo?

Nadar era sua vida. Era onde ela podia provar que podia ser diferente. Que podia ser boa em alguma coisa. Se não conseguisse nem isso, então não tinha motivos para lutar.

Sua mãe confiou nela, a deixando treinar no ginásio do bairro. Seus colegas confiaram nela, quando lhe deram seu primeiro uniforme. Shikamaru confiou nela, a deixando competir no nado livre, mesmo sendo uma novata. Suas amigas confiaram nela, enquanto torciam. Naruto. Naruto confiou nela. Naruto confiava nela.

Pensar naquelas pessoas lhe deu energia. Não soube como, mas seus pés bateram mais rápidos, suas braçadas se tornaram mais leves, sua respiração durou mais. Sentiu que avançava pela raia, se aproximando do fim. A vontade de não decepcioná-los a lembrou de algo importante – por não querer desapontá–los, também não podia desapontar a si mesma.

Assim como quando mergulhou, a agitação a deixou momentaneamente desnorteada. Virou o rosto mais uma vez para respirar, e, como uma pluma deslizando, flutuou para frente até que sua mão espalmada tocasse definitivamente a borda. Ofegante, estendeu a cabeça para fora, inspirando ruidosamente como se há muito tempo não sentisse o ar. Seu ouvido zunia, e ela não ouviu, de imediato, todos os gritos. Não sabia se já tinha acabado. Era a primeira ou a última? As perguntas eram a pior parte.

Com uma sensação de dever cumprido, conseguiu sorrir no momento em que os gritos se tornaram altos e pronunciados. Sentiu alguns pares de mãos a ajudando para sair, e, sem que conseguisse se equilibrar, seu corpo se chocou com outros, exaltados. Em meio a abraços, ela conseguiu ouvir quando alguém disse, perto de seu ouvido, ainda um tanto tampado: “você conseguiu”.

E tudo valeu a pena.