Quimera

31 Estratégia


Notas iniciais
Capítulo patrocinado por: ônibus que eu pego todo dia por uma hora pra ir pra faculdade e pra voltar dela. Meus queridos, eis aqui uma escritora morta, mas feliz por ter conseguido achar um tempinho para escrever. Espero que estejam gostando! Comecei a postar no Spirit e a recepção está sendo fantástico, isso me deixa muito inspirada! Altas tretas estão por vir, apenas esperem! Gostaria de dedicar especialmente para a Bruna, que por muito tempo foi minha parceira das fanfics, e hoje somos parceiras da vida adulta, e eu tenho muito orgulho dela. Eu juro que vou responder todos os comentários com muita calma e amor! Obrigada pelo apoio, vocês são demais, mesmo. Eu sou a autora mais sortuda daqui, por escrever coisas que eu gosto e surpreender pessoas que me acompanham! Claro, deem uma olhada nas minhas outras fics, elas são legais também ♥

— O perigo brilha como um raio de sol dos olhos de um homem obstinado.

— Perdão?

Minato estava prestes a ter uma síncope. Deixou que os ombros caíssem para dar lugar a uma postura de completa incredulidade, os olhos arregalando-se de maneira que ele considerava mal-educada. Hiashi permaneceu impassivo, talvez com um semblante de graça transpassando as rugas de severidade, mas nada muito além disso. O Namikaze, por outro lado, tentava raciocinar aquela frase, mas não fazia sentido em sua cabeça.

Hyuuga Hiashi não tinha uma filha. Tinha apenas um filho legítimo e reconhecido – e mais alguns bastardos que os tablóides de fofoca gostavam de apontar –. Quer dizer, Hiashi tinha uma filha, mas era apenas uma criança de quatro anos. De jeito algo poderia haver um relacionamento entre Naruto e aquela menininha. Minato supôs que seria Naruto a quem ele se referia, até mesmo porque seu primogênito não fazia parte do círculo de negócios empresariais. A única solução razoável que encontrou era que Naruto e o herdeiro Hyuuga estavam envolvidos – a ideia, por sua vez, pareceu tão absurda quanto qualquer outra. Minato sabia que seu filho era homem. Então, voltou a estaca zero.

Desistiu, com um pesado suspiro. Se levantou, em silêncio, caminhando até o mini bar que mantinha, no canto da sala, enfeitado por requintadas garrafas caras de bebidas envelhecidas. Pegou dois copos rasos e encheu pela metade de gelo, servindo uma boa dose de uísque puro. Tomou o seu, tornando a enchê-lo, e entregou o outro para o Hyuuga, que aceitou de bom grado. Retornou para sua mesa, dando a volta por trás, e, novamente, tornou a encarar Hiashi, desta vez com os olhos ferozes.

— Gostaria que me explicasse essa história, se não for exigir demais. – franziu a testa, e Hiashi acomodou-se, cruzando as pernas e bebericando do líquido. Não parecia ofendido.

— É uma história interessante.

Longe dali, outra Hyuuga também passava por uma situação de risco. A garota pretendia ensaiar um discurso bem elaborado para se apresentar devidamente à mãe de Naruto, mas a mulher simplesmente a sequestrara, tomando-a pelo braço e levando-a mansão adentro, tagarelando sobre a decoração, vez ou outra referindo-se a Naruto. Hinata, por mais que estivesse achando graça na personalidade espontânea e energética – lembrando-a bastante de certo alguém –, sentia a coluna doer de tão ereta, os ombros flexionados de tensão de as mãos suando frio. Naqueles momentos, era particularmente irritante não poder ver.

Mal entraram pelo salão e o cheiro de comida invadiu seu nariz. Era delicioso – um prato tradicional, ela arriscaria dizer –. Naruto parecia caminhar atrás dela, pelo som de passos reverberando no piso, mas Kushina não deixaria que ela se distraísse. Estava bem ciente das mãos macias que seguravam as suas, e o cheiro de perfume também se fazia presente. Mesmo com o timbre de voz firme e descontraído, Hinata só conseguia imaginar a mulher como uma dama elegante.

— Você já conheceu a casa? – perguntou distraidamente, pegando Hinata de surpresa.

— J-Já. – gaguejou um pouco, nervosa – Eu vim aqui com alguns amigos no verão. – explicou, querendo torcer os dedos.

— Ora, Naruto, deveria ter me dito que ia trazer sua namorada nas férias, eu e seu pai teríamos ficado! – ela reclamou, zangada, e Hinata engasgou ligeiramente com a saliva, tossindo.

— Okaa-san, não constranja ela, por favor. – Naruto resmungou, parecendo próximo, mas sua voz parecia divertida – Eu a trouxe justamente porque você e o papai não estariam aqui. – frisou a palavra, e Hinata ouviu um muxoxo decepcionado ao seu lado. Pararam, e foi arrastada para a esquerda, entrando em um cômodo bem mais iluminado.

— Você é um péssimo filho. – Kushina cantarolou, não parecendo acreditar muito nas suas palavras. Hinata riu baixo. Nunca conhecera alguém como aquela mulher – Aqui, querida, vamos nos sentar e esperar o almoço. Quero que me conte tudo! – a garota dobrou as pernas, procurando pelo assento, e encostou em um estofado confortável. Colocou o bastão cuidadosamente sobre as pernas, mas Kushina não deixou que se afastasse, mantendo suas pernas se tocando. Seu estômago estava um pouco embrulhado – Então, como se conheceram?

Hinata tornou a engasgar, e poderia apostar que Naruto, onde quer que estivesse sentado, também estaria embaraçado. Ambos se lembraram da história conturbada entre eles – desde as piadas, as brincadeiras de mal gosto, os sermões de Sakura e, por fim, a aproximação nada convencional –. Hinata não queria contar aquelas coisas e pintar Naruto como se fosse um completo babaca – ele tinha mudado, ela admitia –. Por outro lado, não saberia como responder aquela pergunta de outra maneira. Permaneceu em silêncio, torcendo para que o Namikaze soubesse como fazê-lo.

— Ah, não precisa me dizer. – Kushina quebrou a quietude, com a voz atingindo alguns níveis de desapontamento – Naruto foi um idiota com você? – a Hyuuga não cansava de se surpreender. Tossiu, apressando-se a negar.

— Não! – falou, ao mesmo tempo que Naruto também protestava – Não, claro que não, Kushina-sama. – completou, terna.

— Eu conheço o garoto que eu tenho. – ela parecia realmente exaltada, ralhando com o filho – Eu tentei criar esse moleque para o bem, mas ele tem a cabeça dura igual ao pai! – Hinata não viu a careta contrariada de Naruto, sentado do lado oposto da mesa – Hinata, querida, eu peço desculpas em nome desse traste, por qualquer coisa que ele tenha te feito. – dirigiu-se a ela, agora docemente, e Naruto, ao fundo, soltou uma exclamação indignada. Hinata sorriu, balançando a cabeça.

— Não precisa se preocupar, Kushina-sama. – a garota garantiu – Naruto tem sido um amigo incrível para mim, e me ajuda muito na escola. – ela não estava mentindo. Depois que se acertaram, e dissiparam, ao menos um pouco, a tensão lasciva que os cercava, sua relação era realmente tranquila, e Hinata quase sempre ficava com borboletas boas na barriga – Ele é atencioso e gentil comigo.

— Ahá! – o garoto não perdeu a oportunidade de se exibir, mas tinha um sorriso largo e brilhante no rosto. Kushina observou o casal, atenta, indo de um para o outro. Mesmo que estivesse apenas brincando com o filho, sabia muito bem como ele podia ser idêntico ao marido quando queria. Internamente, sentiu-se aliviada por ele não ter destratado uma garota como Hinata. Algo nos olhos perolados lhe era familiar, mas, como um todo, ela podia ser a nora que sempre desejou. A deficiência sequer lhe passava pela cabeça. Observando o rosto de boneca, era surpreendente como sua percepção parecia suprir todo o resto. Por fim, sorriu, tranquila.

— Acho bom mesmo que meu filho te trate como uma princesa. – falou, carinhosamente, pegando as mãos da garota entre as suas. Hinata corou um pouco, mas assentiu, sorrindo – Agora, quero saber sobre você, Hinata! Como são seus pais, do que você gosta de fazer, tudo isso. – Naruto tentou alertar a mãe com os olhos saltados, mas Hinata alargou o sorriso, completamente a vontade.

— Eu moro só com a minha okaa-san, em Chome. – Kushina disfarçou brilhantemente o choque ao reconhecer o bairro popular, nos limites carentes da cidade – Ela é uma mulher incrível! – a Uzumaki sorriu, afável, quando viu os olhos dela brilharem quando mencionou a mãe – É uma cozinheira de mão cheia. Por conta da deficiência, não pude desenvolver muitas atividades, mas eu gosto de ajudá-la na cozinha e de ler. – falava com serenidade, e Kushina gostou disso.

— Ela esqueceu de falar que é a melhor nadadora da região. – Naruto se intrometeu, cruzando os braços, orgulhoso, e Kushina se virou para ele, surpresa.

— Você nada? – perguntou, admirada. Hinata ficou envergonhada com a súbita atenção dupla.

— Sim, mas não é como o Naruto falou. – completou, encabulada – Eu só gosto de nadar, e estou competindo pelo time da Academia. – deu de ombros, como se não fosse nada demais.

— Ela está sendo modesta. – revirou os olhos, inclinando-se, e Kushina riu, divertindo-se com a situação – Hinata bateu o recorde da competição regional, okaa-san! Ela é incrível, sério, você deveria vê-la nadar. É como um espetáculo. – a cada elogio, a garota enrubescia mais, tentando desconversar. Não gostava de ser o centro das atenções daquela maneira, e não estava acostumada a receber diretamente tanto enaltecimento. Naruto, no entanto, não estava se importando. Estava em sua casa, sentando à mesa de jantar, com sua mãe e Hinata. Sem fingimentos, sem se esconder, apenas ele e suas duas garotas preferidas. Com certeza não perderia a oportunidade de enaltecer a Hyuuga, não dizendo nada mais que a verdade.

— Ora, mas isso é incrível! – a mulher exclamou, batendo as mãos – É mais um motivo para ir assisti-los em Tóquio. – seus olhos se fechavam quando sorria, da mesma maneira que Naruto fazia. E, embora não pudesse ver, Hinata imaginou que fosse um sorriso quente e acolhedor.

— Você vem mesmo, okaa-san? – Naruto saltou da cadeira, batendo as mãos na mesa, fazendo-a estremecer inteira.

— Eu disse que eu ia, garoto. – rolou os olhos, rindo do entusiasmo desnecessário do filho. Sabia que era importante para ele que ela fosse vê-lo competir nas nacionais, e, agora, também poderia torcer pela namorada do filho. Não poderia estar mais feliz. Simplesmente odiava a loira que ele levava para os eventos – Hinata, querida, está com fome? Vou pedir para servirem o almoço. – se levantou, soltando as mãos da garota.

— C-Claro. – concordou, sem jeito, e ouviu os saltos se afastarem pela porta. Sozinhos, Naruto aproveitou para se esgueirar pelas cadeiras, sentando onde Kushina estava. Buscou pelos dedos de Hinata, entrelaçando-os, e a garota sorriu um pouco, desviando os olhos para baixo. O toque do garoto lhe tranquilizava – Sua mãe é um amor. – comentou.

— Ela é sim. – concordou, carinhoso – Um pouco animada demais, talvez. – fez uma careta, arrancando um riso de Hinata.

— Claro que ela foi a única pessoa da família que eu conheci assim. – alfinetou, sentindo-se mais à vontade, e Naruto soltou uma exclamação falsamente indignada, apenas para ouvi-la rir mais um pouco. No fundo, queria sorrir até suas bochechas se rasgarem. O dia estava ensolarado, mas tudo parecia muito mais brilhante para ele.

O casal permaneceu naquela bolha, alheios ao movimento na casa – que era grande o suficiente –, mas assustaram-se quando ouviram um barulho da porta. Hinata, assustada, fez menção de soltar a mão de Naruto, mas ele continuou segurando-a com força, tensionando e relaxando em seguida. Hinata ouviu passos, uma presença estranha, mas não ameaçadora.

— Se eu soubesse que você vinha almoçar em casa, teria ficado na cidade. – ouviu uma voz provocadora. Era familiar, um tom ou dois mais grave. Naruto, ao seu lado, parecia bastante despreocupado.

— Essa sua cara feia tirou meu apetite, otário. – Hinata sentiu vontade de intervir, mas sabia que não passava de uma brincadeira – Hina, quero apresentar meu irmão, Nagato. Bocó, essa é a Hinata.

Hinata fez questão de se levantar, tateando pelo encosto da cadeira para dar a volta. Parou, esperando a aproximação. Houve um minuto de silêncio – ela conseguia imaginar porquê –. Seu rosto estava bem visível, os olhos desprotegidos, e não para baixo. Esperou pelas primeiras impressões. Talvez confusão? Asco? Naruto estaria fitando-o advertidamente? Só ouviu as movimentações nos outros cômodos. Por fim, sentiu-o chegar mais perto, até que suas mãos se tocaram, fechando em um aperto. A garota respirou aliviada, sentindo o toque pesado. Sua mão era fina, mais fina que a de Naruto, mas sua pele era repuxada, e também quente. A chacoalhou duas vezes e soltou. O Namikaze mais novo se prostrou ao seu lado, segurando sua cintura protetoralmente.

— É um prazer te conhecer, Hinata. – sua voz se mantinha extrovertida, e ela sorriu, simpática – É bom conhecer uma namorada do pirralho que tenha mais de dois neurônios. – a risada escapou de sua boca antes que pudesse refreá-la. Tinha a impressão de que ninguém ali realmente gostava de Shion, ou outras que pudessem ter vindo antes. Por incrível que pareça, aquilo não a incomodava.

— O prazer é meu. – retribuiu – Você mora aqui? – a pergunta parecia estranha, mas Hinata queria saber se ele estava sempre em casa, pois não se lembrava de tê-lo ouvido no verão.

— Nagato trabalha na cidade, tem um apartamento por lá. – Naruto respondeu, tão próximo de seu rosto que ela se arrepiou – Mas quase sempre está em Tóquio.

— Bem longe de você, pirralho. – não deixou a oportunidade escapar, e Hinata sorriu para a relação dos dois irmãos. Ao que parecia, Nagato era mais velho, e ela imaginou se ele se parecia com Naruto – Sou engenheiro mecatrônico. – esclareceu, e a Hyuuga não pôde disfarçar a surpresa.

— Uau, isso parece importante! – exclamou, voltando-se para Naruto, que resmungou.

— Ele faz parecer grande coisa, só fica construindo robôs o dia inteiro. – respondeu, afetado.

— Não liga, Hinata, ele só está com medo de eu impressionar a garota dele. – falou, galanteador, e Hinata corou instantaneamente.

Era incomum aquela atmosfera leve. Não estava acostumada com aquele tipo de brincadeiras casuais, tratando-a como uma garota normal – era até mesmo estranho pensar em estar naquele ambiente na presença do Namikaze –. Kushina, até aquele momento, estava sendo absolutamente atenciosa, e nos primeiros cinco minutos em que conhecera Nagato, ele já estava provocando o irmão com ela. Depois de toda uma vida sendo tratada diferente, Hinata apenas não estava acostumada a ser vista como uma garota comum.

— Nagato? – de repente a voz de Kushina se fez presente no cômodo, parecendo alegre e surpresa – Não sabia que também vinha almoçar em casa!

— Vim fazer uma surpresa, okaa-san. – um estalo, como um beijo, e voltaram a se aproximar.

— Meus dois filhos reunidos comigo para o almoço, que coisa maravilhosa! – a mulher exclamou, e Naruto, ainda segurando Hinata pela cintura, riu, fazendo todo seu corpo tremer – Venham, vamos nos sentar, já está pronto. Aqui, Hinata, querida. – Kushina a guiou até a cadeira, puxando-a. Ela agradeceu, sincera, e colocou as mãos sobre a mesa, tentando parecer educada. Tudo ali parecia caro e sofisticado demais, mesmo os próprios moradores apresentarem-se de forma despojada.

Algumas conversas paralelas se levantaram, e Hinata fazia esforço para acompanhar a todos. Naruto e Nagato se provocavam, ora rindo, ora xingando, e Kushina ralhava com eles, enquanto perguntava coisas do trabalho para o mais velho, que acabara de chegar. Era como uma casa habitual, na hora do almoço. Hinata não tinha irmãos, e, mesmo que brincasse com todas as crianças do bairro, nunca tinha se sentado em uma mesa familiar tão barulhenta. Era reconfortante.

— Olha o almoço! – uma quarta voz se fez presente, entrando pelo cômodo trazendo o que poderiam ser as panelas, porque o cheiro era maravilhoso. Hinata, contudo, saltou da cadeira, virando-se em sua direção com um sorriso afetivo.

— Chiyo-san! – exclamou, e os demais ficaram em silêncio. Ela corou um pouco.

— Oh, a senhorita namorada do Naruto-sama! – a simpática senhora exclamou, também a reconhecendo. Hinata desistiu de corrigir o pronome, sorrindo por ter ela também ter se lembrado. Chiyo havia ajudado-a na primeira vez em que frequentou a casa, e, mesmo naquela época, quando ela e Naruto se beijaram pela primeira vez, a senhora já a chamava de “namorada do Naruto”.

— O quê? – Kushina interveio – Como assim até a Chiyo conhecia sua namorada e eu não? – ela parecia profundamente ofendida, e Hinata riu, a medida que Naruto fez uma careta, tentando explicar a situação.

Foi nesse clima que o almoço foi servido. Todos eles, não somente Naruto, foram absolutamente atenciosos, fazendo Hinata se sentir até mesmo mimada. Ajudaram-na a se servir, indicaram a posição dos talheres, do copo e das travessas, mas, em nenhum momento, a trataram como inválida. Tentavam se policiar, mas não ficavam medindo as palavras, como todos faziam. Conversaram sobre diversos assuntos, perguntaram seus outros hobbies, como é estudar na Academia e como é seu relacionamento com os outros alunos – claro que ela omitiu as partes desagradáveis –. Não se surpreendeu ao saber que Tsunade era avó de Naruto – famílias ricas costumavam estar ligadas a todos os lugares, mas ela gostava muito da diretora, de qualquer maneira –. Comeu o melhor assado de sua vida, e a fizeram repetir a sobremesa, de modo que, no fim do almoço, sentia-se mais que satisfeita.

Depois de comerem, Kushina fez os dois filhos e Hinata sentarem com ela na sala de estar, junto de Chiyo, que trouxera café e alguns petiscos. A mulher, alegando estar em desvantagem por não poder mostrar as fotos de infância de Naruto – todos riram, menos o garoto –, contou as mais diversas histórias de sua infância. Muitas delas incluíam Nagato, e quase a mesma quantidade envolvia Sasuke. Sakura aparecia também, mais para frente, e quase todas acabavam com Naruto coberto de curativos. Hinata não conseguia pensar quando riu tanto, divertindo-se com Kushina e Nagato. Eles eram engraçados, desinibidos e autênticos, com o próprio Naruto. Era uma família incrível, que fez de tudo para que ela se sentisse incluída – aquilo era perigoso, afinal. Se as coisas não dessem certo, ela sentiria falta deles.

— Naruto, vá até o escritório do seu pai e traga aquele livro de memórias, que fica na prateleira de cima! – pediu Kushina depois de não se lembrar de determinada passagem.

O garoto, resmungando e rindo, acariciou os ombros de Hinata e se levantou, O escritório do pai ficava atravessando o corredor que ligava a sala de estar à sala de jantar, onde estavam anteriormente. Cruzou o hall e virou as escadas, indo até as portas de correr no final. Era o cômodo mais afastado e silencioso de toda a casa, simples e sem grandes decorações – mas nem mesmo Minato conseguiria refrear a esposa, de maneira que o escritório continha móveis vitorianos encomendados e quadros de pinturas famosas –. Naruto esticou o corpo para puxar o livro da prateleira indicada, mas, quando conseguiu puxá-lo, ouviu sons vindo da porta.

Assustado, virou-se, deixando o livro no carpete. Mais perplexo que assustado, reconheceu a silhueta de Minato, que vinha em sua direção com o rosto encoberto pelas sombras do ambiente pouco iluminado.

— Gomen, otou-san. – apressou-se, formal – Não sabia que o senhor estaria em casa. Okaa-san pediu que eu buscasse o livro de memórias para ela. – se explicou, com medo da reação do patriarca por estar em seu escritório. O dia tinha sido um dos melhores de sua vida, e ele tinha um mau pressentimento conforme o pai caminhava em sua direção.

Minato ainda usava as roupas de trabalho, o terno Armani passado e desabotoado, os sapatos lustrosos fazendo barulho contra o chão de madeira. Naruto não conseguiu identificar a expressão em seu rosto – era diferente de tudo que já tinha visto. Além disso, o garoto não gostava de ficar muito tempo encarando o homem. Os olhos azuis e o cabelo loiro, despretensiosamente cortado acima dos ombros, lembravam sua própria imagem do espelho, e aquilo o incomodava.

De repente, Minato começou a bater palmas.

— Otou-san? – Naruto repetiu, confuso. O homem parou à sua frente, abrindo um sorriso sinistro, batendo as mãos vagarosamente, o som ecoando pelas paredes e voltando.

— Devo dizer, filho, que, por essa, eu não esperava. – sua voz era grossa, e orgulhosa. Naruto permaneceu calado, mais confuso do que antes – Veja, eu não esperava grandes coisas de você. – inconscientemente, uma pontada de raiva começou a borbulhar – Achei que você desertaria igual ao inútil do seu irmão, e eu não teria para quem deixar as empresas. Essa foi uma preocupação que me seguiu por muito tempo. Mas, depois disso, meu filho, eu estou orgulhoso. Foi um golpe de mestre, digno do seu pai. – o que mais intrigava Naruto era que não havia traços de ironia naquelas frases. Minato realmente falava sério.

— Eu não estou entendendo, otou-san. – respondeu, aturdido. Minato deixou as mãos caírem, fitando-o.

— Namorar a filha do maior magnata da costa leste? Isso foi genial! – exclamou, verdadeiramente envaidecido.

Minato não acreditou quando Hyuuga Hiashi lhe contou a história de sua filha primogênita. Era como o enredo bem elaborado de um filme – um amor juvenil, a primeira mulher com quem se envolveu, uma criança que, aos quatro meses, já tinha perdido noventa por cento da visão. Herdeiro de uma empresa tradicional, Hiashi não teve outra escolha, a não ser abandonar a mulher e a criança. Afinal, ela nascera defeituosa. No entanto, em seu segundo casamento, o filho, apesar de não ser cego, também apresentava os genes da doença e a particularmente ocular que também apareceu em sua primeira filha. O Hyuuga, no entanto, não voltou a procurá-las até aquele momento, quando soube que a garota era um gênio, e ganhava destaque nas competições colegiais de Rokko. Mandou o filho investigar a veracidade daquelas informações, e qual foi sua surpresa ao descobrir que, além de ter habilidades altamente desenvolvidas, sua filha estava envolvida com ninguém menos que Namikaze Naruto.

Hiashi a tinha subestimado. Seu filho estava sendo preparado para assumir os negócios, mas ele queria que a garota também o fizesse. Suas notas eram impecáveis, suas percepções cognitivas eram acima da média. Com a educação certa, era certamente se tornaria uma influente nata. E, claro, as famílias Hyuuga e Namikaze deveriam firmar uma sociedade, uma vez que seus herdeiros agora estavam juntos.

Minato não entendeu porque aquela garota estava frequentando sua escola, porque sua mãe tinha sido tão estúpida a ponto de autorizar que ela, uma deficiente, uma cega, estudasse com bolsa integral. Sobretudo, se enfureceu ao ouvir rumores de que seu filho estaria se envolvendo com tal pessoa. Porém, ele tinha que admitir quando estava errado, e reconhecia o plano bem-sucedido do filho, a quem ele nunca encorajou, agora o responsável pelo maior acordo empresarial que já fechara em sua empresa, que possibilitará um crescimento inestimável, um alcance impremeditável nos negócios.

— Graças a você, meu filho, consegui fechar negócio com o império Hyuuga, e nosso poder de cobertura logo será internacional. – a carreira política seria somente uma das consequências – Tenho que parabenizá-lo. Não entendi, a princípio, mas você pensou longe. Logo viu de quem se tratava, e ignorou sua invalidez para poder atrair a atenção de Hiashi. Sem dúvidas, uma estratégia de mestre.

Naruto precisou de mais de um minuto para raciocinar todas as coisas que Minato falava, naquele instante. As palavras não pareciam fazer algum sentido – o sobrenome Hyuuga, empresas, acordo, sociedade –. Não entendia, e, quando entendeu, acreditou não tê-lo feito direito. O pai continuava a encará-la com uma espécie de orgulho perturbador, os ombros jogados para trás perfeitamente alinhados em um paletó caro. Tudo que Naruto tinha em mente era a garota no outro cômodo, conversando com sua mãe e seu irmão, a garota por quem ele estava apaixonado.

Ele não era uma pessoa absurdamente inteligente, mas também não era burro. Em seu interior, a raiva acumulada voltou-se para os punhos, cerrados, e para o maxilar, travado. Seus olhos começaram a nublar, e ele percebeu que aquilo era perigoso.

— Golpe? Estratégia? Invalidez? — repetiu, a voz engrossando conforme sua garganta se apertava. Minato continuava a sorrir inatingivelmente – O que você está insinuando? Eu não planejei nada! – percebeu que seu tom começava a aumentar. Minato o fitou com um brilho incerto, se aproximando mais um passo.

— Ora, Naruto. – sua voz estava carregada de escárnio – Não se faça de desentendido. Ou quer que eu acredite que está se relacionando com aquela ceguinha porque está interessado? – soou como se fosse uma piada muito engraçada, e Naruto respirou com dificuldade, deixando o peito crescer, tamanha fúria que tomava-o. Tinha medo do pai, era verdade. Buscava desesperadamente por sua aprovação. Mas, em algumas ocasiões, em raras ocasiões, ele abominava aquele homem, o suficiente para sentir nada mais que raiva. Aquele instante era um deles. Em sua mente, não fazia sentido o que ele estava dizendo, embora também fizesse muito sentido, se tratando de Namikaze Minato.

— Eu estou com Hinata porque eu gosto dela. – retrucou, ríspido, tão baixo que o ar que saiu por seus dentes cerrados soou como um apito. Mordia os lábios, e um gosto metálico se misturou com saliva.

— Não seja ingênuo! – rebateu, desfazendo o sorriso falso, substituindo pela máscara que ele conhecia bem. Rígida e ríspida – Aquela garota não está a sua altura! Continue cumprindo seu papel até que Hiashi esteja convencido o suficiente para ceder as ações necessárias, e, em seguida, livre-se dela. – balançou a mão como se espantasse uma mosca particularmente irritante. Naruto não teve controle do que veio a seguir.

— SEU CRETINO BASTARDO!

O braço direito saiu do lado de seu corpo em um gancho disparado e poderoso. Minato estava próximo o suficiente para ser atingido com força total no queixo. Um estalo soou por todo o corredor, e o homem caiu de costas, jogado contra uma cadeira, que tombou e caiu. O impacto fez cair uma mesa de apoio, e Minato se jogou contra ela também, quebrando-a em três partes. O punho de Naruto ficou suspenso no ar, no lugar em que acertou, e suas dobras ficaram vermelhas. Ele não estava se importando com mais nada – seus olhos estavam vermelhos, e o peito, subindo e descendo descompassadamente. Para onde olhasse, via vermelho. O ódio fermentado dentro de si foi liberado com um único movimento, e não soube dizer se, inconscientemente, havia se segurado, porque Minato ainda estava lúcido, embora parecesse desorientado. Um filete de sangue escorria por sua boca.

— Pelo amor de Deus, o que está acontecendo aqui?! – Kushina surgiu no corredor, gritando. O barulho foi ouvido na sala de estar, e todos seus habitantes, ao ouvir os gritos e o estrondo, correram.

A cena não era das melhores. Naruto, próximo a prateleira, em posição ofensiva, braço suspenso e rosto convertido em semblante de pura cólera. Minato, jogado no canto da sala, sobre pedaços quebrados de madeira, o rosto começando a inchar, sangrando, uma das mãos segurando o maxilar. A gola da camiseta elegante, agora com pequenas manchas. Apesar disso, seu rosto detinha um olhar furioso, as sobrancelhas unidas a ponto de se tocarem. Os olhos azuis, quase sempre elétricos, assustadoramente frios, cortantes. Kushina levou as mãos até a boca, atônita, e Nagato assumiu uma posição defensiva, pronto para intervir.

Hinata não viu nada daquele cenário. Ela tinha os braços atrelados ao de Kushina, que a guiara, aos trancos, até a outra sala. Ela sentia o aperto aflito, ouvia as respirações pesadas e a tensão palpável no ar. Se preocupou com Naruto – queria poder tocá-lo, mas sentia que era o elemento excedente no cômodo.

O garoto parou, virando o rosto em direção à mãe. Ao seu lado, Hinata – com a feição agoniada. Ele quis rir, fazer uma piada. Não acreditava que ela estava mesmo preocupada com ele. Lembrou-se das palavras do pai, de como tudo se resumia a um jogo econômico, onde Hinata, de repente, se tornara um peão importante, mas descartável. E foi naquele momento que Naruto decidiu, com todas as fibras de seu ser: ele protegeria Hinata, ficaria ao seu lado, nem que lhe custasse tudo.