Quimera
9 Escolha
Notas iniciais
— Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos, confessamos?
Naruto sentia-se particularmente renovado enquanto aplicava uma série de potentes chutes em um saco de areia pendurado precariamente no centro do tatame. Embora o kimono fosse incômodo para golpes altos, estava conseguindo passar a lição para o restante da classe, que observava atenta a cada movimento.
O treino havia sido exaustivo, pelo menos para todos aqueles que não fossem o capitão. Exercícios pesados e aeróbicos repetidos até que cada músculo estivesse contraído o bastante a ponto de latejar pela próxima semana que se seguisse. Naruto queria explorar o máximo do físico de cada aluno antes de dividir as turmas de acordo com os pesos. Os amistosos começariam no mês seguinte, e – agora poderia falar por todo o time – queria muito trazer a vitória para a Academia.
Ao final de duas horas, não havia um só participante que não estivesse embebido em seu próprio suor, ofegante e com suspeitos hematomas nos braços. Apesar de tudo, ninguém ousara dizer uma só palavra, e Naruto estava ensinando a última sequência de golpes antes de – finalmente! – liberá-los. O Namikaze havia, de fato, sido o mais esforçado ali. Além de ensinar, praticar e repetir fadigosamente cada movimento, ainda se oferecia para ser a dupla de todos os lutadores ali, instruindo quando necessário e apanhando, sem se queixar. Naruto poderia ser muitas coisas, mas ninguém diria que ele era um mau capitão.
Certamente, havia uma série de fatores positivos que estimularam a energia vital do loiro, estas que incluíam o tempo ameno – como uma trégua mais que bem-vinda do frio extenuante de abril –, o time bem estruturado que tinha em suas mãos naquele ano, os novos tatames oferecidos pelos colaboradores do colégio. Uma lista que se estendia longinquamente, e, obviamente, não tinha nada a ver com uma garota. Lógico que não.
Naruto sequer lembrara do pequeno diálogo naquela manhã, onde marcara para conversarem, dignamente, em um lugar refrescante e afastado de toda a civilização desprezível daquela escola. O garoto, com a maior das certezas, não pensara nos olhos desfocados ou nos lábios rosados da Hyuuga, e ela, definitivamente, não havia sido o maior dos incentivos para seu entusiasmo naquela tarde.
Não poderiam dizer que ele não tentara, de fato, enganar a si mesmo,
O timing era perfeito – de uma maneira tão exata que não desconfiar daquela colher de chá do destino era ser ingênuo demais, falando de uma maneira educada –, coincidindo cada momento meticulosamente planejado na mente do garoto. O time finalizava o alongamento e ia para o banheiro, duchar-se, enquanto o loiro guardava todos os aparelhos usados em seus devidos lugares. A medida que se despediam e esvaziavam o lugar, restava apenas Naruto e seus amigos, que – tão leais como eram – não o esperavam enquanto tomava seu banho. Depois de alguns minutos, restava apenas o capitão, que fechava o ginásio e prosseguia, em toda sua gloriosa solidão. Sempre que pensava em seu plano – ele estava realmente orgulhoso de tê-lo todo planejado –, não evitava um sorriso. Estava ansioso. Mais que ansioso.
Terminou os chutes, limpando o suor que escorria rente aos seus olhos. Se voltou para a turma, explicando mais algumas técnicas e depois os dispensou. Espalharam-se pelo espaço, alongando cada membro e soltando exclamações de dor. Um por um, pegavam suas bolsas, caminhando pelo estreito corredor que desembocava nos banheiros. Como suposto, não tardou até que restasse somente Naruto e quatro ou cinco de seus colegas.
— Preciso preencher uns papéis antes de ir, vocês me esperam? – gritou para o grupo que caminhava para as duchas, que incluía Sasuke, Gaara e mais alguns garotos.
— Nem ferrando! – Gaara respondeu, arrancando risos dos garotos, e Naruto teve que, ele mesmo, disfarçar o seu, retrucando um palavrão qualquer, que deixaria a encenação mais bem estruturada. Respirou fundo, acalmando seu próprio coração descompassado.
Tudo não poderia estar melhor. Seus colegas passavam, se despedindo com acenos e tapinhas cordiais nas costas, e Naruto sorria amigavelmente para cada um deles. Guardou os pesos um tanto quanto inquieto, olhando diversas vezes para o corredor, esperando que a força da sua mente o esvaziasse repentinamente. No entanto, nem mesmo ele pode ser capaz disso, e teve que aguardar até o último amontoado de pessoas sair, deixando o lugar agradavelmente silencioso. Naruto sorriu para si mesmo, buscando sua bolsa, a única no armário, e se dirigindo para um banho refrescante.
Ele estava começando a ficar nervoso. Suas mãos estavam suando, e ele montava diálogos em sua mente apenas para que não houvesse o silêncio constrangedor. De alguma maneira, ele ansiava por aquilo. Poder se sentar com ela sob a sombra de alguma árvore e conversar – há tanto que ele não fazia aquilo. Apenas conversar. Falar sobre seus medos, seus desejos, seus sonhos, suas preferências. Falar sobre assuntos profundos e também superficiais. Ele queria saber tudo. E, por mais que não o pudesse fazê-lo em público, desejava ter em Hinata uma amizade verdadeira.
Justamente por ela ser cega – a condição que o fazia querer se afastar e se aproximar ao mesmo tempo. Era um maldito paradoxo. Ela não o julgaria por sua aparência, ou por sua família, ou por sua influência. Ela o julgaria por seus gostos, seus ideais, suas opiniões. Ela o reconheceria por sua voz e sua presença, não pela sua conta bancária ou a pose que ele exibia. E ele almejava tanto aquilo. Ele precisava, como uma necessidade muito urgente.
Mas ele também entendia as contraposições de apresentar a garota publicamente como sua amiga – contraposições, aquelas, que o faziam ser um babaca de marca maior. Era muita coisa em jogo. Novamente, ele se via preso a sua vontade e a vontade daqueles a sua volta. Mas ele havia sido criado daquela maneira, e teria que satisfazer as expectativas de todos antes das suas.
Respirou fundo, afastando quaisquer pensamentos negativos. A água quente ajudou a relaxar seus músculos, e, quando saiu do chuveiro, sentia-se renovado. Enxugou-se e vestiu desajeitadamente uma roupa qualquer. Ele havia pego sem pensar, uma de suas blusas mais velhas e uma calça qualquer – não era como se a roupa fosse importar para Hinata, de qualquer maneira. Secou o cabelo e jogou a mochila nas costas, tão contente que quase conseguia assoviar.
No entanto, era óbvio que o universo não era tão bondoso assim.
— Merda. – praguejou sozinho, reprimindo uma careta quando observou as cerca de vinte pessoas que entravam pelo lado oposto.
— Naruto-kun! – gemeu internamente quando a voz chegou em seu ouvido. Todo o entusiasmo de antes esvaiu-se como vapor, e ele poderia chorar.
— Oi, Shion. – forçou um sorriso enquanto ela beijava sua bochecha, agarrando-se ao seu braço. Naruto olhou para todo o time de líderes de torcida, que, provavelmente, estavam voltando do treino. Embora ficassem o mesmo tempo na quadra esportiva, pareciam estupidamente perfeitas. Shion não tinha um fio de cabelo fora do lugar, nenhuma gota de suor ou algum amassado sobre sua roupa – Já disse que não precisa colocar o sufixo no meu nome, estamos no século vinte e um, ninguém vai ligar se você não for, assim, tão formal. – resmungou, como um velho, e ela apenas sorriu com seus lábios cheios de gloss
— Eu gosto como soa. – respondeu, acenando para as amigas enquanto arrastava Naruto consigo. Ela se voltou para ele, com uma careta – Que roupa é essa? – fez um bico – Não parece as roupas que você costuma usar.
— Só peguei qualquer uma no guarda-roupa. – grunhiu, reprimindo a vontade de gritar e sair correndo. A loira apenas deu de ombros, puxando-o para junto dos demais, pessoas com quem Naruto costumava passar as férias ou ir a festas, mas ele sequer sabia o nome de metade delas.
Shion falava animada com alguma outra garota sobre algum outro assunto que Naruto não se deu o trabalho de acompanhar. Enquanto observava a loira, lamentava-se pelo universo ter resolvido realmente odiá-lo naquele dia. Analisou seu cabelo loiro, brilhante, seus olhos claros, a maquiagem, o esmalte, a roupa de líder de torcida. Correu seus olhos duas ou três vezes, a mente muito longe dali.
Ele amara Shion. Ele realmente a amara. Houve um tempo, quando era jovem e inconsequente demais para se importar, em que ele olhava para aquela garota e via um futuro incrível. Ela era a garota mais bonita da sala, a mais simpática. Embora suas notas não refletissem tanta grandiosidade, Shion tinha a lábia de alguém que sabia o que queria, e sabia como conseguir. Ela era manipuladora, e ninguém diria que não era esperta. A garota admitia e descartava amigas como lenços descartáveis, conforme lhe fosse mais conveniente. Naruto costumava alegar que ele não enxergava aquela parte dela, mas, naquele momento, ele não conseguia negar mais – ele enxergava, e ele gostava. A maneira que ela guiava as pessoas, como se impunha sua presença, como se fazia notar. Ele gostava daquilo, ele sentia prazer com o poder.
Parecia certo o relacionamento deles – tão certo quanto uma nova manhã. Filhos influentes de famílias influentes, loiros e perfeitos. A prescrição magnânima de um clichê prestes a acontecer. Começou com um cinema inocente, e, uma semana depois, ele já havia a levado para conhecer sua casa. E, então, eles se beijaram. E, então, eles transaram.
Não foi especial – Naruto odiou-se por aquilo, quando os anos passaram –, não foi especial de forma alguma. Uma noite qualquer, um amasso quente. Não houve pedidos, ou permissões, ou premissas. Apenas aconteceu. E, novamente, tão certo quanto era para ser, eles deram as mãos naquela segunda-feira, em um anúncio mudo de que havia um novo casal da realeza na hierarquia escolar.
Naruto se perguntava, depois de dois anos, o que tinha acontecido. Ele olhava para Shion e pensava: “Porra, eu realmente amo ela”. Ele forçava a se iludir com uma fantasia que nunca fora real, afinal de contas. Shion só queria poder – assim como ele, não seria hipócrita de negar –, status quo em uma realidade atemporal de sua vida. Eles uniram o útil ao agradável. Naruto a amou, como um namorado ama sua primeira parceira. Mas, tão rápido quanto veio, se foi.
Shion tornava-se cada vez mais insuportável. Cada mania que detinha irritava Naruto em proporções épicas, bem mais que deveria. Ele ignorava, e, bilateralmente, assim como ignorava o sentimento de raiva, ignorava a própria garota. Entretanto, Shion não gostava de perder. Era tudo da maneira dela, e ela começou a persegui-lo, demonstrar que ela quem estava no comando daquela relação.
Naruto a transformou em sua válvula de escape pessoal. Sexo para os momentos de necessidade, uma maneira de manter sua posição social, uma acompanhante para as reuniões elitistas. E nada mais. Ele não a amava mais. Ele amou, sim. Mas, cego – talvez pelo poder, talvez por sua própria imaturidade –, ele não a enxergava realmente.
Era uma ironia de péssimo humor, afinal. Mesmo vendo, ele fora cego.
— Naruto-kun? Naruto-kun! – o garoto foi acordado de seus devaneios, a contragosto.
— O que foi, Shion? – tentou conter o tom de voz irritadiço, mas a outra pareceu não notar.
— Sobre a garota cega. – soltou uma risada, ao passo que Naruto eriçou-se, com os punhos apertados junto ao corpo – Ela passou no time de natação. – enquanto o rebuliço acontecia, Naruto comemorou internamente, e, então, não sou explicar porquê – O que eu acho muito sem noção. – revirou os olhos irritantemente – Mas, a gente estava vindo pelo ginásio e vimos ela parada na frente do portão, igual uma idiota. Parecia estar esperando alguém, mas não me surpreende se ela tiver uma doença mental ou algo do gênero. Ela é tão esquisita! – risos soaram.
Mas Naruto, ah! Ele estava longe de novo. Tão longe quanto sua mente permitia, desejando, em um íntimo profundo e inalcançável, que ele pudesse simplesmente desaparecer. Porque seu coração sangrava. Seu coração sangrava, e doía – doía como um inferno! E suas mãos tremiam, tomado por um súbito ataque de pânico. Ele sentia-se culpado, corroído por um remorso que não saberia explicar, porque nunca sentira nada parecido. Consumia-o de dentro para fora, queimando seu estômago, secando sua garganta, pesando sua cabeça. Sentia-se nauseado, mas seu corpo estava gelatinoso, e ele não sentia o peso de suas pernas sustentando-o.
Era sua culpa. Ele sabia disso, e, mais, ele sentia-se culpado. Tudo que ele mais desejara naquele dia fora se encontrar com ela, fugir. Fugir para outro lugar, outra dimensão, outra vida. Fugir de si mesmo, fingir ser um outro alguém e interpretar um papel que nem mesmo ele sabia que existia dentro de si. Mas parecia óbvio demais – não tinha como fugir.
Naruto foi arrastado pelos braços de Shion, que recusava soltá-lo, mas ele não sabia para onde estava sendo levado, e, tampouco, ouvira as últimas palavras ditas por aquelas pessoas que, embora próximas, jamais estiveram tão distantes.
Hinata desenvolvera um ótimo sistema pessoal contra ansiedade – ela orgulhava-se disso, porque, geralmente, era uma pessoa muito centrada e de um autocontrole formidável. Ocupava sua mente com quaisquer assuntos complexos o bastante, e forçava-se a pensar até que criasse dores nas têmporas. Centrava-se unicamente no que tinha que pensar, ignorando tudo e todos. Aquele sistema – embora aparentemente um tanto cruel – funcionava. Evitava ataques, suor desnecessário, taquicardia, e alguns outros sintomas anti-higiênicos demais para serem mencionados.
De qualquer maneira, ela se orgulhava por controlar a si mesma. Até aquele momento, porque, como tudo que estava acontecendo ao seu redor, a inexperiência patética tornara-se um fator particularmente irritante na sua vida.
Ela não sabia como agir. Não sabia o que pensar, não sabia o que fazer. Não tinha meios de saber a passagem de tempo, não via o sol ou ponteiros de relógio. Confiava exclusivamente na sua capacidade magnífica de dedução – e confiava nas pessoas. Mas esse era o pior método.
O treino parecia ter acabado há muito, muito tempo. Tomada por um estado de torpor causado pela felicidade, seu corpo simplesmente anestesiou-se para quaisquer eventuais dores que pudesse vir a ter – e ela teria –, deixando apenas a sensação de exultação plena. Mesmo com os exercícios puxados, e as dificuldades para localizar-se na piscina, e o medo, que a acompanhava como uma sombra silenciosa e pragmática. Hinata não sentia nada que não fossem borboletas.
Quando acabou, seus colegas – e ela realmente podia chamá-los assim! – a ajudaram a chegar no banheiro, onde a água límpida retirou os vestígios de cloro de seu cabelo. Ela vestiu-se e guardou o traje molhado, ouvindo os passos tornarem-se cada vez mais longínquos, até que somente os sons ambientes permanecessem consigo. Foi quando ela começou a sentir-se nervosa.
Caminhou até a entrada do ginásio, pelo caminho que tinha memorizado. Conseguia sentir o frescor dos raios que se punham, e a quantidade de pessoas andando na direção contrária a levava a concluir que seria o fim da tarde. Então, ela esperou, lutando para que a ansiedade não tomasse conta de seu corpo, parte a parte, órgão a órgão.
Ela esperou. E esperou. E esperou.
Ela esperou.
Mas nada aconteceu.
Poderiam ser minutos transcorrendo, mas ela não saberia dizer quantos. Já não sentia mais o calor morno em sua pele, e suas pernas começavam a reclamar. Ela começou a pensar, então, em questões de física quântica – porque, apesar de não entender absolutamente nada daquilo, os princípios mais básicos eram capazes de deixá-la acordada por horas. E sua mente nublou-se de fórmulas e conceitos difíceis, porque ela era uma pessoa controlada.
Porque ela não estava prestes a ter um colapso.
Sua mente buscava números e equações complicadíssimas quando seu ouvido captou o que deveriam ser passos. Ela respirou, tão fundo que seus pulmões arderam – parecendo não ter recebido oxigênio por um longo período –, e sorriu. Para o nada, mas sorriu. No entanto, algo estava errado. Eram muitos barulhos, muitos passos, e seu peito murchou novamente. Os passos se aproximavam, com muita conversa e risadas. E, a cada segundo, tornavam-se mais audíveis, chegando perto dela.
Hinata percebeu-se cercada. Pela primeira vez em muito tempo, sentia-se acuada. Ela era uma pessoa segura de si – porque ela tinha que ser –, mas estava desprotegida. Desprevenida, com a retaguarda aberta, os pensamentos longe, o coração partido. Ela não conseguiria se defender com a porra de um coração partido. Movimentou a cabeça, tentando distinguir os sons, e houve mais risadas. Ela estava com medo.
Naruto percebeu tarde demais. Quando seus olhos focalizaram, eles estavam a caminho da entrada principal dos ginásios, e uma silhueta feminina borrada era distinguível. Ele prendeu a respiração, tropeçando em seus passos, mas Shion puxava-o com uma força impressionante. O garoto conseguiria desprender-se do aperto, mas ele estava atordoado. Mais que isso. Estava em choque.
E sangrava em feridas que não eram visíveis.
Ele a via. A via assustada, um animal fugindo, acuado, de seus predadores. Ele a via, perdendo a cor em seu rosto, a expressão chocada. Ele a via, tão pequena e indefesa. Ele a via, ele a via. E ele era um maldito covarde.
— Olha que patética! – alguém no meio da multidão gritou, e as risadas eram uníssonas, maldosas.
— A ceguinha se perdeu? Não conseguiu ver por onde andava? – era doentio, era maléfico. Era desumano. Naruto se debatia, e seus olhos só conseguiam enxergá-la, com medo. Ela estava com medo. Deles. Aquilo era maior que qualquer brincadeira entre alunos, aquilo atingia um novo nível, pior, nojento.
— M-me deixem em paz. – murmurou, mas sua voz se perdeu no meio de tantas provocações. Suas mãos tremiam segurando o bastão, e ela andava para trás com passos incertos.
— Vai Naruto! – alguém exclamou, e várias cabeças se voltaram para ele, com sorrisos de expectativa e olhos ferozes. Ele engoliu em seco, trêmulo. Mais vozes se ergueram, chamando seu nome, e Shion o olhou, com olhos de um brilho psicopata.
Estava feito. O que ele tanto temia, agora estava feito. A hora da decisão, a encruzilhada. Ele era o Namikaze, o garoto com uma reputação a zelar, uma fama que o precedia. Nenhuma daquelas pessoas o conhecia de verdade, nenhuma daquelas pessoas era sua amiga, mas estavam com ele. Estavam com ele quando ele zombava de alguém, estavam com ele na hora do almoço, estavam com ele nas festas mais animadas. Estavam com ele, mas ele sentia-se sozinho. Nenhuma daquelas pessoas o conhecia de verdade.
E, a sua frente, a única pessoa que ele desejava angustiantemente que o conhecesse. Ela não o enxergava por fora, mas ela lia sua alma. Estar com ela o fazia querer falar a verdade, despejar em enchentes torrenciais palavras amarguradas, mas também palavras gentis. Ele havia ansiado por aquele momento a tarde toda – e, de alguma maneira, mais que apenas uma tarde –, esperara por aquele instante. Talvez ele estivesse a espera de uma redenção, do expurgo de seus pecados. Quando as coisas saíram do controle?
Ele tinha que escolher, mas era dolorido, porque a escolha já estava feita. Aparências – é disso que vive o homem.
— Ora, deixem disso. – ela não via seu sorriso irônico, ou seus olhos carregados, mas o tom debochado chegava em seus ouvidos – Ela não tem culpa de não poder ver o quão humilhante é sair desse jeito do quarto. Não precisa da gente para se ridicularizar mais.
Houve uma explosão de risadas, e uivos, e concordância, e deboche. Naruto não ouviu nada daquilo. Seus olhos apenas acompanharam uma pessoa, que saía, vacilante, o mais rápido que seus pés lhe permitiam. O bastão batia inconstante a sua frente, e sua cabeça estava baixa. Ele a viu sumir para o prédio principal, e, enquanto seu rosto endurecia em uma máscara, seu coração se partia dolorosamente. Mas ninguém percebeu nenhuma das duas coisas.
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