Quimera
10 Ultimato
Notas iniciais
— Quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles
Hinata não conhecia as cores. Ela apenas não conhecia — não era como se fosse um tabu ou algo parecido. Algumas pessoas nascem e perdem a visão com o tempo, algum infortúnio ou tropeços infelizes da vida. Estas pessoas conheciam as cores do mundo, estavam familiarizadas com elas, haviam vivido entre elas. Mas Hinata apenas não as conhecia. Toda sua vida era uma bolha de escuridão constante. Por vezes, era afetada pela luz, que transformava a escuridão em algo mais incômodo, por vezes brilhante. Mas sem as cores.
Porque tudo dependia das cores. Descrições essenciais dependiam das tonalidades refletidas, e era um desafio para sua mãe explicá-la sobre um determinado ambiente sem citar as magníficas cores que o rodeava. Hinata aprendera a lidar com aquilo, e — após longo tempo de revolta e negação —, aprendera a aceitar sua condição. Hinata nunca conhecera as cores, então não sentia falta delas.
A única coisa mais próxima que chegara de conhecer, de fato, os tons, era através das sensações. Sua mãe costumava lhe dizer que as cores eram como as sensações, as emoções, os sentimentos. Hinata passava horas acordada, sonhando, imaginando, sem, de fato, ter um parâmetro específico, mas, em sua mente, era rodeada de flores e de arcos-íris. Vermelho era o intenso. A felicidade intensa, a raiva intensa, todo sentimento que tomasse conta de suas células, que a dominasse com demasiada força que seria difícil respirar. Vermelho era amor. Amarelo era a felicidade, a calmaria. Um dia de sol, iluminado, o espírito em descanso, a plenitude. Verde era o sentimento de acreditar que se pode vencer, a esperança, a fé. Hinata gostava de pensar verde, porque era uma cor positiva. Cores escuras como marrom eram a seriedade, o desafio, mas também o renascimento, porque a terra fértil que fazia brotar novas vidas eram marrom. Cores acinzentadas eram os dias tristes, monótonos, onde não se há perspectiva ou sorrisos. Cinza era a tristeza, que chegava lentamente, tomando de conta pouco a pouco, até se instalar e roubar as outras cores de cena. Haviam tantas cores, mas também haviam muitos sentimentos. A complexidade era invejável, e, de uma maneira curiosa, admirável também. Hinata já conhecia o preto, a ausência de todas as cores, e o branco, que era a junção de todas, a cor neutra, a cor branda.
O mundo são cores. As pessoas são cores. A existência é cor — cor poderosa, cor potente, cor presente, cor magnânima. Tudo era cor.
Hinata não conhecia as cores. Não as via. Mas, se Hinata tivesse que escolher uma cor naquele momento, era seria azul.
Tudo era azul.
Azul era a tristeza repentina, o amargo que se instalava dentro do peito e corroía em ímpetos. Azul era a sensação de estar se afogando em fel, lutando para voltar à superfície mas sendo puxado para baixo. Azul era o coração sangrando e doendo, diminuindo a cada batida. Azul era querer desaparecer — talvez para sempre —, era desejar nunca ter estado ali. E também diziam que azul eram as lágrimas que escorriam dos olhos magoados.
Hinata, de fato, não saberia dizer como chegara ao quarto. Se é que estava no quarto certo — já não fazia mais diferença —. Sua mente estava pesada, como se, de repente, seu cérebro tivesse tornado-se uma massa de cimento dentro de sua cabeça. Seus pulmões ardiam pela falta excessiva de ar durante sua fuga, e os passos cambaleantes lhe renderam alguns hematomas pelas pernas e ombros. O bastão ia na frente, trêmulo, contando números que embaralhavam-se a todo momento. Ela identificou o corredor dos dormitórios puramente por sorte, ao ouvir alguém batendo uma porta. Não se importava, tampouco, que lhe vissem daquela maneira.
Ela conseguiu chegar até o quarto, embora sentisse uma dor diferente, paralisante, que a impedia de caminhar normalmente. Sentia os pés pisando em pregos, e ela estava nauseada. Trombou com a cama e caiu, lateralmente, encolhendo-se devagar como um pequeno caracol dentro de sua concha, ao ser tocado.
Hinata só queria que a dor cessasse. Talvez se abraçasse com força seus joelhos contra seu peito, os pedaços quebrados se uniriam novamente e estacaria aquele ferimento, que sangrava dolorosamente agora. Realocou sua cabeça contra os braços apertados, deixando-se molhar pelas lágrimas quentes que escorriam e caíam, perdidas. Sentia-se patética, mas a cada vez que tentava parar, sua mente lhe trazia novos e novos flashs, as risadas, as falas ásperas e as ofensas.
Hinata sabia lidar com ofensas. Ela não era nenhuma garota fraca e facilmente quebrável, como imaginavam. Ela era inteligente, e talentosa, e independente, e havia conquistado muitas coisas em sua vida. As ofensas viriam, porque as pessoas eram más. Os apelidos viriam, porque as pessoas eram más. Ela sabia lidar com isso — sim, sabia muito bem. Brincadeiras não era mais ultrajantes e tinha uma boa autoconfiança.
No entanto, aquela vez fora diferente.
Não saberia dizer o que, com exatidão. Fosse seu cansaço físico, ou mental. Fosse a multidão que se aglomerou e a cercou de forma intimidadora, fazendo sua guarda baixar. Fossem as vozes se misturando e atordoando seus sentidos. Haviam inúmeros motivos, sim. Mas ela não enganaria ninguém, quiçá a si mesma. Sabia o que aconteceu, sabia a razão por sentir-se tão pequena quanto nunca antes.
Não fora uma brincadeira. Não fora um xingamento ou uma agressão. Não fora uma apelido infeliz. Aquele garoto — com a voz grossa e confiante, fria, porém agressiva — fizera o extremo oposto. Ele não dissera nada. Nenhum nome ou gozação. Porque estava com pena. Ele se recusou a zombar dela por ela ser digna de pena, por fazer aquilo por si só. Por ser insignificante, hilária, uma piada pronta. Por ser uma vergonha, um ser desprezível, defeituoso. E aquilo foi pior que qualquer ofensa que poderia ter recebido.
Apertou-se novamente, controlando os soluços dolorosos que saltavam, tentando não fazer sua cabeça explodir. Doía, tudo doía — parecia físico, como se tivesse apanhado, mas, fora os hematomas dos trombos e deslizamentos, sua pele continuava tão intacta quanto sempre estivera. Seu peito queimava, mas ela não via o fogo. Seus pulmões eram apertados, mas ela não via as mãos. Sua respiração era estrangulada, mas ela não via o que barrava sua garganta.
Era miserável, mas ela também não via isso. Porque não via nada.
Ela não entendia. Nunca fizera mal algum para ninguém. Procura viver a sua própria sombra, quieta, levando como podia. Nunca falava alto ou retrucava uma acusação. Permanecia de cabeça baixa pelos corredores, se concentrando unicamente no som que o bastão fazia ao bater contra o concreto. Hinata era calma e paciente, e por mais que escondesse qualidades admiráveis — ela adorava falar sobre o infinito, cozinhava muitos doces frios, era boa com contas matemáticas, gostava de bibliotecas faladas, tinha um ótimo gosto para jogos, era uma boa ouvinte e caminhante em dias quentes —, não as mostrava para ninguém. Não gostava de se destacar, porque as pessoas se incomodam com o brilho. Cega, irrita. As pessoas ficam imprevisíveis quando são cegas por alguém. Porque ninguém gostava de ficar cego — ah, que doce ironia!
A dor não parecia querer abandonar seu corpo, contudo. Hinata se apertava cada vez mais, encolhendo-se dentro de si, e sua coluna já começara a dar sinais de irritação pela posição em que estava curvada. A garota não ligou. Talvez, com a dor física, pudesse esquecer um pouco o tilintar dentro de sua mente, como pontadas agudas, que a desnorteavam.
Escutou a porta se abrir — e congelou —. Ela implorou para os céus, se a pudessem ouvir, para que não fosse Sakura. Ela sabia, de alguma maneira ela sabia, que Sakura se relacionava com aquelas pessoas, ainda em memória viva para ela. Não que Hinata não gostasse de Sakura — fora a primeira amiga que verdadeiramente tivera, e ela era grata. Gostava de Sakura. Mas todos o faziam — e como não fazer? Sakura era linda, carismática, inteligente, prestativa. Era a presidente do conselho estudantil, tinha personalidade marcante. Todos conheciam Sakura, e Sakura conhecia a todos. Era inevitável. Se a visse daquela maneira, Hinata sabia que Sakura, como a boa amiga que era, tomaria partido da garota. E ela não conseguiria suportar viver com a idéia de que foi o pivô de uma briga entre amigos. Hinata era apenas uma forasteira — uma estranha no ambiente, uma desconhecida entre pessoas que cresceram juntas.
Mas não era Sakura.
Hinata percebeu assim que a porta se fechou. Cheiro de madressilvas, com um pequeno odor agridoce, suavemente. Saboroso, a lembrando de chocolate. Se deu conta, então, de quem era. Ouviu uma exclamação surpresa e passos apressados até seu lado, e a cama afundou ligeiramente, fazendo com que seu corpo fosse atraído pela depressão. Ainda estava em posição defensiva, mas sentiu mãos quentes e cuidados sobre seus braços, fazendo movimentos hesitantes. A morena mordeu os lábios, e mais soluços saltaram de sua boa.
— Kami! Hinata, o que houve?
A Hyuuga respondeu apenas com alguns grunhidos, sons inteligíveis que se misturaram com a nova demanda de lágrimas quentes, escorrendo até desaparecer entre os lençóis. Seus dedos tinham os nós brancos de apertar suas vestes, um tanto amassadas àquela altura do campeonato.
— Hina... — Tenten acariciou o cabelo de Hinata com um tom realmente preocupado, e, mesmo que não fosse visível para a outra, portava o semblante tão perturbado quanto nunca antes.
A Mitsashi aproveitou o final da tarde — e o toque de recolher ainda não tocado — para ir até o dormitório de Sakura. Há dias que não conversavam direito, e a retomada das atividades de clube deixara a rotina absurdamente apertada. Com uma folga em boa hora, poderiam conversar noite adentro e, quem sabe, ter uma festa do pijama digna. Esperaria por Ino, mas a porca ficou presa em algum trabalho escolar que — sinceramente? — ela não se importava.
No entanto, todas suas expectativas mudaram quando entrou no dormitório — usando a chave extra que a Haruno guardava previsivelmente embaixo do tapete —. Ponderou, no primeiro momento, ter entrado no quarto errado. Afinal, todos eles compunham de uma decoração não muito original. Todavia, avistou uma garota deitada na cama debaixo do beliche, encolhida, aparentemente imóvel, se não fossem os chocalhos que suas costas realizavam com os soluços angustiantes.
Seu coração se apertou de uma forma inexplicável — já havia visto outras pessoas chorarem. Suas amigas já choraram em seus ombros. Ino chorava uma vez por semana. Mas aquilo era diferente. Era doloroso até mesmo de se ver. Era um choro silencioso, que atinge ao redor. Regado de sofrimento e uma amargura inexoráveis, trêmulos. Não era um choro alto, escandaloso, que coloca para fora toda a tristeza. Era justamente o contrário — o choro que alimenta a agonia, que remoê os pensamentos.
Tenten correu até Hinata — os fios negros e a estrutura pequena até mesmo encolhida eram, de longe, reconhecíveis —, sentando-se ao seu lado. Sua pele estava fria, mas seu rosto corava como em chamas. Não conseguiu ver seus olhos, mas temia não ser necessário. A Hyuuga era muito transparente — agia com clareza e não escondia seus sentimentos, fosse qualidade, fosse defeito. Naquele momento, Tenten realmente sentia seu sofrimento, tão firmemente que estava prestes a se curvar e chorar com ela. O que quer que tivesse acontecido, deixara a garota de uma maneira que nunca tinha visto antes — vulnerável.
A Hyuuga, por outro lado, sentia-se ainda mais patética. Não gostava de chorar – particularmente, essa ação a fazia pensar que era frágil, que não conseguia suportar nada. Mas, chorar na frente de outra pessoa? Era infinitas vezes mais humilhante. Contraiu-se, afundando o rosto no travesseiro que já estava torto há algum tempo. A amiga reclinou-se mais, querendo tocá-la a qualquer custo, e Hinata sentiu a garganta se apertar, porque nunca ninguém tinha se preocupado daquela maneira com ela. E o mundo era uma grande merda, e as coisas não eram justas. Nada era justo.
— Hina, por favor. – a voz de Tenten era angustiada, com um quê de imploração – Me conta. Desabafa, ou só chora, mas deixa eu te ajudar, por favor.
A morena estremeceu. As cenas não se dispersavam, apenas assumiam outro departamento em sua mente conturbada de pensamentos avulsos. Suspirou algumas vezes – mais que ela conseguia contar no intervalo de minuto que se passou –, e, por fim, começou a se movimentar. Suas pernas estavam formigando pela posição apertada, mas ela as forçou para baixo. Tenten se afastou, a ajudando a se levantar. Seu rosto apareceu na luz, e a Mitsashi reprimiu um arfar. Parte vermelho, parte esbranquecido, seus olhos eram contornados por grossas linhas roxas, com pequenas veias contornando-as, e seus glóbulos assumiam um inchaço anormal, enquanto as íris lilás focavam em nada. De alguma maneira melancólica, os olhos de Hinata passavam um desalento mortal.
A garota reclinou-se, com a cabeça baixa, deixando mais lágrimas caírem. Ela não saberia dizer quantas horas passou chorando, mas ainda restava água em seu corpo para fazer pelas fendas. Tenten se aproximou, passando um dos braços pelos ombros e puxando. Encaixou o rosto contra sua curvatura e fechou os olhos ao ouvir um soluço alto.
Naruto não podia dizer que estava, de fato, vivo. Claro, respirava, e em peito havia um coração que bombeava sangue para cada veia que circulava por seus membros. Mas era como uma carcaça – vazio, impassível, a deriva. Ele não conseguiria dizer se estava triste, com raiva ou culpa. Ele apenas não sentia. Sua mente era uma caixa nublada de vácuo, pesada, porém oca. Seus braços e pernas não se moviam conforme suas ordens, pousados inúteis ao lado de seu corpo. Seu rosto era inexpressivo, e zumbidos a sua volta lhe deixavam desorientado – era tinha quase certeza de que eram palavras. Estava junto de Shion e outras pessoas que não valia a pena reconhecer. Dez ou quinze, em uma das mesas afastadas do refeitório, que já servia o jantar. Gaara estava entre as líderes de torcida, mas não perceberia nada de diferente nem que isso custasse sua vida. Sasuke ainda não havia chego, deixando o Namikaze sozinho naquela selva de humanos.
Uma hora – mais ou menos, não saberia dizer – havia se passado desde o episódio no ginásio, e, a partir daquele momento, entrou em modo de piloto automático. Foi arrastado de alguma maneira até onde estava agora, sentado, recostado contra o muro, entre ele e Shion. Seus olhos focalizavam, mas as imagens não se formavam em sua mente. Sua boca estava seca. Apesar de não conseguir pensar em nada, a imagem de Hinata parecia gravada, como um quadro em uma parede branca.
Seria Naruto um verdadeiro babaca? Um desgraçado? Covarde? Ele já não se importava mais. Nada importava mais. Ele havia assinado sua sentença, preso para sempre àquelas aparências malditas – mas aquele fora um caminho que ele mesmo escolhera.
Podia encontrar quantas desculpas precisasse, afinal. Podia dizer a si mesmo que não havia saída, porque ele foi criado daquela maneira, e era impelido aquilo. Mas desculpas o tornariam ainda mais imbecil do que ele já era. Não existiam justificativas cabíveis, porque ele era apenas um medroso de marca maior. Ele escolheu. Ele poderia ter lutado – para se libertar, para ser quem queria ser. Mas ele não o fez. Naruto escondia-se atrás de suas máscaras e suas poses, e aquilo era mais confortável e fácil que enfrentar milhares de pessoas que esperavam dele nada menos que a perfeição. Fraco. Fraco e ridículo.
Naruto ainda estava inerte quando sentiu uma movimentação a sua frente, e dedos estalando. Piscou algumas vezes, confuso, e viu borrões cor-de-rosa. Suspirou. Era tudo que ele precisava naquele momento.
No entanto, a garota sorria amigavelmente, comendo uma maçã. O loiro não se surpreendeu – ele e Sakura brigavam várias vezes por mês, mas a garota sempre voltava agindo como se nada tivesse acontecido entre eles. Era uma das qualidades de sua amizade: não permaneciam brigados por muito tempo. Sakura era simples, transparente e pura.
— Que cara de retardado é essa? – comentou, zombeteira, mas Naruto não se deu o trabalho de responder.
— Ele está assim há quase duas horas. – foi Shion quem respondeu, se intrometendo, fitando as unhas bem-feitas enquanto falava. Sakura crispou os lábios, a encarando com indiferente.
— Ninguém falou com você, loira azeda. – a garota abriu a boca e se virou para outro foco de conversa. Naruto poderia ter rido dessa – Anda, fala o que aconteceu com você. – tornou a falar, e o Namikaze, por alguns segundos, realmente pensou em falar. Falar tudo.
Mas não chegou a fazer isso.
Do corredor surgiu Tenten, correndo, a face assustada e os olhos suspeitamente avermelhados, o rosto rosado nas bochechas. Sakura também se virou, com as costas eretas, e seu ar mudou automaticamente para preocupado. A chocolate nada disse, apenas fixou o olhar diretamente na Haruno, que se levantou. Antes, voltou seu rosto para Naruto, com uma expressão inteligível.
Nesse momento, Naruto sentiu algo. Uma reação. Seus dedos formigaram, e seu estômago retorceu – estava apreensivo. Alerta, queria sair correndo em direção a garota morena, segui-la para um lugar que tinha certeza de que iriam. Mas as amigas se uniram e andaram, em passos rápidos, para o corredor principal. O loiro, impelido pela roda de pessoas na mesa, começou a tamborilar a mão contra a mesa, liberando uma descarga de ansiedade.
— Eu preciso mijar. – disse de repente, se levantando e saindo antes que alguém pudesse retrucar. Apenas Shion gritou seu nome, mas ele já estava muito longe.
Seus pés tinham vida própria, movendo-se sem que precisasse pensar nisso. Suas palmas suavam, e ela impossível não pensar na garota – seus olhos pérolas e sua expressão desolada. Engoliu em seco, sentindo vontade de chorar. Não sabia até quando conseguiria manter aquela droga de situação – sua dupla personalidade, fingir ser um alguém que não existia, fazer alguma besteira e se arrepender.
Subiu alguns degraus aos tropeços, e não tardou até se encontrar em um longo corredor repleto de portas iguais, com tapetes de boas-vindas. Ele sabia até onde ir – quantas vezes não rumou até aquele quarto tarde da noite, longe dos vigias e das câmeras. Naquele momento, embora a situação fosse a mesma, tudo estava diferente.
Parou em frente a porta, mas não abriu, nem bateu. Não era tão cara de pau assim. Queria apenas saber se ela estava bem. Considerava estar ficando louco – não conseguia explicar aquela necessidade ardente de saber notícias dela, de querer consolá-la e protegê-la, aquele antagonismo estranho. Era uma espiral crescente para o infinito.
Encostado na parede, não soube quantos minutos esperou até que escutou a tranca. Respirou entrecortado, nervoso. A figura que apareceu, no entanto, não era quem esperava – apesar de que parecia saber que ele estava exatamente ali, esperando.
Naruto sentiu seu cérebro cair para o estômago. As íris verdes admitiam um tipo diferente de raiva – era um ódio contido, destemido, e muito mais forte. Era amedrontador encará-la, porque seus punhos estavam fechados, e a boca, tão cerrada que seus dentes trincados raspavam audivelmente uns contra os outros. O Namikaze quis sair correndo, mas seus pés estavam estacados.
— Não se aproxime mais dela.
Engoliu em seco, e quase desfaleceu. Seu peso não estava sendo segurado por suas pernas, e seu rosto deve ter assumido alguma careta confusamente hilária, mas Sakura não parecia estar contando uma piada. Era uma frase simples, sem enigmas. Era direta – porque ambos sabiam do que ela falava. Eram melhores amigos, mas algo na expressão da rosada dizia que eles não se falariam por muito tempo.
— Não se aproxime mais dela. – repetiu, a voz com uma calmaria alarmante. Naruto preferiu que ela tivesse gritado – Nunca mais. Se você ousar chegar perto dela, eu te mato. – Naruto teria rido, porque Sakura dizia que iria matá-lo dez vezes por dia. Mas, novamente, as coisas estavam diferentes.
Era como se o chão estivesse rachando, dividindo-se ao meio. De um lado, Sakura, parada à porta com a postura agressiva e os olhos endurecidos. O quarto, com duas garotas dentro, com ruídos baixos vindo de dentro. Do outro lado, Naruto – ele estava sozinho, e, quando olhava para baixo, via o fundo, o escuro, o penhasco. Pedregulhos para escorregar e não tinha onde se segurar.
Sakura virou as costas e entrou, batendo a porta. O barulho foi alto e estrondoso, mas não penetrou nos ouvidos de Naruto. Sua mente emitia um chiado estranho, que perturbava-o. Não conseguia pensar em frases completas, mas ele já sabia. Acabara de perder a sua única chance de redenção.
Se antes achava que estava preso para sempre, naquele momento teve certeza. Ele era Naruto Namikaze agora, total e irremediavelmente.
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