Quimera

25 Diferente


Notas iniciais
Oi amados! Tudo bem com vocês? Estive fora por um tempo, passei por algumas coisas (vida adulta que fala?), mas finalmente pude terminar esse capítulo. Diferente dos outros, eu não tinha ideia do que escrever, fui apenas deixando fluir, e quando percebi, tinha feito o que tinha feito. Eu gostei do resultado final. Sinto que estou finalmente caminhando para a reta final, mas ainda falta muuuuita coisa para acontecer! Obrigada por todos os comentários e todo o apoio, espero muito que gostem! Um beijo, nos vemos no próximo!

— Os olhos dele tinham a mesma cor do oceano de um cartão-postal que eles mandam quando te amam, mas não o suficiente para ficar.

Aquela era a mesma fachada iluminada pelo sol. Os mesmos portões e os mesmos prédios, que se erguiam, gloriosos, sobre todo o quarteirão. A mesma paisagem verde, e, no mesmo horário, centenas de alunos entravam como ondas, apinhando as calçadas com malas e amontoados. Os uniformes brancos se destacavam de pequenos pontos de cores, como a jaqueta que Naruto insistia em usar, embora estivesse calor demais para tal.

Também era a mesma jaqueta. Havia algo de monótono naquela cena, mas a sensação de dèjavu o acompanhava enquanto descia do carro, estacionado do outro lado da rua e que também, como sempre, chamava a atenção. De fato, nada parecia ter mudado em seis meses, mas, quando Naruto puxou os óculos escuros para cima e cumprimentou os colegas de time, ele sentia que nada era o mesmo.

Uma tradição se repetia ali, e Naruto gostava de chamar a atenção – algumas coisas jamais mudariam, afinal –. A jaqueta laranja era sufocante, mas exibia, orgulhosamente, o nome da Academia e do time, ao qual o garoto tinha satisfação em ser capitão. Direcionou olhares e sorrisos simpáticos a cada passo que dava, e, então, alcançou os dois melhores amigos, ocupados em uma roda de conversa alheia qualquer. Suas malas também jaziam em seus pés, como no começo do ano.

— Você não cansa? – Sasuke alfinetou quando Naruto se aproximou, e o loiro lhe exibiu uma careta enquanto tirava, finalmente, o agasalho, jogando-o contra o ombro. O Namikaze pensou em se dar o trabalho de ser dramático, mas tinha visto o amigo há literais dois dias, então não havia um ponto. Em vez disso, assentiu, distraído, dando de ombros.

— É o começo do semestre, eu preciso fazer presença. – Gaara riu, trocando um high-five com Naruto, mas Sasuke se limitou a suspirar, revirando os olhos e se concentrando em algo no celular.

Tudo estava diferente. Naruto ficou esperando alguém que não viria – Shion costumava pular em seu braço e agarrar-se a ele, desfilando por todo o pátio enquanto a cerimônia não se iniciava. Naruto a acompanharia, a contragosto, mantendo a pose de quem sabia o que queria e lutava para conseguir. Ainda era estranho não ter a loira pegando em seu pé a todo momento, e, embora sentisse falta de alguns aspectos – aqueles ligados a sua testosterona –, Naruto não poderia estar mais satisfeito. As férias acabaram há alguns dias, mas somente no fim de semana que seus amigos foram embora. Considerando o encontro um sucesso, confessava já sentir falta dela. Era muito fácil acostumar-se com sua presença tranquilizadora, e conversar com ela tornara-se tão natural quanto respirar. Naruto descobrira muito sobre ela naqueles dias, e se esforçara como nunca antes para impressioná-la de um jeito bom. Ele se divertia quando o rosto dela corava, ou quando as palavras se perdiam de vergonha e ela sorria, escondendo-se. Em vez de ignorar as batidas aceleradas de seu coração, ele aprendeu a conviver com elas, agradecendo quando apareciam, porque ele gostava do efeito que ela tinha sobre seu corpo e seus pensamentos.

Mas, apesar disso, Naruto ainda não tinha cumprimentado Hinata na Academia.

O garoto não queria pensar que estava com vergonha, ou nada do gênero. Apenas se convenceu de que ainda não tivera a oportunidade perfeita – a vira duas vezes enquanto entrava, ambas rodeada das amigas –, e continuou adiando. Naruto percebera que, desde seu término com Shion, estava no topo da cadeia hierárquica escolar. Aquele era seu momento ideal, e ele tinha que se esforçar para manter aquela ascensão o mais crescente possível.

Claro, ignorando o fato de que ele era um completo babaca.

Em outros tempos, Naruto ficaria enrolando até que a cerimônia começasse, enquanto algum funcionário levava sua mala para o dormitório. No entanto, resolveu levar ele mesmo seus pertences e passar cumprimentar a velha Tsunade, enquanto ela ainda estava sóbria. Despediu-se dos amigos e entrou, sozinho. Os corredores estavam amontoados de alunos, que se viraram para cumprimentá-lo quando passava. Algumas líderes também o fizeram, com sorrisos grandes demais, e Naruto surpreendeu-se com o quanto eram descaradas – Shion era a líder do grupo, mas, mesmo assim, não hesitavam em dar em cima do ex-namorado da grande amiga –. Quando entrou em seu dormitório, não demorou mais que o suficiente, com medo de se perder em pensamentos melancólicos, e andou rapidamente até a sala da diretoria, no primeiro andar.

O loiro não esperava que as recepções acontecessem pela manhã, mas ele estava ansioso para cumprimentar a diretora. Sentira que algo dentro dele começara a mudar, lentamente, durante as férias. Um dos – diversos – aspectos de estar se aproximando de Hinata era se expor a todas as grandes características que ela exalava. Escutá-la falar de sua mãe era uma experiência única – a maneira que seus olhos brilhavam e sua boca se enchia era algo. Naruto passara os últimos dias totalmente entregue àquelas sensações, e, mesmo naquele instante, queria se ligar mais a sua família, ou, ao menos, tentar. Desabrochava nele um novo lado, desconhecido, ainda fraco, que o assustava, e o maravilhava ao mesmo tempo.

Chegou na secretaria e teve de desviar de alguns funcionários apressados. A volta às aulas era sempre um evento grandioso, apesar de tudo. Naruto foi ignorado pela maioria deles, e, sem cerimônias, abriu a última porta, que levava ao escritório principal. Inicialmente, a velha mulher não percebeu sua presença. Naruto recostou no batente, cruzando os braços enquanto acompanhava os movimentos impacientes da avó, que, inclinada, de costas, procurava algo na gaveta. O loiro se perdeu em alguns pensamentos enquanto fitava a diretora. Quando parava para pensar, não se lembrava de um momento sequer em que Tsunade não estava presente. Muitos dos ideais que construíra foram graças a avó, mas Naruto nunca a deixara saber disso. Demonstrar sentimentos não era comum entre os Namikaze – por sorte, a diretora adotara o sobrenome do marido, e não se preocupava com as opiniões alheias quando tinha que expressar seus pensamentos em qualquer momento que julgasse necessário.

Naruto deixou uma risada escapar, e Tsunade voltou-se para ele, assustada, trombando na gaveta que deixara aberta. Seu rosto se converteu em surpresa e uma ligeira raiva, enquanto Naruto se aproximava para sentar.

— Kami, Naruto! Você quer me matar de susto?! – praguejou a mais velha, com uma das mãos no peito, e o garoto desculpou-se, embora ainda sorrisse divertidamente. Analisou os detalhes do rosto da diretora, e, embora pequenas rugas começassem a despontar embaixo dos olhos, ninguém diria que ela tinha seus sessenta anos. Tsunade era, na verdade, muito bonita. Tinha os mesmos traços marcantes presentes em Minato e Naruto.

— Desculpa, obaa-chan. Não queria causar nenhum dano grave no seu coração debilitado. – Naruto prendeu outra risada quando a diretora o encarou furiosa. Era comum alfinetadas entre eles, e nenhum ligava realmente.

— Garoto abusado. – a loira resmungou, dando a volta na escrivaninha para ficar de frente para o neto. Apesar de tudo, seu rosto era sereno, embora suas sobrancelhas revelassem traços de surpresa – O que faz aqui? Precisa de alguma coisa? – perguntou, cruzando os braços. Naruto deu de ombros.

— Não realmente. Só vim dizer oi. – Tsunade deixou de disfarçar para converter uma careta verdadeiramente espantada. Naruto revirou os olhos, sorrindo.

— Isso que é inusitado. Está se sentindo bem? – a mulher levou a palma da mão contra a testa de Naruto, que resmungou, meio xingando, meio rindo, enquanto desviava. Tsunade abriu um sorriso zombeteiro, analisando minuciosamente as reações do neto – Não esperava uma visita sua tão cedo, achei que veria você, pelo menos, semana que vem. – a testa vincada era uma clara referência as vezes que Naruto aprontava nas aulas e era enviado para ver a diretora. Naruto fez uma careta, arrependido de que aquele fosse o único motivo plausível que a avó visse para que ele a visitasse – Não pude conversar com sua mãe ainda. Como foram suas férias?

— Okaa-san fala muito quando quer. – o garoto resmungou, e Tsunade soltou uma risada curta – Foram boas. Entediantes, como sempre. Mas alguns amigos dormiram em casa. – a mulher assentiu. Nada de novo. Sabia o quanto o neto e os companheiros eram inseparáveis – Na verdade, eu vim aqui para... – parou, sem encontrar as palavras certas. Tsunade esperou que ele continuasse – Para agradecer. Sabe. – deu de ombros, encabulado. Era mais difícil que ele imaginava – Nós quase não conversamos, a não ser quando eu tomo uma bronca – rolou os olhos – mas a senhora sempre me ajuda quando eu preciso. E, bem, esteve comigo desde sempre. Queria que soubesse disso.

Silêncio. Naruto, que, até então, mantivera os olhos pregados nos próprios pés, estava com medo de erguer o olhar. Respirando fundo, depois que um minuto se passou sem resposta, ele ergueu a cabeça, procurando pelo rosto da diretora, que estava parada a alguns metros dele. Naruto sentiu as bochechas aquecerem com a maneira que a avó o encarava. Os olhos claros, penetrantes, estavam arregalados de maneira genuinamente admirada, e qualquer traço de dureza se dissolvera. Daquele jeito, Naruto conseguiu enxergar o rosto afável da sua infância, e a velhice discreta que marcava sua pele a deixava ainda mais suave. Imóvel, o Namikaze temeu ter causado alguma espécie de ataque, mas um som estranho surgiu da garganta da mulher, e ele relaxou – um pouco –.

— Ora, seu... – Naruto surpreendeu-se, esperando por algum xingamento. Preparou-se para se defender, mas, pego repentinamente, foi tomado pelos braços da diretora, que o envolveu em um abraço apertado. Naruto era alguns bons centímetros mais alto, e a cabeça dela apoiou contra seu ombro – Você quer me fazer chorar?

O loiro, até então tenso, afrouxou os ombros, e abriu um sorriso diferente enquanto retribuía o aperto suavemente pelos ombros da mulher. Afundou seu rosto, sentindo o cheiro forte de seu perfume – e um outro odor suspeito que apenas o fez rir mais –. Não estava acostumado com aquilo, e não sabia como reagir. Era quente e acolhedor. Naruto não sabia qual foi a última vez que abraçara Tsunade.

— Não sei qual o motivo disso, mas fico feliz que se sinta assim, garoto. – a mulher os afastou, fungando enquanto limpava discretamente uma lágrima do canto dos olhos. Naruto a encarou com carinho. Ela parecia radiante. O garoto era seu segundo neto, mas sempre estiveram muito próximos. Ele sentiu algo em seu peito, apertando, de uma maneira confortável e boa – Agora, vamos parar com isso, antes que você perca o respeito. – Tsunade deu as costas, voltando para trás da mesa, e Naruto riu, colocando as mãos no bolso – Você está diferente, Naruto. – o comentário o pegou desprevenido, e ele franziu a testa, preocupando-se. Tsunade o encarava, e Naruto bem conhecia a habilidade irritante que a fazia analisar tão bem as pessoas – Não é algo ruim. – apressou-se – É só diferente.

— Você está ficando louca, obaa-chan. – Naruto desconversou, rolando os olhos de maneira teatral e precipitou-se para a porta – Eu vou para o auditório. Nos vemos depois, velha.

Saiu antes que a mulher pudesse responder. Com o coração acelerado, andou com pressa até o espaço principal, misturando-se com alguns primeiranistas. Perdido em pensamentos, tentou se acalmar. Não sabia de onde viera aquele súbito, e tampouco conseguia reagir apropriadamente com demonstrações de carinho. Não sabia se era apenas o instinto aguçado da diretora, ou era realmente visível que ele estava diferente. Sentia-se diferente – mas não queria que soubessem disso. Enquanto cumprimentava algumas pessoas que passavam por ele, reforçou mais ainda sua ideia. As pessoas não o respeitariam se soubessem que ele estava se tornando um frouxo. Tinha que manter a pose, não deixar que soubessem que ele poderia ser atingido. Sentimentos estranhos borbulhavam dentro dele, e, até que entendesse completamente o que significavam, e, principalmente, como domá-los, não transpassaria quaisquer mudanças perceptíveis.

Já mais convencido, chegou ao auditório com um sorriso presunçoso. Pela entrada superior, poucos olhares pousaram sobre ele, mas sentia-se contra suas costas, acompanhando-o. Procurou por Sasuke, o encontrando mais abaixo, com Sakura ao seu alcance. Era óbvio que, junto da garota, estariam suas outras amigas, e, ao lado delas, as líderes de torcida, formando uma cadeira interminável e importuna. Naruto respirou fundo enquanto descia os degraus, fingindo não ter visto aqueles fios pretos, presos no alto com uma fita. Com uma visão privilegiada da curvatura de seu pescoço, a pele branca estava exposta, convidativa. Formigamentos tomaram conta de seu estômago, e Naruto se xingou mentalmente.

— E aí. – cumprimentou o mais normalmente que conseguiu. Sasuke o fitou de volta, saltando para a cadeira do lado.

— Oi, Naruto! – Sakura se virou, sorrindo para o loiro – Não te vi quando cheguei.

— Estava falando com a velha. – deu de ombros, e Sakura assentiu – Perdi muita coisa?

— Nada demais. Aquela vaca ainda não chegou. – revirou os olhos, e Naruto riu baixo – Espero que ela tenha desistido e mudado de país. – Naruto também desejava secretamente, mas aquilo era esperar muito da sorte que ele não tinha.

Dito e feito, não demorou até que comoções indicassem a chegada da garota. Ela descia as escadas com altivez, os ombros eretos e o nariz empinado. O cabelo parecia mais platinado que nunca, com um novo corte reto e franja – que, curiosamente, lembrava muito o penteado de certo alguém –. O uniforme das líderes de torcida parecia encaixar perfeitamente em seu corpo magro. Acompanhada dela, descia Karin e uma terceira garota, que parecia nova e copiosamente desajeitada.

Naruto suspirou, tentando deitar sobre a cadeira e não ser visto. Não adiantou. A garota caminhou até ele, dando a volta pelos degraus, e, quando parou ao seu lado, o Namikaze não a encarou nos olhos. Desviou, franzindo o nariz quando o cheiro doce atingiu-os.

— Bom dia, Naruto-kun. – sua voz se fez presente, e Sakura, na fileira de baixo, fingiu vomitar. O loiro, por sua vez, revirou os olhos, dispondo da sua melhor voz neutra.

— Por favor, Shion, não me chame assim. – finalmente encarando-a, os olhos claros faiscaram. Apesar disso, seu sorriso era o mais meigo possível – O que você quer? A cerimônia já vai começar, você sabe. – empertigou-se, incomodado com aquela presença.

— Bom, nós sempre ficamos juntos no primeiro dia de aula, amor. – sua voz converteu-se em mel, deslizando e envolvendo-o. Não teve o efeito desejado. Naruto começou a se irritar.

— Shion, se eu bem me lembre, nós terminamos. – sua voz soou fria, e uma pequena plateia começava a se formar. Sasuke, do lado do amigo, preparava-se para intervir – Não devo mais nada a você. Pare de me importunar.

— Pense bem, ou você vai se arrepender dessas escolhas, Namikaze. – Shion mudou a postura, aproximando-se perigosamente. Naruto não se moveu. Já tinha visto outros ataques de fúria da garota, e não se abalava com suas ameaças. Quanto mais perto ela chegava, mais frios seus olhos se tornavam. Levantou um dedo, aproximando-o do rosto de Naruto – Não vai querer me ter como inimiga.

— Com você eu prefiro não ter nada, obrigado. – retrucou, sorrindo afiado, e a loira bufou de raiva, aprumando a postura.

— Não acredito que você vai me trocar por essa ceguinha!

Naruto não pensou muito nos momentos seguintes. Agindo por impulso, pôs-se de pé em um salto, respirando pesadamente. Seus ombros subiam e desciam, e sua vista se nublou. Parte de si estava consciente do auditório cheio de alunos atentos a mais nova briga do ex-casal. Mas a fúria que tomou conta de seus membros foi maior que sua racionalidade. Quando se deu conta, sua mão agarrava o pulso da garota, que o fitava sem medo, desafiadora. Naruto grunhiu, travando o maxilar, e sua mão livre tremia.

Como muitos momentos da sua vida, Naruto simplesmente agia sem pensar. As consequências das suas ações eram pouco pensadas, mesmo que ele gastasse horas demais cuidando do que as pessoas pensariam dele. De fato, o Namikaze não conseguiria explicar muitas das reações que tomavam conta de si. Naquele momento, Naruto não saberia explicar porque agiu da maneira que agiu – a única coisa que ele conseguia pensar era que não deixaria aquela mulherzinha falar de Hinata.

— Naruto. – Sasuke murmurou, tocando em seu ombro. Ao seu redor, seus amigos se posicionaram estrategicamente. Sakura também se levantara, os olhos queimando, e Sasuke ficara atrás de Naruto, os braços colocados para impedi-lo. Não foi necessário. O toque o trouxe de volta a realidade, e o garoto, atordoado, atentou-se aos cochichos que vinham de todos os lados do salão. Apontavam e sussurravam uns aos outros, enquanto Shion o fitava de cima, sem se importar com o braço no forte aperto do outro.

O loiro respirou fundo, soltando Shion devagar. Seus olhos estavam desnorteados, e ele tropeçou nos próprios pés, relutando ao ficar de pé. Sasuke o soltou, atento. Naruto não viu os demais colegas em seu campo de visão. Estava um tanto turvo, mas ele conseguiu olhar, de relance, a garota sentada na fileira da frente, com os ombros curvados para frente e o cabelo escorregando para frente. Imóvel, parecia uma estátua de mármore – tão perfeitamente esculpida. Mas Naruto conseguia imaginar a expressão dolorosa em seu rosto.

Ainda tomado pela raiva, o garoto se afastou, encarando Shion com verdadeiro nojo. A loira, um pouco espantada, baixou a guarda. Já vira muitos sentimentos naqueles olhos azuis, mas aquela era a primeira vez que eles pareciam tão ofensivos.

— SENTEM-SE TODOS!

Tsunade se fez presente no palco, encarando a pequena roda alvoroçada nas fileiras de cima. Naruto olhou para a diretora, que o encarava com perguntas nos olhos, mas sem abandonar a pose severa. Pouco a pouco, os alunos se acomodaram, e Shion desistiu, voltando para seu lugar, sem se virar para trás. Sasuke suspirou, aliviado, e Sakura voltou-se para sempre, resmungando para si mesma.

Desfeita a confusão, Naruto esperou até que a avó começasse a falar para se levantar furiosamente. Sua cabeça doía, e ele não teria paciência para aquela formalidade. Em passos curtos, chegou ao topo do auditório e saiu, com a cabeça baixa e os olhos nublados. Estava irritado por ter se deixado afetar por aquela vagabunda. Enjoava-se ao lembrar de todas as vezes que ela o tocou, os dois anos que perdeu.

Sem rumo, acabou, por fim, sendo levado por seu subconsciente. Quando se deu conta, soltou um suspiro, sentando-se à sombra da cerejeira. A árvore ficava nos fundos, fora da vista da maioria dos alunos, e foram muitas as vezes que ele cochilara ali. Deitou-se apoiando a cabeça contra o braço, e fechou os olhos, tentando se acalmar. Seus pensamentos eram confusos, e a raiva se sobressaia. Não conseguiria dormir, mesmo que tentasse muito. Estava quente, abafado. Se arrependeu de estar de calça. Sua garganta emitia sons desconexos, mas era apenas uma maneira de extravasar.

Sendo sincero, não sabia quanto tempo se passara. Os discursos da velha Tsunade não costumavam demorar, mas não ouviu nenhuma movimentação. Continuou com os olhos cobertos, no que poderia se chamar de meditação. Não ventava nem um pouco, e, se não fosse pela pequena sombra da árvore, Naruto sabia que derreteria.

Foi quando ouviu o farfalhar de folhas sendo pisadas, suavemente, e duas pessoas se aproximando. Não abriu os olhos – descobriu pelo som dos passos que se aproximavam. Pararam. Não conseguiu identificar quem eram. Sentia preguiça, uma preguiça curiosa.

— Naruto-kun?

Assustado, sentou-se em um instante. Foi atingido por uma tontura momentânea, e o brilho repentino cegou seus olhos. Coçou-se, ainda atormentado, para focalizar, e confirmar o que seus ouvidos captaram. Ofegou silenciosamente. Sakura o encarava com indisfarçada satisfação, mas foi apenas ela em quem ele tinha interesse. Não esperava vê-la ali, mas, assim que a viu, seu coração começou a palpitar vergonhosamente.

— Obrigada, Sakura. – Hinata se desvencilhou do braço da Haruno, sorrindo.

— Sem problemas, Hina. – a rosada respondeu, ligeiramente mais feliz do que deveria – Quer que eu espere?

— Não, não precisa. Eu consigo voltar sozinha. – ela garantiu, assentindo, enquanto dobrava o bastão em três partes e guardava em sua bolsa.

— Tudo bem. Nos vemos depois. Tchau, Naruto. – complementou com um tom provocativo, e o loiro resmungou, enquanto Hinata apenas sorria educadamente.

Naruto não sabia como reagir. Não ouviu novos passos, ou o barulho dos alunos dispersando, o que significava que, provavelmente, a assembleia ainda não tivesse acabado. A garota pedira para Sakura a levar até ele? O mero pensamento o deixou radiante – ele estava realmente se sentindo um idiota –. Sentou-se apropriadamente, encostando as costas contra o tronco, e acompanhou cada movimento da morena com os olhos, esperando-se se sentar e tatear até que ficasse próxima a ele – perigosamente próxima –.

— Ainda não acabou, mas a Tsunade-sama já tinha passado todos os recados importantes. – ela explicou, sem o Namikaze dizer palavra alguma – Você está bem? – aquela era uma pergunta difícil. O loiro sempre perdia a cabeça quando estava próximo à Hinata, fosse da maneira boa, ou da maneira ruim. Não conseguia formar raciocínios lógicos o suficiente, e insistia em prender seus olhos naqueles detalhes que o fascinavam. Naquele dia, Hinata usava o cabelo preso, e a franja parecia menor do que ele se lembrava. Seu pescoço era branco, com algumas das veias formando desenhos opacos, e a gola do uniforme presa no alto.

— Acho que estou. – respondeu por fim, se lembrando da confusão de reflexões de momentos antes.

— Você pareceu abalado antes. – Hinata, as vezes, era irritantemente observadora. Naruto sentiu-se envergonhado, e, como não retrucou, ela prosseguiu: – Não entendi bem o que aconteceu, mas aquela garota fala bem alto. – Naruto conseguiu soltar uma risada seca – Era sua ex-namorada? – o loiro assentiu, mas apressou-se para responder em voz alta.

— Sim. – era impossível disfarçar o desgosto.

— Se serve de consolo, eu entendo um pouco a raiva dela. – soou tão sincera que Naruto a fitou chocado, arregalando os olhos. Seu rosto continuava sereno, os olhos focados no horizonte atrás dele – Deve ter sido difícil perder um namorado como você.

Naruto não sabia qual era seu objetivo, mas, imediatamente, sentiu o coração se aquecer, e abriu um sorriso involuntário. Sem pensar muito, estendeu a mão apenas alguns centímetros, encontrando o braço de Hinata, que estremeceu com o toque inesperado. O loiro conduziu sua mão até a dela, deixando-a por cima do pulso por alguns instantes. Hinata relaxou o antebraço e permitiu que Naruto o virasse para cima, entrelaçando seus dedos de uma maneira confusa, de modo que seu dedão alcançava seu punho, subindo e descendo em um carinho incerto. Nenhum deles falou por alguns minutos, mas Naruto realmente adorou a maneira que Hinata corou. Seus lábios pareciam tremer para suprimir um sorriso, e ele o fez mais ainda. Não importava o que tivesse acontecido – quando estava com Hinata, estava em paz. Não pensava em mais nada, deixando-se levar pela atmosfera agradável que a garota proporcionava.

Faziam apenas alguns meses – cinco? Seis? –. Um tempo distante, tão diferente. Naruto não conseguia pensar que as coisas aconteceram em um período tão curto. Acima de tudo, as mudanças lentas, graduais, que ocorreram em si mesmo, o deixavam mais aturdido. Era como viver em um tornado constante de emoções, tendo que reagir rápido. Vivia acelerado, sem respirar, mas, em momentos como aquele, enquanto tocava a pele quente e acariciava a mão macia, que o faziam pensar que as mudanças valiam a pena.

— Eu passei muito tempo com a Shion. – falou depois de muitos minutos de um silêncio agradável – Nem sempre foi assim, mas, ultimamente, tinha se tornado uma relação vazia. Ficávamos juntos apenas pelas aparências. Eu sempre fui problemático, e ela sempre estava ali para cobrir minhas besteiras. Acho que eu me acostumei com isso, a fingir que não via o que ela fazia. Quando tudo aconteceu – engoliu em seco – eu não pude continuar de braços cruzados. Foi repentino, sabe? Mas ela não aceita isso. Não aceita ficar por baixo. Não tem nada a ver comigo, é tudo por status. Mas ela sempre consegue ser incrivelmente inconveniente. – suspirou, levando a mão livre até o vinco entre os olhos e apertando. Sem que percebesse, um aperto suave em sua mão chamou atenção para a garota, que parecia o encarar profundamente, com uma expressão serena.

— Eu não vou deixar que as coisas que ela disse me afetem. – sua voz era, no entanto, firme – Você também não deveria. – novamente, Hinata o surpreendeu. Sorrindo, ele devolveu o aperto, envolvendo sua mão completamente. O contato era quente.

Naruto se perdeu nas pequenas sardas que envolviam suas bochechas, quase translúcidas quando coradas. Estava perto, perto o bastante. Desde aquela noite, em sua casa, nunca mais tivera coragem – ou oportunidade – de beijá-la. Ansiava por aquilo. Admirou todos os aspectos de seu rosto, todas as linhas, que decorara tão perfeitamente. Naruto queria se entregar. Naruto deveria se entregar. Deixar que aquele sentimento, o que quer que fosse, consumisse-o por inteiro. Ele também merecia.

Mas, tão rápido quanto um piscar, vozes foram ouvidas, cada vez mais altas e pronunciadas. Passos, barulho e gritaria. Naruto, assustado, retirou a mão abruptamente da de Hinata, afastando-se por impulso. Percebeu um segundo mais tarde, e, quando ouviu o suspiro derrotado da garota, amaldiçoou-se, mas já estava feito. Abriu e fechou a boca várias vezes, mas permaneceu calado, enquanto via Hinata se levantando, apoiada contra a árvore e abrindo o bastão. Não parecia aborrecida – mas, talvez, a neutralidade em seu rosto fosse muito pior.

— Eu sinto muito que esteja passando por essa situação, Naruto. – ela parecia se referir a bem mais que ao que ele dissera antes – E espero que você consiga arrumar isso.

Saiu, andando devagar, com calma. Encontrou a trilha de cimento e caminhou até a multidão que se formara, próxima aos corredores das salas de informática. Como sempre, surpreendendo Naruto até o fim, enquanto caminhava como se visse tudo – como se conhecesse tudo. Quando ela desapareceu da sua visão, o garoto se permitiu recostar na árvore, xingando alto e batendo contra a própria cabeça.

Em um momento, estava prestes a se entregar, e, no segundo seguinte – literalmente –, se deixava levar pelo medo estúpido, por seus instintos animais que, sendo sincero, sempre mais o atrapalhou que ajudou. Por mais que quisesse repelir, por mais que quisesse resistir, quando percebia, era tarde demais. Era sempre tarde demais. E, aos poucos, nessa merda de cabo de guerra, sentia que estava afundando. Hinata não estaria sempre pronta para lhe puxar para cima uma nova vez, e Naruto não queria pensar quando isso acontecesse. Ele não poderia suportar.

Ao sair, Hinata levou junto toda a calmaria que invadira seu coração. Agora, angustiado, não conseguia organizar os pensamentos, ou se livrar da sensação de ter a mão da Hyuuga sobre a sua. Era viciante – era sua cocaína, e, uma vez que usava, não conseguia se livrar de querer mais.

Furioso consigo mesmo, se levantou, andando em passos duros até o dormitório. No fundo, nada mudara realmente, e isso o fazia querer gritar. O semestre estava apenas começando, mas Naruto sentia – mais que isso, ele sabia – que estava longe de qualquer progresso.