Quimera

24 Dia de sol


Notas iniciais
Voltei!!! E bem rápido até! Amei os comentários do capítulo anterior. O primeiro beijo do nosso casal :) Foi incrível escrever aquela cena, e eu fiquei muito contente que vocês tenham gostado tanto quanto eu! Esse capítulo é mais como um complemento, e as vezes parece que é "enrolação", mas eu gosto muito de focar em detalhes e nas colunas vazias, então eu juro que as coisas vão andar :) Qualquer dúvida podem mandar mensagem que eu amo conversar! Nos vemos em breve. Ah! Quer quiser, passa no meu perfil e dá uma olhadinha na minha nova fic, Heroína! (a propagando é a alma do negócio)

— Você é boa demais para ser verdade, não consigo tirar meus olhos de você.

O beijo durou mais que Naruto pretendia – e menos do que ele gostaria. Com os olhos fechados, todas suas sensações estavam concentradas no tato, enquanto ele absolvia a maior quantidade de informações que conseguiria naquele instante. Foi apenas um selinho – se poderia chamá-lo assim –, e ambos estavam paralisados. Naruto, de expectativa, e Hinata... bem, Naruto esperava que Hinata estivesse paralisada por algum motivo positivo. Fosse como fosse, o loiro identificava perfeitamente o gosto da pasta de dente e de gloss protetor. Havia algo a mais, mas ele não teve tempo suficiente para supor.

Seu primeiro pensamento foi que aquela era a pior merda que ele poderia ter feito naquele momento. As coisas estavam caminhando bem, e algo definitivamente estava acontecendo, mas, deixado levar pela empolgação, agiu sem pensar. Tudo que desejou secretamente nas últimas semanas foi poder tocar Hinata, poder beijá-la, e, quando finalmente o faz, tudo que consegue sentir era que havia agido errado.

Mas, céus, ele estava extasiado.

Nunca se sentira daquele jeito com uma garota – e absolutamente não se sentira daquela maneira com Shion –. Mal a beijara, e já necessitava por mais. Não era o beijo em si – embora seus lábios fossem tão macios que só poderiam ser classificados como clichês –. Era Hinata. Ela emanava algo, por cada poro de seu corpo, que contagiava, permeava. O Namikaze sentia que podia ser bom, que poderia fazer seu melhor. O cheiro de madressilvas tomou conta de seu cérebro, e ele não soube identificar se era o perfume ou a brisa que vinha pela janela.

No entanto, rápido demais, acabou.

Fora Hinata quem se afastara primeiro, quando, passado o choque inicial – e sua inerente capacidade de pensar racionalmente –, algo dentro de si gritou que era errado, e, por impulso, ela pulou. Hinata poderia ter continuado beijando Naruto – ignorando veementemente que aquele fora, oficialmente, seu primeiro beijo, e que ela e o garoto tinham acabado de dividir uma experiência de pura intimidade –, mas a primeira coisa em que ela pode pensar foi em Menma. Ela não o vira mais, e sequer sabia se estava apaixonada por ele, porém, em seu âmago, sentiu-se mal por estar ali, beijando Naruto.

Quando quebrou o contato, seu peito arfava, e ela levou uma das mãos até a boca, tentando raciocinar. Além de surpresa e ofegante, um sentimento incômodo a irritava – era apenas uma centelha, no fundo de seu cérebro, mas existia. E estava arrependida de ter se separado.

Naruto abriu os olhos, assustado, com a mesma reação da garota. Desorientado, sua mente o cobriu de imagens da garota o fitando com os olhos arregalados e a mão suspensa. Se xingou dos mais variados nomes, tentando controlar a maldita respiração. Correntes de eletricidade percorriam todo seu corpo, e ele não sabia o que fazia naquele momento. Mesmo que Hinata não pudesse vê-lo, seu rosto estava vergonhosamente corado. Optou pela opção mais sensata – se levantou em um pulo e saiu correndo.

Hinata ouviu a cama balançar, passos rápidos se afastando e um barulho na porta.

— Naruto! – tentou chamá-lo, mas ele já tinha ido embora.

A Hyuuga não sabia mais o que pensar, enquanto tentava se recompor do que quer que tenha sido aquilo. Confusa, jogou os pés para cima e se acomodou na cama, puxando as colchas até seu pescoço. O colchão era macio demais, e os travesseiros pareciam plumas sob sua cabeça. Mesmo assim, Hinata não conseguiu pregar os olhos até que fosse tarde da madrugada.

Seus pensamentos voltavam todos para o garoto. Ainda sentia sua pele sobre os dedos, a barba começando a nascer, o cabelo rebelde, as maçãs proeminentes, os cílios compridos. Cada detalhe parecia estar gravado com fogo quente em suas lembranças. Ela sentia a maciez de sua boca na ponta das mãos, e, ainda melhor, sobre seus próprios lábios. O gosto cítrico, incerto. Hinata nunca tinha beijado ninguém, mas, se tivesse parâmetros para comparar, sabia que Naruto estaria acima de todos eles. Estava culpada por pensar daquela maneira do Namikaze, enquanto ainda tinha Menma. Hinata gostava verdadeiramente dele, e sentia-se atraída por ele – não fisicamente, mas pela sua presença. Queria ter certeza que seus sentimentos não passavam de admiração antes de dar uma chance para Naruto – isso sequer era uma opção horas atrás, mas, então, tudo mudou, e Hinata se pegou analisando essa possibilidade mais que qualquer outra.

Quando finalmente sentiu-se cansada demais para pensar, suas pálpebras se fecharam, e ela mergulhou em um mundo de borrões e sensações, achando que estava quase para amanhecer.

Apesar do horário, Hinata acordou com a sensação de que aquela fora a noite mais bem-dormida da sua vida. Espreguiçou-se contra os cobertores quentes, e o clima do quarto estava perfeito – nem tão frio, nem tão abafado –. O cansaço mental e físico da madrugada anterior a fizera desmaiar instantaneamente, despertando somente naquele momento, na mesma posição em que adormecera. Seus membros reclamaram quando ela os esticou, e estava realmente com pena de deixar a cama tão confortável. No entanto, se sentiu culpada quando a claridade que atravessava as cortinas parecia forte o suficiente para indicar meio-dia.

Obrigou-se a ficar de pé, estralando o pescoço, e buscou seu bastão em cima da cômoda. Disposta a não acabar com seu bom humor matinal, evitou pensar em quaisquer acontecimentos da noite anterior – ou nos sonhos estranhos que prosseguiram, onde uma nuvem de sensações estranhas pairavam sobre ela. Em vez disso, caminhou para o banheiro, com a bexiga cheia e sentindo a boca suja. Feitas suas necessidades básicas, não resistiu a vontade de tomar uma ducha rápida, e a água quente definitivamente melhorou seu dia, que já estava muito bom.

Puxou uma roupa fresca qualquer – sabia que Sakura a obrigaria a colocar seu maiô assim que aparecesse na sala de estar. Segundo a amiga, Ino também iria se hospedar na casa, e alguns outros amigos de Naruto. Hinata ficara apreensiva quando a Haruno lhe contou, mas se todos fossem como Sasuke, não havia com o que se preocupar.

Ajeitou sua blusa branca e o short de algodão que provavelmente a faria se sentir envergonhada mais tarde. Queria andar descalça, mas temeu que o chão fosse demasiado escorregadio, então ela calçou os chinelos. Caminhou para fora do quarto tateando a parede a sua esquerda, contando as portas pelas quais passava. Na segunda, foi fácil identificar a escada, e ela sentiu-se orgulhosa por estar se acostumando.

A claridade aumentou conforme ela descia, e havia barulho. Parecia música, alta e animada, mas abafada, como se viesse de outro cômodo fechado. Hinata franziu o rosto para si mesma, chegando a base da escada sem maiores dificuldades. Com a bengala, evitou bater em uma mesinha, mas, na tentativa de desviar, achou que tinha entrado no cômodo errado. Não estava identificando as vozes de seus amigos, e tudo estava silencioso demais.

— Oi? – perguntou, hesitante, e ouviu uma movimentação. Sentiu-se acanhada por estar explorando a casa alheia.

— Olá? – Hinata não conhecia aquela voz, mas se lembrou das senhoras que moravam em sua rua – Precisa de ajuda, querida? – a voz se aproximou, e a garota já conseguia sentir sua presença.

— Ah, me desculpe. – adiantou-se – Acho que eu errei a porta. – explicou, com a cabeça baixa e as mãos postas.

— Oh, não tem problema nenhuma, minha querida. – Hinata sentiu duas mãos enrugadas em seus braços, mas não teve o ímpeto de se afastar. Ela era estranhamento acolhedora – Você é uma jovem muito bonita. – comentou, descaradamente, e Hinata corou, sorrindo envergonhada.

— Mu-muito obrigada. – gaguejou. Não estava acostumada com aquele tipo de coisa.

— Naruto-sama escolheu bem. – sua voz era carregada de um orgulho estampado, e a garota sentiu o rosto aquecer ainda mais, balançando a cabeça furiosamente.

— Eu e o Naruto? Ah não! Não, não, não estamos juntos. – desconversou, mas a senhora pareceu não escutar nada do que ela dissera, continuando com seus muxoxos aprovadores.

— Não precisa sentir vergonha, querida! Você é tão educada! Sabe, o Naruto-sama nunca trouxe nenhuma namorada para casa. – compartilhou, em tom de cumplicidade, e Hinata engasgou com a saliva – Ora, eu vi aquele menino crescer, e ele sequer me contou! – ela parecia verdadeiramente inconformada. Hinata pensou que a senhora era avó de Naruto, pela maneira carinhosa que falava, mesmo com o sufixo – Venha, eu levo você até a piscina. Eles estão todos reunidos para o almoço, esses jovens. – riu para si mesma, enganchando a Hyuuga em seu braço e a conduzindo para o lado oposto. Ela não viu escolha a não ser acompanhar a simpática senhora, mesmo que estivesse encabulada.

— É muita gentileza da senhora. – Hinata agradeceu, recolhendo a bengala. Quando mais andavam, mais o sol e a música se tornavam pronunciados – Acho que acordei tarde demais.

— Que isso, querida! Eles também acabaram de levantar, sequer tomaram café. – a mais velha riu, regojizando-se – Aqui, chegamos, vou abrir a porta.

Hinata ouviu um barulho de trilhos, e o som atingiu seus ouvidos. Tinha uma batida eletrônica incômoda, com a letra em inglês, mas as vozes estavam surpreendentemente mais altas. Quando saiu para o sol, agradeceu estar de chinelo, porque o chão estava quente. Era de pedras, ela conseguiu sentir através da borracha, porque não escorregava como o piso de dentro. Não demorou para que ouvissem seu nome, e passos até elas. A música foi desligada.

— Hinata, oi! – Sakura a alcançou primeiro – Que bom que acordou. – Hinata abraçou a amiga, desfazendo-se do braço da senhora – Bom dia, Chiyo-san!

— Bom dia, Sakura. – Hinata anotou mentalmente para se lembrar sempre do nome da senhora.

— Obrigada, Chiyo-san! – Hinata ouviu a voz de Naruto, pouco atrás de Sakura, e, instantaneamente, seu rosto corou.

— Sem problemas, Naruto-sama. – a velha senhora parecia rir de alguma piada interna – Eu vou para a cozinha, se precisarem de algo, é só chamar.

— Tudo bem. Ah! Se o Gaara ou outro amigo chegar, a senhora pode autorizar, ok? – Hinata supos que eram os demais amigos que estavam esperando.

— Pode deixar. Até mais, Hinata, querida. – a morena acenou de volta, sorrindo, mas não lembrava de ter se apresentado intimamente, embora Sakura tivesse dito seu nome. A maneira que ela dissera continha um tom desconhecido.

— Vamos? – Naruto parecia ansioso, e o barulho de passos a deixou saber que ele já tinha ido na frente.

— O Naruto está estranho hoje. – Sakura cochichou perto de Hinata, enganchando suas mãos – Vamos, você tem que se trocar, a piscina está ótima. – o braço da amiga ainda estava úmido – Esse lugar é ótimo, a piscina é enorme, você vai ver! E tem as espreguiçadeiras, e uma mesa para o almoço, e o sistema de som do Naruto. – tagarelou, deixando a morena mais animada do que quando desceu as escadas.. Hinata gostava da maneira que Sakura se deixava levar pela empolgação, não medindo as palavras como as demais pessoas faziam – Tudo aqui é incrível, mas só porque a família Namikaze é milionária, claro. Mas nós adoramos aproveitar esse lugar. Tem até um escorregador! Hina, você tem que descer comigo!

Hinata riu, assentindo, e deixando a amiga continuar a falar. Não tinha tanto vento quanto no dia anterior, e o sol ardia um pouco – lembrou-se de passar protetor –. Não queria colocar maiô, principalmente algum emprestado por Sakura, mas estava morrendo de vontade de mergulhar. Relaxou com a senhora – Chiyo – lhe disse que eles também haviam acabado de acordar, e seu ânimo retornou com força total. A Hyuuga trombou em uma cadeira muito grande, e Sakura a guiou para a do lado, estendendo uma toalha. Havia um guarda-sol, e Hinata deixou seu bastão na mesa próxima deles. Parecia ser um lugar muito bonito – o cheiro de verde e grama fresca a deixaram inebriada.

— Oi, Hinata! – Sasuke a cumprimentou, chegando de trás, e sentou-se próxima a ela em uma das cadeiras.

— Olá, Sasuke. Dormiu bem? – perguntou, educadamente. Gostava de Sasuke, da sua personalidade, e sabia que se dariam bem, em um futuro próximo.

— Até que sim, se o Dobe não tivesse me acordado cedo para reclamar da vida dele. – alfinetou, e um grunhido ali perto fez Hinata rir baixo.

— Desgraçado. – Naruto resmungou, também se aproximando. Hinata sentiu seu cheiro cítrico e retesou as costas. Suas mãos formigaram – Eu não estava reclamando. E você cochilou de novo, então não pode reclamar de nada. – rebateu, com a voz rouca. A morena quis rir alto, e Sakura, do seu lado, fez um barulho com a garganta – Vamos mudar de assunto. – apressou-se, e Hinata não conseguiu identificar se ele estava ansioso ou irritado. Ela tinha alguma coisa a ver com isso? – Gaara me mandou mensagem e disse que vai chegar depois do almoço. A Ino e a Tenten falaram com você, Sakura?

— A porca não me respondeu, mas a Tenten não vem, está viajando. – Hinata curvou os ombros, sentida. Estava com saudade das outras amigas também.

A tentativa de Naruto deu certo. Começaram a conversar sobre assuntos diversos, animados, e Hinata mais observava que participava. Recostou na confortável cadeira, sobre a toalha, e a luminosidade incomodava um pouco. O suor começou a brotar por seu pescoço, e, depois de alguns minutos, Sakura apareceu do seu lado, convocando-a para se trocar.

— Eu estou bem assim. – Hinata se apressou, soando um pouco desesperada, e os dois garotos riram. Ela sabia que nada parava Sakura, mas ela realmente estava apavorada com o traje.

— Por favor, Hina! O almoço vai ficar pronto só mais tarde e você precisa entrar na piscina comigo! Vamos, vamos, por favor! A água está ótima! – sua voz se tornou infantil e manhosa, arrancando um suspiro de Hinata quando a garota se sentou, buscando o bastão para se colocar de pé. O grito de Sakura a ensurdeceu momentaneamente – OBRIGADA, HINA! – foi sufocada em um abraço, e resmungou, meio rindo, meio reclamando.

— Eu vou me arrepender disso depois.

— Não estou te ouvindo. – cantarolou a rosada, puxando a amiga pela mão – Já voltamos, meninos!

Sakura a guiou para a esquerda, e Hinata sentiu o chinelo molhar em algumas poças de água. Entraram no que parecia um quarto, iluminado, mas pequeno. Estava fresco, e Hinata bateu o pé em uma bolsa, que estava no canto.

— Ok, vou pegar um maiô para você. – a rosada disse animada, deixando Hinata e indo para o outro lado, mexendo no que parecia ser um armário.

— Eu posso ir no quarto buscar o meu. – a morena tentou argumentar, sabendo que era inútil. Ouviu um resmungo da amiga.

— Aquele negócio sem graça de competições? Claro que não. Você vai usar um da última coleção, que vai ficar per-fei-to em você! – Hinata estremeceu com o tom maligno, arrependendo-se de ter aceitado aquela ideia maluca – E fique satisfeita que não é um biquíni. – finalizou, e Hinata nem ousou reclamar – Aqui, pode trocar.

A Hyuuga deixou o tecido deslizar entre seus dedos, e ele parecia leve. Estava quase tranquila quando sua mão entrou em uma fenda. E mais outra. E mais outra. Começou a se desesperar – sequer era um traje inteiro!

— Sakura, você não me deu um maiô inteiro? – sua voz era puro terror, e a Haruno se dignou apenas a rir.

— Hina, é um modelo supermoderno e lindo. Vai ficar ótimo em você. Você pode, pelo menos, experimentar?

Hinata grunhiu, se colocando de pé e começando a desabotoar sua blusa. Sakura bateu palmas, animada – ela sempre conseguia o que queria –. A morena não se importou em despir-se na frente da amiga, uma vez que dividir o mesmo dormitório lhes dava esse tipo de intimidade. Tirou o shorts e as peças íntimas, virando-se de costas. Puxou o traje de banho, tateando para encontrar a entrada das pernas. O subiu, sentindo o tecido elástico se acomodar em seu corpo. Quando puxou sobre o busto, confundiu-se com a entrada para os braços. Estava acostumada com o modelo mais simples que existia, mas aquele instrumento de tortura tinha uma alça única. Supos que seria para passar pelo pescoço, e, ao menos, não ficava repuxando. Era até confortável, mas o decote exageradamente grande a incomodava. Ela descobriu que as fendas ficavam nas costas, e a entrada cavada era uma novidade também. Quando voltou-se para Sakura, a amiga soltou um assovio surpreso.

— Ficou ótimo!

— Você acha mesmo? – Hinata queria colocar os braços na frente do corpo para tampar-se.

— Claro que sim, sua boba! Queria ter esse corpo maravilhoso. – sua voz tinha uma pontada de inveja, e Hinata riu, trêmula – Tudo bem, vamos voltar.

— Posso, pelo menos, colocar minha blusa? – perguntou, criando esperanças.

— Não. – Sakura respondeu, direta, e a garota resmungou – Mas eu te empresto uma saída de praia. – Hinata não tinha a menor ideia do que aquilo seria, mas, resignada, juntou suas roupas e guardou no armário junto da bolsa da Haruno.

Naruto estava recostado na beira na piscina, com os pés na água e os olhos fechados. Fisicamente, sentia-se renovado, mas estava psicologicamente fodido. Não parou de pensar desde a madrugada anterior, e, em um momento de insanidade, procurou por Sasuke, que literalmente ouviu duas palavras e voltou a dormir. Ele não tinha com quem conversar, e estava se remoendo há tanto tempo que era impossível ele sair daquela situação inteiro.

Os lábios de Hinata não saíam da sua mente. Ele ficava revendo, e revendo, e revivendo, fixando cada detalhe reproduzido, apenas para não esquecer – não que fosse possível, de qualquer maneira –. Claro, era impossível ignorar também o que viera depois. O rosto assustado da garota, sua expressão culpada. Ele sequer conseguia encará-la sem querer se enfiar na droga de um buraco no jardim. A maneira que o rosto dela corou quando ouviu sua voz só o deixou mais desesperado – não era possível que ele estivesse fissurado daquele jeito. Entre se culpar e reproduzir a cena infinitamente, Naruto ainda tentava se convencer de que tudo não passava da adrenalina do desafio de conquistá-la, e nada mais que isso.

— Dobe, você está um caco. – Sasuke comentou, vindo da área da churrasqueira. Embora não estivesse sendo usada, os garotos haviam preparado um tira-gosto para esperarem pelo almoço. Naruto não se deu ao trabalho de abrir os olhos para xingá-lo.

— Não me diga. Obrigado, gênio. – resmungou, sarcástico.

— Cara, se aconteceu alguma coisa entre você e ela, vocês precisam conversar. O clima está pesado como um elefante na sala. – zombou, e o Namikaze suspirou, sabendo que Sasuke estava certo, como sempre.

— Eu sei, ok? Eu vou fazer isso. Mais tarde. – murmurou, mais para si mesmo. Quanto mais pudesse adiar, melhor. Ouviram um barulho, longe, do portão se abrindo, e Naruto se levantou, sem se importar em puxar a toalha – Gaara chegou.

— Você não está preocupado? – Sasuke perguntou. Ambos sabiam que o amigo era o mais descarado dos três, e quaisquer comentários preconceituosos contra Hinata, mesmo que em tom de brincadeira, transformaria a tarde em uma zona de guerra, porque, obviamente, todos partiriam em defesa. Além disso, Gaara ainda não sabia da recente paixão platônica (quem estava dizendo?) de Naruto pela garota. Depois daquele dia, suspeitavam que ele cairia em si, mas até onde sabia, Naruto gostava de zombá-la tanto quanto os outros garotos do time.

— Claro que estou. Aquele imbecil tem a maior boca. – Naruto bufou – Mas eu espero que ele caia na real bem rápido. Não estou a fim de briga. – Sasuke ergueu uma sobrancelha duvidosa em sua direção, mas ele ignorou.

Atravessou a área da piscina para esperar na porta de acesso dos fundos. Gaara conhecia aquele lugar tão bem quanto Sasuke, e não precisaria de ajuda. O garoto chegou já sem sua mala, com óculos escuros quadrados e uma camiseta de botões vermelha que combinava com seu cabelo flamejante, destacando a tatuagem em sua testa.

— E aí, Naruto! – cumprimentou o amigo com um high-five e um meio abraço, fazendo o mesmo com Sasuke – Você acabou de salvar as minhas férias, eu estava derretendo em casa. – tirou os óculos, e os olhos verdes intensos eram sagazes – E então, onde ela está? – seu rosto se contorceu em uma máscara entusiasmada e ligeiramente descrente – A famosa Hyuuga. Estou ansioso para conhecê-la.

— Gaara... – Naruto resmungou, mas Sasuke foi mais rápido, intervindo entre os dois.

— Olha, não seja um idiota, tudo bem? Ela é amiga da Sakura e nós gostamos dela. – fez questão de incluir o plural, e o ruivo o encarou quase ofendido.

— Eu sei, cara. O que você pensa que eu sou? Um imbecil? – os dois pares de olhos sobre ele o fez bufar – Ok, não respondam. Eu vou me comportar. Prometo. – revirou os olhos, passando pelos amigos, que se entreolharam e deram de ônibus, não podendo esperar muita coisa.

Naruto saiu na frente, distraído, sem olhar, mas bastaram apenas alguns segundos para que ele trombasse em Gaara, parado no meio do caminho para as espreguiçadeiras. O Namikaze soltou um palavrão, esfregando o nariz dolorido, enquanto desviava para o lado.

— Por que parou no meio do caminho, droga?!

O ruivo não respondeu. Naruto, impaciente, olhou para seu rosto, paralisado, os olhos vidrados, sem piscar. Curioso, virou-se para onde Gaara encarava tão avidamente, e, quando viu, engasgou, precisando tossir várias vezes para desobstruir as vias respiratórias. Sua boca escancarou de maneira nada disfarçada, e seu coração batia tão rápido que ele sentia que teria um ataque cardíaco.

Hinata tinha voltado com Sakura, e – sendo sincero – não havia palavras para descrever como ela estava. Naruto nunca a tinha visto sem o habitual uniforme da Academia, ou sem o maiô preto que usava para treinar. O dia anterior foi o primeiro em que a vira usando algo fora do habitual, e de tamanho razoavelmente reduzido, mas aquilo era outro nível. O Namikaze se sentia mal de olhar, e, pela primeira vez em muito tempo, estava pensando em Hinata de um outro jeito – bem, ele teria problemas se continuasse pensando nela daquele jeito, problemas constrangedores.

A garota pegara um dos trajes de Sakura – Naruto sabia porque Hinata jamais escolheria aquele por conta própria –. Era um modelo azul royal, vibrante, com brilho. O fato da morena estar usando um maiô não-convencional já era um fato, por si só, surpreendente, mas aquela cor destacava sua pele, a deixando mais leitosa, e os olhos, mais marcantes. As coxas desnudas eram grossas, subindo para um quadril marcado e afunilado. Hinata era uma atleta, e nadava várias milhas por semana, mas ele jamais imaginou que o resultado era tão visível. Mas nada se comparava ao seu busto – um decote cavado que descia em V, de maneira decente, admitia. O problema era que Hinata tinha seios fartos. Sendo absolutamente realista, Naruto não conseguia encontrar comparações dignas para aquele busto. Grades e redondos, os seios de Hinata deixavam o decote proeminente e chamativo. O pescoço estava coberto pelo cabelo solto, que se destacava contra a pele branca.

Naruto estava tendo sérios problemas de concentração naquele momento – e desejava ardentemente que aquela fosse sua única perturbação.

Esse era o motivo pelo qual Gaara parara tão abruptamente. Sasuke, do seu lado, tentava desesperadamente disfarçar, sem sucesso, e Sakura olhava para eles com os braços cruzados e gritante satisfação no rosto.

— Está tudo bem? – a voz de Hinata quebrou a atmosfera, parecendo preocupada. Todos saíram de seu transe, e Sasuke correu para ajudar o amigo, que ainda parecia atônito.

— Claro, está sim. Hinata, gostaríamos que conhecesse nosso amigo, Sabaku no Gaara. – o Uchiha puxou o ruivo pelo braço, que tropeçou e xingou, parando há poucos metros de Hinata e aprumando a postura, ainda com o rosto vermelho.

— Hm, olá, Gaara. – Hinata estendeu a mão, receosa, e o ruivo se recompôs, esticando o próprio braço para cumprimentá-la. Quando o fez, a garota sorriu mais aliviada.

— Oi! – a voz de Gaara ainda falhava, e ele pigarreou – Oi, Hinata. É um prazer conhecê-la.

Se separaram, e todos pareciam satisfeitos com o rumo da situação. Sakura estava feliz que Gaara fora simpático e dera uma chance. Sasuke respirou aliviado, indo para a cozinha dos fundos checar o almoço, enquanto Naruto permanecia estarrecido. Hinata andou até a cadeira, respondendo algo que o outro garoto havia perguntando. A Haruno se aproximou sorrateiramente, inclinando-se para o ouvido de Naruto:

— Se você tinha alguma dúvida antes, acho que agora não existe mais. – sussurrou – Vê se não bobeia.

Naruto estava experimentando uma série de sensações inéditas para ele. Já vira inúmeras garotas gostosas em sua vida, muitas deles sem qualquer roupa, mas, por algum motivo, a simples imagem de Hinata naquele maiô fora o suficiente para derreter seu cérebro. Ele não entendia – não conseguia decifrar qual era o efeito que ela o causava. Mas, mesmo assim, aquele não era o sentimento que mais lhe incomodava.

Hinata ria de algo que Gaara dissera, um sorriso pronunciado e aberto. Totalmente a vontade. Naruto não entendia porque seu estômago borbulhava, ou porque estava enjoado, com a visão turva e os punhos cerrados. Ele apenas não entendia.

Naruto nunca sentira ciúmes de alguém.

— Eu sou a melhor amiga que alguém poderia ter. – Sakura comentou em voz baixa, revirando os olhos, e Naruto desviou o olhar fuzilante por um momento – Gaara, você pode vir me ajudar com o almoço? – perguntou, mais alto, e o ruivo se virou para ela, assentindo e se levantando em um salto. Naruto, embasbacado, virou-se para a rosada, que piscou discretamente e continuou para a cozinha.

Hinata permaneceu sozinha, na cadeira. Naruto engoliu em seco. Ele não conseguia pensar com clareza – parecia que era sempre assim quando ela estava no ambiente. Hinata apenas bagunçava sua cabeça. Mas ele sentira ciúmes dela com Gaara, um ciúme injustificado e desmedido. E fora ele quem tomara a iniciativa para beijá-la na noite anterior. Se aquilo não significava algo, então ele não sabia de mais nada. Precisava falar com ela. Precisava ser corajoso, e enfrentar aquele turbilhão insano de sensações antes que ficasse louco.

Depois de respirar fundo, andou alguns passos, parando em frente a garota, fazendo sombra em seu rosto. Ela ergueu a cabeça, um pouco confusa.

— Oi, Hinata. – sua voz estava baixa e grave. Naruto não poderia dizer se ela estava tão tensa quanto ele – Quer nadar um pouco comigo? Eles estão terminando o almoço. – o garoto jamais soava hesitante, mas ali estava ele, a ponto de gaguejar.

Hinata pareceu pensar por algum tempo, mas acenou afirmativamente. Naruto soltou o ar que ele não sabia ter prendido. Esperou a garota se levantar para tocar delicadamente em suas costas, ignorando toda e qualquer corrente elétrica que percorreu a ponta de seus dedos. A levou até as escadas, mostrando o primeiro degrau, e deixou que ela entrasse.

A Hyuuga não estava esperando uma comunicação direta entre ela e Naruto, surpreendendo-se com o convite, mas, acima de sua vergonha ou confusão, ela queria muito nadar. Quando seu corpo tocou a água, ela soltou um suspiro satisfeito. Estava perfeita. Balançou os braços e afundou para molhar o cabelo. De volta a superfície, nadou devagar, medindo o tamanho da piscina, e parando em uma das margens. A altura era o suficiente para submergir seus ombros, mas ela conseguia ficar de pé sem dificuldades. Sentiu a água mexer quando Naruto se aproximou, e ela corou – não sabia o que dizer, e, caso ele a beijasse novamente, não sabia como reagir, principalmente porque ela era fraca o bastante para ceder.

Naruto, por outro lado, gostava de analisar cada reação da morena. Como um hobby, ele se entretinha a vendo suspirar, sorrir ou resmungar. A expressão em seu rosto quando sentiu a água foi indescritível – a cada minuto que passava, Naruto tinha mais certeza que Hinata era um anjo. E foi esse pensamento que o encorajou a nadar para perto dela.

— Hinata, eu... – parou, sem saber o que falar, sentindo-se estúpido. Ela se virou para ele, com o cabelo flutuando ao seu redor – Eu queria me desculpar por ontem a noite. – falou de uma vez, com um só fôlego. Hinata se assustou, corando fortemente.

— Não precisa se desculpar. – respondeu baixo, parecendo tímida. Naruto mal se segurou diante daquela cena.

— Eu preciso sim. – decidiu que aquela era a melhor abordagem a ser tomada, enquanto brincava com a água. Foi sincero: – Eu não tinha o direito de te beijar, não quero ser esse tipo de cara. – ele já tinha sido aquele tipo de cara, mas não com ela. Não com Hinata. Não mais – Quero dizer, eu não sei se você tem outra pessoa ou não. – complementou, a contragosto, tendo que admitir que era uma possibilidade. Mas admirou as maçãs da garota, que se destacaram mais ainda.

— Não há outra pessoa. – a velocidade com que ela negou fez Naruto sorrir – Quero dizer, – e lá se foi o sorriso – há alguém. Mas eu não tenho certeza. – mordeu os lábios, e o Namikaze sentiu ciúmes pela segunda vez no dia. Não gostava nada daquele aperto estranho – Eu não o conheço o suficiente, mas sinto que tenho uma ligação com ele. Eu gostaria de tirar a limpo antes de qualquer coisa. Ele foi uma das primeiras pessoas que foi gentil comigo quando eu cheguei na escola. Mesmo me pegando treinando escondido, ele não me dedurou. – ela sorriu para si mesma.

Naruto quase a beijou pela segunda vez, e seu peito inflou de uma maneira que só poderia ser descrita como alívio pleno. A outra pessoa era Menma. Só poderia ser. Tirando o fato de que Naruto acabara de sentir ciúmes de si mesmo, não poderia estar mais contente. Hinata estar em dúvida em relação a Menma só mostrava que ela gostava dele – ao menos, de uma outra versão dele mesmo. Confuso.

De qualquer maneira, aquilo realmente elevara suas chances. A única pessoa com quem competia era sua própria segunda personalidade – Kami o livrasse quando ele tivesse que revelar tudo –. Mas era outro problema, que sua versão do futuro resolveria. Naquele instante, ele era o homem mais feliz que poderia existir. Instintivamente, se aproximou de Hinata, a ponto de tocar suas pernas. Hinata assustou-se, sem se afastar.

O Namikaze aproximou sua mão do rosto da garota, que arregalou os olhos, sem respirar. Hinata não estava acostumada com aquelas aproximações repentinas, e seu coração parecia que ia sair pela garganta. Ela tremia, querendo recostar o rosto contra a palma quente que acariciava sua bochecha. Estava confusa, sobretudo, com medo – medo do que viria pela frente, com medo de estar se entregando rápido demais. Sua mente gritava que aquele garoto era perigoso, mas ela não escutava nada além das palavras que ele dizia.

— Não importa que haja outra pessoa. – Naruto soava diferente agora, confiante, mas carinhoso. Hinata tinha a garganta fechada, atônita – Eu vou te conquistar. Eu, Namikaze Naruto. Isso é uma promessa.