Quimera
2 Contato
Notas iniciais
— Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo.
Quando Hinata fechou a porta do quarto, atrás de si, pode dar um suspiro aliviado, pela primeira vez no dia. Guiando-se com seu bastão, chegou até a cama, sentando-se e relaxando. Parecia que eram mais de sete da noite, porque o refeitório já havia ligado as luzes artificiais. Estava escuro do lado de fora – mas, para Hinata, era sempre escuro.
Deixou suas coisas de lado, tirando suas peças de roupa lentamente, pensativa. Havia tido alguns dias para reconhecer o quarto e onde cada móvel ficava. Tsunade havia insistido que ficasse em um dos dormitórios reservas até que se sentisse confortável o bastante para dividir com outras garotas. Não deixava de pensar no quão bondosa a diretora havia sido com ela. Além de designar os professores para que a acompanhassem até as salas nas primeiras semanas, havia comprado todos seus livros, e arcado com suas despesas até a ilha.
A garota, agora apenas com suas roupas íntimas, se levantou e caminhou até o banheiro, sem trombar em nada, como havia feito nos primeiros dias. Internamente, sentiu-se orgulhosa por conseguir chegar ao chuveiro sem tropeçar. Havia aprendido que cada pequena conquista deveria ser comemorada e exultada. Hinata não sentia vergonha de sua situação – sua mãe nunca havia deixado que se apiedasse de sua própria situação. Juntas, brincavam e faziam piadas a todo momento, para tornar a vida mais leve. Elas já tinham tristezas demais para se deixar abater.
Hinata, então, sentiu saudades da mãe. Era uma mulher guerreira, e os anos as fizeram mais próximas que qualquer pessoa. Nunca haviam ficado tanto tempo separadas, e a distância, mesmo que não fosse grande, era inviável para que a garota dormisse em casa todos os dias. Tsunade, claro, havia insistido que a visitasse diariamente, mas Hinata negou, dizendo que o faria em dias intercalados, talvez uma vez por semana – sentia-se mal em abusar da bondade da diretora.
Estava ciente de sua condição. Havia sido daquela maneira desde cedo, e ela teve muito tempo para conformar-se e escolher entre ser a vítima ou a escritora de sua própria história. Apesar de tudo, não reclamava da vida. Gostava de pensar que o destino era indiscutivelmente justo. Até as pessoas menos afortunadas eram, de alguma forma, abençoadas. Quando o desenvolvimento da doença foi anunciado, levaram apenas alguns meses para que ela, com apenas quatro meses, perdesse 90% da visão do olho esquerdo e a total visão do direito. Entretanto, todos seus outros sentidos se aguçaram de maneira curiosamente alta. Tato e audição se tornaram essenciais, e, depois de alguns anos, Hinata era capaz de identificar quase tudo e todos apenas com sua dedução.
Não pudera, no entanto, se dar o luxo de ser sonhadora – desde cedo, seus pés no chão a faziam entender a situação em que ela e sua mãe viviam, e aprendeu a se cuidar sozinha ao longo do dia em que a mãe trabalhava no restaurante local. Aos cinco, a única professora formada em linguagens especiais ensinou o básico a Hinata, que, depois de aprender a ler o alfabeto em braile, desenvolveu a leitura muito rapidamente. Pouco tempo depois, ensinou também a mãe.
Não tardou para que os professores notificassem ambas – Hinata era dotada de um QI altíssimo para a idade, mesmo nas condições em que se encontrava. Aprendia com facilidade assuntos complexos e dedicava-se o dobro para não ficar em desvantagem dos demais colegas. Fora incentivada, então, pelos melhores educadores da escola, fazendo cursos complementares e se dedicando a atividades extracurriculares, para suprir, de alguma maneira, a deficiência.
Quando terminou o ensino fundamental, recebeu inúmeras indicações para a Academia, o melhor internato do país, onde teria a chance de destacar suas habilidades e aprender com os melhores mestres. O sonho durou pouco, uma vez que a mensalidade estava infinitamente fora do pequeno orçamento com que sobreviviam. Durante o primeiro ano, estudou meio período na escola do bairro, mas, há poucas semanas, recebeu em casa a diretora do internato. Alguns de seus professores notificaram sua situação e Tsunade foi impassível – Hinata teria bolsa integral para o colégio.
Assim que a água gelada bateu em seu ombro, a garota estremeceu. Reprimiu a vontade de soltar um novo suspiro. O primeiro dia havia sido intenso. Com algum tempo, conseguiria se adaptar a escola e aprenderia todos os caminhos. Não gostava de sentir que dependia de alguém para viver sua vida. O sentimento de independência, acima de tudo, lhe era libertador, e ela ainda tinha seu orgulho. Mostraria a todos que era tão capaz quanto eles, e seria aprovada nas melhores universidades que existiam – e, finalmente, daria uma vida digna a sua mãe.
Distraída com seus pensamentos, deixou-se levar para o incidente na primeira aula. Havia feito de tudo para passar despercebida. Não dissera nada, nem incomodara ninguém. Entretanto, já esperava as piadas, a zombetearia. Estava acostumada com as pessoas caçoando-a, era ciente disso e simplesmente não ligava para os múrmuros e comentários. Com a deficiência, veio também a verdade – as pessoas eram cruéis, e sempre seriam.
Não fora sua intenção trombar com o garoto. “Pelo menos ele era forte”. Lembrava-se com clareza do braço forte e os ombros largos com que colidiu. Eram rígidos, provavelmente um atleta. Infelizmente, ter sentidos apurados significava ser mais sensitiva, em todas as formas. Afastou aquela memória, repreendendo a si mesma. Puxou a toalha e saiu do box. Não tinha tempo para inimizades, muito menos vontade. Não era inteligente se meter com aquelas pessoas ricas e influentes.
Voltou para a cama, procurando estender a toalha da melhor maneira possível no batente do armário, na parede oposta. Vestiu um de seus pijamas e deitou-se, puxando um dos livros dados pela diretora, estudando. Leu até que o sono a levasse, embalada em pensamentos nublados e um desejo irreprimível de provar seu valor.
Naruto há muito estava de pé quando os primeiros raios solares despontaram pela janela. Havia passado a madrugada em claro, pensando, incomodado. Sasuke roncava, alheio a qualquer coisa que acontecia no quarto.
O diálogo com Sakura ecoava em sua mente, de uma maneira irritante. De alguma maneira, não havia percebido que a garota morena era cega – não se dera ao trabalho de reparar nela tempo suficiente para esse tipo de avaliação. Sua primeira reação fora a de surpresa. Não entendia como sua avó havia deixado que uma deficiente estudasse ali. Aquilo mancharia a reputação da escola. No entanto, pensando um pouco mais racionalmente, chegou a conclusão que ela vinha de uma família rica – era a única explicação para ela ter condições de arcar com as mensalidades e com as especificações para sua pequena diferença.
De qualquer maneira, não entendia porque aquilo o estava afetando tanto – ele era Namikaze Naruto, rico, bonito, bom esportista, com um futuro de sucesso e um passado de glórias. A presença de uma cega não alteraria em absolutamente nada sua vida. Precisava apenas fazer com ela o que fazia com a maior parte das pessoas a sua volta – ignorar sua existência.
No momento em que chegou a uma conclusão satisfatória, os picos da manhã gélida já se faziam presentes do lado de fora. Resolveu tomar um bom banho para despertar, sentindo-se novamente revigorado. Precisava apenas colocar a cabeça no lugar e se lembrar das coisas que realmente importavam. Vestiu-se com seu melhor uniforme, e pegou sua bolsa, vazia de livros ou materiais importantes, e saiu, sem esperar o amigo acordar. Com sorte, conseguiria tomar café antes de todos e poderia visitar o vestiário novo do time. Como capitão, tinha de manter uma postura respeitável e autoritária – aquela era, afinal, a obrigação de um Namikaze.
O refeitório estava surpreendentemente vazio, contando com um ou dois alunos que faziam suas refeições em silêncio. Naruto pegou uma bandeja reforçada e procurou com um olhos uma mesa confortável e reservada. Distraído, notou, depois de alguns segundos, uma já familiar cabeleira negra, descendo em cascata por toda as costas da garota. Com uma careta, sentiu dentro de si um sentimento de completa repulsa. Moveu-se para a mesa mais afastada, incomodado.
Hinata havia despertado em seu horário costumeiro, que era, infelizmente, cedo demais para a rotina da Academia. Naquela manhã, um sentimento apertado havia se instalado dentro de si. Era um dos dias em que sentia-se insuficientemente boa para os outros. Tentava, com todas suas forças, não se importar com a opinião alheia, mas era impossível frear aquela sensação. Em alguns momentos, odiava ter aquela deficiência – odiava ser alvo de pena e misericórdia, odiava ser subestimada, odiava ser um fardo.
Trancou a fundo aqueles pensamentos e vestiu-se. Usava aquele uniforme com um orgulho desmedido – sua mãe havia gasto noites em claro para costurá-lo para ela, usando alguns tecidos antigos. Era sua maneira de dizer que a apoiava e que estava do seu lado independente de tudo. Sentimental, a garota prometeu a si mesma que visitaria a mãe na tarde seguinte.
Juntou seus livros e pegou seu bastão, estendendo-o. Jurou para Kakashi-sensei que havia decorado, ao menos, o caminho do dormitório até o refeitório, e era capaz de ir sozinha. No dia anterior, fizera suas refeições fora do horário usual, para que não fosse importunada, mas ela odiava privilégios. Tudo que queria era ser tratada como uma aluna normal.
Quando chegou, não ouviu muitas vozes, o que significava que o local estava quase vazio. Cumprimentou os funcionários, atenciosos e prestativos, e seguiu até a mesa mais próxima, comendo com calma enquanto adiantava uma das matérias daquele dia. Não pressentira exatamente uma aproximação, mas eriçou a coluna ao sentir uma aura hostil. Por alguns segundos, lembrou-se do garoto do dia anterior, mas rapidamente descartou essa ideia, considerando estar se tornando obcecada.
Não podia saber as horas, mas tinha sempre boas estimativas – embora não houvesse sol, a claridade havia aumentado. Em uma discussão interna, estava dividida entre continuar na mesa até o horário da primeira aula ou levantar-se antes que o salão enchesse, evitando, assim, chamar atenção desnecessária. Sabia que iria se arrepender, mas optou por ficar, acomodando-se com seu livro e implorando para passar despercebida.
Claro que não aconteceu.
As pessoas, em sua maioria, pensavam que aqueles como Hinata eram incapazes de enxergar de fato, de notar o mundo ao seu redor, e, por esse motivo, agiam com condescendência e deboche. Hinata não enxergava, mas ela via — ela sabia de todas as piadas, todos os sussurros e as mãos apontando para ela. Sabia das pessoas julgando e zombando, e falando dela como se ela fosse apenas uma carcaça vazia. A falta de visão lhe proporcionava, no entanto, o poder de olhar muito além do que os olhos realmente viam. E ela via um mundo de maldade e individualidade, de egoísmo e gente vazia.
Hinata ouviu as conversas baixas que se aproximavam e afastavam. O local se tornou mais barulhento, e ela não moveu um só músculo. Há muito aprendera que não valia a pena. Ela procurava pensar que ninguém, em seu âmago, era, de fato, má. Ela os perdoava por sua ignorância e, então, podia dormir com a consciência tranquila. Não se tratava de ser estúpida ou ingênua – a mágoa corroía bem mais que a bondade, afinal.
Sasuke se sentou com sua habitual careta indiferente, acompanhado de Sakura e duas outras garotas que conversavam entre si. Os treinos do time ainda não haviam começado, e as líderes não haviam se reunido, mas, quando o fizessem, a mesa dos atletas se estenderia pelo corredor, preenchida por agregados e membros da equipe esportiva. Com exceção de Naruto, todos preferiam como era no início – apenas quatro ou cinco pessoas, em quem podiam confiar.
— Por que não me esperou hoje, Dobe? – Sasuke perguntou, sem parecer realmente irritado, apenas curioso.
— Perdi o sono e estava com fome. – resmungou, cutucando os restos de sua comida com o garfo, distraidamente.
— Você caindo da cama, no segundo dia de aula? Essa é novidade. – Sakura não perdeu a oportunidade, enquanto sentava-se do lado do loiro, que lhe fuzilou e deu-lhe a língua – Mudando de assunto, vocês viram quem está sentada ali na outra mesa? – apontou com o queixo, e Naruto revirou os olhos.
— Por mim ela nem estaria aqui. – resmungou, tomando um olhar atravessado de Sakura.
— Você é a criatura mais asquerosa e imbecil que eu já tive o desprazer de conhecer. – falou com asco – Não é possível que debaixo desses músculos todos e dessa arrogância não tenha um pingo de compaixão ou sensibilidade.
— Menos drama, Sakura. – Naruto falou, entediado – É só a minha opinião. Pessoas como ela e como nós não deveriam coexistir no mesmo ambiente. Eu não tenho culpa se ela é deficiente, não sou obrigado a conviver com quem é inferior a mim. – fitou a amiga com superioridade, enquanto Sasuke suspirava. Sakura, fervendo de raiva, levantou-se em um ímpeto, agarrando sua bandeja e dando as costas – Onde você vai? Sakura!
— Vou me misturar com os inferiores, bem longe de você! – a garota gritou de volta, caminhando em passos duros.
Estava inconformada com as coisas que Naruto tinha sido capaz de dizer. Não imaginava que o amigo era tão superficial e pretensioso, se considerando melhor que alguém por algo tão banal. Sakura havia sido criada sob os olhares rígidos de uma avó que cuidou dos três filhos sozinha. Aprendera, principalmente, sobre gentileza com o próximo e benevolência. Escutar aquelas palavras a surpreendeu de maneiras que não sabia que eram possíveis. Estava exasperada, e decepcionada.
Quando atravessou o lugar, diminuiu os passos, aproximando-se com hesitação. Havia sido impulsionada pela raiva, mas agora tinha dúvidas – e se ela não quisesse amizades? Não sabia coisas que podia ou não dizer, ou se estava sendo muito evasiva. Estava a alguns poucos metros da mesa, quando seus passos pararam de vez.
— Pode se sentar. – Sakura se assustou, sendo tirada de seus devaneios. A garota morena permanecia na mesma posição, mas havia movido os livros.
Hinata havia notado a pequena discussão quando as vozes se elevaram, e os passos que ficaram mais próximos, e mais incertos. Deduziu que havia alguém atrás de si, e estava se questionando se deveria sentar-se ou não. A garota sentiu-se feliz, no entanto, de ter alguém disposto a se aproximar.
— Hã... claro. – Sakura deixou sua bandeja, sentando a uma distância longa o suficiente para dizer “respeito seu espaço” e curta o suficiente para dizer “não tenho medo de sentar com você” – Você é a Hinata, não é? – achou que seria uma boa maneira de começar a conversar, e Hinata riu internamente da insegurança da garota ao seu lado.
— Parece que você sabe quem eu sou, mas eu não sei quem você é. – disse com bom humor, assustando Sakura, que ainda estava sem jeito.
— Ah, me desculpe! Sakura, Haruno Sakura. – a garota estendeu o braço por alguns segundos, até reparar no que estava fazendo e parou, sem jeito. Hinata exibiu um sorriso e também ergueu sua mão, aproximando-a devagar até encontrar a de Sakura, apertando-a com delicadeza. A rosada se surpreendeu, abrindo a boca em O. A mão de Hinata era surpreendentemente macia.
— Prazer. Seus cabelos são rosas? – continuou com seu bom humor, e a outra parecia petrificada.
— Co-como... como você... – gaguejou, e logo depois se penalizou por ser tão insensível. Hinata percebeu o desconforto e sorriu, virando o rosto em centímetros para que ela visse.
— Ah, me desculpe. Minha mãe sempre disse que as cerejeiras que florescem são rosas, e eu achei que seu nome tivesse alguma relação com isso. – sua voz estava divertida – E o truque da mão é bem fácil. É tudo questão de sentir as forças ao redor. – sussurrou, como se contasse um segredo.
— Incrível. – Sakura suspirou, a voz mais baixa, e Hinata soltou um riso mais alto. A Haruno sentiu-se envergonhada – Me desculpe, eu não tenho papas na língua.
— Não se preocupe. Eu não me ofendi. É bom conversar com alguém. – confessou, fechando o livro e tateando sua bandeja, mordiscando um pedaço de pão que sobrava.
Sakura observava a garota com fascínio. Não tinha tido tempo de reparar em seu rosto, mas ela tinha traços tão delicados que parecia feita de porcelana, prestes a quebrar no primeiro toque. Não conseguia parar de fitar seus olhos, sobretudo, que, de alguma maneira, ressaltavam todos os detalhes ao redor. E seu bom humor, era fácil desenrolar uma conversa com ela. Na primeira vista, ela parecia normal.
Corrigiu-se: ela era normal. E linda.
— Já está conseguindo se adaptar a Academia? Os primeiros dias são sempre difíceis. – puxou assunto, tentando ser amigável.
— Acho que sim. Eu li um pouco da matéria antes e os professores foram muito receptivos. Sentar na frente ajuda na hora dos degraus. – riu sozinha. Hinata sentiu-se a vontade com Sakura, mesmo notando como ela media suas palavras. Era sempre assim, mas não queria afastar o primeiro contato que tinha tido com um aluno de verdade.
— Leu? Seus livros, eles... – deixou a frase em branco, sem saber como continuar.
— Eles são em braile, sim. Pesam mais, mas os novos exemplares são muito melhores. Consigo acompanhar todos os textos. – respondeu, parecendo não ligar – E, antes que pergunte, eu conto os passos para ir até as salas. Kakashi-sensei me ajudou essa semana, mas acho que estou pegando o jeito. – soltou uma piscadela, surpreendendo Sakura novamente, que soltou uma risada involuntária.
— Uau. Isso é incrível, eu nunca imaginaria. E se você errar as contas? – perguntou, curiosa, se aproximando.
— Uma vez eu entrei no banheiro masculino, mas não pude aproveitar nada. – fez um biquinho, e a rosada soltou uma gargalhada. Sentiu empatia por Hinata, vontade de ajudá-la e compartilhar com ela piadas e fofocas. Era uma pessoa gentil, sem barreiras. Era fácil e espontânea.
— Se você não se importa de responder... – parou, hesitante – Como é? – não precisou complementar para que Hinata entendesse.
— Eu sempre fui assim. É quem eu sou, e eu não posso fazer nada a não ser me adaptar. Eu sinto falta de algumas coisas, das sensações ou das cores, mas eu fico imaginando e na minha cabeça elas são lindas. As pessoas ficam com medo de se aproximar, mas eu sou uma pessoa normal, como qualquer outra. Eu adoro ler e ir a praia no verão com minha mãe. Eu adoro doces, e ouço a novela na TV. Eu sei que algumas não entendem, e elas sentem medo do desconhecido, mas está tudo bem. Eu estou bem.
Ficaram em silêncio. Hinata mordeu o lábio inferior, temendo ter dito demais, e assustando a primeira – e única – pessoa que se aproximou dela. Sakura, no entanto, absolveu as palavras de Hinata, sentindo, dentro de si, uma vontade incontrolável de abraçar a nova amiga – ainda que ela não soubesse que era. Tudo que disse foi:
— Eu também adoro doces. – confessou, e Hinata virou-se para ela, sorrindo.
Friccionou as mãos, sentindo o desconforto que despertou consigo desaparecer, dando lugar a uma plenitude que poucas vezes experimentara. Sorriu, e arrumou suas coisas para ir a aula. Se levantou, pegando seu bastão, mas, quando Sakura entrelaçou seus braços, tagarelando, Hinata teve a sensação que poderia ignorar todas as energias ruins a sua volta.
Fale com o autor