Quimera
30 Apresentada à família
Notas iniciais
— Eu acredito que os olhos são motivos muito importantes. Eles podem discernir o amor e a paz.
A comemoração dos times da Academia Canadense se estendeu do ginásio até os ônibus, por todo o caminho de volta até a ilha, e, então, para o ginásio da escola. Muitos troféus haviam sido conquistados naquele dia, mas a equipe de lutadores de judô atraía a atenção para si – não saberiam dizer realmente se era pela emoção do prêmio duramente conquistado, ou pela popularidade incontestável de seus integrantes. Fosse como fosse, os gritos e as risadas eram ouvidos por toda a propriedade, mas nenhum dos professores se importaria, naquela noite. A grande visibilidade do instituto nos torneios, como sempre, traria investidores interessados e pais dispostos a pagar uma pequena fortuna para que seus filhos fizessem parte daquele prestígio. Tsunade descansava tranquilamente em seu escritório, a espera que os telefones começassem a tocar, e também estava satisfeita – e secretamente orgulhosa –.
A luta espetacular de Naruto foi alvo de comentários de todos os veículos de notícia da província de Rokko, e um motivo mais que válido para que o próprio garoto começasse uma algazarra. No pódio, todos os lutadores inscritos ganharam medalhas – mesmo os que perderam –, e foram anunciados como os representantes oficiais em Tóquio, dali algumas semanas, para o campeonato nacional que reunia colégios de todos os cantos do país. Embora ainda visasse o grande prêmio, o Namikaze não se importava em comemorar um pouco naquela noite.
Estava fisicamente exausto, mas sua mente não parara por um segundo. O alívio trouxe uma onda de dores musculares quase insuportáveis, mas sempre havia forças para comemorar com seus amigos. Recebeu cumprimentos de todos que encontrou no caminho do ginásio para o ônibus, tendo sua mão apertada e suas costas estapeadas tantas vezes que seria impossível contar. Retribuiu, satisfeito, todos os sorrisos, e carregou Gaara pessoalmente, apoiando-o pelos ombros. O ruivo havia tido uma pequena distensão e os hematomas da perna formigavam um pouco, mas ele foi o primeiro a incentivar a bagunça entre os amigos, tão feliz quanto os outros. Mesmo que fossem apenas eles no caminho de volta, assim que desembarcaram na frente do colégio, todos os outros times que foram competir também se dirigiram para o velho barracão, levando o que encontraram de bebidas e equipamentos.
Depois do judô, o time de natação era o que mais tinha medalhas – conquistaram o bicampeonato regional e estavam na melhor colocação para as nacionais, além de serem os favoritos da disputa. Diferente do esporte de luta, o modo de competir mudava bastante, e, mesmo que Shikamaru continuasse com sua habitual careta entediada, Naruto sabia que o amigo já traçava estratégias para colocar seus melhores nadadores nas provas de quatrocentos metros – o loiro sabia algumas regras, mas, mais que isso, ele se interessava bastante pelos integrantes da equipe.
No meio de toda a zorra, não conseguiu mais encontrar Hinata, nem na saída do ginásio, nem quando desceram, já na Academia. Viu Sakura de relance por alguns segundos, mas ela desapareceu no mar de estudantes, com sua prancheta e suas listas intermináveis. Naruto queria comemorar com seus amigos e colegas, mas também queria ficar sozinho com a Hyuuga, ainda mais depois da vitória – ele realmente acreditou, por um instante, que seria impossível conseguir uma queda perfeita em menos de trinta segundos, contudo, quando viu seu adversário no chão, e o juiz ergueu sua mão, tudo que ele queria era dedicar aquela conquista para ela.
No barracão, continuou procurando com os olhos, respondendo distraído, pouco ciente do copo em sua mão, com alguma bebida que não sabia o que era, ou da jaqueta do time que jogaram em suas costas, por cima do quimono e da medalha que ainda não tirara. Alguém colocara caixas de som e música eletrônica estourava de todos os lados, enquanto luzes brancas e azuladas piscavam. Ninguém se importara em ir descansar, aquela era uma tradição do colégio. A equipe de atletismo ainda usava macacões, e as líderes de torcida gritavam e chacoalhavam pompons, improvisando coreografias – elas também tinham vencido a exibição, ganhando o primeiro lugar em originalidade e habilidade, uma conquista inédita. Futebol, basquete, vôlei e corrida – todos tinham superado seus próprios recordes e levado prestígio para a escola.
Provavelmente os professores cederiam aquela semana para os alunos descansarem dos treinos intensificados. Muitos visitavam os pais, para contar como tinham se saído, ou simplesmente ficavam no colégio, dormindo. Naruto não se importava muito se teria aula ou não – estava ansioso para voltar para casa e mostrar o troféu para sua mãe. Naqueles momentos, era Sasuke quem se responsabilizava para não deixá-lo matar aulas e perder mais frequência. Por isso, a vista grossa e a folga mais que merecida era muito bem-vinda.
O loiro encontrou Ino e outra garota, depois de andar um pouco. As cumprimentou, inclinando para poderem conversar, apesar do barulho da música.
— Parabéns, Naruto! – a loira atirou-se em seu pescoço, dependurando-se – Aquela luta foi espetacular! Eu fiquei ansiosa o tempo todo. – exclamou, balançando sua caneca, e Naruto não sabia se ela já estava alta ou se aquele era só seu jeito de sempre. De qualquer maneira, sorriu.
— Obrigado. Foi uma disputa complicada, todos os garotos foram muito bem. – levou a mão até a nuca, coçando, sem graça, e as garotas riram – Escuta, Ino, você viu a Sakura? – não se preocupou em parecer suspeito, porque ele realmente a estava procurando.
— Da última vez que eu vi, ela tinha saído um pouco com aqueles papéis que ela vive carregando. – rolou os olhos, e Naruto riu, agradecendo.
Ele embrenhou-se entre as pessoas, tomando cuidado para não trombar em ninguém ou se deixar ser atingido por adolescentes bêbados. Avistou o grande portão, escancarado, e pessoas entrando e saindo desordenadamente. Alcançou a saída, escapando do fluxo de movimento, e respirou fundo, o ar da noite gelando seu nariz. No canto escuro, algumas pessoas se atracavam de maneira nada discreta, e Naruto desviu, com uma careta. Não encontrou Sakura, entretanto, seus olhos fixaram em uma mureta, um pouco mais à esquerda, e ele sorriu.
Hinata estava encostada despreocupadamente, enrolando uma mecha no dedo. Parecia esperar alguém, provavelmente Sakura, e usava o mesmo vestido da outra noite, com o maiô por baixo. Havia dois copos do seu lado, e ela estava sozinha. Naruto se aproximou sorrateiramente, olhando para os lados, vendo se alguém prestava atenção nele, e, passo ante passo, chegou perto o suficiente para puxá-la pela cintura, desencostando-a. Com um grito, Hinata se assustou, desequilibrando e apoiando contra os ombros do Namikaze, que gargalhava.
— Está louco!? Quer me matar de susto? – reclamou, batendo em seu braço, embora também exibisse um sorriso menor – E se alguém te ver? – disse, dessa vez mais baixo, com o ar preocupado, mas Naruto deu de ombros, afrouxando o aperto e transformando-o em um abraço.
— Não tem problema, está todo mundo na festa. – se curvou, beijando o canto de sua boca, e vendo-a, satisfeito, corar – Fiquei com saudade.
— Sakura disse que foi uma ótima luta. – desconversou, alisando seu quimono, passando os dedos levemente pela abertura. Naruto sentiu alguns arrepios agradáveis – E que você apontou para a arquibancada. – completou, alargando o sorriso, e Naruto suspirou internamente.
— Eu disse que dedicaria para você. – gabou-se, e Hinata rolou os olhos, rindo baixo.
— Você é inacreditável. – murmurou. Ficaram alguns minutos em silêncio, aproveitando a presença um do outro, enquanto a música continuava, ali perto. Naruto resolveu falar, prestando atenção em cada detalhe das reações do rosto da morena.
— O que você pretende fazer essa semana? Vai voltar para casa? – acariciou seu braço, sentindo-o arrepiar sob seus dedos.
— Não sei. – ela franziu a testa, pensativa – Sakura me falou sobre essa folga que os professores nos dão, mas provavelmente vou passar um ou dois dias com a minha mãe e voltar. Nossa casa fica pequena quando eu vou para lá, e ela sempre para de fazer os doces para me dar atenção. – riu sozinha, e Naruto sentiu um pequeno peso na consciência, que foi, quase instantaneamente, substituído por um estalo.
— Então vem comigo. – era simples, e era genial. Hinata, por outro lado, arregalou os olhos, balançando a cabeça furiosamente, sem deixá-lo continuar. Naruto suspirou, sentindo-se subitamente animado – Eu estou falando sério! Quero te apresentar a minha mãe! – insistiu, e aquela frase foi o bastante para fazer fugir toda a cor do rosto da Hyuuga. Internamente, o garoto quis rir da maneira que ela parecia assustada.
— Agora que eu não vou mesmo! Como assim, conhecer sua mãe, você enlouqueceu? – Hinata guinchou, estridente, apertando a costura do quimono de Naruto, ansiosa.
— É uma boa ideia. – fez um biquinho – É algo oficial, não é? – ergueu uma sobrancelha, observando-a ficar vermelha de novo. Estavam próximos a uma luminária amarela que deixava tudo com uma cor mais brilhante – Quero que você conheça minha família. – ou a parte boa dela – Minha mãe iria adorar! E você já conheceu minha casa antes, nós podemos ficar na piscina, ou na sala de jogos, podemos cozinhar juntos. – listou, deixando o entusiasmo transparecer. Tinha pensado naquela ideia há poucos minutos, mas já lhe parecia perfeita. Sabia que Kushina, ao contrário do pai, seria totalmente a favor do relacionamento ainda não iniciado deles. Ficaria perto da mãe e de Hinata ao mesmo tempo, e longe de todos os outros. Não tinha como ser melhor. Hinata, no entanto, parecia relutante, e seria particularmente difícil convencê-la sem o artifício da cara de cachorro abandonado.
— Olha, Naruto, eu não sei. – ela soltou o ar – E se ela não gostar de mim? – completou, em voz baixa, mordendo os lábios, e Naruto quis muito beijá-los naquele momento.
— Isso seria impossível. – fez sua melhor voz galanteadora, e Hinata riu, um pouco nervosa – Eu tenho certeza que ela vai gostar de você tanto quanto eu. – gabou-se, levando uma das mãos até o rosto dela, acariciando desde o alto até o maxilar. Inconscientemente, Hinata deitou o rosto em sua direção, e Naruto conseguia ouvi-la ronronar. Em momentos como aquele, ele queria que o tempo simplesmente congelasse, na eternidade.
— Eu vou perguntar para a minha mãe se ela se importa, ok? – Naruto sabia que era o máximo que conseguiria, mas não ficou realmente preocupado.
— Concordo totalmente com isso. – respondeu, rápido – Se precisar, eu mesmo posso ir pedir. – completou, rindo sozinho se lembrando do quanto Hyuuga Hiromi conseguia ser persuasiva.
— Seria uma boa oportunidade para ela te conhecer também. – Hinata brincou, parecendo mais relaxada.
— Mas ela já me conhece.
— Conhece? – puta merda. Naruto agradeceu por Hinata não ver sua cara de total desespero naquele momento. Como ela podia ser tão burro? Ainda não tinha revelado aquela história ridícula de “Menma”, e também não pretendia fazê-lo exatamente naquele instante. Começou a suar frio, sentindo a garganta fechar.
— C-Claro q-que sim. – gaguejou estupidamente – Eu sou famoso, lembra? Uma celebridade. – desconversou, rindo mais alto do que precisava, e, por alguma espécie de milagre, Hinata pareceu acreditar, porque desfranziu as sobrancelhas, rindo baixo.
— Bom, ela gosta de assistir televisão e ler sobre pessoas famosas, então provavelmente te conhece também. – embarcou, descontraída, e Naruto suspirou tão aliviadamente que conseguia sentir todos os músculos relaxarem.
O Namikaze sabia que não poderia continuar com aquela farsa por muito mais tempo – não depois de se envolver tão profundamente com Hinata. Parecia que tinha inventado aquele personagem absurdo há muito tempo, em uma outra época. Era outra pessoa, com outros tipos de pensamento, embora percebesse que nunca tivera muitas chances para escapar daquilo – mesmo no primeiro momento, sentiu-se inevitavelmente atraído –.
Ouviram um barulho alto, e pularam, de sobressalto. Naruto grunhiu, mas Hinata parecia tristemente conformada. No entanto, o loiro não deixou de segurar seus dedos, mesmo com pela ponta, e ela o encarou, envergonhada. Aos poucos, algo dentro dele estava mudando – a vontade de tocá-la era maior que o medo de ser visto.
— Acho que você precisa ir. – ela murmurou, baixando os olhos, com um brilho curioso neles. Naruto se curvou, cobrindo a luz que vinha da lâmpada acima deles. Estava tão perto que conseguia identificar todos os traços que compunham seu rosto. A franja estava quase longa demais, caindo sobre as sobrancelhas, e alguns fios rebeldes escorriam para frente com o vento. Parecia envergonhada, mas seu sorriso era tão lindo.
— Eu vou, mas eu volto. – sussurrou, e sentiu ela arrepiar em seus braços.
Se aproximou lentamente, deixando claro todos seus movimentos, e, quando ela fechou as pálpebras, não hesitou mais. Colou seus lábios, sem pressa, aproveitando o gosto doce. Era singelo, e acanhado, mas era real, mais real do que qualquer outra coisa que já tinha experimentado, e por isso ele sentia todos os nervos do seu corpo respondendo àquele toque. Não se estendeu, embora o quisesse muito – em partes por Hinata, para que não se constrangesse –, e se afastou, sorrindo. Acariciou seu rosto, enquanto ela abria os olhos, ligeiramente ofegante. Talvez nunca se acostumasse, assim como ele.
— Nos vemos mais tarde. – soprou, antes de soltar sua cintura, e ela deixar a barra da roupa.
Enquanto se afastava, sentiu falta do calor que o corpo de Hinata emanava contra o seu, e suspirou, sozinho. Olhou para trás, e viu, de longe, Sakura voltar, descendo os degraus com rapidez. Mesmo de relance, sua silhueta era realmente harmoniosa, com curvas iluminadas pelos postes que apenas não faziam jus à sua beleza. Era um saco ficar apaixonado – chutou uma pedrinha, rabugento. Não estava com ânimo para voltar à festa, que, com certeza, se estenderia noite a dentro. Deu algumas voltas pelo campus, tropeçando nas partes escuras e se mastigando lembranças que cada um daqueles lugares lhe trazia. Não eram todas boas, mas eram memoráveis. De um outro Naruto.
Acabou se vendo no corredor dos dormitórios, e não fez objeção. Em outros tempos, ficaria festejando com o time, ou, se estivesse muito entediado, levaria Shion para seu quarto. Agora, tudo que desejava era um bom banho quente e dormir até mais tarde. No cômodo, chutou algumas roupas jogadas, mais suas que de Sasuke – eram todas suas, na verdade –. Despiu-se, largando o uniforme em uma pilha generosa do lado dos seus materiais de estudo intocados, e foi direto para o banheiro, acendendo a luz do corredor. O quarto todo se iluminou, e estava muito silencioso. A água do chuveiro estava bem quente, e, relaxado, Naruto pôde pensar com calma em tudo que tinha acontecido naquele fim de semana.
Era assustador, mas também era muito bom. De fato, chegou rapidamente à conclusão de que não estava com medo de apresentar Hinata para sua mãe ou para Nagato – nada poderia ser pior que o fiasco que era a relação deles com a capitã das líderes de torcida. Mesmo que tivesse sido obrigado a apresentá-la para ser sua acompanhante nos eventos de gala da empresa, Kushina nunca escondera seu desgosto pela loira, não economizando críticas e indiretas indiscretas nos jantares beneficentes.
Porém, ele também sabia que seria diferente, desde o começo. Hinata tinha uma personalidade iluminada, completamente diferente de Shion, que só pensava em si mesma e em seus benefícios. Hinata era engraçada, inteligente, educada, graciosa, interessante. Bastava alguns minutos de conversa para que caíssem em seu encanto. Ela lembrava muito a própria Uzumaki, que sabia ser deslumbrante, e sabia transparecer sua verdadeira força de determinação.
Quando o vapor começou a escorrer, Naruto percebeu que estava enrugando, e saiu do banho, secando-se no box. Amarrou a toalha, voltando para o quarto, e Sasuke ainda não tinha voltado. Estranhou, olhando para o relógio em cima do quadro de avisos. Já era tarde da madrugada, e o Uchiha não tinha costume de ser tão festivo. Deu de ombros – depois eles conversariam. Estava exausto. Colocou uma bermuda e se jogou na cama, gemendo satisfatoriamente quando afundou no colchão macio. Não demorou para dormir, e sabia que estava com um sorriso estúpido no rosto.
A segunda-feira amanheceu curiosamente silenciosa. Quando deu oito horas, não havia alunos correndo pelos corredores, atrasados, e nem armários batendo para todos os lados. O refeitório estava aberto, assim como os portões principais, mas ninguém acordou para tomar café da manhã, tampouco para ir embora. Os secundaristas mantiveram a festa até o amanhecer*, e os veteranos também os acompanharam. Alguns primeiranistas foram convidados, e era um convite aberto – a quem recusou, foi-se avisado sobre o acordo coletivo entre os professores, de modo que, naquela segunda, ninguém colocou despertadores.
Por outro lado, Naruto acordou surpreendentemente cedo, mesmo para ele. Despertou sozinho, com a claridade, e, mesmo não tendo dormido tanto quanto gostaria, sentia-se descansado. Sasuke estava deitado com o cobertor sobre ele, e não dava sinais que acordaria tão cedo. O Namikaze conferiu o celular, vendo as horas e algumas mensagens. Não estava tão cedo para arrumar sua bolsa. Admitia que estava ansioso, e não aguentaria até a hora do almoço para passar no dormitório de Hinata.
Organizou tudo que precisava e se trocou, colocando uma calça confortável e velha o suficiente, jogando o cabelo bagunçado para trás. Não acordou o amigo, saindo em silêncio. O corredor dos dormitórios masculinos estava tão deserto quanto ele imaginava, o que facilitou sua saída sem maiores explicações. Subiu as escadas para o corredor feminino, já sentindo as mãos suarem. Caminhou até o quarto, respirando fundo antes de dar duas batidas. Surpreendeu-se quando foi quase que prontamente atendido por uma Sakura mal-humorada. A garota ainda usava pijamas e tinha o cabelo bagunçado. Naruto fingiu um susto, e ela lhe deu um olhar mortal.
— Vocês dois me irritam. – resmungou, abrindo mais a porta para dar passagem.
Naruto, contudo, não precisou entrar. Hinata já estava de prontidão, com uma bolsa a tiracolo, parecendo inquieta. Usava uma calça jeans – e o garoto teve o prazer de ver suas pernas torneadas no tecido pela primeira vez – e uma camiseta sem botões, de lavagem clara, que acentuava o decote, mas não propositalmente. Como sempre, o cabelo estava impecavelmente arrumado, e sua boca brilhava, fazendo-o pensar se era gloss labial ou umidade natural.
— Vai, sumam daqui e me deixem dormir. – Sakura proferiu antes de se jogar na cama de baixo do beliche, sem se importar. Hinata riu baixo, pegando a bolsa e esticando o bastão, tateando até a porta, e Naruto se afastou para ela não trombar.
— Ignora, ela chegou bem tarde da festa. – a Hyuuga confidenciou, em tom de riso, e Naruto revirou os olhos, já conhecendo o humor matinal da Haruno.
— Sempre agradável. – replicou – Tchau, Sakura! – falou, mais alto, ouvindo resmungos que pareciam palavrões. O casal riu, e Naruto fechou a porta, ajudando Hinata com a mochila. Estendeu o braço, enganchando no dela, e ela o fitou, surpresa, mas sem dizer nada – Então, qual o nosso itinerário? – perguntou despreocupado, dando a entender que ele iria onde ela fosse, de qualquer maneira. A garota franziu a sobrancelha para ele.
— Direto para sua casa. – Naruto a viu estremecer – Já falei com a minha mãe. Prefiro poupar o constrangimento dela te encher de perguntas. – explicou, e o loiro agradeceu internamente, porque realmente não queria ter de explicar para Hiromi que a história de dupla identidade ainda existia.
— Perfeito, então. Chegaremos para o almoço. – inflou o peito com uma espécie de orgulho, mas Hinata não parecia tão animada – Ei, fica tranquila. – ele apertou seu braço mais forte, tentando passar segurança – Eu prometo que se minha mãe começar a te envergonhar, nós escapulimos de lá. – tentou fazer piada, mas arrancou apenas uma risada nervosa.
— Não é isso que me preocupa. – ainda sorria roboticamente, mas depois desmanchou, suspirando – Nunca me envolvi tanto com alguém. – explicou, e Naruto não precisou dizer mais nada.
Ele entendia como ela se sentia, porque também estava assustado. Era um compromisso muito sério, mas não era como se sentisse medo dos próprios sentimentos – não era a pessoa mais altruísta ou sincera, admitia, mas não naquele sentido. Estava cem por cento certo do que estava fazendo, e queria aquilo. Oficializar, pelo menos, por uma perspectiva. Talvez tornasse as coisas mais fáceis. Não se tratava mais da deficiência, não para ele. Era ridículo – também ele era –. A única coisa que ainda o preocupava, infelizmente, era a opinião alheia. E estava trabalhando aquilo.
Olhou para Hinata, reforçando tudo em que acreditava. A maneira que o sol da manhã refletia em seu cabelo era absurdamente bonita. Seus traços eram desenhados de uma forma que ele não acreditava ser possível, como se uma garota não pudesse ser linda daquele jeito – nem mesmo Shion tinha tais características, e Naruto a achava a garota mais bonita que já conhecera –. Não tinha mais volta.
— Se quer saber, eu também não. – contou, com a voz baixa, como um segredo, e ela se virou, aparentando surpresa – Instintos e sentimentos são coisas diferentes para mim. E você mexe com os dois. – falou, tão abertamente que Hinata corou, envergonhada. Não sabia lidar quando ele começava a falar sobre aquelas coisas, sem pudor.
— Vamos logo. – respondeu, apenas, com um múrmuro.
Naruto assentiu, satisfeito, a guiando pela escadaria até o estacionamento, no subsolo. Havia poucas máquinas, e a sua era, de longe, a mais chamativa. Há tempos não dirigia aquele carro, mas a sensação seria sempre libertadora. Desarmou, abrindo o porta-malas para colocar sua bolsa e a da garota. Hinata esperou, e ele abriu a porta para ela, levando-a para se sentar sem trombar em nada. Passou o cinto de segurança, deixando um beijo rápido, e riu quando ela exclamou. Gostava das reações espontâneas.
Deu a volta, a essa altura, absolutamente extasiado. A vitória do dia anterior, somada ao que parecia ser um dia muito promissor, deixava-o feliz. Ligou o carro, manobrando para fora, e o sol atingiu seu rosto, quase ao pino. Ligou o rádio em uma estação local qualquer, tocando uma música que não conhecia, mas Hinata começou a balançar os ombros no ritmo. Quando já estavam na rodovia, ele segurou sua mão, como deveria ser, e ela, mais à vontade, até mesmo retribuiu o aperto. O caminho era extenso, mas a balsa levava pouco menos de cinco minutos para fazer a travessia. Entraram no bairro antes das dez e meia.
A medida que deixavam a cidade e a residência Namikaze se erguia, imponente, o estômago de Naruto revirava, e gotículas de suor frio escorriam por sua nuca. Ao seu lado, Hinata não parecia muito melhor, a cara séria de quem estava prestes a desmaiar.
— Estamos chegando. – apertou sua mão suavemente antes de soltá-la, para manobrar. Subiu a pequena ladeira, parando no portão e sendo identificado. O portão de ferro se abriu, e não tinha mais volta.
Naruto estacionou na frente da entrada principal. Soltou-se do cinto e se apressou para ajudar Hinata a descer. Sua feição era neutra, e, naqueles momentos, odiava não saber o que se passava em sua cabeça. Pegou suas bolsas, mas, antes que pudesse jogá-las no ombro, ouviu a porta se abrir abruptamente, e um furacão ruivo saiu dela.
— Filho! – Kushina gritou, com um sorriso contagiante, e Naruto a imitou – Eu estava te esperando! – desceu as escadas com pressa, e o loiro teve de deixar seu posto, indo abraçá-la. Se afundou naquele abraço caloroso, sentindo o perfume doce invadir seu nariz. Mas ainda era o cheiro da sua mãe. Ela o afastou um pouco, o suficiente para que ele visse seu rosto, iluminado, com os olhos grandes e azuis mirando-o.
— Como sabia que eu viria? – perguntou, rindo.
— Você é meu filho, te conhecer é o mínimo. – ela rolou os olhos, uma mania familiar – Ontem foi aquela sua luta importante, você sempre volta para casa. – informou, e Naruto sempre se surpreendia com a capacidade da mãe de ler suas reações – Temos boas notícias? – arriscou, e o loiro fez sua melhor cara presunçosa.
— Eu sou seu filho, dona Kushina. É claro que eu venci. – Kushina deu um gritinho, abraçando-o mais uma vez, apertado.
— Esse é meu garoto! – gabou-se. Porém, não demorou até que seu rosto voltasse para a garota, parada ao lado do carro, e o olhar eufórico converteu-se em curiosidade – Temos visita?
— Mãe, – Naruto desvencilhou do abraço, andando, quase correndo, até Hinata. Ela o esperou, ansiosa, e estendeu sua mão para que ele a alcançasse. O loiro entrelaçou seus dedos, com a outra mão em seus ombros, andando devagar, revezando seu olhar do chão para a mãe – essa é a Hinata. É uma pessoa muito especial.
Naruto não desgrudou o olhar do rosto de Kushina, vendo muitos sentimentos cruzarem ele. Confusão, entendimento, surpresa, concentração. Nenhum parecia negativo. As orbes azuis, como as dele, foram do filho para a garota, para seu rosto e para suas mãos dadas. E, quando Naruto menos esperava, ela abriu um sorriso largo, indo até eles.
— Hinata, é um prazer! – parou em frente a eles – Meu nome é Kushina! Vem, vamos entrar. Quero saber tudo sobre você. – ela tocou seu braço, falando com seu tom maternal, e o casal soltou a respiração, aliviados.
Naruto observou sua mãe puxar Hinata para sua direção, ajudando-a nas escadas, e, naquele momento, seu peito se aqueceu. Tudo estava bem.
Longe dali, fora dos limites da cidade, um grande prédio comercial se estendia, um verdadeiro arranha-céu moderno, com vidros espelhados e entrada decorada. Tinha muitos andares, cada qual com sua especialidade, e, no topo do mundo, o CEO bem-sucedido daquele império, que mantinha sua sede ali, mas governava com inúmeros filiais pelo país e fora dele. Em sua sala de cinquenta metros quadrados e móveis planejados, Minato se irritava, lendo relatórios entediantes de pessoas incompetentes que trabalhavam para ele. Naquele momento, gostaria de estar em sua sala da capital, assinando contratos milionários de empresários que confiavam em seu tato especial para ações. Em vez disso, tentava entender um acordo mal elaborado de um de seus sócios.
Ajeitou-se na cadeira de couro, esticando o pescoço. Suspirou, largando a pasta. Teria de refazer o trabalho, e aquilo o irritava profundamente. Virou-se para a janela, observando a vista sem graça daquela cidade pacata. Sua sala, por outro lado, compensava a paisagem desinteressante, provando que sua esposa fora a decisão mais acertada que já fizera.
O telefone chamou sua atenção, tocando, estridente.
— O que foi, Izumi? – atendeu, impaciente – Já lhe disse para não me interromper quando estiver em minha sala.
— Mas, senhor, — a pobre secretária respondeu, gaguejante – Hyuuga Hiashi está aqui.
Minato engasgou, quase caindo da cadeira. Espalmou as mãos na mesa, tossindo furiosamente, enquanto tentava se recuperar. Sua secretária não se atreveria a fazer uma brincadeira de tão mal gosto, então possivelmente falava a verdade. O magnata Hyuuga Hiashi vivia em Tóquio, guiando o que foi considerada a empresa mais promissora do ano passado, subindo na bolsa internacional incontáveis vezes. Embora trabalhasse com diversos ramos, era conhecida pelas jogadas acertivas no seguimento imobiliário. Minato tentara fechar acordo inúmeras vezes, mas suas ideias nunca agradavam o sempre difícil Hiashi. O que tinha levado-o a sair de Tóquio e ir visitá-lo em sua sede, naquele fim de mundo?
— Mande-o entrar imediatamente!
Levantou-se, aprumando a postura e alisando seu terno. A porta se abriu, e o próprio entrou. Minato disfarçou o choque, enquanto se apressava para cumprimentá-lo. Ele vinha com uma pasta de couro e os costumeiros trajes empresariais, apesar de seu rosto parecer mais sério que antes. Apertaram as mãos firmemente, e o Namikaze puxou a cadeira para que ele se sentasse.
— Hiashi, que surpresa agradável. – começou, cordial, tratando-o pelo primeiro nome – A que devo a visita tão repentina? Se tivesse agendado, teria ido pessoalmente para Tóquio. – se apressou, e o homem balançou a cabeça, dispensando o tratamento.
— Deixe disso, Minato. Precisei vir por conta de negócios urgentes, e para termos uma conversa. – sua voz trovejou pela sala.
— Pois bem, diga. Estou a seu dispor. Precisa de algo?
— Na verdade, vim para verificar a possibilidade de agendar uma reunião oficial entre nossos acionistas. – Minato tentou dissimular o engasgo com uma tosse discreta – Estou disposto a assinar um contrato com você.
— O que o fez mudar de ideia? – perguntou, antes de qualquer coisa, encarando-o com puro escárnio*. Hiashi o fitou com um brilho diferente, irreconhecível.
— Decidi que precisamos fortalecer mais nossos laços, devido as atuais circunstâncias.
— Desculpe, não compreendo o que diz.
— Ora, Minato, nossos filhos estão tendo um relacionamento, acho que é um bom motivo para repensar uma sociedade.
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