Notas iniciais
MIL PERDÕES PELA DEMORA! Entre faculdade, trabalho e um pequeno bloqueio criativo, demorei mais que queria para terminar esse capítulo. Muito obrigado pelos comentários e por todo o apoio!

— Para ver muita coisa é preciso despregar os olhos de si mesmo.

Ao se levantar, Naruto sentiu como se não dormisse há dias. Seu corpo estava demasiado lento, e ele tropeçou algumas vezes antes de assumir o controle sobre suas funções motoras. Apesar disso, o que mais lhe incomodava era sua cabeça. Estava pesada, e latejava um pouco sob as têmporas. Com grunhidos, caminhou até o armário de remédios antes de tomar banho, procurando alguma aspirina.

Parecia óbvio que o que Sakura havia dito na noite anterior não sairia tão fácil de seus pensamentos. De fato, havia passado parte da madrugada em claro, refletindo, sem conseguir chegar em uma resposta objetivo. Parecia simples, como uma soma matemática fácil demais. Ele se afastaria, acabaria com aquela farsa. Ela era apenas mais uma garota, não faria a menor diferença em sua vida. Ele poderia ter quem quisesse, quando quisesse. Havia Shion, para suprir suas noites de carência e necessidade. Definitivamente, ele não precisava de uma garota cega e tagarela.

No entanto, de alguma maneira extremamente fodida, ele recusava-se a fazer da maneira mais descomplicada. Ele, deliberadamente, pendia à escolha que tornaria sua vida um pequeno inferno, tudo porque ele apenas não estava em seu juízo perfeito. Não poderia estar.

Naruto não queria se afastar. Franco e rudimentar, cristalino como água. Ele havia decidido, em poucos segundos, que deixar para lá estava fora de cogitação. Essa fora a parte simples, na verdade. O que ocupara sua cabeça de uma maneira particularmente irritante eram todas as consequências que ele teria que lidar, apenas por ser teimoso.

Sakura fora eloquente quanto ao seu posicionamento – e Naruto tinha que admitir que a garota poderia ser uma perfeita pé no saco quando queria. Ter de lidar com o constante mau humor, os olhares atravessados e cara emburrada estava além das capacidades do Namikaze. Além do que, Sakura poderia – ela era altruísta demais para fazê-lo, mas era uma possibilidade consideravelmente preocupante – ameaçá-lo, contar para Sasuke, para seus outros amigos, ou, de uma maneira mais amplamente preocupante, para a escola toda. Ser presidente do conselho estudantil certamente lhe renderia alguma credibilidade, e Naruto seria queimado. Ele ainda tinha um ano e meio, pelo menos, para se manter.

Não era como se ele quisesse se importar com sua estúpida imagem, mas era mais forte que ele. Ele era filho de quem era, afinal, e estava no seu sangue. Ser legal com todos, ter o maior círculo social possível, ter popularidade, ser conhecido, ser invejado, era para o que ele havia nascido. Cada correnteza em sua vida o empurrava para o topo, para cumprir o papel ao qual havia sido designado. Ele inspirava confiança e atitudes, e as pessoas esperavam coisas dele. Um passo em falso e tudo que havia conseguido iria por água abaixo. As pessoas eram como atores, interpretando um personagem em um determinado contexto. No final, o que as fazia respeitá-lo era apenas o medo. Porque, querendo ou não, Naruto era a lei.

Ignorando toda a questão maior de reputação – como se não fosse algo de importância suficiente –, havia um segundo fator. Naruto simplesmente não sabia como se comportar perto dela. Parecia estúpido, sim, mas ele estava acostumado a usar a boca de outras maneiras. Conversar era algo que ele estava desacostumado. Falar com uma garota, assuntos banais, casuais, opiniões próprias, era assustador demais. Ele conquistava apenas com olhares, com sua presença, com sua aparência. Lidar com alguém que não via – consequentemente, alguém que não cairia no charme dos olhos azuis e do cabelo louro brilhante – parecia estar acima de suas capacidades.

Era como um desafio, e Naruto gostava de desafios.

Sasuke ainda estava dormindo quando o garoto voltou, devidamente acordado e vestido. Sentiu-se culpado por esconder algo do melhor amigo. Sasuke não julgava as pessoas. Ele ficava na dele, observando, e, quando necessário, seus conselhos eram os melhores que alguém poderia seguir. Sasuke compreenderia, mas Naruto também tinha medo. E, por enquanto, manteria em segredo – ou tão em segredo quanto poderia, uma vez que Sakura não facilitaria para ele.

Suspirou, saindo do dormitório e cumprimentando alguns de seus colegas de time. Era uma consolação saber haveria treino mais tarde. Estava precisando descontar toda sua frustração e confusão em algo maciço e que, de preferência, não falasse. Caminhava com passos arrastados, se perguntando se sua obaa-chan ficaria muito irritada caso matasse aula. Havia virado para o corredor central quando avistou uma figura familiar. Seus instintos se ativaram, e ele sentiu-se atento. O corredor estava deserto, com alguns passos longe, rumo ao refeitório. Aquela parecia a chance perfeita. Engoliu em seco, se opondo a cada célula em seu corpo que afirmava que ele se arrependeria depois, e iniciou uma pequena corrida.

— Hinata!

A garota se virou, o coração subitamente acelerado. Por uma fração de milésimo pensou ser Sakura, que permanecera dormindo quando a garota saiu, mas ela conheceria aquela voz em qualquer lugar. Maldita seja, como ela conhecia. Em um ato involuntário, levou as mãos até o cabelo, assentando-o. Puxou a camiseta para baixo, tentando disfarçar algum possível amassado, e depois suspirou, por sentir-se patética. Seu rosto esquentou, enquanto ela se controlava para respirar compassadamente.

Sakura voltara um tanto perturbada na noite anterior, indo dormir sem falar nada, e Hinata preferiu não insistir, embora quisesse saber a opinião da amiga quanto ao que fazer. Ela pensara tempo demais em Menma, se tornaria a encontrá-lo, ou se estava criando expectativas demais em algo que simplesmente não poderia acontecer. Acordara mais cansada que o habitual, por ter tido um sono agitado. Sentia que aquele seria um dia onde as coisas simplesmente não pareceriam no lugar, e estava rezando para que passasse logo, ou, pelo menos, para que chegasse a tarde logo, e ela pudesse se isolar na água.

Mas, superando toda e qualquer viabilidade que pudesse ter, ela ouviu ele a chamando, em pleno corredor. Era como... era quase como um milagre. Pelo menos, daquela maneira, descartava-se a teoria de que tudo não passara de uma ilusão criada pela mente perturbada da garota.

Naruto se aproximou, policiando-se quanto ao tom de voz e a maneira que agia. Não poderia por tudo a perder. Não daquele jeito. E, ao mesmo tempo, olhava para os lados, ansioso, vigiando se alguém se aproximava. Teria que ser rápido. No entanto, ao voltar os olhos para a garota, perdeu-se ligeiramente no brilho pérola de suas íris, e a maneira que elas contrastavam com a pele pálida. Ela era tão branca! Mas o rosto era rosado, como uma vergonha constante. Seu uniforme parecia um tanto quanto mais velho, mas seus sapatos estavam cuidadosamente limpos. De alguma maneira, Naruto sentia a necessidade de protegê-la.

Só podia estar enlouquecendo.

— Er, bom dia. – levou a mão até o pescoço, nervoso. A garota sorriu, e então ele percebeu que ela não poderia ver seu nervosismo. Relaxou.

— Bom dia, Menma! – Hinata controlava-se para não parecer feliz demais, ou patética demais – Estava indo para o refeitório? – perguntou.

— Bem, estava. – respondeu, bufando internamente para controlar a gagueira (ele nunca tinha sido gago, o quão idiota era aquilo?).

— Ah, então podemos ir juntos! – Hinata disse, subitamente animada, e Naruto congelou.

— Não! – exclamou rápido demais, e seu coração afundou um pouco ao ver a expressão decepcionada que a garota tentou disfarçar. Engoliu em seco, respirando fundo – Quero dizer, não posso. Estou... hã, esperando um amigo. – ele poderia se afundar em algum buraco naquele exato momento. Hinata assentiu, parecendo compreensiva, e, mesmo querendo achá-la realmente imbecil por acreditar naquela desculpa, tudo que conseguiu fazer foi sorrir por ela ser tão condescendente – Na verdade, eu gostaria de perguntar se você está livre a tarde. Sabe, para conversar um pouco, andar por aí. – mordeu a língua, temendo ter dito demais. Também não saberia dizer da onde havia tirado a ideia genial de convidá-la para conversar, mas havia parecido apenas natural no momento. Naruto a viu abrir um enorme – e lindo – sorriso, logo antes de murchá-lo, um tanto triste.

— Não posso. Eu... – ela mordeu a língua, pensando se deveria ou não dizer. De qualquer modo, Menma já havia visto-a nadar fora do horário, e não dissera a ninguém – Eu vou treinar. Na piscina, depois que os treinos acabarem. – admitiu, com um tom baixo quase como se estivesse confessando que cometeria um assassinato. Naruto sorriu, achando aquilo absurdamente adorável.

— Eu conheço o líder da equipe. – comentou, e Hinata o fitou, confusa – Você poderia ir falar com ele para entrar no time. Você é boa, ele, com certeza, aceitará. – falou sincero, e Hinata sentiu-se estremecer de animação. Nadar pelo time seria incrível! No entanto, ainda estava um pouco receosa, pelas pessoas, ao verem sua deficiência, ignorarem suas habilidades. Naruto percebeu sua hesitação e tocou seu ombro, sem pensar muito. No momento em que encostou sua mão, um choque percorreu a ambos.

Hinata entreabriu a boca, disfarçando a vermelhidão que se alastrava. Sentia o peso e a temperatura sobre seu ombro, subindo pela curvatura de seu pescoço, sob o tecido. Era grande e firme, mas calejada. Naruto, por outro lado, reprimiu um arfar, sentindo como se tocasse uma pétala, de tão delicada. Mesmo com o uniforme, a pele parecia macia e sem manchas. Ele queria ver mais, tocar mais.

— Não se preocupe com nada. Ele é um excelente capitão, e não vai se importar com mais nada além do quão incrível você pode ser nadando. – encarava firmemente aqueles olhos e, mesmo sabendo que ela não encarava de volta, o sorriso que se seguiu iluminava todo seu rosto. Ela assentiu minimamente, e Naruto retribuiu o sorriso – Nos vemos depois do treino então. – retirou a mão, e ambos sentiram falta do contato. Naruto estava prestes a dizer mais alguma coisa quando avistou uma cabeleira rósea em sua direção, e engoliu em seco – E-eu tenho que ir. Até mais. – disparou na direção contrária, e Hinata apenas abriu a boca, confusa, mas exultante demais para pensar em qualquer outra coisa que não fosse aquele momento que acabara de acontecer.

Sakura se aproximou da amiga com – literais – fogo nos olhos. Seu rosto se compactava em uma máscara azeda, encarando a figura que virava o corredor rapidamente. Vira, de longe, o contato não tão íntimo que estavam tendo, e só conseguia pensar nas diversas maneiras de torturar e matar Naruto. No entanto, quando se aproximou e fitou o olhar deslumbrado de Hinata, sentiu-se culpada. Queria incentivar a amiga, ajudá-la, fazer dar certo – mas ela também conhecia o amigo que tinha. Estava apenas protegendo-a de um possível coração partido.

— O que ele queria? – tentou controlar a raiva na voz, e Hinata pareceu não notar, ainda distraída demais para qualquer coisa.

— Bom dia, Sakura! – cumprimentou-a – Ele veio me chamar para conversar mais tarde. E me deu alguns conselhos. – não pode evitar quando corou, e Sakura teve vontade de segurá-la e guardá-la em uma gaveta, longe do mundo cruel. Suspirou, resignada. Hinata estava mesmo gostando daquele traste, então ela nada poderia fazer.

— Bom, espero que dê certo então. – o tom azedo passou, novamente, despercebido, e ambas seguiram juntas para o refeitório.

Era um dos poucos dias frescos do mês. O tempo gélido havia dado uma trégua, e era possível ver pessoas de regata e bermudas, caminhando pelos jardins e aproveitando os raros raios de sol, que, embora fracos, eram mornos e confortáveis. O período da manhã tornou-se mais animado, e as aulas não se arrastaram como costumeiro. Embora Hinata gostasse de todas as matérias, sentia-se ansiosa, aguardando irriquieta pela dispensa. Como hábito, almoçaria com Ino e Tenten, uma vez que Sakura iria direto para a reunião do conselho, e as duas outras garotas também não se demorariam.

Hinata mal conseguiu comer. Mexeu em sua bandeja, sentindo que vomitaria de ansiedade a qualquer momento. Tentou conversar com as amigas e disfarçar, mas sabia que não era das melhores atrizes. Antes de seu encontro – ela poderia chamar assim? –, teria que enfrentar a equipe de natação, que, segundo ouvira das histórias, mantinha um histórico impecável de campeonatos e títulos.

Naruto conseguira, finalmente, tirar um bom cochilo. Dormira tranquilamente como há tempos não fazia. Em um outro momento, ficaria a par das matérias. Não era como se realmente fizesse muita diferença. Acordou de ótimo humor, sentindo-se revigorado. Ao perceber os raios solares, embora lânguidos, animou-se ainda mais, propondo um treinamento a campo aberto naquela tarde.

Seguiu Sasuke e os outros até sua habitual mesa, levando sua bandeja. Ao passar pelas laterais da mesa, avistou aquele rosto conhecido, voltado para baixo e com o semblante apreensivo. Diminuiu o passo, os olhos fixos nela, memorizando a maneira que a luz refletia em seu perfil. Somente Sasuke notou o pequeno deslize do amigo, mas nada disse. O resto prosseguiu, alheio a qualquer coisa. Naruto se repreendeu mentalmente ao se sentar.

— E então Naruto, boatos que a Sakura foi até seu dormitório ontem. Dava para ouvir ela te xingando de longe. – Gaara não perdeu a oportunidade de zoar o amigo, levantando uma série de algazarras – O que ela queria?

— Não interessa para vocês, palhaços. – resmungou, com a boca cheia, ignorando os uivos de risos e as provocações. Os garotos continuaram conversando entre si, energizados, mas apenas Shikamaru continuava quieto. Na verdade, o garoto parecia cochilar com os olhos abertos. Naruto o fitou, pensando um pouco antes de falar: – Shikamaru. Você já está fazendo testes para o time? – o mais velho o fitou, com as pálpebras pesadas e a faceta confusa.

— Estou. Você nunca foi interessado no time, por que isso agora? – indagou, erguendo uma sobrancelha, e Naruto o amaldiçoou por ser sempre tão sagaz.

— Nada. Só queria saber, para começar os testes no meu time também. – inventou uma desculpa qualquer, colocando um ponto final silencioso naquela questão. Ouviu o amigo resmungar um “problemático” antes de deitar sobre a mesa.

De uma maneira geral, o almoço prosseguiu sem maiores problemas. Quando Hinata se despediu das amigas, mal podia sentir suas pernas. Caminhava devagar em direção ao centro de esportes, pensando, pela vigésima vez, se era realmente uma ideia inteligente.

Ela era boa. Sabia disso. Ela era ótima. Sabia nadar, tinha técnicas e um ótimo tempo de giro. Fazia todos os revezamentos e nadava em qualquer modalidade. Mas, apesar disso, também conhecia as pessoas. Sabia que elas apontariam seu problema, sua deficiência, e não enxergariam todo seu talento. Mas ela precisava tentar. Nadar era o que a deixava feliz, e ela tinha potencial para dar a escola mais prêmios e medalhas.

Respirando fundo mais uma vez, caminhou, bateu seu bastão pelo chão já cimentado, fazendo o caminho que havia memorizado. Já conseguia ouvir as vozes, longínquas, animadas.

Shikamaru estava fazendo as recomendações quando toda a classe parou, subitamente, de falar. Cochichos se iniciaram, e ele fitou os colegas, novos e antigos, com uma leve irritação por não saber o que estava acontecendo. Não precisara muito, na verdade. Ele a viu entrar, em passos lentos, com a bengala e a mochila. Seus olhos inexpressivos, mas o rosto transbordava emoções claras. Ele a conhecia – ou, ao menos, conhecia o que todos conheciam sobre ela. Não era do tipo preconceituoso. Pessoalmente, Shikamaru evitava lidar com pessoas em geral, por serem complicadas demais. Ele estava apenas curioso para saber o que a trouxera até ali.

Hinata sabia que estavam falando sobre ela, quando as conversas subitamente se encerraram e pequenos zumbidos passaram a atingir seus ouvidos. Fofocas, indagações. Ela estava acostumada, afinal, com aquele tratamento. Inflou o peito, recusando-se a dar meia volta. Caminhou o suficiente até os bancos que sabia que ficavam do lado direito. Parou ao sentir o calor humano mais forte a sua volta, e puxou o bastão, encurtando-o. No entanto, permaneceu em silêncio, aguardando. Deveria haver dez ou quinze pessoas ali, pela quantidade de respirações e múrmuros.

— Posso ajudar? – era uma voz masculina, porém neutra. Hinata sentiu-se confiante. Ele não parecia repudiá-la, apenas soava diplomático.

— Eu gostaria de fazer um teste para entrar no time. – sua voz havia soado clara e ela não tinha gaguejado. Quase conseguiu sorrir.

A reação foi instantânea. Risos abafados, algumas exclamações – nada – sutis. Um ou outro mais debochado. Hinata respirou fundo, lutando contra a vontade de sair correndo. Ela tinha que enfrentar aquilo, pelo passado, e pelo futuro. Se ela queria provar seu valor, então teria que se acostumar com as pessoas duvidando dela.

Shikamaru, no entanto, surpreendeu-se com aquelas palavras. A garota tinha um porte magro, mas seu físico não era ruim. Evitando olhar certas partes – que chamavam muito sua atenção –, concluiu que, se ela queria entrar para o time, já sabia nadar. Com aquela altura, deveria ter boas pontuações de tempo. Era óbvio, não conseguiu deixar de pensar na deficiência. Nunca havia convivido com uma pessoa cega, e, por mais que tentasse dia após dia destruir estigmas e estereótipos que havia construído, sabia tanto quanto uma pessoa comum. Já vira a garota pelos corredores, com as amigas de Temari, e ela parecia desenvolvida. Andava com tranquilidade e confiança. De repente, lhe ocorreu que ela poderia ter vivido a vida toda com aquilo. Havia se acostumado, criado hábitos, e, então, sua rotina era igual à de qualquer pessoa. A única coisa que ele deveria avaliar eram suas habilidades na água. Ela havia chego até ali sozinha, não era da sua conta como ela se virava.

Fitou os colegas, irritadiço. Poucas coisas o tiravam do sério, mas ele realmente não gostava de chacotas. Repudiava Naruto pelas brincadeiras de mau gosto, e brigavam sempre que o garoto se manifestava. Era ridículo cultivar o pensamento de que era superior a alguém, quaisquer que fossem os motivos.

— Silêncio. – sua voz estava dura, e todos se calaram, assustados. Hinata engoliu em seco – Você pode fazer um teste, claro. Estávamos para começar. Sabe onde é o vestiário? – perguntou, e a garota assentiu rapidamente – Então pode ir se trocar e me encontre aqui. Se você for boa, está dentro.

Hinata quase desfaleceu de gratidão. Tornou a andar, rumo ao vestiário, deixando uma multidão de indignados para trás. Assim que ela desapareceu no corredor do banheiro, fez-se o caos, com todos falando ao mesmo tempo.

— Mas, capitão...!

— Vai deixar ela...

— Ela é cega!

— Não tem como ela...

— Isso é um absurdo...

— Cega!

— Quietos! – Shikamaru se vez ouvir, cruzando os braços e ressaltando a faixa amarela sobre seu bíceps esquerdo, indicando a liderança do time pelo segundo ano consecutivo. Todos se calaram, injuriados – Vocês são uma verdadeira decepção. – crispou os lábios, e os demais abaixaram a cabeça – Não me importa se ela é cega, surda ou alienígena. Aqui nós damos chances iguais para todos. — frisou a última palavra – Ela vai fazer o teste, e, se for boa, vai entrar para a equipe, e, como tal, vai ser tratada bem. Quem estiver insatisfeito, a saída é por ali. – apontou para o lado oposto, mas ninguém se manifestou. Todos sabiam da fama de Shikamaru, com um intelecto altíssimo, e, embora preguiçoso, era correto e justo.

Hinata voltou, trajando seu velho maiô, que ganhou de presente dos nadadores de sua antiga escola. Havia sido um presente de despedida, e, embora de segunda mão, era perfeito para praticar, e ela sentira-se muito grata. Percebeu que o clima havia mudado, e a hostilidade era quase imperceptível. Não percebeu, no entanto, nos olhares que caíram sobre ela. Alguns com desprezo, mas outros, porém, encaravam surpresos o decote e as curvas generosas ressalvadas pelo traje colado. Desviavam o olhar rapidamente, envergonhados.

— Muito bem, qual seu nome? – Shikamaru já sabia, mas gostava de cumprir as formalidades como qualquer outro novato.

— Hinata. Hyuuga Hinata. – respondeu, nervosa, deixando que Shikamaru a levasse até a raia central.

— Ok. Hyuuga, nosso teste consiste em nado livre. Você fará três voltas completas, enquanto marcamos seu tempo, na especialidade que desejar. – Hinata assentiu, prendendo o cabelo firmemente com um laço.

O restante do time se agrupou nas bordas, com expectativas. Shikamaru pegou o apito, e deu início ao teste. Hinata tomou posição e saltou, tomando um bom impulso inicial. O Nara assentiu, satisfeito, vendo que a garota tinha boa força e posicionamento. Hinata deslizou pela água, antes de começar com o nado tradicional. Embora preferisse o famigerado nado borboleta, em questão de rapidez o crawl era o mais eficiente. Subiu a superfície, respirando, e espalmando os braços a frente, enquanto trabalhava as pernas com agilidade.

Sentia-se revigorada. Na água, era ela e mais ninguém. Podia descontar toda sua frustração, podia ser ela mesma. Dar o máximo de si. A ponta de seus dados alcançaram a outra borda, e ela tomou impulso para girar, empurrando-se na direção contrária. Deslizava com facilidade, respirando algumas vezes, guiando-se pelo que já conhecia da piscina.

O restante encontrava-se atônito – inclusive o próprio Shikamaru. Olhar a garota nadando era simplesmente... deslumbrante. Ela destacava-se na água como um borrão, rápida e ágil. Era graciosa, mesmo se esforçando em um nado tão rudimentar. Era belo, de uma maneira assustadora. O capitão olhava o cronômetro, perturbado. Quando ela encostou da terceira volta, respirando fundo, ele cravou o dedo, os olhos saltados. Hinata não conseguia ver, mas todos a encaravam, perplexos. Ela dominava aquele território, parecia natural como respirar para ela. No aparelho, o melhor tempo já marcado, quase alcançando o recorde do próprio Shikamaru.

— E então? – Hinata perguntou, cheia de expectativas, puxando o cabelo para trás e apoiando na borda. O capitão engoliu em seco. Não havia necessidade de perguntar para o resto do time. Aquela garota era um monstro.

— Bem, parabéns. Você está no time.

Hinata abriu o maior dos sorrisos, sentindo seu peito explodir em mil fogos de artifício. Com ajuda, subiu à superfície, recebendo um aperto de mão do capitão e, em seguida, foi engolida pelos outros, recebendo tapas nas costas e congratulações animadas, sendo atacada por perguntas e elogios assombrados. Sentia como se ela mesma pudesse explodir naquele momento.

E, mesmo que não pudesse enxergar, via cores, e tudo era brilhante a sua volta.